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Falsas memórias e suas implicações jurídicas

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Academic year: 2021

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UNIJUI - UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL

JEAN CARLO BRUDNA DOS SANTOS

FALSAS MEMÓRIAS E SUAS IMPLICAÇÕES JURÍDICAS

Ijuí (RS) 2019

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JEAN CARLO BRUDNA DOS SANTOS

FALSAS MEMÓRIAS E SUAS IMPLICAÇÕES JURÍDICAS

Trabalho de Conclusão do Curso de Graduação em Direito objetivando a aprovação no componente curricular Trabalho de Curso - TC. UNIJUÍ - Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul.

DCJS - Departamento de Ciências Jurídicas e Sociais.

Orientador: Dr. Doglas Cesar Lucas

Ijuí (RS) 2019

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Dedico este trabalho a minha família e amigos que sempre estiveram ao meu lado.

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AGRADECIMENTOS

Para minha família que sempre me apoiou em todos os momentos e sempre esteve presente, aos amigos que proporcionaram diversas alegrias e bons momentos por todo esse tempo e ao orientador Doglas que me auxiliou e conduziu neste trabalho com muita paciência.

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“... a memória, como a liberdade, é algo frágil.” Elizabeth Loftus

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RESUMO

O trabalho tem o objetivo de analisar as falsas memórias e suas consequências no processo para a correta elucidação dos fatos, ao se ter a noção das características da mente humana e das atividades desenvolvidas pelo Poder Judiciário. Primeiramente, analisam-se os meios de prova e, posteriormente, os conceitos e obstáculos acerca da verdade, estabelecendo sua relação com o processo judicial. Depois, analisa-se de maneira aprofundada a memória e suas diversas peculiaridades que explicam processos como o armazenamento e recordação de informações, embasa-se assim para uma discussão das falsas memórias com conceitos específicos da matéria que vai influenciar no processo. Por fim, ocorre a sistematização dos assuntos com a observação dos prejuízos que as falsas memórias apresentam ao produzirem uma espécie de verdade falseada, a qual influenciará a devida obtenção de provas, resultando assim o esforço para que o fenômeno em questão tenha seus efeitos mitigados através de diversas inovações e estudos realizados por profissionais conceituados na área.

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ABSTRACT

This paper has the objective of analyze the false memories and its consequences in the process to the correct elucidation of the facts, when it has the notion of the human mind characteristics and of the activities developed by the judiciary. Firstly, it is analyzed the means of evidence and, posteriorly, the concepts and obstacles about the truth, establishing its relation with the judicial process. Then it is analyzed in a deeper way the memory and its many peculiarities that explain processes like the storage and remembrance of information, so it bases to a false memories’ discussion with specifics concepts of the matter that is going to influence in the process. Lastly, the systematization of the subjects occurs along with the observation of the prejudices that the false memories present when producing a kind of distorted truth, which is going to influence the proper taking of evidence, resulting so the effort to the phenomenon in focus has its effects mitigated through various innovations and studies realized by concepted professionals in the area.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO...9

1 A BUSCA DA VERDADE NO PROCESSO E O PAPEL DO TESTEMUNHO...11

1.1 O Processo como o lugar da prova. Tipo de prova...12

1.2 Formas de produção da verdade...18

1.3 O testemunho como prova jurídica...21

2 COMPREENDENDO O FENÔMENO DAS FALSAS MEMÓRIAS...25

2.1 A complexidade da formação da memória: elementos psicológicos...26

2.2 O que são falsas memórias?...32

2.3 Relações processuais a partir dos fenômenos psicológicos...37

3 IMPLICAÇÃO DAS FALSAS MEMÓRIAS NA APLICAÇÃO E COMPREENSÃO DO DIREITO...43

3.1 As falsas memórias no testemunho infantil...44

3.2 As falsas memórias e os riscos da verdade falseada...49

3.3 Falsas memórias: como mitigar suas repercussões no curso do processo?...53

CONCLUSÃO...61

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INTRODUÇÃO

A busca pela justiça possui diversos contornos e fatores a serem analisados, sendo assim um desses contornos que demonstra sua importância nesta busca é a produção de provas. Diversos meios existentes de produção de provas perpassam conhecimentos técnicos, mas uma em especial, o testemunho, tem como característica a capacidade humana de recordar eventos e explicita-los. Considerando-se este meio probatório há a ocorrência de diversas interferências que prejudicam uma correta narração dos fatos, como as falsas memórias, a qual o presente trabalho aborda todas as suas características.

A partir da necessidade de se julgar e investigar corretamente os casos, o estudo dos fenômenos psicológicos se fez necessário e ocasiona uma maior segurança jurídica à sociedade. Faz-se, assim, necessário o estudo conceitual da memória e de todos os seus complexos funcionamentos, como também das definições da verdade a ser buscada no processo e qual o “preço” que se pretende pagar por ela.

Todo o entendimento em relação à memória permite que o estudo sobre as falsas memórias se torne mais simples, com isso facilitando a compreensão ao ler as situações e os conceitos dos quais possuem definições técnicas. Todo este conhecimento técnico que é apresentado resulta na facilidade de compreender o potencial danoso que as falsas memórias representam, que prejudica a confiabilidade na justiça e a correta utilização dos meios repressivos estatais.

Com a análise das interferências causadas pela memória, duas perguntas principais despontam, a primeira é em relação de quais tipos de interferências podem ser listadas, compreendidas e estudadas. Já em relação a segunda pergunta esta pode ser referida como: quais os meios e ações para que ocorra a mitigação das falsas memórias com a intenção de garantir a fidedignidade dos fatos no processo?

O objetivo do presente trabalho é apresentar a importância do estudo das falsas memórias para a manutenção da justiça, assim como trazer os mais novos meios e métodos

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utilizados para a mitigação de seus efeitos. Só com estes conhecimentos que poderá ocorrer uma justiça em caráter amplo que contemple diferentes variáveis de cada ser humano.

A busca de todas essas informações se baseiam em teorias e conhecimentos de conceituados autores, assim como de diversos experimentos que cientificamente embasam as afirmações e observações realizadas. Cabe mencionar, portanto, que a metodologia utilizada foi a revisão de leitura, a qual propiciou a realização do presente trabalho.

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1. A BUSCA DA VERDADE NO PROCESSO E O PAPEL DO TESTEMUNHO:

Durante muitos momentos da história humana buscou-se uma forma de alcançar a verdade dos fatos com base nas informações conhecidas, sendo que essas formas adquiriram diferentes facetas de acordo com a evolução das sociedades, diferenciando-se por questões referentes à religião, construções culturais e simples convicções comuns por parte do povo.

Há de se explicitar que grande parte das sociedades organizaram seus sistemas de avaliação de provas e construções de justiça em um caráter unilateral, pelo qual havia uma sobreposição de direitos e valores diferenciados de acordo com a posição social dos envolvidos. Essa mesma concepção de justiça avaliativa e regrada prova-se como um sistema utilizado pelas elites das sociedades, não se aplicando ao povo no geral, assim evidencia-se o caráter extremamente conturbado na busca da verdade.

Com a evolução das sociedades e as noções de direito dos indivíduos tomando forma, obteve-se um amplo sistema de garantias para a devida avaliação das provas e uma busca do que realmente aconteceu nos casos apresentados. O foco dos sistemas jurídicos mudou para uma visão de garantir direitos em detrimento das formas de justiça adotadas em outras épocas. Em outras épocas havia a autotutela como uma prerrogativa dos indivíduos a fim de resolverem seus conflitos, o que acabava por muitas vezes por não realizar uma justiça por meio da evidência e da lógica, mas sim por meio da força e do poder.

A evolução do caráter probatório com os fins de busca pela verdade é observada como uma construção extremamente recente no contexto histórico das sociedades. Ao deparar-se com os modelos existentes atualmente, há a evidente constatação da evolução deste importante pressuposto para a decisão do juiz, pode-se compreender que para uma sociedade evoluir consideravelmente seu sistema de justiça deve atender as expectativas da eficiência em relação ao comprometimento com a verdade e com o devido caráter de justiça em sentido efetivo.

O testemunho, conjuntamente com os outros meios probatórios, adquire atualmente um papel extremamente importante para a correta resolução de conflitos, porém, não com um caráter de ser extremamente técnico e de comprometimento com a verdade. Há de se observar que o processo é desenvolvido e conduzido por seres humanos, dotados de incapacidades físicas e psicológicas para a correta reprodução de eventos, assim como para com a análise dos mesmos. Portanto, constitui-se como um meio relativo de reprodução da verdade dos fatos, um importante critério a ser avaliado mas que apresenta ponderação de acordo como são conduzidos os atos.

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Como explicita o caput do artigo 342 do Código Penal, o qual pune com um rigor maior uma conduta mais agressiva contra o sistema processual:

Art. 342. Fazer afirmação falsa, ou negar ou calar a verdade como testemunha, perito, contador, tradutor ou intérprete em processo judicial, ou administrativo, inquérito policial, ou em juízo arbitral: (Redação dada pela Lei nº 10.268, de 28.8.2001). (BRASIL, 2018)

O sistema legal busca garantir uma forma de se resguardar através do poder estatal, resulta-se assim em uma forma de proteger a busca pela compreensão dos fatos. A estipulação de uma sanção penal resulta em uma resistência nas ações dos sujeitos do processo, pois caso não ocorra o seu dever de cumprir a legislação, os mesmos poderão receber as sanções estipuladas.

A importância desse meio de prova perpassa também no artigo 218 do Código de Processo Penal (1941), o qual consta que se a testemunha não comparecer sem justificar o motivo, poderá o juiz determinar a sua condução coercitiva. A busca por informações importantes para o processo, como a da prova testemunhal, é claramente evidenciada pelo artigo referido, ao descrever uma medida que afronta liberdades de um sujeito para que o mesmo preste os esclarecimentos devidos.

1.1. O processo como lugar da prova: os tipos de provas

O processo pode ser caracterizado como o instrumento utilizado a fim de provocar a manifestação estatal por meio da sua jurisdição, pela qual a população obtém acesso ao sistema por eles aceito com o fim de dirimir os conflitos e resolver as questões de direito material que apresentam-se conflituosas. Assim, faz-se como o conjunto de relações jurídicas desenvolvidas dentro de um procedimento no qual determinados atos estruturados e discutidos em uma sequência, a fim de manter as garantias constitucionais e uma instrumentalização.

No que se refere aos atos processuais, pode-se destacar as provas como o principal meio de elucidação dos fatos e da busca pela verdade ocorrida no caso material, sendo o ato a fim de embasar a decisão do juiz e extremamente técnico a fim de manter o rigor e a confiabilidade ao serem apresentados em juízo. Constitui o instrumento utilizado para induzir e convencer o juiz de que os fatos narrados aconteceram conforme explicitado pela parte, fazendo com que indiretamente haja a identificação da situação que ocorreu com muita clareza e uma provável certeza.

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Como nas palavras de Gomes Filho (2005, p. 303) sobre a prova jurídica:

Ao mesmo tempo, não é possível deixar de constatar que a matéria também destaca-se por sua complexidade: trata-destaca-se, de um lado, de capítulo de problema mais amplo, próprio da filosofia e da teoria científica, ligado à busca do conhecimento verdadeiro pelo homem. De outro, a prova judiciária constitui sobretudo um fenômeno cultural vinculado a concepções e paradigmas estreitamente relacionados às características de uma determinada sociedade; não fosse assim, não seriam encontrados, no curso da história ou mesmo em ordenamentos contemporâneos, sistemas probatórios variados, que têm como base pressupostos ideológicos, culturais e sociológicos que correspondem ao modo de ser de cada grupo social.

Levando-se em conta a complexidade da prova, há de se destacar as suas acepções culturais em relação a formação social da população. Este reflexo gera diferentes meios probatórios, que por muitas vezes não parecem fazer sentido se aplicado em diferentes povos que não possuem as mesmas tradições. Como por exemplo, as provas utilizadas nos países ocidentais e orientais apresentam diversas distinções em relação a valoração e os meios pelos quais são validados. Uma distinção clara é a construção dos tribunais internacionais, pois representam um órgão jurisdicional de caráter ocidental, explicando por muitas vezes a postura de alguns países em relação aos mesmos.

As provas são apreciadas dentro do sistema processual e de acordo com Gomes Filho (2005), podem ser classificadas em três acepções conforme a etimologia da palavra. Primeiramente, pode ser representada no sentido de demonstração, pelo qual ao apresentarem dados íntegros que venham a interessar a decisão do juiz, acabam por fundamentar uma verdade processual por meio da razão, a qual possibilita uma alta probabilidade de certeza dos fatos ocorridos.

Há o sentido de experimentação, este que tem um caráter não exatamente igual ao das ciências, que a utilizam como um meio de reproduzir e validar experimentos e pesquisas, mas sim uma análise de informações a fim de que possa haver a confirmação ou a refutação dos fatos narrados, com o fim de elucidá-los. E, por fim, o sentido de obstáculo a ser superado, ao se qualificar a necessidade das partes de desenvolverem os atos a eles incumbidos no processo, com o fim de que possam realizar a devida defesa dos seus direitos.

Pode-se dividir as provas em determinadas classificações, como explicita Gomes Filho (2005), a prova direta e indireta, pelo qual dividem de acordo com o contato das mesmas perante o entendimento do juiz. Sendo a prova direta a narração e os dados apresentados, os quais dão uma definição precisa da autoria e do fato alegado. A indireta possui um maior distanciamento com o juiz, sendo um dado que leva a conclusão por meio de indícios e que com base em um exercício de racionalidade se fará a ligação ao verdadeiro autor do delito.

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Outro ponto de classificação pode ser sobre a prova positiva e a negativa, a positiva diz respeito à tentativa de alegar um fato como verdadeiro e certo, e a negativa tem por fim demonstrar que o fato não ocorreu como narrado pela parte contrária, demostrando a negação do fato litigado. Pode-se relacionar a isso a classificação de provas que estão presentes no rol exemplificativo do Código de Processo Civil, e sobre as provas que não fazem parte da legislação, mas que foram utilizadas para a melhor elucidação do fato ocorrido.

Para fim de haver a compreensão maior da sistemática probatória, pode-se classificar os tipos de prova e seu papel de acordo com a legislação, faz-se assim um rol de oito tipos de provas com um entendimento e a importância das mesmas, a fim de atender o sistema processual brasileiro e caracterizar os principais meios probatórios.

Começando-se pelas provas mais impalpáveis, o depoimento pessoal pode ser classificado como o ato em juízo das partes esclarecem pontos perguntados aos mesmos individualmente, faz-se de grande necessidade esse tipo de prova e adquire importância conforme a habilidade do juiz de conduzir as perguntas e observar e realizar as ligações entre os fatos já alegados e as respostas conduzidas da parte.

O depoimento pessoal encontra fundamento no Código de Processo Civil (2015) em seu artigo 385 e seguintes. Eles explicam o dever da parte de aceitar a depor e comparecer, pois caso não ocorra essas exigências, poderá o juiz interpretar os fatos como fossem verdadeiros e contrários a parte que se nega a comparecer. Neste exemplo do processo civil há clara intenção de elucidar os fatos, sendo a parte intimada a comparecer, informada da pena de confissão que é um objetivo do depoimento pessoal.

Outro ponto importante que pode ocorrer durante o curso do processo é a confissão, pela qual uma parte alega como verdadeiro algum fato alegado pela parte contrária, opondo-se a seu próprio interesse, Capez (2015). Este meio de prova é considerado em si próprio sem necessitar uma alegação mais concreta, mas apresenta uma veracidade ponderada, já que o mesmo pode incorrer em vícios e erros. Porém há de se estabelecer a sua relevância no meio jurídico sendo um importante indicativo e uma ajuda importante a fim de ocorrer a devida busca pela verdade. Uma condenação baseada apenas em uma confissão é algo extremamente inconcebível em nosso sistema processual atual, pois esta prova, como caracterizado acima, possui uma ponderação por não caber ao juiz basear-se exclusivamente dela. Este entendimento não prejudica o processo, já que muitas condenações baseadas em confissão já se provaram infundadas depois da realização de testes de DNA.

A principal prova utilizada por meio da fala é a testemunhal, a qual apresenta-se como a fala de uma pessoa que presenciou os fatos por qualquer meio sensitivo, e que pode contribuir

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para a resolução de alguma questão alegada pelas partes. Este tipo de prova pode ser indeferido pelo juiz ou contraditado pela parte, quando houver prova documental que se justifique, ou por alegação de incapacidade, impedimento ou suspeição da testemunha. Acaba por ser uma prova extremamente importante para embasar e dar confiabilidade a tese apresentada pela parte, para conduzir os atos a fim da garantia dos direitos pretendidos.

As testemunhas possuem o dever legal de dizer a verdade e caso não cumpram estão sujeitas as sanções previstas, como explicita o artigo 203 do Código de Processo Penal. Outro dever da testemunha é o de depor, assim há a necessidade da testemunha se fazer presente no local e relatar os fatos ocorridos ao qual possui conhecimento, como o artigo 206 do referido código expõe.

O depoimento da testemunha preferencialmente será gravado, como aduz o artigo 405 §1° do Código de Processo Penal. Resulta-se desta característica a possibilidade de consulta das gravações pelo juiz, para que obtenha a transcrição fiel e completa do depoimento com as palavras do sujeito, assim como para observar eventuais irregularidades que tenham sido cometidas nesta fase do processo.

Estas características também tornam a prova testemunhal a mais passível de ocorrer em erros, pois a utilização da memorização e recordação pode produzir diferentes versões da história entre os sujeitos. Nem mesmo a incidência de diferentes alegações entre as testemunhas podem ceder a uma constatação que são mentiras, pois os depoimentos ao serem separados, dão margem a que cada um explicite o seu ponto de vista através das suas capacidades.

Ao adentrar nas provas embasadas em um maior valor técnico e concreto em relação a sua demonstração, há de se falar da prova documental, a qual se diz propriamente na manifestação física e concreta do alegado pela parte. Necessitam de certa formalidade, mas podem apresentar um caráter amplo, desde de áudios, registros escritos, até vídeos, portanto sendo extremamente necessários para confirmar os fatos alegados pelas partes. Estas provas se revestem de uma certa presunção de veracidade pois fazem-se por corretas se não houver uma impugnação da parte contrária.

No assunto da prova documental ainda há a necessidade de que caso haja dúvida acerca da autenticidade do documento, se conduzirá os fatos para que possa ser verificado os documentos. Pode-se descrever que, do mesmo modo em que requisitos legais atribuem mais segurança aos documentos, outras espécies de documentos mais simples poderão resultar em consequências jurídicas, consubstanciando o artigo 232 do Código de Processo Penal, que descreve o documento de maneira genérica.

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Dentro de uma sistematização mais técnica e racional, através do conhecimento, há a prova pericial, a qual consiste em uma referência técnica e lógica realizada através de um profissional dotado de conhecimento na área e habilitado a reproduzir um laudo, com o fim de esclarecer fatos importantes para a causa. O juiz por ser considerado o destinatário das provas, pode requerer a sua produção, assim como ser apresentado pelas partes em defesa do seu direito. Por serem de alta confiabilidade e geralmente muito importantes para o convencimento do juiz, a perícia apresenta-se como um conhecimento técnico de outra área do conhecimento, com elevados critérios a serem seguidos a fim de que seja o mais próximo da realidade possível.

Através da prova pericial, como explica o artigo 160 do Código de Processo Penal, há uma elaboração de laudo aonde devem descrever minuciosamente as suas constatações técnicas e responder os quesitos para ele formulados. Este meio apresenta elevada importância ao sistema probatório, já que possui 27 artigos o disciplinando e como no seu artigo 158, do já referido código, explicita a importância da perícia ao exigir o uso de prova pericial de exame de corpo de delito, a qual a confissão do acusado não poderá supri-la. Mostra-se com isso a necessidade do sistema processual se basear em provas com elevado grau científico, para que se tenha mais confiabilidade em suas decisões.

A anulação da admissão das provas também pode ser considerada um tipo probatório, no caso de ser inválida a prova, há de retirá-la do processo para que não “contamine” o juiz e que ocorra uma segurança processual em relação ao devido e justo processo. Este meio acaba por ser o qual, uma parte pode valer-se de um meio ilegítimo de produção de provas, esta prova que pode vir a ser extremamente importante para decisão do juiz, e que por fim tem a capacidade de influir e mudar um entendimento que seria alcançado sem o uso de um meio não autorizado pelo sistema processual. Portanto, há necessidade em observar cuidadosamente o uso desse tipo de prova, já que não se pode ter um controle sob a devida particularidade de cada julgador ao analisar os fatos a ele apresentados.

Levando-se em conta as novas tecnologias e a dinamicidade da sociedade atual, a ata notarial pode ser considerada um meio versátil de fazer constar fatos, sendo necessária a lavratura em um cartório notarial, como explicita o artigo 384 do Código de Processo Civil. Funciona como um documento que consta um fato pelo qual se pretende registrar no momento em que é realizado, assim protegendo uma alegação ao se valer documentalmente por um instrumento público. Tem elevada importância atualmente principalmente em relação a fatos ocorridos no meio digital, por ser um registro do ocorrido dotado de elevada confiabilidade e que resguarda o direito mesmo que excluído o meio original de seu registro. Com isso, há o entendimento de ser o mais eficiente meio de provar os fatos digitais, que podem vir a ser

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necessários demonstrar e que acabam por vir a mudar com o tempo, mas que necessita de uma comprovação em um tempo pretérito.

As provas fazem parte do sistema processual e formam importantes bases do sistema democrático a fim da correta decisão do juiz, assim como Leal (2018, p. 184) explicita sobre a persuasão racional:

A persuasão do juiz, no Estado Democrático de Direito, é construída pelos critérios que a lei estabelece para seu autoconvencimento ante os fatos e atos examinados. O julgador não pode decidir, assumindo o papel paternalista ou do magister em juízos de desvinculada subjetividade. O juiz não pode, portanto, decidir em face de uma lei vazia à qual possa emprestar conteúdos de pessoal sabedoria, clarividência ou magnanimidade.

Com este entendimento, pode-se perceber a importância da persuasão do juiz através dos critérios legais estabelecidos, já que a formação da decisão do julgador vai acabar por influir na vida de uma das partes, muitas vezes de uma forma extremamente incisiva, levando-se a um reflexo no caráter da sociedade como um todo. Cada ato desenvolvido que resulta em influência na possível formação da decisão do julgador, deve obedecer ao conjunto de regras legais, desenvolvendo uma segurança jurídica e o cumprimento dos preceitos constitucionais.

Ao observar outro ponto importante que esteve presente por muito tempo no ordenamento jurídico brasileiro, chega-se ao livre convencimento motivado. Esta característica é representada como a liberdade maior que os magistrados possuem para formar os motivos pelos quais estão valendo-se para a decisão, e que acaba por conduzir a diferentes interpretações segundo cada julgador. Consequentemente mesmo que eles tivessem uma formação de caráter e busca por justiça idôneos, poderia ocorrer diferentes resultados a partir de uma formação de convencimento independente.

Conforme os problemas caracterizados do livre convencimento, teóricos como Streck (2015), explicam sobre a nova interpretação do sistema jurídico em relação ao livre convencimento, sendo este não mais presente no mesmo, e que representa um caráter muito importante a fim de diminuir o protagonismo judicial, o qual produz diferentes formas de ver o direito com base em quem julga o caso concreto. Ao se caracterizar a superação deste método, pode-se descrever um avanço no sistema processual e um passo maior ao combate das decisões diversas e que manifestavam um certo ativismo jurídico por parte de juízes que não estavam satisfeitos com alguns pontos das leis e dos regimentos.

Considerando todo o sistema probatório utiliza-se um importante e difícil conceito para se alcançar um resultado satisfatório em termos de justiça, o qual pode ser definido como a

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busca pela verdade, um obstáculo tanto em termos materiais como filosóficos. Em decorrência disto, prova-se muito complexo o sistema de validação e de processamento de informações com o fim de busca pela verdade seguindo todos os valores morais, éticos e a correta e idônea busca pela justiça nos casos concretos.

1.2. Formas de produção da verdade:

A teoria da verdade, segundo Foucault (2005), apresenta diversas acepções e baseia-se em diversas construções históricas do campo de estudo da filosofia, apresenta-se como uma área de destaque dos estudos filosóficos e que constitui a formação de parâmetros em diversos campos das ciências. Em termos gerais, há uma consideração da verdade a partir da percepção sensorial do homem, o que pode ser observado segundo a capacidade e as limitações biologicamente impostas, e outra verdade por meio dos valores culturais, crenças e interiorização de pensamentos individuais como as convicções.

Adotando a classificação utilizada por Vianna (2017), em seu estudo, pode-se dividir as teorias sobre a verdade segundo a filosofia em três formas. A primeira que é caracterizada como a verdade por correspondência, a qual atribui-se uma significação mais histórica e firmada em um pensamento ligado aos sentidos e o que pode ser observado materialmente. Há a premissa de que algo será verdadeiro se pode ser observado, comprovado e constatado, faz-se portanto a partir da observação do objeto que está como referência. A base desta teoria está no pensamento de Aristóteles de constatar o fato do que têm-se a ter como referência e que desencadeia uma caracterização lógica.

Em uma caracterização mais simplificada, segundo Vianna (2017, p. 10), “em síntese: verdade por correspondência é aquela que guarda simetria entre a designação de algo e a existência efetiva deste algo no plano real.”

A outra teoria é a da verdade pragmática, traduzida como uma tentativa de contrapor a teoria com base nos sentidos, firma-se assim uma teoria baseada na questão do pensamento como uma fonte. Ao utilizar-se do pensamento há uma lacuna a ser preenchida com as suposições e as incertezas apresentadas por cada indivíduo, a qual são preenchidas e confirmadas por meio das crenças, que por meio da repetição tornam-se coisas praticamente imutáveis e dotadas de uma certeza sobre a sua constituição. Há a definição levada de acordo com a sua utilidade, já que por ser individual e uma construção pessoal define-se por meio da capacidade de ser útil ao indivíduo, que caracteriza como será levada a verdade para o melhor aproveitamento individual em sua situação específica, Vianna (2017).

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A terceira teoria se prova como um expoente na caracterização moderna de verdade, o expoente idealizador desta teoria é Jürgen Habermas (1929), pelo qual expressa a importância da linguagem e da comunicação interpessoal para a formação de um consenso. Por meio da linguagem e do complexo comunicativo entre as pessoas, formam-se linhas de pensamento gerais as quais acabam por não terem uma verdade consoante sobre determinado fato objeto da discussão, colocando em embate diferentes pontos de vista. A partir destes diferentes posicionamentos é que a linguagem apresenta-se como um meio de unir e formar consensos sociais sobre determinados temas.

Não há que se falar em uma verdade construída sem possível falha, mesmo que alcançada por um meio consensual e que tenha sido analisada de acordo com as suas características, bem como discutida sobre os seus pontos que apresentam divergências entre diferentes visões. A visão de cada avanço no olhar sobre determinada verdade, apresenta-se como uma evolução importante para a linguagem e para a sociedade, que admite e modifica por meio do aprendizado novas lições aprendidas.

Nas palavras de Habermas (2004, p. 52), há a explicação da importância e a construção do aprendizado a partir da argumentação e da formação da verdade:

Na medida em que o saber se justifica por um processo de aprendizado que supera os velhos erros, mas não nos protege dos novos, cada estado de saber atual permanece relativo à melhor situação epistêmica possível. Mesmo o acordo alcançado por meio de uma justificação “construtiva” e que provisoriamente conclui um discurso de modo convincente resulta num saber do qual os envolvidos, em seu papel de participantes da argumentação, podem saber que ele é falivel e perfectível. Os atores que chegam a um bom termo com o mundo nutrem-se de suas certezas de ação, mas, para os sujeitos que, na moldura dos discursos, se certificam reflexivamente de seu saber, a verdade e a falibilidade de um enunciado são dois lados da mesma moeda.

Observa-se que as diferentes formas de se caracterizar as teorias sobre a verdade refletem nas formas em que são utilizadas perante diferentes áreas. Na área jurídica pode-se observar com destaque a verdade consensual por meio das convenções, que são aceitas em âmbito geral para o fim de tipificar certas condutas e considerar certos fatos de acordo com características específicas das quais são provadas e observadas acabando por serem debatidas, com o fim de alcançar a melhor forma de considerar a verdade mais aceita.

A verdade construída por meio de diversas contribuições fáticas e experimentais de acordo com diferentes pontos de vista, apresenta-se como um meio tecnicamente justo mas não totalmente infalível, faz-se assim por um meio ponderativo na qual há uma busca do arrazoado com diferentes fontes fundamentadoras. Distancia-se portanto de uma visão unilateral que leva em conta apenas as particularidades e as convicções do julgador para a formação da verdade,

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já que esta apresenta apenas um sentido e uma validação perante ao próprio sujeito que a considera, não valendo portanto como um símbolo de uma certeza geral que se possa impor perante diferentes visões sobre os fatos.

Em referência as formas de produção da verdade no meio jurídico, pode-se realizar uma contextualização histórica e observar como evoluiu o sistema jurídico para a formação de uma apurada e efetiva justiça. Segundo Foucault (2005, p. 54) os gregos se mostraram como precursores de três formas de apuração e produção da verdade:

Primeiramente, a elaboração do que se poderia chamar formas racionais da prova e da demonstração: como produzir a verdade, em que condições, que formas observar, que regras aplicar. São elas, a Filosofia, os sistemas racionais, os sistemas científicos. Em segundo lugar e mantendo uma relação com as formas anteriores desenvolve-se uma arte de persuadir, de convencer as pessoas da verdade do que se diz, de obter a vitória para a verdade ou, ainda, pela verdade. Tem-se aqui o problema da retórica grega. Em terceiro lugar há o desenvolvimento de um novo tipo de conhecimento: conhecimento por testemunho, por lembrança, por inquérito.

Estas formas, ainda que embriões do sistema utilizado atualmente, foram extremamente importantes para a formação do sistema atual, como o desenvolvimento do inquérito, o qual mostra-se como uma importante evolução e rompe com as formas mais subjetivas de apuração dos fatos. Resulta-se assim em um passo para a justa e devida solução dos conflitos ao se considerar os fatos ocorridos com base em uma busca pela verdade, talvez não na época do surgimento destas formas devido ao caráter religioso que inundava a sociedade, mas sim no contexto atual em que encontra-se diversos países.

Ao se falar sobre a busca da verdade em litígios, obtêm-se uma longa evolução em que a história nos mostra como os conflitos individuais eram resolvidos com base no poder e importância das partes, desde sistemas antigos como o grego explicitado a pouco, até poucas centenas de anos atrás em uma realidade muito próxima e que pode ser observada como recente. Assim, a busca pela verdade apresenta uma base muito forte nos sistemas antigos, mesmo que abolida grande parte das práticas antigas, ainda pode-se observar no sistema processual atual um claro favorecimento em relação a posição social e poder das partes, através de uma afirmação material que não apresenta respaldo nas formalidades jurídicas constituídas pela doutrina e positivadas no sistema.

Conjuntamente com as dificuldades e os obstáculos sociais enfrentados para se buscar a verdade, o inquérito como uma forma de se verifica-la obteve uma gradual evolução durante a Idade Média, adotando formas de verificação com base em conhecimentos técnicos específicos e de especialistas em áreas de estudo, Foucault (2015). Juntamente com toda a

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herança religiosa e de conflito entre poderes, obteve-se uma valoração dos conhecimentos científicos da época, já que cada vez mais os campos de conhecimento apresentavam soluções para os problemas e necessidades da sociedade, uma característica que justificava a sua adoção para o campo da busca pela verdade, mesmo que houvesse diversos obstáculos e resistência por parte dos poderes constituídos.

Chegando-se ao século XIX, conforme Foucault (2005), há uma ruptura com os modelos de lei e sociedade, não mais aceita-se as leis com base na moral e religiosidade, as leis devem representar o que é importante para a sociedade e se transgredida é uma ofensa à sociedade representada pelo Estado, punindo-se com o objetivo de reintegrar o ofensor ao meio comum depois de “paga” a sua ofensa. Estas reflexões foram um avanço e constituíram um passo importante para a busca pela verdade ser pautada em um sistema técnico e que não reproduza meros reflexos de uma busca baseada em critérios subjetivos e individuais.

Ao conceituar atualmente a produção da verdade, chega-se a uma forma de conhecimento, a qual ao utilizar-se dos meios técnicos científicos e da retórica como uma forma de discussão dos diversos pontos de vista, alcança uma quase comprovação pelo menos temporária com os meios disponíveis da mais provável constituição do fato. A verdade não é uma forma fixa e imutável no campo jurídico, esta apresenta-se como uma produção utilizada no meio jurídico a fim de que melhor se transcreva o sistema de normas vigente. Há assim a verdade como conhecimento de um campo de aspectos mostrados e utilizados no caso fático, sendo o mais efetivo meio de se buscar o justo, e que forma-se com uma produção conjunta de diversos meios probatórios pelos quais far-se-á a verdade do processo.

1.3. O testemunho como prova jurídica

O testemunho é um tema que possui amplitude em diversas áreas do conhecimento, possuindo ramificações principalmente nas áreas sociais. Baseando-se na escrita de Seligmann-Silva (2005), o testemunho diversifica-se com outros campos de estudo, como a teologia que os utiliza no processo de formação e confirmação dos eventos dos quais a fé se baseia. No campo da psicologia é utilizado para analisar o caráter pessoal da formação das memórias, sua formação e o impacto causado ao expor os fatos presenciados, assim como a psicanálise que os utiliza como um papel central para a análise e estudo dos casos e situações apresentadas dos pacientes. Outro ponto sobre o testemunho é sua importância para o estudo da literatura e da história, por ser uma importante fonte de conhecimento, ao se coletar informações de pessoas

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com as ricas culturas que lhe foram passadas a diversas gerações, que juntamente com constatações materiais e fáticas, constrói-se um panorama do passado.

Pode-se separar o testemunho em duas formas de exteriorização e de captação dos fatos segundo Seligmann-Silva (2010, p. 5):

Ao invés de reduzir o testemunho ao paradigma visual, falocêntrico e violento (que tende a uma espetacularização da dor), e sem esquecer testis a favor apenas de superstes, minha proposta é entender o testemunho na sua complexidade enquanto misto entre visão, oralidade narrativa e capacidade de julgar: um elemento complementa o outro, mas eles relacionam-se também de modo conflituoso. O testemunho revela a linguagem e a lei como constructos dinâmicos, que carregam a marca de uma passagem constante, necessária e impossível entre o “real” e o simbólico, entre o “passado” e o “presente”.

Ao caracterizar o testemunho por esses dois vieses, forma-se uma ampliação e uma maior complexidade que acaba por descrever melhor a ampla importância deste tipo de prova. Primeiramente, ao caracterizar testis obtêm-se a forma mais histórica e comum do testemunho em relação a seu aspecto de valer-se pela visão, a observação de um terceiro do fato corrido e dos seus aspectos. Ao compreender os elementos do superstes, pode-se relacionar ao prevalecimento da audição no lugar da visão, tanto no processo de obtenção das informações como na sua reprodução, e também o papel da testemunha como parte do fato e que vivenciou ou sofreu com ele.

Relacionando o testemunho através de sua complexidade, há a possibilidade de observar o difícil meio de exposição e obtenção das informações por meio desse modo, mas não esquecendo também da importância que possui, por constituir um elo humano entre os fatos ocorridos e a busca pela justiça. Têm-se com isso a diversidade de como pode ocorrer a oralidade do fatos observados, pois há o ponto de vista de cada pessoa que o presenciou e a capacidade de julgamento do observador, já que características individuais podem influir na fixação do ocorrido na memória, demonstrando a diversidade das questões a serem analisadas. Para demonstrar a complexidade do tema, Seligmann-Silva (2010, p. 9) caracteriza a: “[...] Incomensurabilidade entre as palavras e a experiência da morte [...]”. O que pode ser explicado pela dificuldade em caracterizar diversos eventos emblemáticos e de elevado caráter emocional a uma simples explicação ou atribuição de culpa, pois há uma justa impossibilidade de se expressar de modo a contemplar o ocorrido com as vítimas do fato e o contexto vivenciado pelos terceiros.

Há assim o surgimento do negacionismo, uma forma pelo qual autores, terceiros e as vezes até ofendidos acabam por negar e deixar o fato a fim de ser esquecido, ou não acreditar

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no ocorrido pelo elevado teor emocional e pela gravidade dos fatos. Um exemplo dado por Piralian (2000), citado por Seligmann-Silva (2010), caracteriza o fato ocorrido na Primeira Guerra Mundial contra os armênios, quando na época o Império Otomano realizou o extermínio de cerca de 1,5 milhão de pessoas, um fato que é negado atualmente pela Turquia e que é reconhecido por poucos países ainda como um genocídio. O fato da negação do ocorrido reflete na dificuldade de se admitir o erro e do peso que possui, o qual o governo turco não pretende suportar, assim como o quase esquecimento do fato pela comunidade internacional pela sua resistência de enfrentar a realidade. Corroborando a isto, há a dificuldade no testemunho armênio ao enfrentar essas questões sem um amparo consolidado, fazendo com que a culpa por não ter ajudado seus próximos e o horror do ocorrido dificulte a expressão das experiências que infelizmente vivenciaram.

O negacionismo é uma forma de apagar e de fugir do ocorrido, o que muitas vezes acontece em casos que as testemunhas não conseguem descrever explicitamente os fatos pela incredulidade do fato. Nas palavras de Seligmann-Silva (2010, p. 10) há um ponto central da explicação deste fenômeno:

Mas o negacionismo é também perverso, porque toca no sentimento de irrealidade da situação vivida. O teor de irrealidade é sabidamente característico quando se trata da percepção da memória do trauma. Mas, para o sobrevivente, esta “irrealidade” da cena encriptada desconstrói o próprio teor de realidade do restante do mundo. E mais, o negacionista parece coincidir com o sentimento comum que afirma a impossibilidade de algo tão excepcional. O apagamento dos locais e das marcas das atrocidades corresponde àquilo que no imaginário posterior também tende a se afirmar: não foi verdade.

Este ato de negar e a dificuldade de acreditar na realidade que se apresentou diante do sujeito, constitui um ponto extremamente interessante de estudo e de análise psicológica a ser observado nos casos atuais de testemunho, e que pode ser considerado na construção fática de realidade do ocorrido, no viés da cognição das testemunhas e da apuração do contexto fático.

Na consideração do testemunho como um caráter explicitamente técnico no processo, deixando para trás suas características históricas de formação e influência, chega-se no rigor definido em lei atualmente e a doutrina explicitada aqui por Capez (2016, p. 471):

Em sentido lato, toda prova é uma testemunha, uma vez que atesta a existência do fato. Já em sentido estrito, testemunha é todo homem, estranho ao feito e equidistante das partes, chamado ao processo para falar sobre fatos perceptíveis a seus sentidos e relativos ao objeto do litígio. É a pessoa idônea, diferente das partes, capaz de depor, convocada pelo juiz, por iniciativa própria ou a pedido das partes, para depor em juízo sobre fatos sabidos e concernentes à causa.

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Segundo esta classificação, Capez (2016) explica que o testemunho divide-se em algumas características que lhe são atribuídas para sua delimitação e legitimidade. Primeiro a da judicialidade, em que a prova testemunhal é apenas aquela produzida dentro do processo em juízo, outra característica formal é a da oralidade, sendo o dever de testemunhar de forma verbal para que seja da forma mais espontânea possível e que outros elementos da retórica e do comportamento sejam analisados e admitidos pelo julgador.

A objetividade também é uma característica importante, devendo a testemunha não emitir convicções e opiniões sobre o caso, exigindo apenas a manifestação do presenciado por meio dos sentidos, o que já caracteriza a imediação, que é o dever de externar o fato por meio dos seus sentidos ao captar o fato. Por fim há a individualidade que observa-se por meio do testemunho individual sem a presença de outra testemunha, e a retrospectiva, já que obviamente deve-se falar sobre o fato que observou, e não juízos presentes ou futuros da situação.

Analisando as características, observa-se o rigor exigido, sendo também este rigor utilizado na legislação para a validação das testemunhas, conduzindo um rol de exigências para ser uma testemunha e também um para a caracterização da sua suspeição. O rigor no processo expressa-se também pelo limite de testemunhas que podem ser arroladas pelas partes, e pela possibilidade de contraditar a testemunha pela sua condição pessoal de possuir alguma relação pessoal com a outra parte ou outra relação não admitida no processo, Capez (2016).

O testemunho possui uma importante separação das individualidades de cada testemunha no caso em questão, segundo os diferentes meios em que obtiveram contato com o fato e se dizem respeito ao fato principal a ser analisado ou não. Estas observações adotadas mostram a preocupação em valorar diferentemente cada testemunha e suas implicações no processo, portanto há o cuidado em se ter uma correta cautela com os fatos levantados e com as perguntas a serem oferecidas.

Todas as características explicitadas sobre o testemunho demonstram seu caráter de importância como meio de prova no processo, e a dificuldade de sua produção de uma forma idônea e que venha a condizer integralmente com a verdade do fato. Diversos pontos dificultam a produção de prova testemunhal em caráter de extrema confiabilidade e que não produza danos as testemunhas, nem que elas venham a deformar os fatos involuntariamente, mas apresenta-se como o principal meio de elucidação dos fatos em uma integridade emocional e racional que outros meios não conseguem alcançar, devido a caracterização única de humanidade presente nos atos. Com estes conhecimentos, pode-se assim adentrar no entendimento das falsas memórias e entender suas influências, como será visto no próximo capítulo.

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2. COMPREENDENDO O FENÔMENO DAS FALSAS MEMÓRIAS:

O fenômeno das falsas memórias é algo que há pouco foi levado em conta como um deturpador de memórias, sendo assim, excluindo por vezes o que era considerado apenas mentiras ou distorções propositais, que acabavam por influir em diversos campos da sociedade e que apresentava-se em áreas como a da justiça, em que podiam influir danosamente para a correta apuração dos fatos.

Os primeiros estudos aprofundados sobre falsas memórias foram realizados por Alfred Binet (1900), na França, lugar onde analisou o fenômeno ao avaliar crianças e constatar o efeito sugestivo na memorização dos fatos. O autor dividiu esse efeito em duas formas, na qual a primeira seria a autossugestão, fazendo com que o indivíduo por si só sugestione ou fique em dúvida em relação a algum ponto. A segunda forma pode ser caracterizada pela sugestão de outra fonte, como um terceiro, interferindo na interpretação e captação das informações captadas pelo sujeito.

Ao caracterizar o trabalho de Binet, há a constatação do fenômeno por ele descrito com base nos seus resultados. Conforme as palavras de Stein, et al. (2009, p. 23):

Em uma de suas pesquisas com crianças, Binet investigou os efeitos de uma entrevista nas respostas de crianças para seis objetos apresentados por dez segundos. As memórias das crianças foram acessadas comparando recordação livre, perguntas diretas, perguntas fechadas (sim ou não) ou perguntas sugestivas. Os resultados da pesquisa indicaram que as recordações livres produziram o mais alto índice de respostas corretas, enquanto as perguntas sugestivas foram responsáveis pelos mais altos índices de erros.

Outro estudioso, mas dessa vez na Alemanha, conduziu estudos semelhantes ao utilizar de imagens em que os participantes deveriam responder perguntas sobre a mesma. Assim Stern (1910), o autor do estudo, observou resultados semelhantes ao de Binet quando utilizava-se de sugestões que acabam por induzir ao erro, ajudando a consolidar os estudos anteriormente desenvolvidos.

Adentrando um pouco no século XX, há Bartlett (1932) e suas pesquisas sobre falsas memórias com adultos, que foi uma das pioneiras e que garantiu a introdução de novos pontos de vista sobre o tema. Nas palavras de Stein et al (2009, p. 24) observa-se o modo como Bartlett desenvolveu seu experimento:

No seu clássico experimento, Bartlett (1932) apresentou a um grupo de universitários ingleses uma lenda dos índios norte-americanos (“A Guerra dos Fantasmas”, do inglês

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foram solicitados a ler duas vezes o material. Em um teste de 15 minutos após a leitura da lenda ou em testes posteriores que variaram de algumas horas e dias até anos, os participantes foram solicitados a reproduzir por escrito a lenda que haviam lido anteriormente. Bartlett constatou que os alunos reconstruíram a história com base em expectativas e suposições, frutos de sua experiência de vida, adicionando à história original fatos inexistentes, mas que eram relacionados à sua própria cultura, ao invés de lembrá-la literalmente como havia sido apresentada.

Observa-se que os estudos iniciais foram extremamente importantes para introduzirem e explicarem as falsas memórias, embasando diversos aspectos que teriam de ser aprofundados. A partir das primeiras pesquisas se obtém uma compreensão inicial sobre o tema e que serviu para o melhor desenvolver de estudos do fenômeno, os quais ocorreram depois da segunda metade do século XX.

2.1. A complexidade da formação da memória: elementos biológicos e psicológicos

Ao adentrar na complexidade da compreensão sobre a memória, observa-se uma área de estudo nova e que obtém importantes avanços nos últimos anos, assim como a dificuldade em responder questões relevantes para o completo entendimento das memórias, suas características específicas e seus distúrbios.

Pode-se dividir o assunto ao considerar os fatos biológicos celulares que ocorrem com a formação e o armazenamento das memórias, e depois considerar fatores psicológicos que interferem nesta área e que possuem ligação direta com a memória como influenciadores e influenciados. Sendo estabelecida a divisão, há uma facilidade de compreensão do tema em uma escala completa, mas não elimina dificuldades inerentes a este campo de estudo, como pode-se observar ao abordar questões aparentemente intangíveis e abstratas quando o assunto se trata do cérebro.

Analisando afundo as células cerebrais, pode-se encontrar diversas maneiras para entender o funcionamento da memória, como o estudo dos princípios fundamentais para o posterior entendimento das leis específicas do ordenamento jurídico. Pode-se começar ao entender de Kandel (2009), nos três princípios que formam o entendimento da organização do cérebro, dentre as quais a doutrina do cérebro, que possui o neurônio como unidade básica, formadora e essencial do cérebro. A hipótese iônica que observa a forma de transmissão das informações dentro das células nervosas, sendo estas por meio de íons, caracterizando os sinais elétricos que ocorrem e que são mais conhecidos. E por fim a comunicação entre os neurônios, a teoria química, a qual as célula se comunica com a outra ao utilizar um sinal químico que é

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captado pela outra célula, com base em receptores com capacidade específica para o sinal utilizado, sendo este sinal chamado de neurotransmissor.

Ao caracterizar o neurônio podemos defini-lo em partes distintas, as quais possuem diferentes funções e uma importância única. Seguindo Yudofsky e Hales (2014), pode-se caracterizar por primeiro o corpo celular, que possui também a denominação de soma, parte na qual ocorre as principais atividades essências da célula e que produz as proteínas necessárias para seu correto funcionamento, assim como é o lugar de onde são projetadas as outras partes do neurônio. O axônio é umas dessas duas partes projetadas do corpo celular e que possui a função principal de transmitir informações entre as células, fazendo com que sinais elétricos percorram a sua extensão, que geralmente é maior e possui poucas ramificações comparadas aos dendritos. Já os dendritos podem ser caracterizados como a parte especializada da célula em receber informações através das sinapses, que são os espaços mínimos pelos quais sinais químicos chamados de neurotransmissores são recepcionados e interpretados pela célula receptora. As células neurais possuem um número extremamente elevado de dendritos em comparação as ligações do axônio, portanto pode-se dizer que os neurônios são melhores em receber informações do que transmitir, seriam “melhores ouvintes”.

Estas características dessas células auxiliam a entender como ocorre a interpretação das informações recebidas, assim como o modo em que são armazenadas ou compreendidas. A partir desta análise tem-se uma visão de como as células se comunicam e como as memórias acabam por criar “novos caminhos” em nosso cérebro, como explica Kandel (2009), tornando compreensível os fenômenos por ele apresentados quando informações são recordadas e necessitam percorrer o trajeto neural para o fim de ser reinterpretada.

Para compreender as memórias um fator importante conjuntamente com os citados é saber o que é memória, esta que é definida por Izquierdo (2011, p. 13) como:

“Memória” significa aquisição, formação, conservação e evocação de informações. A aquisição é também chamada de aprendizado ou aprendizagem: só se “grava” aquilo que foi aprendido. A evocação é também chamada de recordação, lembrança, recuperação. Só lembramos aquilo que gravamos, aquilo que foi aprendido.

Entende-se com esta classificação, por consequência, que somos únicos e seres individuais por meio da constituição das nossas memórias. Pode-se influir a partir dessas reflexões que cada ser é apenas um reflexo e uma consequência das memórias que possui, cada experiência vivida, memórias perdidas com o tempo, sensações que resgatam momentos, todos estes conjuntos de memórias possuem o poder de dizer quem somos e que influi nas escolhas

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que realizamos no presente e no futuro. No exemplo do simples caso e muito comum em que, é difícil para quem não recebeu amor quando criança saber transmiti-lo na idade adulta. Há de se considerar também nas capacidades motoras que influenciam nos esportes, o qual atletas depois de muito tempo depois de pararem com a atividade, ainda possuem uma “memória muscular” e parecem ter uma capacidade ainda próxima com a antiga, assim como uma destreza diferenciada em comparação com as pessoas comuns.

Uma característica interessante de observar que influi na particularização da visão de cada sujeito perante um fato, assim como explica diferentes tipos de julgamento e avaliações dos agentes do direito, é que, como Izquierdo (2011) contempla em seu estudo, nós seres humanos possuímos em grande parte um conjunto de memórias similares. Estas memórias são entendidas geralmente como as lembranças de uma casa que marcou a vida, de momentos com os pais, aniversários, grandes acontecimentos tanto bons como ruins, entre outros. Conjuntamente se inclui carências e alegrias que marcam a vida e que particularizam acontecimentos sobre um ponto de vista diferente, em que cada ser é marcado e carrega consigo uma experiência única, a qual serão traduzidas em maneiras distintas de lidar com a vida.

Ao confrontar-se com as memórias, obtêm-se o entendimento que são desenvolvidas e obtidas através de um conjunto de experiências captadas pelos nossos sentidos, estes os quais traduzem diferentes formas de percepção para o cérebro do que está ocorrendo no ambiente. Como explica Izquierdo (1989, p. 94) sobre um dos processos de formação das memórias:

1) Recebemos informações constantemente, através de nossos sentidos; mas não memorizamos todas. Por ex., depois de ver um filme, lembramos algumas cenas; pode ser, até, muitas; mas não todas. Depois de ouvir uma aula, lembramos alguns conceitos; frases inteiras, talvez; mas não todos os conceitos nem todas as frases. Há, portanto, um processo de seleção prévio à formação de memórias, que determina quais informações serão armazenadas e quais não.

Este mecanismo torna-se importante para que o cérebro selecione informações e possa armazenar apenas as que são necessárias, já que possuímos apenas uma capacidade limitada para invocar as mesmas. Consequentemente, há a renovação de conexões neurais a partir de um processo, que segundo estudiosos da área como Izquierdo (1989), é extremamente importante assim como o armazenamento, a qual é a capacidade de esquecer que será abordada posteriormente e relaciona-se com o filtro de memorização.

Com os conceitos analisados em relação a estrutura das células neurais, há a possibilidade de chegar na forma, tecnicamente física, de armazenagem e transmissão das informações no cérebro, que pode ser analisada no geral de forma simplificada. Conforme

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Yudofsky e Hales (2014) caracterizam-na como a diferenciação do axônio e dendritos e o aumento das conexões sinápticas formando-se novos caminhos e redes para as trocas de neurotransmissores e para os comandos elétricos.

Outro ponto importante em relação à memória é a maneira de consolidação das informações recebidas, a qual sofrem grande influência das emoções e dos hormônios liberados pelo indivíduo em situações específicas, conforme o descrito por Izquierdo (1989, p. 97):

As memórias adquiridas em estado de alerta e com certa carga emocional ou afetiva são melhor lembradas que as memórias de fatos inexpressivos ou adquiridas em estado de sonolência. Os estados de alerta, afetivos e emocionais se acompanham da liberação de hormônios periféricos e neurotransmissores centrais. Várias dessas substâncias afetam a memória.

Neste mesmo sentido há a exemplificação quando eventos traumáticos conseguem ser facilmente recordados pelas pessoas que o vivenciaram, como em tiroteios, atentados terroristas e acidentes que parecem marcar a vida dos observadores. No mesmo fenômeno incorre grandes alegrias ou outras lembranças carregadas de significação emocional, como presenciar um nascimento até coisas mais simples como cheiros e objetos que lembram pessoas que já morreram e suas atividades desenvolvidas.

O processo de consolidação possui também outra faceta, a maleabilidade e fragilidade que se relacionam com a formação da memória. A informação para ser armazenada de uma forma consolidada e mais duradoura em íntegra, necessita de um tempo para que os processos químicos necessários se desenvolvam. Seguindo estes conceitos, McGaugh (1988, p. 33-64, apud Izquierdo, 1989, p. 94) explica que:

As memórias não são gravadas na sua forma definitiva, e são muito mais sensíveis à facilitação ou inibição logo após sua aquisição que em qualquer outro período posterior. Uma memória recente é muito mais suscetível ao efeito facilitador de certas drogas ou ao efeito amnésico de um traumatismo craniano que uma memória antiga (McGAUGH, 1988, p. 33-64).

O estudo dessa fragilidade remonta a outro ponto, que é a suscetibilidade em incorporar informações diferentes das recebidas junto com a memória que deve ser gravada, mostrando a tamanha sensibilidade e a possibilidade de alteração da verdade real que pode ser captada pelos sentidos.

Um ponto que se destaca ao observar a incorporação de informações adicionais que Izquierdo (1984) descreve, é o fator emocional e as cargas hormonais que interferem na devida formação e consolidação da memória, estas reações possuem a capacidade de se observar o

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ocorrido de diferentes formas e intensidades. Exemplo destas situações podem ser apresentadas no caso de um acidente de trânsito, o qual uma pessoa que participa ou está muito próxima ao ocorrido caracteriza o evento com uma intensidade e um impacto diferente do real, graças as liberações de hormônios como o da adrenalina.

Adentrando-se por fim na evocação das memórias, obtêm-se um amplo campo de informações e constatações da possível “falha” na memória. Nossa memória, como referido, é um conjunto de informações, não sendo apenas um conjunto de letras e poucas cenas, mas sim frases e filmes são gravados e recordados, demonstrando a sua complexidade que pode acabar por confundir inconscientemente a exposição das mesmas ao serem recordadas. Ao analisar o estudo de Neisser (1982), chega-se a conclusões de que as memórias podem ser alteradas pela sua evocação, assim como novas experiências acabam por afetar e modificar memórias antigas, e também o contexto em que a memória é invocada pode influenciar em sua devida exposição e recapitulação.

E por fim, há a outra faceta da memória, que pode ser caracterizada como a capacidade de esquecimento, que pode ser considerada tão importante quanto a de recordar. Izquierdo (1989, p. 103), caracteriza uma de suas formas como:

Vários fatores causam esquecimento. Um, clássico, é a extinção, ou perda geralmente gradativa de uma memória por sua evocação reiterada sem reforço; ou seja, sem aquele(s) componente(s) que a fizeram marcante quando adquirida: um choque elétrico no caso de um aprendizado aversivo, comida no caso de um aprendizado alimentício, a resposta no caso de um número telefônico, o pagamento no caso de um serviço prestado. A simples passagem do tempo é outro fator no esquecimento. Influi mais, claramente, quanto pior tenha sido a gravação original: é mais fácil esquecer um número telefônico de um cinema, aprendido ontem, que um fato marcante da infância.

Pode-se compreender que o esquecimento é uma habilidade do cérebro que o possibilita de pensar e continuar adquirindo experiências e realizando tarefas. No entanto, ao adentrar no campo das provas testemunhais no Direito, esta forma adquire um escopo de um vilão que atrapalha a elucidação dos fatos, tornando necessário a correta instrução e procedimentos a fim de manter as informações vivas, para fim de preservar as provas em um processo extenso no decurso do tempo.

Depois de analisar a memória, suas características únicas e seu funcionamento, pode-se adentrar em uma classificação utilizada por pesquisadores a fim de observar e estudar separadamente cada forma que a memória apresenta. Assim, leva-se em conta diferentes classificações, como a memória de trabalho, a qual serve para ajudar a nos situar e continuar com as atividades que estão sendo desenvolvidas. Esta memória pode ser caracterizada como

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necessária para o desenvolver das atividades diárias, durando de alguns segundos e no máximo alguns minutos, assim possibilitando a realização e percepção de diversas tarefas enquanto são desenvolvidas, como explica Izquierdo (2011, p. 28) e exemplifica:

A memória de trabalho se define melhor através de exemplos. Usamos memória de trabalho, por exemplo, quando “conservamos” na consciência por alguns segundos a terceira palavra da frase anterior (que a esta altura, já esquecemos). A retenção dessa palavra só serviu para conseguir entender essa frase, seu contexto e o significado do que veio a seguir.

Ao se entender este conceito, pode-se observar que a memória de trabalho é uma característica importante a ser considerada quando há a recordação de fatos, principalmente em testemunhos e em audiências. Impacta-se assim consequentemente em diversas diligências e fatos narrados, os quais adquirem significado e eficácia temporária, podendo não vir a impactar no devido andamento processual como provas e informações com toda a intenção do qual foram produzidos e observados.

Outra classificação refere-se ao conteúdo da memória, compreendidas como declarativas e procedimentais. A memória declarativa é a que registra o conhecimento, fatos ocorridos e episódios vivenciados, assim podem ser contadas juntamente com o contexto pelo qual foram formadas, podendo apresentar diversos contextos, como quando se obteve um novo conhecimento e o contexto do ambiente em que se estava neste momento. Izquierdo (2011) além de explicar a memória declarativa, também explica a procedimental, que é descrita como referente as capacidades motoras, relativas as sensações e habilidades de cada um. Este tipo de memória apresenta-se na forma prática, sendo difícil de ser explicitada, como nadar, praticar um determinado esporte, entre outros. Portanto, juntamente há dificuldade em explicar como a adquirimos, aparecendo muitas vezes de maneira automática e assim impossibilitando comunicar como a adquiriu e conseguiu se formar para chegar no estado em que se observa. Como por exemplo ao pular, jogar futebol, andar de bicicleta e muitas vezes em tarefas rotineiras como as domésticas.

Por fim, apresenta-se talvez o caráter mais importante e prático da classificação da memória para o estudo proposto, o qual é referente ao tempo de duração das mesmas. Esta classificação apresenta uma divisão em memória de curta duração, longa duração e remota, com cada uma apresentando diferentes reflexos e completando-se uma as outras. Valendo-se dos estudos de Borges-Osório e Robinson (2013), a memória de curta duração é caracterizada como a que dura minutos ou várias horas, considerado o tempo necessário para a consolidação das

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memórias de longa duração, sendo que as duas utilizam os mesmas estruturas nervosas, mas evolvendo mecanismos diversos que as diferenciam.

Já a memória de longa duração pode ser caracterizada como a que dura dias ou até diversos anos, sendo que as implícitas podem durar por toda a vida. Essa memória também apresenta algumas peculiaridades como afirma Izquierdo, et. Al (1999, apud Izquierdo, 2011, p.40):

Nas primeiras horas após sua aquisição, são lábeis e suscetíveis à interferência por numerosos fatores, desde traumatismos cranianos ou eletrochoques convulsivos até uma variedade enorme de drogas ou, mesmo, à ocorrência de outras memórias. A exposição a um ambiente novo dentro da primeira hora após a aquisição, por exemplo, pode deturpar seriamente, ou até cancelar, a formação definitiva de uma memória de longa duração (Izquierdo et al., 1999b).

Com estas referências pode-se compreender a possibilidade de interferências e a suscetibilidade das memórias de longa duração, que podem interferir na última classificação que seria as memórias remotas. Estas memórias podem ser caracterizadas como uma especificação das memórias de longa duração, por referir-se as memórias que duram um período grande de tempo. Por serem de uma duração muito extensa e poderem reviver momentos da infância, a memória remota adquire um escopo importante para a apuração de condutas passadas traumatizantes, assim como seu estudo, por adquirir diferentes contextos que levam a sua evocação.

Contando com essas características da memória, há um panorama completo para se adentrar em pontos específicos e conceitos das falsas memórias, portanto sendo importantes para embasar um estudo qualificado do fenômeno e que possua uma constatação prática que possa ser observada no dia-a-dia, conforme será analisado e referenciado.

2.2. O que são falsas memórias?

Segundo as definições de Stein e Santos (2008, p. 415), conclui-se que “as falsas memórias são um tipo de distorção mnemônica que consistem na recuperação de eventos que nunca ocorreram”. Por base neste pensamento, pode-se observar uma descrição genérica do fenômeno, já que o mesmo apresenta diversas formas que ocasionaram a distorção da capacidade de memorização.

Com isso, se pode definir utilizando-se de uma explicação mais direta sobre as suas formas que; as falsas memórias seriam a distorção, invenção e a junção das lembranças que o

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