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2.1 PROCESSO DE DESENVOLVIMENTO E SOBREVIVÊNCIA DO SOFTWARE LIVRE

No documento Software livre e educação (páginas 50-56)

2 O SOFTWARE LIVRE

2.1 PROCESSO DE DESENVOLVIMENTO E SOBREVIVÊNCIA DO SOFTWARE LIVRE

Em uma análise sobre as metodologias de construção e desenvolvimento de um software são indicados dois princípios, aqui identificados como da catedral e do bazar. Estas nomenclaturas são oriundas do trabalho de Eric Ramond (citado por Taurion, 2004): “The Cathedral and Bazaar”. Neste contexto, o modelo tradicional, seguido predominantemente pelo software proprietário, é chamado de catedral.

O método batizado de catedral é baseado no planejamento centralizado, com evolução top-down e rígido relacionamento entre a gerência e os desenvolvedores, quanto a prazos, metodologias adotadas e tarefas, dentro de uma hierarquia organizacional. O desenvolvimento é interno à empresa e apenas nos ciclos de teste o produto é exposto ao mercado, através de uma restrita e controlada comunidade de usuários (individuais ou empresas clientes) que se prontificam a cooperar nos testes e depurações (TAURION, 2004, p. 58).

Neste modelo, o código-fonte permanece fechado, permitindo ser acessível somente aos programadores. Para os usuários, nesta etapa do processo, é possibilitado apenas o acesso aos recursos destinados a testar o desempenho do software. Nesta interpretação, o nome “catedral” deriva do processo de construção das catedrais durante o período da Idade Média, o qual se assemelha a este modelo de desenvolvimento tradicional de software.

A forma em que se enquadra o desenvolvimento de um software livre é plenamente contemplada no princípio do bazar, sobre o qual, o mesmo autor explica:

O princípio bazar, como o nome indica, é baseado em uma forma mais livre de desenvolvimento, sem centralização do seu planejamento e execução. O desenvolvimento é efetuado em rede, por uma comunidade de desenvolvedores voluntários, sem vínculos entre si, em uma organização informal (TAURION, 2004, p. 58).

Neste modelo, a liderança do projeto emerge, naturalmente, dentre os membros que se destacam por seus méritos, da própria comunidade surgida pela necessidade de se desenvolver um software. Tudo ocorre de maneira colaborativa e voluntária, tendo como revisores um grupo bastante diversificado de pessoas que transcendem os limites de culturas e países, pois seu instrumento principal de comunicação é a Internet. Durante todo o processo, diferentemente do que ocorre com o modelo tradicional, o código-fonte se encontra totalmente disponível e aberto a alterações, que, por sua vez, são realizadas de forma organizada e coletiva.

No processo de desenvolvimento que segue o princípio do bazar, alguns elementos se destacam pela sua importância. Trata-se da participação livre e voluntária. Numa estrutura que desobedece as hierarquias tradicionalmente institucionalizadas, sem normas rígidas de controle e subordinação, vêm à tona características interessantes e, ao mesmo tempo, desafiadoras. É o fato de não se ter garantia na intensidade da participação, pois cada indivíduo toma parte conforme a sua disponibilidade e o seu conhecimento. Por ser um modelo constituído basicamente de colaboradores voluntários, sem subordinações, seus membros possuem, dentro desta estrutura, a liberdade de contribuir intensamente no desenvolvimento, como podem, também, sem prévio aviso, diminuir o ritmo de sua colaboração. São as incertezas geradas pela ausência de um planejamento de produção. Trata-se de um fator que alivia o peso da proposta de desenvolvimento de um novo produto, mas, ao mesmo tempo, minimiza os compromissos de prazos e produção.

investem recursos neste tipo de proposta. A partir dos anos 90, programas/sistemas em software livre sofreram um aumento de interesse pela própria indústria do software, em que diversas empresas, tendo seu foco voltado para a prestação de serviços e não mais para o fornecimento de produtos, aportaram investimentos nas iniciativas de apoio ao desenvolvimento de softwares livres. Para continuarem ativos, esses softwares têm de dispor de uma significativa massa crítica, composta de desenvolvedores que garantam sua continuidade, e a participação de empresas formalmente constituídas são, de certa forma, uma garantia de que os projetos terão vida longa, pois o interesse na continuidade acaba sendo motivado pela constante demanda na prestação de serviços relacionados a estas soluções.

Tal massa crítica de desenvolvedores e colaboradores pode ser impulsionada por diversas iniciativas que vão desde o financiamento do desenvolvimento, geralmente arcado por empresas com interesses comerciais na proposta a usuários que, organizados em comunidades, utilizando os recursos proporcionados pela rede de computadores, realizam contribuições sistemáticas para o aperfeiçoamento do software. Geralmente as empresas financiadoras investem suas contribuições em apenas uma parte do projeto, sendo o restante colaboração voluntária dos indivíduos membros das comunidades virtuais de desenvolvimento. Estes colaboradores não recebem remuneração financeira pela sua contribuição, apenas o reconhecimento pelo trabalho executado na prática, o que revela a intrínseca característica do movimento software livre como espaço de colaboração e de apropriação coletiva dos conhecimentos, sendo o interesse comercial no produto deixado em segundo plano.

Se considerada a lógica do mercado, na modalidade de software livre ocorre um outro foco de investimento, que no modelo proprietário visa à mercadoria produzida e comercializada por empresas. A elas é que são destinados os valores em troca da licença de uso e consequente suporte técnico e manutenção. No geral, este tipo de software apresenta poucos problemas no seu funcionamento e, por causa dos altos custos, as empresas podem manter um estudo constante para soluções genéricas. No modelo livre, o foco volta-se para os indivíduos de maneira

individual e pessoal, como desenvolvedores e prestadores de serviço em suporte técnico. Pelo fato de o Software Livre ser infinitamente mais maleável e personalizável, a demanda por serviços e manutenção é relativamente alta, o que motiva, em grande parte, a mudança do foco. Dessa maneira, o investimento concentra-se nas pessoas na forma de prestação de serviços e não em um produto.

Nos últimos anos em nosso país, várias iniciativas do setor governamental vêm contribuindo muito para o desenvolvimento de projetos sob a plataforma livre. Dentre os diversos motivos desta opção, destaca-se o livre-acesso e a otimização dos custos relacionados aos benefícios apresentados pela escolha. Além disso, surge o incentivo para a produção de tecnologia própria, com a possibilidade de soluções dos problemas experimentados pelos desenvolvedores, um grande estímulo para a autonomia e criatividade na elaboração de soluções para os próprios problemas, obedecendo a um processo construtivo-pedagógico. Sobre este assunto, Silveira destaca que:

A adoção do software livre como paradigma do desenvolvimento e uso das tecnologias da informação no governo pode ser resumida em cinco argumentos:

1) argumento macroeconômico, 2) argumento de segurança,

3) argumento da autonomia tecnológica,

4) argumento da independência de fornecedores, 5) argumento democrático (2004, p. 38).

O Software Livre na estratégia de implementação de tecnologias de informação e comunicação, é uma maneira macroeconomicamente viável de investimento, pois dispensa o pagamento de Royalties11 pelas licenças de uso. Isto

favorece para que estes recursos sejam investidos em pesquisa e produção autônoma de conhecimento. Uma escolha que aparentemente é simples, mas que irá resultar num reflexo muito grande quando somados e comparados todos os reais ônus dos respectivos modelos. Para se ter uma ideia da quantificação dos valores envolvidos, estima-se que o governo brasileiro, entre os anos de 2003 e 2008,

11 Royalty (Palavra inglesa) - importância cobrada pelo proprietário de uma patente de produto,

processo de produção, marca, entre outros, ou pelo autor de uma obra, para permitir seu uso ou comercialização. (WIKIPÉDIA ,[2009]).

obteve uma economia de 370 milhões de reais12 com a adoção de software livre em

apenas algumas áreas. Esta quantia certamente seria bem maior se a totalidade da administração pública federal estivesse adotando esta modalidade de software.

Em matéria de segurança, a comparação apresenta outros argumentos de maior discrepância ainda. Um software proprietário não possui acesso ao seu código-fonte. Por isso, ele não poderá ser auditado. Não há como saber se, de fato, o que foi solicitado às empresas detentoras dos direitos, acontecerá. Dentro de um software podem estar escondidos muitos elementos (linhas de programação), prejudiciais aos interesses de quem utilizará o produto. Como exemplo disso, existe a possibilidade de um software proprietário conter em seu código algumas falhas graves, como um backdoor,13 ou simplesmente enviar para outras fontes de forma

secreta, informações sigilosas. Com o uso do Software Livre, é possível solucionar estes problemas, retirando ou corrigindo rotinas duvidosas de seu código-fonte, aumentando, assim, a segurança do sistema a ser empregado.

Sobre a independência, ela é um fator considerado como inerente à opção pelo Software Livre. Quando um software se denomina livre, ele tem de possuir seu código-fonte aberto. Dessa forma, qualquer pessoa que entenda de sua programação poderá continuar o seu desenvolvimento e aperfeiçoá-lo. Assim, o vínculo com uma empresa não se estabelece, eliminando conjuntamente a relação de dependência do desenvolvedor em relação a ela.

Ainda que considerados todos os argumentos na mesma importância, sob o ponto de vista do presente estudo dois destaques merecem serem feitos. Trata-se da autonomia tecnológica e da democracia das tecnologias de comunicação e informação. A adoção de Software Livre amplia a autonomia nacional na construção do conhecimento em favor da tecnologia. Com a liberdade em acessar a programação, os especialistas e responsáveis pelo projeto podem realizar as

12 Dados citados pela ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousef no dia 26/6/2009 durante seu

discurso no X Fórum Internacional do Software Livre, realizado no campus da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, na cidade de Porto Alegre – RS.

13 Backdoor é uma forma de deixar no computador um caminho de invasão sem despertar a

desconfiança de seu operador. Trata-se de uma verdadeira “porta dos fundos” (SILVEIRA, 2004, p. 40).

alterações de acordo com cada local. A maleabilidade do Software Livre faz com que os seus usuários procurem e conquistem a autonomia no contexto dos softwares.

O fator da democratização das tecnologias de informação e comunicação se consolida como mais uma diferença favorável ao Software Livre. Cada vez mais ele está se tornando fundamental na rotina diária do ser humano, como meios de expressão cultural, informacional e de transações econômicas. Segundo Silveira (2004, p. 42), “a limitação de seu acesso começa a ser percebida como uma violação dos direitos fundamentais”. Não é correto, porém, que, numa sociedade em que a comunicação e a informação se baseiam em estruturas informatizadas, o controle desses instrumentos fique nas mãos de um pequeno grupo com interesses estritamente mercadológicos, e que a outro grande grupo o suprimento dessa tecnologia acabe sendo deficitário.

A quebra desta estrutura construída e moldada através dos tempos é um desafio, em que o Software Livre se apresenta como alternativa viável sob os pontos de vista econômico, social e operacional. Considerando estas concepções, torna-se altamente compreensível que iniciativas governamentais prefiram se valer deste instrumento para proporcionar uma ampla democratização e o livre-acesso ao conhecimento à toda a população.

Aliado a esta proposta está o objetivo de conquistar a igualdade no direito ao acesso às tecnologias de informação e comunicação, que sempre esteve à frente no projeto de surgimento do Software Livre. Isso pode ser percebido nas palavras de Mello (2003, p. 321), quando afirma que: “O movimento de Software Livre nasceu de uma crença, a de que todos os homens possuem direito à informação. A informação na nova economia globalizada representa poder monetário, obtido através da sua manipulação.” A equidade no acesso ao poder da informação na construção do conhecimento, permite que todo o processo seja compartilhado e voltado para a realização e serviço das próprias pessoas que se dedicam a um grupo de desenvolvimento.

O Software Livre, desde seu surgimento, portanto, contou com o trabalho colaborativo de milhares de pessoas e se muniu de dispositivos legais necessários para garantir sua sustentabilidade por meio dessa dinâmica de construção coletiva. Os grupos que compõem as chamadas “comunidades de desenvolvimento” de determinados softwares compreendem as mais diversas realidades, pois não estão limitados por distâncias físicas, devido ao fato de o seu canal essencial de comunicação ser a Internet. Em sua maioria, não são remunerados ou recebem qualquer bônus pelo trabalho desenvolvido, senão o reconhecimento com a disseminação e/ou aceitação de seu empenho.

No documento Software livre e educação (páginas 50-56)

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