O
O
L
L
I
I
D
D
E
E
N
N
A
A
N
N
O
O
T
T
Í
Í
C
C
I
I
A
A
J
J
O
O
R
R
N
N
A
A
L
L
Í
Í
S
S
T
T
I
I
C
C
A
A
I
I
M
M
P
P
R
R
E
E
S
S
S
S
A
A
E
E
S
S
U
U
A
A
S
S
E
E
S
S
T
T
R
R
A
A
T
T
É
É
G
G
I
I
A
A
S
S
I
I
N
N
T
T
E
E
R
R
A
A
C
C
I
I
O
O
N
N
A
A
I
I
S
S
MESTRADO EM LÍNGUA PORTUGUESA
O lide na notícia jornalística impressa
e suas estratégias interacionais
Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), como exigência parcial para obtenção do título de MESTRE em Língua Portuguesa sob a orientação da Prof.a Dra. Ana Rosa Ferreira Dias.
BANCA EXAMINADORA
DEDICATÓRIA
A Maria Elisa Alves Codesseira por ter
sido ao longo de minha vida e deste
mestrado minha mãe, meu pai, minha
melhor amiga, minha confidente e minha
AGRADECIMENTOS
À CAPES pelo incentivo financeiro para elaboração deste trabalho.
A Antonio Pires Codesseira, meu querido pai, que ao longo de minha vida me auxiliou financeiramente em todos os momentos necessários.
À Cristina H. Alves Codesseira, minha irmã, que sempre me incentiva e torce pelo meu sucesso e pela minha felicidade.
À Prof.a Ana Rosa Ferreira Dias, sábia e paciente orientadora, que com todo seu conhecimento, meiguice e amizade, tão bem me orientou, tornando possível, desta forma, a realização do presente trabalho.
À Banca Examinadora, composta pela Prof.a Dra.Vera Lúcia Meira Magalhães e pelo Prof. Dr. Dino Preti, pela atenção e fundamentais sugestões que tanto me auxiliaram na elaboração deste trabalho.
Ao Prof. Dr. Dino Preti, querido professor e exemplar docente, por todo o carinho, apoio, incentivo cultural e contribuição para mais essa etapa de minha formação.
“– Estou na pista de um segredo industrial que me permitirá fabricar, sem um fiapo de algodão, um papel tão sólido quanto o papel da Holanda, a cinqüenta por cento abaixo do preço do custo atual da pasta de algodão.
– É uma fortuna! – exclamou Petit Claud.
– Uma grande fortuna, meu amigo, porque será preciso, dentro de dez anos, dez vezes mais papel do que é consumido agora. O jornalismo será a loucura de nosso tempo!”
Este trabalho tem por objetivo identificar e categorizar as estratégias interacionais presentes na construção dos lides das notícias jornalísticas impressas produzidos por dois jornais paulistas de grande circulação: O Estado de S.Paulo e
o Jornal da Tarde.
Ao abordarmos os lides produzidos por esses jornais, procuramos expor que existe uma interação distanciada no momento de produção e leitura de um texto, uma vez que leitor e autor exercem funções específicas durante esse processo. O autor tem a função de construir seu texto, selecionando as estratégias adequadas para que seu objetivo seja atingido. O leitor, por sua vez, deve procurar compreender, construir uma significação para aquilo que lê, estabelecendo, assim, um diálogo com o autor mediado pelo texto.
Para tanto, buscamos respaldo teórico no dialogismo interacional proposto por Mikhail Bakhtin, nas idéias acerca da função de um leitor, formuladas por Eco e Maingueneau, e discutimos a questão do envolvimento entre os interlocutores.
Sob essa perspectiva teórica, tivemos embasamento para analisar a organização estrutural do lide que não segue a formulação tradicional estruturada no princípio da relevância e, então, levantar as estratégias interacionais presentes nesses lides que visam a construir o envolvimento do leitor com a notícia jornalística.
Por meio da análise da amostra, chegamos a basicamente dois recursos que podem ser utilizados pelo jornalista para interagir e seduzir o seu leitor: ou mexer com o imaginário dele, construindo lenta e detalhadamente uma cena em sua mente, ou dirigir-se diretamente a ele, criando, assim, uma idéia de que os interlocutores mantêm uma conversação face a face.
This paper has the objective to identify and to classify the interactional strategies present in the construction of the news’ leads produced by two newspapers of great circulation from São Paulo: O Estado de S.Paulo e o Jornal da Tarde.
To approach the leads produced by those newspapers, we said that an distanced interaction exists in the moment of production and reading of a text, once reader and author make specific functions during that process. The author has the function of building his text, selecting the appropriate strategies to reach his objective. The reader should try to understand, to build a significance for that reads, establishing, like this, a dialogue with the author mediated by the text.
We are unchored in the interactional dialogism proposed by Mikhail Bakhtin, in the ideas that he concerning about the reader's function, formulated by Eco and Maingueneau, and we discussed the subject of the involvement between the speakers.
Under that theoretical perspective, we had support to analyze the structural organization of the lead that does not follow the traditional formulation, and, then, to lift the interactional strategies present in those leads that seek to build the reader's involvement with the journalistic news.
Through the analysis of the sample, we arrived basically two resources that can be used by the journalist to interact and to seduce his/her reader: or to move with the imaginary of him, building slow and in full detail a scene in his/her mind, or to drive directly him, creating, like this, an idea that the speakers maintain a conversation face to face.
SUMÁRIO
Introdução ... 01
I. Caracterização da amostra de análise 1.1. Considerações gerais ... 06
1.2. Os cadernos e os leitores de O Estado de S.Paulo ... 08
1.3. Os cadernos e os leitores do Jornal da Tarde ... 09
1.4. Algumas considerações sobre a amostra de análise ... 11
II. Manuais de redação e os lides jornalísticos 2.1. Considerações gerais ... 13
2.2. Os manuais de redação da Folha de S.Paulo ... 15
2.3. Os manuais de redação de O Estado de S.Paulo ... 18
2.4. A criatividade do jornalista e os manuais ... 20
2.5. O lide nos manuais de redação ... 21
2.6. Os lides e os teóricos do jornalismo impresso ... 31
III. Leitor, interação, dialogismo e envolvimento 3.1. Considerações gerais ... 45
3.2. Autor e leitor: uma estreita relação ... 46
3.3. Os diferentes tipos de leitores ... 51
3.4. A noção de interação ... 55
IV. O lide e suas estratégias interacionais
4.1. Considerações gerais ... 83
4.2. Tipos de estratégias interacionais presentes nos lides ... 86
4.2.1. A imaginação do leitor como estratégia interacional ... 88
4.2.1.1. Lide literário: o uso da intriga como estratégia interacional ... 89
4.2.1.2. Lide particularizante: o uso de casos particulares como estratégia interacional ... 97
4.2.1.3. Lide descritivo: o uso da descrição como estratégia interacional ... 101
4.2.2. A conversa com o leitor como estratégia interacional ... 106
4.2.2.1. Lide opinativo: opinião do jornalista como estratégia interacional ... 107
4.2.2.2. Lide interrogativo: o uso da interrogativa como estratégia interacional..111
4.2.2.3. Lide com interlocutor determinado: o uso do leitor apostrofado como estratégia interacional ... 116
Considerações finais ... 122
Referências bibliográficas ... 125
INTRODUÇÃO
O jornal pode ser definido como um veículo impresso de comunicação, que possui uma tiragem e uma periodicidade regulares, e que está organizado em cadernos cujas folhas são soltas.
Porém, ele é muito mais do que isso. O jornal é um veículo de comunicação, que juntamente com o rádio e a televisão, goza de grande prestígio em nossa sociedade. Ele é um produto que espera ser consumido por pessoas que desejam manter-se um pouco mais informadas. Trata-se, também, de um veículo produtor de notícias e é, portanto, o material de estudo da presente dissertação.
O desejo de estudar o texto jornalístico surgiu de uma antiga paixão pela mídia impressa. Essa “paixão” está relacionada à maneira como o jornalista habilmente transforma uma informação em notícia.
Além desse motivo, há, também, uma relevância social para se estudar a notícia jornalística, que está fundamentada na importância do jornal, pois como afirmam Bell e Garrett (1998: 2), “o jornal é o mais prestigioso dos gêneros da mídia diária, e sua função é central no exercício do poder nas sociedades modernas.”
público-alvo diferente.
Ao analisarmos esses jornais, tivemos por objetivo identificar e categorizar as estratégias interacionais presentes na construção de um envolvimento do leitor com a notícia jornalística impressa por meio de um lide caracterizado como não tradicional.
O lide tradicional surge por uma necessidade de padronização da notícia
jornalística. Nessa tentativa de padronização, a organização da notícia jornalística passou a ser norteada segundo o princípio da relevância, ou seja, a informação principal, a mais importante é destacada no momento em que o jornalista produz seu texto. Esse destaque, no texto, é dado, transformando o fato principal em manchete e desenvolvendo-o no lide.
Se a notícia jornalística é, então, estruturada seguindo o princípio da relevância, não se importando com a seqüenciação cronológica dos fatos, ela possui outras regras de ordenação denominadas por van Dijk (2000: 123) de esquemas rígidos. Esses esquemas são a superestrutura do texto jornalístico e esta
possui “uma natureza fixa, convencional (e deste modo, culturalmente variável) para cada tipo de texto”, como veremos no segundo capítulo.
O que nos propusemos a trabalhar é justamente a ruptura com essa superestrutura da notícia jornalística que se preocupa com o fato e a introdução de um lide com características que, ou despertam a imaginação de seu leitor, ou apresentam traços conversacionais, cujo objetivo é o de interagir com esse leitor, de envolvê-lo, de chamá-lo a partilhar algo que a princípio poderia não ser conhecido por ele.
importante do fato, porém, conterá estratégias interacionais que atendam a esse objetivo de seduzir, de prender a atenção de seu leitor.
Esses lides, embora presentes em manuais de jornalismo, ainda são utilizados com moderação. Uma das explicações para que isso ocorra é o fato de o jornalista atender a uma padronização apresentada pelos manuais de redação dos jornais e a sua excessiva carga de atividades, que obriga esse jornalista a seguir tal padronização como um recurso para agilizar seu trabalho.
Todavia, afirma Castro (2002: 77):
o modelo da prática jornalística que conhecemos hoje, pelo menos o praticado em vários jornais diários do país está agonizante. Essa mesma imprensa, inclusive, já começa a constatar a agonia e o padecimento desse modelo. É que hoje uma hibridação narrativa começa a emergir nas redações. Ante a dinâmica da informação, pergunta-se: o que tem o jornal a dizer no dia seguinte? Ou ele adapta-se ou cairá no efeito papagaio, a repetir o já dito.
A adaptação do jornalismo passa a ocorrer a partir do surgimento da televisão e do telejornal, dando origem a uma nova corrente no jornalismo chamado de New Journalism (Novo Jornalismo). A par disso, Dines (2001:89)
ressalta:
recentemente, nos meios intelectuais norte-americanos, fabricou-se uma nova escola: o “Novo Jornalismo”, tendo como expoentes máximos o repórter Tom Wolfe, Norman Mailer, conhecido escritor e panfletário, e Jimmy Breslin, repórter do New York Herald Tribune. O novo jornalismo preconizado é um velho estilo de escrever, adaptado ao que produzem aqueles intelectuais e seus companheiros, entre a crônica, a reportagem e o depoimento. Não é uma nova concepção para o jornal, nem uma nova linha de trabalho ou atitude profissional.
apresentar todos os seus desdobramentos e todas as suas circunstâncias.
Alguns dos lides analisados no presente trabalho, como o lide descritivo e o lide ficcional, fazem parte dessa corrente do novo jornalismo. Entretanto, o que
vale ressaltar é que sejam esses lides, e conseqüentemente essas notícias, parte do novo jornalismo ou não, o que verdadeiramente importa é que eles, diferentemente do lide tradicional, privilegiam o envolvimento com o leitor e não com o fato.
Para chegarmos a tal conclusão, fizemos uma primeira pesquisa com diversos jornais impressos paulistas: O Estado de S.Paulo, Folha de S.Paulo, Jornal da Tarde e Agora. Após esse primeiro contato, selecionamos a amostra de
análise e iniciamos nosso estudo.
O presente trabalho principia por uma apresentação do material pesquisado, ou seja, tratamos da amostra de análise, caracterizamos o jornal O Estado de S.Paulo e o Jornal da Tarde e, finalmente, levantamos as características do
público-leitor de cada um deles.
No segundo capítulo, abordamos especificamente os manuais de redação dos jornais de prestígio e de grande circulação na cidade de São Paulo: O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo. Apresentamos um histórico desses manuais e as
idéias acerca do lide presentes neles. Após tal caracterização, tratamos dos diferentes tipos de lide desses referidos manuais de jornalismo.
O capítulo seguinte contém as informações que balizarão a análise dos lides. Sendo assim, discutimos primeiramente a relação existente entre autor e leitor e os diferentes tipos de leitores, fundamentados nos preceitos teóricos formulados por Eco (1986) e Maingueneau (2001, 1998, 1996).
Em seguida, definimos o termo interação, discorremos sobre os
interação e de dialogismo e apresentamos as idéias de Marcuschi (1999) sobre a interatividade. Verificamos, então, por meio de tais idéias, que todo texto, seja ele escrito ou oral, pretende dialogar e interagir com um determinado interlocutor, envolvendo-o naquilo que está sendo escrito ou falado.
Isso posto, podemos afirmar que o envolvimento surge como conseqüência dessa relação dialógica interacional existente entre os interlocutores de um texto oral ou escrito e que ele pode concretizar-se de três diferentes maneiras, ou seja, há um envolvimento com o enunciatário, com o tema ou consigo mesmo.
No quarto e último capítulo, fizemos a análise da amostra selecionada e caracterizada em seis diferentes lides: o lide ficcional, o descritivo, o particularizante, o opinativo, o interrogativo e o com interlocutor determinado.
O que todos esses lides possuem em comum é justamente o fato de privilegiarem o envolvimento com o enunciatário ao invés do tema. Nessa busca pelo envolvimento, parte deles procura mexer com a imaginação de seu leitor, criando uma imagem de determinada cena em sua mente, e uma outra parte procura envolvê-lo por meio da simulação de uma conversa face a face.
I. CARACTERIZAÇÃO DA AMOSTRA DE ANÁLISE
1.1. Considerações gerais
O jornal é um meio de comunicação que trabalha com o hoje. Aliás, só o hoje importa. Sua palavra de ordem é o agora. O ontem já faz parte do passado, tornou-se coisa velha, e o amanhã ainda não existe. Ele é vivo, pois trata da vida. Por esses e muitos outros motivos, que não precisam ser neste momento elencados, é que o material de pesquisa do presente trabalho é justamente o jornal.
Procurávamos, em um primeiro momento, notícias em qualquer um dos principais jornais paulistas O Estado de S.Paulo, Folha de S.Paulo, Jornal da Tarde e Agora que não seguissem a convenção de um lide tradicional, aquele
criado nas escolas norte-americanas e que propõe sua organização a partir da síntese do acontecimento mais importante do fato noticiado.
Identificamos a presença de tais notícias não convencionais, sendo que alguns desses lides diferenciavam-se bastante da idéia que tínhamos sobre o assunto. A ocorrência freqüente desses lides chamou-nos a atenção, principalmente em cadernos que tratam dos esportes, da cidade ou de assuntos culturais.
Fomos ler os manuais de redação atuais desses principais jornais para saber o que eles falavam sobre o lide e pudemos descobrir que o manual da Folha, de
o manual de O Estado pareceu ser mais categórico e imperativo quanto à produção
do lide, como mostraremos no próximo capítulo. Por causa dessa menor flexibilidade na produção dos lides proposta pelo manual do Grupo Estado, optamos por analisar as notícias produzidas por uma única empresa em seus dois jornais existentes: O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde.
O jornal O Estado de S.Paulo é o mais antigo da cidade de São Paulo que
ainda está em circulação. Ele foi fundado por dezesseis pessoas dentre elas Manoel Ferraz de Campos Salles e Américo Brasiliense, que tinham por objetivo criar um diário republicano com o propósito de lutar contra a monarquia e a escravidão. Surgiu, então, A Província de São Paulo durante a realização de uma Convenção
Republicana em Itu.
Ao longo dos cento e vinte e nove anos de existência de O Estado de S.Paulo, novas empresas e produtos foram criados. Essa diversificação tem início
em 1958 com a inauguração da Rádio Eldorado. Em 1966 é lançado o Jornal da Tarde, um jornal cuja proposta era a de dar um acompanhamento especial aos
problemas urbanos da cidade de São Paulo.
A partir de 1968, tanto O Estado de S.Paulo quanto o Jornal da Tarde
passam a ser censurados por possuírem uma posição contrária ao regime militar. Foram várias as dificuldades enfrentadas pelo grupo Estado até 1975, quando a censura é, então, retirada. Como forma de protesto, os dois jornais do grupo publicavam no lugar dos textos censurados, poemas de Camões (em O Estado de S.Paulo) e receitas culinárias (no Jornal da Tarde).
1.2. Os cadernos e os leitores de O Estado de S.Paulo
O Estado de S.Paulo, segundo pesquisa do próprio jornal e disponibilizada
para o presente trabalho1, possuía no ano de 2003 na grande São Paulo 1.557.000 leitores, sendo que 52% do sexo masculino e 48% do feminino. Desse total, em média, 26% dos leitores pertencem à classe A, 48% à classe B e 26% às CDE.
Ele é de circulação diária e conta com vinte e um diferentes cadernos que circulam em diferentes dias: “Primeiro caderno”, “Auto e acessórios”, “Caderno 2”, “Casa e família”, “Cidades”, “Classificados”, “Construção”, “Economia e negócios”, “Empregos”, “Esportes”, “Estadão regiões”, “Estadinho”, “Guia Caderno 2”, “Imóveis”, “Informática”, “Negócios e oportunidades”, “Painel de negócios”, “Suplemento agrícola”, “Suplemento feminino”, “Telejornal” e “Viagem”.
Dentre esses cadernos, os que possuem circulação diária, ou seja, fazem parte do jornal de segunda-feira a domingo, é o “Primeiro caderno”, que está subdividido em “Espaço aberto”, página dedicada aos artigos assinados, “Notas e informações”, página dedicada aos Editoriais e à opinião do leitor, “Nacional”, “Geral” e “Internacional”, que têm, com exceção do “Espaço aberto”, que consta na página A2 e “Notas e informações”, na página A3, a ordem alterada em sua construção. Durante a Segunda Guerra do Golfo, por exemplo, alguns dias, a parte “Internacional” compunha um outro caderno. Além do “Primeiro caderno”, o “Caderno 2”, “Cidades”, “Economia e negócios”, “Esportes” são os outros cadernos que também circulam de segunda-feira a domingo. Os demais circulam em dias diferentes e, em sua maioria, possuem periodicidade semanal.
Quanto à faixa etária dos leitores do jornal, de modo geral, 4% têm entre 10 e 14 anos; 10% entre 15 e 19 anos; 29% entre 20 e 29 anos; 21% entre 30 e 39 __________
anos; 16% entre 40 e 49 anos e 20 % entre 50 a 69 anos.
1.3. Os cadernos e os leitores do Jornal da Tarde
Comparativamente o Jornal da Tarde possui uma quantidade bem menor de
leitores. Eram 468.000 em 2003, segundo dados do próprio Grupo Estado, dos quais 61% são do sexo masculino e 39% do feminino. Desse total, de maneira geral, 39% dos leitores pertencem à classe A, 20 % à B e 43% às CDE.
Ele é também de circulação diária e possui onze cadernos: “Primeiro Caderno”, “Caderno tv”, “Classificados”, “Construção e serviços”, “Empregos
JT”, “Esportes”, “Informática”, “Jornal do barco”, “Jornal do carro”, “SP
Variedades” e “Turismo”. Alguns desses cadernos têm circulação diária, outros circulam em determinados dias da semana ou até mesmo apenas uma vez ao mês, como é o caso do “Jornal do barco” que circula somente na última sexta-feira de cada mês.
Os cadernos cuja circulação é diária são: “Primeiro caderno”, “Esportes” e “SP Variedades”. O “Primeiro caderno”, assim como em O Estado de S.Paulo está
subdividido em seções: “Artigos”, “Editoriais”, “Política”, “Polícia”, “Cidade”, “Economia”, “Mundo”. Esporadicamente, o jornal publica outras duas seções intituladas “Consumo” e “Especial”. Dentre essas seções, não existe um número determinado de páginas nem uma seqüência definida para elas.
Quanto à faixa etária dos leitores deste jornal, de maneira geral, 2% têm entre 10 e 14 anos; 8% entre 15 e 19; 25% entre 20 e 29 anos; 24% entre 30 e 39 anos; 19% entre 40 e 49 anos e 22% entre 50 e 69 anos.
O principal diferencial entre o Jornal da Tarde e os demais jornais está no
marca de 86.564 exemplares, enquanto a média nos demais dias gira em torno dos 60.000. Neste dia, o jornal que, no ano passado custava R$ 1,30, passa a custar R$ 1,50. O Estado de S.Paulo, por sua vez, investe nos “Classificados” de domingo,
que o torna bem mais volumoso neste dia. Por esse motivo, tornou-se também conhecido na grande São Paulo pelo nome de Estadão.
Comparando a linguagem de cada um dos jornais, a principal diferença reside nas manchetes. O Estado de S.Paulo possui uma linguagem mais formal, faz
uso de um léxico mais culto, que privilegia em grande parte de suas notícias, o próprio fato. Em contrapartida, o Jornal da Tarde tem uma linguagem envolvente,
mais informal, permitindo-se, assim, metáforas mais populares, que parece desejar a todo momento, seja em que caderno for, manter uma interação maior com seus leitores, como ocorre nos casos:
PALLOCCI DÁ ÊNFASE AO SOCIAL COM NOVO DISCURSO
(O Estado de S.Paulo. 21 abr. 2003. p. A4)
PALLOCCI REFORÇA TIME SOCIAL DO PLANALTO
(Jornal da Tarde. 21 abr. 2003. p. A4)
No que se refere ao conteúdo das notícias, ele é praticamente o mesmo e, de maneira geral, quando os assuntos coincidem, escritos sem grandes alterações quanto à linguagem. O único diferencial está no fato de as notícias serem retextualizadas e, por esse motivo, parecem ser sintetizadas no Jornal da Tarde.
A exceção, entretanto, ocorre no caderno “Esportes". Nele, tanto em um quanto no outro jornal, manchete e notícia possuem um vocabulário mais informal e conteúdo mais opinativo:
SÃO PAULO JOGA MAL, MAS VENCE A 1a
(O Estado de S.Paulo. 18 abr. 2003. p. E1)
3 A 1. MAS O SÃO PAULO NÃO CONVENCE.
Dirigidos predominantemente a classes sociais diferentes – CDE no caso do
Jornal da Tarde e B no caso de O Estado de S.Paulo – evidentemente que a
diagramação e o conteúdo dos jornais são também diferentes, pois refletem os leitores com os quais interagem. No primeiro, de maneira geral, suas manchetes são bastante destacadas, o conteúdo das notícias é menor e os casos de violência são bem mais presentes, haja vista existir uma seção intitulada “Polícia”. Já no segundo, as letras das manchetes são menores, o conteúdo das notícias maior e há uma quantidade também maior de notícias internacionais.
1.4. Algumas considerações sobre a amostra de análise
Para atingir os objetivos desse trabalho, recolhemos aleatoriamente quarenta dias corridos de Jornal da Tarde e O Estado de S.Paulo, ou seja, selecionamos os
lides publicados do dia 20 de março a 30 de abril de 2003.
Não optamos especificamente por um determinado caderno. Nosso único critério foi que os lides produzidos fossem diferentes da grande maioria presente nos jornais, os lides tradicionais.
Feita tal seleção, passamos a agrupá-los por categorias e a analisar os recursos encontrados em cada um deles. Priorizamos identificar as estratégias utilizadas para estabelecer uma interação e um envolvimento com o leitor e, então, chegamos a seis diferentes formulações de lide: o iniciado por uma pergunta; o que se dirige explicitamente ao leitor; o que dá para o leitor a opinião do próprio jornalista; o que descreve minuciosamente determinada cena; o que produz suspense por meio de uma narrativa cronológica e detalhada e, finalmente, o que se utiliza de casos particulares de pessoas anônimas para noticiar algo.
que os demais sejam variações de assuntos sobre uma idêntica estruturação. Isso posto, podemos afirmar que aqueles que apresentaram alguma diferença em uma dessas formulações foram abordados.
II. MANUAIS DE REDAÇÃO E OS LIDES JORNALÍSTICOS
2.1. Considerações gerais
A função dos manuais de redação dos jornais é, de maneira geral, a de uniformizar, de padronizar o estilo e a edição do jornal. Esses manuais funcionam como um material de consulta tanto para jornalistas quanto para qualquer pessoa, uma vez que eles podem ser adquiridos em qualquer livraria e possuem, além de normas destinadas especificamente à redação do jornal, regras gramaticais simplificadas e diversas informações sobre diferentes áreas.
Como veremos ao longo do capítulo, os manuais de redação surgiram por uma necessidade de se simplificar a notícia, de agilizar a informação e, assim, atrair um número maior de leitores que não dispunham de muito tempo para a leitura do jornal. Com a proposta de uniformização da notícia vieram, também, os conceitos de pirâmide invertida1, de lide2, de utilização de um vocabulário simples
e claro, e de paragrafação curta.
Essas noções passam a fazer parte daquilo que van Dijk (2000) chama de regra jornalística implícita de organização, ou seja, a pirâmide invertida e o lide são mecanismos que estruturam o texto noticioso e que seguem o princípio da __________
1. Pirâmide invertida é “uma técnica de redação jornalística pela qual as informações mais importantes são dadas no início do texto e as demais, em hierarquização decrescente, vêm em seguida, de modo que as mais dispensáveis fiquem no final”. (Manual da redação da Folha de S.Paulo, 2001: 93)
relevância:
o texto de jornal mostrou que a ordem semântica não é primariamente determinada por uma estrutura condicional de fatos, mas, ao contrário, pela coerência funcional baseada na relevância: a informação importante vem em primeiro lugar e os detalhes, tais como as causas, os componentes ou as conseqüências são mencionados por último. (Dijk, 2000: 123)
O lide é, assim como a pirâmide invertida, um elemento oriundo do jornalismo norte-americano, e que surge, basicamente, por uma necessidade de estruturar a notícia, e de lhe dar um caráter mais objetivo, visto que é responsável por ir direto ao ponto principal, eliminando, assim, a subjetividade do tradicional e ultrapassado nariz-de-cera3.
O Novo Manual da Redação da Folha de S.Paulo (1992) define lide como
uma palavra aportuguesada do inglês “lead”, que significa conduzir, liderar. Ele é
a abertura da notícia e, portanto, o responsável por conduzir, por introduzir o leitor naquilo que será noticiado e por despertar seu interesse para que haja uma continuidade de leitura da notícia. Assim, o lide “é sempre o maior cuidado do jornalista. Em qualquer espécie de reportagem, o redator procura dar o que tem de melhor nas primeiras linhas” (Bond, 1959: 160). Na verdade, segundo Amaral (1987: 68),
da forma como é redigido o lead depende o êxito da matéria, pois, mesmo que o leitor não queira ou não tenha tempo para continuar a leitura do texto, já ficou interado do que se trata com a descrição inicial. Um pouco mais de interesse poderá levá-lo ao corpo da matéria.
Possendoro (2002) ressalta que escrever um lide, denominado por ele de
abertura, tornou-se, desde o final do século passado e início deste, uma obsessão
para os jornalistas, pois eles têm sua capacidade de bem escrever avaliada pela boa construção ou não dessa abertura. É justamente pelo fato de possuir um importante __________
papel na construção da notícia jornalística, que o lide constitui o nosso material de estudo.
Trataremos, neste segundo capítulo, da organização de diferentes edições dos manuais dos dois jornais paulistas de grande circulação e aceitação no estado de São Paulo (Folha de S.Paulo e O Estado de S.Paulo) com o objetivo de
levantarmos a relevância dada a esses manuais pelas empresas, a preocupação dos jornais para que estes sejam atuais, e, por isso, a quantidade de reformulações pelas quais eles passam para que possam ser seguidos. Em seguida, estaremos abordando a questão da criatividade do jornalista diante de tantas uniformizações propostas pelos manuais para que tenhamos maiores subsídios para tratar especificamente do lide.
Por fim, verificaremos como os manuais de redação da Folha de S.Paulo e
de O Estado de S.Paulo bem como suas diferentes edições abordam o assunto para,
posteriormente, levantarmos as diferenças e os problemas apresentados por alguns teóricos acerca da categorização do lide presentes nos manuais de jornalismo.
2.2. Os manuais de redação da Folha de S.Paulo
Em 1921, ano de sua fundação, a Folha de S.Paulo foi nomeada
inicialmente Folha da Noite, criada com o objetivo de ocupar o espaço deixado por
jornalistas que haviam saído da edição vespertina de O Estado de S.Paulo, após
sua extinção.
Com o sucesso da Folha da Noite, foi criada a Folha da Manhã.
Posteriormente, em 1949, foi fundada a Folha da Tarde e, no ano de 1960, os três
jornais passam a ser um só, mas com três edições no mesmo dia. Dois anos depois, essas três edições passam a ser duas. Neste mesmo ano, em 1962, a Folha é
organização.
Motivados por essa preocupação, segundo Caprino (2001: 66), vários documentos de circulação interna começam a aparecer com o objetivo de exigir um maior profissionalismo por parte dos jornalistas e, em maio de 1984, Otavio Frias Filho assume o cargo de diretor da redação e, em agosto, apresenta o Manual Geral da Redação.
Esse primeiro manual possui apenas noventa e uma páginas e está organizado em verbetes dispostos em ordem alfabética que misturam orientações gramaticais com termos jornalísticos, dando ao manual um caráter de desorganização. Caprino (op. cit.: 49), citando Lins da Silva, professor livre-docente da Universidade de São Paulo e ex-diretor da redação do jornal Folha de S.Paulo, observou que
o manual de 1984 foi mal aceito pela redação e muito criticado no meio jornalístico porque estava inserido em um processo que, a seu ver, ‘bateu de frente com muitas lendas do jornalismo’. Apesar de ter preocupação com a melhoria do texto jornalístico, o manual estava inserido no chamado Projeto Folha. Fazia parte de uma concepção de jornalismo que pretendia profissionalizar a redação, traçando normas e metas a serem cumpridas, não só relativas à qualidade de texto, mas também em relação à concepção editorial do jornal como mercadoria, orientado às demandas de seu público.
Para ele, esse manual de 1984 segue exatamente o modelo norte-americano de jornalismo e não propõe nada de novo.
Após tantas críticas, é publicada, em 1987, uma segunda edição desse manual com duzentas e quatorze páginas. O Manual Geral da Redação de 1987
está organizado em sete capítulos, com os verbetes dispostos, também, em ordem alfabética: “Política Editorial”, “Estrutura da Folha”, “Padronização de estilo”,
Uma terceira reformulação do manual da Folha de S.Paulo sai em 1992 e é
nomeado de Novo Manual da Redação. Este novo manual está dividido em quatro
partes: “Projeto Folha”, “Produção”, “Texto”, “Edição” e, também há os anexos,
com dados sobre distâncias, medidas etc, uma bibliografia e um índice remissivo. De acordo com sua própria introdução, o Novo Manual da Redação possui normas
e recomendações que têm a função de orientar o trabalho do jornalista da Folha de S.Paulo e é bastante diferente dos anteriores por possuir normas mais flexíveis:
Ainda que incorpore muito do manual de 1984 e de sua versão ampliada e revista de 1987, o ‘Novo Manual’ difere substancialmente do anterior. (...) Até pela característica militante, o texto de 84 era draconiano e impositivo. A versão de 87 abrandou esse aspecto, enriqueceu conceitos, corrigiu falhas e acrescentou verbetes. Resultou num texto mais abrangente, com 214 páginas. (Novo Manual da Redação, 1996: 7-8)
A quarta, e até agora última, publicação do manual saiu no ano de 2001 com o nome de Manual da Redação. Este manual está organizado em quatro capítulos:
“Projeto Folha”, “Procedimentos”, “Padronização e estilo” e “Folha”, além de um
“anexo gramatical” e de um “anexo geral”, com informações amplas sobre o
legislativo, o militar, o religioso, o matemático e estatístico, dentre outros. Esse
manual também define os manuais de 1984 e de 1987 como sendo impositivos, denominando, por sua vez, o atual de orientador do trabalho jornalístico:
O novo manual também traduz uma flexibilização progressiva das normas presentes nas edições de 1984 e 1987, mais impositivas. Ele consubstancia os princípios da última versão do projeto editorial da Folha – divulgada em 1997 e aqui reproduzida – e procura orientar a aplicação desse projeto na prática cotidiana dos jornalistas. (Manual da Redação, 2001: 7)
Podemos afirmar que, com todas as informações adicionais presentes nos anexos, o Manual da Redação tornou-se uma espécie de almanaque útil e possível
de ser consultado não apenas por jornalistas, mas também por pessoas leigas ou pouco interessadas na padronização do texto jornalístico:
que utilizam o manual como fonte de consulta. Assim, ela traz uma série de anexos (gramatical, jurídico, médico e outros) cujo objetivo é oferecer ao público uma obra de referência – concisa, porém abrangente – e ao mesmo tempo dar subsídios à atividade jornalística, sem ter, evidentemente, a pretensão de substituir a consulta a especialistas. (Manual da Redação, 2001: 7)
2.3. Os manuais de redação de O Estado de S.Paulo
O jornal A Província de S.Paulo foi fundado no ano de 1875, ainda no
período monárquico e escravocrata, e só passou a se chamar O Estado de S.Paulo
no ano de 1890. Durante grande parte de sua existência pertenceu à família Mesquita, que é até hoje proprietária do jornal.
Um dos momentos mais difíceis da história de O Estado de S.Paulo ocorreu
entre os anos de 1940 a 1945, período em que a redação do jornal passou a ser subordinada ao DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda) e, assim, ocupada pela polícia militar.
Quanto à idéia de produzir um primeiro manual de redação, esta só surgiu no ano de 1986:
Em 1986, em uma conversa com o então diretor de redação do jornal, Miguel Jorge, Eduardo Martins chamou a atenção para a qualidade do texto do jornal, precária, no seu entendimento. Depois de dois ou três meses, (...) Miguel Jorge pediu a Eduardo Martins que reservasse por volta de dois meses para o projeto, antes de assumir a chefia de redação. No pedido, as orientações eram as seguintes: que se fizesse um manual de redação com as normas de uso de negritos, maiúsculas etc, porque, segundo os diretores do jornal, em cada lugar saia de um jeito. (...) O segundo pedido foi que um trecho do manual fosse dedicado aos grandes capítulos de gramática, concordância, uso de pronomes e outros, além de uma relação de umas 200 ou 300 palavras que pudessem suscitar dúvidas de ortografia. (Caprino, 2001: 54)
três capítulos, além dos apêndices de medidas: “O texto e a edição no jornal”, “Normas internas e de estilo” e “Escreva certo”.
No ano de 1992, o manual teve sua capa alterada de cinza-prateada para branca, todavia possui exatamente o mesmo conteúdo.
Em 1997, esse manual de redação foi totalmente reformulado e passou das primeiras trezentas e cinqüenta páginas para quatrocentas. Houve, também, a substituição de alguns capítulos, que totalizaram cinco: “Normas internas e de estilo”, “O uso da crase”, “Os cem erros mais comuns”, “Guia de pronúncia” e “Escreva certo”, além de um anexo de pesos e medidas.
Resta-nos, ainda, responder a uma questão: se o jornal foi fundado em 1875 e seu primeiro manual de redação só foi publicado no ano de 1986, podemos afirmar que O Estado de S.Paulo aderiu muito tardiamente a esta questão de
padronização do texto jornalístico, que teve início na década de 1920?
Até a década de 1920, não havia uma grande preocupação em uniformizar o texto jornalístico. Esta necessidade só apareceu realmente quando o Brasil começou a ter um maior contato com a cultura norte-americana, e só se efetivou na década de 1950 com o Diário Carioca, que além de teorizar, propondo o uso do
lide e da pirâmide invertida para produção de suas notícias, instituiu na redação do jornal o copy desk, cuja função era a de ler, reformular e dar um caráter uniforme
aos textos produzidos.
Consideramos oportuno ressaltar que, desde a década de 1950 até a publicação do seu primeiro manual, O Estado de S.Paulo fazia uso de fichas que
estavam organizadas em pequenas caixas para conseguir uma padronização de seus textos. A par disso, Erbolato (2002: 124-5) esclarece que
que vinham sendo transmitidas pela tradição oral, foram colocadas em fichário, com a aprovação, ao que se diz, de Júlio de Mesquita Filho e do jornalista Leo Vaz, redator-chefe e depois diretor do jornal. Nas mesas de todos os secretários e subsecretários da redação havia uma pequena caixa de madeira em que se colecionavam as fichas. Assim, a qualquer dúvida que surgisse entre repórteres, noticiaristas e redatores, a primeira consulta deveria ser feita à famosa ‘caixinha’.
Além dessa caixinha de madeira, motivados pela crescente preocupação com a uniformização da notícia, com a padronização de um estilo jornalístico, muitos pequenos manuais, de quatro ou cinco páginas, foram produzidos internamente, contendo assuntos específicos como a utilização do negrito, das maiúsculas, das minúsculas etc, até a publicação do primeiro manual em 1990.
2.4. A criatividade do jornalista e os manuais
Um dos principais questionamentos acerca do estilo jornalístico refere-se à possibilidade de elaboração de um texto de qualidade diante de tantas normatizações impostas pelos manuais de redação dos jornais.
Parece-nos ser inegável que, somada à tentativa de uniformização da notícia jornalística por meio do estabelecimento de normas de redação que são, como vimos anteriormente, ora apontadas como mais rígidas ora como mais flexíveis, há, também, um empenho por parte dos manuais em elevar o nível do relato jornalístico, legislando, então, sobre temas lingüísticos. Segundo Dias (1996: 48),
os Manuais têm a pretensão de encaminhar os redatores dos jornais (mas também seus leitores) para a idéia de um estilo uno, equilibrado, ‘correto’, que daria ao jornal a que se liga uma teórica e utópica unidade lingüística, com a vantagem de colaborar com a educação, divulgando a língua padrão que serviria também para o ensino.
cada vez mais flexíveis, veremos que essa flexibilização não existiu nem no início nem na versão mais atual dos manuais.
Encontramos em Caprino (2001: 45) as funções e os objetivos dos manuais, que podem ser sintetizados em sete itens:
a) Compilar e transmitir normas e padrões do estilo jornalístico, voltado principalmente para jovens jornalistas;
b) Padronizar normas de estilo do veículo específico;
c) Orientar o comportamento e atitudes de jornalistas de um veículo;
d) Transmitir e divulgar a ideologia da empresa jornalística (ou política editorial) para jornalistas e leitores;
e) Divulgar o nome do jornal junto ao grande público, servindo de instrumento de marketing;
f) Estreitar sua relação com o leitor, estabelecendo uma espécie de contrato, pelo qual poderá ser cobrado;
g) Substituir parcialmente as gramáticas, principalmente na função de consulta de dúvidas.
Caprino (op. cit.: 79) apresenta a opinião de vários jornalistas que atestam ser os manuais de redação um elemento uniformizador, mas que pretendem unicamente dar ao jornal uma característica e não tolher a criatividade do jornalista:
Falar que são camisas-de-força, que tolhem a criatividade dos redatores é dar-lhes importância demasiada. Funcionam, sim, como padronizadores de estilos particulares e orientam, até mesmo fora do ambiente da redação, a produção textual”.
Para ela, o grande problema da padronização da notícia jornalística não está nos manuais, mas sim nos jornalistas, que, devido a uma carga excessiva de trabalho, optam por escrever padronizadamente, seguindo um manual, para facilitar e agilizar o trabalho, sem necessitar, assim, ser criativo.
2.5. O lide nos manuais de redação
anteriormente, normatizar, uniformizar o estilo e a edição do jornal. Funcionam como cartilhas do bem escrever:
Este manual contém as normas e recomendações que norteiam o trabalho dos jornalistas da Folha. (Manual da Redação da Folha de S.Paulo, 2001: 7)
De qualquer forma, o objetivo deste trabalho continua o mesmo: expor, de modo ordenado e sistemático, as normas editoriais e de estilo adotadas pelo Estado. (Martins Filho, 1997: 9)
Com efeito, o lide é uma das partes constituintes da notícia jornalística e é justamente aquela que abre, que introduz o texto noticioso. Dessa forma, a preocupação com sua elaboração é clara e evidente na literatura que trata sobre a estrutura do texto jornalístico e, como não poderia deixar de ser, também nos manuais de redação dos jornais.
O Manual Geral da Redação (1984) está organizado em verbetes dispostos
em ordem alfabética, e mostra-se bastante impositivo quanto à elaboração do lide ao utilizar locuções verbais como “deve começar”, “são admitidos”, “deve conter”, “deve ser observado”, “não deve exceder”:
Na Folha todo texto noticioso deve começar com um ‘lead’. São admitidos dois tipos de ‘lead’:
a) Quando se trata de noticiário factual, o ‘lead’ deve conter o que há de mais importante na notícia, resumindo-a em aproximadamente 5 linhas. O procedimento para redigi-lo é responder as clássicas perguntas – o que, quem, quando, onde, como e por que – dispondo as respostas em ordem decrescente de importância. Às vezes, o mais importante é quem, às vezes é onde etc. Esse critério de importância decrescente deve ser observado não apenas no ‘lead’ como ao longo de todo o texto, de forma que as informações menos importantes apareçam sempre no final. Isto facilita cortes que por razão de espaço são freqüentemente necessários. Recomenda-se redigir o ‘lead’ na ordem direta. Raramente se justifica o uso do verbo no início da frase. O ‘lead’ pode conter mais de uma frase, mas não deve exceder um parágrafo.
importantes, conduzem à leitura. (Manual Geral da Redação, 1984: 55)
A nova edição reformulada desse manual, denominado Manual Geral da Redação (1987), organizado, como vimos, diferentemente da versão anterior
sobretudo pelo fato de estar dividido em capítulos, trata do verbete lide em dois momentos distintos: no capítulo que discute a “Padronização de estilo” e no que apresenta o “Vocabulário jornalístico”.
Em “Padronização de estilo”, o lide é apresentado com seis regras para sua melhor construção. Quatro delas estão presentes na primeira versão do manual (conter as informações essenciais; ter apenas cinco linhas; obedecer à ordem direta de uma oração; não iniciar o lide com verbo ou advérbio), e apenas duas foram acrescentadas, priorizando, ambas, o leitor:
b) seja tão completo que o leitor possa se sentir informado sobre o assunto apenas com a sua leitura; (...)
f) não utilize, sem explicar, nomes, palavras ou expressões pouco familiares para a média dos leitores. (Manual Geral da Redação, 1987: 86)
Já, em “Vocabulário jornalístico”, o verbete lide é colocado, sinteticamente,
como um estrangeirismo; é definido pelo Manual e é apontada sua tipologia
(noticioso e não-factual). A partir do Manual de 1987, esse verbete deixa de ser
grafado como se escreve no inglês, lead, e passa a ser lide.
Nesta versão, procurou-se dar um caráter mais ameno às regras de elaboração do lide, utilizando-se, inclusive, o verbo recomendar, que substitui o dever da edição anterior. No entanto, a topicalização iniciada por um verbo parece
manter o caráter autoritário, impositivo e unilateral dessa elaboração.
O Novo Manual da Redação da Folha de S.Paulo (1992), assim como as
“Texto” e, em seguida, no “Edição”. Nesses três momentos, o lide é definido e caracterizado exatamente da mesma forma e, essa forma se assemelha à edição anterior. Na verdade, o verbo deixa de ser o ameno recomendar, para voltar a ser o
impositivo dever da edição de 1984, além da presença da topicalização com verbos
no infinitivo, que possuem uma característica de obrigatoriedade.
Primeiramente, o Novo Manual designa uma função pragmática e específica
para o lide, que é a de introduzir o assunto a ser tratado pela notícia e a de prender a atenção do leitor, procurando garantir a leitura do restante do texto.
Em seguida, ele define dois tipos de lide: o noticioso e o não-factual. O lide noticioso deve responder a seis questões principais de um fato: o quê?, quem?, quando?, como?, onde?, por quê?, e seguir alguns procedimentos técnicos que
determinam o que se deve fazer e o que se deve evitar no momento de elaboração de um lide. A respeito do que se deve fazer, o Novo Manual da Redação (1992:
37) propõe:
a) Sintetizar a notícia de modo tão eficaz que o leitor se sinta informado só com a leitura do primeiro parágrafo do texto; b) Ser tão conciso quanto possível. Procure não ultrapassar cinco linhas de 70 toques (lauda) ou de 80 toques (terminal de computador da Folha);
c) Ser redigido de preferência na ordem direta.
Em relação ao que se deve evitar, o Manual propõe que não se esconda o
fato principal em meio a informações como ambientação, horário, idade, e nem que se inicie um lide com advérbio, gerúndio ou uma declaração entre aspas.
Quanto à outra tipologia de lide, o não-factual, o Manual parece ser um
tanto vago, pois além de não apresentar uma fórmula, ainda afirma serem necessários outros recursos para atrair a atenção do leitor, que não são especificados.
Entretanto, como afirma Possendoro (2002: 34),
a técnica jornalística são todos os procedimentos – que de tempos em tempos se renovam, devido às inovações e mudanças tecnológicas, sociais e políticas – que constituem o processo de produção do veículo jornalístico.
É exatamente uma técnica jornalística renovada que pudemos encontrar no
Manual da Redação da Folha de S.Paulo (2001). Esta nova edição também
reserva um verbete específico para tratar do lide que aparece uma única vez, no capítulo “Procedimentos” e que se configura menos dogmática do que as edições anteriores.
Tanto na edição anterior, quanto na atual (2001), há uma descrição da função do lide dentro da estrutura da notícia, que é a de introduzir o leitor na notícia e a de despertar seu interesse pelo fato noticiado, já nas linhas iniciais. Diante disso, verificamos que os objetivos da presença do lide no texto jornalístico continuam a ser os mesmos.
A maior mudança reside na estruturação do lide. Nas edições anteriores pudemos observar um detalhamento imperativo e excessivo do lide, ou seja, uma tentativa de padronização do primeiro parágrafo da notícia jornalística. Entretanto, nesta nova edição, o tom da explanação é mais brando, parece haver um aconselhamento daquilo que é possível ser feito em um lide, porém sua mecanização, de que Possendoro (op. cit.) trata, não aparece.
não haver uma fórmula para elaboração de um lide, uma vez que uma construção de primeiro parágrafo formulada a partir de um modelo pode causar um desinteresse no leitor e este não continuar a leitura da notícia:
Imprescindível à valorização da reportagem e útil à dinâmica da leitura – por ser uma síntese da notícia e da reportagem –, não existe, no entanto, um modelo para a redação do texto do lide. Nem pode ele ser realizado de maneira automática, com escrita burocrática. Se assim for feito, mesmo que contenha o núcleo da reportagem, poderá gerar desinteresse instantâneo ou provocar no leitor a impressão de irrelevância da notícia. (Manual da Redação daFolha de S.Paulo, 2001: 28-9)
Há um aconselhamento para que a automatização do lide não seja feita. Nas edições anteriores falava-se em “o lide deve” e “o lide não deve”, usa-se o verbo no infinitivo ou modo imperativo. Na edição de 2001 do Manual, fala-se em “se
assim for feito”, “eles tendem a impor” e passa-se a priorizar o “interesse do leitor”:
Se os fatos são urgentes e fortes, eles tendem a impor ao lide um estilo mais direto e descritivo, respondendo às questões principais em torno do acontecimento (o quê, quem, quando, como, onde, por quê, não necessariamente nessa ordem). (op. cit.: 29)
Embora não se trate mais de lide noticioso, as questões principais que
devem ser respondidas logo de início, ainda estão presentes. Isto significa que os lides continuam muito presos a formulações tradicionais e rígidas, como trataremos mais adiante, e que, portanto, as mais inovadoras, cujo objetivo é o de interagir com o leitor e convidá-lo a continuar a leitura da notícia, são colocadas à parte da arte do bem escrever dos jornalistas, pois eles têm sua capacidade de bem escrever avaliada pela boa construção ou não do lide:
Há, também, um verbete específico para detalhar o lide no Manual de Redação e Estilo de O Estado de S.Paulo (1997), assim como em sua versão
anterior, que data de 1990. Entretanto, a padronização da notícia jornalística neste manual aparece muito antes dos verbetes, pois há no primeiro capítulo de ambas as edições, o título “Instruções gerais”, cuja função é a de normatizar os textos publicados no jornal.
Essas “Instruções gerais”, também em ambas as versões, são formadas por quarenta e nove regras, que abordam como deve ser elaborada a estrutura da notícia (frases e períodos), o que pode ou não estar presente enquanto escolha vocabular, e mais doze exemplos de bons textos noticiosos publicados nas primeiras páginas de O Estado de S.Paulo.
Ao tratar da estrutura da notícia e o lide constituir parte integrante dessa estrutura, quatro tópicos são utilizados na tentativa de padronizá-lo:
25 – Nas matérias informativas, o primeiro parágrafo deve fornecer a maior parte das respostas às seis perguntas básicas: o que, quem, quando, onde, como e por quê. As que não puderem ser esclarecidas nesse primeiro parágrafo deverão figurar, no máximo, no segundo, para que, dessa rápida leitura, já se possa ter uma idéia sumária do que aconteceu.
26 – Não inicie matéria com declaração entre aspas e só o faça se esta estiver importância muito grande (o que é a exceção e não a norma).
27 – Procure dispor as informações em ordem decrescente de importância (princípio da pirâmide invertida), para que, no caso de qualquer necessidade de corte no texto, os últimos parágrafos possam ser suprimidos, de preferência.
28 – Encadeie o lead de maneira suave e harmoniosa com os parágrafos seguintes e faça o mesmo com estes entre si. Nada pior do que um texto em que os parágrafos se sucedem uns aos outros como compartimentos estanques, sem nenhuma fluência: ele não apenas se torna difícil de acompanhar, como faz a atenção do leitor se dispersar no meio da notícia. (Martins Filho, 1997: 17-8)
Aliás, a única mudança existente nessas quatro regras, entre o manual de 1990 e o de 1997, é a de torná-las mais rígidas, uma vez que na primeira versão falava-se em “evite iniciar matéria por declaração entre aspas” (Martins Filho, 1990: 18) e é substituída na segunda por “não inicie matéria com declaração entre aspas” (op. cit., 1997: 18), ou seja, a partir de 1990, a declaração entre aspas no lide poderia ser feita, porém não com freqüência e, sim, raramente. Entretanto, a partir de 1997, tal declaração passa a ser totalmente proibida.
Essas regras também ordenam a construção de um lide que responda às seis perguntas básicas. Vimos anteriormente que esta também era a regra no Manual da Folha de S.Paulo de 1985, 1987 e 1992, mas que se tornou mais flexível na edição
de 2001, representando uma tendência no caso dos fatos mais urgentes e fortes. Como veremos mais adiante, Hohenberg (1962) considera tal elaboração tradicional e ultrapassada, pois houve nos últimos anos uma mudança na função do jornal impresso para a sociedade.
Conforme explicitamos anteriormente, as regras de construção do lide no
Manual de Redação e Estilo de O Estado de S.Paulo (1990/1997) são imperativas.
É importante ressaltar que quase todo o manual faz uso da forma imperativa do verbo.
Quanto ao verbete lide do mesmo Manual, situado na parte das “Instruções
específicas”, há, primeiramente sua definição, afirmando ser este o responsável pela abertura da matéria e que, portanto, deve fornecer ao leitor uma síntese completa do fato principal, respondendo sempre às seis questões primordiais do jornalismo (o quê?, quem?, quando?, onde?, como? e por quê?). Há, em seguida,
no Manual (1990: 42- 6), uma vasta exemplificação de lides bem e, também, mal
construídos, focando um problema qualquer de elaboração, como o da objetividade, das repercussões e suítes4, da falta de informação, das aberturas de
__________
matérias “humanas’, das interpretações, das intercalações, das aberturas não-noticiosas, do óbvio ou lugar-comum e de criatividade.
Problemas como falta de objetividade, de informação, de criatividade e lides construídos a partir do óbvio ou do lugar-comum são assuntos já bastante discutidos pela literatura jornalística, uma vez que ao elaborar a notícia, o jornalista deve procurar construir textos claros, precisos, diretos, objetivos e concisos. Seguindo esses cinco princípios, dificilmente um desses problemas acima citados apareça.
Faremos um estudo mais detido sobre as aberturas de matérias “humanas”, as interpretações e as aberturas não-noticiosas, por ser a função interacional o foco dessa dissertação.
Possendoro (2002: 19) distingue o lide da notícia do lide da reportagem, sendo o segundo, assunto discutido em sua dissertação. Ele considera que o jornal redige seus lides de maneira padronizada, ou seja, seguindo sempre o princípio da relevância, da pirâmide invertida, cujo objetivo é o de garantir uma qualidade mínima necessária à notícia, pois coloca sempre no lide o fato mais importante e segue essa ordem de importância até o final da notícia, não obedecendo, portanto, a uma seqüenciação cronológica do fato:
Nos jornais diários, sobretudo na produção das notícias, o problema de se redigir a abertura ideal é resolvido, digamos, de forma automática, na medida em que o repórter escreve de imediato o lide – a novidade ou a informação mais importante.
Para Possendoro (op. cit.: 41), as aberturas de matérias “humanas”, as interpretações e as aberturas não-noticiosas são lides praticados em reportagens impressas, pois os dois primeiros são subitens do lide não-noticioso:
aspecto noticioso da informação.
Podemos considerar o lide não-noticioso como parte integrante de uma reportagem, pois como o próprio Manual de Redação e Estilo de O Estado de S.Paulo (1997: 157) preconiza,
é preciso sempre levar ao leitor o ponto central da informação de maneira atraente e de forma que ele perceba que não está diante de uma notícia propriamente dita.
Por sua vez, o lide interpretado pode aparecer tanto em uma reportagem
quanto em uma notícia. Utilizaremos o exemplo dado pelo próprio Manual para
justificar tal opinião:
A mais significativa vitória de um lobby articulado na atual Constituinte não foi de empresas especializadas e organizadas para esse fim ou financiados pelas poderosas multinacionais. Foi a do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), que conseguiu a inclusão, no projeto da Comissão de Sistematização de 38 reivindicações de 9 confederações de trabalhadores, 9 federações de funcionários públicos de nível nacional, 3 centrais sindicais e mais de 300 sindicatos. (op. cit.: 157)
No lide acima, além do grau interpretativo, “a mais significativa vitória”, existe, também, um grau noticioso: o fato de o Diap ter conseguido a inclusão de
38 reivindicações no projeto de votação da Constituinte. Logo, se há um fato noticioso, há uma notícia.
Quanto ao lide “humano”, não há uma definição presente no Manual de Redação e Estilo (Martins Filho, 1997: 156), mas apenas dois exemplos com uma
observação anterior, afirmando que ele é uma das aberturas mais difíceis de ser redigida por exigir do jornalista criatividade e atenção para que o texto não se aproxime do pieguismo.
jornalistas como Hohenberg (1962) e Erbolato (2002). Eles o concebem como um outro tipo de lide possível na notícia, cuja função é a de despertar o interesse por parte do leitor.
Para finalizar tal análise do Manual de Redação e Estilo de O Estado de S.Paulo, julgamos pertinente apontar uma das raríssimas diferenciações presentes
entre as edições de 1990 e 1997. Esta distinção está relacionada ao tamanho do lide, ou seja, na primeira versão, há a exigência de que o primeiro parágrafo tenha de quatro a sete linhas. Todavia, na versão de 1997, esse número cai para quatro ou cinco no máximo. Eis mais um exemplo de que o processo de produção da notícia sofre constantes modificações e de que é cada vez maior a exigência por objetividade e concisão no texto jornalístico:
Graficamente, recomenda-se que o lead tenha de quatro a sete linhas da lauda padrão do Estado. (op. cit., 1990: 42)
Graficamente, recomenda-se que o lead tenha no máximo 4 a 5 linhas de setenta toques. (op. cit., 1997: 154)
2.6. Os lides e os teóricos do jornalismo impresso
Tradicionalmente, a organização da notícia jornalística está norteada pelo princípio da relevância, ou seja, a informação principal, a mais importante é destacada no momento em que o jornalista produz seu texto. Esse destaque é dado, transformando o fato principal em manchete e desenvolvendo-o no lide.
Se a notícia jornalística é, então, estruturada seguindo o princípio da relevância, não se importando com a seqüenciação cronológica dos fatos, ela possui outras regras de ordenação denominadas por van Dijk (2000: 123) de esquemas rígidos. Esses esquemas são a superestrutura do texto jornalístico e esta
A superestrutura da notícia jornalística possui alguns princípios ordenadores que podem seguir a seqüência proposta ou serem opcionais. Algumas estruturas mais fixas, como a do sumário (manchete e lide), vêm sempre em primeiro lugar. Há, entretanto, outras estruturas que podem trocar de posição ou até mesmo não serem utilizadas.
Esses princípios ordenadores dos fatos que serão noticiados estão ordenados em sumário (manchete e lide), background, evento principal, conseqüências e
comentário.
A manchete e o lide funcionam como um sumário da notícia jornalística e apontam as informações mais importantes do texto. O lide corresponde ao primeiro parágrafo de uma notícia jornalística impressa e é, como define o Manual de Redação da Folha de S.Paulo (2001: 28-9), “imprescindível à valorização da
reportagem e útil à dinâmica da leitura contemporânea – por ser uma síntese da notícia e da reportagem”.
O background, como define van Dijk (2000: 146), tem a função de dar uma
informação que não é parte do evento principal ocorrido, porém fornece “o contexto social, político ou histórico geral ou as condições desses eventos”.
O evento principal costuma aparecer na notícia jornalística logo após o sumário (manchete e lide). Como claramente o próprio nome sugere, ele representa o evento central, o fato atual ou presente do background, isto é, a notícia
propriamente dita. Por ser o fato central da notícia jornalística, ele pode aparecer após o lide, mas é uma categoria que pode, também, reaparecer no decorrer da exposição dos fatos.
Já a categoria das conseqüências é o resultado dos eventos. Ela é responsável pela organização de todos os eventos que foram causados pelo evento principal.
A última categoria, o comentário, aparece freqüentemente no final da notícia jornalística. Ele é, todavia, opcional e pode, por isso, não constar na superestrutura da notícia jornalística. Esta categoria possui as conclusões, as expectativas, as especulações ou alguma outra informação que o jornalista queira dar ao seu texto.
Essa superestrutura preconizada por van Dijk (2000) é importante por garantir uma compreensão acerca da notícia, pois esta é estruturada de maneira a dar ao leitor a capacidade de recuperar em poucas palavras aquilo que num contexto mais amplo foi noticiado.
A esse respeito, o próprio van Dijk (op.cit.: 151) alerta para o fato de que,
um tratamento puramente formal, estruturalista, dos esquemas da notícia tem suas limitações. Ele nos permite especificar estruturas noticiosas fixas, canônicas, mas dificilmente as muitas variações e as estratégias dependentes do contexto.
Hohenberg (1962), jornalista que exerceu forte influência na renovação do jornalismo brasileiro, também concorda que há inúmeras variações ao se produzir uma notícia. Ele afirma que o número de notícias é tão grande quanto o de jornalistas.
Quanto ao lide, Hohenberg (op. cit.) apresenta uma visão mais ampla do que van Dijk (op. cit.), pois para aquele, além de ser o sumário de uma notícia jornalística, o lide representa a abertura da notícia sendo, portanto, o responsável por conduzir, por introduzir o leitor naquilo que será noticiado e por despertar seu interesse, por envolvê-lo para que haja uma continuidade da leitura.