A31-PP- PERISPÍRITO E EVOLUÇÃO – PARTE 3
9.1- O perispírito
Fato deveras relevante é que a evolução, na verdade, é um processo de natureza interexistencial. Com efeito, mostra o Espiritismo que ela acontece, contínua e
ininterruptamente, em dois planos existenciais: material e espiritual. (52) Nesse sentido, lembra ANDRÉ LUIZ que “o princípio divino aportou na Terra, emanando da Esfera
Espiritual, trazendo em seu mecanismo o arquétipo a que se destina, qual a bolota de carvalho encerrando em si a árvore veneranda que será de futuro, não podemos circunscrever-lhe a experiência ao plano físico simplesmente considerado, porquanto,
através do nascimento e morte da forma, sofre constantes modificações nos dois planos em que se manifesta (...) ”. (53)
(52) É perfeitamente compreensível que, a partir de determinados níveis de desenvolvimento - dispensando, já, o suporte da matéria -, o processo evolutivo prossiga só no plano espiritual.
(53) XAVIER, F. C. VIEIRA, Waldo. Evolução em Dois Mundos, Cap. III, p. 35.
É nesse maravilhoso evolver contínuo e eterno do princípio inteligente, nos múltiplos laboratórios da Natureza, surge, pouco a pouco, cada vez mais nítida, a estrutura que, um dia, na dimensão hominal, se consolidará como o meio perene de sua expressão, o
perispírito.
Assinala bem Gabriel DELANNE (1857-1926):
O princípio espiritual evolui lentígrado, das mais ínfimas formas aos organismos mais complexos. Durante o longuíssimo período das idades geológicas, as faculdades
rudimentares do Espírito desenvolveram-se sucessivamente, agindo sobre o perispírito,
modificando-o e deixando nele, em cada etapa, os traços do progresso realizado. (54)
(54) DELANNE, Gabriel. A Evolução Anímica. 7. ed. Rio de Janeiro: FEB, Cap. III, p. 120.
E uma vez mais, ANDRÉ LUIZ, sempre citado, traz, pela mediunidade de F. C. XAVIER, importantes informações a respeito:
Assim como o aperfeiçoado veículo do homem nasceu nas formas primárias da Natureza, o corpo espiritual foi iniciado também nos princípios rudimentares da
inteligência. (55)
(55) XAVIER, Francisco Cândido. ANDRÉ LUIZ, Espírito. Entre a Terra e o Céu. 16. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1995, Cap. XXI, p. 132.
(...)
(...) ao longo da atração no mineral, da sensação no vegetal e do instinto no animal, vemos a crisálida de consciência construindo as suas faculdades de organização,
sensibilidade e inteligência, transformando, gradativamente, toda a atividade nervosa em vida psíquica.
(...)
Os dias da Criação, assinalados nos livros de MOISÉS, equivalem a épocas imensas no tempo e no espaço, porque o corpo espiritual que modela o corpo físico e o corpo físico que representa o corpo espiritual constituem a obra de séculos numerosos, pacientemente elaborada em duas esferas diferentes da vida, a se retomarem no berço e no túmulo com a orientação dos Instrutores Divinos que supervisionam a evolução terrestre.
O veículo do espírito, além do sepulcro, no plano extrafísico ou quando reconstituído no berço, é a soma de experiências infinitamente repetidas, avançando vagarosamente da obscuridade para a luz. Nele, situamos a individualidade espiritual, que se vale das vidas menores para afirmar-se - das vidas menores que lhe prestam serviço, delas recolhendo preciosa cooperação para crescerem a seu turno, conforme os inelutáveis objetivos do progresso.
(...)
Todos os órgãos do corpo espiritual e, consequentemente, do corpo físico foram, portanto, construídos com lentidão, atendendo-se à necessidade do campo mental em seu condicionamento e exteriorização no meio terrestre.
E assim que o tato nasceu no princípio inteligente, na sua passagem pelas células nucleares em seus impulsos ameboides; que a visão principiou pela sensibilidade do plasma nos flagelados monocelulares expostos ao clarão solar; que o olfato começou nos animais aquáticos de expressão mais simples, por excitações do ambiente em que evolviam j que o gosto surgiu nas plantas, muitas delas armadas de pelos viscosos destilando sucos
digestivos, e que as primeiras sensações do sexo apareceram com as algas marinhas, providas não só de células masculinas e femininas que nadam, atraídas umas para as outras, mas também, de um esboço de epiderme sensível, que podemos definir como região secundária de simpatias genésicas.
(...)
Examinando, pois, o fenômeno da reflexão sistemática, gerando o automatismo que assinala a inteligência de todas as ações espontâneas do corpo espiritual, reconhecemos sem dificuldade que a marcha do princípio inteligente para o reino humano e que a viagem da consciência humana, para o reino angélico simbolizam a expansão multimilenar da criatura de Deus que, por força da Lei Divina, deve merecer, com o trabalho de si mesma, a
(56) XAVIER, Francisco Cândido. VIEIRA, Waldo. ANDRÉ LUIZ, Espírito. Evolução em Dois Mundos. Rio de Janeiro: FEB, Primeira Parte, Cap. IV, pp. 39-41.
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O trabalho dos milênios, construindo a consciência individual, sustenta também, logicamente, o aperfeiçoamento dos necessários instrumentos à sua manifestação, nos diferentes momentos evolutivos. Assim, as protoformas perispirituais, (57) mercê da ação espiritual superior junto aos seres em evolução, passam, gradativamente, a apresentar características e propriedades que refletem os avanços alcançados, propiciando a formação de estruturas físicas, anatômica e fisiologicamente cada vez mais aprimoradas. (58)
(57) As protoformas perispirituais mostram-se evidentes não só na escala animal como no reino vegetal. O fenômeno de transporte de plantas, por exemplo, sua desmaterialização e rematerialização, o seu próprio crescimento, a substituição das folhas, todos os fenômenos, enfim, referentes ao seu desenvolvimento e sustentação dizem da existência de um “modelo organizador”, nas palavras do Professor Guimarães ANDRADE, ‘‘orientando sucessivamente a formação da planta e promovendo a correta recolocação de cada célula em seu devido lugar." (ANDRADE, Hernani Guimarães. Psi Quântico, pp. 85-86)
(58) Pesquisas em Psicologia Animal vêm demonstrando, cada vez mais, a presença de um psiquismo mais desenvolvido não só nos primatas, cujo genoma já se aproxima do humano, como em diversas outras espécies de animais, algumas delas, convivendo de perto com o ser humano, como, por exemplo, ocorre com os cães, gatos, cavalos e elefantes.
O comportamento inteligente e afetivo desses animais, superior à mera conduta instintiva, mostra, já, a existência de uma alma animal e, consequentemente, de um perispírito animal, que lhe corresponde, em processo de evolução mais adiantada, rumo à dimensão humana.
A respeito, EMMANUEL, O mestre de sempre, reportando-se à evolução espiritual dos seres ligados já, à Terra, em estágio superior de desabrochamento consciencial, alcança-nos ensinamentos tão claros quão significativos:
Os antropoides das cavernas espalharam-se, então, aos grupos, pela superfície do globo, no curso vagaroso dos séculos, sofrendo as influências do meio e formando os pródromos das raças futuras em seus tipos diversificados; a realidade, porém, é que as entidades espirituais auxiliaram o homem do sílex, imprimindo-lhe novas expressões biológicas. Extraordinárias experiências foram realizadas pelos mensageiros do invisível. As pesquisas recentes da ciência sobre o tipo de Neanderthal, reconhecendo nele uma
espécie de homem bestializado, e outras descobertas interessantes da Paleontologia, quanto ao homem fóssil, são um atestado dos experimentos biológicos a que procederam os
prepostos de JESUS, até fixarem no ‘primata’ os característicos aproximados do homem futuro.
Os séculos correram o seu velário de experiências penosas sobre a fronte dessas criaturas de braços alongados e de pelos densos, até que um dia as hostes do invisível operaram uma definitiva transição no corpo perispiritual preexistente, dos homens primitivos, nas regiões siderais e em certos intervalos de suas reencarnações.
Surgem os primeiros selvagens de compleição melhorada, tendendo à elegância dos tempos do porvir. Uma transformação visceral verificara-se na estrutura dos antepassados
das raças humanas. (59)
(59) XAVIER, Francisco Cândido. EMMANUEL, Espírito. A Caminho da Luz. 20. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1994, Cap. II, pp. 31 -32.
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Em conclusão, compreende-se que das lições dos Espíritos Reveladores, de KARDEC e de outros mestres, desencarnados e encarnados, (60) pode-se colher, em síntese, a certeza de que quando o princípio psíquico já alcança estrutura e dinamismo avançados, na
dimensão pré-hominal e, depois, na hominal - atingida, então, a idade do pensamento definitivamente contínuo e a consolidação do perispírito -, a atuação dos Espíritos Superiores passa a ser cada vez mais ostensiva e significativa, no comando da evolução individual e social, já então subordinada também aos efeitos da Lei da Causalidade Espiritual (expressão espiritual da Lei de Causa e Efeito), os quais perduram até que o Espírito, no correr dos milênios, emancipando-se dos ciclos reencarnatórios, alcance condições de ascender a outros níveis, no domínio terrestre, ou não, rumo ao seu destino maior, que é, essencialmente, nas palavras de EMMANUEL, irmanar-se “com o Todo da
Criação, crescendo para a Unidade Cósmica - porto divino a esperar-nos sem distinção, de modo a investir-nos, um dia, na posse da celeste herança que nos é reservada ”. (61)
(60) “Todas as teorias evolucionistas no orbe terrestre caminham para a aproximação com as verdades do Espiritismo, ao abraço final com a verdade suprema. ” (XAVIER, Francisco Cândido. EMMANUEL, Espírito. O Consolador. 16. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1993, questão 41, p. 40)
(61) XAVIER, Francisco Cândido. EMMANUEL, Espírito. Semeador em Tempos Novos. São Bernardo do Campo-SP: GEEM, 1989, p. 96.
Do átomo ao anjo, (62) na Terra e fora dela, a progressão do ser constitui um processo único e ordenado, que obedece à direção espiritual, constante, onipresente e decisiva em todos os estágios de desenvolvimento. (63)
(62) Hermes TRISMEGISTO já ensinava, no antigo Egito, que a pedra se converte em planta; a planta em animal; o animal em homem, em Espírito; o Espírito, em Deus." E o ensinamento hinduísta, que remonta a milhares de anos, tem a sua versão poética da evolução: “a alma dorme na pedra, sonha na planta, agita-se no animal e desperta no homem." (Nesse diapasão, mas com alguma diferença, grifa Léon Denis: “Na planta, a inteligência dormita; no animal, sonha; só no homem acorda, conhece-se, possui-se e torna-se consciente (...)” -V. DENIS, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. 18. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1995, Ia Parte, Cap. IX, p. 123)
(63) Consigne-se que — até pela dificuldade que para alguns pode surgir, quanto ao entendimento de que rudimentos de psiquismo já são detectados no reino mineral - nem todos os autores espíritas concordam com a tese de que o princípio psíquico tem nos minerais o seu primeiro suporte evolutivo. Assim, o destacado escritor brasileiro Dr. Ary LEX (1916-2001) sustenta que “existe uma barreira intransponível entre os seres brutos (inorgânicos) e os seres vivos’’, e que um conjunto de caracteres permite distinguir os minerais dos seres vivos: forma, propriedades físico-químicas, irritabilidade, metabolismo e evolução.
Nega o ilustre autor a existência de um agente estruturador em cada átomo, entendendo que para “haver vida é preciso protoplasma”, que “o átomo, a molécula, os minerais, estão simplesmente sujeitos a leis físicas, não às leis do Espírito” e que a afinidade química nada tem com a afinidade psíquica.
A primeira manifestação do princípio inteligente, enfim, aconteceria no reino vegetal. (LEX, Ary. “Atuação do Princípio Inteligente Não Começa nos Minerais”. Jornal Espírita. São Paulo: FEESP, setembro, 1999, p. 7)
Tal posição, ao que se vê, nega a existência, nas estruturas minerais, de um psiquismo rudimentar em evolução, sustentado por leis universais (como, p. ex., as que regem a afinidade química e a atração entre os átomos e moléculas, da mesma forma que leis morais regem a afinidade espiritual e a atração entre almas) orientadas por um Princípio Ordenador e Impulsionador Geral, absolutamente presente em tudo que existe...
A Espiritualidade Superior comanda a evolução, que é essencialmente psíquica, interferindo e ordenando-a, com apoio no impulso de vida e progresso, no potencial de autotranscendência, próprio de cada ser e que o leva a crescer sempre e
ininterruptamente.