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Avaliações voláteis

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O Estado de São Paulo, segunda-feira, 20.8.2012

Avaliações voláteis

MARCELO DE PAIVA ABREU *

A leitura da imprensa internacional e de seus reflexos na mídia brasileira indica tendências a brusca mudança de avaliação das perspectivas da economia brasileira. O Brasil teria se convertido muito rapidamente de teteia dos investidores internacionais em destino a ser evitado quando comparado a México e Turquia, que andavam em baixa.

Deficiências de percepção e a volatilidade dos juízos de muitos analistas internacionais sobre a atratividade relativa de aplicações em diferentes economias, combinadas ao efeito manada, têm efeitos desestabilizadores importantes neste momento especialmente delicado que atravessa a economia mundial. Embora a desmoralização de analistas internacionais em casos extremos - como os de Mishkin e de Portes e Baldursson quanto aos desastrosos prognósticos sobre o sistema financeiro da Islândia - não tenha sido generalizada, o passado recente recomenda cautela quanto a juízos taxativos de analistas e seus reflexos na mídia.

Posturas erráticas não são novidade. Vistas de Brasília, a sensação é de que houve tendenciosidade persistente de tais avaliações em prejuízo do Brasil. Nos anos 90, o México, até 1994, e a Argentina, sob Menem e Cavallo, receberam elogios dos analistas internacionais até que suas fragilidades redundassem em crises severas. Em paralelo, os esforços bem-sucedidos do Brasil em relação à estabilização, ao equacionamento das finanças públicas e, em parte, quanto a reformas estruturais permaneceram por bastante tempo sem ser detectados. Pouco crédito foi dado à resiliência brasileira ao enfrentar as crises de 1998 e 2002.

Os erros de avaliação que pecaram por excesso de pessimismo até, digamos, 2005 pecaram depois por excesso de otimismo e, agora, voltam a exagerar no pessimismo.

Emblemática como excesso de otimismo foi a capa da The Economist do final de 2009, que mostrava o Cristo Redentor sendo lançado ao espaço, não se sabe bem usando que combustível. A visão otimista foi indevidamente potencializada pela popularidade do acrônimo Bric - Brasil, Rússia, Índia e China, conjunto de países que teria importância crucial para definir o desempenho da economia mundial no futuro.

Acumularam-se dúvidas sobre a composição do grupo proposto. Na esteira do processo de rápida difusão do novo acrônimo, houve várias tentativas frustradas de ampliação do bloco proposto por Jim O'Neill. Por exemplo, Bricsam, incluindo a África do Sul, a Asean (Brunei, Camboja, Indonésia, Laos, Malásia, Mianmar, Filipinas, Cingapura, Tailândia, Vietnã) e o México. A única ampliação que emplacou com sucesso foi a transformação de Bric em Brics, com a inclusão da África do Sul, baseada em motivação essencialmente política, e não endossada por O'Neill.

Desde o início houve dúvidas de que elementos comuns pudessem de fato justificar a proposta de composição inicial do Bric. Seriam área e população suficientes para definir

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tal bloco? Os desempenhos econômicos da Índia e da China e, em menor medida, da Rússia tinham e têm sido muito superiores ao do Brasil. E, mais importante, a debilidade dos esforços de poupança do Brasil sempre sugeriu que crescimento rápido, mesmo que a taxas inferiores às da China e da Índia, não seria fácil de alcançar.

O'Neill, que parece ter tido dúvidas quanto à inclusão inicial do Brasil no Bric, ficou tranquilo por uns tempos, e agora tem dúvidas de novo. Os fundamentos de sua análise não são propriamente sólidos. Por exemplo, em The Growth Map: Economic Opportunity in the Brics and Beyond (Nova York, 2011), escreve que o Brasil "foi uma democracia desde o início da década de 1960, mas sempre lutou para alcançar a estabilidade essencial para progredir seriamente do ponto de vista econômico"... Os fatos estão errados e não se sabe bem o que pode ser "estabilidade essencial para progredir".

O próprio O'Neill propôs o Next Eleven (N-11): Bangladesh, Egito, Indonésia, Irã, México, Nigéria, Paquistão, Filipinas, Turquia, Coreia do Sul e Vietnã. Dificilmente emplacará: quem se atreve a prever, mesmo que no médio prazo, o que ocorrerá com Egito, Irã e Paquistão? Alternativamente, fala-se em Mist - México, Indonésia, Coreia do Sul, Turquia - com base em meros desempenhos bursáteis...

Não há limites para propostas de blocos que poderiam em princípio fazer sentido, mas que dificilmente fazem. São esforços taxonômicos desnecessários que pouco agregam à análise efetiva de riscos comparados. Resultam de sopas de letrinhas em busca de acrônimos chamativos e da avaliação de possibilidades mercadológicas.

O Brasil continua a ter posição privilegiada quanto à disponibilidade de recursos naturais e, em alguma medida, aos fundamentos macroeconômicos. A mensagem que deve ser aproveitada da avaliação das suas perspectivas econômicas é sobre a seriedade dos desafios a ser superados para que se possa manter crescimento decente. É preciso poupar mais e investir com eficácia. Melhorar a competitividade, reduzir a proteção e controlar os gastos públicos correntes. Para negar o juízo dos otimistas que viraram pessimistas é preciso que o governo supere a mediocridade de sua estratégia econômica.

*Doutor em economia pela Universidade de Cambridge, é professor titular do Departamento de Economia da PUC-Rio.

 

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