Curso de
Tarô
Divinatório
Fábio Donaire 2012
“Ter imaginação” é gozar de uma riqueza interior, de um fluxo ininterrupto e espontâneo de imagens. Porém, espontaneidade não quer dizer invenção arbitrária. Etimologicamente, “imaginação” está ligada a imago, “representação, imitação” e com imitor, “imitar, reproduzir”. Excepcionalmente, a etimologia responde tanto às realidades psicológicas como à verdade espiritual. A imaginação imita modelos exemplares - as Imagens – reproduzindo-os, reatualizando-os, repetindo-os infinitamente. Ter imaginação é ver o mundo na sua totalidade; pois as Imagens têm o poder e a missão de mostrar tudo o que permanece refratário ao conceito. Isso explica a desgraça e a ruína do homem a quem “falta imaginação”: ele é cortado da realidade profunda da vida e de sua própria alma.”
Mircea Eliade em Imagens e Símbolos – Ensaio sobre o simbolismo mágico-religioso
Introdução
Ganhei meu primeiro baralho de tarô, uma miniatura dos arcanos maiores que vinha com um manual de leitura, aos nove anos de idade. Alguns anos depois, aos treze, eu já realizava consultas para a vizinhança. Desde então venho me dedicando ao estudo do tarô e das ciências ocultas. Tive muitas experiências, muitas boas e algumas ruins. Rapidamente descobri que nem tudo no mundo esotérico são anjos e luzes coloridas e nem todo mundo, pelo simples fato de se autodenominar esotérico, é um ser iluminado. Entretanto conheci pessoas incríveis também, verdadeiros guias espirituais encarnados, pessoas que devotam sua vida ao bem-estar da humanidade.
O tarô, além de muitas possibilidades, é uma ferramenta de conhecimento esotérico. É possível, através do estudo sistemático e contínuo das cartas, chegar àquilo que Éliphas Levi chamou de “O Grande Arcano” do ocultismo. Mas começar o estudo do tarô sob esse ponto de vista pode ser arriscado. O risco maior é o de incorporar ideias mal elaboradas e se orientar por elas, caindo na “zona da ilusão”. Um dos problemas que encontrei – e ainda encontro muito – é o fato de alguns espiritualistas ficarem tão presos ao ponto de vista de determinados autores ou escolas esotéricas que caem facilmente no dogmatismo e na ignorância. Tornam-se cegos de tanto olharem para aquilo que eles creem ser a luz.
Por isso escrevi esse curso. Trata-se do primeiro contato com as cartas, um estudo geral de sua história, simbolismo, significado e técnicas divinatórias. É o primeiro passo na jornada do andarilho rumo à totalidade, à reintegração de suas partes negligenciadas e de cujo equilíbrio dinâmico depende a sua entrada nas dimensões mais profundas do ser – a iniciação.
Em algum momento da vida paramos. Todas as crenças negativas que temos a respeito de nós mesmos surgem com todo o seu poder de nos destruir. Não somos bons o suficiente, não somos bonitos, não nos casamos ou fizemos um péssimo casamento, somos covardes, não temos dinheiro, há pessoas melhores que nós em todos os aspectos e nossos chefes, professores, pais, maridos, esposas, namorados e amigos não se cansam de apontar nossos defeitos, onde estamos falhando. Neste momento fazemos um pacto. Criamos alguém que gostaríamos de ser ou alguém que gostariam que fôssemos e passamos a viver um personagem, um eu idealizado.
Fazemos o pacto de não sermos nós mesmos, de deixarmos de lado nossos sonhos, nossas vontades. “Vendemos nossa alma ao diabo” em troca da imagem de alguém que supomos ser melhor. Passamos a nos colocar em formas que as pessoas nos oferecem, a forma da boa educação, da obediência. Nos vestimos de acordo com o gosto dos outros ou para chamar a atenção deles; enfim, perdemos o contato com a nossa essência, com o nosso eu mais profundo e verdadeiro, e o preço disso é uma vida com algumas conquistas, mas nenhuma felicidade de fato. Existe uma diferença entre aquilo que satisfaz e aquilo que realiza. A satisfação é o alcance de um desejo efêmero, o prazer pelo prazer. Como fazer sexo com um desconhecido, que minutos depois desaparecerá e de quem algumas semanas depois sequer lembraremos. A realização é algo maior, mais profundo, e tem o alcance da alma. É como encontrar o grande amor da sua vida. As coisas que realizam reverberam uma vida inteira, quando acontecem são divisores de águas. No
pacto temos algumas satisfações, mas nos comprometemos a nunca termos qualquer realização. A Alma aspira à realização, a personalidade só conhece satisfações.
Uma condição fundamental para uma vida mais espiritual é ser guiado pelos seus sonhos, pela sua Alma. Somente quem está conectado com sua essência profunda, quem é capaz de entender e buscar realizações, é capaz dar um salto na evolução.
Somos o que somos. Não é o que o passado fez de nós, mas o que estamos fazendo conosco agora o que importa. O passado e o futuro não são reais, não têm substância, só existem em nossas mentes. O passado existe enquanto recordação e o futuro enquanto expectativa.
O espiritualista não tem passado nem futuro, tem o que ele é no momento presente, no local que seus pés pisam. Essa realidade, a do aqui e do agora, é onde ele encontra seu eixo, seu poder, sintonizando-se através de seu eu profundo, verdadeiro, seu caminho individual. E é essa a jornada do tarô, o mapa do caminho da conexão da personalidade com o Eu Superior.
O tarô clássico, padrão mais popular do baralho, é constituído por setenta e oito cartas chamadas “arcanos1” e divididas em dois grupos. Os arcanos maiores, vinte e duas cartas numeradas de I a XXI em numerais romanos. A carta “O Louco” não tem equivalente numérico. Dos baralhos numerados, nos mais antigos não há número sobre ela. Baseando-se no fato de que no sistema romano de numeração não existe um sinal para representar o zero e “O Louco” não ser numerado, é provável que seja a carta zero. Se fosse a vigésima segunda carta teria sua numeração representada como nas outras. Eu acredito que “O Louco” deva poder caminhar por todo o baralho. Numerá-lo seria limitar sua mobilidade, logo, seu crescimento. Uma segunda questão a respeito dos arcanos maiores é que a ordem das cartas nem sempre foi a mesma. A ordem que adotamos segue o padrão francês. Ainda assim existem variações, como as cartas “A Justiça” que no baralho francês ocupa a posição VIII e “A Força”, a XI carta. (propositalmente trocaremos as ordens dessas cartas em momentos diferentes desse curso para que o leitor se recorde dessa possibilidade). Nos baralhos criados pelos adeptos da Ordem Hermética da Aurora Dourada, essas posições são trocadas, sendo “A Força” a oitava carta e “A Justiça” a décima primeira.
Algumas teorias modernas, influenciadas pelas ideias do médico suíço Carl Gustav Jung, afirmam que as vinte e uma cartas dos arcanos maiores representam as vinte e uma etapas do caminho do amadurecimento psíquico e espiritual chamado por Jung de individuação e “O Louco” simboliza o indivíduo que percorre esse caminho. É o andarilho, o peregrino.
Em seguida temos os arcanos menores, cinquenta e seis cartas subdivididas em dois grupos e quatro naipes. No primeiro grupo estão as cartas da corte, dezesseis cartas que representam especificamente as pessoas: o rei,
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A palavra arcano, do latim arcanum, significa mistério. Podemos entender por arcano aquilo que não pode ser compreendido apenas pela mente racional. Para apreender um arcano é necessário usar também o conhecimento adquirido pela prática, pela intuição e pelos sentimentos. O médico e alquimista suíço Phillipus Aureolus Theophrastus Bombastus von Hohenheim, ou Paracelso, como ficou conhecido, atribuiu essa palavra aos alquimistas. Paracelso foi pioneiro na utilização terapêutica de plantas, minerais e outras substâncias. Partindo do princípio que o universo também está dentro do homem, ele afirmava que as substâncias da natureza podem agir internamente por uma questão de “afinidade” com aquilo que o homem tem dentro de si. Essa idéia não era exatamente nova na época de Paracelso mas foi ele quem mais a utilizou na prática médica.
a rainha, o cavaleiro (ou príncipe) e o valete (o pajem ou a princesa). O baralho mais antigo existente, chamado Visconti Cary-Yale, não apenas possuía as rainhas como também as cartas femininas correspondendo aos cavaleiros e pajens, ficando cada naipe com seis figuras da corte, três masculinas e três femininas, totalizando vinte e quatro figuras. O último grupo são as quarenta cartas numeradas de as a dez. Os naipes são paus (bastões), copas (taças), espadas (gládios) e ouros (moedas).
Divinatoriamente os arcanos maiores representam as forças mais profundas de uma situação, seus aspectos simbólico e espiritual. As cartas da corte representam as pessoas envolvidas na situação ou personificam aspectos fortes da situação. As cartas numeradas referem-se a fatos mais concretos e a ações, ideias ou sentimentos.
Algumas pessoas se acostumam a usar somente os arcanos maiores na leitura, dado que em alguns baralhos os arcanos menores não tem ilustrações que favoreçam a memorização de seus significados. Para superar essa dificuldade aparente os arcanos menores são negligenciados. Na minha opinião isso diminui as possibilidades interpretativas e a riqueza da consulta. Se for uma prática ocasional, não vejo problema nenhum, inclusive também é possível usar somente os arcanos menores. Mas o ideal é que o tarólogo domine as setenta e oito cartas.
A função mais comum – e que eu considero a mais importante – em uma leitura de tarô é orientar. Mas além de uma ferramenta de orientação, por que estudar tarô? A evolução espiritual pode ser definida como a mudança do ponto de vista. Evoluir significa sair da perspectiva do ego, limitada, e alinhar-se ao que temos de melhor, nosso repositório interno de sabedoria, o Eu Superior. Em uma consulta de tarô, esforçando-nos para entender as cartas selecionadas, exercitamos a capacidade que temos de ver a mesma situação sob diferentes pontos de vista. Facilitamos esse deslocamento do centro de nossas vidas para o Eu Superior. A voz da sabedoria interna, a intuição, se torna mais clara e mais fluída. A ciência comprova as diferentes funções dos hemisférios cerebrais, o esquerdo mais lógico e o direito mais holístico e simbólico. Também sabemos que para desenvolver a criatividade, o autoconhecimento e a compreensão das linguagens simbólicas, é necessário tornar o hemisfério direito mais ativo, o que o tarô nos permite com maestria. Em uma consulta desenvolvemos a compreensão do significado individual da carta, de sua relação com as cartas vizinhas e de sua posição no esquema de tiragem. Ou seja, exercitamos a interpretação, a visão do todo e a capacidade de sintetizar. E de uma forma não dogmática. O tarô é uma ferramenta séria que não perdeu seu caráter lúdico. E não existem representantes oficiais dos mistérios do tarô nem qualquer informação institucionalizada. Justamente por isso outra vantagem é a grande quantidade de modelos de baralho existentes, o que possibilita ao tarólogo trabalhar com o que mais lhe agrada. Há algumas décadas era bastante difícil encontrar um baralho de tarô. Hoje existem estilos adaptados a literalmente todos os gostos. Baralhos esotéricos, astrológicos, budistas, eróticos, com heróis de estórias em quadrinhos, baseados no calendário maia e no candomblé, entre milhares de possibilidades. Se isso também permite a criação de baralhos pouco funcionais ou significativos, essa explosão evidencia por outro lado, como disse Gareth Knight, que realmente há no tarô uma resposta às necessidades modernas. O baralho de tarô é fácil de carregar, não é como sair por ai com uma bola de cristal ou um conjunto de
instrumentos para a leitura da borra do café. Se considerarmos a qualidade e sua durabilidade, mesmo os baralhos importados acabam sendo acessíveis já que, a não ser no caso de colecionadores, possuir dois ou três baralhos é o suficiente por muitos anos. O nível de complexidade e de profundidade da interpretação é variável e depende do tarólogo. Entretanto, não há consulta mais “certa” ou “errada” e a habilidade de interpretar vai sendo desenvolvida com o tempo, naturalmente. Ninguém está absolutamente pronto e é possível mesmo aos estudiosos mais experientes ampliarem seu nível de compreensão. Seja buscando a previsão de eventos futuros, como ferramenta de autoconhecimento ou como chave dos mistérios da iniciação oculta, o contato com as cartas por si só já nos revela dimensões espirituais da existência, mesmo que em um nível de percepção inacessível à mente consciente. Por isso é possível sua utilização às cartomantes, tarólogos, psicólogos, pedagogos e a quem se dispuser a estudar as cartas e seu simbolismo. Tal como as placas de trânsito que sinalizam o caminho na estrada, o tarô nos fornece uma estrutura para o caminho do desenvolvimento interior. Em uma consulta, o consulente tem o apoio emocional do tarólogo e a possibilidade de escolher a área da vida a respeito da qual deseja ampliar sua percepção. A consulta, por não poder ser repetida, torna-se um evento mágico, único, carregado de significado e poder. Ao sistematizar o estudo do tarô, principalmente através da análise comparada, também nos aprofundamos no entendimento de outras linguagens simbólicas como a astrologia, a alquimia e a cabalá. E por fim, o tarô vem sendo utilizado há séculos por diversas ordens ocultistas, grupos de estudo, místicos, magos e mestres espirituais. Certa vez me disseram que o universo prepara os escolhidos. Eu discordo. Acredito que o universo escolhe os preparados. Dessa forma existe em torno do tarô uma enorme egrégora de Luz e Sabedoria, o estudioso sério se conecta a essa egrégora e se tiver mérito torna-se iniciado nos mistérios dos arcanos.
Outro esclarecimento preliminar diz respeito à questão dos símbolos do tarô. A área acadêmica que estuda o significado dos símbolos é a hermenêutica. Ao afirmar que a cor azul significa passividade e que um personagem de uma carta olhando para a direita conecta-se ao futuro, não estou sendo acadêmico. A abordagem hermenêutica do símbolo é diferente buscando, antes, localizá-lo no tempo e no espaço. Qual a sua história? Onde ele já apareceu? Em quais momentos históricos foi mais frequente? Quais religiões, seitas ou grupos ocultistas o consideram importante? Ainda assim, do ponto de vista acadêmico, ao símbolo não pode ser atribuído um significado fixo porque ai ele passaria a ser um sinal. Jung relacionava os símbolos a arquétipos, mas não a significados.
Por isso preciso esclarecer que as pretensões desse curso não são acadêmicas. Sou, antes, um ocultista e escrevo para pessoas que buscam experiências espirituais. Tenho o rigor acadêmico com a história do tarô, mas não estou interessado em criar um modelo imutável e definitivo de sua estrutura e funcionamento. Ao descrever as cartas e propor formas de tiragem, os métodos que utilizei foram próprios do ocultismo, do qual não me envergonho. Existe mesmo entre alguns tarólogos atuais o desprezo pelas ciências ocultas. Traçando um paralelo com outra disciplina, a psicologia, devemos nos lembrar de alguns autores de psicologia profunda que se apropriam das percepções de místicos e ocultistas, incorporam essas percepções ao seu corpo de conhecimento e depois colocam o misticismo e o
ocultismo em uma posição inferior com relação às suas “próprias” ideias. Não tenho dúvidas que sem o I-Ching, a alquimia e outras ferramentas de trabalho dos ocultistas as obras de C. G. Jung teriam tido outros rumos. E eu ainda considero o tarô mais válido para o homem ocidental que o I-Ching, por exemplo, que está estruturado em uma visão cosmogônica muito distante da cultura na qual estamos inseridos. Se as imagens propostas pelo I-Ching são características do pensamento oriental, o tarô conserva sua universalidade. Eu também estudo Jung, Joseph Campbell, Mircea Eliade e todos os grandes estudiosos da alma e dos mitos que têm algo a contribuir com meu conhecimento sobre o tarô, mas não torno o ocultismo inferior ou superior às disciplinas desses autores. As novas perspectivas da ciência, as descobertas mais recentes da física, as áreas que a psicologia vem desbravando e o próprio método científico, aliás, se aproximam muito mais daquilo que grandes tratados de ocultismo já afirmavam há séculos que do modelo cartesiano-newtoniano no qual alguns acadêmicos, e alguns tarólogos com pretensões acadêmicas, estão “amarrados”.
É por todas as razões desse prefácio que considero uma honra poder compartilhar um pouco do que aprendi todos esses anos. Não escrevi esse curso pensando no especialista, no pesquisador experiente. Minha intenção é oferecer bases seguras e comprometidas com o desenvolvimento dos talentos e habilidades de todos aqueles que estão dando seus primeiros passos na estrada que conduz ao crescimento espiritual. Entretanto, meu ponto de vista pode ser diferente do de outros tarólogos tornando o curso, de qualquer forma, uma fonte de informações inéditas a quem se dispuser a lê-lo, especialista ou não.
1. Onde a História Começa
Não existe nenhuma evidência concreta de onde ou porque as cartas do tarô foram criadas. Ao longo de sua história, que começa no fim do século XIV quando aparecem os primeiros registros escritos sobre sua existência, muitas teorias foram propostas. Desde uma criação medieval para entreter um rei louco até a referência ao continente perdido da Atlântida, o fato é que os mistérios que rondam as cartas do tarô existem desde o seu surgimento. Alguns historiadores atribuem a primeira referência escrita às cartas de jogar ao monge dominicano Johannes von Rheinfelden, que em 1377 menciona o aparecimento de um jogo de cartas. O monge cita três baralhos, de 52, 60 e 72 cartas. Outros historiadores veem como a primeira fonte confiável sobre a introdução das cartas na Europa um livro escrito em 1480 pelo historiador Giovanni Covelluzzo, da comuna italiana de Viterbo, no qual o autor afirma que os mouros trouxeram para a Itália, em 1379, um jogo de cartas conhecido como “naib”. Corroborando a origem árabe das cartas, o escritor e mestre sufi Idries Shah sugere que a palavra tarô possa ser uma derivação de “turuq”, palavra árabe usada para se referir às ordens sufis e que significa literalmente “quatro caminhos”. No ano de 1387, em Castela, um dos antigos reinos cristãos da Península Ibérica, o rei João I decreta a proibição de todos os jogos de azar, inclusive os jogos de “naib”.
Entretanto, o primeiro conjunto de cartas que pode ser identificado com o atual tarô foi pintado pelo artista Jacquemin Gringonneur à pedido do rei Carlos VI, da França, em 1392. Charles VI reinou de 1380 a 1422. O rei sofria de ataques de loucura e encomendou três baralhos esperando que a distração do jogo de cartas amenizasse seu sofrimento. A maioria dos estudiosos afirma que as cartas que pertenciam à coleção do antiquário e colecionador francês François Roger de Gaignières são hoje erroneamente atribuídas a Gringonneur. Um padre que se dedicou á pesquisa da história das cartas, Claude-Francois Pere Menestrier, declarou em seu texto publicado em 1704 “Os princípios da ciência e da arte dispostos em forma de jogos” que as cartas foram uma invenção de Gringonneur, hipótese atualmente descartada.
Quando Bianca Maria Visconti, filha ilegítima de Filippo Maria Visconti, o último governante da casa dos Visconti, nome de uma das importantes famílias da nobreza italiana na Idade Média, tinha seis anos de idade fora prometida em casamento a Francesco I Sforza, que na ocasião tinha trinta anos. Filippo, pai de Bianca, encomendara vários baralhos chamados “trionfi” cujas cartas sobreviventes são hoje as mais antigas conhecidas. Sabemos de ao menos 15 baralhos diferentes, os baralhos Visconti, algumas vezes chamados de Visconti-Sforza por retratarem membros de ambas as casas. Um desses jogos, conhecido por Brera-Brambilla devido a ter sido adquirido pelo colecionador Giovanni Brambilla, provavelmente foi pintado pelo artista Bonifácio Bembo. Outro baralho também atribuído a Bembo e confeccionado por volta de 1466 se tornou conhecido como Cary-Yale por ter sido parte da coleção da família Cary e posteriormente ter sido incorporado ao acervo da Universidade de Yale é tido pela maioria dos estudiosos como o mais antigo existente. Se antiguidade fosse sinônimo de autenticidade, os baralhos atuais deveriam seguir o padrão Cary-Yale, o baralho de oitenta e seis cartas, com vinte e quatro cartas da corte entre os arcanos menores. Além das sessenta e sete cartas restantes do
baralho original, dezenove foram recriadas e hoje a empresa U.S.Games System Inc. publica o Cary-Yale Visconti. De todos os baralhos Visconti, o que permaneceu com o maior número de cartas, setenta e quatro, é chamado Pierpont-Morgan Bergamo porque trinta e cinco de suas cartas estão na biblioteca Pierpont-Morgan de Nova York. Esse baralho foi produzido em 1451 aproximadamente.
Reza uma lenda que no fim do século XIV o pregador cristão Bernardino de Siena, posteriormente canonizado pela igreja, recebeu um jogador de cartas furioso por suas constantes perdas financeiras. O santo ordenou ao homem que pintasse as iniciais JHS nas cartas, o que foi feito e então o homem não sofreu mais nenhuma derrota. A relação entre a igreja e as cartas sempre foi controversa, em alguns momentos mostrando claramente a estreita ligação entre ambas, outras vezes marcada pelas acusações da igreja, que chegou a afirmar que as cartas foram criadas pelo próprio diabo para afastar os homens do caminho reto.
Se pensarmos que o baralho de tarô surge no fim do século XIV e se torna extremamente popular no século XV, imagens que fazem referências a mulheres em posição de destaque, principalmente na carta “A Papisa” que mostra a mulher em uma posição de poder espiritual, realmente não é estranho imaginar o incômodo que as cartas provocaram na igreja medieval.
Nessa mesma época surge uma estrutura que se tornaria clássica na confecção do baralho. Essa estrutura nem sempre foi mantida, mas foi aceita pelos ocultistas e posteriormente pelos estudiosos como padrão. Trata-se do baralho de setenta e oito cartas dividido em dois grupos. Um chamado “arcanos maiores” composto por vinte e duas cartas e outro, os “arcanos menores”, formado por quatro grupos chamados naipes com quatorze cartas cada um, totalizando cinquenta e seis cartas. Devemos lembrar que muitos tarôs não mantiveram esse padrão e nem por isso podem ser desqualificados. A tentativa de manter uma norma reflete muitas vezes a necessidade de deter o poder. Se eu sei como as coisas devem ser e se meu modelo for publicamente reconhecido, isso pode legitimar minha autoridade sobre o assunto.
No caso do tarô isso deve ser analisado com cuidado. Se por um lado esse modelo não pode ser “padronizado”, por outro nem todo oráculo formado por cartas pode ser chamado de tarô.
Existe um problema quando falamos sobre a história do tarô e dos baralhos existentes que é a tentativa que algumas pessoas fazem de ganhar notoriedade sobre um assunto muito comentado mas cujos estudos acadêmicos são pouco difundidos. Dessa forma algumas ideias acabam se tornando “verdades” não pelo que as sustentam mas pela suposta autoridade de quem as profere. Existe um antigo oráculo chinês chamado Kau cim. Esse oráculo é consultado através de varetas que ficam armazenadas em tubos de bambu. Trata-se de uma prática milenar e que originalmente utilizava cerca de cem varetas. Certa vez um autor americano afirmou que o tarô seria uma variação desse oráculo. Tamanha foi a confusão criada a partir disso que hoje nos Estado Unidos os kits de Kau cim são vendidos com setenta e oito varetas, sendo que o tarô nem sempre teve setenta e oito cartas. O que sempre recomendo aos alunos em meus cursos é estudarem, criarem autonomia e jamais defenderem o ponto de vista de um autor sem que eles mesmos tenham estudado o suficiente para sustentar o que o autor afirma.
Nenhuma pessoa que realmente entenda de tarô fala sobre sua história em termos definitivos porque quem realmente estuda o assunto sabe que desde sua origem até os desenhos das cartas o tarô é cercado de muitos mistérios e dúvidas.
O baralho cuja história veremos agora é o que se tornou popular na mais antiga cidade francesa – Marselha. O baralho de tarô inicialmente teve sua maior popularidade no norte da Itália, entretanto quase desapareceu, sobrevivendo na França e na Suíça. Quando voltou à Itália o tarô já seguia o modelo francês como padrão. Entretanto nem mesmo os baralhos de Marselha eram uniformes, sendo mais populares os produzidos por Jean Noblet (Paris, aproximadamente 1650), Jean Dodal (Lyon, aproximadamente 1701) e Nicolas Conver (Marselha, aproximadamente 1760). Um exemplo que mostra claramente o quanto os próprios baralhos de Marselha não estavam presos a um padrão é o baralho de Jacques Vieville (Paris, aproximadamente 1650). Nesse baralho não há títulos nas cartas, a ordem dos Arcanos Maiores é diferente da estabelecida em Marselha e algumas imagens são substancialmente diferentes como a carta XVI, no padrão marselhês chamada “A Casa de Deus”, que Vieville troca por uma carta sem nome mostrando um pastor sob uma árvore carregada de frutas. Na verdade quem estabelece a “legitimidade” desse modelo é o ocultista francês Papus em seu livro publicado em 1889, “O Tarô dos Boêmios”. Antes do livro de Papus o modelo marselhês era seguido por questão de popularidade e não legitimidade. Papus, que em seu primeiro livro sobre o tarô tacha o uso oracular do baralho como de menor importância diante do ponto de vista ocultista, escreve em 1909 o “Tarô Divinatório”, um manual completo de adivinhação pelas cartas que vinha com um baralho inspirado na criação de outro francês, Eteilla. Se Papus atribuiu ao estilo de Marselha o privilégio de “tarô oficial”, foi o cartomante Paul Marteau que o tornou popular após ter orientado a “recriação” do baralho para a editora Grimaud por volta de 1930, seguindo o padrão de Nicolas Conver.
Outro modelo de baralho, diferente do padrão francês, é o tarô de Bolonha. O mais famoso tarô bolonhês foi pintado entre 1660 e 1665 pelo artista Giuseppe Maria Mitelli para a família Bentivoglio de Bolonha. Uma característica do baralho de Mitelli é a ausência dos nomes e dos números das cartas, o que torna bastante difícil colocá-las em alguma ordem.
Os baralhos com maior distinção do chamado tarô clássico são os italianos. O tarocchini (Bolonha, Itália) com 62 cartas, o Tarocco Siciliano (Sicília, Itália) com 64 cartas, o Minchiate (Florença, Itália) com 97 cartas sendo 40 arcanos maiores, 4 naipes com 14 cartas cada mais o coringa (O Louco) e o baralho mais citado como variante do tarô, o famoso Mantegna Tarocchi com 50 cartas, 5 séries de 10 cartas cada.
2. Do Mundo Primitivo ao Mundo Moderno
O pastor protestante Antoine Court de Gébelin publicou em 1781 o oitavo volume de sua obra "O Mundo Primitivo Analisado e Comparado ao Mundo Moderno". Neste volume Gébelin, que também era maçom, inclui um ensaio denominado "Tarô", no qual afirma sem nenhuma evidência histórica que as cartas são uma criação de sacerdotes egípcios e que nelas estaria contido o misterioso "Livro de Toth". Gébelin também afirma que o tarô esteve em Roma, ocultado pelos papas até o século XIV, quando foi levado à França. O autor associa as palavras egípcias tar (caminho) e ro, ros ou rog (real) à palavra tarô, cuja tradução seria “o caminho real da vida”. O conde Mellet, que escreveu um ensaio também incluído por Gébelin em seu livro, faz a associação entre as cartas do tarô e o alfabeto hebraico e seu uso divinatório. A partir dessa obra começa o interesse dos ocultistas pelo baralho. Ainda que a obra de Gébelin não seja reconhecida pelos historiadores modernos como uma fonte confiável de dados históricos, não podemos negar seu mérito em ter popularizado o tarô como um depositório de sabedoria. Gébelin também introduziu teoria de que os ciganos teriam difundido o tarô pela Europa. Sabemos que dificilmente isso seria verdade mas essa tenha sido, talvez, a primeira vez que alguém associa o tarô à divinação e afirma que os ciganos já liam e conheciam as cartas.
O ocultista francês Jean-Baptiste Alliette, fascinado com as ideias de Gébelin, escreveu em 1785 um livro chamado "Como entreter a si mesmo usando um jogo de cartas chamado tarô", o primeiro manual de tarô divinatório. Alliette, que se autodenominava Etteilla (seu nome invertido) também se tornou o primeiro ocultista a transformar as consultas ao tarô em uma profissão. Etteilla argumentava que tinha sido apresentado à arte da cartomancia em 1751, bem antes da obra de Gébelin. De fato, onze anos antes de “O Mundo Primitivo...” ele publicara um baralho conhecido como “Pequeno Etteilla” (Rei, Rainha, Valete, ás, dez, nove, oito e sete de cada naipe mais uma carta denominada “Etteilla” perfazendo um total de trinta e três cartas) e um manual de cartomancia descrevendo a adivinhação através do baralho comum. Em 1788 Etteilla criou o primeiro baralho de tarô especificamente ocultista, resultado de comparações com outros sistemas como a astrologia e o estudo dos símbolos. Etteilla foi além de Gébelin sobre a origem egípcia das cartas, afirmando que elas foram criadas por dezessete magos, descendentes de Mercúrio-Thoth, no Templo do Fogo localizado perto de Memphis, exatamente 1828 anos após a criação ou 171 anos após o Dilúvio, que o tarô teria exatamente 2125 anos de idade quando ele publicou seu livro. Entretanto, como Gébelin, Etteilla não tinha nenhuma evidência concreta dessas ideias.
O trabalho de Etteilla, que já foi chamado de charlatão por muitos ocultistas, teve mais repercussão que podemos suspeitar. Um exemplo está no “baralho cigano”.
Durante muito tempo foi divulgado que Marie-Anne Adelaide Lenormand nasceu em 27 de maio de 1772, na cidade francesa de Alençon. Segundo as pesquisas mais recentes acredita-se que ela tenha nascido em 16 de setembro de 1768. Batizada com o mesmo nome de uma irmã falecida anos antes, desde criança Lenormand fazia previsões. Educada em uma instituição religiosa, ela causava escândalo entre as religiosas por conta de suas previsões, sempre infalíveis. Sua fama levou-a a Paris, onde permaneceu até o começo da
Revolução Francesa. Em Paris Lenormand conheceu a cartomante Madame Gilbert, que lhe ensinou a adivinhação através do tarô de Etteilla. Poucos anos depois Lenormand atendia em seu escritório particular celebridades como Jean-Paul Marat, Maximilien de Robespierre e Louis Antoine de Saint-Just. A confiança que a esposa de Napoleão Bonaparte, Joséphine de Beauharnais, depositava em Lenormand fez com que sua fama se espalhasse ainda mais, o que não foi de todo bom, já que o próprio Napoleão ordenara-lhe a prisão em 1803 e em 1809. Entretanto a sibila nunca perdeu sua fama e quando faleceu, aos 71 anos em Paris, deixou uma fortuna considerável. Lenormand não criou nenhum baralho. Ela usava cartas do baralho comum com o significado anotado na parte superior segundo as atribuições de Etteilla, o que deu a ideia para a criação de baralhos cujas ilustrações representassem pictoricamente o significado de cada carta, ideia posteriormente aproveitava por Arthur Edward Waite na criação dos arcanos menores de seu tarô. Muitos baralhos foram desenvolvidos sob o nome “Lenormand”. Na Alemanha um desses baralhos, o Petit Lenormand, que tem 36 cartas e é conhecido no Brasil como “baralho cigano” é quase tão popular quanto o tarô.
Por falar em ciganos, quando eu tinha vinte e um anos, resolvi estudar minha árvore genealógica e descobri que meu avô paterno era descendente de ciganos calós franceses que emigraram da França para a Espanha, se estabelecendo em Granada (na minha ascendência, toda proveniente da Espanha, tenho uma feliz mistura de ciganos calós e judeus sefaraditas). Eu já sabia que era descendente de ciganos mas confirmar essa informação despertou em mim um grande interesse pela cultura desse povo. Os ciganos vieram de uma região entre a Índia e o Paquistão e se espalharam pelo mundo. Os calós foram para Portugal, França e Espanha e são o povo cujo estilo é o mais próximo da imagem popular que temos desse povo, coloridos, dançando ao redor da fogueira e lendo a sorte. Nesse ano, 1999, procurei um acampamento e passei alguns meses frequentando as festas, encontros sociais e, principalmente, aprendendo com os mais velhos um pouco da magia e das tradições. A tribo com quem convivi tinha vindo da Espanha. Ao contrário do que alguns ciganos brasileiros afirmam, eles nunca tinham ouvido falar do “baralho cigano” e liam a sorte com o tarô mesmo ou com as cartas do baralho comum. As mulheres exibiam belos exemplares de tarôs franceses que via-se serem bem antigos. Isso, entretanto, não diminuiu o carinho que tenho pelo baralho Lenormand, que inclusive, profissionalmente, foi o primeiro que usei. (Qualquer método deste livro pode ser realizado utilizando-se o baralho Lenormand, cujos significados das cartas estão no apêndice).
Os ciganos são reconhecidos em todo o mundo como mestres da cartomancia e detentores de segredos ocultos poderosos. Não sei se hoje em dia as coisas são exatamente assim mas não duvido nem um pouco que uma aura mágica paira sobre o acampamento e muitas coisas no mínimo intrigantes são vivenciadas cotidianamente. O que sinto é que existe uma sabedoria cigana impressa na natureza aguardando as pessoas preparadas, que existem, para acessá-la. No entanto, entre os mais velhos, e mais sábios, não conheci nenhum que gostasse muito do contato com os não-ciganos.
O grande ocultista francês Alphonse-Louis Constant, que nasceu em 1810, em Paris teria sido ordenado padre se não tivesse confessado seu amor por uma jovem pouco antes da ordenação. Em 1854 Alphonse publica Dogma e Ritual de Alta Magia, seu primeiro livro sob o pseudônimo que seria
mundialmente reconhecido: Éliphas Levi Zahed. Levi, que já tinha publicado muitos livros antes, estrutura essa obra em vinte e dois capítulos, correspondendo-os ao vinte e dois arcanos maiores do tarô. No entanto, pouca informação sobre o tarô propriamente dito é encontrada no livro. Há, é claro, a possibilidade de estabelecer alguma relação entre cada capítulo e o que Levi atribuia à carta correspondente, no entanto, além da grande inspiração que Levi causou em seus sucessores como Jean Baptiste Pitois, que foi seu discípulo direto, Papus, que escolheu seu nome iniciático num texto publicado no prólogo do Dogma e Ritual de Alta Magia, e Aleister Crowley, que acreditava piamente ser a reencarnação do próprio Éliphas Levi, nada de relevante sobre o tarô pode ser encontrado nessa obra. Outro livreto de Levi, Sanctum Regnum publicado postumamente trata especificamente do tarô.
Gérard Encausse, um médico e ocultista espanhol educado na França e que adotou o pseudônimo de Papus, foi o autor que escreveu o primeiro livro que sistematiza o estudo esotérico do tarô. “O Tarô dos Boêmios” foi publicado em 1889 com ilustrações do baralho do ocultista suíço Oswald Wirth. Wirth, que era um artista amador, estudou ocultismo com Stanislas de Guaita, de quem foi secretário, e criou em 1889 um baralho inspirado no modelo marselhês no qual incorpora símbolos astrológicos e maçons. Sua intenção era, junto com Stanislas de Guaita, recriar o tarô original que Lévi afirmara ter existido. Papus usou essas imagens em seu livro. Uma confusão que acontece até mesmo fora do Brasil é atribuir as ilustrações de O Tarô dos Boêmios ao artista Jean-Gabriel Goulinat, que na verdade criou as ilustrações de um outro livro de Papus lançado em 1909 chamado “O Tarô Divinatório”. Os desenhos de Goulinat, inspirados nos baralhos de Etteilla e de Paul Christian, mais tarde seriam lançados como baralho. Provavelmente a origem dessa confusão está no fato de edições posteriores de O Tarô dos Boêmios trazerem as ilustrações de Goulinat.
Paul Christian foi outro discípulo de Levi. O francês Jean Baptiste Pitois, que ao mudar para Paris se tornou amigo de Charles Nodier, iniciou sua carreira como jornalista e adotou o pseudônimo de Paul Christian, que usava para assinar seus artigos, foi influenciado pelas ideias do amigo Nodier, um escritor da geração romântica interessado em contos obscuros, vampirismo e magia, passando a se interessar pelo ocultismo. Pitois escreveu sobre o tarô, reviu e ampliou a associação das cartas com a astrologia, desenhou um baralho de estilo egípcio e influenciou todos os estudiosos posteriores. Entre as contribuições de Pitois está o fato de ter utilizado o termo arcano, que encontrou nos escritos de Lévi, para se referir às cartas do tarô. Pitois também descreve em seu livro “História e Prática da Magia”, publicado em 1870, uma cerimônia egípcia na qual o candidato à iniciação percorreria uma galeria formada por vinte e dois quadros, onze de cada lado, que corresponderiam aos vinte e dois arcanos maiores. Se essa descrição não convenceu os historiadores, ao menos serviu como uma das fontes para a criação dos rituais daquela que se tornaria a mais influente escola de ocultismo dos séculos XIX e XX: a Ordem Hermética da Aurora Dourada, em inglês Hermetic Order of the Golden Dawn, criada por William Robert Woodman, William Wynn Westcott e Samuel Liddell MacGregor Mathers na Grã-Bretanha no fim do século XIX, e que se tornaria o instituto mais popular de ensinos ocultistas da história. Não vou entrar em detalhes sobre a Ordem, que já possui uma bibliografia bem extensa, para os fins deste livro basta dizer que foi uma Ordem paralela à
maçonaria inglesa e que teve como resultado fornecer a estrutura básica que daria origem à quase todas as Ordens posteriores, como exemplo a AMORC (Harvey Spencer Lewis, que fundou a AMORC, foi um ex-membro da Golden Dawn que em uma das várias cisões que a Ordem sofreu aproveitou a oportunidade e fundou a AMORC, clamando para si uma suposta origem egípcia de sua nova ordem, bem ao gosto dos magos da Golden Dawn). Outro legado da Golden Dawn, embora exista um verdadeiro movimento que procura refutar esse fato, é a wicca. Um dos fundadores da Golden Dawn, Samuel Liddell MacGregor Mathers, publica em 1888 um pequeno texto intitulado “O Tarô” no qual descreve as cartas, seu significado divinatório, algumas correspondências simbólicas, métodos de leitura e um método de usar o tarô como jogo comum, de azar. Entretanto, a influência da Golden Dawn sobre o estudo do tarô seria amplamente disseminada a partir de dois de seus membros.
Em 1891 Arthur Edward Waite se tornou membro da Golden Dawn. Waite também foi um grande ocultista inglês e foi o co-criador do baralho de tarô mais popular nos países de língua inglesa. A editora Rider foi inaugurada na Grã-Bretanha em 1908, dirigida por William Rider. Sob a supervisão editorial de Ralph Shirley a Rider começou a publicar uma vasta gama de livros esotéricos e em 1909 lançaria seu maior sucesso: o tarô Rider-Waite. O título do baralho deveria incluir o nome de Pamela Colman Smith, a artista, escritora e ilustradora que sob a supervisão de A. E. Waite confeccionou o baralho. Em 1910 o baralho passaria a vir acompanhado de um manual de autoria do próprio Waite chamado “A Chave do Tarô” Um ano depois uma versão revisada do manual chamada “A Chave Pictórica do Tarô” seria lançada. Em 1918 o escritor ocultista americano L. W. de Laurence lançou o mesmo livro sob o nome “A Chave Ilustrada do Tarô” sem atribuir a autoria a Waite. Outro grande “best-seller” da Golden Dawn foi Edward Alexander Crowley, conhecido como Aleister Crowley, a figura mais controversa do ocultismo contemporâneo e que ao mesmo tempo é considerado por alguns o maior ocultista que já existiu. Ele zombava das religiões institucionalizadas, dava declarações polêmicas à imprensa, rompeu com a Ordem Hermética da Aurora Dourada, da qual tornara-se membro em 1898, recebeu mediunicamente um livro sagrado que ditou à uma de suas esposas enquanto viajavam pelo Egito, publicou alguns segredos guardados à sete chaves pelas ordens das quais fez parte e nos deixou um legado de valor incalculável: seu baralho conhecido como Tarô de Thoth.
Outro nome que tornou-se importante no estudo do tarô é Paul Foster Case, o ocultista americano do início do século XX que publicou um baralho que, segundo ele, é uma versão corrigida do baralho de Waite. Case foi membro da Golden Dawn e chegou a ser o responsável pelas atividades da ordem na América, porém, após um conflito com Moina Mathers, a esposa de Samuel Liddell MacGregor Mathers, abandonou a ordem e fundou seu próprio grupo. O baralho recebeu o nome do círculo esotérico de Case, Builders of the Adytum, os “Construtores de Adytum”, conhecido como B.O.T.A. O grupo, que permaneceu seguindo a mesma linha de trabalho da Golden Dawn e de outros grupos para-maçônicos, recebeu esse nome porque adytum, do grego adytom, é a palavra latina usada para se referir à parte secreta, inacessível do templo. De fato os membros do B.O.T.A. guardavam os segredos do grupo a sete chaves. Case, que publicou seu tarô em preto e branco permitindo a cada
estudante colorir seu próprio baralho, sempre enfatizava a ideia que o baralho deveria ser usado para meditação e não para a leitura da sorte. Entretanto o ocultista publicou um livro sobre tarô com métodos de consulta, alegando que existe diferença entre a leitura da sorte e a divinação.
Em 1984 foi publicado em francês, com o prólogo escrito pelo padre católico Hans Urs von Balthasar, um livro de autor anônimo intitulado "Meditações sobre os vinte e dois arcanos maiores do tarô". Quem seria o autor desse livro misterioso que na mesma década serviria de base para os escritos dos primeiros livros de um dos autores mais populares da história, Paulo Coelho?
Valentin Arnoldevitch Tomberg nasceu na Rússia, no ano de 1900. Desde cedo um incansável estudioso do misticismo cristão e praticante do catolicismo ortodoxo russo, Tomberg também se interessou por teosofia e pelo hermetismo de G. O. Mebes. Nos anos 20 Tomberg se filiou à Sociedade Antroposófica, da qual seria “convidado a se retirar” em 1940 após ter ocupado posições de liderança dentro do movimento. Mais tarde ele se converteu ao catolicismo romano. Valentin Tomberg escreveu um livro cuja recepção dos leitores, ele acreditava, não deveria ser influenciada pela vida de seu autor e por isso determinou que o livro fosse publicado postumamente sem identificar a autoria. Meditações sobre os 22 arcanos maiores do tarô, escrito em francês e publicado pela primeira vez na França em 1984 (uma edição “vazou” na Holanda quando Tomberg ainda estava vivo, o que causou reprovação por parte do autor), ainda não foi “digerido” pelos leitores ocultistas, trata-se de um livro complexo e recheado de conceitos cuja compreensão, aparentemente simples, demanda anos de estudos e meditação. Muitas pessoas leem o livro e saem com o sentimento de terem entendido, entretanto, há quem afirme que o autor foi um dos últimos responsáveis pelo conhecimento da Ordem dos Templários (sem teorias conspiratórias, Maria Madalena ou Leonardo da Vinci. Tomberg era um erudito, jamais teria se deixado levar por essas coisas) e que o seu livro seria uma segunda bíblia com o conhecimento que permitiria a plena compreensão dos aspectos ocultos da bíblia cristã, uma tarefa nada fácil.
Além de um excelente estudo do tarô em seu aspecto ocultista, o livro de Tomberg influenciou muitos autores posteriores como o Dr. Robert A. Powell e o brasileiro Paulo Coelho. Muito do que lemos nos primeiros livros de Paulo Coelho e que o autor atribui a seu mestre pode ser encontrado nos escritos de Tomberg. Outro fato curioso é a aceitação de seu livro pela igreja católica, tendo sido prefaciado por uma das maiores autoridades da igreja no século XX, o cardeal Hans Urs von Balthasar. Em uma foto do Papa João Paulo II vemos os livros de Tomberg sobre sua mesa de trabalho, quem tiver interesse não terá dificuldades para encontrá-las usando um dos maiores “oráculos” que o mundo contemporâneo criou: o Google.
Carta “O Louco” do Tarô Gaignières, baralho
erroneamente atribuído a Gringonneur
“O Louco” do baralho Pierpont-Morgan Bergamo, que pertence ao grupo conhecido por Visconti-Sforza
Carta “O Mago” do tarô de Marselha publicado em 1983 pela empresa espanhola Heraclio
Fournier. Rico em cores e detalhes, esse baralho é uma releitura da versão do baralho
criada pela Casa Grimaud nos anos 30.
O tarô suíço recebeu a designação de JJ porque troca as cartas “A Papisa” e “O Papa”
Ilustração de Jean-Gabriel Goulinat para o livro “O Tarô Divinatório” lançado por Papus
em 1909.
Carta do Tarô Egípcio da editora argentina Kier, lançado na versão colorida em 1971. A primeira versão, em preto e branco, foi criada pelo ocultista Jesus Iglesias Janeiro para seu livro La Cabala de Predicción, lançado no
3. Exercício com os Arcanos Menores
Embora haja muita teoria a ser estudada sobre o tarô, esse curso foi planejado tendo em vista quem está dando os primeiros passos na compreensão das cartas. Para evitar o erro que as pessoas cometem ao “decorar” os significados ao invés de entender como esses significados são atribuídos, vamos iniciar o estudo das cartas com um exercício de compreensão dos elementos simbólicos. Um alerta: não devemos jamais confundir imagens e conceitos. Os conceitos são intelectuais e quando chegam a seu limite, ou seja, quando não são mais capazes de abarcar as percepções, surgem as imagens. O limite do conceito é a contradição e as imagens abarcam as contradições. Reproduzo aqui as palavras de Alberto Cousté em seu livro “Tarô ou a máquina de imaginar” sobre a tentação de atribuir às cartas significados fixos ou de ser dogmático: “O oráculo é mutável, como os homens que o interrogam. Se me refiro a alguns deles, é somente porque a sua experiência merece ser tomada em conta como ponto de partida. Assim, as referências a Wirth, Ouspensky ou Marteau não são de forma alguma canônicas, mas sim produto da necessidade de estabelecer um modelo operativo. Sabemos que o tarô não tem um autor; que é fruto de uma soma de indivíduos, da paciência dos séculos. Podemos imaginar que esta proposta se completa no outro extremo da equação: ninguém acabará de ler este livro que ninguém escreveu, porque o olhar de quem o lê torna a escrevê-lo; se as formas são convertidas em palavras durante o curto tempo que dura uma leitura, é somente para encarnar num fantasma o rio imaginário; para usar dessas formas o que elas têm de sensíveis, e em seguida devolvê-las ao silêncio.” (COUSTÉ, A. 1983, p. 91 e 92).
Para começar, leia o que significam os números, naipes e cartas da corte. Em seguida, associe cada carta numerada e cada carta da corte a cada naipe. Por exemplo, se os Reis são cartas de atividade, como essa atividade acontece no naipe de copas, que está relacionado aos sentimentos? E o cinco, que é um número que sempre traz resultados desfavoráveis, como atua no naipe de espadas, que é relacionado à luta? Escreva suas próprias associações nos formulários dos arcanos menores. Se preferir, consulte a tabela com as palavras-chave disponibilizadas no Tarô de Thoth, de Aleister Crowley, reproduzida na próxima parte. Quando terminar o exercício compare suas respostas com os significados resumidos dos arcanos menores no fim do livro. Associe ambas as possibilidades, estabeleça um diálogo entre as diferentes perspectivas.
4. Pequeno Guia dos Símbolos
Cores
Amarelo – estimula as ideias, cor do trabalho espiritual. Anil – purificação, compreensão espiritual, sensibilidade. Azul – passividade, frescor, calma, inércia.
Branco – pureza, inocência, consciência, totalidade. Laranja – excitação, vitalidade, sensualidade.
Preto – matéria, conservação, discrição, proteção.
Verde – equilíbrio, crescimento, renovação, regeneração.
Vermelho – atividade, energia, empenho. Representa o espírito ativo
que sobrepuja a inércia.
Violeta – espiritualidade pura, misticismo.
Formas
Círculo – representa a totalidade, o mundo, o ciclo. Crescente – sabedoria, o feminino, receptividade.
Cruz – representa a relação com o mundo material. De sofrimento, se o
mundo material sobrepujar a inteligência, e de vitória, se a inteligência estiver acima das forças do mundo material. Intersecção entre a linha vertical (masculino, racional, espaço) e a linha horizontal (feminino, intuição, tempo). Também relacionada ao carma.
Estrela – plano espiritual.
Lemniscata (∞) – integração entre o consciente e o inconsciente.
Eternidade. Conexão com o Eu Superior.
Ponto – representa a alma.
Quadrado – matéria. Os quatro elementos. Estrutura. Limitação. Torre – elevação aos planos superiores.
Triângulo – no geral mostra movimento, energia direcionada para um
fim. Com o vértice para cima representa a evolução, ascensão. Com o vértice para baixo representa a criação, a concretização.
Direção e posição das figuras
Caminhando – movimento, transição. Em pé – atenção, atividade.
Olhando para a direita – idealismo, futuro.
Olhando para a esquerda – nostalgia, passado, experiência.
Olhando para frente – presente, conexão com o centro da alma,
enfrentamento.
Sentada – descanso, tranquilidade, passividade. (nesse caso observe o
Imperador, que está em pé, porém encostado no trono).
Suspenso – sem contato com a realidade (como no Enforcado ou nos
personagens da Roda da Fortuna).
Elementos Naipe Paus (Bastões) Copas (Taças) Espadas (Gládios) Ouros (Moedas)
Elemento Fogo Água Ar Terra
Estação do
Ano Verão Outono Primavera Inverno
Simbolismo Ousar. A iniciativa e a expressividade. Entusiasmo, espontaneidade, autoritarismo, violência. A transformação, a vitória em meio às adversidades. Querer. Sensibilidade, a emotividade e a empatia. O instinto. Necessidade de ser fluído, maleável. Receptividade, intuição, indecisão, autoindulgência. Saber. Pensamento racional, a intelectualidade e a sociabilidade. O conhecimento. Os voos, a liberdade. Necessidade de refletir, de se distanciar da situação. Desafios. Mente aberta, poder de comunicação, frieza, falta de senso prático. Calar. Estabilidade, a praticidade e o contato com a realidade. A rotina. Insensibilidade, avareza. Apoio, alicerce, necessidade de perseverança. Cartas da
Corte Rei (atividade)
Rainha (receptividade) Cavaleiro ou príncipe (condução, transporte) Pajem, Valete ou Princesa (cristalização) Números
XII Ordem celestial, salvação, cura.
XI Opostos que não se harmonizam, excesso, transição.
X Abundância, manifestação no mundo material. Retorno à unidade.
IX Número lunar, os nove meses de gestação, a personalidade, oscilações, deslocamentos, mulheres, viagens curtas, o mar. VIII Negócios, comércio, habilidades intelectuais, troca, notícias, renovação.
VII Afeto, beleza, juventude, diversão, mas também conclusões, período de transição que exaure, ordem perfeita, graça, conclusão de ciclo. VI Iluminação, crescimento, sucesso, parcerias, prosperidade, a alma humana, consciência do eu.
V Crises que fazem crescer, perigo, vitalidade, energia, a quintessência, o ser humano.
IV Expansão, fartura, viagens longas, generosidade, mundo manifesto.
III Equilíbrio, estabilidade, maturidade, síntese.
II Criatividade, imagem refletida, sabedoria, harmonização, rivalidade, eco, sombra.
I Novidades, oportunidades, começos, foco.
Palavras-chave (Crowley)
Paus Copas Espadas Ouros
10 Opressão Saciedade Ruína Riqueza
9 Força Felicidade Material Desespero e
Crueldade Ganho Material
8 Rapidez Indolência Interferência Prudência
7 Bravura Deboche Futilidade Fracasso
6 Vitória Prazer Ciência Sucesso Material
5 Disputa Desapontamento Derrota Preocupação
4 Conclusão Luxúria Trégua Poder Mundano
3 Virtude Abundância Sofrimento Trabalho
2 Domínio Amor Paz Mudança
Paus Rei (ou Cavaleiro, segundo Crowley) Rainha Cavaleiro (ou Príncipe) Pajem (Valete ou Princesa) I II III IV V VI VII VIII IX X
Copas Rei (ou Cavaleiro, segundo Crowley) Rainha Cavaleiro (ou Príncipe) Pajem (Valete ou Princesa) I II III IV V VI VII VIII IX X
Espadas Rei (ou Cavaleiro, segundo Crowley) Rainha Cavaleiro (ou Príncipe) Pajem (Valete ou Princesa) I II III IV V VI VII VIII IX X
Ouros Rei (ou Cavaleiro, segundo Crowley) Rainha Cavaleiro (ou Príncipe) Pajem (Valete ou Princesa) I II III IV V VI VII VIII IX X
5. Exercício com os Arcanos Maiores – O Caminho do Andarilho
Em sua viagem em busca de si mesmo o andarilho encontra vinte e duas figuras nas quais vê refletidos aspectos de sua própria alma. Com base nessa ideia, analise os Arcanos Maiores do seu baralho. Primeiro descreva os elementos de cada carta (adereços, cores, números e quaisquer elementos que parecerem importantes. Algumas sugestões serão oferecidas baseando-nos no baralho de Marselha Fournier). Depois pesquise em dicionários de símbolos o que cada elemento pode representar e atribua a esses elementos significados de acordo com o conhecimento adquirido. Leve em consideração as cores, formas geométricas e leitura corporal dos personagens. Por exemplo, os elementos que aparecem em pares (duas colunas, dois cavalos, duas pessoas, dois animais etc.) podem ser associados à renovação (Sol, independência, equilíbrio, orgulho. O hemisfério direito do cérebro) e à tradição (Lua, proteção, lealdade familiar, dedicação, fidelidade. O hemisfério esquerdo.) ou à ying e yang.
I – O Mago
chapéu cinto
mesa quadrada quatro objetos
O Mago nos ensina a habilidade técnica, o conhecimento preparatório para a jornada. Também é necessário entender que a descoberta dos objetivos superiores não ocorre quando olhamos apenas para o alto, mas quando captamos o que vem do alto e direcionamos para o mundo material, o palco onde a cena toda acontece. Se a vontade humana foi coroada pela Vontade Divina vemos acontecer aquilo que chamamos de milagre. Momento de comprometer-se, de busca e de trabalho intenso que pode gerar desgaste.
II – A Papisa (ou A Sacerdotisa) coroa cruz duas colunas livro manto véu
Enquanto o conhecimento do mundo objetivo é adquirido, um outro tipo de conhecimento, mais interno, vai sendo gerado. A semente do Mago encontra solo propício nas profundezas da Papisa. É necessário aprender a ser discreto. Aqui ocorre o encontro com o Poder Feminino. A Papisa é uma mulher perfeita não porque se
submeteu ao modelo de
comportamento socialmente atribuído à mulher, mas porque se conectou com a verdadeira fonte de poder, que é interna. Momento de discernimento e bom senso.
III – A Imperatriz asas cetro coroa escudo grama
Se uma semente encontra solo propício, ela germina e vemos os resultados. A Imperatriz diferencia-se da Papisa por não ser perfeita, entretanto, é uma mulher real, não idealizada. Momento de otimismo e deleite, de não se deixar perturbar, aceitar as limitações da condição humana e colher os primeiros frutos da jornada.
IV – O Imperador cetro elmo escudo medalha pernas cruzadas posição da mão trono
Aquilo que foi conquistado traz recursos e poder. Os recursos precisam ser organizados, ainda há muito por fazer. E a ideia de poder precisa ser elaborada para que não se torne tirania. Se o poder for entendido como capacidade de realização, diferente de autoritarismo e hierarquia,
é possível caminhar
despreocupadamente, pois o sucesso estará garantido. Momento de estabilidade, continuidade e luta por melhorias.
V – O Papa (ou O Hierofante) capa colunas coroa cruz luva sinal da mão súditos
Essa elaboração que torna o poder um recurso a serviço do crescimento interior acontece quando temos claro o propósito espiritual mais elevado da jornada. Quando ouvimos nossa voz interior e permitimos a intervenção espiritual de nosso Eu Superior não corremos o risco de nos perder no caminho. O rigor assegura a continuidade da jornada. Momento de disciplina e aprendizado.
VI – Os Amantes
cupido três pessoas
Manter o centro diante de tantos caminhos aparentemente opostos é o próximo desafio. Nos Amantes não perdemos a inspiração divina adquirida nas cartas anteriores mas aqui precisamos aprender a assumir as consequências de nossas escolhas. Muitas pessoas, justamente pela falta de maturidade em assumir que o que acontece em suas vidas é resultado de decisões passadas, acham que é possível não fazer nenhuma escolha. Vivem em cima do muro. Mas permanecer em cima do muro também é uma escolha – e com as piores consequências possíveis. Momento de se responsabilizar e de compreender a liberdade como condição na qual o amor se realiza.
VII – O Carro armadura carruagem cavalos cetro coroa dragonas
Ao nos responsabilizarmos pelo nosso caminho e assumirmos nossa personalidade nos tornamos senhores de nós mesmos. A personalidade orientada pelos desígnios do Eu Superior caminha seguramente, conquistando aos poucos os tesouros da jornada. Momento de triunfo.
VIII – A Justiça balança espada touca trança trono
Centrados em nosso Eu Superior, naturalmente deixamos de julgar nossas experiências como boas ou ruins. Entendemos que tudo o que nos acontece é para o nosso crescimento. Para nos mantermos centrados e ao mesmo tempo superarmos os desafios, precisamos segurar a espada do discernimento e a balança da ponderação. Momento de austeridade, integridade e imparcialidade.
IX – O Eremita
bordão gorro lanterna manto
Uma habilidade esquecida nos dias atuais é a circunspecção, ou seja, olhar atentamente uma situação de todos os lados. Após aprendermos a lição da Justiça é possível se dedicar ao estudo, à observação silenciosa, à clarificação das ideias obscurecidas pelo turbilhão de pensamentos e imagens mentais que caracterizava o estado anterior. Essa é o momento da quietude espiritual, revelação e prudência.
X – A Roda da Fortuna
roca
seres sobrenaturais
Também aprendemos a aceitar aquilo que não pode ser mudado. Existem coisas que não podem ser evitadas porque são as consequências de escolhas anteriores mas que nos servem de objeto de estudo para aprendermos a fazer escolhas mais acertadas no presente que moldarão nosso futuro. Entretanto, absolutamente nada é contínuo. A impermanência caracteriza a existência no mundo material. Momento no qual o êxito depende da aceitação.
XI – A Força
chapéu leão
posicionamento da boca do leão
Aprendemos até aqui que tudo é energia e que o que chamamos de mal é só uma frequência fora da sintonia adequada. Uma energia aparentemente ruim, se estivesse no lugar certo, produziria resultados bons. Assim, ao dominar a frequência de nossas próprias vibrações podemos produzir sucesso ou fracasso. Momento de colocar a sabedoria acima da visão fragmentada, parcial, de mobilizar a coragem e dominar as crenças negativas, medo, raiva, mágoa e tudo aquilo que nos impede de caminhar.
XII – O Enforcado
forca formada por tronco com seis galhos cortados em cada lado
posição das mãos posição dos pés
Chegamos a um ponto em que descobrimos muitos talentos e habilidades, que podem ser usados para nos aproximarmos de nossas próprias verdades ou para servir aos interesses alheios, correndo o risco de nos sacrificarmos por tiranos, deixar de lado nosso próprio caminho para apoiar interesses escusos e mesquinhos de outras pessoas. Essa é a questão que O Enforcado propõe. O sacrifício é necessário mas se sacrificar pelo quê? Qual é o preço a ser pago quando deixamos nossos sonhos de lado? De que forma cedemos às pressões do grupo no qual estamos inseridos? Quando é necessário ceder e quando é necessário nos mantermos firmes em nossas próprias verdades? Momento de se questionar e de estabelecer prioridades.
XIII – A Morte
caveira em decomposição ou regeneração
cor da vegetação pedaços de corpos
No momento seguinte é necessário transformar o aspecto externo da situação mas não a sua essência. A essência é imutável, é o centro imóvel da Roda da Fortuna, e corresponde ao nosso propósito espiritual, à missão de nossa alma. Se o andarilho está realmente conectado à sua verdade, o meio será transformado naturalmente para se sintonizar aos seus ideais mais elevados. Aquilo que é supérfluo deixará de existir ou as pessoas frívolas naturalmente se afastarão. Se não há conexão com essa verdade o Universo sinalizará de alguma forma a necessidade de renovação. Momento de abandonar aquilo que não tem mais utilidade ou significado.
XIV – A Temperança
androginia asas cântaros flor
A transformação pode ser dolorida mas quando é decorrente da busca interior, mobiliza as forças curativas e consoladoras do Cosmo. Na Temperança o andarilho encontra os anjos, seja espiritualmente, seja através de pessoas que se aproximam para compartilhar beleza, bondade e luz. Momento de ponderação, serenidade e cura.
XV – O Diabo androginia asas de morcego chapéu escravos espada quebrada pedestal pés Se no Enforcado o andarilho reconheceu aquilo que o oprime, aqui ele busca em si mesmo onde assume o papel de opressor e em quais circunstâncias seus êxitos são obtidos por meios escusos como a manipulação física ou psicológica das pessoas ao seu redor. Fortalecido por tudo aquilo que aconteceu até agora, o andarilho se vê diante de mais uma prova: a sedução do caminho mais curto ou mais fácil. Às vezes parece mais fácil manipular as pessoas para que façam algo por nós, principalmente quando descobrimos que temos esse poder, no entanto, qual o custo disso? E até que ponto também não somos manipuláveis, nos deixando seduzir por um modelo de felicidade e bem estar artificialmente produzido? Momento de cultivar a liberdade.
XVI – A Casa de Deus (ou A Torre) coroa esferas flutuantes janelas habitantes da torre pluma torre
Quando entramos no caminho espiritual tudo aquilo que não for verdadeiro é destruído. As mentiras encontradas em O Diabo consomem energia para que se mantenham em pé. Destruí-las é sinônimo de liberar essa energia que poderá, então, ser utilizada na realização dos nossos propósitos. Momento de destruição de tudo aquilo que é rígido, fixo, inflexível, de cultivar a humildade e de deixar fluir.
XVII – A Estrela
acácia
ânforas de ouro e prata árvores
elementos naturais estrelas
nudez
pássaro (íbis)
Tendo confrontado algumas mentiras e liberado mais recursos, podemos voltar ao caminho original e continuar a peregrinação rumo ao Templo Interior. Estamos agora na sintonia dos seres espirituais mais elevados que, se já nos inspiravam, agora podem ser sentidos de uma forma mais concreta. A nossa missão pode ser confirmada. Momento de esperança.
XVIII – A Lua
cão
crustáceo (lagostim)
gotas invertidas (força centrípeta, coagula)
lobo piscina
torres de vigia
Entretanto, confirmada a missão, mais uma vez nosso discernimento deve ser usado para saber o que faz parte da nossa verdade interna e o que é fantasia. Quanto mais fortalecidos e conscientes, mais claro é para nós aquilo que nos confunde e nos afasta do caminho. Momento de abandonar a superficialidade, a frivolidade e a alienação.
XIX – O Sol
crianças
gotas que caem (força centrífuga, solve)
muro
A compreensão surge esplendorosa. Somos capazes de perceber com muito mais ferramentas que os cinco sentidos. A voz interna é clara. As pessoas que se aproximam estão cada vez mais sintonizadas com o que há de melhor em nós. O tipo de conflito que nos traz o crescimento é muito mais sutil. Momento de iluminação.
XX – O Julgamento
anjo saindo das nuvens casal
criança ou defunto ressuscitando
Assim uma nova personalidade surge, orientada pelo Eu Superior, refletindo toda a sua luz e sabedoria. Momento de visão, de tocar os mistérios, de libertação e iniciação.
XXI – O Mundo androginia baqueta echarpe guirlanda querubins
E nos tornamos inteiros. O andarilho, que foi aprendiz de feiticeiro, cruzou o vale da morte, conversou com anjos e demônios, viu mundos sendo criados e destruídos, agora está em seu eixo, conectado, restaurado. Muito mais que alegre com as pequenas satisfações, agora ele está realizado, pleno, feliz. Momento de integração e de fim de ciclo.