1. Luz de presença
(Letra e música: Filipe Almeida)“Eu quero um som delicado sem ter pressa” A Luz de presença é uma releitura da canção que remata o CD “Com os pés na terra” (2013), da cantora Rita Dias. Nasceu descontraída como um samba e era uma divertida canção de protesto contra as múltiplas ameaças à perda da identidade cultural. Cinco anos depois, reencontrei-a e descobri que dentro dela havia uma canção de amor. Não mudou de tema, mas mudou de olhar. Despi-a dos acessórios e deixei-a falar. Levou-me a visitar o essencial, relembrou-me das luzes de presença que nos guiam e que nos iluminam, os ancoradouros da vida. E assim mergulhamos neste disco. Delicadamente. Sem pressa.
Eu quero um Som Delicado sem ter pressa Quero um Amor Mergulhado de cabeça
Quero um verso do Bocage sobre a mesa Quero uma Luz de Presença sempre acesa.
Quero um bocado do Carmo, da Carmem, do Solnado, Do Paulo, do Tordo atordoado
E do Zé no telhado a alucinar.
Quero a folia da Nara, do Chico e companhia Na tasca de Alfama com todos em chama De tanto que temos para dar.
Eu quero um monte De paz do Alentejo Quero a cortiça
Que espreguiça até ao Tejo
Quero toda a claridade que não vejo E troco tudo, quase tudo, por um beijo.
Quero um bocado do Carmo, da Carmem, do Solnado, Do Paulo, do Tordo atordoado
E do Zé no telhado a alucinar.
Quero a folia da Nara, do Chico e companhia Na tasca de Alfama com todos em chama De tanto que temos para dar.
Se no embaraço dessa noite acordar nua Saio para a rua
E tento nem pensar.
Fazemos troça de uma bossa na Madragoa, E a vida continua
Com tanto para dar. Eu quero um Som Delicado sem ter pressa Quero um Amor Mergulhado de cabeça.
2. Pouca terra
(Letra e música: Filipe Almeida)“Dispo camada por camada até chegar ao interior” A Pouca Terra é uma metáfora sobre as transições de vida. Conta a história de uma jovem que decide abandonar a serra onde nasceu e descer pela primeira vez até à cidade. Vai deslumbrada de comboio. Entrega-se à vida urbana. Tem altos e baixos. Acelera e desacelera, como se a viagem de comboio nunca tivesse terminado. Acorda um dia estremunhada e decide regressar à sua terra. Descobre que os lugares afinal não se abandonam, acumulam-se. Que é de dentro e que é de fora. E que em qualquer aventura o que importa não é chegar, é partir.
Vim da serra, lá do alto, Onde as noites são mais frias Ver o mar em sobressalto Ver o povo em romaria Vim da calma das searas Das carroças de passagem Ver um céu de luzes raras A pedir toda a coragem
Sou da terra, sou do campo, Sou do tanto que te adoro, De Lisboa até Monsanto Sou de dentro e sou de fora Basta um sinal
p’ra ir embora.
Sou de um tempo que não espera Planto sonhos na planície Já nem espero Primavera E floresço na velhice Deixo o campo ensolarado E o pregão à luz do dia Vou p’ró baile e bem mandado Com tristeza e alegria
Sou da terra, sou do campo, Sou do tanto que te adoro, De Lisboa até Monsanto Sou de dentro e sou de fora Basta um sinal
p’ra ir embora. Pouca terra, muita terra Lá vou eu de mala feita Sem saber o que me espera Sem saber se me endireita. Abro as portas para o mundo Fecho a luz e a janela Vou bebendo até ao fundo Pouca terra, pouca terra
Acordo na cidade estremunhada Sem luar, sem frio e sem calor
Se a vida passa num instante e é quase nada Mais vale então vivê-la com amor.
Regresso pela estrada alucinada E cumprimento cada flor Dispo camada por camada Até chegar ao interior Já não sei cantar a desfolhada Já não sei falar de amor Já não sei de quase nada Nessa luz quase gelada Onde enfim sinto calor.
3. Entrelaçados
(Letra e música: Filipe Almeida)“O que de bom há num sonho é acreditar” Entrelaçados é uma canção de amor sobre o momento irrepetível em que a nossa vida muda de sentido quando se cruza com outra. Um tempo suspenso, entre respirações. O espanto de se ver renascer. O desejo absoluto do reencontro. A Natureza como grande Mestre. E nós como aprendizes que nem sempre sabemos reconhecer os sinais mais importantes da vida.
Nasce um dia luminoso Nasce um pássaro a cantar Nasce um rio curioso Do som que há no mar. Toda a Natureza canta Só por cantar.
Nem o vento se levanta P’ra não perturbar. As abelhas fazem ninho Gaviões dormem no mel Com cuidado o porco-espinho Abraça um pardal
A girafa também dança Com o Rei Leão. Toda a Natureza mansa Em comunhão.
Só tu não entendes a dança.
Vem cá deitar o teu corpo no meu Entre nós entregar entrelaçar o céu Deitar na crista da onda feroz E adormecer
Quase sem voz. A chuva que cai do céu Volta logo a evaporar A andorinha que partiu Só pensa em voltar. Não cai folha no Outono Tudo fica no lugar.
O que de bom há num sonho É acreditar.
E se o vento no deserto Decidir então parar E o sol quente mais aberto Enfim congelar,
Muda o tom e siga a dança Não há noite sem Luar Não há rosa sem Esperança Não há vida sem Amar. Só tu não entendes a dança.
Vem cá deitar o teu corpo no meu Entre nós entregar entrelaçar o céu Deitar na crista da onda feroz E adormecer
Quase sem voz.
Vem cá deitar o teu corpo no meu Entre nós afinal não há terra nem céu. Mesmo que o sonho estremeça E percamos a voz,
4. Avesso
(Letra: Filipe Almeida | Música: Filipe Almeida e Rita Dias)
“Se o horizonte é curto, sou imensidão” O Avesso é uma canção sobre a força de quem sabe o que quer. Fala dos desencontros e da solidão que por vezes é necessária para nos descobrimos. De aceitarmos essa verdade nos outros. E relembra uma aprendizagem essencial: no avesso do que somos também existimos e podemos ser felizes. Por isso revirar a vida também é viver. Reviremos do avesso a solidão.
Se o dia pede calma Só quero paixão Se o horizonte é curto Sou imensidão
Se o vento vai p’ra Norte Sopro para o Sul Se todos pedem chuva Eu prefiro azul
Se a luz do teu olhar é um areal sem fim, Mergulho até ao fundo dentro de mim E recomeço no avesso de outra canção. Se queres o dia-a-dia
Quero anoitecer Se queres a lua cheia Quero escuridão Se queres a cama fria Só tenho prazer Se queres porque sim Eu quero porque não.
Se a vida der a volta que parece ter A cadência morna do meu coração Revirar a vida também é viver Reviremos do avesso a solidão. Se queres contra-tempo Sou tempo a perder Se queres tudo agora Quero nada em vão Que voas para a frente Sem desfalecer Eu corro para trás Até cair no chão.
Se a vida der a volta que parece ter A cadência morna do meu coração Revirar a vida também é viver Reviremos do avesso a solidão.
Se queres contra-tempo Se queres subir tão alto
Quero anoitecer que nem possas ver
Se queres a cama fria e temer o sobressalto
Quero nada em vão de cair no chão,
Se queres o dia-a-dia Vem descendo o riacho
Sou tempo a perder sem desfalecer
Se queres porque sim ver a vida cá de baixo
5. Rosalinda
(Letra e música: Fausto Bordalo Dias))“Morre o sável e o salmão, isto é civilização” A Rosalinda, de nome original Se tu fores ver o mar (Rosalinda), é uma canção emblemática do Fausto, incluída no seu disco “Madrugada dos Trapeiros”, de 1977. Uma canção à frente do seu tempo. Um alerta sobre agressões ambientais e injustiças sociais. Mais de 40 anos depois, permanece atual e é mais urgente! Juntamo-nos ao Fausto neste grito de protesto.
Rosalinda se tu fores à praia Se tu fores ver o mar Cuidado não te descaia O teu pé de catraia Em óleo sujo à beira-mar
A branca areia de ontem está cheiinha de alcatrão As dunas de vento batidas são de plástico e carvão E cheiram mal como avenidas,
Vieram para aqui fugidas a lama a putrefação As aves já voam feridas
E outras caem ao chão
Mas na verdade Rosalinda nas fábricas que ali vês O operário respira ainda envenenado a desmaiar O que mais há desta aridez
Pois os que mandam no mundo Só vivem querendo ganhar Mesmo matando aquele Que morrendo vive a trabalhar Tem cuidado!
Rosalinda se tu fores à praia Se tu fores ver o mar Cuidado não te descaia O teu pé de catraia Em óleo sujo à beira-mar
E em Ferrel lá p´ra Peniche vão fazer uma central Que para alguns é nuclear mas para muitos é mortal Os peixes hão-de vir à mão, um doente outro sem vida Não tem vida o pescador
Morre o sável e o salmão Isto é civilização Assim falou um senhor Tem cuidado!
6. Rio de sombras
(Letra e música: Filipe Almeida)“E fui cruzando as ruas como quem tropeça em Deus” O Rio de sombras é uma fotografia do Rio de Janeiro, com as suas luzes e as suas sombras. Parece um passeio à superfície da cidade, mas é uma viagem por dentro das suas entranhas. Tropeça em Deus e cai numa aguarela de paixões. Ouve o grito da favela e a poesia de Drummond. Espera por novos sons. Cantado em dueto com o carioca da gema Pedro Paulo Malta e com um remate musical a evocar o inconfundível João Gilberto. Tudo isto embrulhado num título roubado a um livro fascinante do nosso António Arnaut. Viver parece até bom… bim bom.
A tarde cai na esquina da cidade em contramão A noite traz a Lapa e o luar
A saia da menina rodopia sem razão E o choro é de alegria pelo ar De céu feito jardim
Noel, João, Jobim
E assim floresce a vida à beira-mar. O dia recomeça numa banca de jornal Na praia do Leblon a meditar
Um livro na Travessa e um encontro pontual Na Toca ouvir Vinícius a cantar
Que o “Rio se perdeu” Sobrámos tu e eu
Cantemos sem vergonha de cantar.
E fui cruzando as ruas como quem tropeça em Deus E cai numa aguarela de paixões.
O grito da favela e a poesia de Drummond Viver parece até bom.
Na curva da montanha um silêncio redentor No centro do Jardim um sabiá
Na rua a força estranha de um gatilho sem pudor Na pressa de atingir o que não há.
À tarde um bom licor, Colombo Arpoador,
Às voltas na Lagoa sem pensar. E a vida continua na cadência habitual De tantas ilusões fundamentais
Assim como se fosse para sempre Carnaval E todas as paixões continentais.
Luz e cor, Fogo e dor,
De sonhos impossíveis, mas reais.
E fui cruzando as ruas como quem tropeça em Deus E cai numa aguarela de paixões.
O grito da favela e a poesia de Drummond Ali sentado à espera de outros sons. E como se a Baía flutuasse intemporal Descubro outra cidade noutro Tom: Rio, pedra, espaço, céu com traço musical. Viver parece até bom.
7. Sassetti bom tom
(Letra e música: Filipe Almeida)“E um tempo novo virá de belos sons naturais” O Sassetti bom tom foi escrito cinco dias depois da morte do Bernardo Sassetti. Mergulhando por dentro do seu olhar, inspirado pela sua personalidade e procurando compreender a tragédia, a canção fala da entrada e da saída da vida, do instantâneo daquela morte inesperada. Entra e sai da personagem, sonâmbula. Olha de dentro, olha de fora. Zanga-se com Deus. Mas promete uma nova manhã com belos sons naturais. Nas suas contradições, paixões e talentos, ele era tudo o que há em nós. Obrigado, Bernardo.
Pela fresta aberta da muralha interior Espreito a luz do dia amanhecer.
Oiço ao longe a festa da batalha e do tambor Corro até à margem para ver.
Entro pela vida de corrida nas paixões Sinto cada folha escurecer.
Ventos e monções, Fados e prisões. Não há tempo a perder.
Vamos brindar Vamos correr mais E acreditar em vão
Mesmo que a tarde caia no mar E o céu no chão.
Corro pela estrada enfeitiçada pelo Sol Digo que te amo sem pudor.
Alice parada encantada num bemol Toco em cada nota com amor.
O dia amanhece e há sinfonia de pardais Agarrando a vida com a voz:
Sassetti bom tom
Ça c’est bom demais E é tudo o que há em nós.
Vamos brindar, Vamos correr mais E acreditar em vão
Mesmo que a tarde caia no mar E o céu no chão.
Mas se a coragem faltar E velha esperança ceder
Uma canção antiga estremece no peito a nascer E um tempo novo virá
De belos sons naturais
E trará só as promessas que nunca são vãs nem demais. Uma paisagem lunar,
Uma formiga no chão
E uma cigarra a cantar em vão. Se a neve cai
Vamos sair nus E mergulhar sem ver. Troquemos todos os sonhos
Por tudo o que somos e que ainda vier, Mesmo se Deus não quiser,
8. Tatuagem
(Letra e música: Chico Buarque)“Quero ficar no teu corpo” A Tatuagem, do Chico Buarque, entrou neste disco por direito próprio. Visceral e delicada.
Quero ficar no teu corpo feito tatuagem Que é pra te dar coragem
Pra seguir viagem Quando a noite vem
E também pra me perpetuar em tua escrava Que você pega, esfrega, nega
Mas não lava
Quero brincar no teu corpo feito bailarina Que logo se alucina
Salta e te ilumina Quando a noite vem
E nos músculos exaustos do teu braço Repousar frouxa, murcha, farta Morta de cansaço
Quero pesar feito cruz nas tuas costas Que te retalha em postas
Mas no fundo gostas Quando a noite vem
Quero ser a cicatriz risonha e corrosiva Marcada a frio, a ferro e fogo
Em carne viva Corações de mãe
Arpões, sereias e serpentes Que te rabiscam o corpo todo Mas não sentes
9. Moda do Porto
(Letra e música: Filipe Almeida)“Tudo parece um feitiço e o mundo ainda pode mudar” A Moda do Porto é uma visita à cidade e às pessoas do Porto com olhar de turista, por isso mais imaginada do que real. Um turista que sobe rua acima rua abaixo tentando confundir-se com o povo, procurando entender aquelas pessoas e aquele lugar tão singulares. Da calmaria matinal em que desperta a canção até à agitação frenética apaixonada com que termina, o retrato de um povo que abraça porque sim, sem dúvidas nem pudores. Um povo que diz mais o que sente do que o que pensa. Uma cidade e uma canção à flor da pele.
Quando a cidade amanhece E há poesia no ar
Por dentro um sonho estremece E Gaia até parece
Uma onda sem mar. Encosta suspensa no tempo Quase a transbordar De becos, vielas de espanto, Da Foz, do castiço do ar. No centro-chão uma praça, No coração um calor E o dia nasce com graça E em cada janela uma flor E o povo do cais da ribeira Pulsa na veia a todo o vapor Num fogo sem eira nem beira Que mata e que morre de amor.
Sobe rua acima, rua abaixo Faz de conta que até acho Que nasceste no Bolhão.
Não te importes se o tempo é de chuva ou não. E naquela tonta correria
Faz do vinho alegria E das tripas coração.
A vida é bem melhor com o S. João. Abraça aperta à Porto
com paixão.
Nos braços de uma peixeira Nascem cantigas de amor
E até na Cantareira o Chico Fininho Ainda é o maior.
Com lampiões apagados E pés molhados à beira-mar E um sonho dentro engasgado Pronto a gritar.
Com velas no horizonte E o tempo quase a parar Um rasgo no meio dos montes E o Porto quase a chegar Empresta um sorriso antigo Põe um vestido e a saia a rodar Tudo parece um feitiço E o mundo ainda pode mudar.
Abraça aperta à Porto Agarra acorda vivo ou morto Tudo agora grita agita com razão. Atira atarda acorda torto Agarra agora vivo ou morto Abraça aperta à Porto Com paixão
10. Liberdade
(Letra e música: Filipe Almeida)“Se a Liberdade é um calor que a gente sente…” A Liberdade é a síntese das canções. Simples e direta, sem desvios. É a descoberta de que a liberdade é um calor interior que nos empurra para uma existência mais verdadeira. É a decisão de ir em frente e de seguir o coração. A certeza de que essa é a única forma de ser livre. É aprender a gostar de gostar.
Ai que saudade Do calor da minha terra Do cheirinho lá da serra Quando a chuva cai no chão
Das margaridas espalhadas no caminho E do cheiro a rosmaninho
E do vinho feito à mão. Ai que vontade De voltar à minha gente Largar tudo de repente Mandar tudo p’ró Japão.
Se a liberdade é um calor que a gente sente Só nos resta ir em frente
Devorar cada paixão.
Largo a cidade, largo a vida indecente, Amanhã tudo é diferente
11. Postal dos Correios
(Letra: João Monge | Música: João Gil)“Mas falemos de coisas bem melhores” O Postal dos Correios foi originalmente gravado pela banda Rio Grande, em 1996, que juntou os músicos consagrados Tim, Rui Veloso, João Gil, Jorge Palma e Vitorino. Mais de 25 anos depois, já ninguém escreve postais, mas o rapaz ainda estuda nos computadores e continua a ser um emprego com saída. Apesar da idade, este postal perdura como bela ilustração de um diálogo entre o passado e o futuro, um a puxar para dentro, o outro a empurrar para fora. Uma carta de saudade e de esperança. A mesma história, o mesmo diálogo, a mesma personagem da Pouca Terra.
Querida mãe, querido pai, então que tal? Nós andamos do jeito que Deus quer Entre os dias que passam menos mal Lá vem um que nos dá mais que fazer Mas falemos de coisas bem melhores A Laurinda faz vestidos por medida O rapaz estuda nos computadores Dizem que é um emprego com saída Cá chegou direitinha a encomenda Pelo 'expresso' que parou na Piedade Pão de trigo e linguiça pra merenda Sempre dá para enganar a saudade Espero que não demorem a mandar Novidades na volta do correio A ribeira corre bem ou vai secar? Como estão as oliveiras de “candeio”? Já não tenho mais assunto pra escrever Cumprimentos ao nosso pessoal Um abraço deste que tanto vos quer Sou capaz de ir aí pelo Natal
12. Valsinha II
(Letra e música: Filipe Almeida)“Os teus beijos já são roucos” A Valsinha II imagina como seria, 20 anos depois, a relação do casal inventado por Vinícius de Moraes e Chico Buarque na sua Valsinha, apresentada no disco “Construção”, em 1971. Há rugas, há cansaços, há traições, há gritos, mas também há o desesperado desejo de que o tempo não passe e a certeza de que só no colo um do outro, apesar de tudo, se reconhecem e finalmente sempre poisam. Uma canção de semblante triste, mas com um sinal de esperança que surge discreto na última palavra e na última nota.
Quando o dia amanheceu
E a luz do Sol bateu como era habitual No meu rosto amarrotado
Com sabor a fado E rugas de sal,
Disseste que o meu vestido Tinha envelhecido Já não era igual.
Conta-me histórias Faz-me sonhar Diz que o nosso tempo É lento a passar
Que até parece que vai parar. Quando chegas diferente Com um jeito menos quente De me abraçar
Finjo que ainda tens encanto P’ra teu grande espanto Nem quero falar. E no ouvido de um amigo Confesso tudo
O que não sei ousar. Conta-me histórias Faz-me sonhar Diz que o nosso tempo É lento a passar
Que até parece que vai parar. Os teus beijos já são roucos Os teus gritos loucos São todos iguais. E até a vizinhança Perdeu toda a esperança Já nem ouve mais. Dizes que eu perdi a graça Saio para a praça E não volto mais.
Conta-me histórias Faz-me sonhar Diz que o nosso tempo É lento a passar
Que até parece que vai parar. Que até parece que vai voar. Mas é no meu colo que vens poisar.
13. Em cada palavra
(Letra: Filipe Almeida | Música: Filipe Almeida e Rodrigo Martins)
“E a mão fugidia, firme em sintonia, na folha vazia aprende a voar” Em cada palavra é um tributo à palavra, aos poetas e à poesia. Desde a tensão da criação, misteriosa e fugaz, até à calmaria da obra terminada, perene e com vida própria. Uma canção que reconhece a ventania de um verso que muda tudo de lugar quando passa por dentro de nós. Nela interferem, a representar todos, fragmentos de Fernando Pessoa, José Fanha, Ary dos Santos, Natália Correia. E Miguel Torga, que nunca é demais. Uma canção que surpreende, em flagrante convívio, artistas que já morreram. Ou que nunca morrerão.
Em cada palavra nasce um sentimento Que ninguém repara
Livre como o vento.
Em cada poema foge um coração Que se perde no ar
Que se espalha no chão.
Nesta madrugada, lua amordaçada, Tentação parada à beira do sim. Se a voz proibisse,
Mas o amor mandasse,
Se a paixão calasse e chegasse ao fim, Toda a nostalgia era de alegria E a palavra fria aquecia em mim.
Quando o mar acalma, Quando o vento pára, Quando o barco chega ao cais, Versos de Pessoa
Olhos de Malhoa
E Torga, que nunca é demais. Eça, voz concreta,
Sofia poeta
Com Vinícius de Moraes, Régio protestante, Natália brilhante. Todos em flagrante Como vendavais.
Parto agora com destino ao mar inquieto das missões quotidianas
E aqui ao leme sou mais do que eu. (Fernando Pessoa)
Sou a festa inacabada, quase ausente.
Sou a briga, a luta antiga, renovada, ainda urgente. (José Fanha)
Serei tudo o que disserem, Por inveja ou negação.
Poeta castrado, não! (José Carlos Ary dos Santos)
Creio nos anjos que andam pelo mundo (Natália Correia)
E canto em legítima defesa.
Em cada poeta preso em movimento Há palavra inquieta
Solta em contra tempo. Em cada poema sem ter direção Há um verso que foge
Que prende e diz “não”.
E uma voz sombria numa noite fria Como por magia acorda a cantar. E a mão fugidia
Firme em sintonia
Chegam consoantes, verbos ofegantes, Os plurais errantes e o singular. Chega a poesia, prosa em harmonia, Que por teimosia nos faz sonhar. Em cada palavra tudo se refaz: Pode haver inferno, pode haver silêncio
14. Vamos lá saindo
(moda alentejana)“Por esses campos fora…” Vamos lá saindo é uma moda alentejana de tradição oral. Ousando um arranjo instrumental delicado e intimista, do cante fez-se canção. E com a bênção de um grupo de cantadores de Beja, emprestaram estes homens bons a sua verdade a esta última transgressão musical. E lá encerrámos nós o disco com a sensação de que estávamos finalmente prontos para começar. Fomos saindo porque o dia já vinha nascendo…
Ó amor amor Ó amor às vezes Os dias pequenos Me parecem meses
Vamos lá saindo Por esses campos fora Que a manhã vem vindo Dos lados de aurora Algum dia eu era Agora já não Da tua roseira O melhor botão
Vamos lá saindo Por esses campos fora Que a manhã vem vindo Dos lados de aurora Anda cá para aqui Não chores jamais Que eu ainda aqui estou Para ouvir teus ais
Vamos lá saindo Por esses campos fora Que a manhã vem vindo Dos lados de aurora Dos lados de aurora A manhã vem vindo Por esses campos fora Vamos lá saindo Dos lados de aurora A manhã vem vindo Por esses campos fora Vamos lá saindo