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Artur Mendes Pinto. Murgido. Água da Vila

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Academic year: 2021

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Artur Mendes Pinto

Murgido

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No ano de 2000 escrevi um pequenino livro sobre a história do lugar de Murgido. Procu-rei recordar usos e costumes já desapareci-dos e registar outros em vias disso, preser-vando-os desta forma, para as gerações vindouras. Por certo, muitos me falharam, uns por já os não conhecer nem ter forma de os pesquisar, outros, talvez me tenham passado sem dar por eles. De um, pelo me-nos, já eu encontrei a sua falta e porque o acho de muita importância, vou aqui deixar o seu registo.

Hoje já se não pratica, já outros são os tem-pos, e estou certo, que os jovens de Murgi-do, não sabem como em outras gerações, mesmo que ainda bem próximas, se dividia a água que regava a maior parte dos cam-pos de cultivo, digo regava, porque hoje, já pouco se cultiva e daqui por algum tempo todas as terras que em outros tempos eram cultivadas e regadas ficarão a monte e se perderão as suas tradições.

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Como em todas as Terras, todos os Luga-res, hoje pequenas ou grandes Aldeias, Vi-las ou Cidades, começaram a ser povoados pelos primeiros povos que por aí aparece-ram.

Murgido não fugiu à regra e também aí, em tempos muito remotos, terão surgido os pri-meiros habitantes. Terão construído casas ou palhotas, para se abrigarem do duro frio do inverno e do tórrido calor do verão. Terão como facilmente se pode prever, escolhido para cultivar as suas hortas nos terrenos mais propícios, mais planos e próximos de água. Mas com o aumento da população e porque o local se situa em plena serra, mui-to acidentado ter-se-ão vismui-to obrigados a preparar o terreno para o cultivo da batata, do milho, do trigo, do feijão e para a produ-ção da erva, no tempo entre as várias cultu-ras, para alimentar os seus animais, nome-adamente as vacas. Fizeram assim os seus campos, construindo muitos socalcos

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(cal-ços), para tornar o terreno mais ou menos plano, formando as leiras e com elas os campos.

E, fizeram-no nos melhores locais, onde de uma forma ou de outra, havia água para os regar, quer fosse através de pequenas pre-sas feitas junto a nascentes, minas, quer de ribeiros ou riachos onde corria água.

Um desses locais é a margem dos Riachos que vêm da Malhada Nova e dos Carva-lhais, os quais se unem em ChãodeMurgido e a partir daí formam o chamado Ribeiro do Moinho Velho, onde, dado às muitas nas-centes que tem em todo o seu percurso, desde o alto das várias encostas, corre um caudal razoável de água.

Essa água, rega toda a margem dos referi-dos riachos, até ao local denominado por Presas, local donde foi desviada do seu cur-so normal, sendo para tal construída uma levada, que conduz a água a uma outra en-costa, para regar uma grande extensão de terra de cultivo.

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O caudal da água, mesmo de regular abun-dância, não permitia que os proprietários dos terrenos regassem as suas culturas to-dos ao mesmo tempo ou quando a cada um muito bem lhe apetecesse, daí que, tiveram de dividir o tempo proporcionalmente de acordo com o tamanho do terreno de cada um, e assim fizeram.

Denominaram essa água como ÁGUA DA VILA e dividiram o dia em quatro partes, isto é, quatro quartos, os quartos em meios quartos e ainda em alguns casos em divi-sões mais pequenas, mas de menos impor-tância para aqui referir.

Os quatro quartos designaram-nos de:

Ma-nhã; Risca; Meio- Dia e Véspera, os quais

subdividiram em: Meio Quarto da Manhã;

Meio Quarto da Risca; Meio Quarto do Me-io-Dia e Meio Quarto da Véspera.

Naquele tempo não havia relógio e para tal tiveram de se regular pelo Sol, o difícil seria quando não havia sol, mas no tempo de

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re-gar as culturas que é o verão, por norma há sempre sol. Daí que, criaram as respetivas marcas, a saber:

Quartos.

Primeiro Quarto; O da Manhã, que é desde o nascer do sol até o mesmo chegar a um penedo que fica numa das encostas da ser-ra, encosta essa, que tem o nome de Costa e o penedo é conhecido por Penedo da Ris-ca.

Segundo Quarto; A Risca, que é desde que o sol atinge esse penedo até ao Meio-Dia. Terceiro Quarto; Meio Dia, que é desde que o sol atinge uma marca feita para o efeito numa pedra da casa, onde ultimamente vi-veu o Alfredo Brasileiro, casa que em ou-tros tempos pertenceu à família dos Felicita-nos.

Último Quarto; A Véspera, que é desde que a sombra atinge uma marca junto ao cami-nho e à casa que em outros tempos perten-ceu aos Felicianos, sombra essa que é

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pro-duzida por uma casa que em outros tempos pertenceu aos Vendeiros.

Os quartos eram rotativos, para que todos possam ter o último quarto, dado que é a es-te quarto que peres-tence a água duranes-te a noi-te.

Este quarto é o mais importante, por se pro-longar pela noite dentro.

Muitos dos agricultores construíram nos seus terrenos presas (poças), para apresar a água durante a noite para regarem no dia seguinte, mas outros, não tiveram essa pos-sibilidade, porque o terreno de cultivo fica ao mesmo nível da levada (rego) que conduz a água até aos seus terrenos e por isso a rega tem de ser feita durante a noite, o que se torna muito difícil, porque para além do es-curo da noite, mais eses-curo é entre o milho, o que obrigava as pessoas de algum tempo atrás a fazerem uso das chamadas lanter-nas de azeite, a única lamparina usada na-quele tempo, cuja luz era muito ténue.

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Meios Quartos.

O Meio Quarto da Manhã, que é quando o sol atinge o monte denominado por Fraga do Coelho.

O Meio Quarto da Risca, que é quando o sol atinge uma marca feita numa pedra na mar-gem do caminho, junto a uma casa, conhe-cida por casa do Tio António do Gado.

O Meio Quarto do Meio-Dia, que é quando a sombra produzida pela mesma casa que produz a sombra da véspera, atinge uma marca que se encontra junto ao caminho. O Meio Quarto da Véspera, que é quando a mesma sombra, isto é, a que marca a vés-pera, atinge uma marca numa pedra de uma casa que pertenceu aos Felicianos.

Todas estas marcas de tempo, excepto a manhã e a risca, são próximas umas das outras e à margem do mesmo caminho e não devem ter sido as primeiras, porque

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es-tas só existem desde a construção das ca-sas que as ladeiam, caca-sas que, ainda hoje se mantêm na sua forma original, o que não irá durar por muitos mais anos, pois que, novas construções ou reconstruções virão. Poucos seriam os agricultores do lugar de Murgido que, num dia ou outro da semana não tinham água da vila, os quais nos seus dias e nas suas horas tinham de ir para o lo-cal onde se marcava o tempo. Aquelas mar-cas, excepto a manhã e a risca, que não precisavam de ser vigiadas no local, no tem-po da rega eram religiosamente guardadas e junto delas se juntavam vários agriculto-res, que enquanto esperavam pela sua hora, descansavam sentados nas pedras ali exis-tentes, protegidos do sol, pelas sombras das casas e sempre cavaqueavam um pouco, convergindo sempre as suas conversas so-bre as culturas da época, nomeadamente a do milho.

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Toda a água, isto é, todos os quartos têm o seu nome próprio, talvez o nome dos agri-cultores que tinham essa água, nesse quar-to, que ainda hoje é conhecida por esses nomes: a água da Azeveda; a água dos Ma-rianos; a água dos Pandilhas; a água dos Pessoas; a água dos Pintos; a água dos Quinteiros; etc, etc.

Existe outra água que rega outros terrenos, para além dos regados pela água da vila e alguma é também dividida pelo mesmo pro-cesso, mas poucos são esses, porque os restantes, ou têm a água de nascente dentro deles, presas (poças) ou minas e se são de mais de um dono, são divididos por dias.

As pessoas quando andam na rega, têm por hábito cantar principalmente as mulheres, cantoria que se ouve a alguma distância, e canta quem cante bem ou menos bem, tal-vez, o facto de andarem escondidas entre o milho, as faça perder a timidez.

Na divisão da água deram uma atenção es-pecial ao Domingo. Diferenciaram-no dos

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dias da semana, apesar da divisão do tempo ser a mesma. Designaram um Domingo de CabodeVila e outro de CimodeVila, prova-velmente de acordo com as famílias que re-sidiam em cada um dos lados da aldeia, e assim é, ainda hoje.

Há terrenos que ao Domingo só têm água de quinze em quinze dias, no Domingo de CimodeVila ou de CabodeVila.

Não usaram a água da vila apenas para re-gar os seus campos construíram ainda vá-rios moinhos no seu percurso desde as Pre-sas até ao Chão-da-Cal, os quais são movi-dos por essa água, moinhos que, irão num curto prazo, provavelmente, deixar de funci-onar na sua totalidade, dado que alguns já se encontram parados.

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MÊS DE JULHO DO ANO DE

2005

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