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Psicol. cienc. prof. vol.6 número2

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Academic year: 2018

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Atendimento

ao aluno "difícil"

Maria Helena Souza Patto*

Elcie Masini é uma verdadeira psicóloga-militante: há anos dedica-se à reflexão crítica do papel que os psicólogs tradicionalmente desempe-nham junto à clientela das escolas pú-blicas de 1.° grau, especialmente àquelas a quem os especialistas—entre os quais encontra-se o psicólogo—não têm hesitado em chamar de alunos difíceis, mesmo sabendo que as con-dições de aprendizagem escolar que lhes são oferecidas não resistem a qualquer exame.

Elcie recusa os procedimentos que classificam as pessoas segundo crité-rios que lhes são a l h e i o s , enquadrando-as nas roupas estreitas dos rótulos, dos estereótipos e dos preconceitos. Quer um referencial teórico que lhe dê pistas para perce-ber as pessoas como elas são. Na pro-cura de um referencial teórico-metodológico que desse conta desse recado, voltou-se inicialmente para Rogers; no entanto, a proposta de te-rapia centrada no cliente, a seu ver, contém lacunas que se manifestam principalmente na prática do aconse-lhamento escolar.

Movida pelo desejo de continuar a buscar caminhos alternativos para a Psicologia Escolar na filosofia existencial-humanista — talvez por considerá-la a mais promissora na constituição de uma Psicologia não-rotuladora — Elcie encontra-se com Minkowski (antropólogo que se pro-pôs a estudar as relações primitivas olhando sem instrumentos) e com Boss (psiquiatra que reformulou a prática da psicoterapia a partir da fi-losofia de Heidegger e criou a Daseinsanalyse que, entre outras ca-racterísticas, movimenta-se num sen¬

* Maria Helena Souza Patto é professora do Instituto de Psicologia da USP, pesquisadora da Fundação Carlos Chagas, autora do livro Psicologia e Ideologia (T.A. Queiroz Editor) e organizadora da coletânea Introdução à

Psico-logia Escolar (T.A. Queiroz Editor).

tido contrário à terapia analítica, pois recusa a interpretação). Ambos se propõem a olhar sem deformar, con-dição para que o Aconselhador possa aproximar-se do mundo de significa-dos do Aconselhando (p. 105), como forma mais autêntica de conhecê-lo e, assim, ajudá-lo a conhecer-se. Será que ainda nos é possível o resgate des-te olhar?

Aproximar-se do aluno difícil, num contexto escolar, de modo a tentar compreender a maneira como ele vi-ve, reage, atua, pensa e sente, é o úni-co caminho, desta perspectiva filosó-fica, para aliar-se a ele no desvela-mento do significado de suas expe-riências. Entre estas, a experiência es-colar foi o desafio que se colocou ao grupo supervisionado por Elcie no Curso de Aconselhamento em Pscòlo¬ gia Escolar que ela mesma organizou no Instituto Sedes Sapientiae. Juntos, superviora e supervisionandos, dedicaram-se, em 1978 e 79, a deli-near uma prática psicológica alterna-tiva junto aos alunos equivocadamen-te chamados difíceis. O livro

Aconselhamento Escolar. Uma pro-posta alternativa: atendimento ao "aluno-difícil", é o relato de uma

pesquisa-ação levada a efeito em es-colas públicas de 1.o grau do Estado e do Município de São Paulo.

Durante as sessões de aconselha-mento, constantemente discutidas, vistas e revistas pelo grupo, houve uma descoberta: a de que não só o aconselhado tem a possibilidade de entender sua maneira de estar no mundo em sua relação com o aconse-lhador, mas que este se conhece—ou seja, toma consciência do viés ideoló-gico, do assistenciãlismo e, portanto, do preconceito que o aconselhador nutre em relação a estas crianças—em sua relação constantemente refletida com o aconselhando. Dá-se, então, a principal mudança de ótica em rela-ção às preocupações rogerianas: ao invés de se voltar para a definição das condições facilitadoras do crescimen-to pessoal do aconselhando, Elcie chama a atenção do leitor para as condições dificultadoras presentes

nesta relação que, a julgar pelos tex-tos de Rogers, parece mais fácil do que na realidade é.

Certamente, os aspectos teóricos da proposta comportam uma longa discussão: o caráter a-histórico do ser humano me parece uma característica da filosofia existencial-humanista que a concepção materialista histórica de homem superou. No entanto, não é isto que vem ao caso quando lemos este livro: sua contribuição maior encontra-se no espírito questionador e incansável da autora que—ao con-duzir a Psicologia em direção a uma visão de homem que quer, acima de tudo, olhá-lo como ser individual e único— ajuda a distanciá-la da abor-dagem empobrecedora da norma e das generalizações massificantes.

Nos meios educacionais, olhar para cada criança como se ela fosse única tornou-se uma prática que privilegia a clientela de alguns bons colégios par-ticulares. Com sua proposta, Elcie nos convida a tirar a venda imposta pela Psicologia, que estereotipa e discursa sobre, e a refletir mais am-plamente sobre as discordâncias entre o saber, sentir e agir junto ao Outro, sobre os caminhos possíveis para li-dar com as distorções da comunica-ção humana numa busca de recursos para aproximar-se dos significados do próprio existir de cada um e do existir do Outro (p. 120). Este convite será tanto mais rico e proveitoso quanto mais for aceito por todos os que se dedicam à educação de crian-ças das classes populares, sempre olhadas de maneira tão distorcida.

Aconselhamento Escolar. Uma proposta alternativa: atendimento ao "aluno-difícil",

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