Os quatorze artigos que formam este segundo volume contemplam a reflexão teórica e metodológica, seja a reflexão aplicada a um objeto, seja ainda a articulação entre uma e outra — e buscam responder as perguntas norteadoras, quais sejam:
1. Quais são as especificidades de cada abordagem? Que interfa possui com outras correntes e/ou disciplinas? Que objetos privilegia em suas pesquisas?
2. Que categorias, nas várias abordagens, têm-se mostrado mais produtivas na análise de discursos de diferentes gêneros, em domínios diversos?
3. Quais são as tendências mais recentes observadas em cada disciplina e quais são os ganhos (ou eventuais perdas) dessas "novas" tendências em relação às tendências anteriores? Com a coletânea de artigos apresentada neste segundo volume, esperamos ter complementado, de alguma forma, o volume anterior, dando ao leitor uma visão geral de algumas (outras) maneiras de se fazer "análise do discurso" hoje, nas universidades e centros de pesquisa do Brasil e do exterior.
ISBN 978.85.209.2 52 EDITORA NOVA FRONTEIRA
ANALISES
DO DISCURSO
VOIUMEZ ORGANIZADORESGlaucia Muniz Proença Lara Ida Lúcia Machado
Wander Emediato AUTORES Anne Hénault Antoine Auchlin Arnaldo Cortina Beth Brait Catherine Kerbrat-Orecchioni Christian Plantin Claude Chabrol
Denize Elena Garcia da Silva Diana Luz Pessoa de Barros Dylia Lysardo-Dias Emília Mendes
Helena Nagamine Brandão Ida Lúcia Machado
Janice Helena Chaves Marinho Mareei Burger
Maria Leda Pinto Viviane Ramalho
A diversidade de modelos teóricos no campo da Análise do Discurso, bem como sua aplicabilidade a distintos corpora apresentados nesta obra, apontam formas múltiplas de abordagem e leituras transversalizadas, o que revela um vastíssimo campo disciplinar em permanente movimento. Encontram-se aqui contempladas algumas de suas principais correntes, criticamente revistas e discutidas por autores e pesquisadores brasileiros e estrangeiros, com reconhecido transito acadêmico no cenário internacional, relativamente a suas áreas temáticas de especialidade.
A leitura de ANÁLISES DO DISCURSO HOJE - v. 2 desperta, dentre outros, alguns questionamentos bastante atuais, em termos dos desdobramentos futuros desse e de outros marcos teóricos. São eles: em que medida os campos disciplinares não-convencionais — inclui-se
aí a Análise do Discurso — promovem, de fato, os deslizamentos nas chamadas fronteiras do conhecimento para buscar os avanços pretendidos no domínio da ciência? possível lidar com as múltiplas dimensões da complexidade de fenômenos e objetos — no caso em tela, os discursos — sem transgredir os princípios metodológicos estabelecidos de maneira intradisciplinar ou até mesmo sem comprometer sua sustentabilidade teórica? Que tendências se identificam como predominantes na AD hoje e quais são as perspectivas desse campo teórico para dar conta das produções discursivas que circulam e se proliferam no mundo contemporâneo? Tanto a dialogicidade interna da obra como a sua projeção para outros textos e discursos permite desvelar esses questionamentos de uma forma inédita, profunda e, ao mesmo tempo, cuidadosa.
DO DISCURSO
VOLUMESORGANIZADORES
Glaucia Muniz Proença Lara Ida Lúcia Machado
Wander Emediato
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^^^^ AUTORES Anne Hénault Antoine Auchlin Arnaldo Cortina Beth Brait Catherine Kerbrat-Orecchioni Christian Plantin Claude ChabrolDenize Elena Garcia da Silva Diana Luz Pessoa de Barros Dylía Lysardo-Dias Emitia Mendes
Helena Nagamine Brandão Ida Lúcia Machado
Janice Helena Chaves Marinho Mareei Burger
Maria Leda Pinto Viviane Ramalho
© 2008, by Glaucia Muniz Proença Lara, Ida Lúcia Machado e Wander Emediato
Direitos de edição da obra em língua portuguesa no Brasil adquiridos pela EDITORA NOVA FRONTEIRA S.A. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser apropriada e estocada em sistema de banco de dados ou processo similar, em qualquer forma ou meio, seja eletrônico, de fotocópia, gravação etc., sem a permissão do detentor do copirraite.
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CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE
LIVROS. RJ
A551 Análises do discurso hoje, volume 2 / Glaucia v.2 Muniz Proença Lara, Ida Lúcia Machado,Wander Emediato (organizadores). - Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 2008. - (Lucerna)
Inclui bibliografia ISBN 978-85-209-2152-4
1 .Análise do discurso. 2. Linguagem e línguas. I. Lara, Glaucia Muniz Proença. II. Machado, Ida Lúcia. III. Emediato, Wander. IV Série.
CDD:401.41 CDU:81'42
SUMARIO
Prefácio 7 A argumentação biface 13
Christian Plantín (GNR.S - Universidade de Lyon II)
Semiótica e retórica: um diálogo produtivo 27
Diana Luz Pessoa de Barres (USP/UPM/LEI)
Os livros mais vendidos: uma proposta de reconstitui cão
do ethos do leitor brasileiro contemporâneo 41
Arnaldo Cortina (FCL-UNESP/CAr)
Dizer (e não dizer) Yves Bonnefoy 69
Anne Hénault (Universidade de Paris IV — Sorbonne)
Uzalunu: Análise do Discurso e ensino de língua materna 83 Antoine Auchlin (Universidade de Genebra)
Mareei Burger (Universidade de Lausanne)
Memória, linguagens, construção de sentidos 115
Beth Brait (PUC-SP/USP/CNPq)
Discurso e metáfora na fala do homem pantaneiro:
uma construção identitária 133
Helena Nagamine Brandão (USP) Maria Leda Pinto (UEMS)
Análises do discurso hoje
Analise discursiva da parodização dos provérbios
na mídia impressa 157
Dylia Lysardo-Dias (UFSJ)
As palavras de uma Análise do Discurso 177 Ida Lúcia Machado (UFMG)
Por um remodelamento das abordagens dos efeitos de real,
efeitos de ficção e efeitos de gênero 199
Emília Mendes (UFMG)
Humor e mídia: definições, gêneros e cultura 221
Clauâe Chabrol (GRPC, Universidade de Paris III)
A construção mútua das identidades nos debates políticos na
televisão 235
Catherine Kerbrat-Orecchioni (Universidade de Lumière Lyon II)
Análise de Discurso Crítica: representações sociais na mídia 265
Denize Elena Gama da Silva (UnB) Viviane Ramalho (UnB/UCB)
A organização relacionai de textos de gêneros jornalísticos 293
Janice Helena Chaves Marinho (UFMG)
Sobre os organizadores e autores 313
PREFACIO
Mantemos aqui a proposta explicitada no primeiro volume, ou seja, a de buscar apresentar para o leitor um painel diversificado de algumas análises do discurso em desenvolvimento na atualidade e, ao mesmo tempo, confrontá-lo com os diferentes corpora que vêm sendo estu-dados pelos pesquisadores da área. Se algumas abordagens não foram, mais uma vez, contempladas, nunca é demais repetir que não temos a pretensão de exaustividade, dada a amplitude do nosso domínio de investigação: o discurso.
Os quatorze artigos que formam este segundo volume contemplam as mesmas vertentes do anterior — seja a reflexão teórica e metodoló-gica, seja a reflexão aplicada a um objeto, seja ainda a articulação entre uma e outra — e buscam responder às mesmas perguntas norteadoras, quais sejam: 1) Quais são as especificidades de cada abordagem? Que interfaces possui com outras correntes e/ou disciplinas? Que objetos privilegia em suas pesquisas? 2) Que categorias, nas varias abordagens, tem-se mostrado mais produtivas na análise de discursos de diferentes gêneros, em domínios diversos (como o político, o religioso, o didáti-co, o científididáti-co, entre outros)? 3) Quais são as tendências mais recentes observadas em cada disciplina e quais são os ganhos (ou eventuais per-das) dessas "novas" tendências em relação às tendências anteriores?
Dentro desse quadro, Christian Plantin, destacando a importância da argumentação no/para o discurso, mas ao mesmo tempo
consta-Análises do discurso hoje
tando a diversidade de estudos nesse domínio, faz dialogar as diferen-tes correndiferen-tes para estabelecer suas convergências e divergências, bem como suas contribuições específicas. Pontuando que a atividade ar-gumentativa é uma atividade complexa, que implica a articulação de saberes e comportamentos diversos e heterogêneos, o autor constata, com pesar, que embora os programas, na França, proponham o ensino da argumentação nos colégios e liceus, não existe no país nenhum curso voltado para a reflexão dos mestres, situação, diga-se de passa-gem, bastante próxima da nossa.
As contribuições de Diana Luz Pessoa de Barros, Arnaldo Corti-na e Anne HéCorti-nault situam-se no domínio da Semiótica do Discurso. Barros volta-se para o exame das relações de simbolização e semi-sim-bolização que se instauram entre expressão e conteúdo na construção-dos senticonstrução-dos do texto. Analisando anúncios de instituições bancárias, mostra como essas relações integram o fazer-persuasivo-discursivo do enunciador, o que comprova o diálogo produtivo que se estabelece entre semiótica e retórica. Também articulando essas duas vertentes, Cortina propõe construir o ethos do leitor brasileiro contemporâneo, por meio do estabelecimento de uma lista dos livros mais vendidos no Brasil entre os anos 1966 e 2004, lista essa que a Semiótica Discursiva, enquanto perspectiva teórico-metodológica utilizada, permite com-preender como um texto passível de interpretação. Hénault, enfim, parte de uma reflexão sobre as grandes etapas das recentes pesqui-sas em semiótica para examinar a dimensão do sentir, a forte presença emocional e empática nos escritos — mais especificamente, em duas monografias sobre os pintores Giacometti e Goya — do poeta, ensaísta e professor do Collège de France,Yves Bonnefoy.
Na articulação entre análise do discurso e ensino, o artigo de An-toine Auchlin e Mareei Burger parte do princípio de que a retroinfor-mação do aluno, quanto a suas produções e aos problemas de leitura que elas podem desencadear, desempenham um papel essencial na sua formação. Propõem, assim, uma abordagem do discurso centrada no estudo da competência discursiva, uma vez que ela deixa transparecer
Prefácio
os contornos de uma identidade singular: o autor dos erros (uzalunu), que não se confunde com a pessoa do aluno propriamente dita.
No âmbito do que denomina análise/ teoria díalógica do discurso, a partir das contribuições dos trabalhos de Bakhtin e de seu Círculo, Beth Brait apresenta algumas formas de produção do sentido em tex-tos que mobilizam discursos verbais, visuais e verbo-visuais, tendo a memória e seus sujeitos como tema privilegiado. A autora comprova, assim, através desse "exercício", que a vertente teórica escolhida, que se insere no vasto conjunto de pesquisas incluídas sob o rótulo Análise
do Discurso, assume forma, perfil e consistência própria.
O artigo de Helena Nagamine Brandão & Maria Leda Pinto e o de Dylia Lyzardo-Dias integram o que Dominique Maingueneau cha-ma de "tendências francesas de análise do discurso". Brandão e Pinto discutem o discurso do homem pantaneiro, da perspectiva discursiva e da perspectiva de Lakoff e Johnson (2002) sobre a metáfora, compreen-dida como um fenômeno de linguagem de valor cognitivo. Articulan-do os conceitos metafóricos desses autores com os aspectos teóricos da análise do discurso na abordagem das falas pantaneiras, as analistas objetivam estruturar as formas de percepção de mundo e a atuação do pantaneiro no seu cotidiano para delinear a identidade desse sujeito. Já o texto de Lyzardo-Dias analisa a paroclização de provérbios por jornais impressos como um fenômeno de reescrita e um caso de hete-rogeneidade enunciativa.Trata-se, segundo a autora, de uma estratégia discursiva marcada pela insubordinação diante do convencional por meio da inversão satírica de um enunciado culturalmente produzido, o que implica a ré-configuração de universos de referência e de visões de mundo convencionalizados.
Ida Lúcia Machado aborda a Semiolingüística enquanto teoria ana-htico-discursiva, ressaltando suas bases lingüísticas, que vão de par com
seus aspectos sociocríticosjá que tal teoria leva em conta o produtor
de determinados atos linguageiros, o local e a época em que tais atos toram produzidos e com que finalidade (visada). Para ilustrar o que foi ^to, a pesquisadora toma como exemplo uma canção italiana e suas
Análises do discurso hoje
sucessivas versões para o francês e para o português. Ainda no quadro teórico-metodológíco da Teoria Semiolingüística, Emília Mendes faz urna releitura dos efeitos de real e dos efeitos de ficção, a partir de sua definição na obra Langage et discours (1983), de Patrick Charaudeau, incluindo ainda um terceiro elemento: o efeito de gênero, definido na Grammaire du sens et de fexpression (1992) do mesmo autor. Nessa releitura, usa os instrumentos oferecidos pelo estágio atual da teoria, buscando mostrar que esses "efeitos" podem auxiliar no estudo de di-versos corpora, sejam eles de estatuto factual ou ficcional. Assumindo contribuições de Patrick Charaudeau, mas também de outros estudio-sos que se debruçaram sobre o humor (Anne Marie Houdebine, Guy Lochard, Jean Claude Soulages, entre outros), Claude Chabrol busca caracterizar o ato humorístico, tomando como corpus textos midiáti-cos (caricaturas, anúncios publicitários) produzidos na Espanha e na França.
No domínio da análise do discurso e, mais especificamente, no da análise do "discurso em interação", Catherine Kerbrat-Orecchioni analisa um debate político entre Nikolas Sarkozy, então ministro do Interior, e Jean Marie Lê Pen, presidente do partido Front National (de extrema direita), transmitido pelo canal de televisão France 2, para mostrar como as noções de identidade (mais ampla) e de ethos (mais restrita) "funcionam" e se constróem mutuamente nas trocas verbais.
Finalmente, duas análises do discurso que não haviam sido con-templadas no primeiro volume, marcam aqui sua presença. Trata-se da Análise de Discurso Crítica (ADC) e do Modelo de Análise Modular do discurso (MAM). A primeira vem representada no artigo de De-nize Elena Garcia da Silva e Viviane Ramalho, o segundo no texto de Janice Helena Chaves Marinho. Para situar a ADC na esteira dos escudos do discurso, Silva e Ramalho apresentam, inicialmente, a traje-tória dessa disciplina, marcada pelo privilégio dado à linguagem como prática social e ao discurso como objeto historicamente produzido e interpretado em termos de sua relação com as estruturas de poder e com a ideologia. Em seguida, assumindo o diálogo que existe entre a W
Prefácio
(FAIRCLOUGH, 2003) e a Lingüística Sistêrnico-Funcional (HALLI-DAY, 1994), as autoras mostram sua aplicabilidade teórico-analítica em textos que versam sobre a representação da pobreza nas ruas pela mídia impressa e sobre o discurso da propaganda brasileira de medicamen-tos. Já o artigo de Marinho, com base no MAM, segundo o qual é na forma de organização relacionai que se estudam as relações textuais e o papel dos conectores na sinalização ou na determinação dessas rela-ções, analisa o uso de conectores em dois gêneros textuais pertencen-tes ao domínio jornalístico — o texto de opinião e a notícia.
Com a coletânea de artigos apresentada neste segundo volume, esperamos ter complementado, de alguma forma, o volume anterior, dando ao leitor uma visão geral de algumas (outras) maneiras de se fa-zer "análise do discurso" hoje, nas universidades e centros de pesquisa do Brasil e do exterior.
Os organizadores.
A ARGUMENTAÇÃO BIFACE
Christian Plantin (CNRS - Universidade de Lyon U)
Os estudos de argumentação têm sua origem em três disciplinas clássi-cas: a retórica, a lógica e a dialética. Elas constituem uni fundo sempre estimulante para a reflexão, já que o desenvolvimento das competên-cias lingüísticas que elas se propõem a organizar — falar bem, racioci-nar bem e dialogar bem — não perderam sua atualidade.
1. Diversidade e unidade
O ano de 1958 é urna data-chave: é a data do aparecimento de duas obras "refundadoras": Lês usages de Targutnentation, de Stephen EToul-min, e Lê traité de Y argumentation: Ia nouvdle rhétorique, de Chaim Perel-rcian e Lucie Olbrechts-Tyteca. Os estudos de argumentação foram em seguida estruturados e enriquecidos com novas contribuições: a nova retórica, a nova dialética, a teoria da argumentação na língua, a teoria das falácias, a lógica informal, a lógica substancial, a lógica natural, até ° estudo do raciocínio "desconstruído". Cada urna dessas escolas situa
a argumentação num espaço diferente da linguagem — na língua, no
^scurso, na comunicação, nas interações, etc. — e constrói, em con-seqüência, o objeto, os métodos e os objetivos desse estudo de ma-deira específica. Essas diferenças de perspectiva trazem conseqüências
lmportantes sobre o que se deve entender por desenvolvimento das
Análises do discurso hoje
ou prático, relação da argumentação com a demonstração, sua relação com as emoções — em resumo, tudo o que se refere às "questões vivas" nesse campo e aos resultados esperados no que tange à educa-ção. Os efeitos um tanto maléficos dessa diversidade não devem ser esquecidos; e foi preciso esperar a escola de Amsterdã para que fosse introduzida, nos anos 1980, uma prática regular da discussão teórica entre as diferentes visões.
Entretanto, numerosas práticas atuais, tanto no campo da pesquisa quanto no do ensino, ainda estão marcadas por essa configuração em guetos. Não é muito satisfatório resolver utilizar, separadamente, um elemento escolhido aqui ou ali por sua comodidade imediata, sem se preocupar com incompatibilidades ou redundâncias. Outra solução, que tem certa eficiência imediata, consiste em aderir a uma visão da argumentação, escolher "seu" autor e "seu" conceito, aprofundá-lo e pô-lo em prática: porém um dia é preciso se interessar pelo que fazem os outros. Há uns vinte anos, toda a argumentação estava compreen-dida na língua, e o estudo dos conectores era o acesso obrigatório. Mas os tempos mudaram. Perelman, cuja obra não tinha sido verda-deiramente aprofundada nos anos 1970, voltou à moda nas ciências humanas, enquanto Toulmin e Grize são os preferidos no campo das ciências — e ainda não chegamos ao fim da história.
É necessário levar em conta as contribuições das diversas correntes, fazê-las dialogar para estabelecer suas convergências, reconhecer suas afirmações incompatíveis e suas contribuições específicas. Para isso, partiremos do fato de que a função argumentativa, ou função crítica, é uma função da linguagem que organiza as funções primárias (exprime o "eu", a impressão sobre o outro, descreve o mundo). A atividade argu-mentativa é uma atividade de alto nível, que implica a coordenação de saberes e comportamentos diversos e heterogêneos; não é algo simples, como comer uma maçã, mas extremamente complexo, como dirigir um automóvel.
Ela se situa num espaço intermediário, organizado por urna tensão entre o trabalho enunciativo e o trabalho interacional. Um locutor
14
A argumentação biface
hábil constrói uma intervenção contínua, planificada, na qual encadeia as boas razões e mostra um mundo coerente; e esse trabalho extrai seu sentido da existência de um dizer outro, como num espelho, no qual outras boas razões sustentam visões antagônicas, consideradas corno não menos coerentes. O encontro hic et nunc desses discursos define a situação argumentativa em que se trata não com o outro como o representamos, e sim corn o outro enquanto interlocutor que está pre-sente e que fala, numa interação que constitui o momento de verdade da argumentação, quando ter razão também é convencer o interlocutor ou concordar com ele.
2. O pólo das boas razões
Argumentar é ligar proposições, constituir um discurso coerente, ba-seado num elemento considerado como evidente (para os sentidos, para a intuição intelectual ou moral), e dele fazer derivar uma proposição segunda menos segura. É apoiar uma afirmação — a conclusão — sobre uma boa razão — o argumento.
As obras de Toulmin, assim como as de Perelman e Olbrechts-Tyteca, dependem no essencial desse pólo das boas razões. Em ambos os casos, deve-se procurar o paradigma do discurso racional no campo do direito. Pode-se pensar que essa vontade de restituir urna dose de "logos" ao discurso sociopolítico tenha sido motivada pela rejeição aos discursos totalitários nazistas e stalinistas.
O famoso modelo de Toulmin é uma lógica substancial. É uma lógica na medida em que sua estrutura de base é a de um silogismo jurídico (os A são B, isto é um A, logo isto é um B). Afirma-se que tal ser possui determinada característica (Harry nasceu nas Bermudas), que os seres que possuem essa característica (nascer nas Bermudas) pertencem a determinada categoria (ser de nacionalidade britânica) e conclui-se que esse ser pertence à categoria considerada (Harry é de naciona-lidade britânica). Toulmin põe assim no primeiro plano da atividade argumentativa a atividade de categorizaçao: pensar é classificar.
Análises do discurso hoje
Esse modelo faz intervir uma restrição: "essa conclusão é válida salvo se... (ele mudou de nacionalidade)". Essa reserva corresponde a um possível contra-discurso. Temos aí a estrutura dita de raciocínio por
ausênda:<sAíé uma maior informação, se eu sei que Piu-piu é um
pás-saro, posso concluir que ele voa — a menos que me digam que ele é um pingüim".
Desde Aristóteles, foram propostas diversas tipologias dos argu-mentos. Perelman e Olbrechts-Tyteca se inscrevem nessa tradição, que mostrou que a simples argumentação recorria a procedimentos muito diversos para fundamentar suas conclusões: as estratégias que utilizam a definição, a analogia, a causa, os contrários, a pessoa, estão certamente entre os mais usados. Um tipo de argumento (ou topos, pi. topot) é um discurso genérico, uma matriz discursiva. No caso do argumento do -"declive escorregadio", isso daria: "Não devemos tomar esse caminho, pois, se começarmos, não saberemos mais como parar e seremos leva-dos a aceitar o inadmissível"; essa forma gera, entre outras, a argumen-tação concreta, ou entimema seguinte: "Não se deve legalizar o haxixe, porque, se o fizermos, seremos levados a legalizar o crack". É curioso constatar que freqüentemente pedimos emprestadas ao Tratado [Lê traité
d'argumentatíon] oposições no fundo pouco robustas teoricamente e
empiricamente pouco rentáveis (convencer/ persuadir, auditório universal/
particular, argumentar/ demonstrar) e que não fazemos caso de reflexões
mais técnicas, bastante elaboradas e muito férteis, que ele consagra aos tipos de argumentos que nos contentamos, no melhor dos casos, em considerar como uma espécie de catálogo.
3. O pólo lógico-Iingüístico
As propostas de novas teorias da argumentação não encontraram eco na França dos anos 1970;Toulmin só foi traduzido em 1994. De fato, a introdução do conceito no campo das ciências humanas é obra de Du-crot (La preuve et lê dire, 1973, cap. XIII, "As escalas argumentativas") e de Anscombre-Ducrot, numa obra complexa, com o título-programa
A argumentação biface
U Argumentation dam Ia langue (1983). Esse conceito de argumentação
não se situa mais do lado de uma pesquisa dos princípios de raciona-lidade do discurso, mas numa reflexão sobre o sentido dos enuncia-dos. Segundo Ducrot, esse sentido é dado pela intenção lingüística do enunciador. O sentido de "ele é inteligente" é descritível como a conjunção das conclusões a que esse enunciado pode servir, con-clusões que são assimiladas a prosseguimentos possíveis: por exemplo, "é preciso contratá-lo", ou "ele pode resolver o problema", "ele verá a armadilha", etc., (mas não teremos "ele é inteligente; não poderá resolver esse problema"). Não são mais, como no caso de Toulmin, as ligações entre elementos do real que fundamentam a argumentação, mas as ligações, na língua, entre enunciados. Essa teoria da significação produziu resultados muito interessantes sobre os conectores (mas, aliás, etc.) e sobre os operadores argumentativos (quase, apenas, etc.). Sua generalização se choca com certo número de dificuldades, mas ela colocou no primeiro plano a noção de orientação, cuja importância é capital na argumentação.
A partir do fato de que os conectores trabalham as orientações, apli-cações precipitadas concluíram que bastavam alguns conectores bem colocados para construir uma argumentação. É inverter o problema. Como veremos, o sentido argumentativo (orientação argumentativa) é produzido por uma pergunta argumentativa, e o uso de conectores só se compreende no âmbito de tal pergunta.
No mesmo momento, Grize e a escola de Neuchâtel propuseram um. modelo de lógica natural para a pesquisa dos aspectos cognitivos da argumentação (GRIZE, De Ia logtque à l'argumentation, 1982). O discurso constrói uma "esquematização", isto é, uma "iluminação" dos aconte-cimentos.Todas as operações de construção do enunciado contribuem para a construção dessa esquematização. Trata-se igualmente de uma teoria generalizada que traduz bem a argumentação como constru-ção de um ponto de vista. A abordagem diagonal da argumentaconstru-ção acrescenta uma pergunta: o que acontece quando um ponto de vista encontra um outro ponto de vista?
Análises de discurso hoje
4. Um diálogo orientado por uma pergunta
Argumentar é dialogar com um interlocutor, isto é, encadear propo-sições num discurso coerente, baseado em elementos compartilha-dos (os argumentos) e deles fazer derivar urna proposição segunda (a conclusão), que não é compartilhada, mas disputada. A argumentação se situa na divergência dos discursos mantidos, por exemplo, sobre a qualificação de um acontecimento: Quem é o responsável/ culpado? Quem lançou o dardo que matou a vítima durante o treinamento? Foi a vítima que não respeitou as regras de segurança? Trata-se de um crime? Ou de um acidente?; "Você roubou a mobilete?" vs. "Não, to-mei-a emprestada!": De que se trata na verdade? De um roubo ou de um empréstimo? A essas perguntas, os protagonistas trazem respostas, inconciliáveis. Porém não basta que afirmem: já que o outro diz outra coisa, é preciso elaborar a afirmação "seca", sustentá-la com um dis-curso, fornecer indícios, testemunhos orientados para uma ou outra posição. E o conjunto dessa atividade que constitui a argumentação. O que devo acreditar, o que devo fazer? Enquanto todos vêem as coisas do mesmo modo, fazem o mesmo sem dizer nada, não há pro-blema; mas logo que os discursos se opuserem de forma construída aparece uma pergunta argumentativa que torna manifesta uma situa-ção de bloqueio (de "estase") nos fluxos coordenados de linguagem e de ação.
Argumentar é uma atividade biface que se exerce sobre um fundo de tensão irredutível entre monólogo e diálogo, entre trabalho enun-ciativo e trabalho interacional. O diálogo constitui o fundo: estamos no domínio do discutível. É uma realidade de ordem antropolingüís-tica; é difícil imaginar uma sociedade sem pluralidade de interesses às vezes contraditórios. A argumentação é um modo de tratar essas divergências. Apenas um modo entre outros: por exemplo, o macho ou a fêmea dominante pode. se encarregar do problema e resolvê-lo à sua maneira. Para que haja argumentação, é preciso que se esteja situado num campo de sentido e que haja ao menos uma pergunta comparti-Í8
A argumentação biface
lhada, por bem ou por mal. Segue-se que um discurso não contradito vale como a verdade.
Esse ponto de partida permite situar um conjunto de noções clás-sicas pouco levadas em conta pelos modelos centrados na argumen-tação como encadeamento monologal de proposições: por exemplo, o peso da prova. Essa noção absolutamente fundamental remete irre-dutivelmente a dois opositores, a dois pontos de vista: um dominante; o outro dominado e tentando se impor, e que deve não só "trazer", mas também "fazer" suas provas. Poder-se-ia ainda citar a exigência de univocidade da pergunta e as diferentes modalidades da pertinência da resposta dada (petição de princípio, resposta fora do assunto). Há argumentação antes dos argumentos.
5. Dialogismo, polifonia, intertextualidade
Fala-se de interação ou, em primeira aproximação, de diálogo, para designar situações de fala, nas quais os interlocutores estão fisicamente em situação face a face, dispõem de igual direito à palavra, trocam oral-mente, e de forma contínua, réplicas relativamente breves. A conversa é um exemplo de interação. Os conceitos de polifonia e de intertex-tualidade permitem estender a concepção dialogada da argumentação ao discurso monolocutor.
Bakhtin mostrou a presença do diálogo em qualquer discurso (pro-dução verbal desenvolvida, estruturada, ininterrupta, atribuída a um mesmo locutor-fonte):"a orientação dialógica do discurso é natural-mente um fenômeno próprio a todo discurso" (Esthétique et théorie
àu roman, 1978, p. 102). Essa tese do dialogismo inerente a todo dizer
e urna das aquisições em que se baseiam a análise do discurso, em geral, e a do discurso argumentativo, em particular: "todo discurso é dirigido para uma resposta, e não pode escapar da influência profunda do discurso-réplica previsto" (op. cit., p. 103). Todo discurso seria não somente dialogai, mas polêmico. De qualquer maneira, Bakhtin inteiro vai no sentido da superioridade do diálogo.
Análises do discurso hoje
Essa realidade dialógica é fundamental para a teoria da argumenta-ção na língua, que se baseia na natureza polifônica dos encadeamentos de enunciados num mesmo discurso. O "foro íntimo" é aí visto como um espaço dialógico, no qual coexiste um conjunto de proposições orientadas, cada urna delas sendo atribuída a uma "voz" que é sua fon-te: o enunciador. O locutor se situa em relação a essas vozes, isto é, ele se identifica com algumas e rejeita outras. Se nos reportamos à famosa análise dos conectores (mas, por exemplo), vemos que o que aparece na superfície como um monólogo baseia-se num verdadeiro diálogo interior, que obedece a exigências gramaticais, libertado da exigência do face a face, mas que permanece um discurso biface, articulando argumentações e contra-argumentações.
A noção de intertextualidade, entendida como remetendo tanto ao -texto oral quanto ao escrito, é retornada em argumentação na relação discurso/ contra-discurso e, mais especificamente, pela noção de script argumentativo: é o conjunto dos argumentos/ contra-argumentos li-gados a uma pergunta. Constata-se, com efeito, que o conjunto das proposições/ contra-proposíções ligadas a questões como a da legiti-midade ética da clonagem apareceu completo quase imediatamente; os sujeitos apenas repetem argumentos que estão dispersos no espaço sociocomunicacional. Nessa concepção, a atividade argumentativa do locutor consiste essencialmente em reformulações, adaptações, atuali-zações de discursos já ditos. Estamos muito longe da "invenção".
Falar-se-á de modelo dialogai da argumentação para englobar, ao mesmo tempo, tudo o que se relaciona ao discurso face a face, de um lado, e de outro, o dialógico, isto é, o dizer outro, citado (o polifônico e o intertextual).
6. Interações, debates, diálogos
As conversas comuns são semeadas de contradições. Quando essas contradições são ratificadas (levantadas por um ou outro dos parcei-ros), elas fazem emergir uma situação argumentativa. Consideremos
A argumentação biface
a troca seguinte: "O que vamos comer hoje à noite?" "Macarrão!"
"Outra vez? Já comemos macarrão no almoço!" "Justamente, temos que acabar com ele!" Uma pergunta de teor informativo recebe sua resposta: esta é rejeitada, apoiada numa boa razão, que repousa sobre um princípio dietético de variedade na alimentação; esse argumento é devolvido pelo advérbio justamente, em favor da conclusão oposta
(va-mos comer), em virtude de um outro princípio de economia doméstica:
não se joga comida fora. Conflito sobre os princípios, confrontação dos discursos, inversão das orientações, toda a problemática da argu-mentação se encontra nesse pequeno exemplo de interação banal.
O estudo das interações verbais dispõe de um conjunto de instru-mentos bem ajustados; ele supõe a constituição de corpora gravados (em vídeo ou em áudio) e transcritos, que constituem dados estáveis e transmissíveis.Todas as interações não são argumentativas,mas o estudo da argumentação no diálogo não pode deixar de levar em considera-ção os fenômenos interacionais. Por exemplo, se nos interessamos pela maneira como o professor escuta ou não escuta as argumentações dos alunos, ou o que ele realmente escuta de seus argumentos, ou se escuta alguma coisa (e reciprocamente), é preciso necessariamente levar em conta o fato de que se trata de um dizer em interação.
Pode-se falar de diálogo para situações de interação em que os in-terlocutores, seja de comum acordo, seja seguindo a injunção de urna norma social, respeitam um certo número de regras. A Nova Dialética da Escola de Amsterdã (VAN EEMEREN e GROOTENDORST, 1996) se in-teressa pelos diálogos argumentativos em que os interlocutores devem respeitar regras explícitas, tendendo a maximizar o rendimento do diá-logo: os participantes exprimem livremente suas opiniões e suas obje-ÇÕes; não falam fora do assunto; levam em conta os dizeres do outro; estão dispostos a renunciar à sua primeira posição e a adotar o ponto de vista do outro, etc. O diálogo argumentativo é visto como um meio de construção do consenso.
A argumentação procura e evita o diálogo. Por um lado, argumen-tar é construir o discurso orientado para a afirmação de urna
con-Análises do discurso hoje
clusão; por outro, é confrontar esse discurso com um outro discurso igualmente planejado, mas que não conclui a mesma coisa, ou propô-lo a alguém do qual ignoramos o que ele vai dizer.
O debate é um dos lugares da argumentação para os quais devemos mobilizar os recursos da análise das interações. No caso da sala de aula, interessar-nos-emosf por exemplo, pelos modos de retomada do dis-curso, pelas formas de expressão do acordo e dos desacordos (cada um quer legitimamente preservar sua face e sua identidade), pelos modos de afirmação das conclusões, pela repartição dos papéis argumentativos e interacionais, pelos modos de aparição, de fragmentação e de deriva-ção das questões, pelos tipos de argumentos introduzidos, pelas alianças e adesões, pelas formas de concessões, etc. Existe aí um imenso campo para a exploração empírica.
A argumentação é uma atividade onerosa, tanto na sua dimensão cog-nitiva quanto na sua dimensão relacionai. Manter uma posição é man-ter uma face, uma identidade, uma diferença. O diálogo argumentativo orientado para o consensual supõe que se esteja pronto ou que seja possí-vel renunciar a essa diferença, o que nem sempre é o caso. O debate pode conduzir à imobilidade, e até mesmo ao reforço das posições que ele pre-tendia precisamente fazer evoluir. Mudar de opinião, alinhar-se pela po-sição do outro, é sempre submeter-se, reconhecer que se enganou, logo perder um pouco a face, renunciar a esse fragmento de identidade que estava ligado à posição repudiada. Duas conseqüências: não há argumento sem emoção; é preciso levar em conta as "condições de disputabilidade" de urna questão em tal ou qual grupo, em tal ou qual momento.
Nem todos os diálogos argumentativos respeitam as regras de orientação para o consenso: líderes políticos de campos opostos, às vésperas de uma eleição, não renunciam a seus pontos de vista ori-ginais ao termo de um debate em que se enfrentam. Estão presos num paradoxo, em que cada um deve apresentar ao mesmo tempo argumentos tidos como aceitáveis por todos e afirmar uma posição bem particular. Poder-se-ia falar de diálogo orientado para o aprofun-damento das diferenças.
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A argumentação biface
As situações de trabalho colaborativo, na sala de aula ou fora dela, põem em jogo outra situação de argumentação em interação. Com efeito, apenas se argumenta nos negócios humanos em geral (política, filosofia, direito, etc.), sobre o modo dissertativo e segundo o modelo ideal e jamais atingido da demonstração lógica elementar. Argumenta-se em ambientes materiais onde o Argumenta-sentido da argumentação esta Argumenta- sem-pre ligado a projetos, objetos e ações. Os trabalhos práticos de ciências propõem assim situações argumentativas quase experimentais, em que se pode observar como se trabalha, paralelamente, a linguagem e os objetos, com fins de construção dos saberes.
7. O que é uma boa argumentação?
"E aquela com que eu concordo"; a argumentação só convence os convencidos. Se considerarmos a dificuldade encontrada quando se trata de rejeitar um mau argumento para uma conclusão aceita e de aceitar uni bom argumento para uma conclusão rejeitada, podemos ser tentados por essa resposta um tanto rápida.
A contribuição fundamental da teoria das falácias — isto é, das pa-lavras enganosas —, tão mal compreendida na França, é introduzir na crítica a avaliação das formas argumentativas. Aprender a argumentar é aprender a criticar os argumentos, tanto os seus quanto os dos ou-tros. Essa problemática foi reatualizada pela obra de Hamblin, Faüades (1971, não traduzida em francês). Dela podemos reter que a crítica tende a eliminar os discursos ambíguos, impõe o respeito a um méto-do n.o tratamento méto-dos objetos e de suas relações, o tométo-do levanméto-do em conta as condições pragmáticas da aceitabilidade das argumentações.
Num segundo nível, a avaliação pode igualmente basear-se numa hierarquia intrínseca dos argumentos. Nesse caso, consideraremos que uma argumentação baseada na definição (que exprime a natureza do °Rjeto tratado; "para argumentar é preciso saber do que se fala") ou numa relação causai será intrinsecamente melhor que as argumenta-ções baseadas no prestígio do locutor ou no da fonte citada por ele (essa
Análises do discurso hoje
preferência supõe que definição e relação causai foram estabelecidas corretamente, o que é precisamente o objetivo da crítica de primeiro nível).
Podemos enfim ampliar o problema e adotar uma perspectiva dia-lética: uma boa argumentação é uma argumentação que foi analisada de modo contraditório. A avaliação não se refere mais a um episódio discursivo, mas ao próprio discurso e, em seguida, ao debate no qual ele se situa. O corolário é que uma posição é considerada legítima se foi submetida ao processo de discussão considerado normal pelo gru-po. Numa última etapa, poder-se-ia dizer que um bom argumento é um argumento que sai vivo de uma boa discussão: seja porque é reto-mado como fundando uma conclusão à qual se adere, seja porque foi julgado digno de uma refutaçào ou de uma concessão.
8. Perspectivas
Não se pode opor tipos ou "módulos" narrativo/ descritivo/ argu-mentativo pela simples razão de que, num texto arguargu-mentativo, podem ser encontrados uma narração, uma descrição ou um retrato argumen-tativamente orientados no sentido de um ponto de vista, em oposição a outro ponto de vista. Argumentar é operar derivações (ou inferên-cias) num fundo de contradição. Além disso, deve-se caracterizar os discursos não como sendo ou não argumentativos, mas como o sendo mais ou menos. O lugar dado à palavra do outro é um elemento de-terminante do grau de argumentatividade de um texto, que corres-ponde a um traço, um descritor utilizável para a descrição dos gêneros discursivos.
Se quisermos opor a argumentação a alguma coisa, é preciso con-trastá-la com discursos de revelação ou de intuição, afirmando dire-tamente o dever e a verdade (não dialogais, não inferidos); ou ainda, como o faz Pontalis (En marge desjours, Gallimard) opor "o pensamen-to sonhante" ao "pensamenpensamen-to discursivo, argumentado, amarrado ao sa-ber, que só quer se justificar e não consente em se contradizer".
A argumentação biface
O lugar-comum que liga a argumentação à persuasão deve ser re-visto. Se persuadir é mudar as representações do interlocutor, é a coi-sa mais fácil do mundo, e nào é absolutamente apanágio da retórica argumentativa. Dizer que já é meio-dia e cinco a alguém que pensa que ainda não é meio-dia pode mudar suas representações de modo dramático, se ele devia pegar um trem às doze e três. O estudo dos ins-trumentos efetivos da persuasão (discursivos ou não) e a medida de sua eficácia são do domínio da psicologia, que pouco se preocupa com as problemáticas da argumentação. Se estivermos seriamente interessados na persuasão, é preciso integrar ao campo a conversão, a religiosa assim como a política.
Os modelos do monólogo argumentativo só permitem levar em conta a intenção de persuadir. Acompanham um modelo unidírecio-nal da persuasão em que um persuadido é o alvo daquele que persuade
e que gostaria bastante de fazê-lo adotar seu ponto de vista. Os meca-nismos da persuasão postulados repousam infine sobre a identificação do persuadido com aquele que persuade. Os modelos do diálogo são bidirecionais e enfatizam os mecanismos de co-construção das crenças ou das decisões. Encontra-se aqui a tensão entre os dois pólos da ação argumentativa.
Pedimos às vezes ajuda à argumentação, como a urna bóia à qual se tenta atrelar a formação do indivíduo e do cidadão. Muitas considera-ções ainda devem temperar o otimismo dessa ideologia educativa. Pri-meiramente, a argumentação não é forçosamente uma alternativa ao uso da força: a História mostra que os dois se combinam muito bem. Em segundo lugar, a argumentação trabalha na oposição (tanto do que se deve pensar como do que convém fazer), que ela pode contribuir para aprofundar ou resolver. Em terceiro lugar, é uma grande utopia pensar que poderemos um dia esvaziar, com a colherinha da crítica, o oceano da ignorância e da desonestidade. Em quarto lugar, dizer que
a argumentaçâo repousa sobre um conjunto de "acordos prévios"
(PE-R.ELMAN e OLBRECHTS-TYTECA) é dizer que ela funciona bem no seio unia comunidade de crenças e dar-se ao menos a metade da solução
Análises do discurso hoje
do problema que se pretende resolver. Faltam-nos estudos sobre os casos de desacordos radicais. A argumentação deve renunciar ao debate intercomunitãrio para se limitar ao intracomunitário?
Os programas prevêem o ensino da argumentação nos colégios e liceus. Entretanto, não tenho conhecimento de que exista na França nenhum curso estruturado propondo um volume suficiente de ensino das bases indispensáveis à reflexão dos mestres.
Referências
PLANTIN, Christian. L'argumentation. Paris: Seuil, 1996. (Coll. Mémo)
- L'argumentation, histoire, théories,perspectives. Paris: PUF, 2005. (Coll. Que sais-je?)
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SEMIÓTICA E RETÓRICA: UM
DIÁLOGO PRODUTIVO
Diana Luz Pessoa de Barros (USP/UPM/LEI)
1. Considerações iniciais
Os diálogos entre semiótica e retórica têm sido muito produtivos, seja no tratamento das questões discursivas de persuasão e argumentação, com os contratos fiduciários, a interação entre sujeitos e a construção da identidade ou do ethos do enunciador, seja no exame das figuras de conteúdo e de expressão, com as relações entre temas e figuras e entre expressão e conteúdo. Neste artigo serão apresentados alguns resul-tados de nossas reflexões sobre as relações ditas de "motivação" que se estabelecem entre expressão e conteúdo. Serão examinadas quatro questões principais: o tratamento dado ao plano da expressão nos es-tudos sobre a linguagem; as conceituações de simbolização e de semi-simbolização; os diferentes tipos de semi-simbolismo; os papéis dos procedimentos de simbolização e de semi-simbolização e da relação entre eles na construção dos sentidos. A descrição das estratégias de simbolização e de semi-simbolização põe em jogo princípios teóricos e ferramentas metodológicas da semiótica discursiva francesa, perspec-tiva teórica adotada neste trabalho, e tem por objetivo último a análise das relações entre a motivação na linguagem e os sentidos na sociedade e na cultura.
Análises do discurso hoje Semiótica e retórica: um diálogo produtivo
2. O plano da expressão nos estudos da linguagem
O exame dos significantes e o dos significados estiveram, até recente-mente, separados no quadro dos estudos lingüísticos.
Se a lingüística, no seu início, com disciplinas como a fonética e a fonologia, privilegiou o estudo dos significantes em relação ao das estruturas semânticas, a partir dos anos 1960, os lingüistas, sobretudo aqueles que se interessaram pelo texto e pelo discurso, se debruçaram sobre questões de significação e sentido. Por outro lado, os especialistas em literatura já tinham conseguido, desde a primeira metade do século XX, um equilíbrio melhor no exame da expressão e do conteúdo dos objetos literários, graças, entre outras razões, à contribuição dos estu-dos retóricos e estilísticos.
O aparecimento e a consolidação dos estudos sobre o texto e o discurso, ao favorecer a abordagem dos problemas de significação e de sentido, trouxeram novas interrogações e outras direções ao exa-me do plano do significante lingüístico e recuperaram também o diálogo com a retórica. Essa mudança deveu-se, antes de mais nada, ao estabelecimento de uma distinção clara entre o significante dos signos (entendidos como lexemas) e o plano da expressão dos textos, de que se ocupam os especialistas do texto e do discurso. Operou-se, assim, uma primeira escolha sobre a dimensão e a natureza do plano da expressão. Houve mudança de ponto de vista, pois o plano da expressão deixou de ser concebido apenas como significante oposto ao significado, no interior do signo, e passou a ser pensado também como o conjunto expressivo dos textos-enunciados de diferentes ti-pos. Preparou-se assim o terreno para uma nova reflexão sobre a expressão. Foi também revelada a precariedade dos estudos até então existentes sobre o plano da expressão, pois se a fonética e a fonologia se encontravam bastante bem desenvolvidas, os estudos sobre o plano da expressão dos textos eram, e ainda são, pouco numerosos, pouco sistematizados e dirigidos pontualmente a questões específicas, em quadros teóricos variados.
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Nossas preocupações e os resultados ainda incipientes que aqui apresentaremos inserem-se nesse quadro: o do exame do plano da ex-pressão dos textos e das relações de construção do sentido tecidas en-tre os dois planos da linguagem, o da expressão e o do conteúdo, nos termos de Hjelmslev (1968).
Na tradição saussuriana, ninguém ignora que a função maior, primordial do plano da expressão é a de "fazer passar", "expressar" conteúdos com os quais mantém relações arbitrárias. No entanto, é também verdade que relações novas e motivadas podem-se estabe-lecer entre expressão e conteúdo. A estilística, a retórica, os estudos literários procuram há muito tempo aprofundar essas questões. No âmbito das teorias do texto e do discurso, a semiótica tem obtido bons resultados no exame do plano da expressão, nas manifestações textuais não apenas verbais, mas também na pintura, na música, nos textos sincréticos em geral.
Para a semiótica, as relações novas entre expressão e conteúdo de-correm dos sistemas simbólicos e semi-simbólicos. Esses sistemas po-dem intervir nos textos "poéticos" de qualquer tipo (poesia e outros textos literários, bale, pintura, fotografia, etc.) e têm por função desfa-zer a relação já estabelecida entre expressão e conteúdo e entre o tex-to e a "realidade", para estabelecer novas perspectivas, susceptíveis de refundir ou de refazer o "real, e para instalar a verdade textual de um mundo sensorial, corporal — formado de sons, cores, formas, cheiros
1—, redesenhado pelo texto.
•*• Simbolisníos e semí-simbolismos: conceituação
^s procedimentos semi-simbólicos e simbólicos ocorrem em qual-quer tipo de texto, mas foram analisados, sobretudo, pelos senlioticistas
d° visual e por Jean-Marie Floch, em particular, a partir dos estudos ae Hjelmslev (1968) sobre sistemas simbólicos. O conceito de
semi-^bohsmo assinala, em semiótica, a relação entre uma categoria (uma
e'açao) da expressão e uma categoria do conteúdo, e diferencia-se,
Análises do discurso hoje
assim, dos sistemas simbólicos de Hjelsmelv, em que há relação termo a termo entre expressão e conteúdo.
Floch (1985, p. 15-16), para definir o semi-simbolismo, retoma uma passagem de Lévi-Strauss em que o antropólogo diz não estar de acordo com Mallarmé, que considera impróprios os nomes fran-ceses jour, para dia, e nuit, para noite, pelo fato dejour (dia) empregar sons graves e nuit (noite), sons agudos. Segundo o poeta, deveria ocorrer o contrário, porque a relação com o plano do conteúdo é culturalmente abusiva: sonoridade grave de jour vs. sonoridade aguda de nuit estão em correlação, no plano do conteúdo, com claridade/ vida vs. obscuridade/ morte. Lévi-Strauss não vê nisso nenhum problema, pois, para ele, os sons graves de jour estão relacionados com a con-tinuidade ou a extensão do dia e da luz, interrompidos pela noite-aguda, pontual, intensa. São, para os dois pensadores, sistemas semi-simbólicos diferentes.
Vejamos um exemplo de sistema simbólico e semi-simbólico:
SistemasH - conteúdo r expressão simbólico:— - conteúdo branco paz
—semi-simbólico:—Texpressão claro/ pontiagudo vs. escuro/ arredondado
vida vs. morte
(em Os girassóis, de Van Gogh)
Os dois tipos de sistemas criam relações "motivadas" entre expressão e conteúdo, fortemente sensoriais e corporais, e estão fundamentadas sobre a tensividade que sobredetermina os termos dos dois planos: no símbolo, o branco, da expressão, e a paz, do conteúdof são determinados
pela extensão ou como termos extensos; no sistema semi-simbólico, o amarelo escuro e as formas arredondadas, da expressão, e a morte, no con-teúdo, são determinados como termos extensos, e o amarelo claro e as formas agudas, assim como a vida, como termos intensos. Em outras pa-lavras, a natureza morta de Van Gogh trata do caráter transitório e pas-30
Semiótica e retórica: um diálogo produtivo
sageiro da vida e de uma morte que dura. Outros textos podem
mos-trar, serni-simbolicamente, o acontecimento extraordinário, pontual da morte em uma vida que dura.Veja-se, por exemplo, Fita verde no cabelo, de Guimarães Rosa (1985). A relação com a tensividade permite não só o estabelecimento das relações simbólicas e semi-simbólicas entre expressão e conteúdo, como também o exame dessas relações em um patamar mais afastado do da substância da expressão e do conteúdo.
Apontadas as semelhanças entre eles, é preciso agora diferenciar os sistemas simbólicos e semi-simbólicos.
Nos sistemas simbólicos, a relação entre expressão e conteúdo é culturalmente determinada e perpassa diferentes textos (a relação en-tre branco e paz, por exemplo). Já nos sistemas semi-simbólicos, põe-se em xeque nosso modo culturalmente estabelecido de põe-sentir e de conhecer o inundo e cria-se uma nova verdade e uma outra sensação desse mundo, em que, por exemplo, a claridade e as formas agudas ligam-se à vida, e a obscuridade e as formas arredondadas, à morte. O mundo é refeito, sobretudo na dimensão do sensível, pelo texto que constrói os semi-simbolismos.
São apresentados a seguir alguns exemplos extraídos de anúncios publicitários de bancos, em relação ao cromatismo, à cor.
1) simbolismo: cores simbólicas da bandeira (azul/ amarelo) nos anúncios do Banco do Brasil;
2) semi-simbolismo: variação de tonalidade (anúncios do Banco do Brasil):
__ amarelo quente ^cumplicidade, proximidade
Em anúncios de crédito, para mostrar o que o banco pode fazer pelo
cliente.
vs. vs.
azul frio
distância, seriedade, competência Em anúncios de investimentos, para persuadir o cliente que confia
seu dinheiro ao banco de que ele é sério e competente e garante os
investimentos.
Análises do discurso hoje Semiótica e retórica: um diálogo produtivo
3) semi-simbolismo: variação de saturação das cores e de tonalidade (anúncios do Banco do Brasil):
cor quente e escura cumplicidade, agressividade, proximidade Em anúncios de patrocínio do esporte. vs. vs.
cor fria e clara seriedade, competência,
sofisticação, elegância, distanciamento Em anúncios dirigidos a pessoa
jurídica, sobretudo a grandes empresas.
4) semi-simbolismo: variação de tonalidade (anúncios do Bradesco):
vermelho quente (de sua identidade visual)
novidade, agressividade, modernidade
vs.
vs.
cores frias e escuras (marrom, cinza, preto, verde ou azul escuros)
seriedade, competência, personalização, sofisticação
5) semi-simbolismo: variação de tonalidade (anúncios do Itaú): laranja
simplicidade, facilidade, descompíicaçào
vs. vs.
outras cores (de outros bancos) complicação, dificuldade,
complexidade
4. Tipos de semi-simbolismos
Há diferentes tipos de semi-simbolismos, seguindo três variáveis: as unidades do plano do conteúdo, em correlação; a dimensão no texto; as unidades do plano da expressão.
O primeiro critério de classificação, o do tipo de conteúdo, distin-gue os semi-simbolismos cujas categorias do conteúdo são genéricas e abstratas dos que têm conteúdo passional e contratual. O primeiro caso caracteriza os textos poéticos, sejam eles verbais, visuais, gestuais, etc. (Os girassóis deVan Gogh, por exemplo) ou os que produzem
al-32
uns efeitos poéticos (anúncios de banco, como os do Itaú com a cor
laranja). O segundo caso define, sobretudo, os textos conversacionais e as canções. Os textos falados, graças aos diferentes recursos e proce-dimentos utilizados — as pausas, as interrupções, os prolongamentos sonoros — combinam e alternam aspectualmente continuidade e des-continuidade, aceleração e desaceleração. Cada pausa ou interrupção é seguida de uma duração pela repetição ou pela paráfrase, cada prolon-gamento sonoro de vogai, de uma correção pontual, e assim por diante. A fala se constrói em jatos. Essa organização da expressão sonora cor-relaciona-se, por sua vez, com organizações do plano do conteúdo, no caso, de sua estruturação contratual e passional, construindo assim um sistema semi-simbólico que recobre o texto inteiramente. O arranjo da expressão sonora entre pontualidades e durações, acelerações e desa-celerações homologa-se, no plano do conteúdo, às relações contratuais e de ruptura de contrato, e às relações afetivas e passionais de aproxima-ção interessada e de distanciamento desapaixonado que caracterizam a cooperação e a interação entre sujeitos, definidoras da conversação (BARROS, 1995 e 1998). Os procedimentos de expressão da conversa-ção ligam-se assim à organizaconversa-ção interacional do conteúdo, ou seja, às relações de envolvimento interpessoal, inclusive passionais ou afetivas. Na conversação, fabricam-se, com o semi-simbolismo, efeitos de envol-vimento emocional, enquanto na poesia, com os recursos semi-simbó-licos, refaz-se o mundo ou o saber sobre ele. Começam a aparecer as aproximações e as diferenças entre a afinidade afetiva e emocional da conversação e o envolvimento estético da poesia.
O segundo critério de classificação do semi-simbolismo é o de sua extensão no interior do texto. O semi-simbolismo pode estar
locali-zado, circunscrito, como nos textos poéticos, ou estender-se em toda a
dimensão do texto, como nos textos conversacionais.
O terceiro e último critério de classificação do semi-simbolismo é
0 dos tipos de plano da expressão: sincrético ou não-sincrético. O pla-n° da expressão é dito sincrético quando sua forma é preenchida por Substâncias diferentes (sonoras, visuais, etc.). Em função da
Análises do discurso hoje Semiótica e retórica: um diálogo produtivo
dade de seu plano da expressão, os textos sincréticos podem engendrar dois tipos de sistemas semi-simbólicos: o primeiro, em que a categoria do plano da expressão é construída de termos que têm substâncias diferentes, como por exemplo, traços sonoros e cromáticos, postos em correlação, em conjunto, com uma categoria do conteúdo; o segundo, em que os termos formados por substâncias diferentes sincretizadas no texto estão em correlação, separadamente, com categorias do conteú-do. Os anúncios publicitários são textos sincréticos, mas produzem, em geral, semi-simbolismos do segundo tipo. Na publicidade da imprensa escrita, por exemplo, os semi-simbolismos são, sobretudo, visuais, al-gumas vezes sonoros, mas sempre separados. Os anúncios publicitários dão ao verbal um papel principalmente racional e, por isso, raramente exploram a sonoridade da expressão verbal. Atribuem ao visual, poj sua vez, uma função fortemente sensorial e afetiva. Daí a preferência pelo semi-simbolismo visual nos anúncios publicitários, em geral, e nos de instituições bancárias, em particular.
5. Gradações entre o simbolismo e o semi-simbolismo Se há textos, raros, em que não ocorrem relações novas entre expressão e conteúdo, em que a expressão cumpre apenas seu papel de expressar conteúdos, na maior parte deles são encontradas relações motivadas entre expressão e conteúdo, de dois tipos: simbólicas e semi-simbólicas. Em outras palavras, as relações motivadas que se estabelecem entre ex-pressão e conteúdo vão desde a novidade poética do semi-simbolismo próprio de cada texto até o simbolismo culturalmente estabelecido, que perpassa diferentes textos e que estabelece, termo a termo, e não mais categoria com categoria, a relação da expressão com o conteúdo. Entre esses pólos extremos, há graus, pois nada é completamente novo ou completamente estereotipado, e produz-se sempre um vaivém en-tre a novidade e a estereotípia.
Nossa hipótese é a seguinte: a correlação textual entre uma ca-tegoria da expressão e uma caca-tegoria do conteúdo, que caracteriza
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semi-simbolismo, é condição de sua novidade e poeticidade, mas uso freqüente, a reiteração e a aceitação cultural podem levar ao apaeamento de um dos termos postos em relação, tanto no plano da expressão quanto no do conteúdo, e produzir o efeito simbólico contrário, o de estereotípia. É o que acontece, por exemplo, na re-lação entre um certo tipo de papel (mais grosso, mais liso, etc.}, no plano da expressão, e o efeito de sofisticação, elegância, no plano do conteúdo. Tudo indica que houve um sistema semi-simbólico primeiro, papel grosso e liso vs.papelfino e áspero correlacionado com
sofisticação, elegância, refinamento vs. vulgaridade, deselegânàa, grosseria,
que foi reiterado e aceito na cultura e que se tornou símbolo em uni dado momento, podendo então prescindir de um dos termos da categoria.
O semi-símbolo torna-se então um símbolo, e a novidade poéti-ca do texto cede espaço ao lugar-comum da cultura. Essas mudanças ocorrem aos pouquinhos e produzem textos que apresentam graus intermediários entre o semi-simbolismo e o simbolismo. Os textos transformam relações semi-simbólicas em relações simbólicas e vice-versa, conforme o efeito que querem produzir. Se o semi-simbolismo constrói formas novas de sentir o mundo, criando relações sensoriais novas com os objetos, razões diversas de uso (a repetição, sobretudo), em um momento histórico e em uma dada cultura, fazem dele um sistema de símbolos.Transforma-se a novidade em estereotipia e passa também a ser outro o papel da relação, agora simbólica, entre expressão e conteúdo nos textos: o de apontar os valores da sociedade, os mitos da
vida quotidiana, como foi dito por Roland Barthes.
A publicidade emprega bastante bem os dois procedimentos, o de serrü-simbolização e a sua transformação em simbolização ou, ao
con-Crário, o uso de símbolos e sua ressemantização como semi-símbolos.
Serão retomados os exemplos já apresentados do uso das cores em Propagandas de banco. Nesses anúncios, tanto se criam, com as cores, semi-símbolos, que são transformados em símbolos, quanto se
reto-símbolos da cultura, que são mudados em semi-reto-símbolos.
Análises do discurso hoje
O Bradesco, por exemplo, emprega o sistema semi-simbólico já apontado com o vermelho vs. outras cores. A cor vermelha, porém, é usada pelo banco também simbolicamente — em anúncio do Dia dos Namorados, para significar paixão, caso em que já se apagou a relação categoria] em favor de uma relação termo a termo — ou, mais fre-qüentemente, a meio caminho entre o semi-símbolo e o símbolo, ao relacionar o traço quente de sua cor identitária com a identidade, no plano do conteúdo, de banco novo, moderno, agressivo, jovem. A ca-tegoria da expressão quente vs.frio, correlacionada a do conteúdo novo, jovem, moderno vs, antigo, conservador, tem já um certo grau de
estereo-típia cultural simbólica, mas ainda não se apagou nenhum dos termos da correlação semi-simbólica.
Já o Banco do Brasil faz, em geral, o caminho inverso: o azul e o ama-relo de seus anúncios são simbólicos (ou meta-simbólicos, pois remetem à bandeira, símbolo da pátria) e próprios de banco nacional e/ou esta-tal. Nos últimos governos, porém, o banco procurou afastar-se de seu caráter nacional e, sobretudo, estatal. Para tanto usou traços cromáticos diferentes no azul e no amarelo e criou, assim, a partir dos símbolos, no-vos semi-simbousmos: azul quente vs. azul frio, correlacionados com cum-pliddade, envolvimento vs. distanciamento educado e elegante (anúncios para pessoa física vs. jurídica); amarelo quente vs. azul frio, correlacionado com envolvimento do banco com o cliente (amarelo, em anúncio de crédito) vs. seriedade, competência (azul, em anúncio de investimento), claro vs. escuro, para efeitos de sofisticação, elegância ou de seriedade, competência. Criaram-se os serni-simbolismos a partir de cores simbólicas. No inicio do Governo Lula houve a retomada do sentimento de nação, e o Banco do Brasil, assim como outros bancos, recuperou e reforçou seu caráter de banco nacional e estatal, e, conseqüentemente, suas cores simbólicas.
O Itaú, por sua vez, usou as cores azul/ laranja/ amarelo de forma parecida com o Bradesco (quente vs. frio, correlacionado com banco moderno, ágil vs. banco antiquado, emperrado). Além disso, construiu, nos seus textos, uni sistema semi-simbólico novo que pouco a pouco se transforma e leva à estereotipia simbólica:
Semiótica e retórica: um diálogo produtivo
laranja descompli cação facilitação, simplificação realidade vs. vs. vs. vs. outras cores complicação dificultação irrealidade
Esse semi-simbolismo usado, em um primeiro momento, em anún-cios de banco na internet, foi-se "engessando", com a finalidade de se tornar um símbolo do banco (um banco descomplicado, simples) e, quem sabe, mais tarde, um símbolo na nossa cultura. Aparece, atual-mente, em outros tipos de anúncios e em outras situações.
Em. síntese, os resultados desses primeiros estudos mostram que os sistemas semi-simbólicos produzem efeitos de poeticidade e, levados às últimas instâncias, fazem do texto um objeto que dá prazer estético. Já os símbolos tornam palpáveis, tangíveis conteúdos culturalmente estabelecidos e, levados às últimas conseqüências, expõem ou apontam os valores da sociedade.
Vale a pena, ainda, examinar o jogo textual de transformações ou de passagens entre o semi-simbólico e o simbólico, entre a novidade poética e estética e as determinações culturais, pois, ao tratar dessas questões também no plano da expressão e por meio dos simbolismos e dos semi-simbolismos, teremos, sem dúvida, ganhos teóricos e me-todológicos no exame dos textos e saberemos mais sobre a construção dos sentidos na sociedade.
«• Considerações finais: figuras da expressão e figuras do conteúdo
s relações simbólicas e as semi-simbólicas produzem figuras da
ex-Pressao (GARROS, 1988), como as descritas acima. As figuras da
expres-° são diferentes das figuras do conteúdo, em que, na perspectiva da "^otica francesa, se relacionam as isotopias figurativas do discurso. questões para novos estudos. Faremos, aqui, para concluir, apenas
Análises do discurso hoje Semiótica e retórica: um diálogo produtivo
duas observações sobre as relações entre figuras da expressão e figuras do conteúdo:
1) a de que as figuras do conteúdo nào são, no quadro teórico es-colhido, "figuras de palavras", mas de texto inteiro (são, por exemplo, metáforas de texto inteiro, produzidas pela relação entre duas isotopias figurativas);
2) embora as figuras do conteúdo e as da expressão sejam responsá-veis pelos efeitos sensoriais dos textos e pelas relações corporais entre enunciador e enunciatário, têm elas papéis diferentes na construção dos sentidos.
Greimas, em "Conditions d'une sémiotique du monde naturel" (1970, p. 52-56), afirma que o plano da expressão (a forma da expres-são) do mundo natural torna-se plano do conteúdo (forma do con-teúdo figurativo) das línguas naturais. Disso resulta, segundo o autor, que: "a) a correlação entre o mundo sensível e a linguagem natural deve ser buscada não no nível das palavras e das coisas, mas no das unidades elementares de sua articulação; b) o mundo sensível está ime-diatamente presente até mesmo na forma lingüística e participa de sua constituição, oferecendo-lhe uma dimensão da significação que, em outros estudos, chamamos de semíológica."1 (p. 56; tradução nossa).
Com as relações entre duas semióticas, a do mundo natural e a das línguas naturais, a semiótica propõe uma outra perspectiva de exame da referência e explica o papel das figuras de conteúdo na construção dos sentidos dos textos.
As figuras do plano do conteúdo constroem-se, dessa forma, com conteúdos já transformados, decorrentes do plano da expressão de uma outra semiótica. São relações de conteúdo, que produzem os efeitos de sentido de sensorialidade "de papel", de "linguagem", e de poeticidade
1 a) Ia corrélation entre lê monde sensible et lê langage naturel est à rechercher non au niveau dês mots et dês choses mais à celui dês imites élémentaires de leur articulation; b) lê monde sensible est irnmédiatemenc présent jusque dans Ia forme linguistique et participe à sã constituition, en lui ofifrant une dimension de Ia signrfication que nous avons ailleurs appelée sémiologíque (p. 56).
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em seu sentido mais cabal. Já as figuras da expressão estabelecem rela-ções motivadas entre a expressão e o conteúdo de uma mesma semió-tica e criam efeitos de novidade e de estereotipia cultural na leitura do mundo. São outras figuras e novas relações com a retórica.
Referências
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HjELMSLEV, Louis. Prolégomènes à une théorie du langage. Paris: Minuit,
OS LIVROS MAIS VENDIDOS: UMA
PROPOSTA DE RECONSTITUIÇÃO
DO ETHOS DO LEITOR BRASILEIRO
CONTEMPORÂNEO
Arnaldo Cortina (FCL-UNESP/CAr)
1. Introdução
Nas sociedades humanas a comunicação é um processo central e deter-minante, pois é a partir dela que as relações se instauram. Isso não signi-fica desconsiderar os fatores econômicos que estão na base das relações sociopolíticas das diferentes sociedades do planeta, como bem mostram os estudos ern sociologia e economia, mas é possível entender que esses mesmos fatores são determinados por e, ao mesmo tempo, determinam diferentes processos e veículos de comunicação. A semiótica, portanto, entendida como urna teoria que pretende explicitar "as condições da apreensão e da produção do sentido" (GKEIMAS; COURTÉS, [s/d], p. 415), revela-se como um instrumento importante para a compreensão e para a explicação de diferentes manifestações da comunicação humana.
O desenvolvimento do projeto semiótico iniciado nos anos 1960 por Greirnas voltou-se primeiramente para o desvendamento do sentido no texto escrito, no princípio o literário, depois o religioso, o político, ° jurídico, etc. Buscou-se, assim, descrever a estrutura da significação de uma unidade maior que a da frase, o que significou uma expansão dos estudos de semântica que eram realizados até então. Com o avanço ° projeto, verificou-se que a concepção de texto poderia alargar-se mais, urna vez que não se restringia mais apenas à modalidade