• Nenhum resultado encontrado

Download/Open

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2021

Share "Download/Open"

Copied!
175
0
0

Texto

(1)JOÃO PLAÇA JÚNIOR. A Reportagem na tv: Caco Barcellos: um repórter e a injustiça social. Universidade Metodista de São Paulo Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social São Bernardo do Campo, 2004.

(2) JOÃO PLAÇA JÚNIOR. A Reportagem na TV. Caco Barcellos: um repórter e a injustiça social. Programa de Pós Graduação em Comunicação Social da FACOM-UMESP, Faculdade de Comunicação Multimídia da Universidade Metodista de São Paulo, como parte dos requisitos para obtenção do grau de Mestre em Ciências da Comunicação, sob a orientação do Prof. Dr. Sebastião Carlos de Morais Squirra.. Universidade Metodista de São Paulo Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social São Bernardo do Campo, 2004.

(3) AGRADECIMENTOS. Agradeço a Deus pela vida; Agradeço a meus pais, Marionita e João, pela orientação de vida; Agradeço ao Prof. Dr. Sebastião Squirra pelo incentivo, confiança e orientação, sem o que, este trabalho não teria sido possível; Agradeço, igualmente, à Profª. Drª. Anamaria Fadul, quem primeiro me orientou e possibilitou o vislumbre deste trabalho; Agradeço a minha irmã, Dulce, sempre presente nos momentos de angústia, na busca das soluções eficazes; Agradeço a Tina Normando, minha companheira, pelo apoio fundamental nos momentos de maior desespero, garantindo a serenidade necessária para continuar na jornada..

(4) AGRADECIMENTOS. Agradeço a Deus pela vida; Agradeço a meus pais, Marionita e João, pela orientação de vida; Agradeço ao Prof. Dr. Sebastião Squirra pelo incentivo, confiança e orientação, sem o que, este trabalho não teria sido possível; Agradeço, igualmente, à Profª. Drª. Anamaria Fadul, quem primeiro me orientou e possibilitou o vislumbre deste trabalho; Agradeço a minha irmã, Dulce, sempre presente nos momentos de angústia, na busca das soluções eficazes; Agradeço a Tina Normando, minha companheira, pelo apoio fundamental nos momentos de maior desespero, garantindo a serenidade necessária para continuar na jornada..

(5) Resumo. Destacar a importância da reportagem investigativa, e mostrar o valor que deve ser observado no empenho da atuação profissional ética de um repórter de televisão, capaz de mudar o rumo da história política recente do Brasil, é o que se propõe o presente trabalho. A prática do jornalismo autêntico demonstra ser transformadora. É o que acontece com a atuação do repórter Caco Barcellos. Ele se propôs a perseguir uma história por mais de um ano e, ao final, mostrar uma verdade escondida durante 30 anos pelo poder público. Com tal reportagem, possibilitou a reparação de uma injustiça social cometida contra uma jovem estudante brasileira. A força da reportagem apresentada num telejornal é incontestável, em razão do potencial que representa a televisão na penetração em todas as camadas da sociedade como veículo de informação. Sendo a reportagem apresentada em série de três dias consecutivos pelo Jornal Nacional, eleva seu peso significativamente, devido à liderança de audiência do telejornal da Rede Globo. O investimento da emissora numa reportagem como a apresentada neste trabalho depende fundamentalmente da presença de um repórter profundamente identificado com a luta contra a injustiça social. E é este o perfil de Caco Barcellos. Ele cresceu na periferia pobre de uma metrópole, e desde muito cedo se revoltou contra a ação policial que discrimina o cidadão comum e privilegia os poderosos. Conseguiu transformar a raiva acumulada em ações efetivas através da reportagem investigativa reveladora da injustiça social cometida diariamente. Quando o espaço era pequeno para o tamanho do que tinha para reportar, Caco lançou livros, ganhou prêmios e enfrentou processos judiciais, movidos por policiais interessados em destruir a vida profissional do repórter que ousou trabalhar sério e encontrar os documentos que provavam os desmandos praticados contra inocentes, friamente assassinados. O resultado é uma atuação exemplar, com um método de trabalho digno de ser seguido, refletindo-se na série de reportagens que desmontou uma farsa montada pelo exército, e que pode ser considerada como uma verdadeira aula de jornalismo. Palavras-chave : Reportagem Investigativa; Repórter; Telejornalismo; Injustiça Social; Caco Barcellos.

(6) Abstract The present paper proposes to highlight the importance of the investigative report and show the worth that must be observed in the commitment of a TV reporter’s ethical professional performance, capable of changing the course of Brazil recent political history. The practical of the authentic journalism turns out to be converting. That is what happens with the performance of the reporter Caco Barcellos. He proposed himself to chase a single story for more than a year and, in the end, disclose the truth hidden during 30 years by the public authority. Such report triggered the reparation of a social injustice done against a brazilian young student. The strength of a report presented in a TV news is undeniable, mainly because of the penetration power of TV in all social layers as news media. Its importance rises significantly considering the fact that the report was presented in a series of three consecutive days on Jornal Nacional and because this program is the leader in audience in Rede Globo. The investment of this broadcasting station in a report like the one presented in this paper depends fundamentally by the presence of a reporter profoundly identified with the fight against social injustice. This is the profile of Caco Barcellos. He grew up in a poor outskirts of a big city and since very young, he revolted himself against the police attitude, that discriminate the common citizen and privileges the powerful ones. He transformed this accumulated angry into effective actions through revealing investigative report of social injustice committed every day. In moments when the space was short for the size of the report he wanted to broadcast, Caco published books and gained prizes but also faced lawsuits, moved by policemen who intended to destroy Caco’s professional life, a reporter who dared to work seriously and find the documents that proved the abuses practiced against innocents, brutally murdered. The result is a exemplary professional performance, with a work method worthy to be followed, reflecting in the series of reports that dismantled the fake created by the Army and that can be considered a true journalism lesson. Keywords: investigative report; reporter; television journalism; social injustice; Caco Barcellos.

(7) Resumen Destacar la importancia del reportaje investigativo y mostrar el valor que debe ser obervado en el empeño de la actuación profesional ética de un reportero de televisión, capaz de cambiar el rumbo de la historia política reciente de Brasil, es lo que propone este trabajo. La práctica del periodismo auténtico demuestra ser transformador. Es lo que ocurre com la actuación del reportero Caco Barcellos. Él se propuso a perseguir una historia por más de un año y, al término, mostrar una verdad escondida durante 30 años por el poder público. Este reportaje posibilitó la reparación de una injusticia social hecha contra una jóven estudiante brasileña. La fuerza del reportaje presentada en un telediario es incontestable, en razón del potencial que representa la televisión en la penetración en todas las camadas de la sociedad como un vehículo de información. La apresentación del reportaje en serie de tres días consecutivos por el Jornal Nacional eleva su peso significativamente, debido al liderazgo de audiencia del telediario de Rede Globo. La inversión de la emisora en un reportaje como el presentado en este trabajo depende fundamentalmente de la presencia de un reportero profundamente identificado com la lucha contra la injusticia social. Y es este el perfil de Caco Barcellos. Él creció en la periferia pobre de una metrópoli y desde muy temprano se indignó contra la acción policial que diferencia los ciudadanos comunes y privilegia los poderosos. Logró transformar su rabia acumulada en acciones efectivas a través de un reportaje investigativo revelador de la injusticia social cometida diariamente. Cuando el espacio era pequeño para el tamaño de lo que tenía que reportar, Caco publicó libros, ganó premios y enfrentó procesos judiciales, abiertos por policiales que querían destruir su vida profesional. El reportero osó trabajar en serio y encontrar los documentos que probaban los desmanes practicados contra inocentes, friamente asesinados. El resultado es una actuación ejemplar, con un método de trabajo digno de ser seguido, reflejándose en el serie de reportajes que desmontó una farsa montada por el ejército, y que pudo ser considerada como una verdadera clase de periodismo. Palabras-clave: Reportaje investigativa; reportero; telediario; injusticia social; Caco Barcellos.

(8) SUMÁRIO. I – Introdução.................................................................... 01 a) O jornalismo impresso e o eletrônico .............................. 19 b) O jornalismo diferencia e dá credibilidade...................... 29. II – A Rede Globo e o Jornal Nacional............................31 a) Breve história da emissora e os principais momentos........ 33 b) O JN como objeto de pesquisa............................................ 38 c) O jornalismo maquiado e das fontes oficiais....................... 41 d) É possível qualidade no jornalismo de TV.......................... 44 e) A Vala Clandestina de Perus................................................52 III – A reportagem na TV...........................................................54 a) As dificuldades da reportagem investigativa.........................60 b) A importância do fato narrado no local.................................63 c) Matérias de denúncia: o repórter como diferencial................66 d) Novos tempos: o JN ousa e se areja.......................................69 IV – O repórter Caco Barcellos..................................................72. a) A nova safra de jornalistas na TV..........................................77 b) Do táxi às telas: de Porto Alegre para Londres......................84 c) Um jornalista de TV que escreve...........................................88 d) Os desaparecidos políticos aparecem no JN...........................97.

(9) V – As reportagens que fizeram História .............................101 a) As reportagens denunciadoras: A Vala Clandestina de Perus e Recontando os Mortos da Repressão..................105 b) Localização no tempo e no espaço.......................................108 c) A produção das reportagens investigativas..........................112 d) Avaliação crítica e atual das reportagens ............................117 VI – Conclusões.............................................................................120. VII – Bibliografia.........................................................................125 Anexo 1/ Luiz Malavolta-Chefe de Reportagem..................129 Anexo 2/ Robinson Cerântula-Produção...............................145 Anexo 3/ As reportagens no JN.............................................155 Apêndice/ Entrevistas Caco Barcellos na "Caros Amigos"..166.

(10) I – Introdução. Cláudio Barcelos de Barcelos é conhecido como Caco desde a infância. Tanto em casa como entre os amigos da rua, época em que corria da polícia nas vielas da periferia de Porto Alegre. Assumiu o prenome que já lhe era familiar e juntou os dois nomes num só Barcellos, com duplo l, desde que assinou a primeira reportagem. Meio século depois dessa reminiscência de infância, é possível que o repórter Caco não esboce qualquer reação se alguém se aproximar e o chamar de Cláudio. A figura pública que se tornou o jornalista e escritor Caco Barcellos sugere que seja esta a forma adequada de tratamento em relação ao repórter que é considerado um paladino1 da justiça social. A injustiça social é tema candente da humanidade e está presente, como determinante, em momentos históricos de grande transformação, carregando mesmo o potencial de levar à ruptura social, como na França, em fins do século 18, com a exaltação de ideais que podem ser considerados básicos da justiça social: liberdade, igualdade, fraternidade. Exemplo recente dessa busca de justiça social, em termos de autodeterminação dos povos, a independência da Índia do jugo da colonização britânica é um fato que estabeleceu um novo paradigma nas relações internacionais, no final da década de 1940. O líder da independência indiana, Mahatma Gandhi, não levantou os punhos em defesa de seu país. Gandhi liderou o movimento pela não-violência que levou à conquista da independência sem disparar um só tiro. Nenhuma arma, como as que são comuns nas guerras, foi utilizada. Gandhi dobrou um império com postura ética inatacável.. 1. SOUZA, Sérgio. Jornalista, in Caros Amigos Ano I número 2, maio de 1997, p. 22..

(11) Quem decide lutar contra a injustiça, seja em nível pessoal ou coletivo, no seu sentido mais amplo, está obrigado à observância integral das normas estabelecidas e até mais. Tem que ter em mente que estará sempre na linha de frente, na berlinda, como vitrine prestes a levar pedrada, pois a postura ética incomoda muito em ambiente de negociata. O repórter que se dispõe a falar de temas não comuns na telinha da tevê está sempre na mira. Seja dos que detêm o poder e se sentem incomodados. Seja por parte dos telespectadores, que se surpreendem com o que não estão acostumados a ver, mas se identificam com o repórter que atua na linha da luta contra a injustiça social. Analisar a força que tem o uso da reportagem na televisão é algo que merece ser estudado detalhadamente pela academia. Também merece destaque o diferencial que faz um repórter que vai além do fato, que se sente responsável pela luta contra a injustiça social. O repórter que não se dispõe a abandonar uma história cujos dados não estejam disponíveis num determinado momento. Ele vai em busca de todos os detalhes para apresentar a história plena, com o final adequado. O repórter que luta por uma informação com o sentido humanitário de quem tem uma missão e não pode falhar. Sabe que muitos dependem dele, no sentido de que o repórter é o porta-voz do povo. Entende que está usufruindo de uma condição que vai além do pessoal. Tem a convicção de que a distinção que tem a imprensa como o "quarto poder" não tem nada que ver com vantagem pessoal para o jornalista. Tem a ver com responsabilidade. Tem a ver com ética, com um compromisso social. E isso: responsabilidade, comportamento ético, compromisso social, é aprendido na vida coletiva e, entendemos, poderia, deveria e teria condições de ser ensinado na escola. Considera-se, também, que é preciso, sim, continuar a educar o olhar de quantos passem pelos bancos escolares, em busca de formação jornalística, para que sejam devidamente demarcados, perenemente, os exemplos em que se possam mirar. Se não isso, para que, pelo menos, não deixemos uma lacuna por negligência, quer dizer, que alguém, no futuro, não nos venha cobrar a falta de exemplos citados pela academia como dignos de serem tomados como paradigma de procedimento profissional. Nesse sentido, e com tal interesse, consideramos importante destacar a atuação de um repórter de televisão, que alcançou um marco de destaque, de diferenciação, na pessoa do profissional que é o jornalista Caco Barcellos. Pelas práticas profissionais e pelo tipo de reportagem que persegue, pode ser tido como um repórter pleno da consciência de integração com os outros seres no mundo. Atitudes e práticas que se vão tornando ausentes nos tempos da modernidade contemporânea, de.

(12) acordo com a expressão da pensadora política e filósofa alemã Hannah Arendt: "O que distingue a era moderna é a alienação em relação ao mundo e não, como pensava Marx, a alienação em relação ao ego".2 Nesse contexto, é necessário diferenciar tal determinação de missão como a tarefa de exercer, de maneira nobre e a serviço da comunidade, suas responsabilidades profissionais. Pois a presença do jornalista em cena era, em geral, considerada de acordo com o tempo por ele disponibilizado a serviço do jornal, indiferentemente da mídia utilizada para o informativo. Tinha-se em mente que o profissional que abraçasse a carreira jornalística teria, sim, que estar "em serviço" em tempo integral. Quando não trabalhando na redação, deveria o jornalista estar de prontidão, à disposição de convocação a qualquer momento. Tal conceito era arraigado naquela convulsiva época dos anos 1970. Essa atitude de prontidão, de estado permanente de alerta, que se esperava do jornalista, era mesmo um conceito que enquadrava o exercício do jornalismo como uma espécie de sacerdócio. Tal compreensão se confirmava –com outro sentido– na fala do poderoso empresário Assis Chateaubriand, dono de um império das comunicações. No momento em que o governo federal decretou, em meados dos anos 1960, o regime de cinco horas de trabalho diário para os jornalistas, o então proprietário dos Diários Associados, Assis Chateaubriand, teria considerado "obscena" tal determinação, afirmando que "o verdadeiro homem de imprensa, que palpita dentro de seu ofício, como os repórteres Tico-Tico, Carlos Spera e Nelson Gatto, não pode se sujeitar ao relógio, porque a notícia não acontece com hora marcada"3. Para a consideração formulada por Assis Chateaubriand, o comportamento ético do profissional de imprensa o impedia de "fugir" de um compromisso, mesmo que estivesse fora de seu horário de trabalho na empresa jornalística. Isso realmente pode ser considerado como uma marca registrada do profissional da notícia. A verdade contida na frase não pode corroborar a afirmação –pois se tratava de uma regulamentação profissional, em nada avançando a discussão sobre o comportamento ético dos profissionais–, vez que repórteres de destaque, da época, eram citados pelo homem, então considerado o mais poderoso do Brasil, como não podendo ficar condicionados a uma jornada diária de trabalho de apenas cinco horas, pois as notícias não respeitam horários. 2 3. ARENDT, Hannah. A Condição Humana. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1981, p.266. MORAIS, Fernando. Chatô o rei do Brasil. São Paulo: Companhia Das Letras, 1994, p. 647..

(13) Não é que os profissionais da imprensa não podem ficar condicionados a este ou àquele horário. Repórteres e editores estão sempre condicionados a horários, dependendo da atuação que têm: tudo tem hora nas redações, de acordo com o produto que devem finalizar. Se na área do impresso, há o momento do fechamento da edição, em que todos os jornalistas devem apresentar suas tarefas, de acordo com o horário de fechamento de cada setor, de cada caderno, de cada página, de cada editoria. Se nos meios eletrônicos (televisão ou rádio), apresentar o material pronto no horário em que deverá ser apresentado, ser levado ao ar. Quer dizer: a observação de Chateaubriand tem mais a ver com a administração do veículo, que pretende ter à mão, sempre, os seus profissionais. Os profissionais, cujos nomes foram citados por Chateaubriand, aos quais se poderia incorporar outros de porte semelhante, dos dias de hoje, não ficavam e não ficam parados na redação à espera de pauta. Para o profissional da notícia, ela está à frente de tudo, enquanto para o homem de negócios, o negócio da notícia não poderia sofrer solução de continuidade. E pode-se considerar que Chateaubriand fazia mais a defesa do negócio do que da integridade do profissional. O fato é que nenhum repórter que se preza dedica para o seu trabalho somente as horas em que fica na redação, à disposição das tarefas cotidianas. Nesse contexto, é preciso considerar, dentro das práticas jornalísticas, dois conceitos: 1) a atividade profissional vai muito além desse estabelecimento de 5 horas de atividades diárias; 2) a base legal de 5 horas serve apenas para efeito de cálculo salarial. O jornalista, comprometido com a missão identificada na profissão escolhida, ultrapassa qualquer dificuldade para atingir seu objetivo na investigação e divulgação do que considera importante e necessário publicar. Em geral, o repórter conta com informações e dados de pesquisas realizadas independentemente das atividades ligadas a esta ou àquela reportagem que esteja em andamento. Como exemplo desse tipo de prática, o repórter Caco Barcellos gastou cinco anos em pesquisas e captação de depoimentos para a publicação de seu livro Abusado – O dono do morro Dona Marta4. Toda essa tarefa destinada ao livro era desenvolvida depois que ele terminava sua jornada diária de trabalho na emissora de televisão. Os encontros para entrevistas eram feitos, em geral, de madrugada. Quer dizer: o repórter que vai em busca de algo original, muito além da exigência empresarial, precisa dedicar muito mais do que o compreendido. 4. BARCELLOS, Caco. Abusado – O dono do morro Dona Marta. Rio de Janeiro: Record, 2003. 560 p..

(14) pela jornada diária exigida pela empresa à qual está vinculado. Precisa investir seu tempo integral. Aquilatar a importância do tipo de trabalho realizado por um repórter como Caco Barcellos, que vai fundo na investigação com vistas a combater a injustiça social, é o que se propõe este estudo. E que esse trabalho seja realizado não apenas sob o aspecto da transmissão ao vivo, pela conhecida, e já discutida, possibilidade de alteração de um ambiente onde esteja se desenrolando um fato, diante da simples presença de uma câmera de vídeo e de um repórter de televisão. Mas, principalmente, perante a realidade de ampliação, de reverberação, da percepção do assunto em foco, vez que sob esse aspecto, é incontestável a supremacia da televisão sobre o veículo impresso, considerando-se seu poder de atingir as massas. E nesse contexto, em que se observa a manifestação de diversos autores e pesquisadores afirmando que a televisão –e o jornalismo nela praticado– se dirige às massas com produtos não cultos, ou frívolos, começa a mudar o conceito do jornalismo de televisão. Há não muito tempo o jornalismo de televisão era considerado menor, apenas um recorte, ou pelo menos, não tão sério para poder ser englobado pelo conceito que se reservava à imprensa escrita, sobretudo aos tradicionais jornais, os quais são considerados mais importantes por fazer um aprofundamento dos temas abordados, em vez do que se considera uma simples pincelada com que a televisão aborda certos temas. Nos anos 1950/60, época em que o telejornalismo engatinhava no Brasil, os pesquisadores desse momento histórico e inicial do jornalismo televisivo brasileiro, consideravam que, logo depois da transmissão de uma bombástica notícia veiculada pela televisão, era comum ouvir de algum telespectador: amanhã vamos saber a verdade no jornal (o impresso). Tal forma, nada velada, de preconceito contra o veículo eletrônico podia corresponder à expectativa de um conceito, ainda em formação, sobre o que se poderia obter ou esperar do jornalismo televisivo. Essa manifestação de preconceito poderia, também, corresponder à falta de tempo para a devida observação, experimentação e compreensão, por parte dos responsáveis pelo novo veículo, da plena capacidade a ser desenvolvida, pois configurava a necessidade de uma mudança cultural. Afinal, tratava-se de um novo conceito. Um novo veículo, que chegava para desbancar o existente. Os argumentos contra a televisão e em defesa do impresso, como maior profundidade para apresentar os fatos por inteiro, com suas versões e interpretações, conceitos elaborados pelos estudiosos e também pelos.

(15) praticantes da única forma respeitável de jornalismo então possível (vez que o rádio era visto apenas como anunciador de um fato que seria explorado pelo impresso), poderiam continuar inabaláveis, não fosse o surgimento de uma nova categoria de jornalistas, voltados à atuação específica na televisão. Essa atuação forjou uma nova forma de fazer jornalismo, de maneira quase conversada com o telespectador, mas calcada em pesquisa e investigação, de modo a se tornar merecedora de análise específica, pois a televisão já pôde mostrar o seu valor em matéria de apresentação de reportagens capazes de provocar transformações sociais. Mesmo mostrando o fato no momento em que acontecia, a televisão se prendia a um aspecto apenas do fato, pois no momento em que uma cena é mostrada, refere-se a apenas um recorte do fato, intencional ou não. Nas atuais transmissões ao vivo, as emissoras de televisão procuram colocar mais de uma equipe no local dos fatos, mostrando o detalhe que está sendo analisado e o geral do cenário. Resolve a questão da demonstração de que o detalhe não é uma cena forjada, pois inserido no geral que está sendo apresentado, mas continua sendo um detalhe, um recorte. O novo veículo trouxe a marca da rapidez, não apenas no sentido de agilidade, mas na velocidade de tratamento dispensado ao assunto. E esse conceito de rapidez que era pernicioso, no início, começou a se desprender do (conceito) de superficialidade a partir do momento em que as imagens passaram a ser transmitidas ao vivo, diretamente do local dos fatos. Esse conceito de superficialidade ficou muito tempo colado à atividade jornalística praticada na televisão. A tal ponto que, ao contrário do que acontece hoje –os alunos preferem a televisão–, nos anos da década de 1970 era freqüente a preferência pelo jornal impresso por parte dos estudantes de jornalismo. Mas, já há algum tempo, começou a ganhar vida própria a atividade jornalística na televisão. E aquela impressão inicial perniciosa começou a ser transformar, tanto entre os críticos como entre os estudantes. Os estudiosos consideram que um dos fatores transformadores pode ser atribuído às reportagens de destaque, apresentadas por repórteres que começaram a fazer a diferença. Em princípio, eram produções exibidas por programas caracterizados como de grandes reportagens. Depois, foi influenciando a paisagem diária do telejornalismo, até se caracterizar como marca registrada dos telejornais das diferentes emissoras, tornando-se comum a apresentação de séries semanais de grandes reportagens que são mostradas em capítulos. A televisão, que chegou tímida ao jornalismo, descobriu o filão da exibição de um fato em profundidade, com a perspectiva da prova real, irrefutável, mostrada ali, num detalhe da tomada de câmera, e o corte rápido,.

(16) em seguida, para o acusado, que não tem como contestar, numa imagem que fica registrada no inconsciente do telespectador a cada vez que pensa no assunto. Em tempo real, a atenção do telespectador é irremediavelmente capturada a partir do momento em que ele se sente como participante do fato. Isso faz parte da condição humana, objeto de estudo de Hannah Arendt, e é por ela descrito de forma a não deixar dúvidas quanto a força que tem a imagem captada pelo telespectador: "A presença de outros, que vêem o que vemos e ouvem o que ouvimos garante-nos a realidade do mundo e de nós mesmos".5 Essa descrição da pensadora alemã sobre a força que tem a imagem vista pelo telespectador, no exato momento em que acontece, pode ser interpretada como a medida da importância que adquire uma transmissão ao vivo. O que o telespectador está vendo, portanto, apesar de ser apenas um recorte escolhido (pelo repórter, pelo câmera, pelo editor ou pelo diretor de tv), torna-se, para ele, uma comprovação da realidade que o cerca. E, mesmo quando da apresentação de uma reportagem previamente gravada e editada, a força da imagem mostrada pela televisão se confirma na repercussão, em geral, apresentada no dia seguinte pelos jornais impressos, tal a força que adquire a reportagem televisiva, na multiplicação provocada pelos telespectadores. A partir da primeira transmissão brasileira, em 18 de setembro de 1950, a popularidade da televisão esteve sempre em linha ascendente. Afinal, ultrapassada a barreira do preço –que se tornou acessível com a produção em escala–, só é exigido conhecimento dos rudimentos do idioma pátrio para acompanhar uma programação. E essa programação é preparada exatamente para não alijar nenhum dos segmentos sociais. A grade de programação de uma emissora de televisão é composta basicamente de produções que atendam a expectativa e/ou a exigência do setor comercial, responsável pela negociação da verba de publicidade. Visando atingir o maior número de telespectadores, a produção de telejornais é tratada como entretenimento. Isto se dá porque os telejornais são integrantes da programação. Como tal, devem resultar em produto vendável, pois entram numa grade de programação que os leva a ter esse formato. Por esta lógica empresarial que visa a identificação do mercado, serão sempre tratados como produtos exatamente iguais aos outros: todos têm que dar lucro.. 5. ARENDT, Hanna, idem, p. 60..

(17) Todavia, pesquisadores constataram que a finalidade do jornalismo na televisão é ser um alavancador da credibilidade da emissora. Quer dizer: uma emissora que apresente um jornalismo de qualidade, com um posicionamento ético e independente, passará uma imagem de seriedade e poderá desfrutar de melhor cotação no mercado publicitário. Essa imagem de respeito possibilitaria melhores resultados à emissora, que poderia abocanhar maior fatia de verbas de publicidade. Com um resultado melhor, haveria condições de investimento na produção artística, o que acabaria gerando o que é considerado um círculo virtuoso –produção jornalística de qualidade passa imagem de seriedade, que resulta em mais e maiores verbas de publicidade, o que possibilita investimento na produção, gerando programação melhor, que atrai mais audiência, e acaba atraindo mais anunciantes–, que se autoalimenta constantemente. Para melhor atender ao processo de produção como um todo, que acaba conferindo os bons resultados, as redes têm que investir não apenas nas equipes dos programas e no cast artístico, mas também na equipe de produção do telejornalismo. Assim como a rapidez é uma das marcas do trabalho em televisão, também o aparecimento de modernas tecnologias acontece rapidamente no meio televisivo. E os novos equipamentos vão sendo oferecidos de maneira tão incisiva –em função da competição, da necessidade que cada emissora tem em acompanhar quem está na liderança–, que muitas vezes uma emissora, uma rede de TV, pode confundir qual é a sua real necessidade de investimento no setor. O que acontece é que, em geral, a sofisticação tecnológica pode aparecer como a solução de tudo, e tende a iludir sobre a real capacidade de transmissão de algo que se possa concretizar como produto jornalístico de qualidade. Isto é: a ilusão que a tecnologia produz pode se refletir na incapacidade organizacional de reforçar o quadro operacional humano. Em quantidade e, sobretudo, qualidade. Um fato a se destacar, dentre os noticiosos da televisão brasileira, é a presença do Jornal Nacional como líder de audiência há mais de três décadas. Aliado ao fato da competência profissional e técnica, o respeito ao público no cumprimento do horário, um dos fundamentos do jornalismo televisivo, é sua marca registrada. Em geral, quando o som da vinheta do Jornal Nacional preenchia o ambiente, podia-se ouvir alguém comentar: são oito horas. Desde que foi ao ar pela primeira vez, no dia 1º de setembro de 1969, o JN (como é visualmente conhecido pela vinheta eletrônica que o anuncia) é.

(18) considerado um fenômeno6 na televisão brasileira. E seu horário de apresentação, inicialmente: às 8 da noite; depois, recuou estrategicamente 5 minutos: 5 para as 8; e, atualmente, está fixado em 8 e 15. Trata-se de uma alteração de estratégia comercial, absorvida pelo público telespectador. Tão bem absorvida que nos leva a refletir sobre um fato: a tradicional novela das 8 vai ao ar, efetivamente, às 9 da noite -pelo horário oficial de Brasília-, e continua sendo chamada de novela das 8. No início, o JN tinha cerca de 23 minutos líquidos, começando às 8 da noite, o que fazia com que a novela das 8 entrasse no ar em torno de 8h45. Mas a novela continuou sendo chamada de "das 8", em função da mencionada estratégia comercial, cujo objetivo, neste caso, é o de não dar a sensação de que se trata de um programa que é levado ao ar "tarde da noite". Para muitos, diante da grade de programação da emissora, o JN é apenas um produto encaixado entre duas telenovelas, que têm seus horários, seus patrocínios, equipes e esquemas de produção e precisão, aliadas à qualidade na apresentação. Considerando a qualidade técnica e a abrangência do noticiário do Jornal Nacional, que lhe confere uma respeitável audiência em todo o território brasileiro e, considerando também a trajetória da rede de televisão responsável pelo JN, é possível associar credibilidade a poder. Quer dizer, o conceito estabelecido é o de que ganha visibilidade uma emissora que tenha um jornalismo ativo e instigante7. Que fuja dos padrões dos noticiários "de gabinete", das fontes oficiais, ou de reportagens, ditas investigativas, que, em geral, nada mais são do que dossiês que chegam prontos –formulados por fontes interessadas em sua divulgação, ora pelo Ministério Público, ora por políticos, por via indireta, ou representantes de grandes corporações empresariais, que acabam revelando dados de interesse jornalístico, mas que lhes interessa, particularmente, ver publicados–, e que são reescritos como matéria da redação. Evitar esse tipo de jornalismo, enfim, foi a opção de uma 6. SOUZA, Florentina das Neves. Alguns Momentos dos 50 Anos do Telejornalismo no Brasil. Dissertação de mestrado: ECA-Escola de Comunicação e Artes da USP – Universidade de São Paulo. 2000, p.163. 7 Exemplo de destaque, que o jornalismo é capaz de fazer, pode ser atribuído ao fato de o SBT-Sistema Brasileiro de Televisão ter conquistado, no final da década de 1980, credibilidade suficiente para atrair anunciantes considerados de primeira linha. O novo olhar do mercado publicitário se deu em função de ter investido numa programação jornalística, também considerada de primeira linha, com a presença do jornalista Boris Casoy à frente do TJ Brasil –o carro-chefe da nova programação–, inaugurando a figura do âncora no telejornalismo brasileiro. A ação do SBT, investindo pesado no jornalismo, provocou uma reviravolta no cenário do telejornalismo praticado pelas demais emissoras de televisão, porque influiu no faturamento. A prática de um jornalismo sério e instigante, pelo SBT, gerou uma alteração nos indicadores do mercado publicitário, que acabaram levando à reclassificação da emissora, tornando-a apta a receber verbas.

(19) empresa jornalística que decidiu investir e mostrar que o poder da televisão pode ser utilizado na construção de um jornalismo sério, de prestígio e de credibilidade, ao contrário do que fez parte da concorrência, que continuou apresentando um jornalismo só para o cumprimento da legislação. Mas nem sempre foi assim. Essa mesma emissora (Rede Globo de Televisão), que hoje representa o que se poderia chamar de a vanguarda do posicionamento jornalístico, diante das inovações, do investimento, da formação que promove e da qualidade do material apresentado, já enfrentou dias difíceis. Num lapso de tempo de década e meia, a direção deu mostras de estar sintonizada com os novos ares que começaram a fluir na república mal-saída de uma feroz ditadura-, e conseguiu dar a volta por cima. Saiu de uma situação ruim e reafirmou o respeito e a posição de destaque –além do prestígio que já usufruía pela qualidade do JN como produto– já conquistadas com seu jornalismo. A emissora encerrou o século 20 com uma clara demonstração de investimento no jornalismo comunitário -através da participação popular em seus telejornais locais, a partir do exemplo criado em São Paulo, tendo à frente o jornalista Chico Pinheiro- e no jornalismo investigativo, com reportagens de peso, apresentadas em série. Apoiou, no ano de 2000 uma investigação que consumiu bom dinheiro e um ano de trabalho de uma equipe inteira de tevê. E colheu o que lhe cabia, como uma consagração do respeito ao primado da ética. Já no começo do século 21, apresentou uma equipe, um telejornal, e sobretudo um repórter, com credibilidade integral, capaz de denunciar um caso estarrecedor, através da reportagem denominada Recontando os Mortos da Repressão, em que o exército brasileiro forjou um acidente de carro no Rio de Janeiro para esconder a verdadeira causa da morte de um jovem casal de estudantes paulistas. O casal foi, na verdade, assassinado pela repressão da ditadura militar. A reportagem, mostrada nos dias 2, 3 e 4 de abril de 2001, provocou uma reviravolta não somente na esfera oficial, mas também na particular, na sociedade. Oficialmente, foi a primeira vez que, depois de comprovadamente adulterado, o número de vítimas da repressão teve que ser recontado. Particularmente, foi alterada a condição de cidadania de pelo menos uma pessoa, que passou de foragida da justiça -sob a acusação de assassinato-, a vítima da repressão militar..

(20) A reportagem ganhou os prêmios Líbero Badaró e Vladimir Herzog de Direitos Humanos, atribuído pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo. A equipe toda foi premiada, e o repórter ainda foi agraciado no final do ano de 2003 com um prêmio concedido pela ONU de reconhecimento da luta pelos direitos humanos em todo o mundo. Fruto do investimento sadio no jornalismo investigativo, capaz de influir na mudança de um fato social e de mudar a imagem da emissora, que já passou por momentos de ausência total de credibilidade pública, quando teve seus veículos de reportagem apedrejados nas ruas, enquanto as pessoas gritavam em coro: "O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo"8. O comportamento até então inusitado da massa telespectadora poderia ser considerado um reflexo da distância que contrapunha a realidade do calor das ruas e a superficialidade do ar refrigerado das redações. As emissoras de televisão não pareciam dispostas para a cobertura diária de um fato que se arrastava por dias e dias, como a paralisação promovida pelos metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema. Liderados por Luiz Inácio Lula da Silva, eles promoveram a ousada primeira greve contra a ditadura militar. Mas a imprensa, que há pouco se livrara da censura oficial, ainda não se habituara aos novos ares, e pairava nas redações uma indesejada autocensura. E a televisão, que costumava dar o pontapé inicial num assunto, antecipando o que os jornais explorariam em profundidade no dia seguinte, não mostrava disposição para investir em reportagens sobre o assunto greve, metalúrgicos, situação social dos trabalhadores e assim por diante. Menos disposição ainda em divulgar boletins das assembléias dos grevistas. A chamada grande imprensa também não cobria a contento. Mas quem sofria era a televisão. Afinal, as equipes de reportagem, os repórteres, cinegrafistas e técnicos iam para o local dos fatos, e eram vistos. A presença da emissora de televisão era marcante, chamava a atenção e criava diferentes expectativas. Quando ia para casa e via que o assunto não era mostrado no noticiário, o cidadão se sentia enganado. Com a repetição do fato ou, ainda pior, com a manipulação praticada em alguns momentos9, a exacerbação pública voltou-se contra os 8. Frase gritada em coro nas ruas de São Bernardo do Campo, em março de 1979, durante a greve dos metalúrgicos. A grande imprensa (aí incluídos os impressos, e não apenas as redes de televisão) fazia o jogo da ditadura militar da época, que proibia as greves, e os manifestantes descarregavam sua revolta tentando tombar os veículos de reportagem da Rede Globo. O jornal O Estado de S.Paulo também condenava a greve, mas seus veículos não eram atacados, confirmando a supremacia dos notociários de televisão sobre os impressos. O refrão foi novamente entoado no Vale do Anhangabaú, centro de São Paulo, em meados de 1984, durante um comício pelas Diretas-Já, que a Rede Globo ignorava ou camuflava no noticiário. 9 Comício pelas Diretas-Já do dia 25 de janeiro de 1984, na praça da Sé, foi apresentado pela Rede Globo de Televisão como uma festa pelo aniversário de São Paulo..

(21) veículos da emissora. E a multidão investiu, então, enfurecida contra as equipes de reportagem, acuadas dentro dos carros. E o caso poderia ter chegado a extremos terríveis, não fosse a intervenção dos próprios colegas da imprensa. Eles fizeram um cordão em defesa das equipes que poderiam ser massacradas dentro dos veículos. Se formos considerar o reflexo disso em termos de audiência –contrapondo-se à mídia impressa–, o fato poderia ser aquilatado como uma mostra do seu poder de penetração da televisão entre a população. Poder esse que foi muito bem trabalhado pela direção de jornalismo –através das reportagens que só a televisão pode fazer– para reverter o quadro negativo que se desenhava. A trajetória das coberturas jornalísticas começou a ser esvaziada nas redações, o que levou o jornalista Ricardo Kotscho a acreditar que "a chamada grande reportagem está desaparecendo dos nossos jornais"10, considerando que há cada vez menos repórteres dispostos a mergulhar de cabeça num assunto específico, esquecendo-se de tudo o mais à volta, inclusive da vida pessoal. Tudo isso para, no fim, sentir apenas o prazer de contar uma boa história. É na grande reportagem – definida como aquela em que um assunto é explorado em profundidade, cercando todos os seus ângulos, que ocupa grande espaço e que, por isso mesmo, exige um grande investimento–, enfatiza Kotscho, que reside o mais fascinante reduto do Jornalismo, "aquele em que sobrevive o espírito de aventura, de romantismo, de entrega, de amor pelo ofício"11. Tanto em termos humanos, para o repórter, como financeiros, para a empresa. Mas o ceticismo de Ricardo Kotscho parece, na verdade, soar como desafio aos ouvidos de repórteres obstinados em busca da fonte genuína de informação, que pontuam a vida da imprensa. Em todo o mundo. E, também no Brasil, não são poucos. É possível afirmar que na televisão brasileira eles existem e já fazem história. É o caso do repórter Caco Barcellos, que denunciou, através da Rede Globo, a existência –o que obrigou a abertura– de uma vala clandestina no cemitério de Perus, em São Paulo, que foi utilizada para o enterro coletivo de indigentes –muitos assassinados pela Polícia Militar paulista– e vítimas da repressão da ditadura militar. É também o caso de Fábio Pannunzio, que, em reportagem pela Rede Bandeirantes, foi quem descobriu o paradeiro de Georgina de Freitas, a pessoa considerada a maior fraudadora do INSS –que 10 11. KOTSCHO, Ricardo. A Prática da Reportagem. São Paulo: Ática, 1986, p.71. Idem, idem..

(22) teria subtraído mais de cem milhões de reais dos cofres da Previdência–, foragida no exterior. Tem também o caso do repórter Roberto Cabrini, que viajou ao exterior pela Rede Globo de Televisão e revelou ter feito mais de mil ligações telefônicas para obter uma pista que, por fim, o levou a descobrir (à frente da concorrência e da Polícia Federal) o paradeiro de Paulo César Farias12-tesoureiro da campanha eleitoral do ex-presidente Fernando Collor de Mello13-, foragido da justiça brasileira no exterior. Também o repórter Valmir Salaro, numa delicada, detalhada, e não menos perigosa reportagem, trouxe revelações sobre a atuação da máfia chinesa em São Paulo. O repórter Valmir Salaro havia juntado, durante algum tempo, informações suficientes para uma reportagem sobre os métodos utilizados pela máfia chinesa para vender segurança e extorquir os chineses. Estes, em geral, em situação irregular no país, se tornaram presas fáceis das organizações criminosas. São pequenos comerciantes que se instalaram em São Paulo, em razão de a capital paulista experimentar uma crescente imigração de orientais, o que tem gerado muitas disputas por pontos de comércio. Nesse contexto, surge a brecha para a atuação mafiosa. Depois de uma investigação apurada sobre uma seqüência de assassinatos no bairro oriental de São Paulo, a reportagem de Valmir Salaro foi apresentada. O momento era oportuno, pois acabara de acontecer um tríplice homicídio num restaurante da Liberdade, com cenas que pareciam saídas de um roteiro do cineasta Quentin Tarantino14, que valoriza e faz demonstração explícita de cenas de violência: na descrição de uma das testemunhas (que obviamente não quis ser identificada) do restaurante lotado, o relato do repórter Valmir Salaro (coberto com imagens do restaurante trabalhadas na arte de computação gráfica para simular o que estava sendo narrado) foi assim: "Um homem jovem, de estatura média, magro, cabelo liso caído na testa, abriu a porta do restaurante e parou. Olhou para uma mesa e se dirigiu a ela. Enquanto caminhava, sacou uma pistola e começou a atirar contra a mesa onde jantavam três homens. Um deles ainda esboçou reação, depois de atingido, mas o homem olhou friamente e atirou uma segunda vez. Olhou para 12. Assassinado em 23 de junho de 1996, depois de passar um ano e meio na cadeia Afastado da Presidência da República em 1992, depois de sofrer processo de impeachment. 14 TARANTINO, Quentin. Diretor de cinema (Cães de Aluguel, entre outros filmes) que valoriza a demonstração explícita da violência. 13.

(23) a cena... Guardou a pistola, olhou novamente e saiu calmo, caminhando até a porta. Abriu-a e desapareceu atrás dela".15 A apresentação de uma reportagem como a descrita acima, realizada pelo repórter Valmir Salaro, depende fundamentalmente da qualidade do repórter para não ultrapassar o limite que a transformaria em noticiário policialesco. Os demais itens da matéria que o Jornal da Globo levou ao ar mostravam um mapa com a indicação da procedência da organização criminosa, até os locais onde estariam atuando. Das denúncias de casos confirmados de perseguições a comerciantes que se recusavam a pagar a taxa de segurança exigida; aos assassinatos de chineses com pequenos pontos de comércio na periferia de São Paulo; até ao tríplice assassinato num restaurante da Liberdade. Foi a única abordagem séria sobre o assunto. A concorrência reverberou no dia seguinte o que a TV Globo havia veiculado da reportagem do repórter Valmir Salaro. Mais não poderiam fazer, porque o que foi apresentado não estava disponível num site da internet. Foi informação arduamente garimpada por um repórter que leva muito a sério o que faz. E foi outra repórter, Marisa Fernandes, pela TV Liberal, afiliada da Rede Globo em Belém do Pará, quem revelou, ao Brasil e ao mundo, as imagens originais de um faroeste que lembra cenas cinematográficas de uma guerra entre dois mundos diferentes: de um lado, os trabalhadores rurais portando suas foices; de outro, os policiais militares com suas metralhadoras, capacetes, escudos e bombas de gás. Essa batalha, do dia 16 de abril de 1996, ficou conhecida como o Massacre de Eldorado do Carajás, no interior do Pará. Dezenove trabalhadores foram mortos a tiros pelos PMs. A presença da televisão foi determinante para escancarar o caso ao Brasil e ao mundo. Um caso que se tornou incontestável pela presença determinante de uma câmera de televisão. A equipe de reportagem tinha se deslocado para a região por causa do bloqueio da rodovia PA-150, realizado por um grupo de trabalhadores rurais sem-terra. E a equipe já se preparava para voltar à emissora de televisão quando chegaram os soldados da Polícia Militar. Eles desbloquearam a pista e o confronto se instalou. A equipe de reportagem registrou as cenas com a ótica dos manifestantes: de frente para a polícia. E teve que correr para não levar bala. Balas que atingiram mortalmente 19 pessoas, algumas delas executadas à queima-roupa, segundo os registros legais sobre os exames cadavéricos das vítimas. 15. SALARO, Valmir. Repórter policial na Rede Globo de Televisão, em acompanhamento da edição da reportagem sobre a máfia chinesa, no Jornal da Globo, 2001..

(24) Um caso plenamente exibido pela televisão, com o tiroteio explícito, sem cortes, apenas com movimentos de câmera de aproximação (zoom in) e de distanciamento da cena (zoom out), e a narração sufocada da assustada repórter, que mostrou alguns, dentre os 19 mortos arrolados como vítimas dos PMs, que, juntamente com seus superiores, são réus num processo que se arrasta há mais de 7 anos na Justiça paraense. E há, certamente, muita história para ser contada sobre o Massacre de Eldorado do Carajás. Algumas dessas histórias chegaram às redações de jornais impressos e de telejornais. Foram contadas por pessoas que passaram pela estrada logo após o desbloqueio. Estavam em viagem a Belém e algumas dessas pessoas foram às redações contar versões do que viram na estrada16. Para que um caso possa ser investigado na sua plenitude é preciso que haja o interesse, a obstinação do repórter, apoiado pela empresa de comunicação. Pode acontecer de a investigação ter sucesso, ou não. Mas o empenho, o trabalho exaustivo, é fundamental, pois pode acabar revelando coisas que não se imaginava conectadas, quando do início da investigação. À vala clandestina de Perus, o repórter Caco Barcellos chegou em meados de 1990, quando estava tentando descobrir onde eram os locais que a Polícia Militar de São Paulo utilizava para enterrar clandestinamente os mortos pelo esquadrão das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar, a temida Rota. A propósito desse esquadrão, o repórter lançou o livro Rota 66 – A História da Polícia que Mata17, mostrando como a vida humana tem pouco valor nas periferias dos grandes centros urbanos. Procurando pessoas comuns entre os registros do cemitério de Perus – trabalhadores e estudantes, em sua maioria sem passagem pela polícia–, assassinadas pelos PMs da Rota, e enterradas sem documentos, como indigentes, o repórter Caco Barcellos faz uma 16. Editor de um telejornal na TV Liberal, participei de uma reunião em que estavam presentes o chefe de reportagem da emissora, um repórter e duas professoras. Elas voltavam para Belém de um congresso de professores no interior do Pará . Estavam a bordo de um ônibus que passou na rodovia PA-150 pouco depois do massacre. E elas viram muitas cenas que as deixaram assustadas. Fizeram relatos impressionantes, que puderam ser confrontados positivamente com outros relatos, que chegaram à redação do jornal O Liberal (diário impresso em Belém), mas que eram impossíveis de ser mostradas porque as testemunhas, justificadamente, não queriam aparecer. Os fatos, em si, não podiam ser comprovados, a menos que houvesse a boa vontade da empresa de comunicação, pois exigiria investimento alto numa investigação difícil, com pistas inacessíveis, além da necessidade de ir fundo no comando da Polícia Militar, para identificar o responsável pela ordem de "desocupar a estrada", que teria sido entendida pelo coronel Pantoja, comandante da operação, como "desocupar a qualquer custo". Pouco depois de ouvir o relato das duas professoras, fiz, na redação, uma pré-entrevista com o governador do Pará, Almir Gabriel, que iria participar de uma entrevista ao vivo, mas acabou gravando um depoimento, pois estava muito nervoso para dar entrevista no estúdio. Nessa conversa não gravada ele admitiu ter dito ao secretário de Segurança Pública para "desocupar a estrada de qualquer maneira". Nesse momento, ele afundou o rosto entre as mãos e desabafou: "Mas não isso!". 17 BARCELLOS, Caco. Rota 66 – A História da Polícia que Mata. Rio de Janeiro: Record, 2003, 352 p..

(25) descoberta assustadora: mais de mil ossadas humanas, envoltas em sacos plásticos e amontoadas numa vala comum. Dentre as ossadas, várias foram identificadas. E dentre estas, constavam algumas cujos nomes estavam listados como desaparecidos políticos durante a ditadura militar. Caco Barcellos se define como um repórter que tem fascinação por "contar o que ninguém contou". E, também, "falar dos que ninguém fala"18. Ele diz que não tem a preocupação do furo19, de ser o primeiro em dar uma notícia. Ele sente, sim, a responsabilidade de a transmitir por inteiro. Para ter a certeza disso, cumpre um roteiro absolutamente preciso na apuração dos dados, na checagem desses dados, no apuro de ouvir atentamente cada depoimento e de verificar meticulosamente a edição para não haver desvirtuamento do sentido. Tudo confirmado, Caco Barcellos tem o comportamento ético de procurar, pessoalmente, o acusado e de mostrar tudo o que tem contra ele. Depois de explicar tudo, de demonstrar o grau de envolvimento em que o acusado se encontra, o repórter Caco Barcellos oferece-lhe a oportunidade de contestar tudo. Se o acusado apresentar argumentos suficientes, o repórter se compromete a recomeçar as investigações com os novos dados que eventualmente venham a ser fornecidos. Depois, garante que informará tudo, mesmo que os resultados sejam opostos aos que ele havia chegado até então. Com a isenção de quem usa a profissão para oferecer a oportunidade de tratamento igual a todos os lados envolvidos na questão, o repórter Caco Barcellos admite que pugna pelos mais fracos: "Nos morros, nas periferias, nas áreas pobres do país, a imprensa é menos eficaz do que é nas áreas nobres"20. Por esse motivo, e até mesmo numa atitude que carrega a expectativa de resgatar para a imprensa a credibilidade e o respeito da população é que o repórter trabalha pensando sempre em mostrar os que não têm vez nem voz, pois considera que a polícia (e a justiça) trata bem os que estão bem, e trata mal os que estão mal. Entrevistado pela revista Caros Amigos em seu número 2, o repórter Caco Barcellos revelou um perfil próprio, que tem na injustiça social a 18. Entrevista ao Programa do Jô, na Rede Globo de Televisão, em maio de 2003. Furo é um jargão jornalístico para definir a notícia dada em primeira mão, com exclusividade, ou apenas na frente da concorrência. Segundo o Dicionário de Comunicação (Rabaça, C.A. & Barbosa, G., Rio de Janeiro: Editora Codecri, 1978, p. 227) Furo é notícia importante, publicada em primeira mão por um jornal ou qualquer outro veículo de comunicação de massa, antes dos concorrentes. 20 CAROS AMIGOS. São Paulo: Editora Casa Amarela, Ano VII, número 76, julho de 2003, p. 34 19.

(26) matéria-prima do seu trabalho21, e foi, por isso, considerado pelo jornalista Sérgio de Souza22 como um paladino da Justiça Social. Caco diz que escolheu ser repórter policial por ser uma área em que se sentia mais seguro para escrever, em razão da infância pobre, na periferia de Porto Alegre, onde conviveu com a insegurança e o medo da ação da polícia, que sempre perseguia e atingia os mais fracos. Essa lembrança infantil da brutalidade policial e o desencanto com a frustrada busca da justiça, o levaram a uma forte indignação em relação à usual atitude da polícia de desconsiderar, em princípio, e ao arrepio da lei, qualquer possibilidade de ser inocente o cidadão que esteja sendo abordado, sejam quais sejam as circunstâncias. Como repórter, Caco Barcellos passou a utilizar essa indignação na linha de frente de seu questionamento. Num exercício de raciocínio frio, o repórter traduz em números, em valores monetários, o custo da ação policial e pondera: "Custa 33 reais por mês um menino estudando no Ciep23. Uma bala, acho que custa 8 reais, só um projétil, e eles disparam vinte, trinta pra matar."24 Nessa avaliação fria, o repórter argumenta que quer ver respeitados seus direitos de cidadão que paga seus impostos. Ele quer saber como está sendo gasto seu dinheiro de contribuinte. Alegando –e mostrando com números– que matar custa muito mais caro do que educar, o repórter, indignado, pergunta: "Com que direito o cara pega a minha grana pra fazer aquilo que eu não quero? Com que direito ele usa? (...) Eu sou contra esse negócio, coronel não tem direito de fazer isso. (...) Pelo menos é o meu grito de protesto com relação à parte do meu imposto que ele usa para matar"25. Afinal, considera ele: "Tudo o que eu vira como garoto passei a ver como repórter"26. E essa nova condição, a de repórter, começou a despertar em Caco Barcellos um outro olhar, de dentro para fora, que o levou a formular uma crítica direta à imprensa que, segundo avalia, é fortemente responsável por esse quadro de violência: "Eu acho que a imprensa não mata, mas contribui. (...) Indiretamente mata. Às vezes até pela omissão, pelo silêncio, mata mais. 21. Idem, ano I, número 2, maio de 1997, p.23. Idem, idem, p. 22. 23 CIEP, Centro Integrado de Educação Popular. Unidades escolares criadas no governo Leonel Brizola, no Rio de Janeiro, os CIEPs mantinham as crianças em regime integral, das 8 da manhã às 8 da noite, com esporte, música e educação. O levantamento dos custos, da educação e das balas que matam foi feito pela jornalista Cidinha Campos e apresentado no programa radiofônico dela. 24 Idem, idem. 25 Idem, idem 26 Idem, idem 22.

(27) Deixar de falar, muitas vezes, é mais grave até do que você se posicionar politicamente."27 A atitude de se posicionar diante da descoberta de um fato levou o repórter Caco Barcellos a conduzir de forma plena e a apresentar de forma inatacável a reportagem sobre o jovem casal de estudantes paulistas torturados e mortos pela repressão militar em 1968. Apresentada pelo JN em três dias consecutivos (2, 3 e 4 de abril de 2001), a reportagem Recontando os Mortos da Repressão pode ser considerada como uma aula de jornalismo. E é, por isso, a base deste estudo.. 27. Idem, idem.

(28) a) O jornalismo impresso e o eletrônico. Ao encerrar o último debate realizado pela Rede Globo de Televisão, entre os dois candidatos à Presidência da República do Brasil –Luiz Inácio Lula da Silva e José Serra–, o jornalista William Bonner, mediador do debate, fez uma referência às origens da Globo. Ao destacar o trabalho essencialmente jornalístico da emissora na promoção e realização do debate, observou: "É preciso lembrar que a Rede Globo, lá atrás, era um jornal"28. Apesar de o jornalismo estar presente desde as primeiras emissões televisivas no Brasil, segundo Sebastião Squirra29 –conforme citação em seu paper Telejornalismo no Brasil–, somente meio século depois da prática televisiva brasileira, o jornalismo se firmou como digno do lugar de destaque que sempre teve na telinha. Agora, com uma representação de seriedade, responsabilidade e capacidade de denúncia e exposição abrangente das mazelas do poder público. Foi uma longa caminhada, entre o descrédito inicial do noticiário mostrado pela tevê e a consagração atual, com a apresentação de reportagens impactantes. Não apenas por causa das revelações em si, mas também sob o ponto de vista da novidade. Do furo mesmo, esse termo que era perseguido nas redações, e parecia ter caído em desuso, depois do avanço das modernas tecnologias de transmissão simultânea da informação, mas que volta a se apresentar a cada vez que um repórter insiste e decide avançar um pouco além do que o convencionalmente estabelecido, para poder mostrar o que ninguém mostrou. Exemplo desse novo paradigma é o caso da reportagem de Caco Barcellos sobre a vala clandestina do cemitério de Perus. Era o que se poderia chamar de assunto velho, tal o tempo –mais de uma década– que separava a construção do cemitério e a reportagem reveladora, que acabou se constituindo em verdadeiro furo aplicado pelo jornalismo eletrônico sobre o impresso.. 28. Debate realizado nos estúdios da Rede Globo de Televisão entre os dois candidatos na disputa do 2º turno das eleições de 2002 à Presidência da República do Brasil. Apresentado ao vivo, na noite de 25 de outubro de 2002. 29 SQUIRRA, Sebastião C.M. O Telejornalismo no Brasil. Paper apresentado na ECA - Escola de Comunicações e Artes da USP – Universidade de São Paulo, em dezembro de 1992, p. 6..

(29) Considerado o primeiro telejornal brasileiro, o Imagens do Dia30 não tinha horário fixo para ser apresentado. Ficou no ar por um período pouco superior a dois anos. Squirra31 observa que a tendência do patrocínio já estava se impregnando nos noticiários locais, e o pioneiro telejornal foi substituído pelo Telenotícias Panair. Este, entrava pontualmente às 9 da noite, mas ficou pouco tempo no ar, até ser trocado pelo Repórter Esso, então já um sucesso do noticiário radiofônico. Era a famosa cadeia de transposição que do jornal impresso levou ao rádio, que encaminhou para a televisão. Tal trajetória, certamente, pode ser entendida como um eco do que acontecia nos Estados Unidos32. A transposição do noticiário impresso para o sistema radiofônico era uma coisa que acontecia naturalmente. Afinal, o impresso era a fonte de onde jorravam as notícias que preenchiam o dia-a-dia do cidadão comum. Isso acontecia nos Estados Unidos, e um exemplo dessa base comum pode ser encontrado no livro de Walter Cronkite, conhecido como o maior âncora do telejornalismo norte-americano. Cronkite descreveu em seu livro de memórias como é que ele se desdobrava para apresentar um noticiário radiofônico na década de 1930, em Kansas City, no Missouri, EUA.: "Naquela época, não era incomum que até as editorias de notícias de estações muito maiores simplesmente reescrevessem o jornal impresso local, e era isso o que eu fazia na KCMO"33. Claro que um jornalista atento e irrequieto não se contenta apenas com isso. E Cronkite acrescentou que fazia todos os contatos telefônicos possíveis –com a polícia, os bombeiros, os hospitais–, na tentativa de dar "algum jornalismo em primeira mão"34. Se considerarmos o jornalismo que é apresentado por algumas emissoras brasileiras, constataremos que o radiojornalismo hoje praticado no Brasil é, ainda, tão incipiente como o descrito por Walter Cronkite. A televisão teve, em seu início, o rádio como fonte e inspiração, e a dependência da verba publicitária como fator determinante da programação. Esta é a avaliação que fez um dos maiores responsáveis pela elevação da qualidade televisiva brasileira sobre a indústria da televisão no Brasil, descrita por Gabriel Priolli35, na autobiografia que escreveu sobre a vida de Walter 30. Idem, idem. Idem, idem 32 SQUIRRA, S. Boris Casoy, o âncora no telejornalismo brasileiro. Petrópolis: Vozes, 1993. 33 CRONKITE, W. Repórter – Memórias do maior âncora da TV americana. São Paulo: DBA, 1998, p. 62. 34 idem, idem. 35 Idem, idem. 31.

(30) Clark36. O livro revela passagens interessantes e dramáticas sobre a emissora carioca, pois Clark foi o homem que transformou a iniciante e precária produção da TV Globo na marca de qualidade que ganhou a confiança do público telespectador e o respeito do mercado. Tal respeito, diga-se de passagem, deixa muito claras essas características marcantes no esquema inicial de programação da televisão no Brasil: "a herança radiofônica e a subordinação total dos programas aos interesses e estratégia dos patrocinadores"37. A importância do jornalismo na televisão e sua extensão do jornalismo impresso e radiofônico tem sido objeto de significativos estudos acadêmicos, em vista do destaque que tem nas sociedades modernas, e da repercussão que têm as emissões televisivas. Contudo, no Brasil, muitos consideram reduzida a produção bibliográfica sobre o assunto. Para se ter uma idéia de quão restrita é essa produção, em sua dissertação de mestrado apresentada em 198738, Sebastião Squirra analisa as três obras então disponíveis que tiveram o telejornalismo brasileiro como foco central de seus estudos: Jornalismo Audiovisual, de Walter Sampaio, publicado pela EUSP/Vozes, São Paulo/Petrópolis, 1971; Jornalismo na TV, de Gontijo Teodoro, publicado pela Tecnoprint, Rio de janeiro, 1980; e o livro 15 anos de história – JN, de Cláudio Mello e Souza, da Editora Globo, Rio de Janeiro, publicado em 1984. Em sua dissertação, que tem a preocupação de apresentar-se como proposta didática, Squirra fez análise detalhada de cada uma das obras citadas, o que, certamente, desenhou o moderno aprendizado do telejornalismo a partir de então. Já na dissertação de mestrado apresentada por Liana Vidigal Rocha39, outras três obras são indicadas como objeto de estudo: Muito Além do Jardim Botânico, de Carlos Eduardo Lins da Silva, publicado em São Paulo pela Summus Editorial, em 1985; Boris Casoy – o âncora no telejornalismo 36. CLARK, Walter. O Campeão de Audiência – Uma Autobiografia, com Gabriel Priolli. São Paulo: Best Seller, 1991, 420 p. 37 SQUIRRA, S. Obra citada, p. 7. 38 SQUIRRA, S. O Processo do Telejornalismo no Brasil. São Paulo: Dissertação apresentada ao Departamento de Jorrnalismo e Editoração da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, 1987, p. 21. 39 ROCHA, Liana Vidigal. Dissertação de Mestrado apresentada ao Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicações e Artes da USP – Universidade de São Paulo, em São Paulo, maio de 2001, p. 2..

Referências

Documentos relacionados

A tradução do artigo de Mendel para o Por- tuguês, que foi publicada em uma edição anterior da Genética na Escola (v.8, n.1, p. 88-103, 2013), não incluiu o trecho corres- pondente

Seus valores diários podem ser maiores ou menores dependendo de suas necessidades energéticas..

Benetton (1999) apresenta o caráter de funcionalidade na Terapia Ocupacional como tendo sido assumido por muitos autores, pelos precurssores da profissão (Meyer, Simon e Schneider)

“Sim, umas árvores de casca e tronco finos, eucaliptos como você, aos montes, centenas, não, milhares, talvez milhões, tudo igual, mas forçados por HOMO SAPIENS

Estima-se que o uso de dados por celulares tenha aumentado 50% ao ano, além de ter possibilitado uma abertura para desenvolvedores de softwares mundialmente (MANDAL e

E) Refere-se a um aumento na ventilação pulmonar que ultrapassa as necessidades de consumo de oxi- gênio e de eliminação de dióxido de carbono do meta- bolismo, essa

No Ocidente, a China recebe a maior parte das atenções; a Índia tem sido lar- gamente ignorada, sobretudo na Europa.. Aliás, a Índia é a grande omissão das

Sem nunca perder de vista as dificuldades his- tóricas salientadas por Scruton, Zakaria responde à questão através da apologia do liberalismo constitucional (não confundir com