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(1)UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO ESCOLA DE COMUNICAÇÃO, EDUCAÇÃO E HUMANIDADES Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social. CARLOS EDUARDO BERTIN. APROXIMAÇÕES ENTRE O JORNALISMO CULTURAL E A RELIGIÃO: A ARTE E A CULTURA PELA PERSPECTIVA DO JORNAL BUDISTA BRASIL SEIKYO. São Bernardo do Campo 2019.

(2) CARLOS EDUARDO BERTIN. APROXIMAÇÕES ENTRE O JORNALISMO CULTURAL E A RELIGIÃO: A ARTE E A CULTURA PELA PERSPECTIVA DO JORNAL BUDISTA BRASIL SEIKYO. Dissertação apresentada em cumprimento parcial às exigências do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social, Curso de Mestrado da Universidade Metodista de São Paulo, área de concentração “Processos comunicacionais”, linha de pesquisa “Comunicação midiática, processos e práticas socioculturais”, para a obtenção do título de mestre em Comunicação Social. Orientador: Prof. Dr. Herom Vargas. São Bernardo do Campo 2019.

(3) FICHA CATALOGRÁFICA B462a. Bertin, Carlos Eduardo Aproximações entre o jornalismo cultural e a religião: a arte e a cultura pela perspectiva do jornal budista Brasil Seikyo / Carlos Eduardo Bertin 2019. 144 f. Dissertação (Mestrado em Comunicação Social) --Escola de Comunicação, Educação e Humanidades da Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, 2019. Orientação de: Herom Vargas. 1. Comunicação e religião 2. Arte 3. Cultura 4. BSGI – Brasil Soka Gakkai Internacional 5. Brasil Seikyo (Jornal) – Análise do discurso 6. Budismo 7. Jornalismo cultural I. Título. CDD 079.81.

(4) A dissertação de mestrado intitulada: APROXIMAÇÕES ENTRE JORNALISMO CULTURAL E RELIGIÃO: A ARTE E A CULTURA PELA PERSPECTIVA DO JORNAL BUDISTA BRASIL SEIKYO, elaborada por CARLOS EDUARDO BERTIN, foi apresentada e aprovada em 20 de março de 2019, perante banca examinadora composta pelo Prof. Dr. Herom Vargas (Presidente/UMESP), Prof. Dr. Roberto Joaquim de Oliveira (Titular/ UMESP), Prof. Dr. Jorge Miklos (Titular/UNIP), tendo sido: ( ) Reprovado ( ) Aprovado, mas deve incorporar nos exemplares definitivos modificações sugeridas pela banca examinadora, até 60 (sessenta) dias a contar da data da defesa. (x ) Aprovado ( ) Aprovado com louvor BANCA EXAMINADORA ___________________________________________ Prof. Dr. Herom Vargas Orientador e Presidente da Banca Examinadora. ___________________________________________ Prof. Dr. Roberto Joaquim de Oliveira Titular – UMESP. ___________________________________________ Prof. Dr. Jorge Miklos Titular – UNIP. Área de Concentração: Processos Comunicacionais Linha de Pesquisa: Comunicação midiática, processos e práticas socioculturais.

(5) À minha mãe, Neide, pelos incansáveis esforços em prol da minha educação!.

(6) AGRADECIMENTOS. O meu mestre, Daisaku Ikeda, afirma que o espírito de gratidão é essencial para conquistar a felicidade. Neste momento tão importante da minha vida, meu coração transborda de alegria ao me lembrar de todos aqueles que estiveram comigo durante essa trajetória. Apesar de não ser um leitor de Hemingway, gosto muito do trecho: - Quem estará nas trincheiras ao seu lado? - E isso importa? - Mais do que a própria guerra! Durante a vida acadêmica, enfrentamos medos, inseguranças, passamos por conflitos. Nesse percurso, encontramos pessoas que nos ajudam, nos fortalecem e permanecem ao nosso lado, nos momentos mais dolorosos, nos incentivando a seguir em frente. Por isso, manifesto a minha mais profunda gratidão a todos que estiveram ao meu lado durante essa “batalha”. Aos meus pais, Neide e Antônio, e à minha irmã, Bárbara, por todo o amor, apoio e carinho durante essa trajetória. Mesmo com poucas condições, não pouparam esforços para que eu pudesse concretizar esse objetivo, acalentado há muito tempo. Não tenho palavras para descrever todo amor e gratidão que sinto por vocês! À minha namorada, Nila Maria, por todo amor, carinho, torcida, companheirismo e por estar ao meu lado em todos os momentos. A você, todo o meu amor e gratidão! Ao meu amigo, irmão de coração, Gustavo Gessolo, por me acolher em sua residência por dois meses, me apoiar e estar ao meu lado em todas as etapas. À minha grande amiga, Melline Ortega, pela amizade, torcida e por sempre me incentivar a buscar os meus objetivos. Aos meus eternos professores da UniFai, Igor Pedrini, Sérgio Barbosa, Ieda Borges; e aos amigos, Eduardo Gurgel e Lucas Braga, por me exortarem, mesmo com minhas limitações, a seguir a vida acadêmica. Ao ex-presidente Lula, preso injustamente, e à ex-presidenta Dilma Roussef, vítima de um golpe parlamentar, por criarem condições para que os excluídos historicamente tivessem acesso aos cursos de graduação e pós-graduação no país. Ao meu orientador, Herom Vargas, pela parceria, por respeitar minhas insuficiências, pelas correções e pelas contribuições para a realização desta pesquisa. Aos amigos, Tássia Aguiar, Renan Marchesini, Angela Miguel e Patrícia Garcia, pela amizade, incentivos, alegrias e tristezas compartilhadas..

(7) Aos demais amigos, Vinicius Suzigan, Ricardo Alvarenga, Arthur Marchetto, Patrícia Machado, Keila Baraçal, Izabel Marques Meo, Nilton Carvalho, Luis Gabatelli, Flávio Santana, Thierri Parmigiani, Kátia Perez, Rogério Andrade, Jéssica Collado, Marcos Corrêa, Rafael Gonçalves, Altieres dos Santos, Letícia Lopes e Sue´Hellen Monteiro, pela parceria, pelas conversas e aprendizados. Aos professores demitidos de forma injusta, arbitrária e desumana do programa, Marli dos Santos, Magali Cunha, José Salvador Faro, Cicilia Peruzzo e Elizabeth Gonçalves, por todo o ensinamento que transmitiram. Aos professores, Roberto Joaquim e Matheus Yuri, pelos apontamentos e sugestões na banca de qualificação. À família Higa, Alice, Mário, Michele e Ricardo, por me acolher como filho e sempre se preocupar com o meu bem-estar. Aos amigos da BSGI, Jefer Yusuki, Thais, Marcos, Fernando, Diego e Antônio, pela receptividade e amizade durante essa trajetória. Aos meus primos, Fernanda, Chu, Marina, Eduardo e Barbara, por me “acolherem novamente” na família. Aos amigos da vida, Claudemir de Almeida, Diego Melo, Elton Dantas, Lutty Shimabukuro, Miriam Shimabukuro, Sérgio Shimabukuro, Mariana Santos e Patrícia Mendes, pela torcida, carinho e amizade. Aos estagiários da Cátedra Unesco de Comunicação, Fernanda Neves, Igor Neves e Vittória Cataldo, pela convivência, conversas e cafés compartilhados nos últimos dois anos. À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), fomentadora da pesquisa. E a todos os demais que torceram por mim durante esse tempo. Avante!.

(8) “Tenho certeza de que uma cultura de paz pode realmente ser concretizada numa escala mundial e tornar-se permanente quando a paz enraizar-se na mente de cada pessoa”. Daisaku Ikeda.

(9) BERTIN, Carlos Eduardo. Aproximações entre o jornalismo cultural e a religião: a arte e a cultura pela perspectiva do jornal budista Brasil Seikyo. 144 f. Dissertação de Mestrado em Comunicação Social – Universidade Metodista de São Paulo, São Bermardo do Campo, 2019.. RESUMO. Esta dissertação tem como objetivo geral entender como o jornal Brasil Seikyo, pertencente à Associação Brasil Soka Gakkai Internacional (BSGI), representante brasileira da Soka Gakkai Internacional (SGI), Organização Não Governamental (ONG), filiada à Organização das Nações Unidas (ONU), fundamentada nos princípios do budismo de Nichiren Daishonin, aborda as temáticas da arte e da cultura em seus textos. O fato de essa organização estar inserida no campo artístico e cultural, por meio de grupos de apresentação, exposições e atividades culturais, levantou indagações a respeito de como o periódico trata dessas duas temáticas. Alicerçado em pesquisa exploratória e de preceitos que norteiam a BSGI, partiu-se da hipótese de que a arte e a cultura seriam abordadas pelo jornal na perspectiva do humanismo e da cultura de paz. O corpus da investigação foi estabelecido a partir de textos jornalísticos, tendo como base os gêneros e formatos do jornalismo, sobre arte e cultura, publicados de 1999 a 2018. Como metodologia, utilizou-se da pesquisa bibliográfica, pesquisa documental, entrevista com o editor-chefe do periódico e análise de conteúdo. A partir de inferências sobre o material, considerou-se que as hipóteses se confirmam parcialmente. Constatou-se que os textos informativos se configuram mais pelo viés institucional e evidenciam a instrumentalização dos grupos artísticos, exposições e atividades culturais para os propósitos de cultura de paz da BSGI e expansão do movimento budista no Brasil. Os textos opinativos, por outro lado, demonstram as aproximações da arte e dos produtos culturais com os princípios do budismo e da BSGI, atuando como mediador do leitor e essas duas temáticas específicas. Palavras-chave: Comunicação e Religião. Arte e Cultura. BSGI. Brasil Seikyo. Budismo..

(10) BERTIN, Carlos Eduardo. Approaches between cultural journalism and religion: art and culture from the perspective of the Brazilian journal Seikyo. 144 f. Masters Dissertation in Social Communication - Methodist University of São Paulo, São Bermardo do Campo, 2019.. ABSTRACT. This dissertation has the general purpose to understand how the newspaper Brazil Seikyo, belonging to the Brazilian Soka Gakkai International Association (BSGI), the Brazilian representative of the Soka Gakkai International (SGI), a non-governmental organization affiliated with the United Nations (UN), based on the Nichiren Daishonin Buddhism principles, addresses the art and culture themes in yours texts. The fact that this organization is inserted in the artistic and cultural field, through presentation groups and exhibitions and cultural activities, raised questions about how the newspaper deals with these two themes. Based on exploratory research and the precepts that guide BSGI, it was assumed that art and culture would be approached by the newspaper through the perspective of humanism and the culture of peace. The corpus of research was established from journalistic texts, based on the genres and formats of journalism, on art and culture published from 1999 to 2018. Bibliographical research, documentary research, interview with the editor-in-chief of the newspaper and content analysis were used as methodology. From inferences about the material, it was considered that the hypotheses are partially confirmed. It was noted that the informative texts are configured more by the institutional bias and give evidence to the instrumentalization of the artistic groups, expositions and cultural activities for the purposes of the BSGI’s peace culture and expansion of the Buddhist movement in Brazil. The opinion texts, on the other hand, demonstrate the approximation of the art and cultural products to the principles of Buddhism and BSGI, acting as mediator between the reader and these two specific themes. Keywords: Comunicação e Religião. Arte e Cultura. BSGI. Brasil Seikyo. Budismo..

(11) LISTA DE FIGURAS, TABELAS, QUADROS. Figura 1 - Página da BSGI no Facebook.................................................................................. 51 Figura 2 - Canal Brasil Seikyo TV no Youtube....................................................................... 51 Figura 3 - Primeira edição do Brasil Seikyo, ainda com o nome Nova Era..............................52 Figura 4 - Evento promovido pela BSGI..................................................................................72. Tabela 1 - Dez Estados de Vida................................................................................................36 Tabela 2 - Projetos da Coordenadoria Cultural........................................................................ 39. Quadro 1 - Exposições e temáticas...........................................................................................74 Quadro 2 - Período de análise do Jornal Brasil Seikyo............................................................ 83 Quadro 3 - Gêneros e formatos.................................................................................................85 Quadro 4 - Corpus de análise....................................................................................................91 Quadro 5 - Textos escolhidos para inferências.........................................................................96 Quadro 6 - Temas identificados no material.............................................................................97.

(12) LISTA DE SIGLAS. (SGI) Soka Gakkai Internacional (ONG) Organização Não Governamental (BSGI) Associação Brasil Soka Gakkai Internacional (ONU) Organização das Nações Unidas (UFSJ) Universidade Federal de São João Del-Rei (UNIFESP) Universidade Federal de São Paulo (PUC-SP) Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (IURD) Igreja Universal do Reino de Deus (ANCINE) Agência Nacional de Cinema (Mire) Mídia, Religião e Cultura (NMR) Novos Movimentos Religiosos RM (Regiões Metropolitanas) (Acnur) Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Ecosoc) Conselho Econômico e Social (Unesco) Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (NEBIO) Núcleo de Estudos de Bioética (NER) Núcleo de Estudos de Religiões (NOS) Núcleo dos Atletas Federados e o Núcleo de Orientação Social (CEPEAM) Centro de Pesquisa e Estudos Ambientais do Amazonas (ABL) Academia Brasileira de Letras (Decom) Departamento de Comunicação (DEPart) Departamento de Artistas (OFBHI) Orquestra Filarmônica Brasileira do Humanismo Ikeda (NDO) Núcleo de Desenvolvimento para a Orquestra (MASP) Museu de Artes de São Paulo (TO) Taiyo Ongakutai (NEK) Nova Era Kotekitai (CEM) Coral Esperança do Mundo (ABJL) Academia Brasileira de Jornalismo Literário.

(13) SUMÁRIO INTRODUÇÃO ................................................................................................................................... 15 1. APROXIMAÇÃO DO BUDISMO DA BSGI COM O CAMPO COMUNICACIONAL: NOVAS PERSPECTIVAS ACADÊMICAS .................................................................................................... 22 1.1 Pesquisas em Comunicação e Religião................................................................................. 22 1.2 O mito do fim da religião e suas novas configurações ........................................................ 28 1.3 O budismo e o seu percurso histórico: de Sakyamuni a Nichiren Daishonin .................. 30 1. 3.1 Budismo de Nichiren Daishonin.......................................................................................... 31 1.4 Budismo da SGI e a BSGI em terras brasileiras ................................................................ 32 1.4.1 Budismo em terras brasileiras e a expansão da BSGI .......................................................... 34 1.4.2 BSGI e a atuação no campo religioso ................................................................................... 35 1.4.3 BSGI e sua atuação como ONG ........................................................................................... 38 1.5 Embates filosóficos entre o Budismo e o Humanismo ........................................................ 41 1.6 A BSGI e as aproximações com os princípios da Cultura de Paz ..................................... 46 1.7 BSGI e o campo comunicacional .......................................................................................... 48 1.7.1 Revista Terceira Civilização................................................................................................. 50 1.7.2 RDEZ: budismo para o público infantil ................................................................................ 50 1.7.3 SeikyoPost e as novas plataformas digitais para atrair novos seguidores ............................. 51 1.7.4 Jornal Brasil Seikyo: veículo de comunicação do budismo (BSGI) no Brasil...................... 52 1.7.5 Brasil Seikyo e o campo cultural .......................................................................................... 55 2. JORNALISMO E CULTURA: A BSGI, SUA RELAÇÃO COM O CAMPO CULTURAL E ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE CULTURA .............................................................................. 57 2.1 Aproximações entre jornalismo e cultura no Brasil Seikyo ............................................... 57 2.2 Jornalismo Cultural e Religião............................................................................................. 59 2.3 Um breve histórico sobre o jornalismo cultural ................................................................. 60 2.4 Jornalismo Cultural: reflexões teóricas e conceituais ........................................................ 63 2.5 Alguns apontamentos sobre o jornalismo cultural na sociedade contemporânea ........... 65 2.6 Jornalismo Cultural como campo de reflexão e mediação das artes e da cultura ........... 66 2.7 Considerações sobre cultura ................................................................................................. 67 2.8 A BSGI e sua relação com o campo cultural ....................................................................... 72 2.8.1 Grupos artísticos da BSGI: a cultura Soka ........................................................................... 72 2.8.2 Exposições culturais soka ..................................................................................................... 75 2. 9 Arte e cultura por uma cultura de paz ............................................................................... 78 2.10 Jornalismo cultural: uma proposta para uma cultura de paz ......................................... 80 2.11 Brasil Seikyo: jornalismo cultural, religião e cultura de paz: possibilidades de análises ............................................................................................................................................................... 82 3. O BRASIL SEIKYO E O CAMPO CULTURAL: ANÁLISE DA PRODUÇÃO NOTICIOSA SOBRE ARTE E CULTURA ............................................................................................................. 83.

(14) 3.1 Processos Metodológicos ....................................................................................................... 83 3.1.1 Gêneros e Formatos do jornalismo ....................................................................................... 85 3.1.2 Corpus de análise: produção noticiosa do Brasil Seikyo sobre arte e cultura....................... 92 3.2 Análise dos textos do Brasil Seikyo....................................................................................... 98 3.2.1 Inferências sobre os textos publicados ............................................................................... 100 CONSIDERAÇÕES FINAIS ........................................................................................................... 118 REFERÊNCIAS ................................................................................................................................ 121 ANEXOS ............................................................................................................................................ 129.

(15) 15. INTRODUÇÃO. É cada vez mais nítido o entrelaçamento do campo religioso com os veículos de comunicação. Nota-se, no cenário contemporâneo, que os aparatos midiáticos se configuram como importantes instrumentos utilizados pelas instituições religiosas na disputa por espaços no campo social e na disputa por fiéis por meio de programas religiosos em emissoras de TV e de rádio, canais na plataforma Youtube, sites institucionais e páginas nas redes sociais digitais. Isso confirma a observação de Hoover (2014, p. 45) de “que as maiores questões e tendências religiosas que são tão importantes hoje não podem ser abordadas e compreendidas sem atenção às mídias”. Esse fato estimula que os pesquisadores em Comunicação e Religião dediquem atenção às:. múltiplas formas pelas quais a experiência se materializam, se tornam tangíveis e palpáveis, são transmitidas publicamente, gravadas e reproduzidas – em suma, mediadas – através de intermediários não-humanos e elementos de mediação com os quais atores religiosos interagem (STOLLOW, 2014, p. 153).. Sá Martino (2014) assinala que as pesquisas em Comunicação e Religião têm ganhado considerável espaço na produção acadêmica, desde os primeiros trabalhos realizados nos anos 1980, ainda na área da Sociologia. Conforme o autor, os “anos 2000 testemunharam [...] um considerável crescimento no número de estudos a respeito de mídia e religião vinculados [...] à área da Comunicação” (SÁ MARTINO, 2014, p. 88). Essas pesquisas buscam abordar os diversos modos por meio dos quais “a religião está implicada na comunicação mediada, e procura ainda abordar os modos pelos quais esses insights podem nos levar a repensar a própria categoria de religião” (STOLLOW, 2014, p. 148). Embora a temática em Comunicação e Religião esteja em expansão, como considera Sá Martino, observei a ausência de pesquisas no campo que abordam o budismo. Em busca no catálogo de teses e dissertações da Capes, encontrei três trabalhos que enfatizam as publicações budistas no Brasil: uma dissertação, do Programa de Pós-Graduação em Teoria Literária e Crítica da Cultura, da Universidade Federal de São João Del-Rei1 (UFSJ), que enfatiza o discurso de tolerância do budismo na mídia brasileira; uma dissertação do Programa de Mestrado em Educação e Saúde na Infância e na Adolescência, da Universidade Federal de São. Discurso da tolerância: uma representação do Budismo na Mídia Brasileira – Dissertação defendida por Alex Mourão Terzi. 1.

(16) 16. Paulo2 (UNIFESP), que aborda a circulação das ideias educacionais do educador japonês Tsunessaburo Makiguti nas publicações de uma revista infantil (RDEZ) da instituição budista Associação Brasil Soka Gakkai Internacional3 (BSGI); e uma dissertação do Programa de PósGraduação em Ciências da Religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo4 (PUCSP), que apresenta o discurso proselitista dos líderes da BSGI nas publicações da Editora Brasil Seikyo. Como se observa, nem um dos três trabalhos foram realizados em programas de pósgraduação em Comunicação. Diante de um cenário de expansão das pesquisas em Comunicação e Religião no país, e dada a ausência de pesquisas no campo sobre a relação da comunicação com o budismo, além do fato de ser associado à organização budista BSGI, senti-me motivado a realizar estudos sobre a ligação dessa instituição centrada no budismo com os seus veículos de comunicação. A motivação aumentou pelo fato de essa instituição estar inserida no campo cultural, por meio de grupos artísticos, da promoção de atividades culturais e exposições com obras que refletem os problemas sociais, como a violência, a degradação do meio ambiente, a educação, as armas nucleares etc., e por seu líder, Daisaku Ikeda, contribuir para a difusão da cultura, fundando o Museu Literário Victor Hugo, em Paris, o Museu de arte Fuji e o Instituto de Filosofia Oriental, em Tóquio. Diante disso, surgiu então a indagação de como a BSGI aborda as temáticas da arte e da cultura em suas publicações. Sendo o jornalismo cultural a editoria que exerce a função de divulgar o campo da arte e da cultura por meio da produção noticiosa e analítica (FARO, 2014), observei a oportunidade de estabelecer as relações entre esses dois campos de pesquisa, Comunicação e Religião e Jornalismo Cultural. Até então, os veículos especializados em cultura ou que refletem sobre as produções culturais e campo artístico foram estudados sob uma dupla perspectiva: ou são produtos que conservam as características fundamentais que deram origem a esta especificidade, marcado pelo recorte cultural, para qual convergem os diferentes gêneros do jornalismo; ou são manifestações que retiram legitimidade de sua história, mas na prática estão envolvidas com determinações de natureza mercantil e publicitária (FARO; GONÇALVES, 2014).. 2. Circulação das ideias educacionais de Tsunessaburo Makiguchi no Brasil: A educação Soka Gakkai e as publicações da Editora Brasil Seikyo – Dissertação defendida por Marcos Roberto dos Santos. 3 Organização Não Governamental (ONG), filial da Soka Gakkai Internacional (SGI), filiada à Organização das Nações Unidas (ONU), fundamentada nos princípios do monge budista Nichiren Daishonin. 4 O mito da conversão: o discurso proselitista dos líderes da Soka Gakkai no Brasil – Dissertação defendida por Mitiyo Murayama.

(17) 17. Portanto, para que a discussão em torno da relação da temática cultural e artística com os veículos da organização pudesse ser iniciada, foi necessário escolher um objeto empírico para a realização desta pesquisa. A BSGI se comunica com seus associados por meio de materiais impressos, sendo eles o jornal Brasil Seikyo, a revista Terceira Civilização e a RDez, e materiais WEB, site institucional (www.bsgi.org.br), SeikyoPost e pelas páginas da instituição nas redes sociais e em canais na plataforma Youtube. Diante dessas possibilidades, optou-se pelo jornal Brasil Seikyo, pelo fato de ser o mais antigo, existindo há 53 anos, e o principal veículo de comunicação da instituição, tendo uma circulação de aproximadamente 45 mil assinantes em todo o país. A partir desses levantamentos e indagações, a investigação partiu da pergunta-problema: como o jornal budista Brasil Seikyo aborda as temáticas da arte e da cultura em seus textos jornalísticos? O trabalho de formulação das hipóteses ocorreu por meio de pesquisa exploratória, a partir de amostra aleatória dos textos jornalísticos do periódico budista. Segundo Gil (2008, p. 27), as “pesquisas exploratórias têm como principal finalidade desenvolver, esclarecer e modificar conceitos e ideias, tendo em vista a formulação de problemas mais precisos ou hipóteses pesquisáveis para estudos posteriores”. Foram, então, selecionados três textos jornalísticos para observação inicial. No ensaio A grande marcha para o triunfo do povo (2015), redigido por Ikeda, identificou-se que o texto trata a prática cultural da leitura como um instrumento de empoderamento humano. Nele, o líder budista cita duas obras da literatura mundial, Os Miseráveis, de Victor Hugo, e o Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas, e elucida como os protagonistas dos dois clássicos, Jean Valjean (Os Miseráveis) e Edmond Dantes (O Conde de Monte Cristo) superaram os sofrimentos da vida e transformaram sua condição interior. Em outro artigo, Arte-um veículo de transformação (2004), sem assinatura, a arte é abordada como um veículo de transformação interior do indivíduo. E em outro ensaio do líder budista, Juventude, o ápice da perfeição (2013), as práticas culturais são entendidas como ferramentas de unificação e integração da humanidade. Além da exploração dessa produção noticiosa, observou-se materiais institucionais e constatou-se que a organização budista se apresenta à sociedade como uma organização que desenvolve ações voltadas à paz, cultura e educação e engaja-se na construção de uma sociedade mais consciente e mais justa (MIYASHIRO, 2013). Consta também, no vídeo.

(18) 18. institucional promovido pela BSGI5 (2016), que a educação e a cultura são ingredientes para a paz e que esse pensamento norteia as ações da BSGI. Corroborando essa ideia, o site6 institucional da BSGI afirma que a missão da organização é “contribuir para a construção de uma sociedade pacífica baseada no humanismo, por meio de ações conscientes que desenvolvam o potencial do ser humano” (BSGI/SA). Sendo assim, com base no material analisado, formularam-se duas hipóteses em relação às publicações do periódico budista. As temáticas artísticas e culturais são abordadas pelo Brasil Seikyo, a partir de duas perspectivas: a) perspectiva humanista e b) perspectiva da cultura de paz. O trabalho teve como objetivo geral:. - Analisar como o jornal budista Brasil Seikyo aborda as temáticas da arte e da cultura em seus textos jornalísticos.. E como objetivos específicos:. - Contextualizar a temática Comunicação e Religião; - Contextualizar o jornalismo cultural no país; - Conceituar os termos arte e cultura; - Entender o humanismo pela perspectiva do budismo, a cultura de paz e a relação entre o veículo religioso e as temáticas da arte e da cultura.. Como marco teórico, foram utilizados vários autores, tendo em vista que esta investigação parte de uma pesquisa multidisciplinar que envolve comunicação, religião, humanismo, cultura de paz, jornalismo cultural, arte e cultura. Como suporte para a compreensão da imbricação Comunicação e Religião, utilizou-se dos trabalhos de Sá Martino (2003 e 2014), Cunha (2002 e 2016), Puntel (2011), Hoover (2014) e Stollow (2014). E para compreender a temática religiosa, o budismo como religião e organização budista BSGI, dispomos de autores como Geertz (2015), Ozaki (1990), Santos (2004 e 2014), Maranhão (1999), Murayama (2014), Pereira (2001), Sciuto (2012) e Gouveia (2016).. 5. Link para o vídeo< https://www.youtube.com/watch?v=qfZfoGPQzTI&t=30s> Acesso em: 15 jan.2018. Endereço do site disponível em: <http://www.bsgi.org.br/quemsomos/visao_e_missao/>. Acesso em: 20 set.2018. 6.

(19) 19. A partir das hipóteses formuladas, foi necessário entender o termo humanismo e suas vertentes ao longo dos anos, o humanismo pela perspectiva do budismo e os princípios da cultura de paz. Para isso, usufruiu-se de autores como Reale e Antiseri (1990), Burckhardt (1991), Felinto e Santaela (2012), Ikeda (2005, 2007, 2008 e 2011), Faria (2013), Garcia (2013) e Cabral (2014 e 2017). Os teóricos utilizados para conceituar os termos do jornalismo e do jornalismo cultural foram: Marques de Melo e Assis (2010) e (2016), Faro (2014), Vargas (2004), Ballerini (2015), Ventura (2016), Rivera (2003), Anchieta (2010) e Piza (2004). Já para arte e cultura, baseou-se nos pressupostos dos Estudos Culturais, a partir de Hall (2016), Williams (1992), Eagleton (2011) e Kellner (2001). A metodologia empregada neste trabalho compreende a pesquisa bibliográfica, “desenvolvida a partir de material elaborado, constituído de livros e artigos científicos” (GIL, 2008, p. 50). Esse processo foi utilizado para a elaboração do material teórico, buscando entender e elucidar os diferentes conceitos do trabalho. A pesquisa documental que “vale-se de materiais que não receberam ainda um tratamento analítico, ou que ainda podem ser reelaborados de acordo com o objetivo da pesquisa” (GIL, 2008, p. 51). Esses materiais podem ser documentos oficiais, reportagens de jornal, cartas, contratos, filmes etc. Tal metodologia foi usada para apreender sobre princípios da cultura de paz, com base em materiais da UNESCO, e do humanismo pela perspectiva do budismo, tendo como referência as publicações de Ikeda. No decorrer do trabalho empírico, houve a necessidade de entrevistar o editor-chefe do Brasil Seikyo, visando entender o funcionamento do jornal e tirar dúvidas em relação a aspectos do periódico. Para isso, utilizou-se a técnica de entrevista. Visitei as dependências da redação do jornal Brasil Seikyo por duas vezes. Na primeira ocasião, em 20 de agosto de 2018, fui recebido por um dos funcionários da BSGI que me levou a três departamentos da Editora Brasil Seikyo, produtora do periódico, sendo eles: a redação do jornal, o departamento de tradução (muitas publicações são traduzidas de produções do Japão) e o departamento de assinaturas, responsável pela distribuição do jornal e Serviço de Atendimento ao Cliente (SAC). Destaco a dinâmica de recepção realizada pelos funcionários do Brasil Seikyo. No momento em que foi anunciada a minha visita, todos se levantaram sorridentes e formaram um fila para me cumprimentar. O responsável por me acompanhar mostrou-me o processo de produção do jornal e me apresentou aos jornalistas, designers, fotógrafos, revisores, tradutores e demais funcionários..

(20) 20. Na segunda visita, em 11 de dezembro de 2018, foi realizada a entrevista com o editorchefe do periódico budista, Wellington Keidi Oishi. Gil (2008, p. 109) assinala que a entrevista é uma “técnica em que o investigador se apresenta frente ao entrevistado e lhe formula perguntas, com o objetivo de obtenção dos dados que interessam à investigação”. Optou-se pela pesquisa focalizada, que evidencia um tema específico, e tendo como propósito entender e obter informações de um objeto em particular, o jornal Brasil Seikyo, foram formuladas perguntas referentes à circulação, assinaturas, objetivos, editorias e quadro de funcionários. Para o processo de análise do material do jornal, Brasil Seikyo, aplicou-se a análise de conteúdo, a partir das contribuições de Bardin (2011). Buscando estabelecer o corpus de pesquisa foram criadas categorias de análise, a partir de uma amostragem sistemática (GIL, 2008), selecionando todos os textos jornalísticos, com base nos pressupostos dos gêneros e formatos do jornalismo (MARQUES DE MELO; ASSIS, 2010), nos períodos que compreendem os anos de 1999 a 2018, que tratam de arte e cultura. Em um segundo momento, realizou-se a análise quantitativa a fim de averiguar as seções e assuntos relativos à arte e cultura no período pesquisado. Após a seleção e observação desse material, foram escolhidos alguns textos para inferências, tendo como critério de classificação os textos jornalísticos sobre arte e cultura que trazem as palavras “humanismo”, “humanista”, “humanística”, “paz” e “cultura de paz”, visando confirmar ou refutar as hipóteses estabelecidas. A dissertação está estruturada em três capítulos: O primeiro capítulo, com o título “Aproximação do budismo da BSGI com o campo comunicacional: novas perspectivas de estudos acadêmicos”, delineou as pesquisas da área Comunicação e Religião e, a partir da observação da falta de trabalhos sobre o budismo no campo, descreveu sobre o budismo como religião, o surgimento e preceitos que norteiam a SGI e a BSGI, no campo religioso e institucional, bem como sua relação com o humanismo e a cultura de paz, e apresentou os veículos que fazem parte dos processos comunicacionais da organização budista com os seus associados, dando ênfase ao jornal Brasil Seikyo, objeto de estudo deste trabalho. O segundo capítulo, “Jornalismo e cultura: a BSGI, sua relação com o campo cultural e algumas reflexões sobre cultura”, evidenciou as aproximações do Brasil Seikyo com as temáticas artísticas e culturais, contextualizou e discutiu sobre o jornalismo cultural, refletiu sobre o conceito de cultura e demonstrou a ligação da organização budista com o campo artístico e cultural. Por conta das hipóteses formuladas, também argumentou sobre a.

(21) 21. importância da arte e da cultura para o estabelecimento de uma cultura de paz e sustentou a proposta de um jornalismo cultural voltado à cultura de paz. O terceiro capítulo, “O Brasil Seikyo e o campo cultural: análise da produção noticiosa sobre arte e cultura”, foi dedicado às análises dos textos que tratam de arte e cultura, publicados pelo periódico budista, com o objetivo de entender como o jornal aborda essas duas temáticas. A partir da análise quantitativa e de inferências realizadas em dez textos jornalísticos, foi possível compreender a relação da arte e da cultura com o jornal Brasil Seikyo..

(22) 22. Capítulo I APROXIMAÇÃO DO BUDISMO DA BSGI COM O CAMPO COMUNICACIONAL: NOVAS PERSPECTIVAS ACADÊMICAS. 1.1 Pesquisas em Comunicação e Religião Comunicação e Religião são duas esferas totalmente ligadas aos seres humanos e à sociedade contemporânea. Para Sodré (2001, p.71), “a Comunicação tem como objetivo a vinculação entre um vínculo e outro, seja considerado do ponto de vista do indivíduo, seja do coletivo”. Os seres humanos se comunicam a todo o momento por meio de informações transmitidas uns aos outros, pelo diálogo, pelas mídias etc. Mídias são entendidas como “meios”, “veículos” e “canais”. Marques de Melo e Trosta (2008, p. 30) argumentam que “a mídia tem a ver com a indústria dos bens simbólicos e corresponde a um sistema complexo de produção, circulação e consumo de bens culturais”. A religião, por sua vez, tem presença marcante na vida social e influencia as condutas e os hábitos dos fiéis de diferentes segmentos religiosos. Como diz Sá Martino (2016, p. 146), “parece haver certo consenso de que, em termos sociais, a religião constitui um fator de importância, tanto na constituição de identidades quanto de suas representações de espaço público”. Essas duas esferas (Comunicação e Religião) estão interligadas, por meio da difusão de símbolos sagrados em diversas mídias, transmissão de missas e cultos pelos canais de TV e internet e interação entre fiéis e líderes religiosos nas redes sociais digitais. Além disso, ambas estimulam o debate e a reflexão em seus campos do conhecimento e suas interfaces. Hoover (2014, p. 45) alega “que as maiores questões e tendências religiosas que hoje são tão importantes não podem ser plenamente abordadas sem atenção às mídias”. Enfatiza o autor que as “mídias são uma fonte de informação sobre as religiões, sobre as tendências religiosas e sobre as ideias religiosas” (HOOVER, 2014, p.45-46). Porém, a relação entre comunicação e religião se dá há tempos e se estabelece em grande parte por meio da trajetória da Igreja Católica. Puntel (2011) explica que quando se examina a relação da comunicação da Igreja, em uma perspectiva da história social ou das relações entre Igreja e a Comunicação, revela-se a importância de considerar a trajetória de tal relacionamento, seja por meio de documentos, seja.

(23) 23. por meio de suas práticas. A pesquisadora esclarece que a Igreja Católica sempre se interessou pela comunicação e fez uso dela de diversas maneiras ao longo dos séculos. Puntel identifica três fases bem definidas na trajetória Igreja-comunicação. A primeira fase ocorreu no século XV, com o surgimento da imprensa, e foi caracterizada por um comportamento da Igreja orientado para o exercício da censura da repressão. Segundo a autora, foi um período “extenso e intenso, projetado através da Inquisição. Nessa fase, a Igreja é a intermediária entre a produção do saber (não somente teológico) e a sua difusão na sociedade” (PUNTEL, 2011, p. 223). A segunda fase dessa trajetória esteve configurada por um momento em que a sociedade se transformava com muita velocidade e forçava a Igreja a “adaptar-se” aos novos tempos. Desse modo, o comportamento eclesial sofreu alterações e passou a aceitar, ainda com desconfiança, os novos meios eletrônicos, como o rádio e o cinema, a ponto de recorrer a eles para a difusão de suas mensagens. Conforme Puntel (2011, p. 223), na terceira fase, a velocidade das transformações sociais e tecnológicas exigiu que a Igreja “acertasse o passo” e se adaptasse ao mundo contemporâneo. A necessidade de aggiornamento7, emergida do Vaticano II, provocou uma mudança de rota quando comparada ao comportamento anterior. A Igreja decidiu assumir, de repente, o comportamento de evangelização e, para isso, utilizou-se dos meios modernos de comunicação, admitindo que a tecnologia da reprodução eletrônica poderia ampliar a penetração da mensagem eclesial. Segundo a autora, “apesar de sua forte atitude negativa, a Igreja começou, lenta e gradualmente, a perceber a utilidade dos meios eletrônicos de comunicação, na difusão de suas mensagens, e a servir-se deles” (PUNTEL, 2011, p. 225). Marques de Melo (2005) defendeu que o pontificado de João Paulo II marcou um momento de destaque ao proclamar que aquele era um momento regido por uma cultura midiática. Dessa maneira, a Igreja foi desafiada a se incluir no ambiente complexo das mídias para cumprir sua função evangelizadora. No campo acadêmico, as temáticas da interface Comunicação e Religião instigam pesquisadores que buscam compreender o entrelaçamento desses dois campos na sociedade contemporânea. Sá Martino (2014, p.82) aponta para o fato de que as pesquisas sobre mídia e religião começaram, em meados dos anos 80, a ganhar considerável espaço na produção da área da Comunicação, mas foi na área da Sociologia da Religião, nos anos 1980, que essa temática 7. Aggiornamento é um termo italiano que significa "atualização". Esta palavra foi a orientação chave dada como objetivo para o Concílio Vaticano II, convocado pelo Papa João XXIII em 1962. Por outras palavras, o aggiornamento é a adaptação e a nova apresentação dos princípios católicos ao mundo atual e moderno, sendo por isso um objetivo fundamental do Concílio Vaticano II. Disponível em: < https://pt.wikipedia.org/wiki/Aggiornamento>. Acesso em: 10 fev.2019..

(24) 24. recebeu seus primeiros trabalhos (SÁ MARTINO, 2014, p. 85). Na época, “as investigações em Sociologia da Religião buscavam a observação da mídia como uma das dimensões presentes no fenômeno religioso institucionalizado” (SÁ MARTINO, 2014, p. 86). Por sua vez, nas pesquisas em Comunicação, a questão metodológica incluía perguntas a respeito das modalidades de operação da mídia dentro das instituições religiosas em termos de objetivos, condições de operações e funcionamentos, eficácia e características da mensagem eclesiástica mediada. Como observa o autor, os estudos em Comunicação e Religião tiveram crescimento a partir dos anos 1990, quando o campo religioso já estava permeado de diversas atividades relacionadas à mídia (SÁ MARTINO, 2014, p.84-85). Entre os temas pesquisados, a “Igreja Eletrônica”, fenômeno comunicacional envolvendo a religião e o público, levantou reflexões em torno da influência do campo midiático na profusão da fé e no estabelecimento da prática religiosa midiatizada. Segundo Figueiredo (2016, p. 34), a “‘Igreja Eletrônica’ foi resultado de estratégias de grandes evangelistas que viram nos meios de comunicação uma importante ferramenta para aumentar o número de membros de suas igrejas e consequentemente a influência das mesmas”. Cunha (2002) elucida que o fenômeno com forte presença de evangelistas norte-americanos na televisão foi experimentado no Brasil no final dos anos 1970 e durante os anos 1980. Segundo a autora, esses programas foram exportados para todo o mundo e adentraram a América Latina com ampla aceitação do público. Explica também que os televangelistas compravam horários na grade das emissoras e retransmitiam os programas com dublagem, porém, ao contrário dos grupos norte-americanos, a presença dos evangélicos brasileiros sempre foi mais intensa no rádio, pela facilidade de aquisição de concessões ou de compra de espaços na grade das programações. Segundo Cunha, os pentecostais foram os que mais investiram nesse meio. A Igreja Brasil para Cristo, a Igreja Deus é Amor e a Igreja Universal do Reino de Deus compravam horários nas grades de rádio AM, as mais populares, e transmitiam seus programas por meio de centenas de emissoras. Nessa época, outras “igrejas evangélicas do ramo tradicional também buscavam espaços nas rádios, porém com menor incidência” (CUNHA, 2002, p. 6). Os anos 1990 são marcados pelo surgimento do movimento neopentecostal, que fez “emergir outros tipos de igrejas que destacam as propostas de cura e de prosperidade privilegiando, no entanto, a busca de adeptos de classe média e de faixa etária jovem e presença intensa na mídia” (CUNHA, 2002, p. 8). O pentecostalismo é sentido no país de duas formas: alto investimento em mídia (aquisição de veículos de comunicação e aumento no número de.

(25) 25. programas na TV) e presença no “Poder Público” (CUNHA, 2002, p.8-9). Cunha (2016) explica que essa década foi marcada pela consolidação de impérios de mídias vinculadas à igreja, sendo que um desses impérios pertence à Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), proprietária de vários veículos de comunicação, entre eles a emissora Rede Record, ocupante do segundo lugar em audiência no país. Seguindo à IURD, a Igreja Internacional da Graça de Deus, a Igreja Renascer em Cristo e Igreja Católica Romana também buscam espaços nas mídias. Mesmo com o crescimento da internet e o surgimento das redes sociais digitais, as religiões ainda ocupam considerável espaço nos ambientes televisivos. Eventos religiosos como a Missa do Galo, a Santa Missa com o Padre Marcelo, o Show da fé com o Pastor R.R. Soares são transmitidos há anos pelas emissoras de televisão. Conforme o relatório anual da TV Aberta de 2016, divulgado pela Agência Nacional de Cinema (ANCINE), 21, 2% da programação da TV aberta é dedicada ao gênero religioso. Como consta no informe, a CNT é o canal que mais faz uso da programação religiosa (46, 9%), seguida pela Rede TV (22, 9%), Record (12, 0%), Band (8,5 %), TV Gazeta (8,2%), TV Brasil (0,8 %), Globo (0,3 %) e TV Cultura (0,3 %). O SBT não possui programas religiosos em sua grade. O rádio também se apresenta como um meio de interação entre fiéis e instituições religiosas. Na concepção de Prata, Lopez e Campelo (2014, p. 2), as “igrejas de todas as denominações passaram a utilizar do rádio como uma extensão de seus altares”, misturando pregações, músicas, leituras bíblicas e jornalismo “em uma profusão de gêneros com o objetivo de arregimentar e manter os fiéis em frequências próprias ou alugadas”. As autoras indicam que aproximadamente 40% das rádios nacionais estão vinculadas a grupos religiosos, e que esse meio atua como um importante instrumento no processo de evangelização e aproximação com os fiéis. Fatos dessa natureza demonstram que a simbiose entre mídia e religião configura-se como uma condição necessária não apenas para a manutenção de atividades religiosas, mas também como legitimação das instituições religiosas e cooptação de novos fiéis e seguidores, pois as distintas vertentes utilizam-se desses espaços para fazer proselitismo. Em 2013, na visita do Papa Francisco ao Brasil, por exemplo, observou-se que os veículos de comunicação dedicaram grande parte de sua grade na cobertura do pontífice em sua estadia no país. Na ocasião, Paulo Victor Melo (2013) chamou a atenção para o fato que o proselitismo religioso na televisão é uma tendência histórica da mídia brasileira, que tem como consequências a construção de privilégios para alguns segmentos religiosos e a publicização de discursos tradicionalistas, em defesa da moral cristã..

(26) 26. Em todo o mundo, explica Stollow (2014), estudiosos, jornalistas e outros intelectuais têm percebido as diversas formas pelas quais a vida religiosa vem se transformando. Alguns importantes insights sobre essas mudanças vieram a partir dos estudos dos novos movimentos religiosos que não se conformam com o enquadramento da instituição religiosa, da doutrina e da comunidade que dominou por muito tempo o estudo das grandes religiões mundiais. Esses estudos indicam que essa mudança tem muito a ver com uma profusão global de novas técnicas de aquisição de conhecimento, expressão ritual e autocultivo que são cada vez mais realizados em cenas sociais que se encontram fora dos locais institucionais “habituais” da prática religiosa. Nesse sentido, os veículos midiáticos tornam-se ambientes de interação entre público e religião, em que os fiéis realizam sua prática e devoção ao sagrado. Ao refletir sobre o papel da mídia e da religião, Berger questiona:. Como se situa a religião na sociedade constituída pela mídia? Quando as relações são marcadas pela tecno-interação? Quando a experiência é midiada? Quando o tempo que importa é o presente e o valor do indivíduo equivale a sua posição de consumidor? Quando a televisão é a medida de todas as coisas? E, ao mesmo tempo, quando as carências e as incertezas são de toda ordem e o medo é o sentimento em alta? (BERGER, 2007, p. 29).. No entanto, Hoover (2014, p. 42) destaca que as “previsões de que a religião desapareceria da vida moderna podem ser dadas como mortas, pois a religião, na era global, ganhou um novo destaque”. No que Berger contribuiu com a compreensão de que a condição humana e as condições reais de existência não permitiram sepultar Deus, pois tanto as velhas como as novas religiões perceberam um “mercado potencial” e a eles se dedicaram (BERGER, 2007, p.29). Cunha (2016) observa que “no cenário religioso brasileiro contemporâneo, o consumo e o entretenimento encontram nas mídias religiosas uma importante mediação”. Segundo a autora, nos anos 1990, com o movimento da música gospel, ocorreu uma significativa expansão da indústria fonográfica religiosa no país, favorecida pelo sucesso das rádios FMs 100% religiosas nas metrópoles. Além disso, há também a ampliação da oferta de bens e serviços com o surgimento de marcas identificadas por termos de apelos religiosos. Desse modo, “tudo isso promove a novidade da organização bem-sucedida de megafeiras comerciais (católicas e evangélicas) com a exposição de produtos voltados ao segmento religioso” (CUNHA, 2016, on-line). Nas últimas duas décadas, a produção cultural religiosa também teve relevância no cenário cultural e mercadológico. Eclesiásticos tornaram-se pop-stars e lançaram álbuns com.

(27) 27. canções religiosas. Os padres Marcelo Rossi, Reginaldo Manzotti e Fábio de Melo são exemplos que ganharam destaque na indústria fonográfica nacional por meio de suas músicas relacionadas à fé cristã. Em síntese, as mídias operam cada vez mais como um mercado e as demandas por religião e espiritualidade aumentam significativamente. Diante disso, “o aumento no suprimento da religião mediada significa que a religião e a espiritualidade estão cada vez mais disponíveis fora das fronteiras das religiões formais, uma situação que tem implicações que mudam tudo para essas instituições” (HOOVER, 2014, p. 49). Stollow (2014, p. 148) argumenta que a pesquisa sobre religião e mídia tenta expor os diversos modos da mediação entre religião e comunicação. Além disso, “procura abordar os modos pelos quais esses insights podem nos levar a repensar a própria categoria de religião”. No entendimento do autor, a ascensão de pesquisas sobre religião e mídia parte do pressuposto fundamental de que não pode haver nenhuma maneira de compreender totalmente o reposicionamento atual da religião no mundo moderno sem levar em conta os modos pelos quais as questões religiosas estão sendo reorganizadas e redefinidas pelas práticas, processos e sistemas da mídia moderna. Para Stollow, as evidências acumuladas por meio das pesquisas destinadas à compreensão das produções culturais de grupos e atores religiosos revelam como a mídia moderna tem facilitado a extensão do campo religioso para além dos “espaços sagrados”. Segundo ele, graças ao poder da mídia, a religião se espalha continuamente para além desses limites e obrigações “tradicionais”, onde é realocada dentro da fluída cascata de imagens e narrativas que estruturam o espaço público em nosso mundo cada vez mais globalizado. O autor defende que o estudo da mídia e religião é um projeto que pretende revisar a própria compreensão da religião e do seu lugar na vida humana. Nesse sentido, “os estudos de ‘religião e mídia’ têm o potencial de trazer importantes contribuições filosóficas, bem como metodológicas, para as ciências humanas e sociais como um todo” (STOLLOW, 2014, p. 155). Embora as pesquisas relacionadas à temática Comunicação e Religião estejam em expansão, nota-se que não há trabalhos acadêmicos referentes ao budismo de Nichiren Daishonin, praticado pela BSGI. Em apresentação ao 2º Seminário Eixos Temáticos em Comunicação e Religiões, do Grupo de Pesquisa Mídia, Religião e Cultura (Mire)8, com sede na Intercom-SP, em outubro de 2018, Miklos et.al (2018) mapeou as pesquisas realizadas nos 8. O Grupo de Pesquisa Comunicação e Religião / Intercom, coordenado pela Profa. Dra. Magali do Nascimento Cunha e pelo Prof. Dr. Jorge Miklos, estuda a presença da religião e do "religioso" nos diferentes processos comunicacionais e sua inter-relação com as práticas culturais contemporâneas no Brasil. Disponível em: < https://www.facebook.com/pg/gpcomunicacaoereligiaoegrupomire/about/?ref=page_internal>. Acesso em: 10 fev.2019..

(28) 28. Programas de Pós-Graduação em Comunicação que estudaram o entrelaçamento entre Comunicação e Religião no país. A pesquisa foi feita no Banco de Teses da Capes a partir da busca pelos termos: Religião, Igreja, Sagrado, Fé, Gospel, Candomblé e Umbanda, tendo como filtros: Mestrado e Doutorado, anos 2013 a 2017, Ciências Sociais Aplicadas e Comunicação e Ciências da Informação. Nessa pesquisa, foram encontrados 103 trabalhos, sendo 85 dissertações e 13 teses, que estudam a relação da Comunicação com a Religião. Nesse estudo, porém, não foi incluso o termo Budismo pelos autores. Desse modo, com o objetivo de constatar se havia ou não pesquisas em Comunicação e Religião que abordassem o budismo, foi realizada a mesma busca a partir dos mesmos filtros incluindo os termos Budismo, Brasil Seikyo, BSGI e Nichiren Daishonin, de forma que não obtivemos nenhum resultado em todas as buscas. Portanto, esse fato estimula o pesquisador a realizar este trabalho e contribuir para novas reflexões em torno dessa temática.. 1.2 O mito do fim da religião e suas novas configurações O presente estudo trata de analisar o principal periódico da BSGI, o Brasil Seikyo, e sua relação com o campo artístico e cultural. Isso se deve, como veremos no decorrer deste trabalho, ao fato de essa organização atuar em dois campos: como ONG e como religião. Porém, antes de compreender como essas temáticas se apresentam no jornal, considera-se necessário o entendimento dessa doutrina, as práticas sociais e religiosas dos membros que pertencem a essa organização e alguns dos fenômenos que permeiam seus campos religioso, institucional e cultural. Nesse sentido, baseamo-nos na argumentação de Williams (1992) que defende que para entender determinadas produções culturais, primeiramente, é necessário compreender as práticas sociais que distinguem alguns desses grupos. Para um início de discussão, tomamos por certo que durante muito tempo falou-se no fim da religião. Rubem Alves (1984) esclarece que esse pensamento originou-se no século XIX quando propuseram que a teoria da religião nada mais era que uma reminiscência que o homem guardava de um período primitivo do seu desenvolvimento. O teólogo elucida que com “o progresso da história e a progressiva emergência das formas científicas de pensar, acrescentavase, o homem estava se educando para a realidade, e dentro em breve deixaria para trás [...] as suas ilusões religiosas” (ALVES, 1984, p. 34)..

(29) 29. Com o movimento que se originou no século XIII em direção da própria autonomia, nas palavras Bonhoffer9, traduzidas por Alves, o ser humano aprendeu a lidar com as questões de importância sem recorrer a Deus. Desse modo, o cenário indicava que a religião em breve encontraria o seu fim. Porém, como assinala Alves, quando se anunciava o funeral de Deus e o fim da religião, “o mundo foi invadido por uma infinidade de novos deuses e demônios, e um novo fervor religioso [...] que desconhecíamos encheu os espaços profanos do mundo que se proclama secularizado” (ALVES, 1984, p. 36). Surgiu, então, o fascínio pelo misticismo oriental, a ioga, o zen-budismo, a meditação, feitiçaria, entre inúmeras formas de religiosidade que fizeram cair por terra as previsões acerca do fim da religião. Diante disso, emergiram nas sociedades uma quantidade significante de novos movimentos religiosos e novas formas de compreender o mundo e a própria existência humana, por meio de ritos e religiosidades. Nesse sentido, os Novos Movimentos Religiosos (NMR) assumem relevância na atual conjuntura social e religiosa. Guerrieiro (2004, p. 159) define como NMR “todas as religiões que surgiram recentemente e que não fazem parte das antigas tradições”. Conforme observa o autor, nos anos 60, quando surgiram em maior número, “só se fizeram aumentar sua presença e visibilidade” (2004, p. 161). Aponta, ainda, para a variedade nas mídias, lojas de artigos esotéricos, produtos culturais, passando pela medicina alternativa, até chegar a grandes religiões estruturadas. Corroborando com o pensamento de Guerrieiro, Albuquerque (2004, p. 139) detecta que esse fenômeno condensa transformações importantes na sociedade e no campo cultural. Dentre esses movimentos, destacam-se: orientalização, esoterismos, secularização, comunidade, cultura alternativa, ambientalismo, reencantamento, novos paradigmas, terapias, OVNIs, Nova Era, crise da modernidade, sincretismo, hibridismo, quebra de fronteiras e a globalização. Segundo a autora, é possível incluir também o que ela denomina como “constelação dos autos”, muito presente nas expressões dos NMR, como os cuidados para si, a cura de doenças, autoconhecimento, autorrealização, autonomia, autoexpressão, etc. Inúmeros são os movimentos e as novas formas de crer e manifestar as distintas possibilidades de fé. E não cabe a nós, neste espaço, elucidar os fundamentos de cada uma dessas religiões e religiosidades. É nosso dever, como proposta para este trabalho, compreender as origens do budismo, ideias, dogmas e práticas que envolvem a BSGI e, a partir disso, tomar reflexões acerca do material veiculado em seu dispositivo de comunicação proposto para este estudo.. 9. Foi pastor Luterano, teólogo e membro da resistência alemã anti-nazista..

(30) 30. 1.3 O budismo e o seu percurso histórico: de Sakyamuni a Nichiren Daishonin As histórias relatadas pelas escolas budistas, conforme descreve Gouveia (2016, p. 5962), dizem que o Buda nasceu nas montanhas do Himalaia, onde hoje se localiza o Nepal, e seu pai, o rei Suddhodana, deu a ele o nome de Siddhartha. Por nascer no Clã dos Sakyas (ser capaz/ter habilidade e poder), passou a ser chamado de Shakyamuni, o “sábio dos Sakyas”, já que o “Muni” tem o sentido de sábio. Siddharta viveu como príncipe até os 29 anos de idade, época em que abandonou o palácio onde morava e iniciou sua busca espiritual. Após seis anos em busca de respostas às suas indagações sobre as causas que levavam as pessoas ao sofrimento e sua possível superação, atingiu a iluminação em baixo da árvore Bodhi, que significa literalmente despertar (GOUVEIA, 2016, p. 64). Depois de atingir a iluminação, o Buda viajou a pé pela Índia para transmitir os seus ensinamentos, tornando-se assim uma pessoa célebre. Pessoas de vários lugares se deslocavam para encontrá-lo e ouvi-lo. Siddharta ensinou por quase 50 anos e, durante esse tempo, milhares de pessoas se tornaram monges, e um número maior se tornou praticante laico (GOUVEIA, 2016, p. 66). Aos 82 anos de idade, o Buda faleceu em uma cidade chamada Kushinagar, no nordeste da Índia, e seus restos mortais foram colocados em monumentos, conhecidos como stupa (monte, pilha, suporte de oferendas). Após sua morte, diversas interpretações foram dadas aos seus ensinamentos e várias correntes budistas surgiram (GOUVEIA, 2016, p. 69). Santos (2004, p. 116) explica que após a morte de Shakyamuni o budismo foi propagado para toda a Índia e depois para os países vizinhos, tomando assim duas direções distintas. Uma corrente se propagou para regiões do Sul da Ásia e ficou conhecida como Budismo do Sul. A outra corrente, conhecida como Budismo do Norte, se difundiu pela Ásia Central até a China, passando depois pela península Coreana e o Japão. O budismo do sul ficou conhecido como Theravada e o budismo do norte como Mahayana. Pereira (2001) afirma que no Japão existe a predominância do Budismo Mahayana. Maranhão (1999) observa que essa linha tem como ponto principal a compaixão e, além de desenvolver os aspectos religiosos, se importa com a doutrina metafísica da libertação. Pereira constata que quando o budismo foi introduzido no Japão, em meados do século IV, as crenças autóctones não se encontravam organizadas teologicamente ou centralizadas em uma instituição. O autor elucida que na época não havia uma sofisticação doutrinal, como a noção de uma transcendência absoluta. Desse modo, “uma das maiores contribuições religiosas.

(31) 31. e intelectuais do budismo para o Japão foi precisamente a ideia de transcendência e a negação do mundo” (PEREIRA, 2001, p. 48). Nas palavras do autor, as primeiras interações dos japoneses com o budismo estabeleceram o arcabouço para a importância da religião naquele país. Sua difusão implicou em um processo de vários elementos da religiosidade e da cultura japonesa, seguindo um padrão similar de difusão pelo continente asiático, ocorrida anteriormente ao longo dos séculos. O autor também repara que desde a sua introdução no país o budismo não contribuiu apenas para a cultura nipônica, como também sofreu profundas mutações no seu processo de adaptação à sociedade japonesa. 1. 3.1 Budismo de Nichiren Daishonin Pereira (2001) atesta que o surgimento do budismo Nichiren transcorreu em um período marcado pela renovação do budismo e de mutações na política e na economia do Japão. Na época, diversos líderes religiosos forjaram novas práticas e ensinamentos, trazendo, dessa forma, o budismo para a vida do povo comum, já que por muito tempo foi uma prática restrita aos aristocratas. Esse período, conforme Santos (2014)10, marcou o auge do processo que ocorreu na época de Kamakura (1185-1333) e caracterizou a efervescência de um budismo popular, conhecido como o “Novo Budismo de Kamakura”. Esse período, também, segundo Pereira (2001), assinalou a centralização das escolas budistas nos rituais tradicionais e a transformação de bonzos em agentes religiosos, administradores dos templos, contradizendo com a doutrina de Nichiren, que incentivou a participação ativa de leigos. Nichiren Daishonin nasceu em 16 de fevereiro de 1222 e, em 1233, aos doze anos, deixou o lar para estudar o budismo e outros ensinos seculares no templo Seityo. Segundo Santos (2014, p.74), após se doutrinar, “buscou compreender a multiplicidade de escolas budistas existentes e as contradições doutrinárias”. Depois de tornar-se sacerdote budista, viajou, em 1242, para Quioto e Nara, os dois centros, atrás de provas documentais que embasassem a sua teoria de que os ensinamentos budistas pregados pelas seitas budistas eram falsos. Após aproximadamente dez anos de estudo, encontrou documentos que provavam que essas seitas não se baseavam nos ensinamentos de Shakyamuni e que os verdadeiros. 10. Maria de Lourdes dos Santos é autora do livro Fundamentos do Budismo, do ano de 2004, e também escreveu a Tese de Doutorado, em 2014, intitulada: Mulher Soka em terras santas: A propagação do budismo em Aparecida do Norte e Juazeiro do norte. A referência completa encontra-se no final deste trabalho..

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