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Decifra-me ou devoro-te: um olhar sobre o adolescente em conflito com a lei

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Academic year: 2021

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Maria Angela Medeiros VILELA Orientadora: Sônia Carneiro PROTO 3 Resumo: Este artigo apresenta resultados de uma pesquisa qualitativa, que aborda a busca de identidade social

dos adolescentes em conflito com a lei. Procura refletir sobre as mobilizações ocorridas nos adolescentes em cumprimento de medida privativa de liberdade. E finalmente, por meio do discurso dos adolescentes, analisa suas expectativas e projetos futuros junto à família e sociedade.

Palavras-chave: Adolescente. Identidade social. Família. Lei.

Introdução

O tema foi escolhido após reflexões sobre a busca da identidade dos adolescentes em conflito com a lei, durante a experiência de estágio na Vara da Infância e Juventude de Pernambuco. Neste estudo, buscamos considerar os fenômenos da atualidade como o aumento da criminalidade juvenil, os movimentos do campo do direito que atuam para a proteção dos direitos dos mesmos (assegurados pelo Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA) e principalmente a participação da família e sociedade em geral na construção da identidade do adolescente.

Embora a adolescência tenha conceitos diversificados na Psicologia, este estudo propôs um olhar sobre a perspectiva teórica da Psicanálise, em uma contextualização sócio-histórica. A Psicanálise, mediante a decadência da família e as evidências de mudanças históricas, surgiu com novos sentidos nas funções e papéis sociais. Os efeitos de tal evidência são percebidos na família, principalmente pelo fato de o homem moderno vir abdicando de todo sistema de crenças e valores, buscando, sobretudo, a realização do desejo (ROUDINESCO, 2003).

Partindo deste panorama, esse artigo apresenta o desenvolvimento teórico e os resultados da pesquisa de campo que teve como objetivo geral abordar contextualmente a busca de inscrição social dos adolescentes em conflito com a lei. Bem como identificar fatores relevantes na dinâmica familiar e as mobilizações ocorridas nos adolescentes em cumprimento de medida privativa.

1 Graduanda de Psicologia | FAFIRE

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Graduanda de Psicologia | FAFIRE 3 Professora do Curso de Psicologia | FAFIRE

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2 A relevância deste trabalho se ancora na possibilidade de associação entre busca de inscrição social por parte do adolescente e o ato infracional (conduta descrita como crime ou contravenção penal, quando praticada por criança ou por adolescente artigo 103, Lei 8069/90). Essa inscrição vem permeada dos resquícios de um período de transição sócio-histórica com mudanças da família e sociedade em geral.

Ao refletirmos sobre o que busca um adolescente que comete o ato infracional, podemos ter diversas respostas em intrigantes circunstâncias, mas ao visitar a literatura temática observamos que há uma concordância entre autores sobre esse adolescente. Os autores acreditam que em certo período de sua vida os adolescentes infratores buscaram no delito um modo de reconhecimento, de pertencimento, de obtenção de algo. A autora OLIVEIRA (2001, p. 29) aponta para esta visão:

O que queres dizer com isto? Esta poderia ser a pergunta básica diante do jovem infrator, quando se tem a Psicanálise como ponto de referência. Em primeiro lugar, parece inquestionável a importância de uma escuta clínica da conduta delitiva uma vez que aí sempre se fazem presentes motivações conscientes e inconscientes. Para Winnicott (2005), existe uma relação direta entre a tendência antissocial e a privação durante a infância do indivíduo.

O fato de existir um elemento positivo nos atos anti-sociais pode realmente ajudar na consideração do elemento anti-social, que é concreto em alguns adolescentes, e potencial em quase todos. Esse elemento positivo pertence à história pessoal total do indivíduo anti-social; e, quando e onde a atuação é fortemente compulsiva, relaciona-se com uma decepção ambiental na experiência particular do indivíduo. Tal como no furto existe (se levarmos em conta o inconsciente) um momento de esperança de se retomar, por sobre o hiato, uma reivindicação legítima endereçada a um dos pais, também na violência há uma tentativa para reativar um domínio firme, o qual, na história do indivíduo, se perdeu num estágio de dependência infantil (WINNICOTT, 2005, p. 178).

Adverso ao senso comum, estes adolescentes estão inseridos em um núcleo familiar em que os membros encontram dificuldades para assumir papéis e se colocarem de modo satisfatório no cenário social. As mudanças na família provocam transformações em vários âmbitos da sociedade e são termômetros para pesquisas científicas, possibilitando programas de intervenções junto às políticas e ao poder público.

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Transformações sócio-históricas: família, infância e adolescência

A fim de contextualizar os conceitos de família e adolescência, nos detemos primeiramente à família medieval, que se caracterizava por certa ausência de afetividade entre as crianças e seus pais. A criança, após ser desmamada, passava a participar da vida dos adultos, não havendo lugar para privacidade, quase tudo era público. A função da família era apenas a de assegurar a transmissão da vida, do nome e dos bens materiais, diferentemente do séc. XV, em que as crianças eram conservadas em casa até sete ou nove anos e posteriormente enviadas para as escolas ou para a casa de outras pessoas, onde permaneciam até os 14 ou 18 anos (ARIÈS, 1981).

As crianças tinham como finalidade principal aprender a servir, o que não significava apenas exercer um ofício, mas uma educação para a vida, não existindo nenhum tipo de segregação. Ainda no Séc. XV, os estudos começam ir além do sacerdotal, a escola passa a exigir uma aproximação da família, que então se concentrou em torno da criança. Nestes momentos históricos muitos ainda defendiam a eficácia de uma educação em casa (ARIÈS, 1978).

A família e a escola eram os responsáveis pela saída da criança para o mundo adulto, então a escola tornava-se uma preocupação, surgindo assim os internatos e a boa preparação moral. Em contradição com a Idade Média, as crianças são mais valorizadas e a vida afetiva entre filhos fica em evidência. Em suma, a família moderna destaca-se da família do século XVII no que se refere ao lugar que os filhos ocupam como centro de atenções de seus pais (ARIÈS, 1978).

De acordo com Freitas (2002, p. 34): “A família moderna passa a deslocar parte do seu tempo para a vida privada, a qualidade das relações familiares acentua-se nos cuidados com processos maternos infantis, com escolaridade, adolescência, fenômenos psicológicos e sexo”.

Assim, a adolescência passa a existir e os fenômenos psicológicos se configuram nesta construção.

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Adolescência e psicanálise

Existem várias definições para a adolescência. Um dos conceitos que se consolidou no final do século XIX (bastante recente na história social do Ocidente) é sem dúvida o que a define enquanto processo relativo a um período particular na vida de um indivíduo, situado entre a infância e a idade adulta. Construído historicamente na modernidade, que adquire vários desdobramentos até o momento atual (ARIÈS, 1978).

Na contemporaneidade a adolescência torna-se um ideal cultural, que todos desejam alcançar e nele permanecer eternamente, como apresenta Calligaris (2000). A adolescência ainda hoje é frequentemente entendida como um momento de desajuste e revolta perante os valores instituídos, o que, obviamente, está em sintonia com o ideal cultural que ela representa e veicula. Devemos notar, porém, que se trata de uma aparente rebeldia, a qual, no entanto, não faz mais do que reproduzir a lógica da sociedade de consumo vigente, regida pela lógica do prazer individual absoluto e da satisfação imediata, onde não há lugar para a castração ou para a falta, caminho psicanalítico nesta temática.

A Psicanálise, ao longo do século XX, ao transitar pelas mudanças sociais e da família (tema central o Complexo de Édipo), foi vista pelos libertários como salvadora da família patriarcal, pelos conservadores como um projeto de destruição da família e pelo Estado e psicanalistas como um modelo psicológico capaz de restaurar uma ordem familiar, onde as diferenças sexuais seriam normatizadoras (ROUDINESCO, 2003).

Tendo em vista a teoria freudiana do social e a importância atribuída ao ideal na sustentação do laço social através das identificações (Freud [1921]1976), a infância impõe ao sujeito um trabalho intensivo de elaboração do laço social a partir das referências simbólicas transmitidas pela cultura e representadas pelos ideais. Podemos observar que o adolescente é particularmente afetado pelos impasses relativos a essa transmissão.

Diante deste pressuposto, seguem algumas definições do adolescente e da adolescência por alguns autores: Erickson (1971) menciona como tarefa principal da adolescência. O estabelecimento de uma identidade, onde o modo de ser resulta da interação final das identificações da infância com as atuais. Já para Mauricio Knobel (1986), o adolescente diante de várias mudanças físicas e psíquicas apresenta algumas dificuldades que pode resultar na “Síndrome da adolescência normal”, que para ele significa nessa fase a ausência de inquietação ou do chamado turbilhão.

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5 Arminda Aberastury (1986) define que a adolescência tem como função principal a elaboração de três lutos fundamentais: o luto pelo corpo infantil, pelos pais da infância e o luto pelo papel e identidade infantil. Enquanto Blos (1971-1981) acredita que é a independência frente aos objetos infantis agora interiorizados. As mudanças são produzidas através de processos regressivos na adolescência, condição obrigatória para o desenvolvimento e não apenas como modo de repetir a dissolução do complexo de Édipo. Blos divide o desenvolvimento da adolescência em seis subfases: latência, pré-adolescência, adolescência inicial, adolescência propriamente dita, adolescência tardia e pós-adolescência (BLOS, 1971).

Rassial (2000) acredita que os adolescentes são afetados pelo sintoma social, supondo que o declínio da função paterna, trabalhado, sobretudo enquanto pulverização do simbólico e dos ideais sociais, segue tornando difícil a operação do adolescente e exigindo, ao mesmo tempo, que essa operação ocorra cada vez mais precocemente.

O jovem perde a cada momento sua condição infantil de relativa dependência e a submissão aos desejos dos pais, originando instabilidade das próprias transformações emocionais pelas quais transita. Se antes era visto como criança, agora tem a expectativa social de assumir mais responsabilidades, esperando de si um desempenho avançado, ficando suas ações discrepantes comparado ao que idealiza de si. Pode-se dizer que é a perda da identidade infantil para a aquisição das funções adultas que cria uma desarmonia interna (LEVISKY, 1998).

Identidades e conflitos com a lei

A adolescência tem como característica um processo psicológico de constituir um lugar e, principalmente, uma identidade. Assim, suas identificações podem extrapolar o círculo familiar seguindo as referências sociais amplas. Diversos autores compartilham desse ponto de vista (CALLIGARIS, 2000; RASSIAL, 2000; WINNICOTT, 2005; LAPLANCHE& PONTALIS, 2004; ZAPPE 2001).

Destacamos o conceito de identidade trazido por ZAPPE (2001) que a denomina como resultados de complexos mecanismos identificatórios ao qual o sujeito se constituirá. Laplanche & Pontalis (2004, p. 226) destaca a identidade como um processo psíquico pelo qual uma pessoa assimila um aspecto, uma propriedade, um atributo de outra e

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6 se total ou parcialmente a partir deste modelo. “A personalidade constitui-se e se diferencia por meio de uma série de identificações”. ZAPPE (2001) enfatiza a identidade e questiona qual referência os jovens encontram em seu meio para constituí-la:

Na adolescência, o processo de construção da identidade será caracterizado pela busca de autonomia (distanciando o jovem do lugar infantil de dependência dos pais), e de reconhecimento (processo que culmina com a conquista de um lugar social). Em busca de autonomia e reconhecimento social, quais as referências que o jovem encontra nos outros de seu contexto para se identificar e construir sua identidade? (p. 11)

Na busca de identidade, o adolescente vai de encontro a um lugar em que se sente seguro e estimado. Procura as identificações em massa, em que todos se identificam com cada um. As atuações em grupo, que trazem a característica de oposição aos pais, podem ser úteis para resolver muito dos conflitos, neste caso, a similaridade acontece com a escolha do líder ao qual se submeterá, promovendo, assim, as identificações com os pais que exercem um papel bastante ativo na vida dos filhos. O adolescente, dentro de um delimitado grupo, poderá experimentar ser o próprio líder e desempenhar o papel de poder do pai e da mãe (ABERASTURY; KNOBEL, 1981).

Nessa perspectiva, Carter e MCgoldrick (1995) acrescentam que a acelerada formação da identidade ocasiona confusão, tanto para o adolescente quanto para sua família. Essa fase impulsiona os adolescentes aos questionamentos e ao desafio das normas e das leis sociais, pois buscam mudanças no ambiente utilizando-se de discordâncias, da defesa intensa de ideais e pensamentos, podendo chegar à agressão.

As condutas agressivas podem ser condutas experimentadas, no entanto, a criminalidade entre os adolescentes interfere na família e sociedade em geral, deixando de ser apenas um momento de transformação pessoal (BARROS, 2003).

Esses riscos nos remetem à origem da denominação “adolescente em conflito com a lei”, que é permeada de riscos socais. Já no séc. XIX, estes adolescentes chamados menores abandonados e delinquentes surgiam dos guetos, locais de ação direta da polícia. Os adolescentes eram levados presos e aguardavam para o desfecho da apreensão, que poderia ser o retorno às casas de internações, às ruas ou aos seus responsáveis. Desde essa época, ser menor abandonado era um rito de passagem para se tornar um menor delinquente, embora poucos chegassem ao conflito com a lei propriamente dito, muitas vezes eram

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7 qualificados pela localidade em que residiam e pelo convívio com pessoas denominadas desordeiras (BANDERA, 2013).

Considerava-se o adolescente infrator como um problema sociológico, impossibilitando, assim, à justiça, atuar na transgressão real da lei. Atualmente, procura-se responsabilizar o adolescente por seu delito e protegê-lo, através do princípio da proteção integral, o qual é norteado pelo Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA (Lei 8069/90), que dispõe em seu artigo 1º: “Art. 1º Esta Lei dispõe sobre a proteção integral à criança e ao adolescente”. A redação Constitucional do ECA no artigo 227 ressalta:

Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão (Redação dada Pela Emenda Constitucional nº 65, de 2010).

A sociedade de consumo consolida-se com violentos modos de construção que potencializa o risco social associado ao discurso de poder. O risco social é hoje analisado no que diz respeito à precarização das relações trabalhistas, aumento do desemprego e ineficiência das políticas públicas que expõem esse sujeito à violação de direitos. Já o poder no discurso social é mantido e produz ordem, assim se apresenta o adolescente ao tentar colocar ordem, produzindo sentido, anarquia sob a forma doce da ecologia ou dura do terrorismo, um sintoma social da adolescência (RASSIAL 1980).

O ato infracional agrega um conjunto de fatores que passam pela estrutura e pelo funcionamento de como a sociedade está organizada. Muitas vezes configura-se como uma resposta violenta aos mecanismos repressivos, desiguais e opressores acionados por uma sociedade também violenta (SILVA, 2005, p. 150).

Após abordar contextualmente o tema, especificaremos os meios e resultados deste estudo sobre os adolescentes.

Metodologia

Para este estudo foi desenvolvida uma pesquisa de campo no Centro de Atendimento Socioeducativo - CASE em Jaboatão dos Guararapes/PE. Local escolhido por contemplar a amostra necessária para a pesquisa. A concepção de sujeito e orientação teórica do projeto de pesquisa partiu do diálogo com a Psicanálise e com teóricos/as dos estudos da família e

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8 adolescentes em conflito com a lei. A pesquisa possui um caráter qualitativo (GONZÁLEZ REY, 1999; OZELLA, 2003), apesar dos parâmetros quantitativos na determinação da amostra.

Foram tomados como amostra 10 adolescentes internos em cumprimento de medida socioeducativa, do sexo masculino, com idade entre 12 e 17 anos. Como instrumento da pesquisa, utilizamos entrevista semiestruturada com caráter semipadronizado, pois, partiu-se da premissa de que os sujeitos entrevistados expressam partiu-seus pontos de vista mais facilmente em situações onde exista confiança e uma relação de flexibilidade entrevistador-entrevistado.

Análise dos resultados

Para Minayo (2001, p. 74), a análise de conteúdo é “compreendida muito mais como um conjunto de técnicas”. Na visão da autora, constitui-se na análise de informações sobre o comportamento humano, possibilitando uma aplicação bastante variada, e tem duas funções: verificação de hipóteses e/ou questões e descoberta do que está por trás dos conteúdos manifestos. Tais funções podem ser complementares, com aplicação tanto em pesquisas qualitativas como quantitativas.

Os dados obtidos nas entrevistas foram separados em quatro categorias: a) Dinâmica familiar do adolescente; b) Mobilizações Ocorridas após a apreensão; c) Expectativas e Projetos Futuros; d) Inscrição Social. Os temas foram assim distribuídos, idealizando resultados sobre os fatores envolvidos na construção da identidade do adolescente e a prática infracional.

a) Dinâmica familiar do adolescente

Sobre o convívio familiar, os entrevistados relataram a inexistência de convívio com os genitores biológicos, sendo esta relação permeada por perdas, remetendo-se a morte física dos pais ou ausência das figuras parentais no exercício da função paterna e materna. Observou-se ausência de uma parcela significativa das famílias no processo sócio-educativo dos jovens entrevistados. E no que tange à renda familiar, as mães aparecem em evidência com os trabalhos informais.

As mudanças que os adolescentes esperam encontrar ao retornar para o lar são de ordem afetiva. A expectativa quanto ao encontro com a figura paterna é expressa no

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9 discurso do adolescente: “Quando eu tava na rua, que eu vendia pedra, ele (pai) nem ligava muito pra mim. Aí ele já mudou pro meu lado, mais agora voltou tudo ao normal” (sic).

Outro adolescente menciona que, quando o pai soube que ele estava internado, voltou de SP: "Quando ele soube que eu tava preso ele voltou" (sic).

As respostas que compreendem as mudanças na família após a internação se concentram em expectativas de bom comportamento e mudanças socioeconômicas. Os genitores aparecem como aqueles a quem se pretende agradar. As mudanças são interpretadas não só como de cunho afetivo familiar, mas também de valorização da própria liberdade. Deixar o uso da droga é visto como um sinal essencial de mudança tanto para a família, quanto para o adolescente.

A dinâmica familiar configura-se na ausência de rotinas específicas (trabalho/ escola/estudos/lazer) e no acentuado desequilíbrio na convivência entre os entes. A família nuclear é desenvolvida com recortes, seja pela afinidade ou pela falta de alguém que exerça a função. Já com os amigos da rua existe uma afinidade na rotina com um movimento de inscrição grupal, ou seja, identidades.

As questões de entrada no mercado de trabalho após a internação foram expressas como expectativas dos familiares e dos adolescentes. Indicaram incertezas quanto às oportunidades de trabalhar e até de estudar, e tensão quanto ao estigma e à falta de projeto futuro.

No que tange às afinidades familiares, destacaram-se respostas de jovens que apesar de não terem o pai biológico vivo, expressaram a afinidade da função paterna por este pai falecido e também pelo padrasto.

Um dos entrevistados se colocava no papel de alguém que devia proteger sua mãe, pois ela não tinha marido. A afinidade com os irmãos nessa idade é marcada por uma competição e espelho.

O jovem para se autoafirmar, agride e desvaloriza seus pais. Isso não significa que não goste mais deles, pelo contrário, necessita do carinho e interesse dos pais por meio do sentimento de confiança e da supervisão a distância que eles exercem. O fenômeno de agressividade que emprega contra sociedade e família são carregados do papel de controle exercido pelos pais. Mostrando nestes momentos que estão ávidos por novos modelos de identificações (LEVISKY, 1998).

Dentro da rotina vivenciada pelos jovens entrevistados antes do ato infracional cometido, destacou-se a prática de jogar bola na rua como atividade preferida.

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10 O uso de drogas é fator dominante em grupos de adolescentes. Por estarem junto a bocas de fumo, seja comprando ou traficando, são pegos pela polícia e dados como infratores. A maconha é a droga mais usada pelos adolescentes entrevistados e, infelizmente, logo que começam a fazer uso, deixam de frequentar a escola e circulam mais pelo âmbito de outras drogas.

Quanto às amizades na adolescência, observou-se no estudo a "pressão dos pares" que é um fator preponderante na formação de grupos, constituindo um elemento na formação identitária. Os pais geralmente se atemorizam diante da possibilidade dos amigos levarem o filho para o mau caminho. Segundo Papalia e Olds (2000), as influências dos pares acontecem, mas em geral os adolescentes não caem simplesmente num grupo de amigos e sim escolhem amizades que se pareçam com eles, sendo assim, ambos sofrem influências e tornam-se mais parecidos. Os grupos de adolescentes geralmente compartilham dos mesmos valores, atitudes e comportamentos.

b) Mobilizações ocorridas após apreensão

Neste tópico, analisamos mudanças e aspectos individuais gerados a partir do cumprimento da medida socioeducativa de internação na instituição CASE (Centro de Atendimento Socioeducativo).

As atividades desenvolvidas dentro do CASE foram relatadas pelos adolescentes com espontaneidade. As de maiores evidências foram robótica, futebol, capoeira e participações externas em passeios, como na Jornada Mundial da Juventude. Volpi (1997) ressalta a questão da “incompletude institucional” usa este termo para considerar que a instituição não é o único contato de comunicação com todos os setores da comunidade. Devem-se incluir os recursos como saúde, educação, trabalho e profissionalização da rede Estadual e Federal de Desenvolvimento Social.

Sobre as mudanças ocorridas, os adolescentes explicitam a valorização da liberdade. Relata que a agitação que declaravam sentir antes da apreensão agora estava amenizada, falam da tristeza e mudanças que não sabem qualificar, ao mesmo tempo mencionam a necessidade de transformação para um novo rumo. Todos se referem à mudança de comportamento como um fator de positivo na relação familiar. Demonstram estarem atentos às mudanças que ocorrem em suas residências com seus familiares enquanto estão no CASE, por exemplo: quem está trabalhando e o cotidiano geral.

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11 “O adolescente é um homem livre exigindo sua liberdade que ainda não conhece e o seu direito ao livre arbítrio e ninguém lhe pode negar. Isso é rebelião construtiva” (Levisky 2002, p. 46). O autor ainda trata como identificação o lidar do jovem com o sentimento de liberdade.

c) Expectativas e projetos futuros

Os projetos futuros dos jovens correspondem ao trabalho, estudo, mudança de bairro e constituição de família. Esses projetos estariam contrários aos comportamentos de risco, ou seja, desejam mudanças promissoras para o futuro.

As mudanças almejadas na vida escolar e trabalho se traduzem em respostas permeadas de incertezas e com expectativas criadas dentro da rotina de atividades na Instituição CASE. Dentre elas, a dedicação aos estudos para serem professores na educação física, capoeira, matemática e robótica. No entanto, não descartam as possibilidades de retornar aos biscates e tráfico.

O jovem conhece pouco sobre suas aptidões e tendências, tem restrição ao contato com profissões variadas e poucas práticas de realização social e econômica. Seguem as profissões dos pais por indução familiar, visto que a própria dinâmica imprime determinada direção na escolha profissional. Relataram identificações com ídolos do futebol e nas profissões próximas ao cotidiano, como pedreiro e segurança. Por outro lado, Levisky menciona que a escolha está correlacionada a fantasias inconscientes e conscientes, bem como à valorização intelectual de idealização e status social. (LEVISKY, 1998).

Os obstáculos para realização dos planos futuros residem nas dificuldades de leitura e na falta de disciplina para os estudos. Envolvendo alta impulsividade e incerteza sobre o que realmente querem para o futuro.

d) Inscrição social

Diante do questionamento central: “O que busca o jovem através do ato infracional?”, obtivemos como resultados diversos motivos: uso de drogas, raiva (devido à calúnia e outros), vingança, solidariedade/parceria (com amigos e irmãos), busca de dinheiro para compra de roupas. Segundo Barros (2003, pag. 88) “A violência praticada por esses adolescentes é sempre um dado a ver, encenada sob os olhares atentos e curiosos da sociedade, mas que, de ouvidos fechados ao que está enunciado, segrega a palavra”.

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12 Diante de variadas respostas sobre a motivação do ato infracional, destacamos como mais citado: o ganhar dinheiro fácil e mobilização pelo sentimento de raiva.

A pessoa da família a quem o adolescente atribui um vínculo mais firme quando cometeu o ato infracional foi a mãe.

O desejo de reconhecimento foi relatado pelos entrevistados em duas perspectivas diferentes, a maioria deseja ser (re) conhecido pelo o que é, sem nenhum adjetivo específico. Já em segundo plano, houve aqueles que evidenciaram a necessidade/desejo de ser reconhecido com algum atributo como: jogadores de futebol (moicano Neymar), a profissão idealizada (capoeirista ou professor de Ed. Física) e como aqueles que têm as roupas de marca e dinheiro no bolso (serem interessantes para as garotas).

Considerações finais

A literatura trouxe a adolescência como um período em que se constrói a identidade e foi observada na prática sua característica processual e contínua nesta construção. Esse movimento encontra-se atrelado a uma perspectiva sociocultural que privilegia as possibilidades e a liberdade de escolha, portanto, neste período pode ocorre no adolescente uma diminuição das restrições ou pressões sociais no que se refere à trajetória para a vida adulta.

A relação entre comportamento infracional e identidade foi identificada como um movimento que a cultura vem favorecendo ao liberar sem sublimação os seus impulsos agressivos e sexuais, movimento percebido pela atuação expressa e estado conflitivo social atual.

A partir da análise realizada, ficou evidente o contexto socioeconômico em que os adolescentes na época da prática infracional viviam, incluídos na camada social de baixa renda, apontando para a desigualdade social presente na história dessa juventude. Demonstram desesperança quanto ao futuro pelo alto índice de vulnerabilidade, sem perspectivas de emprego e pelo forte estigma da internação. Enfrentam dificuldades em organizar sua vida emocional em uma construção identitária sem um continente socioeconômico. Sem dúvida correm riscos com cicatrizes na personalidade, podendo trazer consequências de caráter irreversível para a sociedade. Destacamos o uso abusivo

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13 inconsequente de drogas e/ou até mesmo a entrada no tráfico como pontos chaves para compreensão da rede em que está inserido.

Além disso, os resultados da pesquisa evidenciaram experiências de privações no sentido afetivo, devido às referências a perdas precoces pela morte dos pais ou ausência da função paterna e/ou materna no processo educativo dos adolescentes. Reconhecemos os aspectos internos de cada sujeito para sua identificação, a relação do adolescente com o objeto interno e sua vida pulsional, mas sabemos que a cultura através da família e sociedade em geral contribui com os valores e conflitos.

Outro aspecto que merece destaque é a vivência no espaço urbano, das ruas, com os pares/amigos que possivelmente contribuíram significativamente com o processo de construção identitária. Ocupam-se da identidade, atuando em processo de tensão permanente com os papéis sociais pré-estabelecidos e que se modificam, ainda que algumas vezes não demonstrem na aparência. Os adolescentes correlacionaram os amigos às motivações do ato infracional, ou seja, os grupos em que se inserem é o lugar de busca de si mesmo, é com os amigos que exteriorizam e confrontam seus pensamentos. Lá se pode dar vazão para os impulsos (agressivos e sexuais), onde as experimentações, inclusive das drogas, se realizam.

Diante de tantas questões que envolvem este adolescente, acreditamos que a transmissão de valores são marcos para a construção como ser social e, simplesmente, para eles, não há o que se questionar e explorar. Demonstram que não sabem como buscar a individuação exigida pela cultura, para se tornarem adulto jovem, não existe nenhuma base sólida. Simplesmente tentam se adaptar às condições do meio, alienam-se e são alienados pela sociedade. No início, vivem uma situação de onipotência e, posteriormente, expressam o sentimento, quando usam expressão como “que o mundo se lixe”; as coisas que o cercam não os interessam, ao cometerem o ato infracional se posicionam como quem quer se fazer presente.

Este estudo, através de suas evidências, nos convida a adotarmos um olhar atento para esse adolescente em conflito com a lei, que se apresenta primeiramente em conflito íntimo, social, familiar, em um cenário contemporâneo não menos conturbado. Acreditamos que o nosso papel como cidadãos e profissionais nos remete a buscarmos por saídas eficazes de intervenções através das políticas públicas que promovam um empoderamento destes sujeitos frente aos desajustes.

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Referências

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