Ação Penal: 0030408-44.2012.8.12.0001
Parte Autora: Ministério Público Estadual
Acusado(s): Richard Ildivan Gomide Lima
Vítima(s): Davi Del Vale Antunes
Vistos, etc.
O acusado RICHARD ILDIVAN GOMIDE LIMA foi pronunciado no art. 121 do Código Penal e nos art. 304 e 305 da Lei 9503/97, porque no dia 31 de maio de 2012, por volta das 4h, na av. Afonso Pena, cruzamento com a av. Arquiteto Rubens Gil de Camilo, bairro Chácara Cachoeira, nesta capital, na direção do automóvel FIAT/PUNTO ELX 1.4, cor vermelha, ano/modelo 2010/2010, placas NRF 8668, agindo com dolo eventual ao assumir o risco de produzir um grave acidente, desrespeitou regas de trânsito, tendo colidido a frontal de seu veículo contra a traseira da motocicleta Yamaha/Factor YBR 125K, cor preta, ano/modelo 2010/2010, placa HTR 3571, ocupada por DAVI DEL VALE ANTUNES que, em razão da violenta colisão, sofreu ferimentos que causaram a sua morte.
Além disso, RICHARD teria deixado de prestar socorro à vítima Davi Del Vale Antunes, gravemente ferida, sendo possível fazê-lo sem risco pessoal, bem como não acionou a autoridade pública.
Após a colisão, evadiu-se do local, somente sendo encontrado pela autoridade policial em razão de seu automóvel ter apresentado problemas mecânicos decorrentes do abalroamento, eis que pretendia fugir das responsabilidades que lhe seriam atribuídas.
O Promotor de Justiça João Meneghini Girelli requereu a condenação no homicídio e nos delitos dos art. 304 e 305 do Código de Trânsito.
Os Advogados José Roberto Rodrigues da Rosa, Jakson Gomes Yamashita e Marcos Vinícius Machado de Abreu Silva, quanto ao homicídio alegaram que o acusado não assumiu o risco de matar a vítima e alternativamente, a absolvição por clemência. Nos delitos de omissão de socorro no acidente de trânsito e de fuga do local requereram a absolvição por inexistência do fato (crime impossível).
Por oportuno, registro que o acusado foi pronunciado no homicídio qualificado pelo surpresa da vítima no trânsito, todavia o TJMS entendeu de afastar a referida qualificadora da surpresa, razão pela qual está sendo julgado apenas pelo homicídio simples.
Submetido a julgamento popular na data de hoje, o Conselho de Sentença, por maioria de votos declarados, condenou RICHARD no homicídio e no delito de fuga do local do acidente, porém o absolveu no crime de omissão de socorro.
Milita a seu favor a atenuante da confissão para o delito de homicídio, mas negou o delito do art. 305 do CTB (fuga do local do acidente).
Posto isso e observando a decisão do CONSELHO DE SENTENÇA: I) absolve-se RICHARD ILDIVAN GOMIDE LIMA [brasileiro, natural de Campo Grande-MS, nascido em 18-7-1990, filho de Antônio Ildivan Pinto Lima e Geni Fernandes Gomide] com base no art. 386, inciso I do CPP, quanto ao crime de omissão
II) condena-se RICHARD ILDIVAN GOMIDE LIMA [brasileiro, natural de Campo Grande-MS, nascido em 18-7-1990, filho de Antônio Ildivan Pinto Lima e Geni Fernandes Gomide] no art. 121 com a redução do art. 65, inciso III, alínea “d” do Código
Penal e no art. 305 da Lei 9503/97.
Por oportuno, o crime de homicídio e o delito de fuga do local ocorreram num mesmo cenário, razão pela qual reclamam uma análise conjunta.
Dito isso, passo a fixar a pena, sistema trifásico (art. 68 do CP). As circunstâncias judiciais do art. 59 do CP não lhe são amplamente favoráveis.
Na primeira fase, não é portador de antecedentes, como se vê da certidão de f. 1096.
A conduta social é normal, cursando faculdade.
Já as circunstâncias do crime, in casu, recurso que dificultou a defesa da vítima, foram afastadas pelo TJMS (acórdão f. 859-71).
Todavia, a sua culpabilidade é altamente reprovável, vez que se embriagou em demasia (basta conferir os depoimentos, ateste f. 456-8, f. 459, f. 462, f. 466, f. 471, f. 507, f. 509), pois estava num festa na própria residência, de onde se deslocou para um motel, onde consumiu ainda mais bebida alcoólica (champanhe e cerveja), conforme comanda de consumo do referido motel (f. 60). Após sair do aludido motel, resolveu conduzir o veículo falando no celular e em alta da velocidade, aproximadamente 83 km/h (registro do radar, f. 53), ex vi da análise do laudo de f. 317, dos depoimentos, f. 454, f. 461, cuja a velocidade da avenida era de 50 km/h (veja laudo de f. 302-3), a qual é de intenso tráfego de pessoas e veículos,
por ser artéria de fluxo de trânsito principal desta capital, quando acabou abalroando a motocicleta que a vítima ocupava, a arremessando a 38,10 metros, tamanho foi o estrondoso impacto.
Logo, culpabilidade dessa natureza, ainda que a título de "dolo eventual", não pode ser considerado como a conduta de um réu que age com menor intensidade no trânsito.
A personalidade não pode ser considera normal, porquanto provado nos autos que possui uma conduta desrespeitosa com as pessoas, inclusive os funcionários do motel relataram agressividade e grosseria quando estava no local, aliás, a garota de programa disse que o acusado quebrou o seu celular e, mais do que isso, agrediu o seu amigo por desacerto da conta do bar do motel. Registre-se ainda que na saída do motel arrancou toda a bobina da máquina de cartão e jogou na atendente, isso é facilmente perceptível na prova do feito, f. 464, f. 465-6, f. 468, f. 470-1, f. 507-8, f. 510
As consequências do crime são típicas da espécie, ou seja, dor, sofrimento pela perda de um ente querido tanto da esposa, do filho e demais familiares (pai, mãe, irmãos, tios, etc.) como também de seus amigos, bem como cumpre consignar que a vítima também era jovem, apenas 31 (trinta e um) anos de idade.
A vítima em nada contribuiu para a prática do crime, inclusive, tinha acabado de sair do trabalho (era segurança de uma boate) e retornava para sua residência, bem como estava seguindo as regras de trânsito parada semáforo vermelho.
Diante dessas circunstâncias judiciais, fixa-se a pena-base para: I) o homicídio em 9 (nove) anos e 6 (seis) meses de reclusão;
II) a fuga do local do fato para eximir-se de sua responsabilidade (art. 305 do CTB) em 9 (nove) meses de detenção.
Reduzo 6 (seis) meses pela confissão apenas para o homicídio, visto que negou o outro delito, não sendo merecedor de redução maior, pois o fato foi presenciado por outras pessoas, inclusive gravado pela câmara do radar, razão pela qual sua confissão não foi preponderante para a identificação da autoria.
Portanto, fica condenado, em definitivo, à pena de:
I) 9 (nove) anos de reclusão no homicídio por dolo eventual no trânsito; e
II) 9 (nove) meses de detenção pela fuga do local do fato para eximir-se de sua responsabilidade (art. 305 do CTB).
In casu, incabível a soma das penas, porquanto de naturezas diversas, uma reclusão e outra detenção.
O regime de pena é o inicialmente fechado.
Condeno-o ao pagamento das custas processuais, encaminhe-se o feito à Contadoria para cálculo, intimando para pagamento no prazo de 10 dias.
Como efeito secundário da condenação, com base no inciso III, do art. 92 do CP, declaro a sua inabilitação para dirigir veículo, porque utilizado com meio para a prática de crime doloso contra a vida, salientando que na condição de embriagado, em alta velocidade, torna-se uma pessoa perigosa
no trânsito.
Assim, o réu RICHARD deverá apresentar a CNH a este juízo no prazo de 24h, caso administrativamente já não tenha sido cassada pelo DETRAN-MS, independentemente de recurso, sob pena de busca e apreensão.
Oficie-se ao DETRAN-MS, com cópia desta sentença para as providências que entender cabíveis.
Pelo fato de estar amparado por Habeas Corpus do TJMS, tem direito de continuar em liberdade até o julgamento de eventual recurso pelo referido TJMS.
Com o trânsito em julgado da sentença;
a) façam-se as comunicações necessárias (TRE-MS, II/MS, Polícia Federal, etc);
b) expeça-se mandado de prisão com validade até 5-5-2032; b) inclua-se o nome do réu no rol de culpados;
c) providencie-se a G.R. "Definitiva;" e d) arquive-se.
Sentença publicada em Plenário, saindo as partes e o acusado intimados, os quais deixam de apor sua ciência nesta sentença, assinado somente este magistrado, por se tratar de processo digital.
Registre-se oportunamente.
Sala das sessões da 2ª Vara do Tribunal do Júri de Campo Grande-MS, aos 06 de maio de 2016.
Aluizio Pereira dos Santos Juiz Presidente do Tribunal do Júri