• Nenhum resultado encontrado

A PRÁTICA DA VEGETOTERAPIA José Henrique Volpi

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2021

Share "A PRÁTICA DA VEGETOTERAPIA José Henrique Volpi"

Copied!
8
0
0

Texto

(1)

A PRÁTICA DA VEGETOTERAPIA

José Henrique Volpi

Enquanto psicanalista, a primeira técnica que Reich desenvolveu recebeu o nome de técnica da Análise do Caráter. Ainda que fosse um trabalho psicanalítico, cuja ênfase terapêutica se dá no conteúdo verbal, a forma de Reich abordar seus pacientes tornava-a diferente dos ensinamentos de Freud, mesmo porque o trabalho analítico já não mais era feito no divã e sim frente a frente, de forma que as resistências do paciente até mesmo ao tratamento analítico tornavam-se mais evidentes e podiam ser tratadas de forma mais clara, direta, profunda e num menor espaço de tempo.

O trabalho sistemático com a técnica da análise do caráter levou Reich a descobrir que os distúrbios psico-emocionais estão sempre associados a disfunções anátomo-fisiológicas, que por sua vez fazem parte de um sistema unitário. Este conjunto de disfunções corporais recebeu o nome de couraças musculares, que são tensões crônicas que se formam no corpo ao longo da vida, cuja função é proteger o indivíduo (ego) de experiências dolorosas e ameaçadoras. Inclui tensão ou flacidez crônicas da musculatura esquelética que são resultado de uma alteração nos comandos efetores do sistema extra-piramidal, que talvez envolva até mesmo alterações na atividade dos neurônios eferentes gama que são os que regulam o tônus muscular. Mas a couraça não é apenas muscular. Podemos encontrá-la nos tecidos (tissular), envolvendo-se na dinâmica intesticial, e nas vísceras (visceral), como resultado de alterações crônicas no funcionamento do sistema nervoso autônomo, causando assim disfunções nas secreções e na musculatura lisa dos órgãos (Boyesen, 1988). Foi, então, que o trabalho que Reich vinha fazendo enquanto psicanalista deixou de ser uma terapia somente psicológica e passou a ser uma psicoterapia diretamente voltada ao corpo, ao sistema neurovegetativo. Por esse motivo é que recebeu o nome de vegetoterapia caracteroanalítica, incluindo num só conceito o trabalho nos aparelhos psíquico e físico.

À procura de uma lei que pudesse governar esses bloqueios corporais, Reich percebeu que a couraça muscular está ordenada em segmentos e agem como um anel que circula a região toda do corpo. Para uma melhor

(2)

compreensão pedagógica, mapeou o corpo em sete segmentos de couraças a saber: ocular, oral, cervical, torácico, diafragmático, abdominal e pélvico, que impedem o livre fluxo energético. Para compensar, o corpo adota novas posturas (olhos arregalados, tensão no maxilar, desvios na coluna, etc).

Novas pesquisas revelaram a Reich um tipo de energia até então jamais comentada pelos cientistas da época à qual Reich deu o nome de energia orgone. Foi quando uma série de novas descobertas foram se descortinando à sua frente e sendo incorporadas à técnica da vegetoterapia. Então, o nome da técnica passa a ser agora, orgonoterapia e a ciência desenvolvida por Reich recebe o nome de Orgonomia.

O interesse pelas pesquisas com a energia orgone desviaram Reich da continuidade do trabalho clínico com a vegetoterapia. Sabia ele que a técnica ainda precisava ser aprimorada, revista, complementada e foi quando pediu ajuda a um de seus colaboradores e amigo, o ex-psicanalista norueguês Ola Raknes. Mas Raknes disse não se julgar capaz de tal proeza porque sentia que seus conhecimentos de neuropsicofisiologia eram precários visto não ser médico, nem psicólogo, e repassou essa missão ao neuropsiquiatra italiano Federico Navarro. É importante sabermos que Raknes foi o único não médico que Reich permitiu que fosse treinado por ele e autorizado a fazer uso da vegetoterapia. E foi assim que Navarro brilhantemente aceitou a missão e reescreveu as tipologias de caráter, bem como desenvolveu uma metodologia sistemática para a vegetoterapia.

O corpo contém a história do indivíduo e é através dele que a vegetoterapia busca resgatar as emoções mais profundas. Seu princípio básico é o “restabelecimento da mobilidade biopsíquica através da anulação da rigidez (encouraçamento) do caráter e da musculatura” (Reich, 1986, pg. 17), mediante movimentos específicos, os quais Navarro chamou de actings, seguidos sempre da análise dos conteúdos verbalizados pelo paciente.

De acordo com a metodologia de Navarro (1996), uma sessão de vegetoterapia começa sempre pela anamnese, ou seja, coleta de dados da história do paciente. É importante conhecermos um pouco da história da gestação, parto, amamentação, doenças, infância, adolescência, idade adulta, queixa atual, além de outras que julgarmos importantes para que também

(3)

possamos ter um panorama do funcionamento energético e caracterológico do paciente.

Em paralelo a essa anamnese, o próximo passo é convidarmos o paciente a se deitar no divã para aplicarmos a massagem reichiana. Isso pode ser feito na mesma sessão, logo após a anamnese ou, se não houver tempo hábil, na próxima sessão. É importante que para isso o paciente esteja trajando uma roupa leve, ou fique apenas com a roupa íntima ou roupa de banho. Só assim conseguiremos obter um diagnóstico real e preciso dos bloqueios do corpo. Navarro diz que no início do tratamento, a massagem reichiana deve ser feita no corpo todo, mas que quando estivermos procedendo com o desbloqueio do terceiro nível (pescoço), podemos nos ater apenas ao rosto e pescoço.

Com base na anamnese e na massagem reichiana é possível estabelecermos um diagnóstico para nosso paciente, que segundo Navarro, (1995) pode ser:

- Núcleo Psicótico: se o sujeito passou por uma situação de estresse durante o período de gestação, parto ou primeiros dez dias de vida. Nesse caso, a condição energética será de hipoorgonia (baixa carga energética);

- Borderline: se o estresse se deu durante a amamentação ou no desmame, que deveria ocorrer por volta do oitavo ou nono mês - nem antes, nem depois disso -; além disso, todo desmame deveria ser gradativo e não brusco como acontece na maioria das vezes. Aqui encontramos o medo do abandono. A condição energética é de desorgonia, ou seja, o paciente possui uma boa quantidade e qualidade de energia, porém, mal distribuída pelo corpo;

- Duplo Núcleo Psicótico: a pessoa é considerada núcleo psicótico quando teve uma vida intra-uterina sem qualidade e também pode ter um núcleo psicótico depressivo do borderline porque teve uma maternagem deficitária;

- Psiconeurótico: o estresse ocorreu após o primeiro ano de vida, época em que a criança é severamente treinada a controlar suas necessidades

(4)

fisiológicas (treino ao banheiro). Também tem sua castração ameaçada pelo pai do sexo oposto, que impede a função edipiana. A condição energética é de hiperorgonia desorgonótica (alta energia, porém mal distribuída pelo corpo);

- Neurótico: o estresse ocorreu no período edípico, onde apareceu um forte medo da entrega ao prazer. A condição energética é de hiperorgonia (alta energia).

Cada paciente precisa ter seu próprio projeto terapêutico que por sua vez, é aplicado de acordo com a estrutura caracterial/energética (Volpi & Volpi, 2003).

- Núcleo Psicótico: No momento em que se faz o diagnóstico energético, sabe-se que o núcleo psicótico é hipoorgonótico. Portanto, precisa de energia. Nesse caso podemos fazer uso da homeopatia, de vitaminas, do acumulador ou manta orgonótica, acupuntura com agulha de ouro, etc.

Como essa condição de núcleo psicótico é decorrente de um estresse que aconteceu durante a vida intra-uterina, a postura do terapeuta deve ser de um útero quente, caloroso, acolhedor, disponível, que dá contato, carinho e calor para que o paciente se sinta aceito. Nesse caso, a massagem reichiana é muito importante porque oferece um contato físico real.

- Borderline: O problema é decorrente do período neo-natal, época da amamentação e desmame. Nesse caso, o terapeuta deve representar a mãe boa que o paciente não teve. Deve fazer a maternagem como se o paciente fosse um recém-nascido. Se a condição energética da cobertura é boa, ele não precisa de vitaminas, mas pode precisar da acupuntura.

- Psiconeurótico: A problemática é decorrente do medo da castração e nesse caso a postura do terapeuta deve ser a de um pai que permite a expressão da função edipiana e não um pai que a impede.

(5)

- Neurótico: No neurótico, o medo é de não conseguir uma vida realmente satisfatória. Nesse caso o ponto fraco é a incapacidade de se abandonar. A postura do terapeuta é de um “amigo” ao qual o paciente pode se abandonar. Federico Navarro parafraseia um ditado que diz que encontrar um amigo é também encontrar um tesouro. Como é um pouco difícil encontrar um tesouro, também é difícil encontrar um verdadeiro amigo. Uma pessoa que diz ter apenas um amigo já tem bastante na vida. Diz Navarro que nós mesmos devemos ser nosso primeiro amigo. Isso nos deixa mais seguros, contentes, sem ansiedade para querer mais e mais amigos. No momento que o neurótico aprende a se dar, a se abandonar ao terapeuta que para ele é um “amigo”, ele aprende a se abandonar ao próprio partner que deveria ser fundamentalmente o melhor amigo depois dele mesmo para que pudesse ter uma relação inteira e verdadeira. Continua Navarro dizendo que é importante lembrar que não existe amizade e amor sem estima. Para amar uma pessoa é preciso estimar. Para considerar alguém como amigo é preciso estimar. Isso é fundamental para todos e para o neurótico em particular.

O trabalho de desbloqueio das couraças (vegetoterapia) tem inicio pelo primeiro segmento (ocular) e segue em direção ao último (pélvico). Permite assim o livre fluxo energético e uma mudança física e caracterológica quando conseguimos eliminar a base geral caracterológica e biofísica dos sintomas individuais, ou seja, a neurose de caráter. Busca, em outras palavras, restabelecer a total capacidade de pulsação do organismo como um todo.

Para o desbloqueio de cada segmento de couraça, a vegetoterapia propõe a execução de actings específicos, seguindo, portanto, um protocolo de forma progressiva, que começa a ser aplicado no primeiro segmento (ocular), em direção ao último (pélvico), levando o indivíduo ao amadurecimento caracterológico, aproximando-o cada vez mais do caráter genital. Actings são movimentos específicos propostos pelo terapeuta ao paciente, cujo objetivo é provocar uma mobilização funcional dos segmentos do corpo que se encontram encouraçados.

A execução “mecânica” de um acting, sem aliança terapêutica, não poderá provocar o aparecimento das emoções reprimidas. Portanto, o

(6)

terapeuta deve ter uma participação ativa durante a sessão a fim de observar “como” os actings são executados pelo paciente, antes que este verbalize o que sentiu ao realizá-los.

Então, após termos feito a anamnese e a massagem reichiana pela primeira vez no novo paciente, a próxima sessão deveria começar sempre com a massagem reichiana, aplicada no corpo todo. Em seguida, procedemos com a investigação da gestação e posteriormente das relações do paciente com a mãe e com o pai. Para investigar a gestação fazemos uso da concha aberta (15 minutos) e para investigar as relações parentais, fazemos uso da lanterna, tapando um olho de cada vez, começando pelo direito e pedindo que o paciente olhe firmemente com o olho esquerdo para o ponto luminoso (lanterna), colocada a uma distância de 20 a 30 cm de seu rosto, pelo tempo máximo de 15 minutos. Após intercalar os olhos, pede-se ao paciente que com os dois olhos fixe o ponto luminoso por mais 15 minutos. E assim terminamos esse primeiro “pacote” de actings indicados como um protocolo a ser seguido para o início do desbloqueio do segmento ocular que é composto de: massagem, concha aberta, luz no olho esquerdo, luz no olho direito e luz nos dois olhos – pelo tempo máximo de 15 minutos cada um desses actings.

A utilização da luz para o desbloqueio da couraça do segmento ocular, foi proposta por Bárbara Goldenberg. Acredita a autora que a luz seja a melhor forma de se atingir o nível profundo da couraça no parênquima cerebral. Essa técnica é seguida de dois objetivos: “(1) a estimulação direta da luz sobre a substância cerebral propriamente dita; (2) forçar o paciente a ultrapassar o limiar do estímulo visual, de modo que ele seja obrigado a abandonar sua contenção ocular (Apud Baker, 1980, p. 73). Os relatos dos pacientes após o trabalho da luz sobre os olhos são sempre de um bem-estar e sentimento de segurança, ampliação da percepção e muitos outros efeitos benéficos. Alguns também chegam a relatar e a comprovar uma redução ou até mesmo eliminação de erros de refração da visão como astigmatismo, miopia, hipermetropia, etc.

A próxima sessão de vegetoterapia inicia-se pela massagem, seguida da aplicação da concha fechada, por 15 minutos. Passamos então para a luz como ponto fixo, depois para a boca aberta, para o ponto fixo no teto e para

(7)

finalizar, voltamos à boca aberta – pelo tempo máximo de 15 minutos cada um desses actings. Nessa sessão, já começamos a intercalar o trabalho dos olhos (1o segmento) com o da boca (2o segmento). Se até aqui o paciente respondeu a contento e não tem um bloqueio considerável de núcleo psicótico, nas duas próximas sessões repetimos a mesma seqüência, porém aumentamos o tempo para o trabalho com os olhos tanto com a luz quanto com o ponto fixo no teto, para 20 minutos e depois para 25 minutos quando “fechamos” o primeiro pacote de actings integrando agora os olhos com a boca ou seja, pedimos ao paciente que fixe os olhos num ponto imaginário no teto ao mesmo tempo que deixa a boca aberta, por um tempo máximo de 25 minutos.

É importante ressaltarmos novamente que a aplicação de um acting não pode ser mecânica e sempre deve ser acompanhada da verbalização. Só assim podemos avaliar o quanto o trabalho está tendo resultado e o paciente está conseguindo obter o seu amadurecimento caracterológico.

Junto com o trabalho da vegetoterapia aconselhamos o paciente a buscar um tratamento homeopático, massagens, acupuntura, ortomolecular ou qualquer outra terapia energética convergente. Assim nosso trabalho será mais eficaz, rápido e profundo.

Finalizada a aplicação do primeiro “pacote” de actings (ponto fixo com boca aberta), que representa a gestação, parto e primeiros dias de vida, cujo bloqueio responde pelo núcleo psicótico e astigmatismo, damos início agora ao segundo pacote (convergência com boca em sucção). Esse pacote leva ao amadurecimento da situação oral, cujo comprometimento se deu durante o período de amamentação e desmame, responsável pelos traços depressivos e pela miopia. E assim, seguimos com o protocolo proposto pela escola de Navarro, através de outros actings, até chegarmos ao desbloqueio do segmento pélvico quando, depois de aproximadamente 80 sessões de uma hora e meia cada, o paciente recebe alta do tratamento.

REFERÊNCIAS

BAKER, E. F. O labirinto humano. Causas do bloqueio da energia sexual. São Paulo: Summus, 1980

(8)

BOYESEN, G. Entre psiquê e soma. Introdução à Psicologia Biodinâmica. São Paulo: Summus, 1986

NAVARRO, F. Caracterologia pós-reichiana. São Paulo: Summus, 1995 NAVARRO, F. Metodologia da Vegetoterapia. São Paulo: Summus, 1996 VOLPI, J. H. & VOLPI, S. M. Reich: Da vegetoterapia à descoberta da energia orgone. Curitiba: Centro Reichiano, 2003

AUTOR

Federico Navarro/Itália – Médico neuropsiquiatra. Orgonoterapeuta. Criador da somatopsicodinâmica.

Referências

Documentos relacionados

b) Execução dos serviços em período a ser combinado com equipe técnica. c) Orientação para alocação do equipamento no local de instalação. d) Serviço de ligação das

Το αν αυτό είναι αποτέλεσμα περσικής χοντροκεφαλιάς και της έπαρσης του Μιθραδάτη, που επεχείρησε να το πράξει με ένα γεωγραφικό εμπόδιο (γέφυρα σε φαράγγι) πίσω

Este desafio nos exige uma nova postura frente às questões ambientais, significa tomar o meio ambiente como problema pedagógico, como práxis unificadora que favoreça

Podem treinar tropas (fornecidas pelo cliente) ou levá-las para combate. Geralmente, organizam-se de forma ad-hoc, que respondem a solicitações de Estados; 2)

Quando as carnes in natura (bovina, suína, frango, peixe e outros) e seus produtos cárneos, que são utilizados na alimentação humana, iniciam o processo

5 “A Teoria Pura do Direito é uma teoria do Direito positivo – do Direito positivo em geral, não de uma ordem jurídica especial” (KELSEN, Teoria pura do direito, p..

de lôbo-guará (Chrysocyon brachyurus), a partir do cérebro e da glândula submaxilar em face das ino- culações em camundongos, cobaios e coelho e, também, pela presença

the operational approach to generalized Laguerre polynomials as well as to Laguerre-type exponentials based on our results from [ 3 ] and [ 4 ] about a special Appell sequence