A ASSISTÊNCIA CLÍNICA
É PRIORITÁRIA
O Serviço de Oncologia do Hospital de Santa Maria atua, fundamentalmente, em três áreas:
assistência clínica, investigação clínica (estudos de intervenção, de translação e de outcomes)
e formação (pré e pós--graduada). A área da assistência clínica é, indubitavelmente, a mais
importante de todas, afirma o diretor do Serviço, Prof. Doutor Luís Costa, destacando que,
sempre que necessário, é solicitada a colaboração de especialistas estrangeiros de reconhecido
valor em áreas específicas.
Médico News (MN) | O que carateriza o Serviço de Oncologia do Hospital de Santa Maria?
Prof. Doutor Luís Costa (LC) | O nosso Ser-viço está dividido em três vertentes: assistên-cia clínica, investigação clínica e formação, nomeadamente pré e pós-graduada. Somos os principais responsáveis pela cadeira de Oncobiologia lecionada no 3.º ano do Curso de Medicina, assim como pelo ensino de On-cologia Clínica, no 4.º ano, e coordenamos o mestrado em Oncobiologia (pós-graduação). Organizamos reuniões, algumas das quais internacionais, denominadas preceptorships. São módulos de um dia, ou dia e meio, com formação intensa em determinada área, como aconteceu, por exemplo, no ano passa-do e já este ano. Os temas foram a metastiza-ção óssea, área em que fazemos mais investi-gação, e a oncoimunologia. No preceptorship deste ano participaram mais de 20 médicos estrangeiros, oriundos, nomeadamente, da Bélgica, Rússia, Lituânia e de outros países europeus. A nossa ligação à formação envolve desde alunos até especialistas de outras áreas com ligação ao cancro. Dentro da investiga-ção, há a salientar a que realizamos com me-dicamentos novos (estudos de intervenção). A nossa participação em estudos clínicos de intervenção cresceu imenso nos últimos anos e neste momento temos cinco coordenadoras afetas a este tipo de estudos.
MN | Para que áreas específicas estão vo-cacionadas?
LC | As áreas em que temos mais estudos clínicos de intervenção são as do cancro da mama, tubo digestivo, cabeça e pescoço e urológicos (nomeadamente bexiga, próstata e rim). Fazemos ainda investigação de transla-ção, onde a componente clínica colabora com o laboratório pelo qual somos responsáveis no Instituto de Medicina Molecular (IMM).
46 Nesse laboratório realizamos investigação
com modelos in vitro, modelos animais e amostras humanas. As duas áreas mais pre-ponderantes são o cancro da mama e o can-cro colo rectal.
MN | Neste caso por serem as duas patolo-gias prevalentes?
LC | Na verdade são duas patologias bas-tante prevalentes, sendo que historica-mente desenvolvemos também interesse na área da metastização óssea, muito fre-quente no cancro da mama e da próstata. A publicação dos resultados obtidos nestes projetos de investigação confere-lhes visi-bilidade no exterior. Há, ainda, uma outra área de investigação que não tem nada a ver com estas duas: a da investigação de
outcomes (resultados). Em colaboração com
outros hospitais de Lisboa, sobretudo com o
IPO e com os hospitais da Luz, CUF e Beatriz Ângelo, investigamos o que aconteceu aos doentes no mundo real, nos últimos tem-pos. Um exemplo: há um mês, quis saber quantas recidivas registámos em cancro da mama nos mais de 720 doentes cujos casos tinham sido discutidos nas reuniões multi-disciplinares aqui realizadas. Rapidamente foi possível apurar que houve 17 recidivas, o que é uma boa taxa.
1.200 NOVOS DOENTES EM 2016
MN | Quantos são os doentes que o Serviço recebe por ano?
LC | Em 2015 recebemos 950 novos doentes (oriundos de todo o país, mas sobretudo da região sul) e em 2016, infelizmente, ficámos acima deste número, que ainda não está total-mente apurado, mas que se aproximará dos
1.200 doentes. Se tivermos em consideração que este número de novos doentes acresce ao volume de doentes em tratamento e/ou segui-mento já existente, sendo particularmente di-fícil dar alta aos doentes oncológicos, estamos em desafio constante para manter a qualida-de da resposta clínica.
É importante salientar que o número referido corresponde aos doentes oncológicos que são referenciados ao Serviço de Oncologia para tratamento é uma parte de todos os doentes oncológicos que o CHLN (Hospital de Santa Maria e Hospital Pulido Valente) acolhe.
MN | Há alguma razão específica para este aumento?
LC | Sim, acho que há uma razão, mas é de natureza política. Suponho que resulta da decisão que o Ministério da Saúde tomou de dar aos doentes a possibilidade de escolher o hospital onde querem ser tratados. Poli-ticamente é uma decisão compreensível, mas complicada em termos logísticos, pois há que adaptar os serviços, em termos de recursos humanos e de espaço, de modo a ficarem aptos ao acolhimento de um maior número de pessoas.
MN | Existe lista de espera?
LC | Neste momento não temos lista de es-pera, mas corremos esse risco, porque não temos espaço suficiente para observar tantos doentes. A solução pode passar, por exem-plo, pela referenciação de doentes para ou-tros cenou-tros, ou então por termos mais con-dições para responder ao maior afluxo que registamos. Importa salientar que o número de doentes tem vindo a crescer, tal como a complexidade das patologias, porque, mui-tas vezes, os doentes iniciam os tratamentos em hospitais privados e depois, por
dificul-dades económicas, mudam para o SNS e um dos hospitais de referência é precisamente este. Ora nem sempre é fácil “encaixar” mais doentes para além dos que aqui são já segui-dos, uma dificuldade à qual acresce a adapta-ção, por vezes mesmo de índole terapêutica, o que aumenta ainda mais a complexidade. De referir, ainda, que uma parte significativa dos doentes que nos são referenciados confi-guram casos mais complexos, com doença já metastizada.
Tudo isto constitui um grande desafio que enfrentamos, quer em termos administra-tivos, quer de segurança para o doente. Por ano fazemos cerca de 19 mil tratamentos, um número bastante alto, e, como facilmente se pode concluir, é preciso um elevado nível de organização para que não sejam cometidos erros.
MN | Que outras dificuldades sentem? LC | Repare, aqui a qualidade da decisão te-rapêutica é inversamente proporcional ao tempo que despendemos com cada doente. Se temos tempo para ouvir e observar o doen-te, ver os exames e discutir o processo, então a nossa decisão é mais acertada. Mas se en-tramos num sistema de pressing em que mal temos tempo para ouvir o doente, ver os exa-mes e com ele discutir a sua evolução, então é bem possível que, por vezes, sejam toma-das decisões que, apesar de mais caras, nem sempre são as melhores para o doente. Como diretor do Serviço esta é, aliás, umas das mi-nhas principais preocupações e prioridades, ou seja garantir que há um número suficiente de médicos diferenciados e que lhes é dado o tempo suficiente para poderem tratar bem os seus doentes. E a verdade é que temos um défice em termos do número de médicos para podermos atuar de acordo com o que referi. São precisos também mais gabinetes para podermos fazer mais consultas. No presente contamos com nove gabinetes, onde são rea-lizadas cerca de 30 mil consultas/ano. Há que encontrar uma solução.
MN | O que nos pode dizer mais sobre a equipa e o funcionamento do Serviço? LC | Somos nove médicos oncologistas, con-tamos com o apoio de uma colega de Medici-na InterMedici-na e a colaboração de 16 enfermeiras. O nosso Hospital de Dia funciona das 8h00 às 20h00 e temos consulta de urgência de 2.ª a 6.ª feira, o que constitui uma mais-valia para os doentes. Basta dizer que no ano passado fizemos cerca de 1.800 atendimentos de
ur-O SERVIÇur-O
DE ONCOLOGIA
EM NÚMEROS
Ao Serviço de Oncologia do Hospital de Santa Maria estão associados os seguintes números:
> 9 médicos > 16 enfermeiras
> 9 pessoal administrativo
> 5 coordenadoras de estudos clínicos > 30 mil consultas por ano
> mais de 19 mil tratamentos em ambulatório
> atendidos cerca de 1.200 novos doentes no ano passado
48 gência. Por exemplo, um doente que detete
sangue nas fezes ou sinta o agravamento de uma dor, não tem que ir à urgência central. Dirige-se ao nosso Hospital de Dia, onde é ob-servado pelo médico de urgência.
Temos cerca de 10 camas ocupadas em per-manência nos diversos serviços de Medicina com doentes conhecidos do Serviço e que são internados por complicações ou para trata-mentos. Entre 15 a 20% dos internamentos em Medicina Interna devem-se a doença on-cológica. Não quer dizer que estejam direta-mente sob a nossa responsabilidade, por ve-zes só damos apoio técnico. Em permanência há entre 10 e 15 internamentos programados por nós.
CANCROS PREVALENTES
MN | Quais são as doenças oncológicas prevalentes?
LC | São o cancro colorretal, o cancro da mama e os tumores urológicos. No Serviço
recebemos entre 250 a 300 novos casos de cancro da mama por ano, entre 300 a 500 de cancro do tubo digestivo e cerca de 80 de cancro da próstata metastizado. Também é importante dizer que temos tido entre 40 a 50 novos casos de sarcomas por ano, que podem ser bem mais complicados do que o cancro do cólon. Para áreas mais complexas, contamos, felizmente, com assessoria inter-nacional. Na área dos sarcomas, por exem-plo, temos dois consultores internacionais: um em Barcelona e outro em Nova Iorque. Acontece nos sarcomas e é importante per-ceber que, na dimensão clínica, não somos um Serviço que se confina a Portugal. Nós próprios tomamos a iniciativa de consultar quem reconhecemos como expert mundial em determinada área, para nos ajudar a to-mar decisões.
MN | Há quem diga que o cancro é a mais curável de todas as doenças crónicas. Con-corda?
LC | Sim, primeiro porque é uma patologia crónica e segundo porque é uma doença de tudo ou nada, ou seja, para curarmos o cancro precisamos de eliminar a popula-ção tumoral, ou pelo menos pensamos que o conseguimos fazer, e aí os doentes ficam totalmente curados. Há outras circunstân-cias em que não conseguimos curar o can-cro, como é o caso das doenças avançadas, mas podemos prolongar significativamente a vida dos doentes. Por exemplo, desde 1996 que acompanho uma doente com cancro da
mama, considerado de risco na altura. Cator-ze anos depois teve uma recidiva nos ossos e no pulmão, mas o que fizemos em 1996 per-mitiu que vivesse até hoje, apesar de ter tido o diagnóstico de metástases há sete anos. Repare que são 20 anos de história desta doente, cujo cancro, apesar de não ter cura, continua a permitir-lhe viver e a fazer a sua vida com autonomia.
Há outras situações mais complicadas, como é o caso do cancro do pâncreas. Mas o cancro é uma doença em relação à qual te-mos que estar preparados para boas e más
ATIVIDADE CLÍNICA
A atividade clínica é desenvolvida nas seguintes vertentes:
> Abordagem do doente oncológico numa perspetiva multidisciplinar, através de reuniões de decisão com outros especialistas (nomeadamente, Cirurgia, Radioterapia e Anatomia Patológica) > 8 reuniões multidisciplinares a
decorrerem regularmente
> Enquadramento multidisciplinar para patologias raras e mais complexas, como sarcomas, melanomas e suscetibilidade genética para cancro da mama
> Diferenciação na caraterização molecular dos tumores, realizada em estreita colaboração com o IMM e outros laboratórios
> Para doenças mais raras ou complexas, o Serviço estabeleceu parcerias de consultoria com experts internacionais, sobretudo para as seguintes patologias: sarcomas (Dr. Robert Maki, Hospital Monte Sinai), cancro do rim (Dr. Robert Motzer, do MSKCC, em Nova Iorque) e tumores neuroendócrinos (Dr. Öberg, de Upsala, na Suécia)
notícias. Quando as segundas acontecem, há que continuar a dar o nosso melhor pe-los doentes, sabendo que há momentos em que a melhor maneira de tratar não é pres-crever tratamentos anti tumorais, mas sim proporcionar um maior controlo dos sinto-mas e conforto.
MN | Em Oncologia também se caminha para a Medicina de precisão?
LC | A Medicina de precisão é um objetivo desejável para muitas áreas da Oncologia, mas não é alcançável para a maioria. Por
exemplo, se estou a tratar um doente com um sarcoma que apresenta uma alteração mo-lecular em relação à qual posso prescrever um medicamento para inibir aquele passo molecular – enzimático, se quiser – e obter um bom resultado, isso é ser-se preciso. Ou seja, escolho aquele tratamento, com preci-são, para aquela doença e para aquele doen-te. Isso já acontece para algumas doenças, mas não para todos os cancros. Na medicina de precisão ainda nos falta captar a dinâmi-ca. Se não conseguimos tratar um tumor, ele tende a ganhar resistências, o mesmo é dizer a ganhar uma dinâmica, e captar a tempo o que está a acontecer de novo no tumor, não é fácil. Esta é uma área em que a medicina necessita de grandes avanços da ciência. MN | Apesar da existência de fármacos de imunoterapia e de terapêuticas dirigidas, continua a apostar-se muito nas terapêuti-cas convencionais. Porquê?
LC | Relativamente às terapias convencio-nais, é essencial que as pessoas percebam a importância da quimioterapia e da radiotera-pia, e que a cirurgia é fundamental. A maior parte dos tumores sólidos para serem cura-dos precisam de cirurgia. A radioterapia tem, por sua vez, um papel fundamental no con-trolo regional da doença e também na palia-ção de muitos doentes. A rádio cirurgia, por exemplo, é fundamental para as metástases cerebrais, tal e qual como a quimioterapia o é para a cura de diversos cancros, como o co-lorretal.
Houve também evolução na quimioterapia, não é só com produtos novos. Hoje contro-lamos muito melhor os sintomas associa-dos à quimioterapia do que há 15 anos e somos muito mais eficazes em garantir que os doentes façam o tratamento sem grande toxicidade.
MN | Qual o significado que atribui à imu-noterapia para o tratamento do cancro? LC | No Serviço temos experiência com imu-noterapia com prescrição habitual e em in-vestigação. A área na qual possuímos mais experiência é a do melanoma, mas temos também experiência em cancro do rim, da cabeça e pescoço, da bexiga e do cólon, entre outros. Fora da investigação, como prática clí-nica, a nossa experiência é no melanoma e no cancro do rim. São os tumores para os quais estão a ser obtidos resultados mais represen-tativos. No que diz respeito ao melanoma, foi praticamente uma revolução.
O QUE MUDOU EM 12 ANOS
MN | Há quanto tempo é diretor deste Ser-viço e o que de mais relevante aconteceu desde então?
LC | Sou diretor há 12 anos e, neste espaço de tempo, o que aconteceu de mais relevante foi o número de estudos clínicos ter aumenta-do exponencialmente. Por exemplo, em 2005 não tínhamos uma coordenadora de estudo e hoje contamos com cinco. O número de pu-blicações internacionais não tem também comparação e é com muito orgulho que vejo médicos formados neste Serviço serem reco-nhecidos internacionalmente e os seus traba-lhos citados em conferências internacionais. Alguns estão a trabalhar em França, no Insti-tute Gustave Roussy.
É importante dizer também que o nosso tra-balho de investigação de translação começa a ter um impacto internacional considerável. Por três vezes ganhámos o Prémio Terry Fox da Liga Portuguesa contra o Cancro, e fomos distinguidos com o Fundo IMM/Laço para investigação laboratorial clínica. É o reco-nhecimento do trabalho que tem vindo a ser desenvolvido, realizado em rede com consór-cios internacionais na área da investigação. Acolhemos aqui uma reunião que contou com a presença de investigadores da Índia, Japão, Inglaterra e Alemanha, entre outros países. Temos ainda muito para melhorar, mas já não somos anónimos na cena inter-nacional, onde queremos ter uma presença cada vez mais forte, enquanto melhores
par-NO ÂMBITO
DA FORMAÇÃO
> O Serviço conta atualmente com 11 internos da especialidade e tem formado vários especialistas que são recrutados para trabalhar noutras centros hospitalares (Loures e Capuchos) e também para a Fundação Champalimaud e Instituto Gustave Roussy.
> O Serviço e o seu laboratório participam muito ativamente na formação pré-graduada em Oncologia para alunos de Medicina, e coordena o mestrado em Oncobiologia. Foi parceiro em atividades de e-learning, apoiadas pelo Programa Harvard-Portugal
INVESTIGAÇÃO CLÍNICA
E DE TRANSLAÇÃO
O Serviço de Oncologia participa na investigação clínica em:> 25 estudos clínicos de intervenção (estudo de novos tratamentos), com 103 doentes incluídos) em 2015 e 2016
> As áreas de intervenção destes estudos são as do cancro da mama, cancro do cólon e reto, cancro hepato-biliar, cancro gástrico, cancro da bexiga, cancro da próstata, cancro do pâncreas, cancro do ovário, sarcomas e melanomas
> Os estudos englobam diferentes técnicas terapêuticas, como novos fármacos (terapêutica biológica e novos citostáticos) > Investigação com origem no Serviço em
metástases ósseas (cancro da mama e outros). Esta é uma investigação com pesquisa de novos biomarcadores de prognóstico e de novos alvos terapêuticos. No caso da metastização óssea, está a ser desenvolvida pesquisa para novos alvos de medicamentos que estão em fase inicial de investigação
> O Serviço tem sido um grande promotor da investigação de translação no IMM, na área das metástases ósseas (muito frequentes no cancro da mama e da próstata) e na área de bancos de tumores de cancro do cólon e recto. Nesta atividade o Laboratório do Serviço no IMM orientou dois
doutoramentos e cinco teses de mestrado nos últimos três anos. O Laboratório tem três doutorados responsáveis por áreas de investigação de translação.
> Através do seu laboratório no IMM, o Serviço possui fortes ligações com universidades no estrangeiro e integra um consórcio internacional na área da Genómica do Cancro
> Nos últimos anos, o Serviço elaborou igualmente projetos de investigação com a Universidade de Harvard, na área do cancro da mama
> Como resultado desta investigação, o Serviço é coautor ou principal responsável por várias publicações científicas internacionais. De janeiro de 2011 a janeiro de 2017, o nome do Serviço e da sua unidade de investigação no IMM surgiu em 51 publicações internacionais na pubmed ceiros para o desenvolvimento de novos
me-dicamentos e de investigação. Não é um ciclo vicioso, mas sim virtuoso.
MN | Qual o cancro mais desafiante e porquê?
LC | Depende do tipo de cancro diagnosticado naquela pessoa e do modo como se comporta. Mas os cancros em relação aos quais preci-samos de mais avanços são o do pâncreas, claramente, e alguns sarcomas. Precisamos de avanços muito significativos para que os resultados sejam melhores. Mas é claro que ninguém está totalmente contente com os re-sultados que existem para o cancro da mama, do pulmão ou da próstata. Não nos podemos esquecer que a segunda causa de morte no
homem por cancro é o cancro da próstata. Se quisermos considerar a questão em ter-mos de proporção de cancros diagnosticados e curados, então ponho o cancro do pâncreas no topo da lista.
MN | Em Oncologia, a investigação de me-dicamentos faz-se do fim para o princípio? LC | Diria que a investigação com medica-mentos é que é do fim para o princípio. Se houver um medicamento novo para ser tes-tado, começa a sê-lo em doença metastizada e só se apresentar grandes potencialidades nesta fase é que poderá ser aplicado numa outra desde que aumente a probabilidade de cura após cirurgia. Este é o percurso etica-mente possível neste momento.
O principal desafio da Oncologia em Portugal passa
pela disponibilização de cuidados de saúde rápidos e de qualidade
em todo o país, afirma o Dr. Arlindo Ferreira, médico interno
do Serviço de Oncologia. “É necessário garantir tempos adequados
para o diagnóstico, início do tratamento e acompanhamento”, explica.
Nas palavras do Dr. Arlindo Ferreira o can-cro é uma doença em relação à qual há ain-da uma grande necessiain-dade de melhoria de resultados, o que poderá ser alcançado através de investimento em investigação. “Temos que criar condições para participar em mais ensaios clínicos e sermos capazes de oferecer esta oportunidade aos doentes ao mesmo tempo que implementamos com sucesso os estudos. A matriz de unidades de saúde deve também ser mais fluída, de modo a que o doente possa circular entre várias instituições a fim de obter o maior benefício clínico possível”, conclui.
“À escala global, creio que o maior desafio da Oncologia consiste em gerar acesso a cuidados de saúde. O número de oncologis-tas a nível mundial é limitado e nem todos os doentes têm acesso a oncologistas dife-renciados, aptos a decidir com o doente o plano de tratamento mais adequado para cada caso. Outro desafio à escala global prende-se com a coordenação de cuidados, que é determinante em Oncologia porque precisamos de intervir de diversas formas com o doente e os tratamentos têm que ser coordenados de maneira eficaz e célere”, acrescenta.
O trabalho que a Dr.ª Irina Alho desenvolve no laboratório LCosta do Instituto de Medicina
Molecular (Oncobiologia Translacional) tem enfoque na área da metastização óssea
e, neste contexto, encontra-se envolvida em dois projetos específicos.
Começa, assim, por explicar que um dos problemas na área da metastização óssea prende-se com a falta de biomarcadores que ajudem a entender melhor a resposta à terapêutica, a progressão da doença e con-sequentemente o prognóstico destes doen-tes. Assim, os dois projetos, apesar de uti-lizarem metodologias muito díspares, pre-tendem ser um contributo na investigação de biomarcadores na metastização óssea, sublinha.
“Um dos projetos está a ser realizado em colaboração com o Departamento de En-genharia Mecânica do Instituto Superior Técnico. Estamos a construir uma base de dados de doentes com cancro da mama e da próstata com e sem metastização óssea. Nesta base de dados estão a ser incluídas variáveis demográficas, clínicas, bioquími-cas e genétibioquími-cas. Isto permitirá criar mode-los matemáticos que nos ajudarão a inte-grar as diferentes variáveis, com o objetivo de fornecer informações relativas à res-posta à terapêutica neste tipo de doentes.
ENFOQUE NA METASTIZAÇÃO ÓSSEA
Tanto quanto possível, estes modelos serão validados em doentes”, afirma.
O outro projeto, prossegue, é, também, na área da metastização óssea. Alguns frag-mentos resultantes da degradação do co-lagénio durante a reabsorção óssea são determinados na urina e soro. Em doen-tes com metástases ósseas os níveis desdoen-tes fragmentos estão, habitualmente, elevados correlacionando-se com a sobrevida destes doentes, explica. “O impacto na sobrevida dos doentes levou-nos a colocar a hipótese destes fragmentos poderem ter um papel biológico importante. É este o objetivo deste estudo: avaliar, através de vários métodos laboratoriais, o possível impacto biológico destes fragmentos. Se conseguirmos validar a nossa hipótese podemos estar perante um marcador de prognóstico ou até um possí-vel novo alvo terapêutico, acrescenta. Questionada sobre se considera a investiga-ção em Oncologia como um desafio, a Dr.ª Irina Alho declara: “Sim, é um grande de-safio. Para além de existir uma grande
va-riedade de tumores, no próprio tumor tam-bém existe uma grande diversidade. Tudo é diferente e o que estamos a investigar hoje não conseguimos transpor para outros tipos de tumor. O tumor não pode ser considera-do como uma única entidade, considera-doença. É um conjunto de doenças e necessitamos de des-cobrir como o podemos abordar de todas as formas. Esse é um dos grandes desafios na área da Oncologia”, conclui.
METASTIZAÇÃO ÓSSEA E CANCRO
MECANISMOS
DO DESENVOLVIMENTO TUMORAL
A metastização óssea, usando como modelos o cancro da mama
e o cancro da próstata, é a principal área de investigação a que se dedica
a Prof.ª Doutora Sandra Casimiro, investigadora sénior no Instituto
de Medicina Molecular (IMM).
O Grupo de Investigação em Oncobiologia Translacional liderado
pelo Prof. Doutor Luís Costa estava a criar um biobanco de amostras
de cancro colorretal quando, há dois anos, a Dr.ª Marta Martins
ingressou no laboratório onde investiga mecanismos celulares
envolvidos no desenvolvimento tumoral.
encontra desregulada aquando do processo tumoral. A Dr.ª Marta Martins encontra-se neste momento a explorar a importância des-sa desregulação num contexto de resistência a uma terapia utilizada hoje em dia em cancro colo-rectal metastático. “Portanto, o nosso tra-balho aqui é descobrir as vias e como é que essa função de resistência poderá estar a ser executada e tentar, num futuro próximo, criar forma de a inibir”, refere. Os projetos estão ainda numa fase precoce de desenvolvimento, mas em breve haverá resultados, adianta.
“Temos desenvolvido vários projetos no âm-bito dos quais tentamos encontrar um me-canismo biológico que relacione a metasti-zação óssea com caraterísticas moleculares dos tumores da mama. Como há uma grande apetência para estes tumores metastizarem no osso, é importante perceber o mecanismo biológico subjacente”, explica. O grande ob-jetivo é, assim, estudar o impacto da hormo-no-dependência do cancro da mama na me-tastização tão frequente no osso, acrescenta. Refere, ainda, que estão em curso projetos focados nos vários estadios da doença. Neste momento, prossegue, há dois grandes projetos em curso. Tendo como ponto de partida estudos realizados desde 2007, é nes-te momento investigada uma via de sinali-“Neste momento o biobanco de tumores tem cerca de 700 amostras que incluem tecido normal, adenomas, tumores primários e me-tástases. Quando integrei este laboratório foi justamente com o objetivo de tirar partido deste biobanco, que continua a crescer, para o utilizar, nomeadamente, na busca de mar-cadores de progressão tumoral e marmar-cadores preditivos de resposta terapêutica”, explica. No âmbito da atividade que desenvolve, a Dr.ª Marta Martins tem focado o seu estudo numa família específica de proteínas que se
zação extremamente importante em cancro da mama e em doença metastática do osso, e o impacto de mutações pontuais que afe-tam esta via na progressão da doença e res-posta à terapêutica. Um outro projeto, mais abrangente e a mais longo prazo, visa identi-ficar alvos moleculares que permitam ligar, de alguma forma, a hormono-dependência do cancro da mama com a metastização no osso.
Questionada sobre que caraterísticas o investigador deve ter, a Profª. Sandra Ca-simiro declara: “ é preciso paciência, per-severança, calma, capacidade crítica (para distinguir o que é importante do que não é) e rigor, em particular quando trabalhamos com amostras humanas e com informação
difícil de analisar, mas que tem um impacto enorme, uma vez que se destina a obter in-formação que possamos transportar para a prática clínica”.
SERVIÇO DE ONCOLOGIA DO HOSPITAL DE SANTA MARIA – CHLN
A assistência clínica é prioritária
SOCIEDADE PORTUGUESA DE MEDICINA INTERNA
Medicina Interna, uma especialidade holística e realidade em expansão
ATUALIZAÇÃO
DO ESTADO
DA ARTE EM
CARDIOLOGIA
MAIS DE 1.300 ESPECIALISTAS NAS
XXVIII JORNADAS DE ATUALIZAÇÃO
CARDIOLÓGICA DO NORTE PARA MGF
17.ª CONFERÊNCIA MUNDIAL EM CANCRO DO PULMÃO
“Prevenção ativa, diagnóstico preciso, cuidado avançado” nº25 JANEIRO//FEVEREIRO 2017 ANO 5 3€