C ontribuição ao Debate do Artigo de
N a oma r de Alme ida Filho
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Gil Se va lh o
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co nhecimento científico d esenvo l-mo vimento de d emo cratização do vido co m o advento da ciência mo d erna no sséculo s XVI e XVII, descrito por Naomar de Almeida Filho em seu artigo, é visto po r Pao lo Rossi (Rossi, 1989) co m o um perío d o de va-lorização das artes mecânicas, até então vis-tas co mo inferiores. São co nsideradas e rele-vadas as práticas especializadas do s artesãos,
entre estes os marinheiros, ferreiros, armeiro s, construtores, e as expressõ es artísticas co mo a pintura e a escultura se apro ximam
das técnicas.
Trata-se de uma co mp o sição entre ciên-cia e técnica, teoria e prática, co m o reco nhe-cimento da experiência, d o fazer, co mo fun-damental (Rossi, 1989). É neste co ntexto que Francis Baco n elabo ra sua filosofia, apo ntan-do a necessid ad e de rever o s sagrantan-dos prin-cípios de inviolabilidade da natureza e utilizá-la para o benefício da ciência, e René Des-c artes d isDes-c u te o m é to d o , o q u e dá organicidade ao no v o saber.
A ciência que tem sua origem nos sécu-los XVI e XVII, apo nta Rossi (1989:63), traz a co nsciência de que é "uma lenta construção nunca concluída à qual cad a um, nos limites de suas forças e suas capacid ad es, pode tra-zer a sua co ntribuição ", releva o trabalho co o perativo entre o s especialistas e requer, para isto, a co nstrução de "institutos sociais e lingüísticos ad equad o s", de mo d o a pro po
r-cionar a comunicação necessária ao progres-so da ciência, e prescreve a universalidade de seus benefícios a todos os indivíduos. Admitindo, como explica Rossi, que o desco-brimento de novos territórios a partir das navegações e o desenvolvimento das técni-cas podem e devem mudar a ciência, con-clui-se que os séculos XVI e XVII trouxeram com eles a percepção de que a ciência é historicamente produzida.
É entend end o que a ciência revela-se co m o tempo e que cada ciência serve ao seu tempo , que p enso p o d er contribuir na dis-cussão elabo rad a po r A lmeida Filho. É so bre a aceitação d o caráter histórico da ciência que quero expressar minha co nco rd ância co m a essência das o p iniõ es d o autor, ao enfren-tar o pro blema do trabalho interdisciplinar na área de saúde co letiva, questão funda-mental para co m p reend er a realid ad e de no sso temp o e pensar no ssa atuação , e ao p erceber mo d elo s teó rico s de abo rd agem da co mplexid ad e que não reco nhecem ou não identificam os sujeitos que pro d uzem o co -nhecimento .
Esclarecend o meu p o nto de vista: enten-do que a p ercep ção da ciência co mo produ-ção histórica co mp ro mete, po r um lado, a aceitação de neutralidade pro pícia ao empre-go de esquemas teó rico s ajustados segund o matrizes meto d o ló gicas d emasiad amente o b-jetivas, e, po r outro lado, requer também uma discussão crítica so bre o que se entend e po r co mplexid ad e e co mo abo rdá-la, pois p enso que esta não p o d e ser percebid a co m o um emaranhado mecânico de eventos ocorrendo
1 Professor d o Departamento de Farmácia Social da
longe das pessoas e da história. É neste úl-timo ponto, no âmbito mais específico da epidemiologia, que quero me deter.
É numa perspectiva complexa que se busca a co mp reensão das d o enças que afli-gem as p o p ulaçõ es humanas neste final de milênio . É assim que se p o sicio na Morse (1995), ao apo ntar as transfo rmaçõ es eco ló -gicas e o d esenvo lvimento da agricultura, as mudanças demo gráficas e de co mpo rtamen-to, as viagens internacionais e co mércio , a te c no lo g ia e a ind ú stria, a ad ap taç ão micro biana e as deficiências na estrutura de serviço s d e saúd e p ública, c o m o "fato res respo nsáveis" pelas infecçõ es emergentes. E é co nsid erand o o s apo ntamento s de Morse que Colw ell (1996) relacio na as epidemias de
cólera ao fenô menozyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA El Niño, às dinâmicas das marés e co rrentes o ceânicas, às
altera-çõ es climáticas, ao d esenvo lvimento e movi-mento do plâncto n marinho , e assinala a im-portância do co ncurso interdisciplinar da o ce-anografia, eco lo gia, micro bio lo gia, bio lo gia marinha, epid emio lo gia, medicina e interpre-tação de imagens fornecidas po r satélites para uma nova co mp reensão das pand emias da d o ença e sua previsão .
A pro pó sito , A lmeida Filho & Rouquayrol (1992:155-172) já co mpreend iam uma pers-pectiva epid emio ló gica e eco ló gica co mp lexa da d o ença ao co nsid erarem "a d o ença co mo estrutura", referindo -se a uma "interpretação estrutural" das catego rias de risco e causali-dade.
Penso que sistemas co mp lexo s provavel-mente nunca foram tão ev id entes para a epidemio lo gia co m o p o d em sê-lo agora co m a questão das infecçõ es emergentes, quand o dinâmicas so ciais e culturais imbricam-se cla-ramente às dimensões biológicas da vida no planeta. Mas para que o ad o ecer co letivo humano seja de fato embebid o de todo o seu significado histórico, no sso entendimento de complexidade deve envolver uma visão crítica de mundo e sociedade, que procure integrar elementos aparentemante d esco nexo s.
No âmbito da historiografia francesa, o historiador Mirko Drazen Grmek, no final do s ano s 1960 (Grmek, 1969), criou o co nceito
de patocenose, que co nsid ero útil aos epidemiologistas e a esta d iscussão , embo ra sua abo rd agem aqui seja abso lutamente
superfi-cial. Segund o Grmek ( 1995a:ll- 12) , o termo
designa
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" o c o n j u n t o d e e s t a d o s p a t o l ó g i c o sd e u m a p o p u l a ç ã o n u m d a d o m o m e n t o " e foi p ensad o p o r analo gia e semelhança co m biocenose, que é "o co njunto quantificado de to d o s o s seres vivos num d ad o território em um d ad o mo mento ". Co nceito , idéia ou no -ção , po is é catego ria em permanente co ns-trução, a p ato ceno se d e Grmek aponta para uma co mp etição p ermanente entre d o enças e revela " a i n t e r d e p e n d ê n c i a c o m p l e x a d e
to-d a s a s to-d o e n ç a s p r e s e n t e s e m u m a p o p u l a ç ã o " (Grmek, 1983:16), visualizand o co njunto s, sistemas e ev o lução , co mp reend end o intera-çõ es entre o cultural, o social e o bio ló gico .
Com esta perspectiva Grmek historiou a AIDS, co m o uma d o ença que antes deveria ocultar-se so b outras d o enças infeccio sas em p o p ulaçõ es co m baixas expectativas de vida e po sterio rmente surgiu bem adaptada aos temp o s e p o p ulaçõ es atuais (Grmek, 1989). O autor p enso u o ad vento da AIDS a partir
de uma " r u p t u r a d a p a t o c e n o s e s u p r i m i n -do d o e n ç a s q u e s e r v i a m d e b a r r a g e m c o n t r a a A I D S " , l e v an d o em c o n ta a e v o l u ç ão micro biana o rientad a p ela seleção natural darwiniana na d eterminação de maiores ris-co s de transmissão e o ris-co rrência da d o ença. Deste p o nto de vista, o autor envo lveu no surgimento da AIDS a urbanização e o s co n-flitos sociais na África subseqüentes à sua d esco lo nização , a liberação d o s co stumes em relação às práticas sexuais e o s pro gresso s da medicina na identificação de pató geno s e no âmbito d o co ntro le e eliminação de d o en-ças, além d o d esenvo lvimento industrial e uso terapêutico de hemo d erivad o s (Grmek, 1995b:233).
n-dente à globalização do capital, ao mundo globalizado deste final de século e milênio. A uma sociedade individualista, competitiva e consumista, onde são marcantes a exclu-são, a desigualdade e a injustiça sociais.
Onde uma espécie dezyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA darwinismo social elimina os menos aptos também através das
doenças.
Almeida Filho destaca a atuação de sujei-tos mo vimentand o -se no esp aço do co nheci-mento , fo rmand o co mp o siçõ es de "sujeitos transd isciplinares" e "esp ecialistas" para a investigação de "o bjeto s co mp lexo s" no âm-bito da saúd e co letiva. Neste mo v imento
pro duzem-se
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" t o t a l i z a ç õ e s p r o v i s ó r i a s c o n s t r u íd a s p o r m e i o d e u m a p r á t i c a c o t i d i a n a ' t r a n s
v e r s a l ' d o s s u j e i t o s d o c o n h e c i m e n t o e o p e r a
-d a s n a c o n c r e t u -d e -d o s s e u s a p a r e l h o s
c o g n i t i v o s " , e é neste co ntexto que v ejo , o rientando tais co mp o siçõ es, uma
perspecti-va histórica crítica no exame do adoecer coletivo humano.
Certamente um grande p asso da ciência atual foi o reco nhecimento de que evo lução có smica, evo lução bio ló gica e evo lução cul-tural p o d em co mp o r uma história única ini-ciada pro vavelmente co m o big-bang, abran-gend o tempo ralidades med id as em bilhõ es de ano s até século s, d écad as, e da qual so -mo s apenas parte meno r (Reeves et al., 1996). Matéria, vida, cultura são partes d e uma longuíssima história, fases seqüencialmente superpo stas e co mp lexamente interligadas no curso d o temp o irreversível. Natureza e so -cied ad e são sistemas e co njunto s de sistemas não-lineares, interdependentes, marcados pela seta d o temp o . A partir desta co ncep ção , crítica e historicamente, transdisciplinarmente, deve ser p ensad o o ad o ecer das p o p ulaçõ es
humanas.
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