Universidade de Brasília Faculdade de Direito
Teoria Geral do Processo 2 Prof. Dr. Vallisney Oliveira
Trabalho 2: Comentários a Acórdão: Jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça (STJ) ou do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1), ou do Tribunal de Justiça do Distrito Federal (TJDF).
Tema: Assistência Simples
Equipe:
Francisco A. C. Pinheiro, 13/0070661 Tiago de Sousa Pereira, 13/0060879
Introdução
O tema da assistência simples será comentado com base no julgamento do Recurso Especial Nº 1.418.593 – MS, julgado pelo STJ em 14 de maio de 2014, cuja ementa e acórdão são mostradas a seguir.
Ementa e Acórdão
RECURSO ESPECIAL No 1.418.593 - MS (2013/0381036-4)
RELATOR : MINISTRO LUIS FELIPE SALOMÃO
RECORRENTE : BANCO BRADESCO FINANCIAMENTOS S/A
ADVOGADOS: JOSE MANOEL DE ARRUDA ALVIM NETTO E OUTRO(S) EDUARDO PELLEGRINI DE ARRUDA ALVIM E OUTRO(S)
RECORRIDO : GERSON FERNANDES RODRIGUES ADVOGADO : SEM REPRESENTAÇÃO NOS AUTOS
INTERES. : DEFENSORIA PÚBLICA DA UNIÃO - "AMICUS CURIAE" ADVOGADO : DEFENSORIA PÚBLICA DA UNIÃO
EMENTA
ALIENAÇÃO FIDUCIÁRIA EM GARANTIA. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. ART. 543-C DO CPC. AÇÃO DE BUSCA E APREENSÃO. DECRETO-LEI N. 911/1969. ALTERAÇÃO INTRODUZIDA PELA LEI N. 10.931/2004. PURGAÇÃO DA MORA. IMPOSSIBILIDADE. NECESSIDADE DE PAGAMENTO DA INTEGRALIDADE DA DÍVIDA NO PRAZO DE 5 DIAS APÓS A EXECUÇÃO DA LIMINAR.
1. Para fins do art. 543-C do Código de Processo Civil: "Nos contratos firmados na vigência da Lei n. 10.931/2004, compete ao devedor, no prazo de 5 (cinco) dias após a execução da liminar na ação de busca e apreensão, pagar a integralidade da dívida - entendida esta como os valores apresentados e comprovados pelo credor na inicial -, sob pena de consolidação da propriedade do bem móvel objeto de alienação fiduciária".
ACÓRDÃO
Vistos, relatados e discutidos os autos em que são partes as acima indicadas, acordam os Ministros da SEGUNDA SEÇÃO do Superior Tribunal de Justiça, por unanimidade, dar provimento ao recurso especial, nos termos do voto do Sr. Ministro Relator.
Para os efeitos do artigo 543-C, do Código de Processo Civil, foi definida a seguinte tese: "Nos contratos firmados na vigência da Lei n° 10.931/2004, compete ao devedor, no prazo de cinco dias após a execução da liminar na ação de busca e apreensão, pagar a integralidade da dívida - entendida esta como os valores apresentados e comprovados pelo credor na inicial -, sob pena de consolidação da propriedade do bem móvel objeto de alienação fiduciária". Os Srs. Ministros Paulo de Tarso Sanseverino, Maria Isabel Gallotti, Antonio Carlos Ferreira, Ricardo Villas Bôas Cueva, Marco Buzzi, João Otávio de Noronha e Sidnei Beneti votaram com o Sr. Ministro Relator.
Ausente, justificadamente, a Sra. Ministra Nancy Andrighi. Presidiu o julgamento o Sr. Ministro Raul Araújo.
Brasília, 14 de maio de 2014 (data do julgamento). MINISTRO LUIS FELIPE SALOMÃO
Desenvolvimento
Descrição do caso
Trata-se de recurso especial impetrado pelo banco Bradesco após o não provimento de agravo de instrumento e agravo regimental, interpostos em ação de busca e apreensão de automóvel.
O Bradesco interpôs agravo de instrumento contra decisão de primeira instância que determinava que o veículo permanecesse na Comarca onde foi apreendido e que a mora fosse purgada apenas com base nas prestações vencidas. Argumentou no agravo que a lei não determina a manutenção do bem na comarca onde ocorre a apreensão, sendo esta decisão por demais onerosa; argumentou também que o art. 3º, § 2º do Decreto-Lei n. 911/1969 não permite que o réu faça depósito das prestações sem considerar as demais parcelas do contrato.
O agravo de instrumento foi negado em decisão monocrática, bem como o agravo regimental que se seguiu, sobrevindo recurso especial com fundamento no artigo 105, inciso III, alínea c, da Constituição Federal, no qual é sustentada a tese de que a decisão da Corte local conflita com a jurisprudência do STJ e de outros tribunais. Admitido o recurso especial na origem, os autos foram enviados ao STJ, onde o relator, Min. Luís Felipe Salomão, face a existência de múltiplos recursos relativos ao caso em questão, determinou a suspensão dos processos em que a mesma controvérsia estivesse estabelecida e facultou a manifestação de interessados na questão, conforme preceitua o art. 543-C, § 4º, CPC:
“O relator, conforme dispuser o regimento interno do Superior Tribunal de Justiça e considerando a relevância da matéria, poderá admitir manifestação de pessoas, órgãos ou entidades com interesse na controvérsia.”
Análise do Acórdão
Importa para o nosso trabalho o requerimento de um terceiro interessado, o Sr. Marcelo Barros de Castro, que solicitou sua admissão como assistente simples, alegando que o resultado do caso em análise (recurso repetitivo) influenciará decisivamente na solução dos embargos de divergência em que ele, requerente, é parte.
O requerimento do terceiro que solicitou sua admissão como assistente simples foi negado pelo Ministro relator, com o argumento de que o requerente não tinha interesse jurídico no caso. Entendeu o Ministro relator que o simples fato de o requerente ser parte em outro processo que pode ser afetado pela tese questionada não é suficiente para caracterizar seu interesse jurídico. Nas palavras do relator:
“O fato de ser parte em feito em que se discute tese que será firmada no presente recurso, evidentemente, não implica reconhecimento de seu interesse jurídico no deslinde da presente demanda.”
“O interesse do peticionário, que se pode vislumbrar no julgamento do presente recurso, é meramente subjetivo, quando muito reflexo, de cunho meramente econômico - o que não justifica sua admissão como assistente simples.”
O relator também arguiu a não procedência do requerimento por não se encontrar o requerente no rol das pessoas relacionadas no art. 543, § 4º do CPC. Nas palavras do relator:
“Outrossim, é bem de ver que o requerente não se enquadra dentre o rol indicado no artigo 543, § 4º, do CPC, sendo certo que nem os elencados no referido dispositivo podem ser admitidos como assistentes no procedimento de recursos representativos da controvérsia, não lhes sendo possível nem mesmo a interposição de recurso impugnando a decisão que vier a ser prolatada.”
Finalmente, o relator considerou que a admissão do requerente no caso em questão, uma ação repetitiva com interferência em milhares de causas pendentes, inviabilizaria o próprio julgamento, uma vez que estaria aberta a possibilidade dos milhares de pessoas possivelmente atingidas pelo desfecho da causa pleitearem admissão como assistentes simples. Nas palavras do relator:
“Ademais, admissão dessa tese abriria a possibilidade de manifestação de todos aqueles que figuram em feitos que tiveram a tramitação suspensa em vista da presente afetação - o que, evidentemente, inviabilizaria o julgamento de recursos repetitivos.”
Discussão
Deve ser observada que a noção de interesse jurídico extrapola o interesse subjetivo. Esta é a jurisprudência do próprio STJ, que assim se pronunciou por no julgamento do REsp 762.093/RJ, Rel. Ministro Luiz Fux, primeira turma, julgado em 20/05/2008, DJe 18/06/2008:
“A jurisprudência desta Corte Superior de Justiça é no sentido de que para o ingresso de terceiro nos autos como assistente simples é necessária a presença de interesse jurídico, ou seja, a demonstração da existência de relação jurídica integrada pelo assistente que será diretamente atingida pelo provimento jurisdicional, não bastando o mero interesse econômico, moral ou corporativo.”
Esse entendimento restringe muito o rol dos habilitados a ingressarem como assistente simples, fazendo com que, para além de um mero interesse subjetivo, haja entre o terceiro interessado e a causa na qual ele deseja ingressar como assistente simples um real vínculo jurídico, passível de ser atingido pela solução da questão. Nesse sentido também se pronunciou o STJ no julgamento do REsp 1.172.634-SP, Rel. Min. Massami Uyeda, julgado em 17/3/2011, em que indeferiu o pleito da OAB, que desejava atuar como assistente simples em favor de um advogado, em causa contra o MP. A posição nesse caso foi descrita no Informativo de Jurisprudência do STJ (STJ 2011), nos seguintes termos:
“Inicialmente, ressaltou o Min. Relator que a assistência é uma hipótese de intervenção em que terceiro adentra a relação jurídico processual para auxiliar uma das partes por possuir interesse jurídico para tanto, nos termos do citado artigo. Porém, explica ser necessário verificar o interesse jurídico apto a legitimar o instituto da assistência, o que não ocorre na hipótese dos autos. Isso porque uma eventual sentença de procedência do pedido indenizatório não iria repercutir na esfera jurídica da OAB, pois o deslinde da causa atinge apenas um de seus associados, portanto é individual e não institucional, afastando-se, assim, o interesse jurídico que justificaria a assistência simples pleiteada. Ademais, para o Min. Relator, admitir a intervenção da OAB como assistente simples em demandas dessa natureza levaria à ocorrência de situações, em si, contraditórias; por exemplo, se a presente ação fosse ajuizada por um advogado contra outro, com as mesmas alegações, ou seja, ocorrência de danos morais provocados em determinado processo, nessa hipótese, a OAB haveria de
escolher em favor de qual dos causídicos deveria intervir como assistente. Ressalta que se deve levar em consideração a defesa institucional da Ordem, mas, para tanto, há que se ter, pelo menos, o interesse jurídico por meio de eventual repercussão em sua esfera jurídica, o que não se dá no caso dos autos. Diante do exposto, a Turma deu provimento ao recurso especial para não admitir a assistência simples da OAB e excluí-la do presente feito”.
O acórdão aqui analisado, em relação à decisão de não aceitar a intervenção do Sr. Marcelo Castro como assistente simples, segue o que dispõe a doutrina (AMENDOEIRA JR, 2012, DIDIER JR, 2013) e a jurisprudência do STJ. Entretanto, devemos ressaltar que o argumento do Ministro relator de que o processo ficaria impraticável, caso todos os interessados fossem admitidos como assistentes simples em causas repetitivas, não nos parece sólido. Ocorre que a admissão do assistente simples em fase recursal é prerrogativa do Tribunal, que não precisa ser estendida a todos os interessados (art. 543-C, § 4º do CPC). Nos parece que o que ocorre com esse tipo de argumento é uma mera preocupação com a economia processual, com a finalidade de diminuir a quantidade de manifestações em processos já demasiadamente extensos. Uma ilustração desse tipo de conduta nos é dada pelo julgamento do REsp 708.040-RJ, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 19/2/2009, em que foi rejeitado um pleito da União, nos seguintes termos (Informativo de Jurisprudência do STJ, 2009):
“O art. 5º, parágrafo único, da Lei n. 9.469/1997 não cuida de litisconsórcio necessário ou assistência litisconsorcial. Esse dispositivo, ao declinar sua finalidade (a de possibilitar o esclarecimento de fato e de direito, facultando a juntada de memoriais e documentos, ou mesmo recorrer), deixa claro, numa exegese lógica, tratar-se de intervenção simples. Desse modo, a União, nesse caso, recebe o processo no estado em que se encontra (art. 50, parágrafo único, do CPC), daí não se aventar recurso seu de decisões que foram proferidas antes de sua participação. Doutro lado, a assistência simples exige causa pendente (livre de decisão transitada em julgado), pois o assistente tem interesse em que o assistido “vença a demanda”, o que importa admiti-la apenas em processo de conhecimento ou cautelar. Na hipótese em tela, a sentença de liquidação por arbitramento contra a qual se insurge a União há muito teve seu trânsito em julgado. Ausente esse requisito, não poderia a União apelar por falta de sua intervenção regular.”
Nesse último caso, a recusa se deu com fundamento no argumento de que a intervenção do assistente simples só é cabível nas fases em que ainda haja possibilidade de vitória, não sendo cabível após julgamento. Ocorre que esta posição contraria o disposto no art. 55 do CPC, que admite a intervenção de terceiros em processos transitados em julgado, em certas circunstâncias.
Desse modo, embora a decisão proferida no acórdão analisado neste trabalho esteja correta, a análise de todos os seus argumentos e o cotejamento com decisões de outros julgamentos indica a existência de uma tensão entre a maior democratização, possibilitada pela intervenção de terceiros como assistente simples, e a maior carga de trabalho que resulta dessa intervenção. Nos parece que esse confronto de tendências deve ser resolvido em favor de um equilíbrio entre a democratização da Justiça e a sua eficiência. Todavia, como uma maior participação impacta negativamente a eficiência e uma Justiça ineficiente não pode ser justa, esse é um equilíbrio de difícil consecução.
Bibliografia
AMENDOEIRA JR., Sidney. Manual de Direito Processual Civil, volume 2, Seção 1.3, Saraiva, 2012.
DIDIER JR., Fredie. Curso de Direito Processual Civil. volume 1, 15ª edição, p. 240, JusPodium, 2013.
STJ. Informativo de Jurisprudência, nº 0466, período 7 a 18 de março de 2011. Disponível em https://ww2.stj.jus.br/jurisprudencia/externo/informativo.