UNIVERSIDADE DA BEIRA INTERIOR
Notas para Hemodinâmica
P.J. Oliveira
(Novembro 2018)
Departamento de Engenharia Electromecânica
6201-001 CovilhãConteúdo 1. Noções básicas de mecânica dos fluidos ……….…..………...5 2. Noções básicas de fluidos não newtonianos ………...….……….21 3. Equações da mecânica de fluidos ….………..…...….………37 4. Equações do movimento sob forma geral …..……..…...….………45 5. Viscosidade do sangue ………..…..……..…...….………55 6. Resolução das equações do movimento com método dos volumes finitos ………63 7. Escoamento pulsante em tubo ………75 8. Utilização de grandezas adimensionais – Normalização das equações ………..83 9. Fluxo de sangue em tubo circular ……….………91 Este documento reúne algumas notas dispersas que tinham sido preparadas para as unidades curriculares de Hemodinâmica e de Biotransporte do curso de Ciências Biomédicas e que foram adaptadas para serem estudadas como um todo. A bibliografia indicada na disciplina de Hemodinâmica é a seguinte:
“Alguns Conceitos Básicos de Hemodinâmica”, F.T. Pinho, FEUP, Abril 2009.
“Biofluid Mechanics in Cardiovascular Systems”, Lee Waite, McGraw‐Hill, 2006.
“Applied Biofluid Mechanics”, Lee Waite e Jerry Fine, McGraw‐Hill, 2007.
“Modelling the Human Cardiac Fluid Mechanics”, H. Oertel, Univ. Karlsruhe,
2005.
“O Livro de Coração”, Fernando de Pádua, Academia do Livro, 2008.
1. Noções Básicas de Mecânica dos Fluidos
1.1 Propriedades materiais básicas
Neste estudo iremos considerar materiais que em geral se comportam como fluidos, isto é, que se deformam continuamente quando sujeitos a uma força transversal (força de corte). As propriedades básicas de um material com interesse para a mecânica dos fluidos são a massa volúmica,
, e a viscosidade,
ou
. A massa por unidade de volume da água a temperatura normal (25ºC) é
1000
kg/m3; para o sangue
1060
kg/m3. A viscosidade é a propriedade relacionada com a maior ou menor facilidade de escorregamento de um material, ou seja é uma medida da sua fluidez: quanto mais viscoso, menor é a fluidez do material. Para uma determinada temperatura, a viscosidade é constante quando esse material tem comportamento newtoniano. Neste caso usa‐se o símbolo
para a viscosidade. Quando o comportamento é não newtoniano o coeficiente de viscosidade pode variar com o estado de deformação do material e a viscosidade deixa de ser “constante”; neste caso usa‐se o símbolo
para representar a viscosidade.Ar e água são dois exemplos de fluidos newtonianos, sendo amplamente utilizados em aplicações da mecânica de fluidos em áreas da engenharia. Qualquer fluido constituído por moléculas simples e de baixo peso molecular, sem formação de estruturas internas, comporta‐ se em condições usuais como um fluido newtoniano (a definição exacta do que é newtoniano é dada pela Eq. 1 abaixo). Por outro lado, materiais com uma microestrutura interna complexa ou formados por constituintes de elevado peso molecular têm tendência a comportar‐se de forma não newtoniana. A viscosidade da água é
10
3 Pa.s a 25ºC, diminuindo para3
0.695 10
Pa.s a 37ºC, e a do sangue, assumido como fluido newtoniano (uma aproximação que só é válida em casos restritos), é 3
3.5 10
Pa.s a 37ºC. A viscosidade do ar, em condições padrão, é aproximadamente
2 10
5 Pa.s. A unidade de viscosidade no sistema internacional (MKS) é o Pascal x segundo: Pa.s = N.s/m2 = Kg/(m.s). Para evitar a utilização de valores muito pequenos pode usar‐se o mili Pascal segundo, mPa.s = 0.001 Pa.s. Em alternativa usa‐se com frequência (sobretudo em aplicações biomédicas) a unidade de viscosidade do sistema CGS (com base em centímetros, gramas e segundos), o Poise P. Tem‐se 1 P= 0.1 Pa.s, ou 1 Pa.s = 10 P. O centi Poise, cP=0.01 P, é igual ao mPa.s. É fácil recordar que em condições de temperatura normais a viscosidade da água é1
mPa.s = 1 cP. 1.2 Escoamento de Couette A viscosidade é determinada a partir de uma experiência (teórica) em que camadas de fluido deslizam umas sobre as outras ao longo de uma determinada direcção. A este arranjo chama‐ se escoamento de Couette e está representado na Fig. 1 a. O material (um fluido, por exemplo) é colocado entre duas placas paralelas e aplica‐se uma força constante à placa superior de forma a esta se mover para a direita a uma velocidade constante. A placa inferior mantém‐se em repouso, e o espaçamento entre as placas, h, mantém‐se constante.Mostra‐se (ver abaixo) que neste escoamento a tensão a que cada camada de fluido está submetida é constante, que a taxa de deformação é também constante e que o perfil de
velocidades é linear. Pode‐se assim, através de várias medições com este escoamento, relacionar a tensão com a taxa de deformação. (a) x y u(y) U h F
(b) x y u(y+y) u(y) y Fig. 1‐ (a) Escoamento de Couette plano: perfil de velocidades e definição da deformação de corte
. (b) esquema local das camadas de fluido com velocidades diferentes para definir a taxa de corte
. Um fluido newtoniano é definido através da lei da viscosidade de Newton:
, (1) Esta equação define a viscosidade como a constante de proporcionalidade entre a tensão e a taxa de deformação de corte
. A taxa de corte local é definida como a diferença entre velocidades para duas camadas separadas pela distância
y
(Fig. 1 b): 0(
)
( )
lim
yu
u
u y
y
u y
y
y
y
(2) Para o escoamento de Couette temos: tensão:F
A
= força / área de contacto, [N/m2]=[Pa]; (3) taxa de corte:u
U
y
h
= gradiente de velocidade = velocidade placa / espaçamento, [1/s]. (4) Demonstrações A taxa de deformação de corte
, além de representar o gradiente de velocidades, é também a taxa de variação temporal da deformação de corte ou distorçãod
/
dt
. A distorção
é o ângulo formado entre uma linha de fluido que no tempo inicial é perpendicular aos planos das paredes (Fig. 1 a) e que após um certo intervalo de tempo t forma uma linha inclinada com a vertical. Nesse intervalo de tempo a camada de fluido colada à parede superior em movimento percorreu uma distâncial
Ut
e a tangente do ângulo é:tan( )
l
Ut
h
h
(5)Para intervalos de tempo pequenos,
t
t
, e ângulos pequenos,
, temostan(
)
U t
h
0lim
tU
t
h
(6) onde a taxa de deformação, ou deformação por unidade de tempo, é definida como:/
d
dt
. (7) x y u(y) U h h 0 (y) x y Fig. 2‐ Balanço de forças sobre elemento de fluido (a vermelho) em escoamento de Couette. Para mostrar que neste escoamento a tensão é constante faz‐se o balanço de forças sobre um elemento de fluido de forma paralelipipédica, com alturay
, comprimento
x
e espessuraz
, situado entrey
0
ey
y
(Fig. 2). Considerando que não existem forças normais de pressão, as únicas forças aplicadas são as resultantes das tensões de corte nas faces superior e inferior do paralelipípedo, com componentes segundox
de: 0( )
yxy
x z
x z
yx( )
y
0
Cte
(8)onde
0 é a tensão constante que a parede inferior exerce sobre o fluido, emy
0
. Fica assimprovado que a tensão de corte, que designamos simplesmente por
yx, não depende daposição
y
, sendo a tensão exercida pela placa superior sobre o fluido
h , segundo
x
, igualà tensão
0, com direcção
x
. Uma outra forma de verificar a constância da tensão éescrever as equações de movimento para o escoamento de Couette e verificar que se reduzem a
yx/
y
0
; por consequência
yx é constante.Na análise clássica do escoamento de Couette assume‐se à partida que o perfil de velocidades é linear, ou seja:
u y
( )
Ay
B
(9) Aplicando as condições de não escorregamento, tem‐se para a parede inferior estacionária,0
u
paray
0
(10a) e para a parede superior em movimento uniforme,u
U
paray
h
. (10b)o que fornece imediatamente
B
0
eA U h
/
. Por isso o perfil de velocidades vem dado por:u y
( )
U
y
h
(11) com um gradiente de velocidadesdu dy
/
U h
/
constante e igual à taxa de deformação de corte
(ver Eq. 6). Outra forma de se chegar a este resultado é considerando que para cada fluido existe uma relação biunívoca entre tensão e taxa de deformação,
f
( )
f
1( )
(12)Assim, se
é constante, como se mostrou acima, então
é também constante. Logo, por integração da definição
u
/
y
, com as condições fronteira de não escorregamento, tem‐ se de imediato:u
Cte
y
u
y
com
U h
/
. (13) 1.3 Viscosidade A viscosidade surge como a “constante” de proporcionalidade entre a tensão de corte aplicada sobre um elemento de fluido e a sua taxa de deformação de corte. Em geral escreve‐se
(14) onde
é o coeficiente de viscosidade. De acordo com os resultados da secção anterior para escoamento de Couette, a viscosidade é, fisicamente, a razão entre a força aplicada por unidade de área da placa superior, e a velocidade a que esta se move dividida pela separação entre placas:Viscosidade = (força/área) / (velocidade/separação). (15) Se o coeficiente de viscosidade for constante, não dependendo do estado de deformação do fluido, diz‐se que se trata de um fluido newtoniano e usa‐se a letra
para indicar a viscosidade. Uma generalização óbvia do fluido newtoniano é tomar
como uma função genérica da taxa de deformação
, isto é
(16)Estes fluidos denominam‐se fluidos não newtonianos de tipo GNF (Generalized Newtonian Fluids), ou fluidos newtonianos generalizados. O caso mais comum é o de fluidos em que a viscosidade diminui quando a taxa de corte aumenta
com
(17)que se designam como fluidos reofluidificantes (shear‐thinning, em inglês). O sangue é deste tipo, assim como as soluções poliméricas, por exemplo. A designação antiga para esta classe de materiais era de pseudoplásticos.
O caso inverso é o de fluidos em que a viscosidade aumenta com a taxa de corte,
com
(18)que são designados como fluidos reoespessantes. A designação antiga era de fluidos dilatantes. O exemplo clássico é o de uma suspensão de grãos de areia em água líquida (areia movediça).
newtoniano.
reofluidificante reoespessante Bingham
0 Fig. 3‐ Comportamentos reológicos típicos no diagrama tensão – deformação.Portanto, para um material newtoniano a tensão aumenta linearmente com a taxa de deformação, sendo nula quando esta é nula. Para um material não newtoniano reofluidiciante a tensão de corte apresenta um aumento com a taxa de deformação que é inferior a linear. Para um material reoespessante o aumento é superior a linear. Tanto o reofluidificante como reoespessante têm tensão nula para taxa de deformação nula. A Fig. 3 ilustra graficamente este comportamento. Inclui ainda um outro tipo de material designado como plástico de Bingham, ou material com tensão de cedência. Nestes materiais (por vezes designados como viscoplásticos), o comportamento é de sólido indeformável enquanto a tensão é inferior à tensão de cedência (
0), e de líquido newtoniano para valores superiores da tensão. O sangueapresenta este tipo de comportamento, embora
0 seja pequeno; outros exemplos são apasta de dentes e a maionese.
A ciência que estuda o escoamento e a deformação dos materiais chama‐se Reologia. Daí as designações de reofluidificante e reoespessamte para materiais que ficam mais fluidos, ou mais espessos, quando sujeitos a deformação. À Reologia cabe a medição da viscosidade, e de outras propriedades materiais que servem para caracterizar o escoamento e a deformação dos vários materiais.
1.4 Medição de viscosidade
Na prática a utilização do escoamento de Couette plano, como o da Fig. 1, para medir a viscosidade de um material não é viável porque se torna impossível limitar o dispositivo. No entanto, um escoamento semelhante em coordenadas cilíndricas é já susceptível de realização prática. Um viscosímetro de copos rotativos consiste em dois cilindros verticais concêntricos que podem ser submetidos a um movimento de rotação, em simultâneo ou só um deles. Estes cilindros estão separados por um espaçamento muito pequeno em relação ao seu raio. O material cuja viscosidade se pretende medir é colocado no espaço entre os cilindros, no arranjo mais comum o cilindro exterior é submetido a uma rotação com velocidade angular
,e o binário necessário para manter o cilindro interior fixo é medido
T
. A relação entre o binário e a velocidade de rotação permite obter a viscosidade. (a) fluido testado rotação separação R2 R1 (b) R1 R2 2 (c) R2 r U2 2 R1 u(r) Fig. 4‐ Viscosímetro de copos concêntricos (a), escoamento de Couette circular (b), detalhe do perfil de velocidades (c).A Fig. 4 mostra esta geometria. Quando a separação entre cilindros é pequena,
2 1 1
h
R
R
R
, as fórmulas dadas acima para a geometria plana de Couette continuam a ser válidas. Relembramos que um binário é uma força multiplicada pelo braço ou raio de rotação,
T
Fr
(19)e que velocidade linear e velocidade angular estão relacionada por:
u
r
(20)em movimento rotativo circular de corpo sólido. Chama‐se a atenção de que a velocidade do fluido contido no espaço anular da Fig. 4 (c) não segue esta expressão simples, mas a velocidade da cilindro exterior pode ser calculada com base nesta equação:
U
2
R
2. Noescoamento de Couette circular (Fig. 4 b) o binário conserva‐se, ou seja o binário aplicado no cilindro exterior é igual ao binário que o fluido exerce sobre o cilindro interior:
T
2
F R
2 2 eT
1
F R
1 1 comT
2
T
1 (21)Para que o cilindro interior fique estacionário (não se mova), é necessário que lhe seja aplicado um binário igual a
T
1 mas de sentido contrário. Este será o binário medido pelo aparelho erelaciona‐se com a viscosidade da seguinte forma. A taxa de corte é aproximadamente constante sendo obtida de: 2 2 2 1
U
R
R
R
h
(22) Da Eq. (14), a viscosidade vem: 2 1 1 1 1 1 2 2 2 2 2 2 1/
/ 2
/
/
2
F A
T
LR
T h
U
h
R
h
R R L
E a expressão final, com diâmetros em lugar de raios, é1 3 3 2 1 1
4
4
(1 2
)
T h
T h
h
D L
D L
D
(23)onde a aproximação na igualdade da esquerda se baseia em
h D
/
11
e se usam valoresnominais para o diâmetro
D
, o binárioT
(torque) e a velocidade angular
. Esta é relacionada com a frequênciaf
[s
1]=[Hz] através de:2
2
[
]
60
n rpm
f
(24) onden
é o número de rotações por minuto impostas ao cilindro exterior. 1.5 Escoamento laminar em tubos Uma aplicação biomédica óbvia da mecânica dos fluidos é o estudo do movimento do sangue nas artérias e veias do corpo humano. Se modelarmos estes vasos como tubos de secção circular, e se considerarmos que as velocidades são relativamente baixas de forma ao regime de escoamento ser laminar (definição abaixo) então será útil obtermos expressões que permitam calcular o caudal volumétrico que existe para uma certo gradiente de pressões aplicado ou, por exemplo, calcular a tensão de corte na parede. Em capítulos posteriores estes resultados serão obtidos novamente a partir das equações diferenciais básicas que regem os movimento dos fluidos. z u(r) D O parede eixo simetria r Fig. 5‐ Detalhe do escoamento em tubo circular.A Fig. 5 mostra o esquema da geometria com simetria cilíndrica. O tubo tem diâmetro
/ 2
D
R
, ondeR
é o raio, e assume‐se que o escoamento está completamente desenvolvido, não havendo por isso variações das propriedades ao longo da direcção axial do tubo,z
. Como se verá, o perfil de velocidadesu r
( )
é então parabólico, isto éu r
( )
r
2.p z h z u(r) 1 2 -dp/dz=Cte U
reservatório tubo circular
z0
Fig. 6‐ Geração de escoamento completamente desenvolvido em tubo circular. O perfil de velocidades parabólico acontece quando o decaimento da pressão é linear ao longo do tubo.
A Fig. 6 mostra um dispositivo que permitiria criar um escoamento completamente desenvolvido num tubo. A pressão na secção à entrada do tubo é igual ao peso da coluna de água desde esse ponto até à superfície livre do tanque,
p
2
p
1
gh
. Se o tanque forconsiderado de grandes dimensões comparativamente ao tubo, essa pressão irá manter‐se constante durante o escoamento. O líquido dentro do tubo é submetido ao um diferencial de pressões e começa a movimentar‐se. O perfil de velocidades é inicialmente de tipo “tampão” (perfil uniforme), evoluindo para uma forma parabólica à medida que a secção onde o perfil é obtido se afasta da secção de entrada. A partir de determinada distância
z
0o perfil develocidades deixa de mudar de forma, e mantém‐se constante. A variação da pressão é então linear, isto é
dp dz
/
Cte
P
. Diz‐se que se atingiu o desenvolvimento completo.
z
u(r)
D=2R O parede eixo simetriar
p
2p
1z
z
r
Elemento fluido At=2rz A=r2 força z: Fz=Ap-At=0 p=p1-p2 Fig. 7‐ Balanço de forças sobre elemento de fluido (a azul).Um balanço de forças a uma porção cilíndrica de fluido de raio
r
e comprimento
z
, mostrado a azul na Fig. 7, dá:
2t
A
pA
p
r
A área de contacto onde a tensão de corte (assumida como positiva na direcção
z
) está aplicada éA
t
2
r z
e o balanço reduz‐se a: 1 1 2 2p
r
Pr
z
1 2Pr
(25) ondeP
dp dz
/
é a magnitude do gradiente de pressão aplicado, a força motriz para gerar o movimento.P
é constante e tem valor positivo para escoamento a processar‐se na direcçãoz
. Esta expressão permite desde logo calcular a tensão de corte na parede,
w
(
r
R
)
: 1 2 wPR
(26) Para se obter o perfil de velocidades integra‐se a expressão anterior, após substituir pela lei de Newton da viscosidade, com
du dr
/
(para que
seja positivo):1 2
du
Pr
dr
2
du
P
r
dr
2
P
du
rdr
que dá: 2 14
P
u
r
C
Usando a condição fronteira de não escorregamento na parede, temos:0
2 14
P
R
C
1 24
P
C
R
e o perfil fica: 2 21
4
PR
r
u
R
2 01
r
u
U
R
(27) onde a velocidade máxima, no eixo do tubo, é dada por: 2 04
PR
U
(28)A forma do perfil é parabólica (variação em 2
r
) com velocidade nula na parede e valor máximo no eixo, como é mostrado esquematicamente na Fig. 7. O caudal é calculado integrando o perfil de velocidades sobre a secção transversal do tubo: 2 0 0 0( )2
2
1
R Rr
Q
u r
rdr
U
rdr
R
que dá:2 2 4 0 0 2
1
2
2
4
2
R U
R
R
Q
U
R
A velocidade média está relacionada com o caudal através deU
Q
2R
e vem dada por 02
U
U
ou 28
PR
U
. (29)Esta equação representa a lei de Hagen‐Poiseuille, que permite relacionar o caudal, ou velocidade média no tubo, com o gradiente de pressão aplicado. Veja‐se que a velocidade máxima é o dobro da velocidade média. A velocidade média é directamente proporcional ao quadrado do raio e ao gradiente de pressão, e inversamente proporcional à viscosidade. O caudal volumétrico é directamente proporcional ao raio (ou diâmetro) levantado à quarta potência. O perfil de tensão de corte é linear como mostrado pela Eq. (25). O valor máximo da tensão de corte, em valor absoluto, ocorre na parede, e a Eq. (26) pode agora escrever‐se como: w
4
U
R
ou w8
U
D
(30) O coeficiente de atrito na parede é definido como: 2 1 2 wf
U
(31a) vindo dado por:f
16
Re
(31b) onde o número de Reynolds foi definido como:Re
UD
(32) 1.6 Regimes de escoamento e comprimentos para desenvolvimento completo O regime dinâmico de escoamento é: Laminar,Re
2000
(33a) Turbulento,Re
4000
(33b)Transição,
2000
Re
4000
. (33c) O escoamento do sangue ocorre tipicamente em regime laminar, excepto por vezes na aorta descendente em situações de esforço (treino de atletas, por exemplo), ou pontualmente em vasoconstrições de natureza patológica (estenoses), onde o escoamento é localmente turbulento. Para escoamento turbulento a velocidade oscila localmente de forma aleatória e só faz sentido, do ponto de vista de engenharia ou em aplicações biomédicas, considerar valores médios no tempo. O perfil da velocidade média (não confundir com a média na secção dada pela Eq. 29) deixa de ser dado pela Eq. (27) (de facto segue uma variação do tipo
1/ 7
0
1 ( / )
u
U
r R
), a tensão na parede aumenta substancialmente, assim como o factor de atritof
que fica muito maior do que o dado pela Eq. (31). O comprimento necessário para se atingir a condição de desenvolvimento completo a partir de uma entrada com perfil de velocidades uniforme (ver Fig. 6) é dado, em função do número de Reynolds, por:z
00.06
Re
D
(34)Por exemplo, para um número de Reynolds típico de 200, é necessário um comprimento de tubo de 12 diâmetros para se atingir a situação de desenvolvimento completo. Na prática, é difícil no sistema circulatório satisfazer esta condição porque existem ramificações consecutivas dos vasos, separadas por distâncias inferiores a esse comprimento.
1.7 Equação de Bernoulli
Esta equação exprime a conservação de energia mecânica em escoamento invíscido (sem viscosidade) e permite relacionar variações de pressão
p
, velocidadeu
, e altura (cota)h
:1 2 1 2
1 2 1 1 2 2 2 2
p
u
gh
p
u
gh
(35)Os valores destas propriedades são obtidos nos pontos 1 e 2 ao longo de uma linha de corrente.
Esta equação não toma em conta perdas de carga, devidas a atrito nas paredes duma conduta ou presença de obstruções ou variações de área transversal, uma vez que estas perdas são fenómenos irreversíveis relacionados intimamente com a existência de viscosidade. É no entanto fácil generalizar a equação de Bernoulli por forma a contabilizar perdas de carga e trabalho produzido: 1 1 2 2 1 2 1 1 2 2 2 2 v
p
p
u
gh
u
gh
w e
(36) onde:e
v‐ energia por unidade de massa [J/kg] dissipada devido a viscosidade;w
‐ trabalho específico produzido pelo fluido (a sair do sistema).A perda de carga no escoamento completamente desenvolvido em tubo circular de comprimento
L
e diâmetroD
calcula‐se a partir de1 2 2
4
v vL
p
e
f
U
D
(36a)onde
f
é o coeficiente de atrito definido pela Eq. (31) eU
é a velocidade média na secção (na Eq. 36,u
1
u
2
U
).As velocidades que aparecem na Eq (35) são valores locais quando os índices 1 e 2 correspondem a localizações pontuais no seio do campo de velocidades, pontos ligados por uma linha de corrente, a situação mais comum quando se aplica a equação de Bernoulli. Por outro lado, quando a equação é aplicada como um balanço de energia mecânica a um volume de controlo, essas velocidades são valores médios, com os índices 1 e 2 a referirem‐se às secções de entrada e de saída duma conduta (Fig. 8). Neste segundo caso os valores médios são obtidos por integração na secção transversal do cubo da velocidade a dividir pela respectiva velocidade média ( 2 3
1 1
( ) /
1( )
u
u r
u r
). Deve referir‐se que esses valores não são em geral iguais ao cubo da média (isto é,u r
13( )
u r
1( )
3
U
13 ), pelo que se deveintroduzir um factor correctivo,
u
12
1U
12 ou 2 2 2 2 2u
U
, (37) com
1
(perfil de velocidades uniforme; válido para escoamento turbulento)
2
(perfil de velocidades parabólico, Eq 27; válido para escoamento laminar). u2 u1 p2 h2 h1 p1 1 2 w ev Fig. 8‐ Volume de controlo para aplicação do balanço de energia mecânica (Eq. Bernoulli). Como indicado acima, usa‐se a notação da subsecção anterior para indicar a média calculada segundo a Eq. (29), 1 1 1 2 1 1 01
( )
( )2
RU
u r
u r
rdr
R
(38) ilustrada para uma secção circular de raioR
1.1.8 Exemplos de aplicação da equação de Bernoulli: 1 2 p1 p2 U1 Fig. 9‐ Esquema do venturi (i)‐ Venturi Um venturi consiste numa contracção relativamente suave do escoamento numa conduta que permite fazer a medição do caudal que circula nessa conduta, através de duas medições de pressão. A Fig. 9 mostra esquematicamente o dispositivo, com as pressões a serem medidas nas secções 1 (seio da conduta) e 2 (garganta do venturi). Considerando que o venturi é horizontal, a equação de Bernoulli dá: 1 2 1 2 1 2 1 2 2 2
p
U
p
U
1
2 2
2 1 1 2 2
U
U
p
p
Resolvendo para a velocidade no ponto 1, e usando a conservação de massa (ver abaixo)
2
/
1 1/
2U
U
A A
, ondeA
1 eA
2 são as áreas das secções na conduta e na parte mais estreitado venturi, temos: 1
1 22
1 22
1
p
p
U
A
A
As pressões em 1 e 2 são medidas com um manómetro diferencial, e a razão entre as áreas na conduta e na garganta do venturi é conhecida. Finalmente, o caudal vem dado por:Q
CAU
1 1 ondeC
é um factor correctivo, a ser obtido por calibração, e que faz o ajuste para o facto do fluido não ser perfeito (na verdade, o fluido possui viscosidade).1
2
a
b
Q
U
h
L
.
Fig. 10‐ Manómetro diferencial.
(ii)‐ Medição de pressão
A Fig. 10 mostra um manómetro diferencial, cuja leitura dá o desnível
h
do líquido manométrico (
liq), permitindo obter a perda de pressão no escoamento de um fluido, commassa volúmica
, numa conduta. Assumindo que as velocidades nos tubos que fazem a ligação ao manómetro são desprezáveis, a aplicação da Eq. de Bernoulli (Eq. 35) entre o ponto1
e o pontoa
dá:p
1
gh
1
p
a
gh
a entre o ponto2
e o pontob
:p
2
gh
2
p
b
gh
b e entre o pontoa
e o pontob
:p
a
liqgh
a
p
b
liqgh
b Combinando estas equações tem‐se:p
1
p
2
p
a
p
b
g h
(
a
h
b)
(uma vez queh
1
h
2) ep
a
p
b
liqg h
(
b
h
a)
ou seja, 1 2(
liq)
p
p
gh
.com
h
h
b
h
a. O desnívelh
é lido do manómetro, a diferença
liq
entre asmassas volúmicas do líquido manométrico e do fluido que se pretende medir é conhecida, e a perda de pressão na conduta vem imediatamente de
p
gh
. Se o escoamento na conduta estiver completamente desenvolvido, o gradiente de pressão (uma constante) vem/
P
p L
(onde o
p
é o
p
v da Eq (36a) que resulta duma perda de carga de naturezaviscosa). 1.9 Conservação de massa Para um volume de controlo (Fig. 11) com várias entradas e várias saídas de massa tem‐se: in out entradas saídas
m
m
(39) uma vez que a massa é uma propriedade extensiva que se conserva.m
m
im
e vol. controlo.
.
out in Fig. 11‐ Volume de controlo e conservação de massa.Esta equação de conservação de massa é válida em regime permanente. O símbolo
m
irepresenta o caudal mássico através da conduta i, relacionado com a velocidade média através de:
m
i
iAU
i i [kg/s] (40) onde:
i‐ massa volúmica na secção i [kg/m 3]A
i‐ área da secção transversal [m 2 ] (para tubo circular,A
i
D
i2/ 4
)U
i‐ velocidade média na secção i [m/s] Q1 Q3 Q2.
.
.
Fig. 12‐ Ramificação de conduta Por exemplo, para a Fig. 12 a conservação de massa escreve‐se:m
1
m
2
m
3 (41) Os escoamentos de líquidos (água; sangue; etc) podem normalmente ser considerados como incompressíveis, com volume específico constante
Cte
. Neste caso pode ser conveniente dividir a Eq. (41) pela massa volúmica (
1
2
3) e trabalhar com o caudalvolumétrico: i i i i i
m
Q
AU
[m3 /s]. (42) Para a bifurcação ilustrada na Fig 12 tem‐seQ
1
Q
2
Q
3
AU
1 1
A U
2 2
A U
3 3 (43)Sabendo o caudal de entrada
Q
1, e a percentagem de caudal que segue pela conduta 3, por exemplo (fracção extraída,
Q Q
3/
1), podemos facilmente obter as velocidades médias nos ramais de saída,U
2
(1
)
Q
1/
A
2 eU
3
Q
1/
A
3.1
2
Q
2Q
.
1.
Fig. 13‐ Expansão em tubo redondo. Como segundo exemplo de ilustração da conservação de massa, veja‐se o caso do escoamento numa expansão, Fig. 13. O caudalQ
1 circula num tubo circular de diâmetroD
1 e subitamentepassa para um tubo de maior dimensão
D
2 (razão de expansão
D
2/
D
1). A relação entrevelocidades médias nas duas secções é obtida através da conservação de caudal,
Q
1
Q
2
AU
1 1
A U
2 2 2 1 1 2 1 1 2 2A
D
U
U
U
A
D
ou seja, 2 2 11
U
U
(44) Se a razão de expansão for de 2, a velocidade no tubo maior será 4 vezes mais pequena do que a velocidade à entrada. Considerando que o fluido é perfeito e não há perdas de carga, pode aplicar‐se Eq. de Bernoulli entre as secções 1 e 2 para obter a variação de pressão: 1 2 1 2 1 2 1 2 2 2p
U
p
U
2 2 2 1 1 2 1 2 1 2 2 1 2 1 21
1
/
p
p
U
U
U
U U
que se escreve, 2 1 2 1 2 1 41
1
p
p
U
(45)Na realidade o escoamento na expansão (ou numa contracção, se o escoamento fosse no sentido inverso) irá implicar uma perda de carga localizada e por isso a equação de Bernoulli deveria ser aplicada com o termo de perda (Eq. 36). Mesmo assim esta relação é útil por mostrar um facto corrente: quando a velocidade aumenta, a pressão diminui (e vice‐versa).
2. Noções Básicas de Fluidos Não Newtonianos
Este capítulo inclui a segunda parte de um relatório feito para a disciplina de Biotransporte e trata de modelos reológicos para suspensões e para líquidos não newtonianos. Em particular, são fornecidas e discutidas fórmulas que representam vários modelos de viscosidade válidos para suspensões e para líquidos com características de reofluidificação (diminuição da viscosidade com a taxa de corte) e de tensão de cedência (comportamento sólido a tensões inferiores a um determinado limiar).
2.1 Suspensões
Uma suspensão é um material líquido composto por uma mistura de duas fases, uma fase líquida pura, o meio contínuo, e uma fase discreta formada por “partículas sólidas” em movimento no seio da fase líquida, sem se dissolverem nela. A noção de partícula é aqui usada num sentido lato com uma entidade que se distingue da fase contínua na qual está suspensa, podendo ser de facto uma partícula sólida (um grão de areia, por exemplo) ou uma cápsula de um líquido delimitada por uma membrana elástica. O sangue, por exemplo, é uma suspensão de glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas em plasma. O plasma é a fase contínua da suspensão, comportando‐se aproximadamente como um líquido newtoniano, e os glóbulos vermelhos constituem a parte preponderante da fase discreta, tendo a forma de um disco bicôncavo e sendo formados por um líquido no interior (solução de hemoglobina) envolvido numa membrana elástica. A massa volúmica da fase sólida
p(índice ppara partículas) diferenormalmente da massa volúmica da fase contínua
f (índice fpara fluido), sendo no entantoimportante que não seja muito superior para evitar a completa sedimentação das partículas, com separação completa entre as duas fases e deixando de facto de existir uma suspensão. Por exemplo, no caso do sangue, para o plasma
f
1035
[kg/m3
] e para os glóbulos vermelhos
f
1080 1100
[kg/m3
], o que dá um valor de
f
1060
[kg/m3
] para o sangue.
Uma suspensão, como mistura bifásica, é caracterizada pela concentração ou fracção volumétrica da fase discreta,
V
pV
(1) ondeV
p é o volume total ocupado pelas partículas que existem num determinado volumeV
. Para partículas esféricas de diâmetrod
, temos 3/ 6
p pV
N
d
ondeN
p é o número totalde partículas no volume
V
. Para outras formas geométricas define‐se um diâmetro equivalented
e como o diâmetro da uma esfera que tenha volume igual ao da partícula emcausa, e a concentração volumétrica fica relacionada com a concentração em número (
n
p
N
p/
V
= nº de partículas por unidade de volume da suspensão) por 3/ 6
p en
d
A fracção volumétrica em percentagem dos glóbulos vermelhos no sangue chama‐se hematócrito,
H
. Para uma pessoa saudável o hematócrito é cerca de 45%, ou seja 45 % em volume do sangue é ocupado pelos glóbulos vermelhos.2.2 Viscosidade de suspensões
A viscosidade de uma suspensão depende da concentração de partículas, tendendo a aumentar quando a concentração aumenta. Quando a concentração volumétrica é baixa, inferior a 5%, a viscosidade da suspensão pode ser estimada pela seguinte fórmula deduzida por Einstein (Ann. Phy 19 (1906) 289):
1
1
f
(2) com:
f‐ viscosidade da fase fluida;
‐ constante que depende da forma das partículas; para esferas
5 / 2
;
‐ fracção volumétrica das partículas.Mostra‐se que para partículas com a forma de disco o valor da constante mantém‐se:
2.5
. Por exemplo, tomando a viscosidade do plasma como
f1.26 10
3
[Pa.s], a viscosidade do sangue para uma concentração muito pequena de glóbulos vermelhos, desomente 5 %, vem 3
1.44 10
[Pa.s]; ou seja, há um aumento de 14 % na viscosidade devido à introdução das partículas na suspensão.
Para valores maiores da fracção volumétrica,
deixa de ser uma constante e passa a depender da própria concentração. Para o sangue, por exemplo, obteve‐se a seguinte correlação, que integra ainda a dependência com a temperatura (T
[K]):1107
1.690.076 exp 2.49
e
T
(3) válida para0.05
0.6
.Em condições normais,
T
37º
C
310
K
e
0.45
, obtém‐se
1.237
(inferior ao 2.5 da equação de Einstein), que dá uma viscosidade do sangue de
2.84 10
3 [Pa.s], um aumento de 125 % relativamente à viscosidade do fluido (o plasma) no qual as partículas (os glóbulos vermelhos) estão suspensas. A viscosidade dada pela Eq. (2) aumenta rapidamente com a concentração
, de acordo com a Eq. (3). O efeito da temperatura, por outro lado, é de fazer diminuir a viscosidade. Estes efeitos são ilustrados na Fig. 1.0 20 40 60 Hematócrito(%) 0.001 0.002 0.003 0.004 0.005 viscosidad e ( Pa. s ) T=37ºC T=42ºC . . Fig. 1‐ Viscosidade do sangue em função da concentração de glóbulos vermelhos e temperatura (Eqs. 2‐ 3). 2.3 Tensão de cedência de suspensões
Quando a densidade do material da fase sólida é superior à densidade da fase fluida, isto é
p f
, haverá tendência para sedimentação desde que as velocidades e taxas de corte aplicadas sejam suficientemente baixas. Em repouso, a suspensão tenderá a separar‐se nas fases sólida e líquida, e poderá ocorrer ainda formação de estruturas entre as partículas da fase sólida que estão em contacto directo. A ruptura dessas estruturas para se iniciar de novo o escoamento do material pode requerer que a tensão aplicada seja superior a um limiar mínimo abaixo do qual não há movimento. Diz‐se então que o material apresenta uma tensão de cedência, sendo uma situação típica no caso das suspensões.Para o caso do sangue foi desenvolvida a seguinte correlação empírica (Merrill et al., Biophy. J. 3(1963)199) que fornece a tensão de cedência, em unidades no sistema CGS, em função do hematócrito (fracção volumétrica dos glóbulos vermelhos):
1 3 0A H
H
m
[din/cm2] (4) onde:A
0.008 0.002
, constante;H
‐ hematócrito, em percentagem;H
m‐ hematócrito mínimo para existir tensão cedência,H
m
5
a8
.Por exemplo, para
H
45
, obtém‐se
0
0.008 45 5
3
0.0328
[din/cm 2]
3.28
[mPa]. Quando se varia a constanteA
entre os limites de validade, verifica‐se que a tensão de cedência do sangue poderá variar entre 1.4 e 6.4 [mPa] em condições de hematócrito normais.2.4 Efeito de Fahraeus‐Lindqvist
A viscosidade de uma suspensão parece ainda depender do diâmetro do tubo onde circula, quando esse diâmetro é suficientemente pequeno (inferior a cerca de 100 vezes a dimensão das partículas em suspensão, mas superior à dimensão das partículas). Este efeito resulta do facto de se formar uma zona junto à parede do tubo que fica livre de partículas, onde localmente a viscosidade cai para o valor da viscosidade da fase fluida da suspensão, e que age como se tratasse duma camada de lubrificação. O efeito só é relevante quando a espessura da camada sem partículas, que é da ordem da dimensão das partículas, começa a não ser muito inferior ao diâmetro do tubo.
No caso do sangue esse efeito, de redução da viscosidade para diâmetros dos vasos inferiores a cerca de 300 m, chama‐se de efeito de Fahraeus‐Lindqvist, os autores que primeiro o relataram. A camada de plasma junto às paredes vasculares tem uma espessura de cerca de 2 a 5 m (os glóbulos vermelhos têm cerca de 8 m de diâmetro). A medição da viscosidade foi feita com um viscosímetro capilar, que no fundo usa a equação de Poiseuille (Eq. 29 da Parte I) para determinar a viscosidade a partir de medições da queda de pressão
p
numcomprimento
L
: 4/ 8
p R
L Q
(R
‐ raio do vaso;Q
‐ caudal volumétrico de sangue). Esta expressão só é válida para fluido newtoniano e deve ser modificada para permitir a medição da viscosidade com fluidos não newtonianos. Este efeito ocorre sobretudo nas arteríolas e nos vénulos com diâmetros inferiores a 1 mm; nos capilares, quando o diâmetro fica inferior a cerca de 10 m, os glóbulos começam a interagir com as paredes, precisando de se deformar para circularem, e a viscosidade volta a subir. 2.5 Escoamento pulsante Um escoamento ocorre em regime variável cíclico quando o gradiente de pressão que o gera varia no tempo de forma sinusoidal, com frequênciaf
[s‐1] = [Hz] e frequência angular
[rad/s] (
2 f
). Por exemplo, o escoamento do sangue é pulsante, com uma frequência imposta pelo ritmo de batida do coração de cerca de 72 por minuto, o que dá uma frequência de 1.2 [s‐1]. O escoamento pulsante de fluido newtoniano em tubo circular foi analisado numrelatório para disciplina de Hemodinâmica, que deve ser consultado para se estudar os detalhes do que é aqui apresentado de forma breve. A caracterização do escoamento continua a ser feita com o número de Reynolds, que mede a relação entre forças inerciais (de convecção) e forças viscosas (de difusão), existindo agora um parâmetro sem dimensões adicional, o número de Womersley (ou de Stokes) definido como
R
(5)Este parâmetro mede a proporção das forças inerciais devidas à oscilação temporal, relativamente às forças viscosas. Pode ser visto como a raiz quadrada de um número de Reynolds oscilante:
2
(
R R
) /
U R
o/
Re
o, ondeU
o
R
é uma velocidadecaracterística da oscilação. Quando
é pequeno (
1
), o escoamento oscilante num tubo comporta‐se como um escoamento de Poiseuille, com o caudal a oscilar em fase com o gradiente de pressão imposto e o perfil de velocidade a manter‐se basicamente parabólico, com uma velocidade máxima que também oscila com frequência
. Quando
é grande (
10
), a frequência imposta é alta e o campo de velocidades não tem tempo para acompanhar a oscilação do gradiente de pressão que gera o movimento. Na zona central do tubo o perfil de velocidades ficam basicamente uniforme (perfil “tampão”), com magnitudes pequenas, podendo haver uma zona estreita de velocidades superiores junto à parede do tubo. A oscilação das velocidades fica desfasada relativamente à frequência imposta pelo gradiente de pressão, havendo um atraso de cerca de 90 graus. Ou seja, o máximo de velocidade ocorre cerca de ¼ de período depois do máximo da pressão (o período é o inverso da frequência,T
1/
f
[s]).No sistema circulatório humano a frequência de pulsação é a mesma (imposta pelo coração) e por isso o número de Womersley vai diminuindo com o raio dos vasos por onde o sangue circula, ou seja, é elevado nas grandes artérias, e vai diminuindo à medida que se progride para artérias pequenas, arteríolas e capilares. Na microcirculação (
R
50
m) a influência da pulsação é praticamente desprezável. Valores típicos de
: 16 (aorta); 3.2 (artéria pequena, 4 mm diâmetro).
2.6 Fluidos não newtonianos
Nas secções anteriores tratou‐se o caso das suspensões, ou seja a influência sobre a viscosidade da presença de uma fase com partículas “sólidas” suspensas numa fase fluida. Admitiu‐se que a viscosidade da fase fluida era newtoniana, sendo portanto uma constante para uma dada temperatura. No entanto muitos líquidos apresentam efeitos de fluidificação, ou seja diminuição da viscosidade com o aumento da taxa de corte, e efeitos de tensão de cedência, só escoam quando a tensão é superior a um valor mínimo.
Nesta secção serão tratados modelos reológicos para fluidos não newtonianos do tipo GNF (Generalizad Newtonian Fluids), cuja equação de estado é muito semelhante à newtoniana,
(6)a única diferença consistindo no facto da viscosidade
poder ser agora uma função da taxa de deformação de corte
, isto é
( )
. Na Eq. (6) assume‐se que
e
são as magnitudes da tensão e da taxa de deformação, sendo por isso valores positivos.2.7 Fluidificação
2.7.1 Modelo de lei de potência O modelo GNF mais simples que contabiliza o efeito de fluidificação ou espessamento (shear thinning ou shear thickening) é o modelo da lei de potência:n
K
ou n1K
(7) onde:K
‐ consistência [Pa.sn]n
‐ índice da lei de potênciaQuando
n
1
a viscosidade diminui com o aumento da taxa de corte e o fluido é reofluidificante, o caso mais comum. Usava‐se anteriormente a designação de fluido pseudoplástico. Quandon
1
a viscosidade aumenta com
e o fluido é reoespessante (designação antiga, fluido dilatante). Quandon
1
e viscosidade é constante e temos de novo o caso newtoniano com
K
.O sangue é fluidificante quando
100
[s‐1] e algumas propostas para ajuste entre a lei de potência e viscosidades efectivamente medidas foram (unidades MKS):
K
0.0134
,n
0.785
(
0.00498
[Pa.s]) (8a) de Walburn e Schneck (Bioreology 13 (1976) 201); e
K
0.0161
,n
0.63
(
0.00293
[Pa.s]) (8b) de Owen et al. (artigo de conferência 2005). Os valores de viscosidade indicados acima dentro dos parêntesis são para
100
[s‐1]. Normalmente tantoK
comon
variam com o hematócrito e modelos de lei de potência para o sangue mais sofisticados deveriam incluir esses efeitos.2.7.2 Modelo de Carreau‐Yasuda
Uma variação realista da viscosidade com a taxa de deformação ( versus
) deve apresentar um patamar para taxas de corte elevadas
, igual à viscosidade do solvente no casode uma suspensão ou solução, e outro patamar
0 para taxas de corte muito baixas,
0
.Nesses limites o modelo da lei de potência não tem um comportamento correcto (resulta em