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Os dois Oswalds

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Academic year: 2020

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OS D O I S OSUALDS

Antonio CANDIDO* i .

Sempre me pareceu que Oswald de Andrade e r a d i v i d i d o ao meio, como homem e como e s c r i t o r , e f o i o que comecei a d i z e r em a r t i g o s desde 1944. Eu e s c r e v i a que a sua obra f i c c i o n a l e r a a v a n ç a d a e c r i a d o r a nas duas n a r r a t i v a s que englobei depois sob a d e s i g n a ç ã o de "Par", - Memórias sentimentais

de João Miramar e Serafim Ponte Grande. E e r a

inesperadamente p a s s a d i s t a , apesar da t é c n i c a , na " T r i l o g i a " , i s t o é , os t r ê s romances subordinados ao t i t u l o g e r a l de

Trilogia do Exilio, mais t a r d e s u b s t i t u í d o

pelo do p r i m e i r o , Os condenados. Finalmente, achava que a s é r i e Marco Zero ( i n a c a b a d a ) , p r e v i s t a como coroamento de sua obra

f i c c i o n a l (já e n t ã o com o i n t u i t o de f a z e r " l i t e r a t u r a engajada", como s e d i z i a ) e r a mal r e a l i z a d a e s e aproximava da " T r i l o g i a " como t e o r e qualidade.

As r e s t r i ç õ e s dos a r t i g o s i n i c i a i s não a g r a d a r a » obviamente Oswald, que se defendeu me atacando de r i j o num a r t i g o depois r e c o l h i d o no volume Ponta de lança. Mas ao v e r que eu continuava a n a l i s a n d o a sua p r o d u ç ã o de maneira o b j e t i v a v o l t o u às boas, e a p a r t i r do desentendimento as nossas r e l a ç õ e s , antes apenas c o r d i a i s , tornaram-se amizade e s t r e i t a .

Concordo que é banal d i z e r de a l g u é m que è d i v i d i d o , porque no fundo todos somos. Mas ha d i v i s ã o e d i v i s ã o . M á r i o de Andrade d i s s e num verso conhecido:

Eu sou t r e z e n t o s , sou t r e z e n t o s e c incoent a,

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Mas um d i a a f i n a l eu t o p a r e i comigo,

e procurou cumprir e s t e programa. De f a t o , o seu e s f o r ç o f o i sempre buscar unidade na v i d a e na obra, podendo d i z e i — s e que tentou arduamente a c o e r ê n c i a sem desconhecer as i n c o e r ê n c i a s , como convinha a homem tão lúcido e r e f l e x i v o .

Oswald, ao c o n t r á r i o , e r a e s p o n t â n e o e i n t u i t i v o , mentalmente b r i l h a n t e , mas P O U C O ordenado. Por i s s o nunca procurou domar racionalmente o jogo das c o n t r a d i ç õ e s . Viveu com e l a s e e l a s formaram os d o i s blocos opostos a que a l u d i e indicam c e r t a i n c o e r ê n c i a , que a l i á s p a r e c i a não p e r t u r b á - l o . Com sua enorme força de v i d a e l e sempre a r r a s t o u tumultuosamente as c o n t r a d i ç õ e s não s o l u c i o n a d a s .

Procurando s u g e r i - l a s , c o m e ç o por v e r i f i c a r rapidamente o que ocorre em sua obra n a r r a t i v a , a única que a b o r d a r e i ,

lembrando que e l e è quase sempre e x c e l e n t e na p o e s i a , no t e a t r o e no debate de i d é i a s .

No "Par" domina uma linguagem condensada e f u l g u r a n t e , um e s t i l o de t e n d ê n c i a f r a g m e n t á r i a admiravelmente adequado à v i s ã o a n t i - c o n v e n c i o n a l , à completa a u s ê n c i a de sentimentalismo, ao sarcasmo e ao mais acerado humor. Na " T r i l o g i a " parece que e s t a e s c r i t a , aparentemente a mesma, perdeu as a s a s , p o i s não se a j u s t a à c o n c e p ç ã o do mundo e dos personagens, tornada convencional e s e n t i m e n t a l , séria e n t r e aspas, p r ó p r i a da l i t e r a t u r a de tonus baixo. 0 "Par" corresponde a um modo modernista e a v a n ç a d o , enquanto a " T r i l o g i a " corresponde a um modo p e l i n t r a de origem d e c a d e n t i s t a , i s t o è, aquelas r a í z e s i n d i s c r e t a s que Oswald não conseguiu l i q u i d a r de todo. Por i s s o , no

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"Par" as imagens são novas» ousadas e c r i a d o r a s , mas na " T r i l o g i a " são a r t i f i c i a i s e g r a n d i l o q ü e n t e s . E n t r e t a n t o , os d o i s grupos de obras foram compostos praticamente lado a lado, int e r c a l ando-se como se o autor se desdobrasse num modernista e num p a s s a d i s t a » num e s c r i t o r aparentado às vanguardas e u r o p é i a s e num e s c r i t o r l i g a d o t a n t o à " é c r i t u r e a r t i s t é " quanto à r e t ó r i c a neo-s i m b o l i neo-s t a .

Nessa d i f e r e n ç a de "modos"» a p r e s e n ç a ou a u s ê n c i a do humor deve t e r s i d o d e c i s i v a , sendo c e r t o que uma das grandes

l i ç õ e s do nosso Modernismo f o i o papel p r o f i l á t i c o » regenerador e humanizador do humorismo. "0 c l a r o r i s o dos modernos"

( t i t u l o de um a r t i g o de Ronald de C a r v a l h o ) operou p r o d i g i ó s de h i g i e n e mental e s o c i a l , c a r a c t e r i z a n d o os grupos e s t e t i c a m e n t e c o e r e n t e s » enquanto os e s c r i t o r e s mais c o n v e n c i o n a i s se r e v e s t i r a m de uma s e r i e d a d e pouco s é r i a que deve t e r c o n t r i b u í d o para l e v à - l o s a p o s i ç õ e s r e a c i o n á r i a s a p a r t i r de um modernismo equivocado. Na l i t e r a t u r a b r a s i l e i r a de nossos d i a s há n o t ó r i a e l a m e n t á v e l d e c a d ê n c i a do humor, que agora só é c u l t i v a d o p e l o s humoristas propriamente d i t o s , deixando de s e r a b r i l h a n t e senha que f o i para t a n t o s e s c r i t o r e s a v a n ç a d o s do periodo e n t r e as duas g u e r r a s . Ê o c a s o , por exemplo, das vanguardas dos ú l t i m o s d e c ê n i o s , que s ã o compenetradas e sem graça» porque se levam a s é r i o demais; e i s s o pode s e r um p e r i g o na v i d a i n t e l e c t u a l .

Com os modernistas de 22 e r a d i f e r e n t e , e nenhum d e l e s mais do que Oswald usou o " c l a r o r i s o " como i n g r e d i e n t e

l i b e r t a d o r , que n e l e f o i também c o n d i ç ã o de e x c e l ê n c i a . Sempre que p ô s de lado o humor, na " T r i l o g i a " ou no Marco Zero* a t e n s ã o baixou, e do Oswald r e b e l d e e c r i a d o r desprendeu-se um surpreendente Oswald

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s e n t i m e n t a l » bem menos c e r t e i r o .

Mas as c o n t r a d i ç õ e s não e x i s t i a m apenas na obra n a r r a t i v a ; estavam p r e s e n t e s também no seu c o m p o r t a m e n t o » no seu modo de s e r e até de f a l a r . Um t r a ç o que só pode s e r a v a l i a d o p e l o s que o conheceram pessoalmente e r a o seu j e i t o empolado de d i z e r poemas e f a z e r d i s c u r s o s . Eu o v i d i v e r s a s vezes n e s s a s a t i v i d a d e s e pude v e r i f i c a r que usava uma d i c ç ã o cantada» modulando a voz como se e s t i v e s s e imitando oradores c a n a s t r õ e s . Nesse tom fez» por exemplo» o b e l í s s i m o d i s c u r s o na s e s s ã o de encerramento do l o Congresso B r a s i l e i r o de E s c r i t o r e s (1945)» como se dentro do i c o n o c l a s t a i r r e v e r e n t e da Semana s o b r e v i v e s s e o orador o f i c i a l (que de f a t o f o i ) do Centro A c a d ê m i c o da Faculdade de Direito» o XI de Agosto.

Também na v i d a pessoal Oswald denotava c o n t r a d i ç õ e s i n t e r e s s a n t e s . E l e casou s e i s vezes» geralmente com alguma

formalidade de t i p o l e g a l ou religioso» e i s s o lhe deu fama de imoral e ant i - f a m i 1 i a r na e s f e r a das c l a s s e s m é d i a e a l t a de São Paulo. Ora» eu o ouvi d i z e r mais de uma vez» meio sério» meio brincando» mas com visível i n t u i t o de a f i r m a r a sua natureza» c o i s a s como: "Eu sou f a m í l i a ! " Ou: "Eu sou o b r a s i l e i r o que mais r e s p e i t a o casamento. Quando quero uma mulher» caso com ela» ao c o n t r á r i o da m a i o r i a dos homens» que só têm uma mulher legal» mais muitas amantes s u c e s s i v a s " .

Vejo n e s t a a t i t u d e não apenas p a r a d o x o » mas t a m b é m mais r e s p e i t o p e l a mulher e p e l a família do que é h a b i t u a l na sociedade b r a s i l e i r a . A prova e r a a o r g a n i z a ç ã o da sua v i d a doméstica» o ritmo dos eventos familiares» com f e s t a s » reuniões» a l m o ç o s ; ou o i n t e r e s s e pelo desenvolvimento mental de suas c o m p a n h e i r a s »

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c u l t u r a ; ou, a i n d a , a d e d i c a ç ã o e o profundo amor p e l o s f i l h o s . S i g n i f i c a t i v a m e n t e , e s t e s , oriundos de t r ê s casamentos, acabaram sempre f i c a n d o com e l e nos casos de s e p a r a ç ã o , n ã o com as m ã e s , o que é Índice do seu sentimento de r e s p o n s a b i l i d a d e f a m i l i a r .

Concluo que h a v i a n e l e o r e s p e i t o p e l a mulher num plano e s s e n c i a l . Dai o f e r v o r com que p r e c o n i z a v a a sua l i b e r d a d e e v a l o r i z a v a o seu p a p e l . Verdadeiro p r e c u r s o r ,

q u e r i a v ê - l a como e i x o da sociedade, remontando para j u s t i f i c a r - s e a t e o r i a s mais ou menos v á l i d a s sobre o m a t r i a r c a d o , que l h e s e r v i r a m como ponto de apoio para condenar o p a t r i a r c a l i s m o a u t o r i t á r i o e a b r i r a p e r s p e c t i v a de um estado de c o i s a s onde a p r e p o n d e r â n c i a feminina p e r m i t i r i a a

igualdade e c o n ô m i c a e o fim da v i o l ê n c i a . Convenhamos que a s e r o Barba Azul da lenda, s e r i a um c u r i o s o Barba Azul f a m i l i a r e femin i s t a . . .

T a l v e z v a l h a também a pena a l u d i r à r e l i g i ã o , p o i s nesse contundente a d v e r s á r i o dos padres e da i g r e j a o f i c i a l , que dava a i m p r e s s ã o de t e r superado i n t e i r a m e n t e a idéia de Deus, h a v i a um s u b s t r a t o de f é , t r a d u z i d o no acatamento por h á b i t o s e p r á t i c a s p r ó p r i o s de pessoas o b s e r v a n t e s . Os seus l i v r o s , a t é A estrela de absinto i n c l u s i v e ( 1 9 2 7 ) , terminavam p e l a fórmula de louvor a Deus: "Laus Deo". Sabe-se que eventualmente rezava e houve quem o v i s s e usando bentinhos debaixo da camisa. É p r o v á v e l que na r a i z dessas s o b r e v i v ê n c i a s e s t i v e s s e a lembrança a r r a i g a d a de sua m ã e , que o educou na mais e s t r i t a fé c a t ó l i c a e c u j a m e m ó r i a e l e sempre venerou.

Menos importante, mas ainda assim valendo m e n ç ã o , é a p r o s á p i a g e n e a l ó g i c a desse r e b e l d e i g u a l i t á r i o , que a p a r t i r de

1930 f o i comunista m i l i t a n t e e atacou de v á r i o s modos a burguesia e suas pompas. Com

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ar de e s t a r fazendo blague, nunca deixava de mencionar por e s c r i t o ou em conversa» quando

f o s s e o caso» que e r a descendente do C a p i t i o -Mor T o m é Rodrigues Nogueira do Ú» fundador de Baependi no c o m e ç o do s é c u l o X V I I I e tronco de uma importante família m i n e i r a depois a l a s t r a d a por São Paulo e Rio» com m a r q u e s e s » condes e b a r õ e s do I m p é r i o . Isso» do lado do pai» J o s é Oswald Nogueira de Andrade. Pelo lado da mãe se orgulhava de descender dos "Souzas de M a z a g ã o " , defensores d e s t a ú l t i m a p r a ç a f o r t e portuguesa em Marrocos» aos quais contava que o Rei D. José I mandara "dar o P a r á " , depois de Pombal l h e haver dito» em r e s p o s t a a uma pergunta d e s d e n h o s a » que eram " t ã o nobres quanto Vossa Majestade".

F i n a l m e n t e » o i c o n o c l a s t a que r i a das i n s t i t u i ç õ e s o f i c i a i s ensaiou duas vezes c a n d i d a t a r - s e à Academia B r a s i l e i r a de L e t r a s e quis s e r p r o f e s s o r u n i v e r s i t á r i o » fazendo em 1945 um concurso de L i t e r a t u r a B r a s i l e i r a do qual s a i u L i v r e - D o c e n t e » e ensaiando outro de F i l o s o f i a no c o m e ç o dos anos de 1950. Eu d i r i a para b r i n c a r um pouco que naquela a l t u r a e l e e s t a v a se contradizendo ao querer s e r "chato-boy", i s t o è» e q u i v a l e n t e aos rapazes segundo e l e e s t u d i o s o s , s e n s a t o s e s e n s a b o r õ e s » e n t r e os quais eu... A i , Oswald p a r e c i a querer e n t r a r na pele da e n g r a ç a d a alcunha que inventou para c a ç o a r dos jovens u n i v e r s i t á r i o s de São Paulo.

2.

Passo agora a outro t ó p i c o , c u j a e x p o s i ç ã o pode dar elementos para i l u s t r a r o ant e r i o r .

Em 1926 e l e fez uma viagem ao O r i e n t e P r ó x i m o , na companhia do f i l h o mais velho (único naquele tempo) José Antonio Oswald ( N o n ê ) , da e n t ã o esposa T a r s i l a do

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Amaral e dos c a s a i s A l t i n o Arantes e C l á u d i o de Souza* gente do t i p o mais convencioanl que se possa imaginar. A l t i n o Arantes - c a t ó l i c o piedoso* autor de um e s c r i t o sobre /4 devoção

mariana perante a razão e o coração - f o i

p o l i t i c o importante, i n c l u s i v e P r e s i d e n t e do Estado de S ã o Paulo de 1916 a 1920, orador, membro da Academia P a u l i s t a . C l á u d i o de Souza passou bem cedo da medicina aos n e g ó c i o s e ganhou fama como autor de algumas pecas de ê x i t o , como Flores de Sombra. E r a da Academia B r a s i l e i r a de L e t r a s e f o i depois mentor do PEN Clube do B r a s i l , c a r a c t e r i z a n d o - s e como

l i t e r a t o do t i p o "homem de s a l a " .

N i n g u é m imagina hoje e s t a companhia tão e s t r a n h a para um Oswald que as g e r a ç õ e s a t u a i s imaginam como um s e r à margem da v i d a burguesa. Mas, à maneira de outros modernistas, e l e t i n h a l i g a ç õ e s normais com e l a e a s manteve mesmo depois de e n t r a r na l u t a comunista.

Os v i a j a n t e s embarcaram em Marselha no vapor Lotus, v i s i t a r a m N á p o l e s , Pompeia, a G r è c i a , Rodes, C h i p r e , a S i r i a , a P a l e s t i n a e o E g i t o . A e x c u r s ã o rendeu duas r e p r e s e n t a ç õ e s l i t e r á r i a s : uma f i c c i o n a l de Oswald de Andrade, que è a viagem em e s c o r ç o p i t o r e s c o de seu personagem Serafim Ponte Grande; e um r e l a t o de C l á u d i o de Souza, o

l i v r o De Fáris ao Oriente, 2 volumes, R i o , G r á f i c a Sauer, 1928.

0 e s c r i t o de Oswald está na p a r t e do romance i n t i t u l a d a por a n t i f r a s e "Os e s p l e n d o r e s do O r i e n t e " . S ã o poucas p á g i n a s de prosa s i n t é t i c a , costurada de imagens em c a s c a t a , nas quais um O r i e n t e e s q u á l i d o é c e n á r i o da v e r t i g i n o s a p e r s e g u i ç ã o e r ó t i c a das duas mocas, Pafuncheta e Caridad C l a r i d a d , pelo p r o t a g o n i s t a . A e x p e r i ê n c i a da viagem è t r a n s f i g u r a d a em s u b s t â n c i a de f i c ç ã o .

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viagem como e l a ocorreu* mas sem e x a t i d ã o d o c u m e n t á r i a » p o i s c o m e ç a por s u p r i m i r o menino e as t r ê s senhoras. 0 narrador è a n ô n i m o e os nomes dos companheiros s ã o d i s c r e t a m e n t e a l t e r a d o s : A l t i n o Arantes é Amaral e Oswald» Gonçalo» n ã o havendo p o r é m r a z ã o para pensar que tenha havido d i s t o r ç ã o e s s e n c i a l dos fatos» além de toques

l i t e r á r i o s i n e v i t á v e i s . Ê p o s s í v e l que C l á u d i o de Souza a l t e r a s s e o r e a l p e l a

imaginação» mas se assim f o i e l e o f e z com grande p r o p r i e d a d e » porque sentimos o tempo todo em G o n ç a l o a maneira de Oswald. Imagino que as d i f e r e n ç a s (também s e n s í v e i s em muitos t r e c h o s ) se devam ao f a t o de C l á u d i o de Souza r e d u z i r ao seu j a r g ã o p r ó p r i o o que f e z e d i s s e o companheiro de excursão» ou de d e s c r e v e r como e f e t i v o o que pode n ã o t e r passado de p o s s i b i l i d a d e .

Assim» há um momento em que Gonçalo» a b o r r e c i d o p e l a f a l t a de banho no h o t e l , em Atenas, r e s o l v e l a v a r - s e na t o r n e i r a do c o r r e d o r , nu em p ê l o ( v o l . I , p. 5 1 ) . Pode-se supor que Oswald tenha a m e a ç a d o burlescamente fazê-lo e C l á u d i o de Souza a p r o v e i t o u paa c o n s t r u i r a cena. No caso das

f a l a s è p r o v á v e l que tenha procurado r e p r o d u z i - l a s com e x a t i d ã o , acabando no entanto por deformar sem querer, ao p a s s á - l a s pelo coador mediocre de sua prosa. Dai haver

quase sempre um ar de d i f e r e n ç a na s e m e l h a n ç a . Mas i s t o posto v o l t o a observar

que a i n v e n ç ã o , o p a s t i c h e ou a p a r ó d i a e v e n t u a i s correspondem ao que e r a Oswald, permitindo c o n s i d e r a r De Paris ao Oriente documento v á l i d o no g e r a l . Com uma r e s s a l v a , t o d a v i a : quem está em cena é um Oswald em plena a t i v i d a d e de "espantar o b u r g u ê s " , p o i s é p r o v á v e l que em face daqueles d o i s monumentos a c a d ê m i c o s bem pensantes a sua

verve se s e n t i s s e e s p i c a ç a d a e e l e assumisse

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c r i a n d o o e s c â n d a l o p o s s í v e l .

Desde o c o m e ç o sentimos a sua p r e s e n ç a em Gonçalo» como e l e gordo» alegre» e x u b e r a n t e » i c o n o c l a s t a e b r i n c a l h ã o » mas com um toque mais carregado de futurismo» t a l v e z a maneira de C l á u d i o de Souza r e c e b e r a mensagem m o d e r n i s t a » sempre a s s i m i l a d a aos p a d r õ e s de M a r i n e t t i p e l a o p i n i ã o m é d i a . Ao j e i t o de M a r i n e t t i » G o n ç a l o tem h o r r o r dos m o n u m e n t o s » da a r t e t r a d i c i o n a l » n ã o r e s s a l v a n d o nada. E à maneira de Oswald, u s a a cada momento o paradoxo como arma de ataque e p r o v o c a ç ã o . Por exemplo» quando r e a b i l i t a o porco ou d e s q u a l i f i c a a porta» que segundo e l e é uma c o n t r a d i ç ã o » ao abrir o acesso de um espaço» a casa» f e i t o para s e r fechado (I» 8 - 9 ) . Blagues de Oswald? P a r ó d i a s pert i n e n t e s ?

Também m a r i n e t t i a n o é o constante louvor que G o n ç a l o f a z à v i d a t u m u l t u o s a » à s p a i s a g e n s c o n v u l s a s » c o n t r a p o s t a s aos e q u i l í b r i o s serenos» a t i t u d e s mentais que correspondem a um modernismo de programa. Mais c a r a c t e r í s t i c o é o c o m p o r t a m e n t o » como em c e r t a b r i n c a d e i r a na Siria» quando os v i a j a n t e s s ã o surpreendidos por um "Viva o Doutor Amaral» futuro P r e s i d e n t e da R e p ú b l i c a do Brasil"» p a r t i d o em p o r t u g u ê s de um grupo de á r a b e s . E r a um s i r i o que v i v e r a em Minas e

f o r a emprazado por G o n ç a l o . . . (I» 96) Bem oswaldiano è o e p i s ó d i o em Chipre» onde os v i a j a n t e s s ã o c i c e r o n a d o s por um estudante grego que amava c e r t a moça cipriota» c u j o p a i o r e j e i t a v a por n ã o l h e conhecer a f a m í l i a . E n t ã o G o n ç a l o a r q u i t e t o u o plano de a p r e s e n t a r - s e com os amigos como sendo p a r e n t e s » e ante o aspecto bem posto do grupo o p a i c o n s e n t i u no casamento (I» 8 5 ) . Quem conheceu Oswald ou l e u as suas m e m ó r i a s sente a r e a l i d a d e p r o v á v e l do r e l a t o .

Tipicamente oswaldiana è a o b s e r v a ç ã o de G o n ç a l o no V a l e de Josafá»

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depois de t e r a v a l i a d o as suas d i m e n s õ e s : "- Estamos l i v r e s do j u r i f i n a l . 0 e s p a ç o n ã o chega nem para a p o p u l a ç ã o da P a l e s t i n a que é de 80.000 h a b i t a n t e s " . ( I , 193)

Ou também a sua r e c u s a de p a r t i c i p a r de uma e x c u r s ã o pelo N i l o , alegando que e l a e s t a v a toda no f o l h e t o t u r í s t i c o . E como prova e x p ô s por e s c r i t o o que s e r i a a banalidade do p a s s e i o , terminando assim:

"0 E g i t o , a G r é c i a , Roma a n t i g a ,

et coeteratt et a coet era, s ã o pedras,

l i t i a s e s , s ã o c á l c u l o s r e n a i s a que os u r e t e r e s deram formas e x ó t i c a s de Partenons, de P i r â m i d e s , de Mesquitas, de C o l i s e u s , do diabo a quatro e e s t ã o obstruindo a alma e s t é t i c a u n i v e r s a l como f e n ô m e n o s de r e t e n ç ã o

que a c a b a r ã o em uremia grave". ( I I , 110)

C l á u d i o de Souza c o m e ç a a alegada t r a n s c r i ç ã o dizendo: "Dou a s e g u i r as notas que e l e j u r a nunca me haver enviado". I s s o t a l v e z q u e i r a d i z e r que se neste caso e l e deixou ver que se t r a t a v a de p a r ó d i a , t a l v e z nos outros tenha mesmo efetuado o r e g i s t r o , tão f i e l quanto f o i capaz de r e a l i z a r , dos atos e d i t o s de Oswald. E o que sentimos em c e r t o s momentos que correspondem ao que e l e era e f a z i a .

Na I g r e j a da Pompeia, por exemplo, o narrador v i com s u r p r e s a o i r r e v e r e n t e G o n ç a l o rezando. "A um o l h a r meu respondeu com o seu s o r r i s o de sempre:

- Com i s t o n ã o se b r i n c a meu c a r o . Futurismo è lá f o r a ! ( I , 31)

Em J e r u s a l é m G o n ç a l o demonstra p o s s u i r sobre t a p e t e s o r i e n t a i s um saber que causa a d m i r a ç ã o aos companheiros. Mas descobrimos, depois, que se s e r v i a de uma c a t á l o g o da O r i e n t a l Carpet Co. que t r o u x e r a de Esmirna". ( I I , 33)

(11)

e f r a g m « ? n t á n af transformada em aparente e r u d i ç ã o , e r a h a b i t u a l em Oswald, l e i t o r

impaciente e salteado» que à s vezes c o r t a v a apenas p a r t e de um l i v r o , sobre o qual podia n ã o obstante f a l a r com p e r t i n ê n c i a , g r a ç a s ao t a l e n t o e x c e p c i o n a l e à capacidade de "pegar no a r " . Do mesmo modo, è f i e l o tom de c e r t a s t i r a d a s de ê n f a s e d e s c o n c e r t a n t e ; ou de c e r t a s f ó r m u l a s que t r a n s i t a m da pompa v e r b a l à melhor e x p r e s s i v i d a d e , como d i z e r que o O r i e n t e è "hoje uma o f t a l m i a p u r u l e n t a que se enxuga à s f r a l d a s da m i s è r i a ( I I , 173). Para n ã o f a l a r em achados e t r o c a d i l h o s n o t á v e i s , mesmo f i l t r a d o s p e l a e s c r i t a a c a d ê m i c a do n a r r a d o r , e é o caso das v e l h a s p r o s t i t u t a s e g í p c i a s , com t a b u l e t a s indicando idades

f i c t i c i a m e n t e r e d u z i d a s :

"- F o i para saber ao c e r t o a idade d e s s a s mulheres - g r i t o u G o n ç a l o - que P i t á g o r a s inventou sua t á b u a de m u l t i p l i c a ç ã o quando e s t e v e em A l e x a n d r i a ! . . . "

"- Atenção» amigo» em cada uma d e s s a s mulheres quase um s é c u l o vos contempla!..." ( I I , 1A0 e 161) Em N a z a r é ( c i d a d e que e s t i m u l a a l i t e r a t i c e devota e s e n t i m e n t a l ) G o n ç a l o s a i u a p a s s e i o e logo v o l t o u trazendo a s e g u i n t e d e s c r i ç ã o o r a l : E s c u r o . L a d r i d o s . T r o p e ç õ e s em pedras s o l t a s . Quem vem lá? D. Juan que v a i à c a ç a . . . A u . . . ã o . . . ã o . . . ã o . . . Ouve-se uma c o r n e t a : T a . . . t e . . . r e . . . t i . . . Quartel de p o l i c i a : T i . . . r i . . . t i . . . r i . . . t i . . . r i . . . Canta um g a l o : Ki . . . k i . . . r i . . . k i . . . k i . . . i . . . i . . . Responde-lhe uma g a l i n h a : C ô . . . c ô . . . r è . . . c ó . . . E afirmou c a t e g ó r i c o : - Quem ao o u v i r e s t a d e s c r i ç ã o n ã o " s e n t i r " uma n o i t e em N a z a r é , è uma animal bipede com c é r e b r o de q u a d r ú p e d e . " ( I , 119)

Ainda a q u i : r e p r o d u ç ã o mais ou menos f i e l ? P a r ó d i a ? G o n ç a l o è um Oswald

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p o s s í v e l e deve corresponder com c e r t a f i d e l i d a d e ao que f o i o v i a j a n t e s i n g u l a r no meio dos d o i s f i g u r õ e s s o l e n e s que o viam com c e r t a c o n d e s c e n d ê n c i a compreensiva... E o r e l a t o documenta o que eram capazes de perceber n e l e . Ainda aqui, portanto, pode-se d i z e r f o r ç a n d o a nota que há d o i s Oswalds» embora noutro s e n t i d o : o de verdade e o Oswald v i s t o p e l a sociedade c o n v e n c i o n a l , meio p e r p l e x a com a sua r e b e l d i a g e n i a l .

Referências

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