Análise de eventos privados do tipo sentir sob controle de contingências programadas em um software.
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(2) LUCIANO DE SOUSA CUNHA. ANÁLISE DE EVENTOS PRIVADOS DO TIPO SENTIR SOB CONTROLE DE CONTINGÊNCIAS PROGRAMADAS EM UM SOFTWARE. Dissertação apresentada ao Programa de PósGraduação em Psicologia da Universidade Federal do Espírito Santo, como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em Psicologia, sob a orientação do Prof. Dr. Elizeu Batista Borloti.. UFES Vitória, Fevereiro de 2007..
(3) ANÁLISE DE EVENTOS PRIVADOS DO TIPO SENTIR SOB CONTROLE DE CONTINGÊNCIAS PROGRAMADAS EM UM SOFTWARE. LUCIANO DE SOUSA CUNHA. Dissertação submetida ao Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal do Espírito Santo, como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em Psicologia.. Aprovada em _____ de ____________ de 2007, por:. Prof. Dr. Elizeu Batista Borloti – Orientador, UFES. Prof. Dr. Paulo Rogério Meira Menandro – UFES. Prof. Dr. Emmanuel Zagury Tourinho – UFPA.
(4) Os homens inventaram as palavras para que pudessem. esconder. seus. pensamentos. (Aristóteles).. Nenhum relato do que está acontecendo dentro do corpo humano, por mais completo que seja, irá explicar as origens do comportamento humano. O que acontece dentro do corpo não é um ponto de partida (Skinner, 1989)..
(5) Dedico este trabalho aos dois terços que me completam: minha esposa Anninha e minha filha Maria Luísa..
(6) AGRADECIMENTOS. Agradecer é uma tarefa tão difícil quanto concluir este trabalho. Difícil e gratificante, diga-se de passagem. Muitos se fazem presentes, e entre esses, alguns merecem destaque. Meus pais, por viabilizar minha vinda e muitas vezes minha permanência no Espírito Santo. Meus mestres da graduação, Marco Antônio e João Carlos que acreditaram e me prepararam para meus sonhos. Meu irmão José Geraldo, por me ajudar a programar (literalmente) meu sonho. Meu orientador, Elizeu, por aceitar dividir e orientar este sonho, pelas orientações nos momentos mais inusitados (e porque não dizer inoportunos), pelas boas risadas e pelas grandes oportunidades que me foram oferecidas através dessa amizade que me proporcionou muitos reforçadores. Professores do Programa, que aceitaram um “estranho no ninho”, e contribuíram significantemente para minha formação. Entre eles, gostaria de citar, Paulo Menandro, Zeidi Trindade, Sônia Enumo, Rosana Suemi e Cristina Menandro. CAPES, por viabilizar a realização do trabalho. Lúcia, sempre disponível e bem humorada, mesmo diante da “pressa nossa de todos os dias”. Meus irmãos de sangue (Júlio, Anízio, Serginho, Rita e Maria José) e de convivência (Cesinha, Daniel, Dalton, Douglas, Ricardo, Tubias, Mirella, Gil,.
(7) Gasull, Socorro, entre tantos outros), meus colegas do Programa, e meus grande amigos: Alex, Sibele, Roberta, Hugo, Mariana, Fernanda, Aline, Bruno, Fabrício, Luiz, Miriam, Thaísa, Rosário e todos os outros que se fizeram presentes nesse período inesquecível. Mylena, possivelmente uma das melhores Analistas do Comportamento que conheci. Aos colegas ainda em formação, mas nem por isso, menos competentes: Leandro, Filipe e Balbi. Os participantes da minha pesquisa, que foram fundamentais na realização do trabalho. Professor. Emannuel. Zagury. Tourinho. e. Nilzabeth. Coelho,. pelas. contribuições e trocas de informações, sempre enriquecedoras. E finalmente, as duas pessoas mais importantes da minha vida: Anninha, minha esposa e Maria Luísa, minha filha. Obrigado por estarem presentes (acordadas ou cochilando), sempre me dando forças, mesmos nos momentos em que não fui capaz de retribuir à altura com todo amor que sinto por vocês. Como naquele prelúdio: “Sonho que se sonha só, é só um sonho que se sonha só. Mas sonho que se sonha junto é realidade”. Obrigado a todos..
(8) SUMÁRIO. Resumo. 09. Abstract. 11. Introdução. 13. Capítulo 1 – Eventos Privados, Sentimentos e Relatos de Sentimentos. 16. 1.1.. Eventos privados do tipo sentir. 17. 1.2.. Comportamento verbal, relatos verbais e tactos de sentimentos. 24. Capítulo 2 – Contingências e Sentimentos. 33. 2.1. Contingências: definição e considerações metodológicas. 33. 2.2. Revisão de estudos empíricos. 35. 2.2.1. Estudos empíricos sobre eventos privados. 39. 2.2.2. Estudos empíricos sobre situações de escolha e freqüência de desempenho. 43. 2.3. Justificativa. 47. 2.4. Problema de pesquisa. 50. 2.5. Objetivos. 51. 2.5.1. Objetivo Geral. 51. 2.5.2- Objetivos Específicos. 51. Capítulo 3 – Método. 53. 3.1. Participantes. 53.
(9) 3.2. Instrumentos e material. 54. 3.3. Delineamento experimental. 57. 3.4. Procedimento de tratamento e análise dos dados. 64. 3.5- Riscos. 68. Capítulo 4 – Resultados e Discussão. 70. Conclusão. 96. Referências Bibliográficas. 104. Anexos. 119.
(10) RESUMO. Cunha, Luciano de Sousa. (2007). Análise de eventos privados do tipo sentir sob controle de contingências programadas em um software. Dissertação de Mestrado, Programa de Pós-Graduação em Psicologia, Universidade Federal do Espírito Santo.. Analistas de Comportamento têm apontado relações entre contingências de reforçamento, estados corporais (eventos privados) e eventos públicos. O presente experimento teve por objetivo investigar o controle de contingências programadas. sobre. eventos. privados. do. tipo. sentir,. empregando. um. procedimento que eliciou tais eventos e evocou o tacto dos mesmos (sentimentos). Participaram 20 estudantes, de ambos os sexos, com idade entre 11 e 14 anos, que cursavam o ensino fundamental em uma escola privada de Vitória-ES, que executaram as tarefas do software PsychoTacto 2.0. Diante de uma tela dispondo de quatro estímulos (cards), um localizado na parte superior central (estímulo-modelo) e três alinhados na parte inferior central da tela (estímulos-comparação), os participantes respondiam clicando com um mouse em um dos estímulo-comparação – a conseqüência era programada de acordo com a contingência básica de reforçamento em operação – e, ao término de cada procedimento, relatavam o que sentiram. A freqüência cardíaca e a latência das respostas foram medidas; comportamentos motores e verbais foram registrados por observadores treinados; dos verbais foi inferido controle instrucional sobre o.
(11) desempenho. Resultados: na fase Reforçamento Positivo predominaram relatos de contentamento (30%), ansiedade (30%), satisfação (20%) e alegria (20%). Na fase. Punição. Negativa,. predominaram. relatos. de. frustração. (50%),. desapontamento (20%), tristeza (20%) e apreensão (10%). Na fase Punição Positiva, predominaram relatos de raiva (30%), aborrecimento (20%), ansiedade (20%), apreensão (20%) e medo (10%). E na fase Reforçamento Negativo, relatos de ansiedade (40%), apreensão (30%) e alívio (30%). Em todas as fases as respostas apresentaram um tempo médio de latência diferente, sendo a maior para o Reforçamento Positivo (3 min e 17 seg) e a menor para o Reforçamento Negativo (1 min e 23 seg). As regras formuladas indicaram a não discriminação do desempenho como variável controlada. Os dados motores, verbais e cardíacos combinados mostram que a exposição a contingências pode eliciar eventos privados do tipo sentir e produzir tactos dos mesmos. Não foram registradas discrepâncias entre os dados obtidos entre meninos e meninas.. Financiamento: CAPES. Palavras-chave: Sentimento; Análise Experimental do Comportamento; Tacto; Eventos Privados..
(12) ABSTRACT. Cunha, Luciano de Sousa. (2007). Analysis of private events (fellings) under control of programmed contingencies in a software. Master Thesis, Programa de Pós-Graduação em Psicologia, Universidade Federal do Espírito Santo.. Behavior. Analysts. have. appointed. relations. between. contingencies. of. reinforcement, corporeal conditions (private events), and public events. The aim of this experiment was to investigate the control of programmed contingencies on private events (fellings), using a procedure that caused those events and evoked the tact of them (feelings). Twenty students executed the assignments from the software PsychoTacto 2.0. They were students (both sex aged between 11 and 14 years old) from a private elementary school in Vitória-ES. In front of a screen with four stimulus (cards), one located at the upper central part (model stimulus) and three aligned at the lower central part of the screen (comparison stimulus), the subjectives had answered, clicking with a mouse on one of the comparison stimulus. The consequence was programmed according to the basic contingencies of reinforcement in operation – and at the end of each step they told what they felt. The cardiac frequency and the latency time of the answers were measured; motor and verbal behaviors were registered by trained observers; from the verbal ones was inferred instructional control about the performance. In the Positive Reinforcement. phase. predominated. contentment. (30%),. anxiety. (30%),. satisfaction (20%) and joy (20%) reports. In the Negative Punishment phase.
(13) predominated frustration (50%), disappointment (20%), sadness (20%) and apprehension (10%) reports. In the Positive Punishment phase predominated anger (30%), disgust (20%), anxiety (20%), apprehension (20%) and fear (10%) reports. And in the Negative Reinforcement, anxiety (40%), apprehension (30%) and relief (30%) reports. In all of the phases the answers presented a different average time of latency time, being the longest for the Positive Reinforcement (3 minutes and 17 seconds) and the shorter for Negative Reinforcement (1 minute and 23 seconds). The formulated rules indicated the non discrimination of the performance as a controlled variable. The combined motor, verbal and cardiac data indicate that the exhibition to contingencies can eliciate private events (feelings) and produce tacts of them. No discrepancies were registered among the obtained data from both, boys and girls.. Financed by CAPES. Key words: Feeling; Experimental Analysis of Behavior; Tact; Private Events..
(14) INTRODUÇÃO. O relato verbal é a fonte de dados mais amplamente utilizada na Psicologia,. constituindo. a. base. de. entrevistas. (clínicas,. pré. ou. pós-. experimentais), levantamentos, avaliações psicológicas (padronizadas ou não), dentre outros. Em vários desses procedimentos verbais, o relato pode ser tomado tanto como o fenômeno sob análise quanto como o dado para a análise de um outro fenômeno. Portanto, segundo De Rose (1995/2001b)1, a Psicologia, além de estar freqüentemente interessada no comportamento verbal per se, também se interessa pelo comportamento verbal como um relato de comportamentos, eventos ou estados, aos quais não se tem acesso fácil ou direto. Neste estudo, o interesse pelo relato verbal reside neste fato: ser a descrição desses eventos ou estados, chamados de sentir ou sentimentos, eliciados por contingências programadas em um software. O objetivo foi investigar o controle de contingências programadas sobre eventos privados do tipo sentir, empregando um procedimento que eliciou tais eventos e evocou o tacto dos mesmos (sentimentos). No final da década de 80, Skinner (1989/2003c) defendeu a relevância de estudos deste tipo apontando para a importância de se fazer uma análise funcional do comportamento operante “relatar” pensamentos ou sentimentos. Na. 1. Todas as vezes que uma referência possuir duas datas, a primeira se refere à data da publicação da obra original e a segunda se refere à da obra consultada..
(15) 14. visão dele, mesmo que outras ações metodológicas sejam feitas, o pesquisador terá que perguntar às pessoas o que elas estão sentindo ou pensando, ou seja, se estão experimentando eventos privados acerca dos quais relatam. A partir das respostas a essas perguntas, é possível inferir algo sobre o impacto das suas histórias (genética e pessoal) sobre o que sentem. De fato, fazer tais perguntas é, freqüentemente, a única forma de que os analistas do comportamento dispõem para investigar o impacto de uma dada história pessoal sobre eventos privados. Faltam-lhes, ainda, recursos metodológicos necessários para investigações diretas. Lidando com esta limitação de acesso direto ao sentir ou ao pensar, algumas estratégias metodológicas foram empregadas na análise desses eventos (por exemplo, Lubinsky & Thompson, 1987; Hayes, White & Bisset, 1998; Simonassi, Tourinho & Silva, 2001) e o presente trabalho se inclui neste grupo de investigações. Assim, este trabalho produz e discute dados experimentais acerca do comportamento verbal tacto sob controle dos estímulos privados do tipo sentir (Baum, 1999) que acompanham o comportamento operante no desempenho diante de um software que foi elaborado especialmente para o estudo de relatos verbais acerca de eventos privados do tipo sentir eliciados em diferentes contingências de reforçamento. Este estudo teve início na Graduação em Psicologia da Univale (Universidade Vale do Rio Doce), configurando-se como um estudo piloto para verificar a eficácia do software como recurso metodológico para alcançar os objetivos propostos pelo presente trabalho. O estudo piloto permitiu alterações e correções no software em função de conceitos teóricos da Análise Experimental.
(16) 15. do Comportamento, que culminaram em modificações no delineamento experimental, tais como registro de comportamentos motores (cliques no mouse), de batimentos cardíacos, de esquemas de reforçamento na distribuição de reforçadores, entre outras. A dissertação do estudo foi dividida desta forma: no Capítulo 1 estão postas as discussões sobre o conceito de evento privado. O Capítulo focaliza os eventos privados do tipo sentir e suas relações com o comportamento verbal. No Capítulo 2 são abordadas as questões metodológicas envolvendo contingências de reforçamento. Nele está a revisão dos estudos empíricos realizados na Análise Experimental do Comportamento, nas áreas de eventos privados e de desempenho em situações de escolha e freqüência de desempenho, áreas nas quais se inclui o presente experimento. A partir desta revisão, são defendidas as justificativas deste estudo e apresentados o problema de pesquisa e os seus objetivos. O Capítulo 3 descreve o método aplicado na pesquisa: o delineamento experimental e o procedimento de tratamento e análise dos dados. Por fim, o Capítulo 4 apresenta e discute os resultados quantitativos e qualitativos do experimento. Seguem-se, então, as conclusões em função dos objetivos propostos..
(17) 16. CAPÍTULO 1 EVENTOS PRIVADOS, SENTIMENTOS E RELATOS DE SENTIMENTOS. Para De Rose (1995/2001a), os comportamentos operantes constituem a maior parte das atividades visíveis de um ser humano, mas até mesmo algumas dessas atividades – como as denominadas pensamentos, por exemplo – envolvem operantes, entretanto esses são reduzidos em sua magnitude a ponto de tornarem-se invisíveis para os demais seres humanos. Nesse caso, a resposta está ocorrendo e, por ser tão reduzido em sua escala e é inobservável aos demais é chamada de comportamento encoberto. O objetivo deste Capítulo é conceituar evento privado, especialmente os eventos privados do tipo sentir, e abordar suas relações com o comportamento verbal. Antes de iniciar qualquer discussão mais específica, a maioria dos autores que pesquisam o tema “eventos privados” (por exemplo, Tourinho, 1995/2001c) faz uma diferenciação entre as díades de termos interno/externo, privado/público. Os termos interno/externo referem-se à localização do evento, ou seja, se ocorre dentro ou fora do organismo; os termos privado/público referem-se à acessibilidade: quando apenas o próprio sujeito tem acesso ao evento, esse denomina-se privado; se outra pessoa tiver acesso, chama-se público. Já o termo encoberto refere-se à ocorrência de um comportamento em si tendo a pele como.
(18) 17. limite. No caso, as respostas ocorrem sob a pele do organismo, porém diferenciase de estimulação encoberta, que se refere à parte fisiológica do que ocorre sob a pele. A questão da privacidade ou da subjetividade teve força no behaviorismo quando Skinner (1945) introduziu o conceito de evento privado como sendo aquele evento inacessível à observação pública direta. Desde então o termo tem sido usado por analistas do comportamento para referirem-se a sentimentos, pensamentos, emoções, cognições e outros tantos processos psicológicos básicos tradicionalmente abordados pela Psicologia a partir de referenciais mentalistas ou cognitivos. Assim, o pensar, o atentar, o ver e tantos outros fenômenos são até admitidos como forma de ação do indivíduo, mas raramente. são. interpretados. com. os. conceitos. de. uma. Ciência. do. Comportamento pelas Psicologias Mentalistas (Tourinho, 1995/2001b).. 1.1.. Eventos privados do tipo sentir. Em geral, quando trata dos fenômenos chamados aqui de eventos privados, a abordagem tradicional estabelece dicotomias epistemologicamente problemáticas. Uma delas, a dicotomia físico-mental, foi rejeitada por Skinner (1945) quando discutiu a natureza dos eventos privados e o critério de verificação pública como atestado da sua existência. Em outro de seus escritos posteriores, Skinner (1969/1984; 1971) reafirmou que seria tolice negar a existência de um mundo privado, mas que também seria tolice afirmar que, por ser privado, ele teria uma natureza diferente da do mundo público. Deste modo, ele interpretou os.
(19) 18. fenômenos psicológicos que ocorrem nesse mundo como comportamentos com uma especificidade única: sua propriedade privada ou encoberta. Com isto ele apontou a diferença básica entre o seu behaviorismo e o de Watson ou até mesmo dos positivistas lógicos, definindo a função do sentimento em seu sistema explicativo do comportamento humano e não se limitando aos fenômenos que são publicamente observáveis, pois acreditava que o “como as pessoas se sentem é, geralmente, tão importante quanto o que elas fazem”. (Skinner, 1989/2003c, p.3). Isto implica afirmar que eventos privados são dotados de dimensões físicas e funcionalmente relacionados a contingências de reforçamento presentes no ambiente (físico e social) com o qual o organismo interage. Nesse sentido, o pensar, como operante encoberto, é um fenômeno comportamental tanto quanto (e sujeito às mesmas leis) que qualquer outro operante observável. Deste modo, não há necessidade, para Skinner (1974/2003b), de uma definição especial para o conceito de comportamento encoberto, exceto que se trata de “comportamento executado em escala tão pequena que não é visível aos outros” (p.27). Em vários trechos de sua obra, Skinner (1953/2003a, 1957/1978, 1974/2003b) define os eventos privados como estímulos ou respostas acessíveis de modo direto apenas ao próprio indivíduo a quem dizem respeito. No caso dos eventos privados do tipo sentir torna-se necessária uma distinção entre o que é sentido introspectivamente e o que é relatado como sentimento (Abib, 1982; Cunha & Borloti, 2005). Aquilo que é sentido é uma condição corporal e “não é uma causa inicial ou iniciadora” (Skinner, 1989/2003c, p.15) do comportamento. A condição corporal pode ser vista como uma emoção, que é um evento privado, sub-produto da.
(20) 19. relação ambiente-organismo, ou seja, do comportamento. O termo sub-produto indica que o que é sentido (ou a emoção) acontece ao mesmo tempo (considerando-se o aspecto temporal), ou um pouco antes, do comportamento operante. O que é sentido é concomitante, paralelo ou contíguo ao comportamento e é por esta razão que se costuma confundir o que se sente com causa. No entanto, “os eventos que são responsáveis pelo que fazemos e, portanto, pelo que sentimos, permanecem num passado realmente distante” (Skinner, 1989/2003c, p.15). O “sentido” pode então ser interpretado como um comportamento respondente, eliciado por uma determinada contingência presente na história de vida, associada a uma história filogenética e cultural. No entanto, sua análise não termina aí. Torna-se necessário identificar qual a função desse respondente, à medida que ao longo dessa história - independente da dificuldade de acesso a esses eventos – as pessoas são ensinadas a nomear ou até mesmo relatar propriedades desse respondente, mesmo que esse ensino não seja feito com tanto êxito quanto o ensino da nomeação um objeto concreto ou propriedades desse objeto. Tourinho (2006a, 2006b) esclarece que o que é “sentido” passa a ter uma função discriminativa para uma resposta verbal, e que, por esta razão, não é apenas uma condição corporal qualquer. É dessa função que emerge o que será definido como sentimento: a condição corporal passa a ser experimentada sob controle das contingências do contexto e sob controle das contingências verbais mantidas por uma comunidade. Uma condição corporal é experimentada corporalmente (sentida) e, em seguida, nomeada como um sentimento. A dor é um exemplo de fácil compreensão desta.
(21) 20. distinção, pois os papéis dos ambientes passado e presente atuando sobre ambos (o que é sentido e o sentimento) são mais óbvios. Em geral as pessoas sabem o que é ou foi doloroso em suas histórias (ontogenética e filogenética) e sabem o quanto foi importante em suas vidas aprender dos (e dizer aos) outros que sentem dor. Em casos não tão óbvios a direção da análise permanece a mesma. Ao invés de procurar atribuir causas de comportamentos a sentimentos, a melhor estratégia é observar o comportamento e os estados do corpo e as condições ambientais comuns dos quais ambos são função. Só assim encontram-se algumas das razões para fazer o que se faz e, portanto, para sentir o que se sente. Como no exemplo da dor, essas razões devem ser explicadas levando-se em conta os três níveis de seleção do comportamento humano: a filogênese, a ontogênese e a cultura (Skinner, 1989/2003c). Deste modo, pode-se verificar que duas análises científicas concomitantes são pertinentes. A primeira diz respeito ao que é sentido e a segunda, ao relato sobre o que se sente. Em ambas não se pode esquecer que “a singularidade do indivíduo é incontestável” (Skinner, 1959, p.17) e determinada por estes três níveis de seleção. O primeiro nível é responsável pelo organismo (o locus da condição corporal, produto da seleção natural); o segundo, pela pessoa (possível pelas contingências de reforçamento na interação com o que aconteceu e acontece); e a terceira, pelo eu (a referência à função discriminativa do que é “sentido” na interação em uma comunidade verbal, como quando, por exemplo, a pessoa diz “Eu sinto medo”). Esta tese tem sido defendida na análise de vários tipos de sentimentos e outros eventos privados, dentre eles o ciúme e/ou inveja (De Silva, 1997; Grice &.
(22) 21. Seely, 2000; Leite, 2000; Marazziti, et al., 2003; Pines & Aronson, 1983; Pines, 1992; Costa, 2005; Mathes, 1993), culpa (Guilhardi, 2002), preguiça e procrastinação (Kerbauy, 1997; 2000), sonhos (Bachtold,1999; Borloti, 2006; Chandra, 1976; Callaghan, 1996; Delitti, M. & Meyer, 1995; Delitti, 1997; Delitti, 2000; Dixon & Hayes, 1999; Guilhardi, 1995; Melo e Silva, 2000; Vandenberghe, 2004), alucinações e delírios (Britto, 2004; Córdova & Medeiros, 2003; Staats & Staats, 1973), percepção (Blough, 1975; Costall, 1984; Fields, Matneja, Varelas, Belanich, Fitzer & Shamoun, 2002; Goto & Lea, 2003; Kirkpatrick-Steger, Wasserman & Biederman, 1996; Lopes & Abib, 2002; McFadden & Wild, 1986; Reed, Howell, Sackin, Pizzimenti, & Rosen, 2003). A seguir, serão apresentados algumas definições desses outros eventos privados. Para Leite (2000), o ciúme é uma emoção experienciada quando uma pessoa é ameaçada pela perda de um relacionamento com alguém (parceiro) para um rival (outra pessoa, em se tratando do ciúme amoroso ou romântico). Uma perda que não envolva um novo relacionamento semelhante entre o parceiro e uma rival não produz ciúme. Já no âmago da inveja está a comparação social, uma influência importante da formação do auto-conceito. A culpa, por outro lado, segundo Guilhardi (2002), pode estar relacionada com uma história de vida em que um indivíduo é punido por emitir um determinado comportamento e este comportamento introduz uma condição aversiva. Desta forma, a retirada de um reforçador habitual passa a controlar comportamentos de fuga-esquiva, com a função de eliminar essa condição aversiva. Ou seja, quando essa condição aversiva está presente ela é atribuída a.
(23) 22. comportamentos do próprio indivíduo, e as condições corporais experimentadas são chamadas de culpa. Ao falar de preguiça e procrastinação, Kerbauy (2000) define a preguiça como “sentida” diante da propensão para não trabalhar, demora ou lentidão em praticar qualquer coisa. Ainda, segundo a autora, a preguiça tem um caráter de julgamento moral e implica em deixar de fazer uma atividade necessária. Já a procrastinação é adiar, demorar, prostrair, delongar, espaçar. Nesse sentido, um “preguiçoso”,. embora. saiba. emitir. o. comportamento,. não. o. faz.. Um. “procrastinador” pode prejudicar seu desempenho, pois as atividades são iniciadas e não terminadas, ou iniciadas com atraso. Entre esses outros tipos de eventos privados, encontra-se a percepção, que, segundo Lopes & Abib (2002), é explicada por Skinner através do conceito de comportamento perceptivo – um comportamento complexo que se interrelaciona com muitos outros. O estudo da percepção na teoria skinneriana pode ser dividido em duas etapas: estudo do comportamento perceptivo como precorrente e estudo dos precorrentes do comportamento perceptivo. No primeiro caso, a investigação passa pelo processo de resolução de problemas, no qual o comportamento perceptivo desempenha um papel fundamental modificando o ambiente, o que permite a emissão do comportamento discriminativo e a solução do problema. No segundo caso, a investigação trata com uma série de outros comportamentos, tais como, propósito, atenção, e consciência, que modificam a probabilidade de emissão do comportamento perceptivo. O comportamento perceptivo é exemplificado no sonho, que para Skinner (1974/2003b), são comportamentos perceptuais encobertos, do tipo ver ou ouvir.
(24) 23. (ou sentir sabores, temperaturas, texturas, etc.) sob controle da coisa (vista, ouvida ou sentida de outra forma) que está ausente: um sonho [com estímulos visuais], não é uma exposição de coisas vistas pelo sonhador, e sim o comportamento de ver. Portanto, os sonhos são eventos privados do tipo sentir (Baum, 1999). Os sonhos são exemplos de processos comportamentais envolvendo a discriminação de sensações diversas, experimentadas no passado e no presente de quem sonha, e relacionadas às imagens oníricas. Como um último exemplo, podemos considerar a ótica de Staats (1963/1973), que considera que a sensação não é apenas um processo sensorial; é um processo de resposta que produz um processo sensorial com características estimulantes internas, que por sua vez produz um estímulo interno. A vantagem de nomear as sensações como respostas é dizer que elas são aprendidas, que se pode condicionar um organismo a ter uma resposta sensorial. Como conseqüência do condicionamento, uma resposta sensorial pode ser provocada por um estímulo diferente do estímulo que simplesmente provoca a sensação. Essa sensação aprendida, que ocorre na ausência de um estimulo sensorial, pode ser nomeada com terminologia simples: imagem. Uma imagem é, então, um estímulo interno. Sob certas circunstâncias, uma imagem pode ser nomeada de alucinação. Uma alucinação, portanto, pode ser definida como uma resposta sensorial, isto é, ver ou ouvir privadamente com os ‘olhos do imaginar’, dependendo da história anterior; não na presença do estímulo público, e falar a alguém que ‘de fato’ está vendo. Assim, uma alucinação, em alguns casos, pode ser considerada como uma resposta sensorial que foi condicionada a qualquer estímulo e que pode ser provocada por esse estímulo..
(25) 24. 1.2.. Comportamento verbal, relatos verbais e tactos de sentimentos. A discussão sobre eventos privados na Análise do Comportamento aparece sempre mesclada à discussão dos processos verbais que se dão no contato entre a pessoa que sente e a sua comunidade verbal. Portanto, a compreensão do sentimento depende da compreensão do conceito de comportamento verbal e das relações verbais envolvidas na discriminação do “sentido”. Skinner (1957/1978) apresentou o conceito de comportamento verbal diferenciando-o do comportamento não verbal. As diferenças apontadas por ele foram discutidas em detalhes por Catania (1986) e a principal delas diz respeito ao fato de o comportamento verbal afetar o ambiente físico somente pela mediação de um outro repertório (de outra pessoa ou do próprio falante). Assim, os operantes verbais agem indiretamente sobre o ambiente físico, já que sua conseqüência. definidora. é. dada. por. esse. outro. repertório. mediador. (genericamente chamado de ouvinte). Essa mediação confere o caráter social do comportamento. verbal,. especialmente. daquele. relacionado. à. função. discriminativa dos eventos privados, uma vez que “só quando o mundo privado de uma pessoa se torna importante para as demais é que ele se torna importante para ela própria” (Skinner, 1974/2003b, p.31). Segundo Skinner (1957/1978), a mediação desse ouvinte é “precisamente condicionada” pela cultura verbal “com o fim de reforçar o comportamento do falante” (p.268), mesmo quando a mediação envolve eventos privados. O condicionamento especial do ouvinte é o x do problema. O comportamento verbal é modelado e mantido por um meio verbal – por pessoas que respondem de certa.
(26) 25. maneira ao comportamento por causa das práticas do grupo do qual elas são membros. Essas práticas e a interação resultante entre o falante e o ouvinte produzem os fenômenos aqui considerados sob a rubrica de comportamento verbal (Skinner, 1957/1978, p.270).. Catania. (1998). diferenciou. comportamento. verbal. de. linguagem,. clarificando a definição original de Skinner desta forma: O comportamento verbal envolve o comportamento do falante modelado por seus efeitos sobre o comportamento do ouvinte e o comportamento do ouvinte modelado por seus efeitos sobre o comportamento do falante. O campo do comportamento verbal está voltado ao comportamento do indivíduo, e as unidades funcionais do seu comportamento verbal são determinadas pelas práticas de uma comunidade verbal (...). Definir o comportamento verbal por sua função distingüe-o de linguagem, que é definida pela estrutura. Por exemplo, as definições, grafias e pronúncias em dicionários e as regras num livro de gramática descrevem as estruturas padrões de várias unidades verbais em uma língua; assim, elas resumem algumas propriedades estruturais das práticas de uma comunidade verbal. O comportamento verbal do falante ocorre no contexto dessas práticas, mas essas práticas mantenedoras, a linguagem, não podem ser confundidas com o que elas mantém, que é o comportamento verbal (Catania, 1986, p.429).. Essas práticas, segundo Catania (1998), sempre envolvem palavras (escritas, faladas ou gestualizadas) que são efetivas somente nessa mediação. As práticas sociais verbais são, por isso, um meio de conseguir que as pessoas façam coisas. Excetuando essas propriedades que conferem um status especial ao comportamento verbal, o termo refere um comportamento como qualquer outro: o comportamento verbal, assim como o não-verbal, é modelado e mantido por um controle. de. estímulos. antecedentes. e. conseqüentes.. O. controle. do. comportamento verbal relatar, por exemplo, está sujeito às mesmas leis que mantém os comportamentos não verbais (controle de estímulo, reforçamento, etc.). Assim, relatar é um comportamento verbal emitido sob controle de uma.
(27) 26. audiência e de estímulos discriminativos2 não verbais (quando, por exemplo, diante de uma situação injusta, o falante descreve as propriedades da situação) e verbais (quando, diante da pergunta “como foi sua infância?”, conta um fato ocorrido há tempo). Quando sob controle de discriminativos não verbais presentes na hora ou pouco antes do relato, diz-se que o relato verbal é um tipo de tacto: “um operante verbal, no qual uma resposta de certa forma é evocada (ou pelo menos reforçada) por um objeto particular ou um acontecimento ou propriedade do objeto ou acontecimento” (Skinner, 1957/1978, p.108). Desta maneira, qualquer forma de tacto foi condicionada por uma cultura verbal com o intuito de reforçar o comportamento do falante de “entrar em contato” com o objeto que exerce controle discriminativo sobre o seu comportamento. O verbete do Catania (1998) reforça a definição do termo tacto como: (...) uma resposta discriminativa verbal (como quando a resposta verbal maçã na presença de uma maçã é dita tatear a maçã). O tacto captura o controle de estímulo como ele chega ao comportamento verbal. A relação de tacto inclui apenas o responder na presença de ou logo depois do estímulo tateado e, portanto, não é equivalente a nomear ou fazer referência (p.427).. De Rose (1995/2001b) explicita, então, que a propriedade característica do tacto é, portanto, o controle singular que algum aspecto do mundo exerce sobre a forma da resposta. Neste sentido, o tacto é o operante verbal que tem uma relação de correspondência com o mundo. Quando o aspecto do mundo que controla o tacto é externo, ele pode ser compartilhado pelo falante e pelos ouvintes, mas quando tais aspectos são eventos privados do tipo sentir ou pensar (Baum, 1999), não é isto o que ocorre. Nessas situações, do mesmo modo que 2 Segundo Keller (1973/2003), um estímulo discriminativo sinaliza que o reforço está disponível numa situação, fazendo com que a resposta entre em extinção em todas as demais situações, exceto num conjunto muito restrito de condições de estímulos..
(28) 27. ocorre entre leigos, De Rose (1995/2001b) fala que o pesquisador, por não ter acesso direto a esses eventos, normalmente fica interessado em conhecer algo sobre eles e precisa pedir que o falante fale sobre os mesmos. O “sentido” (aquele que tem função discriminativa) pode ser conceituado a partir de uma discussão proposta para o tacto de eventos privados, quando Skinner (1957/1978) incluiu a discussão do modo como os estados corporais são relatados. Isto foi sintetizado por Guilhardi (2002) assim: as pessoas discriminam estados corporais (produzidos pela sua interação com contingências de reforçamento), nomeiam esses estados corporais de acordo com nomes de sentimentos. aprendidos. com. sua. comunidade. verbal e, finalmente,. (e. erroneamente) atribuem às palavras assim aprendidas a função de causar comportamentos. O sentimento propriamente dito, então, diz respeito a algo que, ao mesmo tempo em que está sob o controle de condições corporais sentidas, extrapola esse controle, pois a ele é adicionado o controle advindo da relação de tacto. Por esta razão há uma diferenciação das tarefas do fisiologista e do analista do comportamento nesse campo de estudo: “tanto as condições sentidas quanto o que é feito ao senti-las deve ser confiado ao fisiologista. O que fica para o analista comportamental são as histórias genética e pessoal responsáveis pelas condições que o fisiologista descobrirá” (Skinner, 1989/2003c, p.24). Portanto, parafraseando Skinner (1989/2003c), estudar experimentalmente os sentimentos é estudar 1) as contingências de reforçamento sob as quais um evento privado é sentido e 2) as contingências verbais sob as quais o que é sentido é descrito. Isto, de certa forma, questiona a concepção mentalista que.
(29) 28. permeia a abordagem psicológica tradicional do sentimento e que perpassa o senso comum. Certamente, esta concepção tradicional é incompatível com a leitura analítico-comportamental (Tourinho, 2006b). Desta maneira, a objeção do behaviorismo radical às abordagens psicológicas centradas na problemática da privacidade é, antes de tudo, uma objeção a qualquer concepção internalista do homem (Tourinho, 1995/2001a). No behaviorismo radical, as relações da ação com o ambiente externo (à ação)3 são aquelas que devem ser buscadas para explicar o fenômeno comportamental. Assim, (...) ao se voltar para os determinantes externos do comportamento, a Análise do Comportamento evidenciou progresso significativo na compreensão do fenômeno comportamental. Isso sugere que um progresso científico na direção de uma maior capacidade de previsão e produção do comportamento pode independer da análise do que eventualmente esteja ocorrendo no interior de cada um (Tourinho, 1995/2001a, pág.176).. Entretanto, mesmo que não se saiba o que exatamente esteja ocorrendo no interior do corpo, é preciso lidar cientificamente com as variáveis que controlam a discriminação do que ocorre, já que são esses “objetos” presentes que tornam possível a emersão da relação de tacto de um sentimento. A presença desses eventos privados torna o tacto diferente da nomeação (ou da referência) de um sentimento, já que a nomeação pode existir na ausência do evento: “um objeto ausente pode ser nomeado, mas não tacteado” (Catania, 1998, p.427). Considerando o tacto de algo presente ocorrendo no interior do corpo, Engelmann (1978) diz que o vocabulário das línguas naturais compreende um grande número de palavras que costuma ser considerado “nomes de 3. Uma discussão detalhada sobre a terminologia “ambiente externo à ação” encontra-se em Matos (1995/2001)..
(30) 29. sentimentos”. Tudo indica que tais nomes em sentenças de tipo “Eu sinto x” possuem fundamentalmente uma função relacional a um objeto. Isso já havia sido reconhecido por Skinner (1957/1978) ao incluir respostas verbais que descrevem sentimentos na categoria de tactos, enfatizando a diferença entre tatear, nomear ou referenciar: a nomeação ou a referência enfocam o objeto; o tato enfoca a relação entre a resposta verbal e o objeto. Isto esclarece porque “O tacto é uma relação, e não apenas uma resposta e, na ausência de um estímulo controlador não se poderá estabelecer nenhuma relação” (Skinner, 1957/1978, p.135). Em síntese, as contingências de reforçamento em uma “história pessoal” do falante eliciam os “objetos dentro do corpo” a serem relatados como sentimentos por meio de tactos. Por permitir que a audiência conheça (mais precisamente) o que se passa “fora” ou (menos precisamente) o que se passa “dentro” do corpo do falante, o tacto “emerge como o mais importante operante verbal” (Skinner, 1957/1978, p.109). Para Tourinho (2006a), o contato com esse “mundo sob a pele” se dá em diferentes graus de complexidade, porém, sempre se baseia no princípio de seleção por conseqüências em uma relação (correlação ou relação de equivalência) com um evento público que pode variar contextualmente (por exemplo, “alegria” tem, em geral, correlação com sorriso). A referência que Damásio. (1999/2002). faz. aos. eventos. privados. também. enfatiza. esta. correspondência com os eventos públicos, e ainda defende que uma “leitura corporal” talvez possa ser útil para estabelecer uma relação entre o público (comportamento) e o privado (sentimento)..
(31) 30. Aparte a discussão das incongruências na correspondência públicoprivado, olhar a contingência operando tem sido útil desde a década de 40. Estes e Skinner (1941/1961), por exemplo, conceituaram uma resposta emocional (sentida) como uma resposta do organismo resultante de uma contingência e exemplificaram que o mesmo estímulo para “medo” controla respostas motoras correspondentes. Em concordância com o que disse Damásio (1999/2002), eles já haviam afirmado que o que é sentido é inferido da alteração no responder operante público que acompanha a emoção. Esse acompanhamento do operante com estados corporais respondentes levou Skinner (1953/2003a) a afirmar que a emoção é um subproduto das contingências de reforçamento, no sentido em que ela é concomitante ao evento público. Infelizmente, subproduto tem sido entendido até hoje como um produto secundário ou menos importante das contingências de reforçamento. Entretanto esta questão foi resolvida de modo objetivo: é impossível sentir sem se comportar. Em termos técnicos, isto equivale a dizer que as relações operantes e respondentes são indissociáveis (Catania, 1998/1999), como produto das mesmas contingências (uma pessoa foge, treme, etc. e sente medo em uma mesma situação). A importância prática do conhecimento sobre o “mundo sob a pele” do falante (por exemplo, na educação de crianças, na resolução de problema ou na psicoterapia) permitiu que vários autores (Holland & Skinner, 1961/1973; Millenson, 1967/1973; Skinner, 1974/2003b; Skinner, 1989/2003c; Lubinsky & Thompson, 1987; Hayes, Jacobsom, Follette & Dougher, 1994; Banaco, 1999; Simonassi, et al. 2001, dentre outros) discutissem correspondências entre comportamentos verbais sob controle de eventos privados (tacto) e contingências.
(32) 31. às quais um indivíduo está exposto. Há unanimidade em afirmar que sob diferentes contingências de reforçamento, diferentes condições corporais são eliciadas e diferentes operantes são emitidos. Ao serem tateadas tais condições corporais, diferentes relações entre eventos entram no controle de estímulo da resposta de relatá-las, justificando os inúmeros nomes de sentimentos. Cunha, Chequer, Martinelli & Borloti (2005) catalogaram as citações de contingências envolvidas na eliciação de estados corporais tacteados como sentimentos. A Tabela 1, a seguir, aponta algumas das relações entre as contingências operantes e o comportamento verbal tacto sob controle de condições corporais (eventos privados) eliciadas nessas contingências, e os possíveis nomes de sentimentos para essas condições corporais sentidas4.. Análises interpretativas de relações entre sentimentos e contingências - Tabela 1 Contingência. Sentimentos. Reforçamento. Fé, confiança, segurança, interesse, ambição, determinação, obstinação,. Positivo. perseverança, excitação, entusiasmo, dedicação, compulsão (Skinner, 1974/2003b); alegria, prazer, satisfação (Skinner, 1989/2003c); prazer, elação, êxtase (Millenson, 1967/1973).. Reforçamento. Ansiedade, fuga, agressividade, vergonha (Skinner, 1974/2003b); ansiedade,. Negativo. terror, apreensão, alívio (Millenson, 1967/1973); agressividade, aversão, ansiedade (Holland & Skinner, 1961/1973).. Punição Positiva. Ansiedade, vergonha, culpa (Skinner, 1974/2003b); raiva (Banaco, 1999); medo, raiva (Holland & Skinner, 1961/1973); raiva, cólera, aborrecimento (Millenson, 1967/1973); ansiedade (Hayes, et al., 1994);. 4 É importante ressaltar que a Tabela 1 não inclui o conceito de extinção, uma vez que o procedimento experimental usado neste estudo não trabalha com essa operação..
(33) 32. Punição Negativa. Frustração,. depressão,. desencorajamento,. inibição,. incerteza, timidez,. desapontamento, embaraço. (Skinner,. impotência, 1974/2003b);. frustração, tristeza (Banaco, 1999); alívio, sossego, calma (Banaco, 1999); frustração (Holland & Skinner, 1961/1973); tristeza (Hayes et al., 1994). Esta Tabela, de certa forma, defende a importância de se enfatizar o que é sentido como função das contingências envolvidas. Entretanto, grande parte desta defesa – como atestam as referências – é produto de análises interpretativas em estudos conceituais ou teóricos. Supostamente, se essas contingências forem arranjadas em condições experimentais planejadas, elas possibilitarão uma análise detalhada das variáveis envolvidas na produção dos estados sentidos e do relato desses estados, bem como de outras respostas não verbais e verbais que são acompanhadas por esses estados e relatos. A produção experimental de estados sentidos e de seus relatos depende de uma definição operacional de contingência. O Capítulo seguinte faz isto e apresenta a compilação do que já foi feito para o estudo empírico dos eventos privados de modo a justificar e apresentar os objetivos deste estudo..
(34) 33. CAPÍTULO 2 CONTINGÊNCIAS E SENTIMENTOS. 2.1. Contingências: definição e considerações metodológicas. Segundo De Souza (1995/2001), contingência é a relação existente entre eventos comportamentais e/ou ambientais. Estando além de uma relação temporal (ou de contigüidade), essa relação segue o modelo selecionista apontado no Capítulo 1, que explica o modo pelo qual um evento adquire função para outro. Assim, podemos dizer que contingência é a probabilidade de um evento ser afetado a partir da ocorrência de outro. Isto ocorre tanto no controle respondente quanto no operante. No caso dos respondentes, essas relações de controle são do tipo estímulo-resposta. No caso dos operantes, as contingências estudadas são referentes à relação da resposta com os estímulos antecedentes e, principalmente, conseqüentes. Tal relação define operações entre respostas e estímulos (sejam eles públicos, como no caso de um tacto de um sentimento; sejam privados, como no caso do “sentido”, conforme definido no Capítulo 1). Skinner. (1969/1984,. p.191-192). listou. as. várias. operações. de. contingências que já foram estudadas experimentalmente: privação, saciação, fuga,. esquiva,. discriminação. de. estímulo,. diferenciação. de. resposta,. generalização, encadeamento, “superstição”. Este estudo examinará apenas as operações básicas de reforçamento (positivo e negativo) e punição (positiva e negativa), uma vez que se pretende verificar seu controle sobre eventos privados.
(35) 34. do tipo sentir. Genericamente, tais operações, incluindo as operações de punição, são denominadas contingências de reforçamento, porque elas se definem de modo intercambiável. As operações básicas de reforço e punição se definem em função das conseqüências que seguem certas respostas. Catania (1998/1999) refere estes termos da seguinte maneira: “um estímulo é reforçador positivo se sua apresentação aumenta o responder que o produz, ou um reforçador negativo se sua remoção aumenta o responder que o suspende ou o adia” (p.418); e “um estímulo é um punidor positivo, se sua apresentação reduz a probabilidade de respostas que o produzem ou um punidor negativo, se sua remoção reduz a probabilidade de respostas que o terminam” (p.416). Vê-se, desta forma, que esta terminologia é descritiva e, segundo o autor, depende de três condições: a resposta produz alguma conseqüência; a resposta ocorre com mais freqüência do que quando não produz conseqüências; e, o aumento da freqüência das respostas ocorre porque a resposta tem aquela conseqüência específica. Segundo Sidman (1989/1995), no reforçamento positivo a ação de uma pessoa é seguida pela adição, produção ou aparecimento de algo novo; algo que não estava lá antes do ato. No reforçamento negativo uma ação subtrai, remove ou elimina algo, fazendo com que uma condição ou coisa que estava lá antes do ato desapareça. Quando o comportamento é reforçado positivamente obtém-se algo; quando reforçado negativamente remove-se algo, foge-se ou esquiva-se de algo. Ambos os tipos de conseqüências tornam mais provável que se faça a mesma coisa outra vez. Ambos são, portanto, reforçadores..
(36) 35. Ao contrário do reforço, a punição envolve punidores que têm como efeito suprimir5 a possibilidade de emissão futura de uma resposta. Sidman (1989/1995) discute a relação simétrica entre estímulos reforçadores e punidores, quando explicita que cada tipo de reforçamento tem uma contraparte espelhada em cada tipo de punição: Algumas vezes fazemos coisas que terminam reforçadores positivos, algumas vezes produzimos reforçadores negativos. Estas contrapartes simétricas de reforçamento positivo e negativo constituem a punição. Punição pode, portanto, assumir uma de duas formas. Um tipo de punição confronta-nos com o término ou retirada de alguma coisa que comumente seria um reforçador positivo, o outro tipo confronta-nos com a produção de algo que normalmente seria um reforçador negativo (Sidman, 1989/1995, p.59).. Esta definição de contrapartes feita por Sidman informa que depois da apresentação de reforçadores positivos, sua retirada constitui a operação chamada de punição negativa; e, após a apresentação de estímulos aversivos (punição positiva), a sua retirada constitui reforçamento negativo. Como se verá no Capítulo 3, esta definição justifica o procedimento experimental adotado neste estudo, uma vez que tais apresentações e retiradas são sempre acompanhadas de estados corporais sentidos e descritos a partir dos processos operantes que controlam a discriminação e o relato verbal sobre eles.. 2.2. Revisão de estudos empíricos. Apesar da importância, enfatizada por Skinner (1989/2003c), dos estudos experimentais de eventos privados, esses ainda são escassos na Análise do Comportamento (Simonassi, et al. 2001). Esta escassez foi verificada quando se 5 O termo suprimir é utilizado no sentido de que, após um estímulo aversivo ser apresentado como conseqüência do responder ocorre uma interrupção súbita do responder..
(37) 36. acessou, via indexadores eletrônicos, os periódicos específicos da Análise do Comportamento internacionais (The Analysis of Verbal Behavior, Journal of Experimental Analysis of Behavior, Journal Applied of Behavior Analysis, The Behavior Analyst, Behavior Therapy, Revista Mexicana de Analisis de la Conducta, Behavior Research and Therapy, Journal of Behavior Therapy and Experimental. Psychiatric). e. nacionais. (Revista. Brasileira. de. Terapia. Comportamental e Cognitiva e Brazilian Journal of Behavior Analysis), específicos da Análise do Comportamento, bem como as coletâneas nacionais específicas Sobre Comportamento e Cognição (que segundo Nolasco, 2002, representam 59% das publicações da Análise do Comportamento no Brasil) e Ciência do Comportamento: Conhecer e Avançar. O mesmo foi verificado quando se acessou os periódicos internacionais e nacionais não específicos da área (Psychological Review, The Psychological Record, Drug and Alcohol Dependence, Journal of Comparativa Psychology, Boletim de Psicologia, Cadernos de Psicologia Social do Trabalho, Estudos de Psicologia – Campinas, Estudos em Psicologia – UFRN, Estudos e Pesquisas em Psicologia, Psicologia: Ciência e Profissão, Psicologia: Pesquisa e Trânsito, Psicologia: Reflexão e Crítica, Psicologia: Teoria e Pesquisa, Psicologia: Teoria e Prática, Psicologia Clínica, Psicologia da Educação, Psicologia e Sociedade, Psicologia em Estudo, Psicologia em Revista, Psicologia Escolar e Educacional, Psicologia Hospitalar, Psicologia USP, Revista do Departamento de Psicologia UFF). Para justificar esta escassez duas hipóteses foram levantadas. A primeira hipótese, enfatizada por Malerbi e Matos (1992), Palmer (1998) e Simonassi, et al. (2001), é derivada de limitações metodológicas: é difícil isolar variáveis nos.
(38) 37. estudos. de. eventos. privados,. dada. a. propriedade. “privacidade”. do. comportamento investigado. A segunda hipótese explica melhor a realidade nacional e é derivada da concorrência de espaço, nas publicações específicas e não específicas da Análise do Comportamento, com a pesquisa aplicada e com a pesquisa (empírica e/ou teórica) de outros temas. Para dimensionar a situação, entre os artigos nacionais categorizados como da Análise do Comportamento em periódicos não específicos, foi encontrado apenas um (1) artigo empírico experimental que se relaciona com o tema evento privado (Simonassi, et al. 2001). Quando são analisados os periódicos internacionais específicos a situação melhora, mas nem tanto. Entre os periódicos internacionais não específicos da área, foram encontrados artigos teóricos sobre sentimentos ou emoções (porém sem o enfoque comportamental) ou apenas artigos relacionados à prática clínica em geral. Por outro lado, artigos teóricos nos periódicos específicos da área são mais comuns6. Os mais citados deles são o de Anderson, Hawkins & Scotti (1997) – em que é apresentada uma discussão sobre as bases conceituais e a relevância clínica de estudos sobre eventos privados na Análise do Comportamento – e o de Anderson, Hawkins, Freeman & Scotti (2000) – que também discute se os estudos sobre o tema eventos privados são relevantes em uma Ciência do Comportamento. Em geral os analistas de comportamento se amparam nas conclusões de ambos: estudos empíricos deste tema são inovadores e não se amparam em delineamentos experimentais já consagrados como produtivos. Assim amparados, dois trabalhos nacionais encontrados em coletâneas 6. Os artigos teóricos relevantes discutem a tese skinneriana sobre eventos privados, conforme fundamentação teórica apresentada no Capítulo 1..
(39) 38. específicas consultadas discutem o método utilizado ao se estudar a história das contingências passadas e atuais na determinação de comportamentos e sentimentos. Um deles é o de Guilhardi (2005), que defende o estudo de caso como método privilegiado para um maior acesso a variáveis relevantes atuando sobre o comportamento. Um outro é o de Oliveira-Castro (2000), que discute a utilização de contingências programadas para o estudo das complexidades discriminativas de tarefas relacionadas à leitura, uma vez que a ausência de análises sistemáticas e de recursos tecnológicos tem dificultado o controle de variáveis para se estudar eventos privados. Nesta mesma direção, caminhou o artigo de Friman, Wilson & Hayes (1998) que discutira a importância de se estudar eventos privados de forma científica, com variáveis controladas, na busca de relações entre eventos públicos e relatos sobre ansiedade. Apesar destas recomendações, ao todo, entre os periódicos internacionais e nacionais, e entre os específicos e não específicos foram encontrados alguns artigos empíricos sobre o tema evento privado. Analisando-os verificou-se como têm sido delineados os estudos empíricos sobre o tema e as conclusões que derivaram. A seguir eles são apresentados e, logo depois, os estudos empíricos sobre situações de escolha e freqüência de desempenho são também listados (estes foram selecionados a partir da sua importância para o delineamento experimental apresentado no Capítulo 3)..
(40) 39. 2.2.1. Estudos empíricos sobre eventos privados. Desde o clássico experimento “Algumas propriedades quantitativas da ansiedade” (Estes & Skinner, 1941/1961), que descreve como a ansiedade foi mensurada a partir de seus supostos efeitos sobre a taxa de respostas de pressão à barra; e também desde as considerações epistemológicas contidas no “Terms” (Skinner, 1945), os poucos estudos que pesquisaram diretamente eventos privados do tipo sentir ou pensar se intensificaram a partir da década de 80, focalizando o sentir e, inicialmente, usando organismos não humanos como sujeitos. Lubinsky & Thompson (1987) investigaram o papel de eventos privados experimentalmente. manipulados. no. estabelecimento. da. ocasião. para. comportamentos comunicativos entre pombos. O objetivo dos autores foi verificar se animais não humanos poderiam aprender a interagir comunicativamente, discriminando e “relatando” (bicando em um display) entre si estados internos que variavam devido à administração de cocaína, pentobarbital (substância utilizada como anestésico) ou sal. Seus resultados demonstraram esta possibilidade e seu estudo tornou-se um modelo adequado de comunicação interpessoal de eventos privados, sugerindo que, com um treinamento adequado, feito de forma similar ao feito com os pombos, seria possível ensinar humanos a discriminar seus estados corporais. Esse estudo foi influenciado por estudos anteriores, entre eles um estudo em que houve uma tentativa de estudar a comunicação simbólica entre pombos, proposto por Lubinsky & MacCorquodale (1984), e outro no qual Lanza, Starr & Skinner (1982) já haviam verificado, também em pombos, que após um treino, poderia ser desenvolvida a capacidade de comunicar entre si propriedades.
(41) 40. “verdadeiras” e “inventadas” de estímulos ambientais públicos dispostos na câmara experimental. A partir do “modelo adequado de comunicação interpessoal de eventos privados” de Lubinsky & Thompson (1987), pesquisas com humanos visando verificar a relação entre a utilização de substâncias e estados corporais foram propostas. DeGrandpre, Bickel & Higgins (1992) estudaram as relações de equivalência emergentes entre estímulos interoceptivos (efeitos corporais de drogas) e estímulos visuais, verificando em seus resultados que ocorria formação de classes equivalentes entre tais estímulos. No mesmo ano, Oliveto, Bickel, Hughes, Higgins & Fenwick (1992) verificaram como os efeitos de uma substância (Triazolam) poderiam servir como estímulo discriminativo para a nomeação de eventos privados em humanos, constatando que, a partir do treinamento, os participantes eram capazes de relatar com exatidão seus estados internos, baseados nas opções de relato fornecidas durante o procedimento. Os estudos empíricos com eventos do tipo sentir deram impulso para o estudo empírico dos eventos do tipo pensar já no início dos anos 90. Kritch & Bostow (1993), por exemplo, procuraram verificar a capacidade de pessoas emitirem respostas verbais a eventos passados (no caso, o evento do tipo pensar poderia ser chamado lembrar). Neste experimento 75 estudantes eram requisitados a identificar na tela de um computador quatro figuras geométricas diferentes. Durante essa etapa de identificação, para cada figura, uma cor de fundo de tela diferente da cor da figura era apresentada. Após essa apresentação, os participantes eram solicitados a lembrar a cor de tela correspondente a cada figura apresentada anteriormente. Os resultados confirmam as afirmações de.
(42) 41. Engelmann (1978) de que quanto maior for à proximidade temporal entre o relato e o fato, ou estado subjetivo a ser relatado, maiores as chances de um relato correto por parte do sujeito. Além do lembrar, uma outra resposta privada investigada empiricamente foi o resolver o problema. Simonassi, et al. (2001) empregaram um procedimento para que humanos resolvessem problemas e tornassem públicas tais respostas. Em seu estudo, 64 participantes foram distribuídos em duas condições experimentais (complexa e simples) de resolução de problema envolvendo contingências em um software. Após cada desempenho obtiveram-se registros das respostas de relatar (oralmente e por escrito) sobre a resolução do problema. Dos resultados concluiu-se que a complexidade da tarefa não interferiu na característica privada das respostas e que as contingências sociais tornaram públicas as respostas precorrentes na resolução de problemas. O procedimento empregado pelos autores fornece evidências empíricas para algumas das proposições estabelecidas pelos behavioristas radicais para o pensar, além de oferecer duas novas questões para discussão dos eventos privados em geral: 1) a emissão de respostas descritivas precorrentes eficazes mostrou-se como uma função das contingências sociais associadas às contingências mediadas pelo software; 2) a identificação da possibilidade de respostas descritivas incorretas foi se modificando de acordo com respostas informativas de disponibilidade de uma regra para resolução dos problemas. Ambas as questões são especialmente importantes para os estudos que usam respostas informativas na análise do desempenho dos participantes..
(43) 42. Garcia-Serpa, Meyer & Del Prette (2003), com base nas proposições skinnerianas sobre a origem social do relato de sentimentos, buscaram entender sua importância no desenvolvimento inicial da criança e questionar se a influência da comunidade verbal sobre esse repertório seria detectável em curto período do desenvolvimento infantil e se haveria diferenças na aprendizagem em função do tipo de sentimentos. Para este estudo, uma amostra de 72 meninos de quatro e cinco anos foram colocados em situação de identificação de sentimentos do protagonista de uma história apresentada em vídeo. Os resultados mostraram diferenças entre as crianças de duas faixas etárias quanto ao tipo de sentimento identificado evidenciando um efeito cumulativo da experiência e fornecendo evidência empírica indireta de que a influência da comunidade verbal é progressiva, a partir da diferenciação do repertório ao longo da idade. Entre os resultados das buscas, também foi encontrada uma pesquisa que, de certa maneira, justifica a posição de Skinner (1957/1978), acerca da função verbal do relatar um sentimento. Trata-se do estudo de Lanza, et al. (1982), citado anteriormente, no qual os autores não apenas ensinam pombos a descrever propriedades do ambiente, como também a “mentir” sobre essas propriedades. Dois pombos eram ensinados a usar símbolos para comunicar informações sobre cores (vermelho, amarelo e verde) escondidas para cada um. Quando relatar que a cor escondida era “vermelha” era reforçado mais generosamente do que relatar que a cor era “verde” ou “amarela”, os dois pássaros passaram por um período no qual eles “mentiram” relatando apenas que a cor escondida era “vermelha”. Uma vez que ver é um evento comportamental privado, Parsons (1989) partiu desse fato para fazer uma discussão teórica sobre o mentir, ao se relatar estados.
(44) 43. subjetivos. Suas conclusões apontam que analistas do comportamento pouco falam ou escrevem sobre “mentir”. Em conclusão, ambos os estudos confirmam a posição de Skinner (1957/1978) sobre a precisão e validade dos relatos dos participantes, na medida em que não há garantia de que um relato possa estar ligado a um propósito (determinado pelo conhecimento da função de um operante, ou da conseqüência a ser conseguida) ou a um estado sentido. Dito de outro modo, simplesmente, não há garantias de que um relato é uma “verdade” sobre os estados subjetivos dos participantes. Obviamente, este estudo tem clareza desta limitação inexorável.. 2.2.2. Estudos empíricos sobre situações de escolha e freqüência de resposta. Visando adicionar sugestões que pudessem definir o arranjo experimental proposto para este experimento, também foi feita uma revisão de outros estudos experimentais que utilizaram contingências (programadas ou não) ou analisaram o desempenho em situações de escolha, uma vez que, como se verá no Capítulo 3, esses estudos apresentam alguns detalhes experimentais que inspiraram o método deste estudo, o qual envolve escolha em diferentes contingências e esquemas de reforçamento. O´Donnell,. Crosbie,. Willians. &. Saunders. (2000),. por. exemplo,. programaram um software que apresentou estímulos e registrou respostas, permitindo verificar se os participantes eram capazes de discriminar situações em que perdiam ou ganhavam reforçadores (no caso, dinheiro). Seus resultados.
(45) 44. mostram que a freqüência dos comportamentos dos participantes diminuía nas situações quando predominavam punidores, e aumentava quando predominavam reforçadores, o que, de certa forma, caracteriza a escolha. Critchfield, Paletz, MacLeese & Newland (2003), de modo parecido, verificaram se os participantes (estudantes voluntários) escolheriam situações com estímulos reforçadores ou punidores, assim como a efetividade do uso de dinheiro em duas situações experimentais: como reforçador ou punidor negativo. Devido a um aumento da freqüência de escolha pela primeira situação, seus resultados mostram que os participantes discriminaram os estímulos que sinalizavam o ganho de prováveis reforçadores ou a sua perda. Landon, Davison & Elliffe (2003) também avaliaram o comportamento de escolha, porém usaram pombos e planejaram situações diferentes que envolviam uma distribuição desigual de reforçadores, por meio de esquemas de reforçamento de razão variável. Eles treinaram seis pombos em um procedimento no qual deveriam escolher bicar um ou outro de dois discos, sendo que em cada um o bicar produzia conseqüências reforçadoras em um esquema de razão diferente. Seus resultados mostram que o comportamento de escolha varia de acordo com a razão, podendo haver alternância na escolha em função de uma razão mais favorável. Em um outro estudo com pombos, Ono (2004) verificou os efeitos da experiência prévia na preferência por situações de escolha livre ou forçada. Dois animais eram colocados alternadamente em uma caixa experimental com dois discos de escolha. O experimento consistiu em dois procedimentos executados de maneira alternada para cada animal: em um procedimento todas as respostas.
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