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JULIANO MAURÍCIO DE CARVALHO

CIDADANIA DIGITAL:

Um estudo do programa brasileiro para a

“sociedade da informação”

Universidade Metodista de São Paulo

Curso de Pós-Graduação em Comunicação Social

(2)

JULIANO MAURÍCIO DE CARVALHO

CIDADANIA DIGITAL:

Um estudo do programa brasileiro para a

“sociedade da informação”

Tese apresentada em cumprimento parcial às exigências do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social, da Universidade Metodista de São Paulo, para obtenção do grau de Doutor. Orientador: Prof. Dr. José Salvador Faro

Universidade Metodista de São Paulo

Curso de Pós-Graduação em Comunicação Social

(3)

FOLHA DE APROVAÇÃO

A tese Cidadania Digital: um estudo do programa brasileiro para a “sociedade da informação”, elaborada por Juliano Maurício de Carvalho, foi defendida e aprovada em 29 de abril de 2005, perante a banca examinadora composta por :

Prof. Dr. José Salvador Faro (Umesp) presidente Profa. Dra. Cicília Peruzzo (Umesp)

Profa. Dra. Graça Caldas (Umesp) Prof. Dr. Ruy Gomes Braga Neto (USP) Prof. Dr. Murilo César Ramos (UnB)

Assinatura do orientador: _________________________________ Nome do orientador: Prof. Dr. José Salvador Faro

São Bernardo do Campo, 29 de abril de 2005.

Visto do coordenador do Programa de Pós-Graduação: ________________

Área de concentração: Processos Comunicacionais Linha de pesquisa: Comunicação Especializada

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Dedicatória

Aos meus pais, que me ensinaram os passos para caminhar no mundo das idéias e inspiram-me a olhar a era digital com ética e esperança.

(5)

Em suma, sem paixão, não há ciência, ela não vinga, do mesmo

modo que, sem esse mistério, o da paixão, que é sempre uma força

estranha, não vingam muitas outras coisas na vida.

(Lucia Santaella, Comunicação e pesquisa, 2002, p. 126)

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Agradecimentos

Ao meu orientador, professor José Salvador Faro, pelo apoio, estímulo e pela paciência em todos os momentos.

Aos amigos Rosana, Érika, Jayça, Bolzan e à querida Carol, minha outra família.

Aos amigos Alesse, Chico, Cléo e Marcelo. Cada um, em cada momento, é parte do mosaico que compõe esta pesquisa. Sem vocês o trabalho não existiria.

A Ruy, Aline e Nina, pela amizade, pelas dicas e pelo carinho de todos estes anos.

Aos amigos que de uma forma ou de outra estiveram comigo nesta jornada, especialmente: David, Januzzi, Dino, João Elias, Rose, Dennis, Laurinha, Daniel, Murilo, Fábio, James, Katy, Lindolfo, Adilson, Eula, Fúlvio e Gadini.

À Graça, pelas contribuições valiosas e pelo carinho com minha formação desde a graduação.

Aos amigos da Metodista: Isaac, Anamaria, Cicília, Beth, Basile, Gleber, Valdir, Rúbia, Fernando e Márcia.

À minha família, de maneira especial aos meus irmãos Jorge e Jean, pelo amor secreto ao caçula.

Ao Marco Antonio, pela paciência e pelo cuidado na revisão de cada palavra. À Lita, minha adorável companheira. A presença de seu amor fez com que os dias fossem felizes nestes tempos.

(7)

Lista de tabelas e gráficos

Ilustração 1 – Estrutura de domínios... 83

Ilustração 2 – Instalação e densidade de linhas de Serviço Telefônico Fixo Comutado (STFC) e Serviço Móvel Celular (SMC)... 91

Ilustração 3 – Evolução da densidade telefônica do Serviço Telefônico Fixo Comutado (STFC)... 92

Tabela 1 Grupo de Implantação do Programa Sociedade da Informação... 102

Tabela 2 Grupos Temáticos do Livro Verde... 103

Tabela 3 Capítulos do Livro Verde... 107

Ilustração 4 – Ambiente de negócios eletrônicos... 112

Tabela 4 Dinâmica do comércio eletrônico... 112

Tabela 5 Divisão digital no mundo... 114

Ilustração 5 – Penetração da Internet versus custo de acesso... 117

Tabela 6 Indicadores do crescimento da Internet – Janeiro de 2004... 146

Ilustração 6 – Capacitação de recursos humanos em TIC... 153

Tabela 7 Os serviços do e-gov... 160

Gráfico 1 Alcance de sites governamentais no Brasil... 163 Gráfico 2 Uso de sites governamentais em residência...I Tabela 8 Hosts nas Américas... II Tabela 9 Hosts na América do Sul...IV Ilustração 7 – Infra-estrutura de fibra óptica em implantação no país... V

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SUMÁRIO

Lista de tabelas e gráficos... vii

Resumo: ... xi

Abstract: ...xii

Introdução...13

Apresentação...21

CAPÍTULO 1. A constituição da “sociedade da informação”...30

1.1. Revolução ou globalização das tecnologias? ... 30

1.2. Reestruturação produtiva ... 33

1.3. Evolução tecnológica ... 36

1.3.1. O informacionalismo...38

1.3.2. Características da revolução: velocidade, educação...40

1.3.3. “Sociedade do conhecimento”...42

1.4. Reorganização política ... 43

CAPÍTULO 2. Apontamentos para o debate sobre cidadania...48

2.1. Exclusão digital... 53

2.2. As concepções de cidadania ... 60

2.2.1. A cidadania na Antiguidade...65

2.2.2. As faces da cidadania...69

2.2.3. A cidadania na contemporaneidade...73

CAPÍTULO 3. Livro Verde brasileiro...81

3.1. A Internet e a disseminação das TIC ... 81

3.1.1. Internet no Brasil...84

3.2. Um programa do Brasil? ... 93

3.3. A gênese ... 95

3.4. Os capítulos... 106

3.5. Identidade, sustentabilidade e participação social: a materialidade do discurso 123 3.6. As ações: o Livro Branco ... 130

(9)

3.7. Livro Verde no mundo ... 135

CAPÍTULO 4. A sociedade inclusiva...142

4.1. Da inclusão social para a inclusão digital ... 142

4.1.1. Serviços e vantagens da inclusão...150

4.2. Conectividade: o 1º passo... 154

4.2.1. A utilização dos sistemas informáticos no Brasil...156

4.3. E-gov: o Estado digital... 159

4.4. O pioneirismo do Terceiro Setor ... 164

4.5. O conteúdo como guia ... 168

4.6. Inclusão on-line e social... 170

4.7. Para um debate sobre projetos de inclusão... 173

4.8. Fundamentos para a constituição de uma cidadania digital... 178

4.9. A educação como força motriz... 182

Conclusão...190 Glossário...195 Referências bibliográficas ...203 Anexo 1...I Anexo 2... II Anexo 4...V Anexo 5 – Livro Verde no mundo... VI

I. México...VII II. Chile ... XI III. Argentina ...XVIII IV. Portugal ...XXII V. Finlândia ...XXX VI. Ásia... XXXIV VII. Coréia ... XLIII

(10)

VIII. Malásia ... XLVII IX. Japão... LXII X. África do Sul ...LXVI XI. Austrália ... LXXII XII. Canadá ... LXXXVI XIII. Estados Unidos da América ...XCIII XIV. União Européia... CVII Índice remissivo...CXXII

(11)

Resumo:

A pesquisa analisa o Livro Verde, publicado em 2000 pelo Ministério da Ciência e Tecnologia, buscando compreender as ações do Estado na introdução do país na “sociedade da informação”. O estudo enfoca as iniciativas de inclusão digital estatais e não-governamentais e sua relação com a ampliação da cidadania.

A pesquisa faz uso do método documental e da abordagem histórico-crítica para interpretar a ação dos atores públicos e privados na formulação das políticas públicas que definem os objetivos estratégicos e as metas do Brasil para a área das tecnologias da informação e comunicação (TIC).

Palavras-chave: “sociedade da informação”; Livro Verde; inclusão digital; tecnologias da informação e comunicação; cidadania digital

.

(12)

Abstract:

The research analyzes the Green Book, published in 2000 by the Ministry of Science and Technology, in an effort to understand the actions of the State in the introduction of the country in the "Information Society". The study focuses on the initiatives for digital inclusion, both from governmental and non-governmental entities and its relation with the increase of the concept of citizenship.

The research uses the documental method and the historic-critical approach to interpret the actions of public and private entities in creating public policy that defines Brazil's strategical objectives and the goals for information and communication technologies (ICT).

Keywords: information society; Green Book; digital inclusion; information and communication technologies; digital citizenship.

(13)

13

Introdução

O início do século XXI é marcado por uma crise de legitimidade dos instrumentos de crítica e análise da sociedade contemporânea. O Brasil, com seus mais de 178 milhões de habitantes (IBGE, 2000), e o planeta, com os quase 7 bilhões de cidadãos, são parte de uma profunda incapacidade de fazer frente aos desafios colocados pelo estágio atual da globalização, da insegurança mundial, do acirramento da violência, do alargamento da pobreza.

As diferenças nunca foram tão gritantes e tão presentes. Há contrastes de toda ordem. Os políticos: assistimos aos EUA negarem, sumariamente, a força do multilateralismo das Nações Unidas, que ajudaram a construir, e produzir uma guerra no Oriente Médio contra a voz de protesto do mundo civilizado. No Brasil experimentamos o primeiro governo de origem popular e, até onde podemos observar, parece haver pouca mudança no modo de organizar o Estado e as políticas de interesse público.

Na América Latina (AL), que parece não aprender com anos de populismo e ditaduras, arquitetam-se, com certa alternância no poder, governos de matizes autoritários, caudilhescos, que em determinados períodos abrem fendas na democracia representativa para as já conhecidas aventuras golpistas.

(14)

14 A economia global não dá respostas à pobreza, especialmente nos países em desenvolvimento ou periféricos. Os organismos internacionais da área financeira, como o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e o Banco Mundial, entre outros, não conseguem reverter o quadro de acumulação dos fluxos financeiros, ao contrário, fortalecem a especulação do capital volátil e sua vocação para políticas financistas transnacionais em detrimento do fortalecimento das riquezas dos países pobres. Em nível nacional, a receita não é diversa: reduz-se o grupo dos que detêm maior poder econômico e ampliam-se os que pouco ou nada acumulam.

O remédio amargo dos acordos econômicos prospera por aqui, como em outras nações, por meio do enxugamento da máquina do Estado, com venda de empresas estatais estratégicas, redução da atuação em áreas de desenvolvimento científico e tecnológico, transferência para a iniciativa privada de ações de estímulo à montagem de infra-estrutura e criação de riquezas.

Em meio a este cenário de incertezas, ausência de modelos explicativos complexos e formas de atuação da sociedade organizada, o Brasil dá início ao debate sobre a sua inserção no universo da “sociedade do conhecimento”, da informação, das tecnologias da informação e comunicação (TIC).

O marco regulatório é o lançamento em 2000 do Programa Sociedade da Informação (SocInfo), batizado de “Livro Verde” ou LV. Um documento com 203 páginas, organizado pelo expert em tecnologia Tadao Takahashi, viabilizado com apoio do Ministério da Ciência e Tecnologia do Governo Fernando Henrique Cardoso, por meio do auxílio de mais de 300 pesquisadores e estudiosos da área.

(15)

15 É a partir do olhar proposto pelo Livro Verde e pelas políticas públicas de inclusão do país na “sociedade da informação” (SI) que situamos a reflexão proposta nesta pesquisa. Com um atraso de cinco anos com relação à Europa e aos EUA, o Brasil busca consolidar, formalizar e quiçá legitimar uma política de desenvolvimento e fomento à organização do Estado, da iniciativa privada e do Terceiro Setor na área das tecnologias da informação e comunicação, passando pela natureza social, política, econômica e cultural que o debate requer.

A elaboração do Programa Sociedade da Informação (SocInfo) busca estabelecer critérios para fomento e utilização das TIC1 e sua integração na vida

social. O Programa desenha uma realidade tecnológica brasileira e pretende definir eixos para a relação tecnologia e educação, convergência tecnológica e identidade nacional, produção de conteúdo e memória (acervo).

Ao diagnosticar a realidade cultural, política, social e econômica do emprego das tecnologias no país e estabelecer condições para avanço, modernização e opções estratégicas em médio e longo prazos nessas áreas, os atores envolvidos na formulação do Programa fazem escolhas e geram um conteúdo que deve ser compreendido e interpretado.

Neste contexto se inserem as finalidades deste estudo: descrever e interpretar o Programa para a Sociedade da Informação no Brasil (Livro Verde), a partir de um recorte histórico que tem início nos anos de 1960 e finda em 2004. Os objetivos do estudo centram-se nos seguintes aspectos: a) descrever a formulação do Livro verde; b) compreender as intenções explícitas e implícitas das políticas públicas no país para

1

Tecnologias da informação e comunicação utilizadas para tratamento, organização e disseminação de informações; pode-se também utilizar a sigla TICs ou TIC.

(16)

16 a “sociedade da informação”; c) demonstrar as iniciativas estatais e privadas que mantenham relação de afirmação ou negação das metas e estratégias adotadas pelo Programa; d) verificar em que medida as iniciativas de inclusão digital gestadas no Livro Verde podem contribuir para a ampliação da cidadania.

A hipótese com a qual trabalhamos é a de que a implementação das políticas de inclusão digital no Brasil não é atendida em razão da proposta do Livro Verde (LV). Muito embora esse livro estabeleça as diretrizes para introdução do país na “sociedade da informação”, procuro demonstrar que a sua elaboração atendeu a uniformização de políticas tecnológicas internacionais com vistas a criar um ambiente regulatório (estável) para investimento interno e externo.

A variável que buscamos explicitar é a relação entre a proposta do LV e a ampliação da cidadania em termos das ações governamentais e não-governamentais de inclusão digital. Insere-se aqui a premissa de que a ação dos atores públicos e privados produz arranjos, em alguns momentos, na formulação e, em outros, na implementação das políticas públicas, que colocam em dúvida a natureza pública dessas políticas.

Historicamente no Brasil, as políticas públicas para as telecomunicações têm sido gestadas em decorrência de interesses privados, ausência de debate com a sociedade e desconectadas de um projeto estratégico de longo prazo.

A tese é construída por meio de uma pesquisa empírica de abordagem histórico-crítica2, utilizando-se do método documental, que tem por objetivo

2

“A pesquisa histórico-crítica tenta reconstruir o passado para melhor compreender os fenômenos” (DEVITO, 1997, p. 60, 147, 199, 228; apud SANTAELLA, 2001, p. 147).

(17)

17 “mostrar a situação atual de um assunto determinado ou intenta traçar a evolução histórica de um problema” (CHIZZOTTI, 2001, p. 18).

A metodologia privilegiou uma abordagem histórica por compreender que a reconstituição de circunstâncias, ações, interesses, decisões pode favorecer uma melhor articulação do contexto em que emergem os valores e conceitos da “sociedade da informação” no Brasil. Em contrapartida, ajuda a esclarecer sob que condições e a que processos foi submetida cada etapa ou fase, propiciando uma noção da historicidade do tempo e do espaço.

A análise está centrada no método hipotético-dedutivo3, dialogando com o

método de procedimento: documental. Os métodos de procedimento “constituem etapas mais concretas da investigação, com finalidade mais restrita em termos de explicação geral dos fenômenos menos abstratos. Pressupõem uma atitude concreta em relação ao fenômeno e estão limitados a um domínio particular” (LAKATOS e MARCONI, 1983, p. 106).

A emergência do campo da comunicação com seu traço multidisciplinar, de forte tradição metodológica das Ciências Sociais, contribui para que as pesquisas possuam inclinação para a sobreposição de metodologias, o que, segundo SANTAELLA, não desarticula o produto científico:

(...) a falta de metodologias hegemônicas acaba por acentuar a necessidade de orientadores competentes no acompanhamento da pesquisa e o desenvolvimento da capacidade criativa de escolhas e julgamentos, da ousadia na aplicação de metodologias mistas, integradas, complexas, metodologias estas que vêm se acentuando

3

“O método hipotético-dedutivo parte da percepção de uma lacuna nos conhecimentos, levanta uma hipótese acerca dessa lacuna e através da inferência dedutiva testa a predição dos fenômenos abrangidos pela hipótese” (SANTAELLA, 2001, p. 137).

(18)

18 como uma tendência especialmente na área de comunicação, tendo em vista seu perfil interdisciplinar. (2001, p. 134)

O método documental possui características intrínsecas da pesquisa bibliográfica, pois utiliza fontes constituídas por material já elaborado, sem tratamento analítico, como: tabelas estatísticas, jornais, revistas, relatórios, documentos oficiais, cartas etc. “A pesquisa documental é, pois, uma etapa importante para se reunir os conhecimentos produzidos e eleger os instrumentos necessários ao estudo de um problema relevante e atual, sem incidir em questões já resolvidas, ou trilhar percursos já realizados” (CHIZZOTTI, 2001, p. 19).

Na pesquisa serão privilegiados os documentos oficiais do Programa Sociedade da Informação (SocInfo) e o material correlato publicado por grupos temáticos e pelo governo brasileiro. A análise documental consistirá na organização, classificação e interpretação do conteúdo contido nos materiais investigados.

Utilizarei como suporte para a análise do material coletado a abordagem sobre a constituição da “sociedade da informação” formulada por CASTELLS4

(1999 e 2003) e MATTELART (2002), tendo como referencial de suporte atores que discutem a gênese da “sociedade do conhecimento” e as transformações na sociedade pós-industrial (BELL, 1973). Para o debate acerca da relação inclusão digital e cidadania abordaremos PINSKY (2003).

4

“Manuel Castells tem estudado o impacto da sociedade da informação em extensão e profundidade. Politicamente comprometido (espanhol exilado na França nos anos de 1960, foi expulso desse país durante as revoltas estudantis de 1968), próximo do socialismo (colaborou na redação do Programa 2000 do Partido Socialista Obrero Español – e de vários estudos sobre as novas tecnologias durante o governo socialista). Seu trabalho esteve centralizado, no início, na sociedade civil e nos movimentos populares que a constituem, com relação à moderna realidade urbana. Sua obra mais importante, A Era da Informação, em três volumes: A sociedade em rede (1997), O poder da

identidade (1998) e Fim de milênio (1998), é uma análise dos aspectos da nova sociedade tecnológica: a economia global, o

fim do patriarcado, o papel do Estado, os movimentos sociais contra a ordem global, o novo conceito de trabalho, a crise da democracia, a pujança do Pacífico, o quarto mundo informacional etc., e conceitos como ‘a cultura da virtualidade real’ e o nascimento do ‘Estado-rede’” (ARZOZ e ALONSO, 2003).

(19)

19 A análise técnica das TIC e das potencialidades da Internet ocorrerá à luz dos pensadores recentes da informática e das comunicações, como LÈVY (1993, 1998, 1999, 2001) e STANTON (1998).

Por escolha metodológica não trabalharei a análise documental com base nas teorias de análise de conteúdo ou discurso, mas com alguma recorrência buscaremos verificar a existência de recursos lingüísticos e retóricos que possam elucidar as questões apontadas pela pesquisa.

A presente pesquisa é estruturada em quatro capítulos, procurando demonstrar as três dimensões propostas para analisar o Programa Sociedade da Informação (SocInfo): as tecnologias da informação e comunicação, a ação dos atores (estatais, privados e coletivos) e as condições sócio-históricas que condicionam a implantação dos projetos.

O primeiro capítulo busca apresentar as raízes da “sociedade da informação”, reunindo a atualização de elementos do pensamento acerca da sociedade pós-industrial e até as reflexões recentes da “sociedade do conhecimento” e da “sociedade em rede”. Busca também mapear os conceitos centrais sobre a relação das tecnologias e o universo social.

No segundo capítulo procuramos discutir as raízes do debate sobre cidadania e sua relação com as ações de exclusão digital. É uma reflexão em torno de aspectos que podem viabilizar a ampliação da cidadania, a partir da incorporação cultural e social das tecnologias da informação e comunicação e dos condicionantes para a inclusão digital por meio da educação.

O Livro Verde, documento que sistematiza a política de implantação do Programa Sociedade da Informação no Brasil, é analisado no terceiro capítulo. Sem a

(20)

20 pretensão de produzir uma análise de conteúdo, a abordagem procura descrever a forma de produção do Programa e as estratégias utilizadas para o envolvimento de diversos setores na sua elaboração. São demonstrados os mecanismos de implementação, a ação dos atores e os investimentos para a viabilização dos projetos, passando pela introdução da Internet no Brasil

O quarto capítulo procura apresentar as ações que o país está gestando para a introdução da “sociedade da informação”. São apresentadas iniciativas estatais (e-gov5), sociais, notadamente a articulação do Terceiro Setor, e os projetos de inclusão

digital, também envolvendo a iniciativa privada. As faces da inclusão digital são apresentadas por meio de indicadores de inclusão social.

5

E-gov é a denominação das iniciativas governamentais publicadas na Internet e propostas para o emprego das tecnologias da informação e comunicação.

(21)

21

Apresentação

O inegável crescimento da Internet6

, que soma 3.163.3497

hosts8

em 2004 no

país, segundo dados do COMITÊ GESTOR DA INTERNET NO BRASIL (2004b), demonstra que milhões de internautas, todos os dias, estão aderindo à rede e

6

Sistema mundial de redes de computadores – uma rede de redes – que pode ser utilizado por qualquer pessoa, em qualquer parte do mundo, onde haja ponto de acesso, e que oferece um amplo leque de serviços básicos, tais como correio eletrônico, acesso livre ou autorizado a informações em diversos formatos digitais, transferência de arquivos. Os protocolos básicos para o transporte dos dados são TCP/IP.

7 Comitê Gestor da Internet no Brasil, “Indicadores de Crescimento da Internet”, jun. 2004. Disponível em: <http://www.cg.org.br/indicadores/brasil-mundo.htm#mundo>. Acesso em: 20 abr. 2004.

8

Host: computador ligado permanentemente à rede, que, entre outras coisas, armazena arquivos e permite o acesso de usuários; também chamado de nó. Podemos definir host como sendo, na Internet, um computador que tem acesso bidirecional completo a outros computadores. Um host tem um número específico que, somado ao número da rede, forma seu endereço IP. O host armazena, centraliza e distribui arquivos, serviços de correio eletrônico, redes de impressão etc. Sua capacidade vai de um micro a um supercomputador. Segundo o Comitê Gestor da Internet no Brasil: “Não existe um método capaz de aferir, com precisão, estatísticas sobre os números de hosts (servidores conectados permanentemente à Internet) e número de usuários da rede. Em geral, é apenas possível estimar o tamanho mínimo da Internet. O número de hosts é calculado por meio da multiplicação do número de hosts (3.163.349 hosts) por dez (número estimado de usuários por host)”.

(22)

22 buscando novas informações. No entanto, a presença de novos conteúdos9

digitais, por si, não garante nem consolida uma horizontalização da informação10

. Fruto de sua arquitetura informativa não-linear11

, a Internet cria complexas teias de dados e infinitos caminhos de informação, como se isso configurasse uma cidade ou um país virtual e não conseguíssemos nele encontrar os nomes das ruas, avenidas etc.

Entre outros problemas, as dificuldades encontradas pelo iniciante, e mesmo pelo internauta mais expert, dão conta de que a simples publicação de qualquer conteúdo na web (rede) não garante o acesso, a publicização. É preciso criar caminhos eficazes para que o internauta possa assimilar e compreender a potencialidade que a web12 oferece.

Acredita-se que na “sociedade da informação”, caracterizada pela valorização do saber como forma de acesso ao poder, as fontes de poder e riqueza dependem da capacidade de geração de conhecimento e do processamento de informações. Nessa sociedade a expansão da tecnologia levou a um processo amplo de globalização, transnacionalização, novas relações de trabalho, mudanças no lazer e no consumo.

A introdução dos computadores pessoais em larga escala, na década de 1980, nos EUA, trouxe novas possibilidades de comunicação e produção, acentuando, fortemente, a área de serviços. Nesta perspectiva, a Internet chega revolucionando o

9

Todas as informações utilizáveis pelo usuário que passam pela Internet são conteúdos; por exemplo: as

home pages, as mensagens e os endereços de correio eletrônico, os acervos das bibliotecas digitais etc.

10

“Horizontalizar a informação” é uma expressão do movimento pela democratização da comunicação. Entende-se que a comunicação mediada pelos veículos de massa é verticalizada, estando seu processo e conteúdo restritos e, em certa medida, manipulados. Deriva desta constatação que a horizontalização da comunicação é uma busca pela democratização do acesso aos veículos de comunicação, bem como ao conteúdo da comunicação midiática.

11

Não-linearidade é um conceito utilizado para denominar as quebras e interligações feitas no processo comunicacional por meio da web (Internet).

12

Web do inglês World Wide Web é a interface gráfica e mais popular da rede mundial de computadores, a Internet, a qual é visualizada a partir de navegadores (browsers).

(23)

23 modo de transmissão de informação: grandes bancos de dados virtuais, comunicação em tempo real13

e, mais que isso, o encurtamento de distâncias entre pessoas e países. Segundo SILVEIRA (2001), “uma aplicação foi decisiva para a rápida popularização da Internet: o sistema de hipermídia para obter informações por meio da rede”.

Há diversos projetos de inclusão digital14

no Brasil, que utilizam as redes como forma de transmissão de informações e tentam reverter o problema do acesso às tecnologias da informação e comunicação. Um desafio colocado pelo contexto atual é o da necessidade de impulsionar o conhecimento por parte do público sobre a Internet, ou seja, sobre uma nova mídia.

No Programa Sociedade da Informação essa questão é discutida pelo governo de maneira técnica.

Há clara tendência no sentido de que a infra-estrutura de telecomunicações atualmente existente (também no Brasil), que foi montada originalmente para atender às necessidades de telefonia de voz e depois estendida para dar suporte à comunicação entre computadores, migrará para um modelo em que as próprias estações de comutação serão baseadas em suportes IP, de tal sorte que o serviço de voz se torne uma variante do serviço Internet. (...) A médio prazo, o principal desafio para a disseminação mais ampla da Internet, no que tange a acesso, será o preço do serviço. (...) outra vantagem é a possibilidade de se apoiar decisivamente a distribuição de provedores por uma ampla região, e não somente em uma cidade, a preços fixos e uniformes; independentemente de distância entre o usuário prospectivo e o provedor. (LV, 2000, p. 139)

13

Tempo real designa o processamento da informação no momento em que ela é produzida; é quase uma transmissão simultânea de determinada ação.

14

Digital é “um sinal que pode ser ‘on’ e ‘off’ e representado pelos números zero e um. Sinais digitais podem ser transmitidos mais rapidamente e são mais fáceis de operar que aqueles analógicos. Sinais analógicos podem ser convertidos para digitais, permitindo a representação de todos os tipos de informação, inclusive música e vídeo” (SQUIRRA, 1998, p. 34).

(24)

24 Vários assuntos ligados ao ciberespaço15

, à vida digital, às novas conquistas e aos desafios que a Internet nos impõe vêm se tornando cada vez mais freqüentes. Começam a surgir programas que aproximam o cidadão do mundo da informática e, como não poderia deixar de ser, das vantagens proporcionadas pela rede mundial de computadores.

O desenvolvimento tecnológico agrava a situação social de países em desenvolvimento, como o Brasil; na grande maioria, não há autonomia tecnológica já que os investimentos em pesquisa são baixos ou inexistentes, sem falar nas privatizações no ramo das telecomunicações. Para SILVEIRA (2001, p. 16), “as novas tecnologias e os frutos da revolução tecnológica tendem a ampliar o distanciamento entre ricos e pobres”. LÈVY (2001, p. 30) considera que “a revolução que vivemos hoje, comparável à revolução neolítica por sua amplitude e por suas questões antropológicas, está criando disparidades e desigualdades ainda mais profundas”.

Não se pretende abordar neste trabalho a Internet como mercadoria, cujo acesso seja regulado pelas possibilidades de consumir, interpretar os equipamentos e as informações. Na visão de SANTOS (2003, p. 145), a ampliação do interesse dos usuários pela Internet gerou, no plano econômico, a corrida do capital global pelo controle e pela colonização das redes, estratégia que consistiu, num primeiro momento, em promover a privatização das telecomunicações para, numa segunda fase, assegurar a privatização de todo o campo eletromagnético, o que, segundo o autor, está em vias de acontecer.

15

Ciberespaço é um conceito em construção. A definição mais aceita é que, em razão da coexistência entre cibernética e realidade virtual, constroem-se diversos espaços virtuais, públicos e privados, e a esses espaços desterritorializados convergem informações, ações, intenções que sintetizam um ciber(espaço).

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25 Este é apenas um lado do problema da Internet como mercadoria; há também o problema da liberdade, da privacidade.

(...) no plano jurídico-político, a possibilidade de extensa e intensa exploração de informações relativas ao usuário colocou em questão o impacto das novas tecnologias sobre a cidadania e a democracia, na medida em que ficaram abalados o direito à privacidade e a liberdade de informação. (SANTOS, 2003, p. 145)

É bem verdade que o ciberespaço pode tanto aumentar como diminuir as diferenças. Na web a gama de opções é bastante vasta, a ajuda mútua e as campanhas comunitárias fazem da Internet um dos maiores espaços de troca de informações e solidariedade. Segundo MORAES,

na ausência de uma ordem totalizante, pessoas, grupos ou entidades movem-se na Web de acordo com seus valores e conveniências, consignados em escolhas individuais ou comunitárias. Os usuários formam comunidades autônomas, de tamanhos substantivos e predispostas a respostas a estímulos associativos (...) surgem ajudas mútuas e laços de solidariedade. (2001, p. 75)

Essa solidariedade faz com que a mobilização social em torno da inclusão digital seja cada vez mais percebida. O processo de abertura do acesso a todos pode se tornar mais rápido com a ajuda da sociedade civil. Entidades valem-se da Internet, como esfera pública16

de comunicação, livre de regulamentações e controles externos, para veicular informações e análises quase sempre orientadas para o fortalecimento da cidadania e para o questionamento das hegemonias constituídas.

O principal desafio, ao pensarmos o caráter pedagógico da inclusão na Internet, gira em torno de duas dimensões. A primeira é compreender a importância

16

A noção de “espaço público virtual” será mais bem debatida neste estudo, mas como definição inicial trabalhamos com a abordagem de “esfera pública”, proposta por HABERMAS (1984). A web, um serviço/modalidade da Internet (rede mundial de computadores), vem se configurando como espaço de troca, produção de sentidos, disseminação comunicacional, em que a virtualidade é condição para o novo modo de relação social, a cultura digital.

(26)

26 da Internet como rede mundial de computadores e organizada entre suporte midiático e linguagem. A outra, como espaço, ambiente comunicacional.

A linguagem na Internet passa por um momento de ressignificação17

, ou seja, a Internet como espaço virtual que organiza as “tribos” virtuais, que vai construindo uma nova linguagem a partir da convergência de várias linguagens midiáticas, e talvez isso leve à formulação de um novo discurso sobre as práticas sociais.

Em contrapartida, a Internet como suporte midiático é vista como uma mídia, uma vitrine, um meio de comunicação ou um canal entre o emissor e o receptor, não como um canal que produz um tipo de comunicação massiva, mas um canal que produz uma comunicação interativa – junção da interatividade mútua com a interatividade reativa18.

Esse ambiente, segundo MORAES, pode ser claramente percebido, pois no ciberespaço, cada um é potencialmente emissor e receptor num espaço qualitativamente distinto. Não é por seus nomes, posições geográficas ou sociais que as pessoas se agregam, mas de acordo com blocos de interesses, numa paisagem comum de sentido e de saber. (2001, p. 70)

Reside aqui um desafio importante para conseguirmos trabalhar a apropriação da Internet como mídia. Na junção dos dois aspectos, o técnico de suporte midiático e o conteudístico, os quais resultam numa terceira variável que está sendo trabalhada: a noção de Internet como um ambiente comunicacional, um espaço de troca, de

17

Ressignificar é passar a ter outros significados, outros sentidos. 18

A interatividade “mútua” e “reativa” é conceituada por PRIMO (1998): “A interação mútua se dá através da negociação. Já os sistemas interativos reativos se resumem ao par estímulo-resposta. Na interação mútua, onde se engajam dois ou mais agentes, o relacionamento evolui a partir de processos de negociação” (p. 8). “(...) a interação mútua pode se estabelecer em ambientes informáticos enquanto o computador serve de meio de comunicação. O computador como interagente ativo e criativo, com percepções e interpretações verdadeiramente contextualizadas e inteligentes, ainda é um projeto do campo de pesquisa da inteligência artificial” (p. 11).

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27 transversalidade da linguagem19

. A Internet entendida como um momento em que é possível processar a comunicação na qual o indivíduo é o centro.

No Brasil, como veremos adiante, há várias iniciativas institucionais para ampliar o acesso à Internet. Um caso bem-sucedido é do Comitê pela Democratização da Informática no Brasil (CDI)20

, que faz uso da Internet, do computador para possibilitar que as pessoas conheçam as tecnologias da informação e comunicação como facilitadoras da aprendizagem. Alguns críticos desses programas apontam neles a incapacidade de proporcionar aos incluídos (novos) uma visão crítica e autônoma no uso das tecnologias, reduzindo o aprendizado ao uso tecnicista de softwares e hardwares.

Isso gera uma cultura da tecnologia e não da apropriação dialógica da linguagem e do conteúdo proporcionado pelas tecnologias da informação e comunicação. Consolida-se um incluído on-line, pessoa com acesso a um computador ligado à Internet, que faz uso dos recursos que o mercado estimula e põe à disposição para esses programas de inclusão digital. Grandes empresas das áreas de hardware e software, como Microsoft, IBM etc., financiam e apóiam com infra-estrutura os programas de acesso à Internet de diversos governos e organizações não-governamentais.

19

Uma reflexão acerca da função dialógica da Internet é proposta por CARVALHO e SACRINI: “É uma densidade centrada na relação dialógica entre o receptor (internauta), o discurso em construção (e não construído) da web e sua linguagem interacionista em que se constroem experiências de aprendizado que não prescindem do

aprender a aprender. A noção de aprendente se funda na autonomia diante do conteúdo, do assunto, da mensagem

formulada que, dialeticamente, se supera em forma e conteúdo numa relação proativa na qual o suporte e a linguagem dão lugar a um outro sujeito receptor e produtor da informação, onde a Internet abandona o lugar de meio para transfigurar-se em um ambiente comunicacional” (2003, p. 12).

20

Comitê pela Democratização da Informática no Brasil (CDI), banco de dados. Disponível em: <http://www.cdi.org.br>. Acesso em: 5 out. 2003.

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28 Há razões comerciais e culturais que justificam o investimento do mercado na popularização das tecnologias, mas que precisam estar criticamente avaliadas, e, na medida do possível, elucidadas à população, marcadamente carente, que é assistida nessas ações de inclusão digital. É necessário, por exemplo, orientar a pessoa de que o uso do sistema operacional Microsoft Windows em alguns projetos de inclusão digital ocorre pela oferta gratuita do software por parte da empresa, mas que existem outros similares, para uso doméstico e educacional, sem o pagamento de licença, os denominados softwares livres.

Dessa forma surgem duas categorias de inclusão no universo das tecnologias, a inclusão digital e a inclusão on-line. A inclusão digital é assegurada pelo acesso de qualquer pessoa a um computador conectado à Internet e pelo uso básico das funções dos equipamentos e programas.

Já a inclusão on-line é uma abordagem em construção, mas que, inicialmente, funda-se em três aspectos: compreensão, interpretação e ação digital. A partir da inclusão digital (acesso à tecnologia), é necessária uma alfabetização digital, diríamos forçosamente. Este processo deverá incorporar uma compreensão dos softwares e hardwares para as necessidades do indivíduo, sejam elas de aprendizagem, lazer, relacionamentos, culturais de um modo geral.

A partir da compreensão é preciso interpretar o espaço público virtual, suas teias, conexões e interconexões. É como aprender a tomar um ônibus em uma nova cidade, fazer uso das informações em um universo de sentidos.

A ação digital ocorre como uma atitude de incorporação crítica das tecnologias, é o uso desses instrumentos e processos para a melhoria das condições de vida, sociais etc. É a síntese da apropriação crítica das tecnologias e de sua

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29 usabilidade associada à ampliação dos direitos civis, sociais e políticos. Em suma, a introdução das tecnologias como suporte a uma cidadania ativa.

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30

CAPÍTULO 1. A constituição da “sociedade da informação”

Conheço bastante a História para saber que as coisas nem sempre se passam de forma lógica. (Jacob Burckhardt, 26 de abril de 1872)

1.1. Revolução ou globalização das tecnologias?

A história da “sociedade da informação” confunde-se com a história da sociedade contemporânea, ora com a história da revolução da tecnologia da informação, ora com a história da “sociedade do conhecimento”21. O que há de

21

Há pelo menos 18 rótulos para designar este período/movimento: Terceira Revolução Industrial; Revolução técnico-científica; Revolução informacional; Sociedade pós-capitalista; Sociedade pós-industrial; Sociedade pós-fordista; Segundo divisor de águas industrial; Sociedade pós-salarial; Sociedade tecnológica; Sociedade informática; Sociedade em rede; Capitalismo desorganizado; Capitalismo patrimonial; Capitalismo cognitivo; Nova economia; Economia da informação; Economia digital; Era do acesso (BRAGA, 2004).

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31 comum nessas histórias é a convergência, de que há elementos definidores de uma nova relação homem, máquina e conhecimento.

A pretensão deste capítulo é compreender, historicamente, os aspectos fundantes, ou os antecedentes, do que denominamos “sociedade da informação” (SI). Pode parecer que, se sintaticamente tomássemos a definição de sociedade – que, em uma caracterização livre, “é tudo o que não é Estado” – e, da mesma forma, atribuíssemos à informação a definição: “uma mensagem codificada por um determinado emissor que será, em determinado processo, assimilada por um receptor”, teríamos uma definição, mesmo que vulgar, da composição de “sociedade + informação”.

De fato, há outros fatores e condicionantes que dão a configuração atual deste conceito/expressão. Os antecedentes históricos vêm do domínio humano sobre a eletricidade, a máquina a vapor, ou talvez, mais distante, do momento em que o homem passa a dominar o fogo (energia), e a partir daí passa a sonhar, pois não haveria mais a necessidade de ficar acordado para manter o fogo aceso e afastar o perigo dos animais.

Um dos primórdios da “sociedade da informação” é a noção de rede, que tem suas origens no “sistema de ramificações” de Vauban22. O engenheiro militar de Luís

XIV criou a perspectiva reticular em uma visão do uso estratégico do território. A cada geração técnica será reavivado o discurso salvador sobre a promessa de concórdia universal, de democracia descentralizada, de justiça social e de prosperidade geral. A cada vez, também, se verificará a amnésia em relação à tecnologia anterior. Do telégrafo óptico ao cabo submarino, do telefone à Internet, passando pela radiotelevisão, todos

22

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32 esses meios destinados a transcender a trama espácio-temporal do tecido social renovarão o mito das descobertas com a ágora da Ática. (MATTELART, 1994, 1999, apud MATTELART, 2002, p. 31) (...) O organismo social da era positiva ou industrial tem como princípio estrutural a hierarquia das funções. A rede, quer seja material ou imaterial, quer seja de transporte, bancária ou vetor de símbolos, é o arquétipo da organização. (MATTELART, 2002, p. 35)

A relação do homem com a técnica e a tecnologia sofre profundas alterações ao longo do século XX, motivada pelas duas guerras mundiais, pela industrialização do Ocidente e em razão da importância que a humanidade tem dado, especialmente nos últimos 50 anos, à preservação e transmissão do conhecimento. O homem que assistiu à passagem de 1900 para 1901 se encontraria em um hiato ao listar o que está presente ao ser humano no recente 2000 – 2001.

É preciso situarmos nas origens este debate. MATTELART orienta que “a noção de sociedade global da informação é resultado de uma construção geopolítica” (2002, p. 7). O projeto “sociedade da informação” e seus desdobramentos institucionais em programas e projetos atende a uma lógica de reorganização da estratégia política e econômica dos países centrais, especialmente dos EUA.

O surgimento do termo “sociedade da informação” deu-se na década de 1970, especialmente no Japão e nos EUA, no âmbito de discussões sobre o que seria a “sociedade pós-industrial” e quais seriam suas principais características (TAKAHASHI, 2002, p. 2). Naquele momento os formuladores de políticas perceberam que a informação estava desempenhando um papel cada vez mais importante não apenas em setores econômicos (o aumento do número de trabalhadores na área de informação, de serviços, de produtos inteligentes etc.) mas também na vida social, cultural e política.

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33 A geração, disseminação e uso efetivo da informação estavam se tornando fatores decisivos na dinâmica da sociedade. Esta tendência ganhou ímpeto nas décadas seguintes, e deu lugar à idéia da “sociedade do conhecimento”. Intimamente relacionada à “Sociedade da Informação”, esta idéia estabelece uma ligação entre informação e conhecimento, mas dentro de um ambiente orientado para a competição de mercado. (CRIS, 2003)

Observo, com base na discussão realizada por BELL (1973), CASTELLS (2000 e 2003) e MATTELART (2002), que há três elementos que podem alinhavar a introdução da “sociedade da informação”: a reestruturação produtiva, a evolução tecnológica e a reorganização política. Não tenho a pretensão de esgotá-los, tampouco de excluir outros fatores, mas de orientar a lógica de que dispomos neste momento histórico, e como subsídio à análise a que esta pesquisa se propôs. Há outros pesquisadores que discutiram essas mudanças com outros enfoques, mais ou menos sólidos, os quais, por opção metodológica, procuramos não adotar como centrais.

1.2. Reestruturação produtiva

A reestruturação produtiva é um estágio do capitalismo, da mesma forma que este é um dos estágios da evolução da sociedade. Diversos autores discutem o tema na perspectiva de um esgotamento do modelo capitalista no período pós-Segunda Guerra Mundial. Não é objeto desta pesquisa compreender os fatores que condicionam o debate da reestruturação produtiva, mas incorporar, com base na abordagem de BELL (1973), a noção de alteração das opções estratégicas do modelo capitalista.

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34 Alguns fatores podem sintetizar as transformações do período para compreender a relação da sociedade pós-industrial com a instauração de uma “sociedade da informação”: o crescimento da área de bens e serviços, a valorização do conhecimento e a reorganização da indústria nos países em desenvolvimento. “As forças de produção (tecnologia) substituem as relações sociais (propriedade) como eixo principal da sociedade, dando origem ao conceito de sociedade industrial” (BELL, 1973, p. 97).

Na sociedade industrial, existe uma separação entre o sistema econômico e o sistema da família, entre o local do trabalho e o lar. Com o colapso da “consciência coletiva” tradicional, as convicções fundamentais tiveram de se organizar em torno dos códigos ocupacionais e de passar pela mediação das éticas profissionais. (BELL, 1973, p. 92) (...) As sociedades industriais são sociedades orientadas para a Economia, isto é, organizadas em torno de um princípio de eficiência funcional, cujo desiderato era “conseguir mais por menos”, e optar pelo modo de ação mais “racional”. (Idem, ibid.)

O alto custo das indústrias nos países desenvolvidos forçou a migração de diversos setores produtivos para países em desenvolvimento. O custo de produção nos países desenvolvidos, a sofisticação da mão-de-obra e a necessidade da redução do preço final dos produtos orientou a transferência da indústria de vasto uso de mão-de-obra para países onde o custo do trabalho é aviltante, em parte pelas modestas conquistas trabalhistas e, em parte, pela necessidade de investimentos internacionais com apoio dos governos locais.

A área de serviços e o trabalho de valor agregado começou a ganhar força, especialmente pela valorização da capacidade técnica e tecnológica para o desempenho de diversas atividades. O conhecimento passa a ter um valor agregado nas habilidades de diversas funções. É a substituição da mão-de-obra desqualificada,

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35 de produção mecânica e seriada, para o reconhecimento das singularidades no processo de trabalho. A competência por habilidades passa a acentuar e sofisticar o mercado de trabalho.

Para BELL, os aspectos que caracterizam a sociedade industrial são: o capital (como principal problema econômico), a institucionalização de um processo para criar poupança suficiente, a empresa como ponto central das relações sociais e o principal problema social, o conflito entre patrões e operários. Já na sociedade pós-industrial são apontados os seguintes aspectos: a organização da ciência assume, como problema de maior relevância, a universidade ou o instituto de pesquisa concebidos como instituição primordial, e a capacidade científica de um país passa a determinar seu potencial e poderio.

Na sociedade pós-industrial a base das relações estará centrada nos serviços e o conhecimento teórico torna-se a fonte do valor (progresso técnico). Para BELL, a sociedade pós-industrial é uma sociedade da informação, assim como a sociedade industrial é uma sociedade produtora de bens.

(...) as indústrias de serviços podem ser divididas em diversas espécies: as que são auxiliares diretas da indústria, tais como o transporte e os serviços de utilidade pública; as que lidam com a distribuição e o comércio, e também com as finanças e seguros; as que oferecem serviços profissionais e comerciais, como as de processamento de dados; as que se originam de solicitações do lazer, como as viagens, as diversões, os esportes, os espetáculos, incluindo os meios necessários a isto tudo; e finalmente as que lidam com os serviços comunitários, sobretudo a saúde, a educação e o governo. Esta última área foi que apresentou maior desenvolvimento desde o término da Segunda Guerra Mundial. (BELL, 1973, p. 170)

A técnica associada ao conhecimento acumulado mudam o processo de produção nos países centrais e dão os passos iniciais a um novo modelo de

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36 gerenciamento do trabalho. A lógica do sistema informacional é maior capacidade e menor custo: produção, processamento e realimentação cumulativa da informação. O conceito de “sociedade pós-industrial” sugere uma simbiose dos problemas de relacionamento entre a Ciência e a Política, ou seja, o conhecimento como eixo em cujo entorno se organizarão o desenvolvimento econômico e a estratificação da sociedade.

Está claro que, na sociedade do futuro, pouco importando a definição que lhe seja dada, o cientista, o profissional, o technicien e o tecnocrata desempenharão um papel predominante na vida política. (p. 96) (...) A sociedade pós-industrial, claro, é uma sociedade do conhecimento, em dois sentidos: primeiro, as fontes de inovações decorrem cada vez mais da pesquisa e do desenvolvimento (mais diretamente, existe um novo relacionamento entre a Ciência e a tecnologia, em virtude da centralidade do conhecimento teórico); segundo, o peso da sociedade incide cada vez mais no campo do conhecimento. (BELL, 1973, p. 241)

1.3. Evolução tecnológica

Tecnologia, segundo BELL, é o uso de conhecimento científico para especificar as vias de se fazer as coisas de uma maneira reproduzível. A evolução tecnológica, no fundo, criou meios para que determinados conhecimentos pudessem ser reproduzidos de forma mais rápida. A prensa de Gutenberg é a prova disso, pois facilitou a reprodução de um trabalho mecânico e artesanal. “O registro histórico das revoluções tecnológicas (...) mostra que todas são caracterizadas por sua

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37 humana, não como fonte exógena de impacto, mas como o tecido em que essa atividade é exercida” (CASTELLS, 2000, p. 50).

Diferentemente do que ocorreu em outras revoluções, na revolução tecnológica “usuários e criadores podem tornar-se a mesma coisa (...) os usuários podem assumir o controle da tecnologia como no caso da Internet (...) pela primeira vez na história, a mente humana é uma força direta de produção, não apenas um elemento decisivo no sistema produtivo” (idem, ibid., p. 52). Essa característica da revolução tecnológica fez com que ela se disseminasse mais rapidamente pelo globo. O usuário passa a ser agente criador e transformador. Talvez seja por isso que

as novas tecnologias difundiram-se pelo globo com a velocidade da luz em menos de duas décadas, entre meados dos anos 70 e 90, por meio de uma lógica que (...) é a característica dessa revolução tecnológica: a aplicação imediata no próprio desenvolvimento da tecnologia gerada, conectando o mundo através da tecnologia da informação. (CASTELLS, 2000, p. 52) A maneira como essa evolução tecnológica opera aproxima os envolvidos no seu processo de implantação, de forma que ela se transforma em uma atividade cotidiana, de modo que seja incorporada facilmente.

Segundo MATTELART “o paradigma tecnoinformacional tornou-se pivô de um projeto geopolítico que tem como função garantir o rearranjo geoeconômico do planeta em torno de valores da democracia de mercado e em um mundo unipolar” (2002, p. 139), unindo o globo de forma aparentemente democrática, pela qual “todos” têm acesso a tudo. Mas, também, no mundo tecnologicamente globalizado existem diferenças sociais e funcionas, já que “as elites aprendem fazendo e com isso modificam as aplicações da tecnologia, enquanto a maior parte das pessoas aprende usando e, assim, permanece dentro dos limites do pacote da tecnologia” (CASTELLS, 2000, p. 55).

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38 1.3.1. O informacionalismo

Com a organização da sociedade em rede surge o informacionalismo, que, segundo CASTELLS, é “um novo modo de desenvolvimento que altera mas não substitui o modo predominante de produção” (2000, p. 213).

No informacionalismo “existe uma concorrência global, forçando redefinições constantes de produtos, processos, mercados e insumos econômicos, inclusive capital e informação” (CASTELLS, 2000, p. 214). Com isso, as tecnologias da informação exercem um papel de reorganizadoras das tarefas cotidianas, que nem sempre são desempenhadas de forma competente, pois

(...) A capacidade de reorganizar tarefas conforme vão sendo automatizadas depende amplamente da disponibilidade de uma infra-estrutura coerente, isto é, uma rede flexível, capaz de fazer a interconexão das várias atividades empresariais informatizadas. (BAR e BORRUS, apud CASTELLS, 2000, p. 215)

A reorganização de tarefas passa a ser automatizada por sistemas. O informacionalismo está intimamente ligado ao modo capitalista de produção, pois as redes, em boa parte, são de produção, empresariais, tecnológicas, além das redes de telecomunicações e dos computadores de mesa. Todos esses elementos fazem originar a empresa em rede. Para CASTELLS

o espírito empresarial de acumulação e o renovado apelo do consumismo estão impulsionando formas culturais nas organizações do informacionalismo. Além do mais, o Estado e a afirmação da identidade coletiva nacional/cultural provaram reunir forças decisivas na arena da concorrência global. (...) as unidades da rede, formada de vários sujeitos e organizações, modificam-se continuamente conforme as redes adaptam-se aos ambientes de apoio e às estruturas do mercado. (CASTELLS, 2000, p. 216)

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39 O autor aponta, ainda que “o ‘espírito do informacionalismo’ é a cultura da ‘destruição criativa’, acelerada pela velocidade dos circuitos optoeletrônicos que processam seus sinais” (CASTELLS, 2000, p. 217).

A noção de rede é o novo Proteu. A empresa-rede é promovida a símbolo do fim da contradição entre o trabalho e o capital que limitou a era industrial. Segundo a tese do sociólogo Manuel Castells, somente permanecem na competição os trabalhadores em rede erigidos como classe dirigente, porque portadores do “espírito do informacionalismo”. Esvazia-se assim o cibermundo de seus agentes sociais e só se vê o processo de trabalho mediante a relação técnica. Ora, quer se queira isso ou não, o modo de desenvolvimento informacional continua a “ser elaborado por, e colocado a serviço de, um conjunto de relações de propriedade com fins de acumulação, e não o inverso”. (GARNHAM, 2000, p. 70, apud MATTELART, 2002, p. 154)

MATTELART abre a fenda da questão da evolução tecnológica. Bits e bytes são uma nova forma de organizar o trabalho, as relações e até formas de produção, mas trazem consigo os mesmos ingredientes de uma sociedade dividida socialmente em classes. Não desaparecem as contradições do capitalismo ou se atenuam, mudam os mecanismos de dominação e manipulação. A tecnologia e a “rede” são para o autor uma nova camuflagem do modo de produção neoliberal. “Um novo modo de desenvolvimento que altera mas não substitui o modo predominante de produção” (CASTELLS, 2000, p. 213).

Teorizando sobre a idéia de uma sociedade com vistas para um complexo de relações em termos de informação, CASTELLS deixa claras as raízes do tema ao dizer que:

Gostaria de fazer uma distinção analítica entre as noções de “sociedade da informação” e “sociedade informacional” com conseqüências similares para economia da informação e economia informacional. O termo “sociedade da informação” enfatiza o papel da informação na sociedade. Mas afirmo que informação, em seu sentido mais amplo, por

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40 exemplo, como comunicação de conhecimentos, foi crucial a todas as sociedades, inclusive à Europa medieval que era culturalmente estruturada e, até certo ponto, unificada ao escolasticismo (...). Ao contrário, o termo “informacional” indica o atributo de uma forma específica de organização social em que a geração, o processamento e a transmissão da informação tornam-se as fontes fundamentais de produtividade e poder devido às novas condições tecnológicas surgidas nesse período histórico. (...) Uma das características principais da sociedade informacional é a lógica de sua estrutura básica em redes, o que explica o uso do conceito de “sociedade em rede” (...) Contudo, outros componentes da “sociedade informacional”, como movimentos sociais ou o Estado, mostram características que vão além da lógica dos sistemas de redes, embora sejam muito influenciadas por essa lógica, típica da nova estrutura social. Dessa forma, “a sociedade em rede” não esgota todo o sentido da “sociedade informacional”. (1999, p. 46) 1.3.2. Características da revolução: velocidade, educação

MATTELART vai a uma das espirais da sociedade tecnológica, a noção do tempo. Na medida em que a unidade de tempo – o minuto, o segundo, o milésimo de segundo – foi, em larga escala, introduzida como valor no processo de industrialização ao longo dos séculos XIX e XX. Na conjuntura atual, as noções de velocidade, agilidade, rapidez, todas referenciadas no tempo cronológico, migram da relação homem-máquina para a condição ontológica do indivíduo.

Já não falamos de uma máquina lenta ou de uma determinada tecnologia que é rápida, mas de um “homem tecnológico”, que deve ter como atributo a velocidade de compreender, manusear, controlar e internalizar a tecnologia, velozmente.

A chamada revolução da informação contemporânea faz de todos os habitantes do planeta candidatos a mais uma versão da modernização. O mundo é distribuído entre lentos e rápidos. A rapidez se torna argumento de autoridade que funda um mundo sem lei, onde a coisa política está abolida. (MATTELART, 2002, p. 173)

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41 A educação é, sem dúvida, a face mais palatável e fraterna da “sociedade da informação”. É em razão de sua natureza social e capacidade de nivelamento cultural, ou homogeneização dos saberes, que tal área, setor, processo se tornou obrigatória em todas as políticas públicas no estágio atual das tecnologias da informação e comunicação.

O que caracteriza a atual revolução tecnológica não é a centralidade de conhecimentos e informação, mas a aplicação desses conhecimentos e dessa informação para a geração de conhecimentos e de dispositivos de processamento/comunicação, em um ciclo de realimentação cumulativo entre a inovação e seu uso. (CASTELLS, 2000, p. 50) CASTELLS é mais incisivo, relacionando a capacidade que este novo processo educacional possui na geração de bens simbólicos. Valorizam-se, na visão do autor, a capacidade cognitiva, a de decisão e a de influir sobre os instrumentos tecnológicos.

Segue-se uma relação muito próxima entre os processos sociais de criação e manipulação de símbolos (a cultura da sociedade) e a capacidade de produzir e distribuir bens e serviços (as forças produtivas). Pela primeira vez na história, a mente humana é uma força direta de produção, não apenas um elemento decisivo no sistema produtivo. (2000, p. 51)

O autor vê a instauração de um novo paradigma com os processos decorrentes da evolução tecnológica. O paradigma é composto de quatro hipóteses: a ação das tecnologias sobre a informação, aqui entendida a função central que a informação tem nesta revolução tecnológica, diferenciando-a das anteriores. A segunda hipótese busca compreender a capilaridade das novas tecnologias, a qual CASTELLS chama de “penetrabilidade”. É a força que as tecnologias recentes

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42 exercem em diversos setores da atividade humana, no trabalho, no lazer, na pesquisa. A Internet é uma referência dessa forma de penetração.

O conceito da lógica das redes – terceira hipótese – foi bastante desenvolvido pelo autor e abordado com outros enfoques por Pierre Lèvy. A maneira como estão estruturadas as redes de comunicação e informação estabelece uma forma cooperativa e de interdependência. É um sistema de colaboração e retroalimentação da informação. Cada usuário/cidadão ligado ao sistema age sobre o conteúdo das redes.

O último aspecto do paradigma é a flexibilidade da informação nas redes. As TIC são adaptáveis às necessidades da rede e às demandas dos usuários do sistema. A estrutura não é linear e hierárquica, mas organizada transversalmente. Não há rigidez nos formatos das tecnologias, o que proporciona inúmeras aplicações no campo conceitual e logístico. “A tecnologia não é nem boa, nem ruim e também não é neutra” (KRANZBERG apud CASTELLS, 2000, p. 81).

1.3.3. “Sociedade do conhecimento”

A “sociedade da informação” surge primeiramente na Europa. Em alguns países ela é denominada como “sociedade do conhecimento”. Segundo ASSMANN, o “conceito de sociedade da informação passou-se, por vezes pelas convenientes cautelas teóricas, ao de Knowledge Society (Sociedade do Conhecimento) e Learning

Society (Sociedade Aprendente). Em francês alguns falam em Societé Cognitive” (2000, p.

8). Ao se fazer a tradução do termo não houve uma preocupação exacerbada em manter o espírito original.

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43 O conceito de “aprendente” é proposto por Hugo Assmann como oriundo de um modelo de “sociedade do conhecimento” em que o indivíduo assume a condição permanente de aprendente.

Estamos ingressando na era das redes, da telemática, da Internet e da sociedade da informação, entendida, cada vez mais, como sociedade aprendente e sociedade do conhecimento. (...) Informação e conhecimento se transformam no fator produtivo mais relevante no contexto da mundialização das economias. É certamente inegável que o acesso à informação e ao conhecimento, ou seja, a transformação de todos os aprendentes, passou a ser uma condição para participar dos frutos do progresso tecnológico. (ASSMANN, 2003, p. 72)

Para DEMO “utiliza-se a nomenclatura da ‘sociedade do conhecimento’ praticamente como sinônimo de ‘sociedade da informação’, mesmo que esta última noção contenha (...) ainda a perspectiva de ‘rede’” (2000, p. 37).

A concepção é que se destinasse a uma sociedade preocupada com o conhecimento e não com a informação. Isso se deve ao fato de o termo “informação” ter o sentido de informe e “conhecimento” ter sentido mais amplo, de abranger a noção, a informação, a notícia, a ciência e a consciência da própria existência, indo ao encontro do que se imagina para uma sociedade voltada às preocupações em torno do uso das TIC.

1.4. Reorganização política

O período que sucede à Segunda Guerra Mundial é marcado pela acomodação das forças políticas em um mundo bipolar. A Europa arrasada cede espaço para a emergência de forças que engendraram a Guerra Fria. De um lado os EUA e de outro a URSS.

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44 Já na década de 1960, os EUA começam a arquitetar as formas de relação com outros países, centradas no uso da informação (cultura) e da tecnologia (infra-estrutura) para assegurar a supremacia. A nova situação tecnoeletrônica força a redefinição do caráter das relações que os Estados Unidos mantêm com o resto do mundo.

Os termos “imperialismo” e “Pax americana” não conseguem mais dar conta das novas relações “complexas, íntimas e porosas” e de uma “influência” que é “quase invisível”. A sociedade americana fica cada vez mais difícil de limitar em função de suas fronteiras econômicas e culturais. Os Estados Unidos se tornaram a “primeira sociedade global da história”. Eles prefiguram a “sociedade global” em escala mundial. (MATTELART, 2002, p. 102)

Não foi despropositada a estratégia dos Estados nacionais na gestação de políticas para a SI, conforme aponta CASTELLS.

(...) foi o Estado, e não o empreendedor de inovações em garagens, que iniciou a revolução da tecnologia da informação tanto nos Estados Unidos como em todo o mundo. (...) Na realidade é nessa interface entre os

programas de macropesquisa e grandes mercados desenvolvidos pelos governos, por um lado, e a inovação descentralizada23 estimulada por uma cultura de

criatividade tecnológica e por modelos de sucessos pessoais rápidos, por outro, que as novas tecnologias da informação prosperam (2000, p. 77).

Estamos falando do Estado intervencionista casado com o capitalismo financeiro, que a partir do pós-guerra vai passando de Estado nacional a “Estado globalizado”. A rede que primeiro se monta é a rede de multinacionais, a partir das quais é necessário e possível tornar operante a rede informacional. Uma das necessidades criadas na multinacionalização é a necessidade de conhecimento dos

23

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45

modus operandi empresariais, tanto no setor produtivo (como operar as máquinas)

quanto no gerencial (como organizar o trabalho).

As tecnologias da informação e comunicação são vistas como um instrumento importante para o impulso dos países em vários setores, entre eles o econômico e o social. Com o domínio das TIC todos os setores de uma sociedade podem ser beneficiados. MATTELART aponta os indícios da interdependência da sociedade contemporânea da informação como organização do conhecimento ao afirmar que

da literatura oral e da figuração em geral aos cartões perfurados e à memória eletrônica, o “antropiano” foi progressivamente conduzido a delegar aos artefatos, a órgãos artificiais, suas faculdades de registro do corpo de conhecimentos, o capital intelectual do grupo. A transmissão dessas “séries de programas” foi a condição necessária para a sobrevivência material e social. Como instrumento, a memória do ser humano é exteriorizada. (...) A história da memória coletiva como “transmissão de programas” se escalona em cinco períodos escondidos pela transmissão oral, pela transmissão escrita com tabelas e índices, pelas fichas simples, pela mecanografia e, por fim, pela seriação eletrônica. (MATELLART, 2002, p. 76)

Para MATTELART, dois componentes sustentam a historicidade da “sociedade da informação” no mundo. A ausência de debate com os cidadãos e a construção geopolítica ao longo dos anos. De fato, o que o autor constata é que a SI “foi a sombra da tese dos fins, começando com a do fim da ideologia, que foi incubada, ao longo da Guerra Fria, na idéia da sociedade da informação como alternativa aos dois sistemas antagônicos” (2002, p. 8).

O desafio do Estado na “sociedade da informação” é aproximar o cidadão que pode estar à margem, assistindo desplugado ao emergir de um momento ímpar, em que é possível desfrutar um tamanho mar de conhecimento. O impulso da

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46 “sociedade” está em criar mecanismos de aproximação e consolidação dos participantes dessa nova sociedade. Perderá uma grande oportunidade quem porventura não nadar na “infomaré”, mencionam alguns especialistas.

Uma das faces da discussão da SI em diversos países é a criação de políticas para minimizar a exclusão dos milhares de habitantes do planeta que não têm acesso a essa tecnologia. Um dos focos está em acreditar que, se não forem tomadas medidas paliativas, os níveis de exclusão poderão chegar a lugares nunca imaginados. As razões são as mais diversas possíveis. A falta de recursos de muitos países do chamado Terceiro Mundo, as desigualdades sociais geradas pelos países centrais, a falta de alfabetização e a alfabetização precária, são pontos que levam a sociedade global a se preocupar com o avanço das TIC e criar programas mundiais que busquem alternativas para a diminuição das diferenças existentes atualmente, e que essas diferenças não sejam ampliadas em razão da utilização das tecnologias.

As políticas são também um modo de o Estado regular o mercado, a concorrência, a oferta de trabalho e, ao mesmo tempo, a educação e/ou o treinamento para o trabalho com as tecnologias.

Com o objetivo de reduzir a exclusão digital ou brecha digital (digital divide,

digital exclusion, digital gap), o Programa Sociedade da Informação (SocInfo) busca uma

estruturação de vários setores, numa integração entre sociedade civil, governo e iniciativa privada, organismos nacionais e internacionais (grifo do autor). Com o advento da Internet, surgiu a necessidade de criar políticas e estudos que pensassem e previssem situações. Neste sentido, todo o estudo que culminou com a compilação

Sociedade da Informação no Brasil: Livro Verde traz em seu início os indícios dos objetivos

Referências

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