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EU GRITO, LOGO SOU UMA ENERGIA: Bachelard e a capoeira angola, uma fenomenologia do corpo

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Academic year: 2021

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CAPOEIRA

Revista de Humanidades e Letras

ISSN: 2359-2354 Vol. 4 | Nº. 2 | Ano 2018

Gabriel Kafure da Rocha

EU GRITO, LOGO SOU UMA ENERGIA:

Bachelard e a capoeira angola,

uma fenomenologia do corpo

_____________________________________

RESUMO

O presente artigo pretende fazer uma análise da possibilidade de diálogo entre Bachelard, a capoeira e as fenomenologias do corpo - como conciliar a filosofia europeia com a indo-afroamericana? Para isso, nos valeremos do imaginário da capoeira angola em busca de trocas nessa roda de saberes, pelo o conceito de

fisiognomia de Bachelard que se aplicará na capoeira angola para

revelar a relação entre animalidade e dissimulação no imaginário dessa prática. Logo, desenvolveremos esse complexo pela força de antagonismos da poética e da epistemologia. Para isso, nos valeremos de breves comentários de Hountondji e Senghor para desvelar o pluralismo na filosofia francesa de Bachelard aplicada à africanidade e a partir dessa experiência do pensamento buscar mediar os relatos de experiências filosóficas e geopoéticas nativas como professor de capoeira angola e filosofia.

Palavras chave: Fisiognomia; dissimulação; animalidade.

___________________________________

ABSTRACT

The present article intends to analyze the possibility of a dialogue between Bachelard, capoeira and the phenomenology of the body - how to reconcile European philosophy with Indo-African American? For this, we will use the imagery of capoeira angola in search of exchanges in this circle of knowledge, for the concept of physiognomy of Bachelard that will be applied in capoeira angola to reveal the relation between animality and dissimulation in the imaginary of this practice. Therefore, we will develop this complex by the force of antagonisms of poetics and epistemology. To that end, we will use brief comments by Hountondji and Senghor to unveil pluralism in Bachelard's French philosophy applied to Africanity and from this experience of thought to seek to mediate accounts of native philosophical and geopoetic experiences as a teacher of capoeira angola and philosophy. Keywords: Fisiognomy; concealment; animality.

Site/Contato

www.capoeirahumanidadeseletras.com.br

[email protected]

Editores

Marcos Carvalho Lopes

[email protected]

Pedro Acosta-Leyva

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Robson Carlos da Silva; Rafael Bruno Ferreira Silva; Cândida Angélica Pereira Moura

Capoeira – Revista de Humanidades e Letras | Vol.4 | Nº. 2 | Ano 2018 | p. 99

EU GRITO, LOGO SOU UMA ENERGIA:

Bachelard e a capoeira angola,

uma fenomenologia do corpo

1

Gabriel Kafure da Rocha

"Je danse, donc je suis,” Leopold Senghor

Iê!

É por esse grito ancestral que inicio essa experiência de transformar o movimento em pensamento. Esse intento é justamente um acontecimento de uma alma que canta, dança e é “carne, o bios que grita. É o não cartesianismo extremado: ‘...je crie donc je suis une énergie’.” (TERNES, 2014, p. 72).

A capoeira é a ciência do corpo, Bachelard concebe o corpo como uma estrutura complexa de músculos e sentidos2. Primeiramente, o corpo do capoeirista, fenomenologicamente se manifesta na sua história, desde criança e como cognitivamente lida com seu corpo, desde todas as suas cicatrizes ou brincadeiras que teve na história da sua vida, ele, o angoleiro, pode até espelhar seus trejeitos no mestre, mas essencialmente, o que acontece com seu corpo na capoeira é fruto do seu auto-conhecimento.

Procurando compreender uma ontogênese do corpo, encontrei em Gaston Bachelard não só uma maneira de concretizar o meu pensamento com sua alquimia que vai da epistemologia de si à poesia, mas também uma maneira de traduzir os meus desejos em metamorfoses. Assim, transformo em vontade a aproximação entre Bachelard e a capoeira. Por essa frase, o presente ensaio iniciado pelo complexo do bestiário e da animalidade a partir da obra dele em

1 Prof. Me. Gabriel Kafure da Rocha - Doutorando em Filosofia pela UFRN, Professor de Filosofia do Instituto

Federal do Sertão Pernambucano.

2 Em pesquisa de minha tese, afirmei que podemos compreender também que essa asserção nos levaria a uma

fenomenologia dos sentidos onde o sentimento (coração) estaria permeando as nossas percepções racionais do tato, paladar, olfato, visão, audição e a própria intuição de um sexto sentido. É pela intuição também que se nota a descontinuidade da segunda fenomenologia, já que enquanto epistemólogo, Bachelard é um ferrenho crítico da intuição. Curiosamente, podemos fazer uma correlação principal entre os sentidos e a psicanálise de modo que “Freud não diz que o superego é uma influência acústica (enquanto o "id" pode ser natural ou visual)?” (LESCURE, 1983, p. 199). Aproveitando assim o raciocínio, podemos deduzir que o ego é assim o sentido do tato e por essa razão, audição, visão e tato são os principais sentidos ativos para Bachelard. “O olfacto é, realmente, o sentido mais passivo, o mais terrestre, o mais imóvel, o mais imobilizante, aquele que, mais lentamente, mais pacientemente, mais calmamente aguarda que a realidade imposta se afaste, se apague, para depois sonhar verdadeiramente com ela” (Bachelard, 1989, p. 87). Já o paladar se revela pela multiplicidade, seja do gosto, como da capacidade linguística. Ele parece ser um sentido passivo e ativo.

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homenagem aos Cantos de Mordor3, cujo nome é Lautreamont. Apesar de ser uma obra de

crítica literária, Bachelard inaugura uma nova forma de pensar o corpo, e é ela que me interessa mais para enfatizar a minha capacidade de transformar o pensamento em movimento. Logo, me apropriarei dessa estrutura poética e jogarei na roda dos saberes. O corpo do capoeirista não precisa ser forte, mas sim esperto, ágil, flexível e essa esperteza se dá pelo conhecimento do músculo, que posso considerar como númeno do fenômeno do movimento, visto que ele é a condição de possibilidade para a flexibilidade, golpes e acrobacias.

Ativamente, despertando em nós as simpatias musculares, compreenderemos o que seria uma higiene da vontade pura. Quando se experimentou o efeito consolador de um treino físico unicamente de carácter interno, que busca a pureza do impulso, conseguimos efectuar uma espécie de ginástica central que nos liberta da preocupação de executar os movimentos musculares, ao mesmo tempo que nos proporciona o prazer de os escolher. (BACHELARD, 1989, p. 65).

Por isso, o corpo do capoeirista é espiritualmente saudável, o capoeira deve superar os problemas corporais, pois sua capacidade de elasticidade está constantemente vencendo suas couraças, neuras que costumam se encarcar na sua postura física diante do mundo. Se o capoeirista tem lesões, é porque ele caiu, e por isso precisa se levantar, reconhecendo os seus limites e buscando sempre ultrapassá-los numa auto fisioterapia, devagar ou divagando ele consegue se curar. Com isso, pode-se dizer que a sabedoria da capoeira, mais do que do jogo é estar bem de saúde. E nesse sentido, saúde é mente sã, corpo são, ginga alegre, sorridente e canto que transpassa magia poética e coordenação da sincronicidade da roda. Caso contrário, quando um capoeirista se machuca provavelmente machuca o outro, isso mostra falta de auto-conhecimento, quando ele usa seu bestiário animal e violentamente machuca o outro, ainda assim deve ser uma estratégia de bloqueio energético para intimidar o oponente e fazer sua aura prevalecer na roda.

Nesse sentido, cada movimento do capoeirista é uma escolha da liberdade, o instinto e o destino envolvem o transe da capoeira. Quando se faz algo que vai além daquilo que seus músculos e sua inteligência calculavam, parece que o transe se eleva como a descoberta do que vai além do seu corpo.

Sem irmos tão longe, podemos verificar que o instinto organiza e pensa. Mantém os pensamentos, os desejos, as vontades especificadas o tempo suficente para que essas energias se materializem nos órgãos. O instinto ofensivo continua um movimento com uma vontade suficiente para que a trajectória se torne uma fibra, um nervo, um músculo. (BACHELARD, 1989, p. 30)

3 “O poema Os cantos de Maldoror chegou às mãos de Bachelard, através de Roger Caillois. Foi num congresso

realizado em Praga, em 1934, que o filósofo conheceu o jovem poeta que, na ocasião, tinha apenas vinte anos. Durante o congresso Bachelard e Caillois tiveram longas conversas e numa delas, o poeta sugeriu ao filósofo que lesse o magnífico poema de Lautréamont. (Bulcão, 2014, p. 89)

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Robson Carlos da Silva; Rafael Bruno Ferreira Silva; Cândida Angélica Pereira Moura

Capoeira – Revista de Humanidades e Letras | Vol.4 | Nº. 2 | Ano 2018 | p. 101 Ora, aí que está a questão, na roda da capoeira e sua relação espacial, é preciso que dois indivíduos, dotados do domínio do instinto, consigam ocupar cada um de si o seu lugar. É por isso que falando do treino, é essencial para o capoeira entender todas as maneiras de fazer seu corpo, por meio de movimentos, habitar em si e nos lugares. O capoeira quando entende isso, consegue realizar a transposição de ser um nômade, viajar pelo mundo com seu corpo, jogando e se lançando e vivendo disso.

Isso é realmente extraordinário quando não sobe à cabeça como vaidade. Eis que o mundo do capoeira é mais do que a boêmia e a capacidade de jogar e ser vitorioso. Aprender a jogar é saber perder, e o mundo dele é a capacidade de fazer seu corpo habitar sua identidade, então, posso dizer, em certo sentido, que o mundo do capoeira é a escultura de si. Tanto no aspecto da maneira como o jogador se cria, se concebe ou é concebido pelo mestre, tanto no aspecto em que ele lapida essa imagem na representação de seus movimentos.

Esse instinto deve promover uma metamorfose, e é aí que entra a animalidade. Em

Lautreamont, Bachelard empreende o seu bestiário com animais asqueirosos, dedica

primeiramente sua reflexão "ao caranguejo, à aranha e ao sapo" (Bachelard, 1989, p. 23), esses são os primeiros exemplos. Esses animais-insetos-crustráceos-anfíbios representam o movimento de deslocamento na capoeira, o deslocamento do angoleiro no chão. O movimento do caranguejo é um dos arquétipos mais ancestrais, chamado também de ginga no meio. Por ele, o angoleiro biomimetiza o ir e vir de um andar para trás indo para frente. Para Bachelard, a característica fisiognômonica do caranguejo é o fato de que ele "prefere ficar sem uma pata a largar a presa. O seu corpo é menos volumoso do que as garras. [...] exprimiríamos assim a divisa do caranguejo: devemos viver para agarrar e não agarrar para viver" (BACHELARD, 1989, p. 32). A aranha, é o movimento de deslocação da relação entre os braços e as mãos, com a barriga para cima, é um movimento de defesa, assim como o do caranguejo, que Bachelard compara mais a um piolho, já aranha está no mesmo arquétipo da sanguessuga, do polvo. "Vemos aí a velha aranha da 'espécie grande' que aperta a garganta da vítima adormecida com as suas patas. Lemos aí o suplício da 'sucção imensa'" (BACHELARD, 1989, p. 35). E o sapo é o movimento do pulo que se protege entre suas pernas. Bachelard não desenvolve seu pensamento sobre o sapo, mas diz que eles são facilmente estraçalhados pelos cães.

O que me importa agora é tentar decifrar os arquétipos maiores dessa animalidade. Que ao meu ver, não se esgotam nunca. Seguindo a lógica da trilogia, classifico agora a cobra, a onça e o gavião como os arcanos maiores do da animalidade instintiva na capoeira. "Porém aí, mais uma vez, tivemos que reconhecer que a crueldade tradicional representada pelo tigre ou pelo lobo não possuía valor dinâmico. A imagem do tigre, com a sua crueldade clássica, antes viria

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bloquear o complexo." (BACHELARD, 1989, p. 25). A onça preta que se disfarça na noite, se esconde quase tão bem quanto a cobra, na noite somente seus olhos brilham.

A cobra, a grande mãe, com seu movimento circular simboliza a própria roda da capoeira, ela é o animal da terra, que transita entre o reino mineral e vegetal, ela é uma planta viva. A onça é o símbolo da liberdade, que transita livre dos caminhos do reino vegetal, mas que é a própria força do reino animal, pois ela é o habitante das florestas que lida com a violência do mundo. Desses animais, "O primeiro move-se com passos de dançarino, o outro em saltos de tigre!" (BACHELARD, 1989, p. 10). E o gavião, por fim, é a visão e a possibilidade do horizonte do reino humano, "A águia, tal como o piolho, ou o caranguejo e todos os animais vigorosamente imaginados do Bestiário, pode mudar de dimensão." (BACHELARD, 1989, p. 34) Mestre Pastinha dizia ter dois discípulos, um era cobra mansa e o outro gavião. Ou seja, a ligação da terra com o céu, uma co-pertença. Contudo, é na cobra, como símbolo do auto-conhecimento, quando ela morde o próprio rabo é que se delimita o mundo do capoeira. Para Bachelard, mais que o rabo, a serpente é braço " a serpente é um braço flexîvel, é a agilidade." (BACHELARD, 1989, p. 36)

Seguindo por outros caminhos, gostaria de comentar um pouco sobre o capoeira como fenomenologia de si, no meu caso, como uma filosofia afrodescendente que se demonstra o tempo todo na minha visão da capoeira, por isso, para mim, Mestre Pastinha foi realmente o centro irradiador da angola, por alcançar a metafísica da capoeira. Contudo, é possível aprofundar mais o "ser da capoeira", posto que tanto o ser como a capoeira são infinitos. E o processo de criação, desconstrução e mesmo destruição também, tudo depende da circunstância, e essa efemeridade é fundamental na construção epistemológica corporal do fenômeno da capoeira.

Este conhecimento deve ser peneirado através do método científico que é, segundo Bachelard, um método da "circunstância". O pesquisador africano deve, portanto, integrar o que Patimale José Blaunde chama de dinâmica da "destruição criativa". Em outras palavras, dois princípios fundamentais devem habitar a mentalidade africana: ruptura e demarcação. (OGOU, 2018, p. 54).

Chegamos então a circunstância da maestria, desse que é o maior aprendiz, pois se desconstrói constantemente para reconstruir o conhecimento do corpo em seus discípulos. Pela sua capacidade de imaginar, inventar, lidar com os erros e ensinar o “não”, no sentido amplo do termo, o mestre é o pai, aquele que primordialmente por um sentimento de amizade desenvolve a capacidade do seu aprendiz de encontrar o seu ser pela capoeira. O mestre é quem detém os ensinamentos e esses ensinos, muitas vezes podem ser negados pelo discípulo, num parrecídio que, na hora certa, o ensino que brotou e amadureceu no discípulo, se tornou a própria capacidade de entender o tempo de cada coisa e saber a época certa de colher o fruto, aí está a

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Robson Carlos da Silva; Rafael Bruno Ferreira Silva; Cândida Angélica Pereira Moura

Capoeira – Revista de Humanidades e Letras | Vol.4 | Nº. 2 | Ano 2018 | p. 103 maestria do mestre. O angoleiro tem que se auto-conhecer, saber até onde vão os limites do seu mundo e se for o caso se tornar contra-o-mestre, ou seja, questionar e provocar uma ruptura é algo que faz parte da descontinuidade de sua animalidade.

"A questão debatida aqui é a seguinte: o espetáculo do animal às vezes nos hipnotiza a ponto de nos inspirar com uma conduta desumana: como descartar, como psicanalisar esse obstáculo que frustra nossa vocação humana" (MANSUY, 1965, p.30). A vocação humana se revela então na sua capacidade de fisiognomia e superação dos obstáculos, ora, é preciso estar atento ao gnomos, ao conhecimento que se desvela da fisio. É aí que entramos na metodologia que queremos chegar, a de que as circunstância que somos, como diria Ortega e Gasset, se desenrola em situações pluriversas.

Nossa sociedade atual é, de fato, uma sociedade original, econômica e culturalmente heterogênea, com contribuições africanas [indígenas] e européias. Em 'Le Nouvel Esprit Scientifique', Gaston Bachelard observa, muito a propósito, que um novo método é sempre necessário para fazer face a uma nova situação. Este é o nosso caso (SENGHOR, 1965, p. 102 – grifos meus).

Pela fisiognomia podemos entender então o método de desvelamento desse simulacro social-individual que permeia a superfície do rosto4. A diferença da fisiognomia e da fisionomia

é que enquanto a segunda pretende chegar a interioridade do indivíduo, a fisiognomia pretende justamente empreender uma fenomenologia da dissimulação das superficialidades. E assim explorar o processo da imagética criadora de si e do imaginário.

A fisiognomia é a contração dos músculos do rosto, e por sua vez, a formação das máscaras, ou más-caras. Um processo de exteriorização espontânea e inerente a todas as culturas primitivas do mundo, exorcizar a sua animalidade.

Nesse sentido, para Bachelard, os traços decisivos da fisiognomia devem ser procurados no rosto que se revela, sob a forma de máscara, [...], pois este é resultado de um processo imagético de criação que revela o que o indivíduo é no seu íntimo. As máscaras virtuais são, portanto, máscaras psicológicas, nós as apreendemos através de nossas interpretações. Pode-se dizer, que as máscaras virtuais assumem nossa decisão de ter uma fisiognomia, são, na verdade, rostos falados. (BULCÃO, 2011, p. 54)

O desejo de ter uma fisionomia é muito semelhante ao processo do capoeirista de se separar ou não do seu mestre/pai. É aí que a fenomenologia da dissimulação se revela na medida em que se desenvolve a origem de sua arte e técnica. É possível dizer então que a raiz da fisiognomia, encontrada em Lautreamont e em seu bestiário animal, por meio da interpretação de Bulcão, nos deu uma importante pista.

4 As marcas do rosto, “Em face de um rosto humano assim animalizado sentimos uma certa satisfação. Ficaremes

cententes por deminarmos o animal que nele reconhecemos?” (Bachelard, 1989, p. 98). A diferença ou talvez a semelhança entre o conceito de Rosto em Bachelard e Levinas é que enquanto para Bachelard é a consciência da

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Notem o que o próprio Bachelard havia dito:

Se pudéssemos desenvolver mais longamente tais explicaçöes chegariámos à conclusão de que a fisiognomonia, nas suas descrições anatómicas, esqueceu por completo os caracteres temporais do rosto. Encontraremos esses caracteres temporais revivendo a dinâmica dos gestos na sua completa sintaxe, distinguindo as diversas fases energéticas e, sobretudo, fixando a justa hierarquia nervosa das expressões múltiplas. O rosto de um homem decidido revela os instantes da mutilação do seu ser. O senso comum é tão pouco observador que confunde todas as suas observações sob o simples sinal de uma cara enérgica. (BACHELARD, 1989, p. 89).

Na capoeira angola, o indivíduo procura encontrar o seu arquétipo animal, seu nome, mas não sabe ele que a ideia do animal é um arquétipo que busca a face das profundas fobias que permeiam nosso inconsciente. Após encontrar seu totem xamânico, o angoleiro encontra no seu caminho o seu próprio orixá, como a sublimação desse lado animal. Para Bachelard, o animal é um psiquismo monovalente, de modo que ele não é uma máquina, mas uma monomania de uma animalidade maquinada que descobre o instinto. Assim, o método bachelardiano desvela essas três fases aplicadas a capoeira: do inseto (movimentação) – ao animal (fisiognomia – conhecimento ) – até o orixá (espiritualidade). Essas três fases não são excludentes ou lineares, no sentido de uma evolução, são mais estádios que giram em torno deles mesmos, alguns capoeiristas nunca saltam de uma à outra, outros, conseguem vivenciar todos esses aspectos e encontrar a plena maestria.

Não se trata do desenvolvimento espontâneo da sabedoria tradicional na epistême moderna, mas do envolvimento do primeiro pelo segundo, como diria Bachelard. A propósito, a execução correta desse projeto de envolvimento (integração, recuperação, etc.) pressupõe a elaboração de uma metodologia que pode não ser exclusiva dos cientistas, mas também dos filósofos (HOUNTONDJI, 1996, p. 100).

Nesse sentido filosófico, Bachelard acredita que há uma igualdade entre a conduta animal e o mito humano, numa função diversa do paralelismo clássico entre instinto e inteligência, por isso, o instinto humano tem um apetite de formas igual ao da matéria. Ele busca nos princípios dinamizantes a realidade de que o animal é um princípio fundamental. "Nessa altura devorar é mais importante do que assimilar; ou ante, só se assimila aquilo que se devora" (BACHELARD, 1989, p. 118).

Nessa antropofagia, passiva e ativa de seus gostos, do palato de sua fala, a animalidade agressiva se dá na imprevisibilidade. É assim como no mundo dos insetos, tem na borboleta ou mesmo o colíbri, o mesmo sentido de ataque à flor, por mais que cada gesto seja tenha seu impacto ou leveza.

Por fim, por essa consciência da animalidade podemos dizer que a "Capoeira pela harmonia do ser", uma das frases que meu mestre me ensinou, é que depois de tanta luta, de si

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Robson Carlos da Silva; Rafael Bruno Ferreira Silva; Cândida Angélica Pereira Moura

Capoeira – Revista de Humanidades e Letras | Vol.4 | Nº. 2 | Ano 2018 | p. 105 contra si, contra a natureza, contra o mundo, o ensino dela é pleno, é harmonia de si, harmonia de ser alguém que tem algo para jogar no jogo de troca de saberes. Essa filosofia é a de que cada aprendiz tem potenciais e virtudes a serem desenvolvidas pela capoeira, não é somente a virtude do jogo, do canto, do movimento. É no treino que o mestre demonstra que o movimento é mais do que jogar as pernas para o ar. A capoeira, enfaticamente, é ver o mundo de ponta cabeça, e isso quer dizer ver as coisas como realmente são e desconstruí-las. Notem que muitos mestres não querem ensinar seus maiores segredos, seus truques, e aí está uma grande diferença entre a capoeira antiga (da qual eu realmente não participei, mas ouvi os mais velhos falar), é a de que antes era preciso crescer para estar pronto para aprender o valor de cada coisa, hoje, muita coisa se vende, mas a capoeira, na sua essência não se vende a ninguém, ela se aprende vendo e observando. Os mestres antigos ensinavam pegando pela mão, sempre mantendo a elegância e o respeito, pois essa é a condição da civilidade, da piedade da sua devoção, esse é o seu trabalho incessante de se ressignificar e mostrar o ser da capoeira. Aquele que não tem respeito e conhecimento, é porque não conseguiu ver os limites do seu mundo e não encontrou a si mesmo. O movimento do corpo nasce da relação entre a previsão e a imaginação. Para construir o seu corpo, ser um pensador de seu movimento, é preciso estar o tempo todo ligado ao instante "em que a metamorfose revela o jogo completo do ser" (BACHELARD, 1989, p. 121). Assim, queremos dizer que esse envolvimento do ancestral com o contemporâneo e mais atual pensamento científico, é pouco feito por conta da negação da preguiça. Mas ora, ao dizermos que a filosofia é fruto do ócio, a preguiça se revela assim a tradução desse impulso do pensar dissimulador, uma função que até no reino animal se encontra, quando também no gesto dos mamíferos quando bocejam e talvez até mesmo sonhem.

"Essa deformidade não traduz aquele estranho movimento de quem se espreguiça ao contrário, aquela descontração produzida por um retesamento interno que faz avolumar o corpo através de uma preguiça que se sabe ser efémera e inofensiva" (BACHELARD, 1989, p. 102). A dissimulação é o que deseja ocultar-se, é o próprio ser, e que por sua simulação é um simulacro, que cria uma nova superfície na face das coisas. Essa fenomenologia procura “remontar à raiz da vontade de ser outro que se é.” (BULCÃO, 2011, p. 49). E isso é um impulso da vontade e do desejo de cada um, que só pode encontrar em si, pois se ele vê em outro, que acaba interpretando uma simulação. Dissimular é desdobrar-se de si mesmo.

traços e partes, o rosto é a própria alteridade.

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REFERÊNCIAS

BACHELARD, Gaston. Lautréamont. Trad. Maria Isabel Braga. Lisboa: Litoral Edições, 1989. BULCÃO, Marly. A máscara e o rosto: dissimulação e verdade as perspectivas de Gaston Bachelard e François Dagonet. Ideação. v. 1, n. 25 (2011).

_____. Bachelard diante do onirismo dinâmico e visceral de Lautréamont. ALMEIDA, Fábio.

Tempo de Lautréamont. Goiânia: Ricochete, 2014.

HOUNTONDJI, Paulin. African philosophy - Myth and Reality. 2ª Ed. Trad. Henri Evans. Indiana: Indiana University Press: 1996.

LESCURE, Jean. Un Été Avec Bachelard. Paris: Luneau-Ascot, 1983.

OGOU, Victorien. Gaston Bachelard et l’Afrique - Pour une psychanalyse de la

connaissance africaine afin d’amorcer le développement sur le continent africain. Paris:

Edilivre, 2018.

MANSUY, Michel. « Bachelard et Lautréamont, I : la psychanalyse de la bête humaine ».

Études françaises, vol. 1, n° 1, 1965, p. 26-51.

TERNES, José. Bachelard e Lautréamont: Literatura, primitividade, animalidade. In: ALMEIDA, Fábio. Tempo de Lautréamont. Goiânia: Ricochete, 2014.

SENGHOR, Leopold. Um caminho do socialismo. Trad. Vicente Barretto. Rio de Janeiro: Ed. Record, 1965.

Gabriel Kafure da Rocha

Doutorando em Filosofia pela UFRN, Professor de Filosofia do Instituto Federal do Sertão Per-nambucano.

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