3 SOFTWARES E EDUCAÇÕES LIVRES
3.1 – CENTRO DE RECONDICIONAMENTO (RECICLAGEM) DE COMPUTADORES
Devido ao intenso desenvolvimento da informática e a constante necessidade de atualização dos sistemas tecnológicos informacionais, na lógica em que este setor tem se desenvolvido até então, uma grande quantidade de resíduos, resultado do descarte das peças já inutilizadas e sem serventia alguma para o mercado, acaba por ser gerado. A vida útil de um computador para as atividades às quais são projetados e sob a demanda que lhes são instaladas a cada momento, é bastante curta se comparado a outros bens de consumo permanente. Em geral ela não passa de seis anos e, nesta etapa, uma máquina (computador) já é considerada obsoleta e sem serventia para trabalho algum, o que obriga seus proprietários a inutilizarem os equipamentos, descartando-os.
O descarte desses equipamentos gera uma movimentação saudável sobre muitos aspectos e altamente prejudiciais por outros. Sob o ponto de vista econômico, são novos produtos entrando no mercado, novos empregos, novas tecnologias, sempre contendo avanços que algumas vezes, chegam a ser de certa forma revolucionários. Não distante disso, porém, também são gerados novos
problemas. Todos os materiais resultantes do descarte de um computador, como plásticos, componentes com bases químicas, metais e gases tóxicos, são produtos que, se não forem corretamente destinados, tendem a causar um impacto negativo diretamente na natureza. Assim está criado um problema ecológico, cuja solução disponível para minimizar seus efeitos é a reciclagem e reutilização dos materiais.
Outro problema é de ordem social, pois é gerada uma culpa moral devido aos contrastes gritantes, reflexos da desigualdade imposta à população. Enquanto em alguns locais os equipamentos são substituídos pelos de última geração, em outros uma quantidade enorme de pessoas continua alheia ao recurso da informática por completo, sem oportunidade alguma de acesso.
Outro fator pertinente neste cenário é a falta de mão de obra para a manutenção e desenvolvimento de novos equipamentos informatizados, cuja presença é realidade em quase todos os produtos que permeiam as nossas vidas, seja no seu processo de elaboração e funcionamento, como, também, no próprio produto. Com a modernização de todos esses equipamentos, a inteligência humana, que convencionalmente costuma-se chamar de mão de obra, é obrigada a se qualificar para mantê-los, sob pena de que uma nação se estabeleça apenas na condição de importadora de soluções e tecnologias, sem qualquer iniciativa de desenvolvimento local. O resultado prático da não apropriação do conhecimento por parte das pessoas é a escassez de profissionais qualificados para executar determinados serviços. Aliado a isso, pode-se recordar a dificuldade para a formação desses profissionais, que vai desde a esfera financeira até a da disponibilidade de espaços para qualificação.
Com vistas a estas necessidades atuais é que surgiram os Centros de Reciclagem e Recondicionamento de Computadores (CRC), com o objetivo de minimizar os efeitos negativos do desenvolvimento tecnológico. Mediante breve análise, expomos a seguir detalhes do funcionamento e objetivos de um CRC localizado no município de Porto Alegre – RS. Trata-se do Centro de Recondicionamento de Computadores – CRC Cesmar, que é parte integrante do
Programa Federal Computadores para a Inclusão, que prevê a reutilização de computadores usados, doados por empresas, particulares e órgãos públicos, em iniciativas de inclusão digital e impacto social, por meio do recondicionamento das máquinas.
Os Centros de Recondicionamento de Computadores (CRCs) vinculados ao projeto Computadores para Inclusão são espaços físicos adaptados para o processamento de equipamentos de informática usados, de modo a deixá- los em plenas condições de funcionamento.
Instalados em periferias de grandes cidades, os CRCs oferecem oportunidade de formação profissional para pessoas que vivem em seu entorno. Nos centros, jovens aprendem na prática a testar, consertar, limpar, configurar e embalar as máquinas. Os computadores prontos são doados a telecentros, bibliotecas e escolas públicas de todo o país.
Os componentes não utilizados no processo de recondicionamento são reaproveitados de maneira criativa, transformando-se em objetos artísticos, bijouterias ou robôs, entre outros. Os CRCs providenciam o descarte ambientalmente correto das partes e resíduos não aproveitáveis (Ministério do Planejamento, 2009).
O CRC-Cesmar de Porto Alegre está localizado na Região Nordeste da capital gaúcha, que abriga cerca de 97 mil habitantes, compreendendo partes das microrregiões Eixo Baltazar e Nordeste com os Bairros Mário Quintana e Rubem Berta, segundo dados do Observatório da Cidade de Porto Alegre (2009). Esta área detém a menor renda per capita da cidade, apresentando altos índices de pobreza e ausência de infraestrutura básica, colaborando para o respectivo aumento da criminalidade principalmente com o tráfico de drogas
A área de abrangência do CRC-Cesmar compreende os seguintes loteamentos e vilas: Wenceslau Fontoura, Timbaúva I, II e III, Recanto do Sabiá, Vila Unidos, Vila União, Vila Safira, Vila Batista Flores, Chácara da Fumaça, Valneri Antunes, Cohab Rubem Berta e Jardim Leopoldina. Conforme o Observatório da Cidade de Porto Alegre (2009), 35,94% da população destes bairros e vilas é composta de crianças, adolescentes e jovens, e, grande parte destes se encontra em situação de vulnerabilidade social devido às precárias condições apresentadas pelas comunidades locais.
A USBEE – Centro Social Marista de Porto Alegre14 atende à comunidade
próxima do seu espaço físico, cuja vulnerabilidade social e econômica é muito alta. Os inseridos neste contexto são pessoas que dependem principalmente da coleta de materiais recicláveis, tais como papéis, latas de alumínio, plásticos PET, etc., não dispondo de outra forma de geração de renda. A maioria da população não possui emprego formal e, quando possui, são para atividades temporárias e/ou informais. O nível de vida dos envolvidos que dependem deste Projeto é precário, defrontando-se com a pobreza e com as desigualdades sociais, como a corrupção e a violência urbana. O público atendido possui ainda um alto índice de analfabetismo funcional. Neste aspecto, o desenvolvimento do projeto do Centro de Recondicionamento de Computadores – CRC Cesmar tem sido uma fonte de novas possibilidades de agregação de conhecimento técnico, e uma alternativa não somente de formação profissional, como também de conhecimento de educação e de cultura para a comunidade, em especial ao jovem atendido (USBEE, 2009, p. 10-11).
Além do objetivo da reutilização dos computadores usados, o projeto prevê a qualificação de jovens oriundos de comunidades das periferias dos centros urbanos. São esses jovens que, após conquistarem a qualificação necessária, processam o recondicionamento das máquinas tornando-as próprias para nova utilização. A proposta é uma tentativa de integrar com as tecnologias de informação e comunicação, pessoas que constantemente estão excluídas deste ambiente pela falta das devidas condições de acesso. A iniciativa segue a linha de reflexão que indica que não basta ser reprodutor de tecnologia, mas sim, desenvolvedor. Para que qualquer tecnologia possa ser desenvolvida, primeiramente ela deve ser apropriada, ou seja, deve ter o conhecimento que a compõe compreendido pelos seus atores. Conforme consta no Projeto Pedagógico do CRC–Cesmar, a formação dos jovens frequentadores do projeto contempla quatro dimensões:
Nossa primeira preocupação nas oficinas será de desenvolver primeiro o campo que envolve a aprendizagem política dos direitos dos indivíduos enquanto cidadãos, isto é, o processo que gera a conscientização dos indivíduos para a compreensão de seus interesses face ao meio social e à natureza que o cerca, por meio da participação em atividades grupais. O segundo campo trata da capacitação dos jovens para o trabalho, por meio da aprendizagem de habilidades e/ou desenvolvimento de potencialidades. A terceira dimensão propõe a aprendizagem e/ou exercício de práticas que capacitam os jovens a se organizarem com objetivos comunitários, voltadas para a solução de problemas coletivos cotidianos, organizando-se em forma de cooperativas.
Finalmente o quarto e não menos importante dos campos que trabalharemos se relaciona à aprendizagem dos mesmos conteúdos da escolarização formal, escolar, mas, sob formas diferentes e em espaços diferenciados através de palestras, capacitações e cursos, ministrados pelos
próprios educadores ou palestras e cursos contratados (USBEE, 2009, p. 16-17).
Para a realização das etapas de formação dos jovens, os conteúdos relativos às dimensões apresentadas são abordados em forma de oficinas de aprendizagem, divididas em número de 7, com os seguintes temas: robótica (10 jovens por turno), hardware (15 jovens por turno), periféricos (10 jovens por turno), sistemas (8 jovens por turno), servidores (6 jovens por turno) teste/embalagem/descarte (3 jovens por turno) e formação humana (encontros semanais com todos os jovens do projeto). A oficina de formação humana desenvolve os seguintes temas:
• juventude, direitos e assistência social; • juventude e trabalho;
• juventude e cultura;
• juventude e meio ambiente; • juventude e saúde;
• juventude, esporte e lazer.
As atividades do CRC–Cesmar ocorrerão em horário alternado ao da escola. O ciclo completo de atividades do CRC–Cesmar tem duração prevista de até 24 meses e carga horária total de 1.200 horas, distribuídas em até 40 semanas/ano, perfazendo uma carga horária semanal média de 20 horas, ou 4 horas/dia de atividades para os jovens. A cada 2 anos, ao se concluir um ciclo completo de atividades, os jovens deverão ser desligados. Um novo ciclo completo terá início, com a constituição de novos educandos, a partir do processo de preenchimento das vagas abertas pela saída dos jovens que concluíram sua participação no CRC–Cesmar (USBEE, 2009, p. 17).
Os computadores que chegam ao CRC, obsoletos tecnicamente, são oriundos de doações de empresas, particulares e principalmente do poder público. No CRC eles são remontados, usando as peças que ainda possuem condições de serem aproveitadas. Quem realiza esse trabalho são os próprios educandos, atualmente em número de 115, que, além de frequentarem aulas teóricas sobre o assunto, conferem na prática o resultado do seu próprio trabalho.
social. O ambiente é aberto para experimentar, tendo como princípio a formação humana e profissional. O aprendizado acontece na prática e com o benefício maior voltado aos próprios educandos, uma vez que o resultado disso, que são os computadores reformados, é destinado a instituições de cunho social e escolas, com o projeto de, no futuro, estar se expandindo para as próprias pessoas físicas que não possuem as plenas condições de adquirir um equipamento deste tipo.
Os computadores que saem do CRC para os destinatários finais possuem o sistema operacional livre (Linux) instalado. Isto proporciona um grande esforço no aprendizado dos educandos, considerando que a demanda é muito grande e muitas são as especificidades. Cada máquina possui uma configuração específica. O software livre permite otimizar ao máximo o rendimento de cada computador por ser adaptável a sua necessidade. Isto é uma grande vantagem, quando comparado ao software proprietário. Além disso, ainda deve-se somar a isenção do custo da licença de utilização, pois, neste caso, a propriedade do software é coletiva.
Nesta parte do processo de reciclagem, a instalação do sistema operacional livre, é quando se percebe uma maior dificuldade, pois o raciocínio deve superar o lógico e o “tudo fácil”. O incentivo à pesquisa por soluções para os problemas encontrados é constantemente instigado pelas situações que são criadas. Isto vai ao encontro da concepção de que a figura do professor deve possuir um perfil capaz de criar situações-problema para serem resolvidas e, para que assim, os educandos tenham a oportunidade de construir o conhecimento com seus próprios esforços. Trata-se de um espaço livre para criar e experimentar, mesmo que a criação, momentaneamente, seja limitada. Essa iniciativa permite que o indivíduo-aprendiz tenha contato prático com a ferramenta e consiga extrair daí um resultado.
No caso concreto do Centro de Reciclagem de Computadores, os problemas proporcionados tanto pelo desafio do reaproveitamento de partes e peças de computadores antigos, quanto pela utilização do Software Livre para pôr estes equipamentos em funcionamento, são constantes e as soluções não estão sempre à vista. É uma realidade interessante quando confrontada com as dificuldades
encontradas pelos adolescentes, que nem sempre possuem maturidade suficiente para estas atividades. Isto acontece por diversos motivos, oriundos da realidade social e cultural, que não podem ficar distante do olhar que acompanha este tipo de iniciativa de caráter social, em que a questão humana não pode se afastar da técnica.
O que acontece com muita frequência é o aparecimento de dificuldades que, por sua vez, provoca as frustrações iniciais. O primeiro sintoma disso é a intenção imediata de anular o equipamento e fazer o desmanche completo do mesmo, descartando, assim, todas as peças. Neste caso o que fala mais alto é a cultura do imediatismo, que trata das coisas como “utilizáveis” e “não-utilizáveis”. Aquelas que possuem uma utilidade no momento devem ser preservadas e receber investimento; já para aquelas que apresentam algum problema, que nem sempre é muito grave ou que não tem conserto, a solução mais fácil é o descarte. É a visão de um grande relógio de engrenagens. Se uma peça estraga, o relógio todo não funciona. Para consertá-lo, basta trocar a peça e ele, teoricamente, funcionará. A vida humana, no entanto, não é um relógio e muito menos pode possuir uma única alternativa na resolução de seus problemas.
Um dos motivos possíveis para que estes atos aconteçam é a falta da percepção da totalidade. O pensamento influenciado pelo paradigma positivista, que separa as diversas instâncias para um olhar focado em apenas uma delas, e somente nelas, sem considerar as demais, se manifesta muito fortemente. De fato, é difícil ter uma visão de totalidade para quem, culturalmente, sempre conviveu com essas práticas contrárias ao que hoje, motivados por uma corrente progressista, julgamos como sendo pedagogicamente ideais.
Ainda no CRC, para os computadores que chegam ao estágio final o próximo passo é a instalação do sistema operacional. É nesta parte que se concretizou a possibilidade de observar o quanto as situações-problema, criadas por este desafio, desacomodaram os educandos. Como os computadores, ao final do processo, possuem uma arquitetura muito desatualizada, se comparado com os atuais
(modernos), os softwares (começando pelo sistema operacional) necessitam ser muito específicos, sendo, ao máximo, personalizados para todas as máquinas. Este, embora funcione matematicamente, também não é um relógio, ou pelo menos composto de um único modelo de peças. Para seu perfeito funcionamento, as interfaces de hardwares que os computadores possuem, nesse caso, com diversas origens, características, idades e estados de conservação, têm que estar em perfeita sintonia, visando sempre a principal delas e que irá utilizá-las posteriormente, a humana.
Uma intervenção neste tipo de realidade que foca prioritariamente o caráter social, deve dispor de uma estratégia que permita a adequada execução das atividades, coerente com a missão a que a instituição se propõe. É necessário uma pedagogia adequada, que não seja contraditória com a proposta humanizadora do projeto e que seja capaz de fazer um resgate das políticas públicas de inclusão e acesso a todos os indivíduos. Esta proposta é interpretada pelo CRC–Cesmar mediante a educação não formal, conforme cita seu projeto pedagógico:
Julga-se necessário reforçar que a disparidade entre os cidadãos com acesso a bens de consumo e os cidadãos carentes (até mesmo dos mais elementares serviços que garantam uma existência minimamente digna) é muito grande nos dias de hoje, e a educação não-formal precisa resgatar esse processo, contemplando essas pessoas que, aparentemente, necessitam somente de comida, a se alimentarem de outros saberes, já que poderão colaborar – e muito – para o crescimento, não somente da sua comunidade, mas das famílias em geral, que poderão ter seus filhos em instituições sociais que não estão preocupadas só com a educação para a mídia para a inclusão digital, mas que pretendem educá-los através de todos os recursos que estão ao alcance da ação educativa, nesse espaço não-formal (USBEE, 2009).
Com isso, a instituição busca na educação libertadora uma prática possível para a concretização daquilo a que se propõe. Com a intenção de ampliar o entendimento dos conteúdos a serem trabalhados, a opção pela educação não formal acaba sendo a alternativa viável para agregar um mínimo de coerência ao projeto. É notório que o desvencilhamento dos conteúdos verticais que moldam, de modo geral, a educação formal, representada quase que exclusivamente pela escola e seu currículo regular, é muito difícil de acontecer. Em um cenário em que o
principal nem sempre é o conteúdo técnico em si, mas, sim, a prática que se faz por intermédio dele, a organização social é desafiada a propor alternativas às práticas consideradas como tradicionais no ambiente educacional, sob o risco de fazer uma educação conceitualmente libertadora com uma prática opressora e colonizadora.