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Software livre e educação

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GRANDE DO SUL

PROGRAMA DE PÓS GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO NAS CIÊNCIAS

MESTRADO

RONALDO CÉSAR DARÓS

SOFTWARE LIVRE E EDUCAÇÃO

Ijuí

2010

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SOFTWARE LIVRE E EDUCAÇÃO

Dissertação apresentada ao Curso de

Pós-Graduação Strictu Sensu – Mestrado

em Educação nas Ciências,

Departamento de Pedagogia (DEPE), da

Universidade Regional do Noroeste do

Estado do Rio Grande do Sul (UNIJUÍ),

requisito parcial para obtenção do grau

de Mestre em Educação.

Orientador: Dr. Paulo Afonso Zarth

Ijuí

2010

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SOFTWARE LIVRE E EDUCAÇÃO

elaborada pelo mestrando

RONALDO CÉSAR DARÓS

como requisito parcial para obtenção do grau de MESTRE EM EDUCAÇÃO NAS CIÊNCIAS.

COMISSÃO EXAMINADORA:

Prof. Doutor Paulo Afonso Zarth (Orientador – DCS/UNIJUÍ)

Prof. Doutor Walter Franz (DCS/UNIJUÍ)

Profª. Doutor Antônio Inácio Andrioli (UFFS)

Ijuí, 28 de abril de 2010. Rio Grande do Sul.

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Ao Professor Paulo Zarth que me aceitou no meio do caminho e pelas suas preciosas colaborações no direcionamento do trabalho. Ao corpo docente do Mestrado em Educação nas Ciências da Unijuí que, corajosamente contribuem para o fortalecimento da Universidade na Região Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul, em especial aos professores da linha “três”, Educação e Movimentos Populares, por terem me garantido na opção quando tudo levava a crer que seria o contrário.

A todas as pessoas que sempre estão perto da gente aturando as mais incertas manifestações motivadas pelas constantes crises diante de todas as incertezas que a vida nos coloca na frente.

A todos os cachorros, gatos, patos, marrecos, passarinhos, galinhas, árvores, flores, matos, vacas, bodes e formigas que representam, em uma simples e limitada recordação, os elementos da natureza que nos ocupam nas horas vagas favorecendo que todo conhecimento forçosamente assimilado ganhe consistência através do ócio.

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sou contra o computador: o fundamental seria nós podermos programar o computador. É a questão do poder: é saber a serviço de quem ele é programado para nos programar.

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O presente trabalho pretende abordar, a partir da concepção de tecnologia e sua interação com a sociedade atual, a relação existente entre o Software Livre, em sua concepção teórico-prática, e as práticas educacionais, por meio de uma pesquisa bibliográfica e documental. Com uma metodologia de desenvolvimento e aplicação própria, o Software Livre contempla, na sua essência, princípios pedagógicos que vão ao encontro da proposta de uma educação libertadora. Este tipo de educação preconiza um ambiente educacional atento a todos os movimentos sociais, que aborda as diferentes realidades e, acima de tudo, se preocupa em motivar a autonomia nos educandos, para que se tornem protagonistas de sua própria história. O Software Livre, pelo fato de possuir seu código-fonte aberto, apresenta uma característica única, a de se desenvolver coletivamente, contando com colaborações e contribuições das mais diversas realidades possíveis e resultando em um trabalho completamente humano, tal como as tecnologias que, diferentemente de serem mérito de uma só pessoa, acumulam o conhecimento agregado ao longo dos tempos.

Esta pesquisa aborda conceitos de liberdade, protagonismo e autonomia, dentro da concepção de que tudo é fruto do trabalho humano e é para este Ser que o resultado destas inovações deve se voltar.

Palavras-chave:

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This work looks to approach, by the conception of technology and its actual social interaction, the relation existent between the Free Software, on its theoretical-practical conception, and its educational practices, by a documental and bibliographic research. With a methodology of development and self application, the Free Software encompasses, on its essence, a pedagogical principle that goes to find a purpose of a liberating education. This type of education advocates an educational ambient attentive to every social movements, which approaches the different realities and, above all, its concerned on motivating the learners autonomy, so they can be protagonists of they own story. The Free Software, by the fact of having an open source, presents a unique characteristic, of developing collectively, counting with collaborations and contributions of all the possible realities and resulting on a completely human work, as well as the technologies that, differently of being merit of only one person, accumulate the knowledge aggregate during the years.

This research approach liberty, role and autonomy concepts, inside the conception that everything is result of human job and it’s for this Being that the results of these innovations needs to turn.

Keywords:

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INTRODUÇÃO...9

1 - A “SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO” COMO IDEOLOGIA...17

1.1 - O CONCEITO DE TECNOLOGIA...19

1.2 - O PAPEL DA INFORMÁTICA NA EDUCAÇÃO, MUITO ALÉM DA INFORMAÇÃO...26

2 - O SOFTWARE LIVRE...43

2.1 - PROCESSO DE DESENVOLVIMENTO E SOBREVIVÊNCIA DO SOFTWARE LIVRE...50

2.2 - SOFTWARE LIVRE COMO PROCESSO DE INCLUSÃO CRIATIVA...56

3 - SOFTWARES E EDUCAÇÕES LIVRES...59

3.1 – CENTRO DE RECONDICIONAMENTO (RECICLAGEM) DE COMPUTADORES...59

3.2 – ROBÓTICA LIVRE...67

CONSIDERAÇÕES FINAIS...70

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INTRODUÇÃO

Vive-se hoje num contexto em que a todo momento as tecnologias ampliam sua área de abrangência. O contato com a elevada gama de ferramentais que são adicionados freneticamente nos ambientes de convivência e rotina humana, acaba por se tornar imprescindível. O comportamento diante deste fenômeno possui um significado que vai muito além do simples emprego destes ferramentais. Diante de uma escolha, podemos optar por usufruir da técnica, ser dominados por ela ou pautar o seu desenvolvimento conhecendo profundamente sua essência, considerando valores e formas de vida sempre como superiores aos interesses diversos que costumeiramente motivam os investimentos.

Sempre a cada tempo novas teorias surgem e são aperfeiçoadas ou readaptadas conforme as circunstâncias e conveniências. Em sua plena essência, porém, notamos que de fato pouco há de novidade. Geralmente o que é apresentado como novo, nada mais é do que o velho, repaginado.

Com o advento da informática e sua consequente inserção nos mais diversos setores da sociedade, vislumbram-se novas metodologias para os processos educativos, consideradas às vezes como revolucionárias. São apresentadas novas formas de docência que utilizam ambientes assíncronos e virtuais para compartilhamento de conteúdos; novas ferramentas são incorporadas às metodologias de alfabetização com o intuito de motivar os educandos para que possam obter um melhor aproveitamento de sua vida escolar e, por conseguinte, novas exigências são impostas aos docentes a fim de que se mantenham atualizados diante de tanta demanda criada a partir da convivência com os aparatos tecnológicos.

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colocam diante de reais possibilidades com um elevado grau de facilidade, educadores, teóricos, educandos e demais usuários das tecnologias recentes, geralmente abandonam concepções de longa discussão na compreensão de que isto nada tem a ver com o novo momento que estamos vivenciando, o da informatização da sociedade. É como se comparássemos uma carga de explosivos sendo conduzida por uma carroça tracionada por uma junta de bois que, mais tarde, com a evolução das técnicas de produção e construção de estradas, passa a ser conduzida por um caminhão por uma rodovia pavimentada. Neste caso, a forma de transporte foi aperfeiçoada, tornou-se mais ágil, segura e eficiente. A carga, porém, continua a mesma, com igual grau de periculosidade de modo que, se acionada, poderia destruir tanto a carroça e a junta de bois quanto o moderno caminhão. O problema disso é que, em ambos os casos, os condutores certamente não sobreviveriam, independente da modernidade e das tecnologias aplicadas para o transporte.

Do mesmo modo, educadores carregam consigo as supostas novas formas de educação sem ter a verdadeira consciência de que tipo de educação está se tratando. Dessa forma, não serão os aparatos tecnológicos que garantirão uma educação libertadora, tão sonhada e desejada pelas correntes de educação popular. Por meio de uma análise mais aprofundada, porém, pode-se afirmar que, por detrás de cada tecnologia, existe demarcadamente influências e orientações de cunho ideológico pelo simples fato de que estas tecnologias são criadas e produzidas por seres humanos. O conhecimento vai se desenvolvendo ao longo da História, agregando contribuições inúmeras para se chegar aos produtos finais. Esse agregamento de ideias e saberes vai construindo o conhecimento capaz de resultar em um produto. Trata-se da técnica de criação e produção de cada elemento empregado a fim de representar o desenvolvimento.

Num linguajar mais prático, podemos citar o exemplo do computador, foco central como objeto para a constituição das letras propositadamente aglutinadas nas páginas seguintes, até o final do presente trabalho. Este aparato tecnológico - o computador - não foi criado somente por uma pessoa, mas por conhecimentos

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sistematizados ao longo dos anos por diversas equipes de pesquisadores que, ao socializarem seus inventos, resultados de suas pesquisas, permitiram que demais grupos, de diversas partes do mundo, pudessem aperfeiçoar a invenção, agregando a ela mais potencialidades e transformando-a naquilo que representa hoje na nossa sociedade. A máquina computador que temos hoje não é resultado de um único foco de trabalho. Durante um certo estágio de seu desenvolvimento ele foi usado para a guerra. Por este mesmo motivo surgiu a Internet, que hoje exerce um papel fundamental na constituição das redes sociais, pelo seu enorme e qualificado potencial de comunicação.

Da mesma forma que a motivação bélica, outras prioridades alavancaram inúmeros inventos relacionados ao desenvolvimento do computador e de suas capacidades. Elas tiveram seu foco na melhoria da qualidade de vida dos seres humanos, como, por exemplo, no desenvolvimento de equipamentos utilizados nos diagnósticos e tratamentos de saúde, bem como nas diversas soluções que permitem a convivência organizada nas sociedades, tais como todas as aplicações destinadas à ampliação do espaço democrático, pela da democratização da comunicação, ou, ainda, pelas possibilidades criadas para que participemos da vida e da escolha política de nosso país, dentre tantas outras criações que estão a serviço da sociedade.

No mesmo enfoque, percebemos a estreita relação da microinformática com o ser humano por intermédio daqueles instrumentos que não possuem formato de computador, nem são considerados como tais, mas seguem o mesmo princípio e deles são derivados. Como exemplo disso podemos citar o telefone celular, que é um equipamento dotado de um microprocessador, memória para armazenamento e dispositivos de entrada e saída. Todas estas características são as mesmas de um computador do tipo convencional, conforme costumamos empregar em nossos afazeres cotidianos. O telefone celular é considerado por algumas pessoas como um importante instrumento na democratização da comunicação. Questionamentos à parte sobre o seu ainda elevado custo de acesso no Brasil, que se deve ao fato de ser um serviço explorado com o objetivo da lucratividade, ele está presente na

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maioria dos lares brasileiros. Essa disseminação em massa permitiu que uma enorme quantidade de pessoas tivesse acesso a um meio de comunicação pessoal, que teve seu custo de aquisição reduzido drasticamente ao longo dos últimos anos.

Assim como o celular, o computador, aquele do tipo convencional, também está se disseminando a passos largos, fazendo com que a cada dia mais e mais pessoas obtenham a condição de participarem do mundo informatizado e de usufruir das vantagens que, historicamente, eram disponibilizadas apenas a uma seleta minoria.

Esta facilidade de acesso acontece, de certo modo, devido a determinados fatores, como os incentivos fornecidos pelo poder público para sua aquisição e pela grande demanda de produção que acaba por reduzir seus custos.

Diante dessa disseminação que se amplia cada vez mais, não há como não admitir que as novas tecnologias, especialmente aquelas relacionadas à microinformática, fazem parte da vida dos seres humanos na sociedade atual. Isto se percebe, ainda parcialmente quando verificada a totalidade da população, mas em ritmo muito acelerado rumo ao objetivo da plena inserção em todos os setores.

Não alheia a todo este processo está a educação. As novas tecnologias ligadas à microinformática já se encontram presentes no ambiente educacional, independente de este ser formal ou informal. A velocidade de transmissão das informações pelos recursos disponíveis na atualidade favorece que certas metodologias passem a serem revistas. Nos últimos anos, as chamadas redes sociais ganharam, com o advento da Internet, um status nunca imaginado antes. Isto faz com que o sistema educacional, de certa forma, seja forçado a se modernizar, o que nem sempre o coloca como proponente das tecnologias disponíveis. Na maioria dos casos são incorporados recursos planejados e construídos por grupos que apenas estão reproduzindo a lógica capitalista e neoliberal, e os educadores sem a devida reflexão necessária, adquirem a convicção de que se trata de um processo normal e acabam por se tornarem reprodutores desta lógica de exploração.

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A falta de conhecimento e consciência na definição das metodologias visando o uso, faz com que, muitas vezes, essas tecnologias sejam consideradas independentes e, de certo modo, autônomas, mas de fato não o são. Elas são criadas por seres humanos e por eles programadas para desempenharem determinados papéis. É um grande risco assumir uma escolha tecnológica sem conhecer sua origem e os elementos que motivaram sua criação. É um risco maior ainda assumir uma tecnologia sem a possibilidade de seu pleno controle. Em se tratando de educação seria um desastre que a proposição dos conteúdos, das metodologias e das intenções, ficasse a cargo somente dos aparatos tecnológicos empregados, sem que os educadores, mediadores dos conteúdos e responsáveis pelo processo educacional que acontece diante de si, ficassem impossibilitados de aperfeiçoá-las diante da eminente constatação de que se trata de algo repleto de inacabamentos.

Ao depositar toda a confiança na tecnologia utilizada, e diante da impossibilidade de apropriação do conhecimento embutido na solução para determinar as metodologias, o educador transfere seu poder para a técnica configurando tal atitude num nobre retorno da tecnocracia; um comportamento que é perfeitamente dissociado da concepção de educação libertadora, que percebe o ser humano como sujeito de sua própria história. Como ser sujeito, porém, se a única alternativa é obedecer normas predeterminadas sem que haja a oportunidade de uma reconstrução diferenciada delas?

Cabe então a pergunta: Em se tratando da inserção das novas tecnologias, de que tipo de educação estamos falando? É necessário que o foco na escolha de uma ou outra tecnologia seja pautado pelo critério da concepção educacional.

A proposta do presente trabalho é abordar a possibilidade de se praticar uma cultura da tecnologia, com a incorporação no modo de vida dos modernos inventos facilitadores da vida humana, sem, com isso, adotar a lógica capitalista de relações, como costumeiramente acontece quando os seres humanos tornam-se apenas

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consumidores de tecnologias. Considerando que o desenvolvimento de tecnologia é uma consequência do estudo e do aprimoramento intelectual do ser humano, esta sempre será inacabada e deverá ser constantemente aperfeiçoada. Com isso surgirão cada vez mais aparatos destinados a facilitar a vida e as atividades corriqueiramente desenvolvidas nas diversas rotinas humanas. Para que estes futuros inventos não fiquem exclusivamente sob o domínio de interesses particulares ou de grupos específicos, é necessária a completa ciência sobre quais modelos estão em questão e qual está de acordo com a proposta que queremos.

Assim é possível supor que a escolha por determinados modelos de tecnologias pode ser determinante para o resultado final daquilo que se espera durante o processo. Como hipótese fundamental, é defendida a ideia de que somente uma tecnologia aberta a interações e modificações será adequada para a prática de uma educação libertadora, com a atenção voltada, acima de tudo, para o ser humano como sujeito de sua própria história; estória esta que encontra portas abertas para ser construída inclusive na própria tecnologia que por ventura vier a ser empregada. Uma tecnologia aberta reforça a ideia de que não está pronta e não possui toda a verdade, pois necessita de contribuições constantemente para acompanhar os sinais dos tempos e fornecer a eles as respostas devidas.

Para o desenvolvimento desta pesquisa foram utilizados essencialmente materiais de natureza teórica, procurando compreender o conceito de tecnologia na visão do filósofo Álvaro Vieira Pinto, contrastando com a visão educacional proposta pelos seguidores da Teoria da Complexidade, nas semelhanças com o conceito de educação libertadora, tendo como referência Paulo Freire.

Durante o primeiro capítulo é apresentada uma definição acerca do conceito de tecnologia, conforme propostas conceituais dos autores pesquisados. Esta parte também aborda de forma geral a inserção das novas tecnologias no mundo atual, especialmente no forte movimento de globalização ocorrido nas últimas décadas e as mudanças vividas pela sociedade em decorrência desta nova configuração mundial.

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No segundo capítulo o tema abordado é o Software Livre, objeto de pesquisa deste trabalho, e que fundamenta as escolhas das referências. Esta parte do texto aborda de modo mais técnico o funcionamento do movimento do Software Livre desde o seu surgimento, incluindo suas formas de desenvolvimento. O ponto central trata o fato de que esta modalidade de compreensão também acaba por se tornar uma modalidade de intervenção no mundo, com padrões abertos que, ao socializarem incondicionalmente os conhecimentos agregados, incentivam continuadamente a pesquisa com a finalidade de aprimoramento constante.

No final do trabalho é realizada a abordagem acerca de uma experiência prática com um Centro de Recondicionamento de Computadores, iniciativa pública de inclusão digital que, além de proporcionar a socialização de conhecimentos da área tecnológica, permite que os mesmos sejam difundidos de maneira aberta e livre.

Como metodologia para a realização deste trabalho foram utilizadas referências acerca da produção de pesquisas bibliográficas e documentais conforme preconiza Lakatos (1992), estabelecendo alguns tópicos considerados fundamentais.

O primeiro deles é a identificação pessoal com a escolha do tema. A opção pela temática do Software Livre e educação vem como preferência pessoal e por afinidades. Sempre houve um interesse por tudo que diz respeito a tecnologias, especialmente na área da mecânica e eletrônica. A oportunidade de união com a educação, quando pensada na perspectiva das ciências, foi o motivo desencadeador destas investigações. Como delimitação do assunto foi focada a contribuição do Software Livre quando empregado na educação não formal. Para este ponto de vista, é importante considerar como sujeito a educação e como objeto da questão o Software Livre, na perspectiva de investigar suas relações com a educação concebida numa linha progressista, tendo como destaque sua concepção e ideologia.

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Esta ideia foi motivada por experiências de vida, nas quais foi possível a oportunidade e o desafio de confrontar os dois aspectos. Devido à quase inexistência de materiais com o referido foco de estudo, e o pouco conhecimento do objeto por parte da maioria das pessoas, a compreensão nem sempre é plena nas instâncias de debate, e a tarefa de centrar nesta delimitação apresentou dificuldades em inúmeros casos. O tema do Software Livre e educação ainda é, relativamente, pouco pesquisado e descrito, embora encontra-se vasta bibliografia quando analisados separadamente.

A sistematização das ideias e teorias surgidas durante o contato pleno com todo material arrecadado ao longo do tempo, resultante das etapas anteriormente vivenciadas pela pesquisa, configurou-se como o grande desafio final. Isto significou, mais uma vez, a escolha de um caminho correto de pesquisa, por se tratar de um tema muito pouco explorado e de extrema importância, dada a complexidade dos paradigmas atuais e a contemplação das diversas formas de agir e de pensar, especialmente quando se trata das novas tecnologias.

O acervo acumulado não resultou em um grande volume de conteúdo em forma de papel, mas de inúmeras referências dinâmicas, que se ancoram, principalmente, nas ferramentas disponibilizadas pela Internet, e que protagonizam uma permanente atualização. Muitas referências empregadas sofrem o risco de rapidamente se desatualizarem, pois estão ancoradas na rede mundial de computadores, a Internet que apresenta um elevado grau de dinamicidade na publicização de seus conteúdos.

Enfim, é através deste texto que apresento o resultado do esforço localizado nesta tarefa de pesquisa, mesmo que não esteja aqui contido em sua totalidade. Por intermédio dele demos início à reflexão sobre Software Livre e Educação, assunto não se esgota e continuaremos a desenvolver, num grande sonho de aplicá-lo na prática, pela descoberta de sua grande potencialidade de exploração.

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1 - A “SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO” COMO IDEOLOGIA

Nossa sociedade vem passando por inúmeras mudanças que refletem diretamente na maneira de ver e interagir com as coisas. O desenvolvimento da tecnologia motivou profundas alterações de comportamentos que, em tempos anteriores, consideravam-se inimagináveis e que atualmente se tornam, inclusive, fatores de dependência a certas estruturas. As relações mediadas pelas tecnologias alteraram a configuração das relações sociais. A economia globalizou sua abrangência, passando a ser uma rede de economias globalizadas e interdependentes. Fatores temporais e espaciais já não significam mais barreiras intransponíveis para a comunicação e a interação. O desenvolvimento de novas formas de comunicação contribui para a rápida integração global das diversas culturas. “As redes interativas de computadores estão crescendo exponencialmente, criando novas formas e canais de comunicação, moldando a vida e, ao mesmo tempo, sendo moldadas por ela” (CASTELLS, 2003, p. 40). Estas redes representam, sob este ponto de vista, um novo modo de modelar a sociedade.

A ótica de uma sociedade composta por redes, leva em conta diversos fatores como a liberdade das estruturas e sua relativa interdependência. Neste caso, as relações possuem sua lógica alterada, fato que tende a suprimir o conceito de verticalidade das decisões na condução de seu funcionamento. Ao mesmo tempo que não existe um único ponto/nó1 decisório, também não existe um único ponto/nó

que não sofra efeitos de quaisquer atitude tomada por algum outro. Assim, um modelo que possui suas bases no autoritarismo e na verticalidade (comando único) apresenta dificuldades para sobreviver numa sociedade pautada pelas redes. Isto foi o que aconteceu com a União Soviética com o colapso do seu estatismo, conforme relata Castells (1999, p. 86):

As redes possuem uma característica que se opõe ao verticalismo. Este por sua vez, orienta a cadeia de comando burocratizada. As redes detém um caráter flexível. Tal flexibilidade não foi assimilada pelos administradores soviéticos, ocasionando uma séria dificuldade em se adaptar e, acima de tudo, participar do modelo que estava sendo implantado, o modelo de desenvolvimento tecnológico, com estruturas livres e abertas, flexíveis e

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sem comando único.

A virada do último milênio sugere um período de mudanças que vai além da simples forma de se escrever datas. Desde então, a revolução que se instalou e que possui sua égide nas novas tecnologias, transformou o modo de pensar e de ver as coisas, contrapondo muitas teorias e dinâmicas incorporadas por intermédio da Revolução Industrial. Neste tempo, o capitalismo passou por um estágio de enfraquecimento e, com isso, se reestruturou, demonstrando sua capacidade adaptativa para se adequar a uma sociedade de redes. Algo que ele não conseguiu superar, porém, é seu instinto excludente revelado pelo avanço de suas formas de produção. Ao quantificar seu desenvolvimento por meio da nova lógica, as também novas formas excludentes vieram à tona, reapresentando as velhas práticas como novas, quando, na verdade, foram apenas repaginadas, remodeladas com diferente aparência, mas mesma essência. Atualmente milhões de pessoas são excluídas da sociedade que possui a informação como moeda; o informacionismo que “fala cada vez mais uma língua universal digital” (CASTELLS, 2003, p. 40).

A tal sociedade, considerada como sendo da informação, é pautada pela gestão das informações, sua criação, manutenção, armazenamento e distribuição. Este movimento acabou por ocasionar uma supervalorização e, até certo ponto, uma dependência das informações e das aprendizagens, o que, por sua vez, provocou a desconstrução dos valores, da política mundial e de seus respectivos paradigmas orientadores. Conceitos como tempo e espaço ganharam um novo significado nas ações a partir da consolidação deste tipo de dinâmica societária. Já não é mais necessário estar presente diante de um acontecimento para conferir sua realização, pois é possível fazê-lo por meio de aparatos tecnológicos, acessando-os a qualquer tempo e em qualquer lugar. Um tecido social tomou forma pelo compartilhamento das informações, algo que no pensamento anterior não seria concebível. Os limites espaciais e temporais não mais detém a mesma importância como fatores determinantes.

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utilizando-se dos meios informacionais para agirem e se propagarem. Com isso, torna-se bastante clara a interpretação de que a tecnologia alterou as formas de interação, ampliando a gama de possibilidades de acesso, mas a essência das intencionalidades continuam intactas. A oportunidade de acesso não possui a capacidade de alterar a motivação dos atos dos indivíduos.

Um exemplo desta situação é a preocupação por parte dos legisladores em regrar as atividades realizadas pelos meios informacionais. O Projeto de Lei (PLC 89/2003) que atualmente tramita na Câmara dos Deputados em Brasília (DF), surgiu da necessidade de se criar uma legislação mais competente que tratasse dos crimes virtuais, como a prática de spam2 e roubos de informações pessoais visando à

prática de estelionato e demais crimes, já praticados no ambiente presencial. As infrações com o uso dos meios informatizados já são realidade, mas não diferem daquelas anteriormente conhecidas, senão na sua forma de ser praticada.

1.1 - O CONCEITO DE TECNOLOGIA

Para que qualquer análise nesta área não sofra interferência no sentido de se simplificar por demais, é necessário compreender o papel da tecnologia neste modelo de sociedade, concebido como de redes.

Para dar os primeiros passos nessa direção, precisamos levar a tecnologia a sério, utilizando-a como ponto de partida desta investigação; precisamos localizar o processo de transformação tecnológica revolucionária no contexto social em que ele ocorre e pelo qual está sendo moldado; e devemos nos lembrar de que a busca da identidade é tão poderosa quanto a transformação econômica e tecnológica no registro da nova história (CASTELLS, 2003, p. 42)

Sobre o conceito de tecnologia, existem muitas definições encobertas de concepções que alteram seu significado conforme permeiam seus entendimentos. Para ilustrar esta situação, Pinto (2005) prevê quatro acepções para o termo:

2 Spam é o termo usado para se referir aos e-mails não solicitados, que geralmente são enviados

para um grande número de pessoas. Quando o conteúdo é exclusivamente comercial, este tipo de mensagem também é referenciada como UCE (do inglês Unsolicited Commercial E-mail)

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1) Significado etimológico, ou seja, a tecnologia como teoria, ciência, estudo e discussão da técnica. Também entendidos, neste ponto, os modos de se produzir as coisas. Neste significado nos tempos atuais está incluído o conceito de “Era Tecnológica”.

2) Tecnologia equivale simplesmente à técnica. As duas palavras aparecem nesta condição como sinônimos. Ainda soma-se a esta gama de interpretações a variável know-how. Isenta de rigorismos, esta concepção é fonte de perigosos enganos na intenção de compreender a tecnologia na resolução de problemas sob um ponto de vista sociológico.

3) O conceito de tecnologia como o entendimento do conjunto das técnicas presentes em uma determinada sociedade. Normalmente esta concepção é empregado quando se pretende aferir o grau de desenvolvimento de uma sociedade sob este ponto de vista.

4) Tecnologia como ideologização da técnica. É o principal sentido e o que detém maior importância. Pode ser considerado como fundamental para o entendimento do conceito.

A expressão “era tecnológica”, encampada pela primeira significação, é constantemente reproduzida na intenção de minar a consciência das massas a fim de convencê-las sobre o alto grau de modernização já vivido pela sociedade, na tentativa de frear suas estratégias de desenvolvimento. O objeto deste conceito, como aborda Pinto (2005, p. 43), não é universalmente abrangente e se apresenta como uma importante arma para a estratégia de dominação:

O conceito de “era tecnológica” constitui importantíssima arma do arsenal dos poderes supremos, empenhados em obter estes dois inapreciáveis resultados: (a) revesti-lo de valor ético positivo; (b) manejá-lo na qualidade de instrumento para silenciar as manifestações da consciência política das massas, e muito particularmente das nações subdesenvolvidas. Quanto a estas últimas, é preciso empregar todos os meios para fazê-las acreditar – e seus expoentes letrados nativos se apressarão sem dúvida em proclamá-lo – que participam em pé de igualdade da mesma “civilização tecnológica” que os “grandes”, na verdade os atuais “deuses”, criaram e bondosamente estendem a ricos e pobres sem distinção. Divulgando este raciocínio anestesiante, esperam os arautos das potências regentes fazer crer que

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toda a humanidade sob sua proteção goza uniformemente dos favores da civilização tecnológica, o que significa tornar não apenas imoral e sacrílega a rebelião contra elas, mas ainda converter a pretensão de autonomia política e econômica das massas da nação pobre em um gesto estúpido.

No imaginário popular, o significado imediato de tecnologia geralmente está associado a alguma criação material. Como resultado dessa interpretação, a imaginação remete a um objeto chamado máquina. A compreensão do conceito de máquina passa primeiro pelo entendimento do ser humano, que foi quem a criou. O conhecimento embutido em cada criação não é único, mas sim resultado do acúmulo de várias experiências obtidas por intermédio das diversas outras máquinas construídas pelo ser humano. “Reconhecem ser a técnica um processo cumulativo. Portanto, também as civilizações passadas tiveram suas conquistas, oriundas do aproveitamento dos conhecimentos herdados e das pesquisas relativamente reduzidas que efetuaram” (PINTO, 2005, p. 42).

O resgate desta história de criação da máquina, passa pelo resgate da própria história humana, da criação do primeiro utensílio usado pelo homem, seu aperfeiçoamento por meio das diversas contribuições, até os mais atuais aparatos tecnológicos, incompreensíveis à grande maioria da população do planeta. “Toda possibilidade de avanço tecnológico está ligada ao processo de desenvolvimento das forças produtivas da sociedade, a principal das quais cifra-se no trabalho humano” (PINTO, 2005, p. 49). A máquina nunca é dada, é feita. Trata-se, portanto, de uma criação incorporada de diversas inteligências somadas ao longo da história e necessárias para o cumprimento das rotinas de produção, cada vez mais exigentes por parte de uma sociedade dependente da tecnologia.

A tecnologia não determina a sociedade e esta, também não controla o curso da tecnologia como um todo, uma vez que o resultado final depende da interatividade entre ambas. “A tecnologia é a sociedade, e a sociedade não pode ser entendida ou representada sem suas ferramentas tecnológicas” (Castells, 2003, p. 43)

Embora aparentemente autônomas, tecnologia e sociedade se complementam. Como toda criação, fruto de vários elementos, uma nova tecnologia nem sempre significa um avanço. A interação entre as partes está vinculada a um

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jogo de interesses que, por sua vez, não fornece garantias de que o mesmo seja o do coletivo. As criações, portanto, possuem maior legitimidade quando interpretadas como novas construções, com uma carga muito grande de, além de conceitos e inteligência, ideologias. Estas novas construções, por sua vez, geralmente partem de uma mesma origem, a de grupos que usualmente detém o controle do poder e fazem de tudo para que toda e qualquer situação não escape de seu comando. Mesmo sabedores desta condição, a impressão que se tem é de que se trata de um fato consolidado e que em nome do progresso tudo pode ser aceito.

Pouco importa ser fato evidente, e aliás confessado, que as criações técnicas de significativo aporte, capazes de influir sobre os rumos do progresso e a produção dos bens de uso, só se originem em restritas áreas nacionais dominantes e nestas sejam promovidas por grupos economicamente privilegiados, que delas auferem todos os proveitos. Para tentar obscurecer a evidência dos fatos, busca-se incutir na mentalidade das nações periféricas a crença de que esse é o mecanismo natural e inevitável do progresso, a forma de que, para os homens e as nações, se reveste a lei biológica da seleção dos mais fortes (PINTO, 2005, p. 43).

Dessa forma, escondidos sob conceitos que denotam progressividade, as maledicências, resultados das ações que visam unicamente a garantir o domínio que sempre existiu, favorecem tão somente à manutenção dos interesses dos criadores do saber atual. A estratégia de glorificar a técnica acima de qualquer decisão, portanto, acaba sendo um forte instrumento de dominação.

Com isso, acentua-se neste plano mais ainda as desigualdades entre ricos e pobres. Para os pobres, segundo a doutrina dominante, o ideal é assegurar neles a ideia de que seu ritmo de vida é determinado pela técnica.

Este sofisma é mortal para a consciência das nações pobres, porque as faz aceitar como veredicto definitivo o seu estado de vida e, pior ainda, as leva a orgulhar-se das modestas realizações de simples aplicação do saber e da ciência ou das importações de exterioridades científicas e obras de cópia, que fazem para si. Tornam-se assim mendicantes confessas da generosidade tecnológica dos poderosos e arvoram, com infantil alvoroço, o emblema da alienação na fachada da sua cultura (PINTO, 2005, p. 44). As sociedades primitivas, por estarem na maior parte do tempo envolvidas com as atividades relativas à manutenção da espécie e seus afazeres, estavam

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muito mais inseridas na condição de seres regidos pela técnica. Pela significativa ampliação de oferta e consequente maior número de pessoas que utilizam os mais diversos recursos originados pelo desenvolvimento da técnica, o contexto atual permite que façamos escolhas e, sob este olhar, isso seria motivo suficiente para nos tornar, até certo ponto, mais livres.

A onipotência da técnica, relativamente maior nas sociedades ditas primitivas, resulta da escassez do conhecimento do mundo; donde o âmbito das ações individuais optativas ser muitíssimo menor do que nas comunidades avançadas modernas, de tipo industrial, nas quais o tempo oferecido ao lazer é maior e, portanto, a liberdade de escolha dos atos a praticar imensamente mais ampla. As sociedades atuais não estão nem mais nem menos dominadas pela técnica do que as antigas, apenas ocorre que naquelas há maior amplitude de escolha (PINTO, 2005, p. 66).

A possibilidade de escolha acaba por ser fator de grande importância no exercício da liberdade quando o objeto em questão é a utilização da técnica. Os mecanismos que geram dependência da tecnologia são, na verdade, frutos de uma tecnocracia recalcada que reluta em vir à tona. O desenvolvimento protagonizado pela sociedade ao longo do tempo, deveria ter como superada esta condição. Esta linha de pensamento é defendida pelo filósofo Álvaro Vieira Pinto (2005, p. 66) ao argumentar que:

É inconsistente e a bem dizer ridícula a compreensão de muitos representantes da sociologia atual que se mostram tão assustados com a avassaladora influência da “sociedade tecnocrática”, quando na verdade consiste em afirmar que quanto mais se desenvolve a tecnologia tanto mais regride a “tecnocracia”. O feiticeiro da tribo, sendo o intermediário obrigatório entre a comunidade e as potências superiores, que decidem o destino dos indivíduos, é incalculavelmente mais poderoso, em termos de poder humano, que qualquer ministro do Planejamento das sociedades civilizadas atuais. Nenhum membro da tribo ousará sair para caçar sem antes cumprir estritamente os ritos prescritos, o que equivale, no caso, às técnicas pertinentes ao processo da produção.

Atualmente a fabricação de um novo mito, agora chamado de Era da Informação, transparece como mais uma estratégia para a manutenção da dependência de alguns por meio da opressão. A sociedade não pode ser considerada como industrial, da informação ou do conhecimento; ela é, antes de qualquer definição, dos seres humanos. Estes a compõem, são criadores das técnicas e diante disso, qualquer tentativa de se estabelecer a estas o comando e a determinação dos objetos, nada mais é do que a criação de monstros abomináveis

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que passam a atormentar e a ditar o ritmo que os próprios seres humanos, seus criadores, devem obedecer. Sob este prisma, o que se tem é a transferência do mérito para as criaturas como sendo uma forma de opressão. Trata-se de uma estratégia para fazer com que a técnica determine o ritmo e, consequentemente, domine o ser humano.

Somente o ser humano possui consciência, capacidade de projetar e produzir. Os animais inferiores não possuem este tipo de capacidade, sendo apenas consumidores daquilo que a natureza a eles fornece. Já com a humanidade ocorre que, sendo detentora da capacidade de criar coisas, tecnologias novas são desenvolvidas em todo tempo, independentes de eras determinadas. Toda era em que existe trabalho humano, portanto, é considerada uma era tecnológica, pois nela se desenvolveram novas aplicações e, consequentemente, novas técnicas. Algumas pessoas são orientadas a não produzirem; resultado de tendências a que são submetidas. Seres que não produzem não geram tecnologia. A tecnologia de condução/orientação do comportamento societário é elemento consistente e chave para a definição de uma era tecnológica.

A técnica não determina o processo histórico e sim o ser humano a quem ela está vinculada e a quem de fato deveria ser dependente é àquele que realmente constrói este processo. O que geralmente acontece nada mais é do que uma profunda inversão na ordem da autenticidade dos fatos, ocupando a técnica (criatura) o lugar do mérito do ser humano (criador).

Esta concepção encontra-se grandemente difundida e no entanto contém o núcleo de um engano cujas conseqüências para a metodologia da história serão bem mais amplas e perniciosas. Referimo-nos à subordinação do homem à técnica, que aí aparece quase sempre conscientemente afirmada, dando origem ao pseudoproblema da “libertação do homem”. Evidentemente, do ponto de vista crítico tal problema não existe, sendo uma simples distorção conceptual criada por um vício metodológico inicial, não percebido. Deixa-se de aprender a relação, autenticamente humana, que liga o homem à técnica como o criador ao seu produto, para só se ver o desenvolvimento do último, supostamente dotado de lei interna própria, o que o converte em monstruosa entidade natural, com a qual o espírito tem de entrar em luta (PINTO, 2005, p. 158).

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Os “filósofos da técnica”, na grande maioria, não atentam para o papel das relações sociais de produção e por isso inculpam a máquina ou a técnica pelos malefícios presenciados. Supor a malignidade da técnica significa conferir poder demiúrgico ao que, veremos constitui um simples adjetivo, expressão de um modo de ser do sujeito real a que se refere, nem sendo sequer logicamente um substantivo (PINTO, 2005, p. 158).

“O homem torna-se o animal tecnificador” (PINTO, 2005, p. 159). Uma libertação de algo que na verdade não é aprisionador, pois o ser humano não pode ser aprisionado por aquilo que ele mesmo criou. A conquista da autonomia não é somente pela apropriação daquilo que o outro criou, mas sim, por obter as condições de criar da mesma forma. Nesta lógica, o aprisionamento é feito pelo próprio ser humano por meio do endeusamento de alguma técnica, que, na verdade, não é somente de um único ser.

Temos que denunciar o lado secreto, maligno do endeusamento da tecnologia, aquele que visa unicamente a fortalecer ideologicamente os interesses dos criadores do saber atual, a fim de conservá-lo no papel de instrumento de domínio e espoliação econômica da maior parte da humanidade, levada a trabalhar para as camadas altas dos povos senhoriais sob a falsa e emoliente impressão de estar participando, na única forma em que lhe é possível, da promoção do progresso em nosso tempo (PINTO, 2005, p. 44).

Nesta mesma lógica de discussão encontra-se a hoje conhecida sociedade da informação, ou do conhecimento. Ampliando-se a abrangência, esta também responde pelo simpático codinome de “Era da Informação”. Esta época à qual alguns teóricos atribuíram nome pomposo e que representa certa importância pela sua simples premissa de que seu funcionamento depende do conhecimento/intelecto, responde pelas transformações das formas de interação, pautadas pelas relações sociais. Este feito acabou por redefinir rotinas e comportamentos, que hoje são objetos de estudo e embasamento para tantas outras teorias.

O acesso a este plano chamado de Era da Informação, representante da modernidade, acaba por depender de uma máquina, que nada mais é do que um aparelho composto por diversas tecnologias, aperfeiçoado ao longo do tempo e que oferece as condições necessárias para a integração ao ambiente informacional da forma como hoje está constituído. Sendo assim, a condição para que os indivíduos

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sejam partícipes deste fenômeno social é o acesso por intermédio de alguma máquina, possibilitando a conexão com as demais máquinas, e assim com outros indivíduos, na finalidade de estabelecer comunicação entre si. Se não acontece o acesso, não acontece também a inserção no movimento da sociedade que considera a informação como premissa básica de ação. O acesso, então, passa a ser uma condição importante, mas não é a única. Torna-se necessária uma certa postura de cada ator perante este ambiente, o que será fator determinante no olhar qualitativo de cada interação. Trata-se de uma relação estreita entre a tecnologia e a sociedade que acaba por tensionar na definição de um posicionamento de comando em cada caso.

Esse conjunto de novos valores vai caracterizando esse novo mundo ainda em formação. Um mundo em que a relação homem-máquina passa a adquirir um novo estatuto, uma outra dimensão. As máquinas da comunicação, os computadores, essas novas tecnologias, não são mais apenas máquinas. São os instrumentos de uma nova razão. Nesse sentido, as máquinas deixam de ser, como vinham sendo até então, um elemento de mediação entre o homem e a natureza e passam a expressar uma nova razão cognitiva (PRETTO, 1996, p. 42).

Mesmo sob a influência deste prisma, a oportunidade de acesso a determinados recursos e condições não altera, por si só, o elemento da intencionalidade dos indivíduos. Nestes moldes, não basta que um sujeito obtenha todas as condições de acesso aos recursos modernos e informatizados, se não possuir capacidade de agir e interagir por conta própria, manifestando de maneira convicta suas próprias opiniões. Muito mais do que disposição de tecnologias, o que realmente conta é a constituição formativa de cada ser.

1.2 - O PAPEL DA INFORMÁTICA NA EDUCAÇÃO, MUITO ALÉM DA INFORMAÇÃO

Já é realidade hoje, a grande presença das novas tecnologias na educação, seja pela caracterização como ferramenta de apoio ou como objeto fundamental para a aprendizagem. Esta inserção provoca, também, novas práticas, e estas, por sua vez, nem sempre possuem alterada sua essência, pois de certa forma se

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inserem dentro de uma concepção de pensamento que independe da utilização de determinados recursos.

A dinâmica do ser humano se caracteriza pelo movimento, pela constante construção e criação de ideias e conceitos. Neste contexto, se fundamentam diversos paradigmas que determinam seu rumo e atividades. Estes, por sua vez, são constantemente renovados, gerando descobertas, incertezas e até mesmo, em alguns casos, soluções. Em cada tempo, exige-se uma reforma de pensamento para poder focalizar as questões da realidade com um novo olhar, em busca das incertezas. Morin (2000, p. 92) afirma que: “A exigida reforma do pensamento vai gerar um pensamento do contexto e do complexo. Vai gerar um pensamento que liga e enfrenta a incerteza.” Este pensamento, essencialmente, remodela a forma de interpretar os fatos, revelados por intermédio do ser humano e manifestados pelas suas inter-relações.

Encobertos de diversas concepções, os paradigmas refletem um pensamento que não é único, mas sim, de certa forma, híbrido. Isto acontece por se articular com as diversas realidades existentes entre o ter e o ser, perpassando pelas construções sociais, históricas e culturais em busca constante da revelação/descoberta da verdade nos diferentes tempos. Estas variáveis fazem com que o pensamento não se fixe em uma única etapa e nem em um único foco. É claro que este tipo de atitude sempre renovadora possui muita resistência, pois a maneira conhecida como tradicional de pensar, em qualquer tempo, é sempre digna de muita credibilidade, mas, em certo ponto, incompatível com aquela que passa a ser a proponente.

Ao retomar o caso da modernidade, refletida através do pensamento cartesiano, em que salientava a separação de cada elemento por si só, desconsiderando as inúmeras relações intrínsecas, encontra-se raízes que sustentam muitas discussões e teorias ainda no tempo atual. Embora este modo de pensar possua seus reconhecíveis méritos, pois, durante muito tempo, contribuiu para o desenvolvimento da sociedade como um todo (Moraes, 1997), hoje esse prisma metodológico precisa ser revisto. Isto é manifestado claramente na

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educação, quando, por exemplo, tomamos o processo dos conteúdos curriculares, que se organizam de modo fragmentado mediante as diferentes disciplinas, o que, nos dias atuais, em que as lógicas de organização se ampliam e diversificam por conta de outra corrente de pensamento, necessita ser objeto de revisão.

Dá-se na época atual, a ultrapassagem do paradigma da Metafísica, não mais numa Filosofia Analítica transcendental, mas na “reflexão sobre as condições de possibilidade de validade intersubjetiva. Na modernidade, esta tendência crítica de reflexão produziu primeiro o paradigma da filosofia transcendental da consciência ou do sujeito (de Descartes, passando por Kant até Husserl). Finalmente, em nosso século, este paradigma passou pela transformação pragmático-lingüística no sentido da reflexão sobre as condições de validade intersubjetiva da argumentação (MARQUES, 1993, p. 73).

Um repensar sobre este assunto passa a ser requerido. A proposta de reformar o pensamento torna-se necessária para a atualização do paradigma educacional a que se está acostumado em seu tempo, modificando conceitos e revendo atitudes conforme as demandas de cada novo período. Nesta proposta, discute-se um novo conjunto de normas com novos enfoques, novas ideias e, principalmente, novas visões sobre a tarefa de educar. Não obstante, há que se ter presente a elaboração de novos princípios, oriundos da contextualização proporcionada pela integração dos diversos elementos que fazem parte da rotina humana, como, por exemplo, a ciência. Sobre isso Moraes (1997, p. 69) afirma que:

Com base na teoria da relatividade e nos novos fatos ocorridos na física quântica e em suas implicações na filosofia da ciência, pretendemos realizar uma nova leitura do mundo e encontrar uma maneira diferente de nos posicionarmos diante dele e da vida. Partindo de um tipo de pensamento que trata as coisas em sua totalidade, que compreende o mundo mais amplo e complexo, incluindo as noções gerais sobre a natureza auto-organizadora da matéria, buscamos também um novo paradigma para a educação, uma nova maneira de pensar a questão educacional, tendo como referência uma visão de totalidade, uma nova ordem global para a própria mente humana.

Assim, um novo paradigma educacional para este tempo tem seu enfoque na construção de uma nova escola, ligada a todos os movimentos sociais e que se estrutura como um processo contínuo de construção, com uma proposta reflexiva em si mesma. A mesma autora (1997) ainda afirma que, neste processo, o foco está no educando, nas suas atividades, no seu pensamento em ação. Continuando sua ideia, tem-se presente que “o centro decisório do processo de aprendizagem está no educando, e não na figura do professor ou de quem quer que seja” (1997, p. 198).

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Entende-se que professor não é o centro de tudo, mas, sim, conquista o papel de ter a centralidade entre os conhecimentos. Assim, sua figura passa a ser de um importante e fundamental mediador entre os educandos, com uma postura muito mais reflexiva, tendo como foco os reais destinatários da tarefa. Neste contexto, Marques (1993, p. 109) salienta que:

A escola, mais do que por sua estrutura institucionalizada, se determina, em seus aspectos criadores próprios, pelo entendimento compartilhado e atuação solidária de seus instituintes internos, sujeitos coletivos organizados: os educadores, os educandos e a comunidade humana concreta a que busca servir. Toda dinâmica da ação educativa escolar deriva do projeto ou proposta político-pedagógica que a anima e informa, impulsiona, organiza e conduz. E validam-se as perspectivas pedagógicas não pelo seu conteúdo intrínseco, mas pela forma consensual em que se constroem e expressam, como resultado de um processo de elucidação discursiva à base dos melhores argumentos e o mais próximo possível das condições ideais de fala.

Na interpretação do conceito de educação, fazem-se necessários alguns esclarecimentos acerca dos possíveis significados e de suas consequentes compreensões. Antes de tudo, educação é a transferência de costumes, valores, habitus3 de uma sociedade. Trata-se do conjunto das técnicas culturais, conforme

cita Abbagnano (2007, p. 357):

Em geral, designa-se com esse termo a transmissão e o aprendizado das técnicas culturais, que são as técnicas de uso, produção e comportamento mediante as quais um grupo de homens é capaz de satisfazer suas necessidades, proteger-se contra a hostilidade do ambiente físico e biológico e trabalhar em conjunto, de modo mais ou menos ordenado e pacífico. Como o conjunto dessas técnicas se chama cultura, uma sociedade humana não poderá sobreviver se sua cultura não for transmitida de geração para geração; as modalidades ou formas de realizar ou garantir essa transmissão chamam-se educação.

Desde as sociedades primitivas desenvolveram-se formas de educação que sempre se diferenciaram pela sua orientação, quando a sociedade civilizada tende a tornar flexível suas técnicas afim de que as mesmas também possam ser corrigidas e aperfeiçoadas. Já as sociedades primitivas procuravam, por intermédio da educação, garantir a imutabilidade das técnicas, atribuindo a elas um certo poder

3 Entendido como elementos da cultura humana que, de forma inconsciente, moldam os modos de

agir dos indivíduos. Habitus “é um dos fatores mais eficazes de conservação social, pois fornece a aparência de legitimidade às desigualdades sociais, e sanciona a herança cultural e o dom social tratado como dom natural” (Bourdieu, 2002, p. 41).

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sagrado.

Podem-se, portanto, distinguir duas formas fundamentais de educação: 1ª. A que simplesmente se propõe transmitir as técnicas de trabalho e de comportamento que já estão em poder do grupo social e garantir sua relativa imutabilidade; 2ª. A que, através da transmissão das técnicas já em poder da sociedade, se propõe formar nos indivíduos a capacidade de corrigir e aperfeiçoar essas mesmas técnicas (ABBAGNANO, 2007, p. 358). Neste caso, a primeira forma de educação representa as sociedades primitivas, principalmente no que tange à educação moral e religiosa. “Consiste na transmissão pura e simples das técnicas consideradas válidas e na transmissão simultânea da crença no caráter sagrado, portanto imutável, de tais técnicas” (ABBAGNANO, 2007, p. 358).

Já a segunda forma de educação diz respeito à referenciada no indivíduo e não somente na sociedade. É dele que parte a iniciativa com a prerrogativa de mudança e aperfeiçoamento das técnicas empregadas. “A formação do indivíduo, sua cultura, tornam-se o fim da educação” (ABBAGNANO, 2007, p. 358).

Paulo Freire (2005), ao conceituar a educação, afirma que existem basicamente dois tipos de “educações”: a bancária e a libertadora. Por educação bancária é compreendida a forma de educação em que o educador conduz os educandos à memorização mecânica do conteúdo abordado.

Desta maneira, a educação se torna um ato de depositar, em que os educandos são os depositários e o educador o depositante.

Em lugar de comunicar-se, o educador faz “comunicados” e depósitos que os educandos, meras incidências, recebem pacientemente, memorizam, e repetem. Eis a concepção “bancária” da educação, em que a única margem de ação que se oferece aos educandos é a de receberem os depósitos, guardá-los e arquivá-los (FREIRE, 2005, p. 66).

Esta forma de educação muito se assemelha com aquela adotada pela sociedade primitiva (ABBAGNANO, 2007), em que a intenção era a de preservar as técnicas como instrumento sagrado de transmissão do conhecimento, sem a chance de que os mesmos viessem a ser alterados. Neste caso, qualquer intervenção que venha carregada com alguma dose de criticidade é imediatamente rechaçada. Outro

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ponto característico deste tipo de educação é o seu desvinculamento da realidade. A teoria se apresenta desligada da prática cotidiana, servindo, assim, muito pouco para a mudança e o melhoramento da sociedade.

Em contraponto a este tipo de educação, Freire (2005) apresenta o conceito de educação libertadora, no qual alimenta a ideia de que o ser humano deve, por meio do processo educacional, ampliar sua consciência, sua liberdade e sua humanização. Trata-se do entendimento de que os seres humanos não podem ser alienados, e assim não cabe a visão de que estes são depósitos prontos para receberem conteúdos. Ao contrário, vê a educação muito próxima da realidade como práxis compreendida como ação e reflexão dos seres humanos sobre o mundo a fim de, permanentemente, transformá-lo.

A educação que se impõe aos que verdadeiramente se comprometem com a libertação não pode fundar-se numa compreensão dos homens como seres vazios a quem o mundo “encha” de conteúdos; não pode basear-se numa consciência espacializada, mecanicistamente compartimentada, mas nos homens como “corpos conscientes” e na consciência como consciência intencionada ao mundo. Não pode ser a do depósito de conteúdos, mas a da problematização dos homens em suas relações com o mundo (FREIRE, 2005, p. 77).

Por não haver capacidade de preenchimento pleno dos conteúdos, remente-se ainda a um entendimento de que a educação compreende um inacabamento. Os seres humanos são vistos como em permanente construção de seu conhecimento, sempre e enquanto durarem as suas relações com o mundo. Sua personalidade e sua pessoa está em constante formação e nunca inacabada. Esta concepção põe educador e educando em posições distintas, mas muito próximas. Aquele que aprende está nesta condição para ampliar seus conhecimentos, mas traz consigo uma bagagem significativa. Aquele que ensina o faz sabendo que ainda há muito para aprender, inclusive sobre o próprio assunto em questão. Isto não desfaz o mérito do ensinante, muito menos tende a tomar uma postura de supervalorização do aprendente, apenas significa que, por intermédio do diálogo, ambos aprendem e crescem juntos, independente das visões de autoridade.

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achar que elas são de determinada forma e isto basta. De não se pensar que podem ser diferentes, e, inclusive, de pensar se, de fato, elas necessitam ser diferentes. É a consciência da necessidade de se aprender mais sobre algo e de se reconhecer inacabado, que motiva a busca pela educação e permite que este processo aconteça.

Desse modo, a problematização motiva para que o educador se refaça a cada intervenção, superando os esquemas organizacionais moldados verticalmente, característicos da educação bancária e contrários num conceito de educação como prática de liberdade.

Desta maneira, o educador já não é o que apensa educa, mas o que, enquanto educa, é educado, em diálogo com o educando que, ao ser educado, também educa. Ambos, assim, se tornam sujeitos do processo em que crescem juntos e em que os “argumentos de autoridade” já não valem. Em que, para ser-se, funcionalmente, autoridade, se necessita de estar sendo com as liberdades e não contra elas.

Já agora, ninguém educa ninguém, como tampouco ninguém se educa a si mesmo: os homens se educam em comunhão, mediatizados pelo mundo. Mediatizados pelos objetos cognoscíveis que, na prática “bancária”, são possuídos pelo educador que os descreve ou os deposita nos educandos passivos (FREIRE, 2005, p. 79).

Dentro do entendimento de que a aprendizagem acontece em grupo, como construção coletiva, ela se torna composta das contribuições individuais e grupais. Dessa forma, fica mais latente a concepção de que os conceitos não são transmitidos, mas entendidos entre educador e educando durante o processo concebido como educacional. Acontece uma mútua troca de saberes e experiências, em que não se compreende que a linguagem seja apenas um sistema abstrato de normas, mas sim, resultados de visões de mundo (RAMAL, 2002), que irão a posteriori estabelecer aquilo que se deseja nomear de conhecimento. A educação é vista como um sistema totalmente aberto para o indivíduo, conforme afirma, mais uma vez, Moraes (1997, p. 69):

Partindo do reconhecimento de que os sistemas abertos trocam tanto de energia quanto matéria, e, portanto transformam-se, da existência de uma capacidade auto-organizadora na natureza, da visão de totalidade, da criatividade inerente aos processos da natureza, buscamos um paradigma educacional capaz de nos levar a uma questão central, epistemológica, sistêmica, e, portanto, muito mais ampla, que envolve o processo de

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construção do conhecimento, sua organização e seu funcionamento, associados à necessidade de desenvolvimento de uma nova visão de mundo, capaz de colaborar para um novo posicionamento do homem e da mulher neste mundo.

Assim também funciona a linguagem quando esta virtualiza a realidade, operando com símbolos abertos a uma elevada gama de possibilidades de interpretações, tendo como característica a sempre presente oportunidade de integração de novos atores dentro desta dinâmica, haja vista que o texto multimídia possui a capacidade de agregar toda esta realidade, concretizando este elemento virtualizado da linguagem, manifestação da experiência humana em novos espaços e condições.

Em seu estado atual as tecnologias microeletrônicas da informação se fazem aptas a penetrar o universo das atividades humanas, não como fonte exógena, senão como pano de fundo, em que se tecem elas em circuitos interativos contínuos nos quais não mais importam as ferramentas nem os produtos em si, mas os processos que se interalimentam de forma exponencial, mediante uma linguagem digital comum em que a informação se gera, armazena, retoma-se de contínuo e se reprocessa, transmite-se e circula ignorando espaços e tempos (MARQUES, 2003, p. 101).

A partir deste ponto de vista, a tecnologia assume importante papel de atuar sobre a informação e até se estabelece como seu importante canal interativo de transmissão. Certamente a escola agora já não é mais a única instituição apta a desempenhar este papel. Esta nova representação da realidade faz com que, evidentemente, o ambiente educativo se insira neste contexto, não permanecendo alheio àquilo que lhe permeia de todos os lados, provocando-o a uma opção sem muita escolha. Em alguns casos deste fenômeno, iniciativas são praticamente levadas pelo embalo das novas necessidades criadas, principalmente a mercadológica e àquelas voltadas ao lazer individual e coletivo. Acontece, porém, que a educação, em seu formato tradicional, possui sua organização baseada no modelo da cultura da escrita e agora é desafiada a buscar maneiras para incorporar também o modelo da cultura digital. Neste sentido, enxerga-se a linguagem adaptando-se à tecnologia, como preconiza Marques (2003, p. 68) ao afirmar que:

À omnipresença das articulações de linguagens na oralidade e na escrita vem agora acrescentar-se a não menos atuante e poderosa presença das linguagens articuladas no corpo programado da máquina. De há muito a máquina potencia e substitui a força muscular e a perspicácia do homem na

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realização de tarefas rotineiras. Outras máquinas hoje, de estirpe diversa, são programadas, isto é, recebem e executam instruções para outra forma de articulação de linguagens, para além da presença física exigida pela oralidade e para além da receptividade expectante da folha de papel, num corpo capaz de mover-se com relativa autonomia e alta velocidade nos espaços, por um lado, predefinidos pelo homem e, por outra parte, sempre exigentes do acoplamento homem-máquina, graças ao qual somente acendem à virtualização própria da linguagem.

A informática, grande representante ilustrativa da tecnologia, encontra-se agora inserida no contexto social e, portanto, educacional institucionalizado. Trata-se de mais um elemento que ocupa este espaço, reivindicando que a escola lhe forneça o devido suporte.

As implicações disso no atual momento histórico são grandes, introduzindo forçosamente um novo quadro para o sistema educacional. A superação do analfabetismo da língua ainda é um desafio para muitos países como o Brasil e, no entanto, um novo desafio já se coloca, sem a possibilidade de se esperar a solução do primeiro. A superação desse analfabetismo das

imagens, da comunicação e da informação e a incorporação dessa nova

razão não se darão única e exclusivamente por intermédio da escola, mas seu papel pode ser significativo se forem desenvolvidas políticas educacionais que a valorizem, transformando-a no espaço para a formação do novo ser humano (PRETTO, 1996, p. 99, grifo do autor).

A linguagem compreendida desta forma, passa a ser virtualizada por intermédio do computador que, por sua vez, faz parte de uma rede aberta e imprevisível com poder de condicionar radicalmente seu significado e uso. Esta linguagem pode sofrer influência e estar condicionada a agir em um determinado sentido e sob determinadas concepções, fazendo com que prevaleça alguma corrente de pensamento. Isto exerce influência direta na conceituação de qual educação estamos falando.

Na perspectiva da informática educativa, a relação entre pessoas (atores sociais) e proposições, deve observar os conceitos incorporados ao computador pelas linguagens virtualizadas e que são vigentes no contexto atual. Nesta ótica, destacam-se algumas formas de compreensão que entendem as tecnologias de maneiras distintas. A mais tradicional e consequentemente mais difundida, encabeçada pelas práticas que obtém seu sucesso graças à finalidade comercial, enxerga o computador como um mero objeto com vistas a garantir o lucro acima de tudo. Para isso, considera seu público de utilizadores como usuários e, para estes,

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não concede permissões para repensar a própria lógica a fim de reconstruí-la observando singularidades. Concebe a tecnologia como instrumento escravizador para obter resultados previamente calculados, eliminando quase por completo as chances de acasos. Suprime-se, nesta concepção, a oportunidade de construção própria e localizada, bem como a criação de tecnologia de caráter original.

Para entender esta modalidade de utilização e também de negócio é interessante conhecer o surgimento da informática e as criações posteriores que derivaram as diversas potencialidades que nos são disponíveis nos dias de hoje e que batem à porta da educação para serem incluídas em suas práticas e rotinas. No século 18 a Revolução Industrial deu um importante passo para a mudança de paradigma das relações de trabalho. A invenção do motor a vapor, que transferiu do humano para a máquina a incumbência da geração da energia, alocou um marco importante para a indústria e para a história. A partir disso, o desenvolvimento de novas tecnologias aconteceram de maneira muito ágil. Em 1804, Joseph Marie Jacquard, mecânico de teares em Lyon ̶̶ França, inventou um sistema de automatização. Tratava-se de um conjunto de cartões metálicos perfurados com informações que eram interpretadas pela máquina de tear. Este procedimento fazia com que a máquina realizasse as operações repetitivas que antes precisavam estar sob o comando de operários. As informações guardadas pelos cartões eram o que hoje é entendido como programa de computador. A partir de então, “a lei do menor esforço não cessou de restringir a atividade muscular do homem em nome da economia de energia física” (MARQUES, 2003, p. 69). Movido principalmente pelo interesse da indústria, o desenvolvimento tecnológico utilizou-se da ciência para seu aperfeiçoamento, o que veio a qualificar suas criações. Instituições de pesquisa concentraram esforços na elaboração de soluções para os problemas enfrentados pelo setor da indústria.

Dentre as mais diversas criações originadas por este movimento desencadeado pela Revolução Industrial, talvez a mais significativa e de maior impacto tenha sido o computador. Este equipamento sofreu diversas modificações em sua arquitetura e engenharia, de modo a possibilitar cada vez mais um maior

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