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CONSELHO DE DISCIPLINA

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CONSELHO DE DISCIPLINA

SECÇÃO NÃO PROFISSIONAL

Recurso para o Pleno n.º 17 – 2020/2021

DESCRITORES: Recurso para o Pleno – Clube – Falta de apresentação de médico,

enfermeiro ou fisioterapeuta – Incapacidade temporária para o trabalho – Força probatória reforçada – Revogação

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ESPÉCIE: Recurso para o Pleno

PARTES: Santa Luzia Futebol Clube (3645), na qualidade de Recorrente DATA DO ACÓRDÃO: 29 de janeiro de 2021

TIPO DE VOTAÇÃO: Unanimidade RELATOR: Tiago Coelho Magalhães

OBJETO: Processo sumário deliberado pela Secção Não Profissional do Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol a 20.11.2020 (decisão publicada no Comunicado Oficial n.º 198 da FPF), que sancionou o clube Recorrente, Santa Luzia Futebol Clube, com sanção de multa determinada no valor de € 255,00 (duzentos e cinquenta e cinco euros), nos termos do artigo 108.º, n.º 1, do Regulamento Disciplinar da Federação Portuguesa de Futebol, por referência ao artigo 66.º, n.º 4, do Regulamento do Campeonato Nacional I e II Divisão e Sub-19 Feminino de Futsal, por factos ocorridos no jogo oficial n.º 515.01.014, entre o Lusitânia FC Lourosa e o Recorrente Santa Luzia Futebol Clube, realizado no dia 15.11.2020, a contar para o Campeonato Nacional da 1.ª Divisão Feminino de Futsal.

NORMAS APLICADAS: Artigos 15.º, 108.º e 257.º do Regulamento Disciplinar da Federação Portuguesa de Futebol e artigo 66.º, n.º 4, do Regulamento do Campeonato Nacional I e II Divisão e Sub-19 Feminino de Futsal.

SUMÁRIO:

I. Das deliberações proferidas pelos membros do Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol, em reunião restrita, cabe recurso para o Pleno nos termos previstos nos artigos 246.º, 247.º e 257.º do Regulamento Disciplinar da Federação Portuguesa de Futebol, que deve ser apresentado no prazo de 5 dias úteis contados da notificação da decisão através de requerimento devidamente fundamentado dirigido ao Presidente do Conselho de Disciplina.

III. O artigo 108.º, n.º 1, do RDFPF, estatui e prevê duas circunstâncias, autónomas e alternativas, que permitem cada uma per se o preenchimento do tipo disciplinar em causa: (i) ou o clube não indica delegado ou outro agente desportivo cuja presença seja considerada obrigatória; (ii) ou o clube não apresenta delegado ou outro agente desportivo cuja presença seja considerada obrigatória. Basta a verificação concreta de um dos dois circunstancialismos típicos assim enunciados pela estatuição da norma para se concluir pelo respetivo preenchimento.

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III. O clube que inscreva na ficha técnica de jogo oficial de competição organizada pela FPF fisioterapeuta, cuja presença seria obrigatória, o qual não comparece ao referido jogo, não pratica a infração disciplinar prevista e sancionada pelo artigo 108.º, n.º 1, do RDFPF, se o fisioterapeuta em causa, à data da realização do jogo, se encontrava temporariamente incapacitado para o exercício da sua atividade, como resulta devidamente comprovado por Certificado de Incapacidade Temporária para o Trabalho, não possuindo o clube em causa qualquer outro médico, enfermeiro ou fisioterapeuta inscrito na FFP, na mesma época desportiva, e não logrando o clube substituir o fisioterapeuta incapacitado, pese embora os esforços movidos nesse sentido.

IV. Nesse concreto circunstancialismo, outros, agindo nas mesmas condições e sob pressupostos fundamentalmente iguais àqueles que presidiram à conduta do Recorrente, teriam agido do mesmo modo que este atuou em concreto, não se podendo admitir que poderia e deveria o Recorrente agir de forma diversa, assim excluindo a sua responsabilidade disciplinar.

ACÓRDÃO

Acordam, em Plenário, ao abrigo dos artigos 216.º, n.º 1, 229.º e 257.º do Regulamento Disciplinar da Federação Portuguesa de Futebol (1), os membros do Conselho de Disciplina, Secção Não Profissional, da Federação Portuguesa de Futebol (2),

I – RELATÓRIO DE TRAMITAÇÃO PROCESSUAL

§1. Registo inicial

1. Em 27.11.2020, veio o Santa Luzia Futebol Clube (de ora em diante apenas

“Recorrente”) apresentar recurso da decisão proferida, em formação restrita, pelo CDSNP, sob

(1) Regulamento Disciplinar da Federação Portuguesa de Futebol, doravante abreviado, por mera economia de texto, por RDFPF. O texto regulamentar encontra-se disponível, na íntegra, na página oficial da Federação Portuguesa de Futebol (doravante FPF) na internet e foi publicitado pelo Comunicado Oficial n.º 460, de 13.07.2020.

(2) Adiante apenas identificado como CDSNP.

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a forma de processo sumário, no dia 20.11.2020, publicada no Comunicado Oficial da FPF n.º 198, que sancionou o Recorrente com multa determinada no valor de € 255,00 (duzentos e cinquenta e cinco euros), pela prática da infração disciplinar prevista e sancionada pelo artigo 108.º, n.º 1, do RDFPF, por referência ao artigo 66.º, n.º 4, do Regulamento do Campeonato Nacional I e II Divisão e Sub-19 Feminino de Futsal (3), por factos relativos ao jogo oficial n.º 515.01.014, disputado entre o Lusitânia FC Lourosa e o Santa Luzia Futebol Clube, a contar para o Campeonato Nacional da 1.ª Divisão Feminino de Futsal.

2.No dia 27.11.2020, o processo foi autuado, registado como Recurso para o Pleno (cf.

verso da capa) e subsequentemente, no mesmo dia, por despacho da Senhora Presidente do Conselho de Disciplina da FPF, foi distribuído a Relator (cf. fls. 1).

3.No momento da autuação, o processo foi instruído com a seguinte documentação:

a) Petição de recurso apresentada pelo Recorrente, incluindo documentos anexos, correspondentes a 2 (dois) Certificados de Incapacidade Temporária para o Trabalho referentes a Sara Cunha Silva (fls. 2 a 5);

b) Comunicado Oficial n.º 198 da FPF e extrato do respetivo mapa anexo, do qual consta o sancionamento, em processo sumário, do Santa Luzia Futebol Clube, nos termos do artigo 108.º, n.º 1, do RDFPF, por referência ao artigo 66.º, n.º 4, do Regulamento da Competição, pela “[f]alta de comparência de médico ou enfermeiro ou fisioterapeuta ou massagista”, em multa determinada no montante de € 255,00 (duzentos e cinquenta e cinco euros) (fls. 6 e 7);

c) Ficha de jogo e fichas técnicas e outros documentos anexos, referentes ao jogo oficial n.º 515.01.014 (fls. 8 a 12 e fls. 14 a 19);

d) Boletim de Jogo do Cronometrista de Futsal referente ao jogo oficial n.º 515.01.014 (fls. 13);

e) Detalhe de inscrições de clube relativo ao Santa Luzia Futebol Clube, na presente época desportiva 2020/2021 (fls. 20 e 21);

(3) Este Regulamento foi aprovado pelo Comité de emergência da Federação Portuguesa de Futebol, na sua reunião de 6 de julho de 2020, de acordo com o disposto no artigo 10.º e nas alíneas a) e c) do n.º 2 do artigo 41.º, do Decreto- Lei n.º 248-B/2008, de 31 de dezembro, na redação que lhe foi conferida pelo Decreto-Lei n.º 93/2014, de 23 de junho, e artigos 51, n.º 2, alíneas a) e b), e 53º dos Estatutos da FPF.

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f) Listagem de agentes desportivos inscritos pelo Santa Luzia Futebol Clube, junto da FPF, para a época desportiva 2020/2021 (fls. 22);

g) Detalhe de inscrição da agente desportiva Sara Cunha Silva como fisioterapeuta, inscrita pelo Santa Luzia Futebol Clube na FPF, em 29.09.2020 (fls.23 e 24);

h) Cadastro disciplinar do Santa Luzia Futebol Clube (fls. 25 e 26).

4.Os autos foram conclusos ao Relator (fls. 25) e, por Despacho de fls. 29 e 30, foi determinada a notificação do senhor árbitro principal que dirigiu o jogo dos autos, Francisco Fernandes Morais, para prestar os seguintes esclarecimentos (cfr. fls. 31 e ss.):

“a. Em momento anterior ao início do jogo oficial n.º 515.01.014, disputado entre Lusitania FC Lourosa e Santa Luzia Futebol Clube, algum elemento do Santa Luzia Futebol Clube lhe comunicou a si, ou a outro elemento da equipa de arbitragem, a ausência da fisioterapeuta inscrita na ficha de jogo por aquele clube?

b. Se sim, quem lhe comunicou essa informação (identificando a pessoa em causa com o máximo de pormenores que se recorde)?

c. Perante a ausência da fisioterapeuta, o Santa Luzia Futebol Clube disponibilizou ou indicou alguém para substituir a fisioterapeuta ausente? Se sim, quem?

d. Em face da ausência de fisioterapeuta, quem prestou assistência médica aos jogadores que integravam a equipa do Santa Luzia Futebol Clube?”

5. Cumprido o aludido Despacho nos termos expostos, o senhor árbitro principal que dirigiu o jogo dos autos, mediante mensagem de correio eletrónico de 14.01.2021, respondeu aos esclarecimentos solicitados, como consta de fls. 37.

6.Por Despacho de fls. 40 dos autos, o Recorrente foi convidado “a informar quais os procedimentos e diligências que levou a cabo no sentido de tentar substituir a fisioterapeuta incapacitada, de modo a terem presente, no jogo em causa, médico, fisioterapeuta ou massagista (nos termos regulamentares), juntando prova que suporte a realização desses procedimentos ou diligências”, tendo o Recorrente vindo alegar que “procedeu ao contacto pessoal e telefónico de dois enfermeiros e uma fisioterapeuta”, na tentativa de colmatar a

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ausência da sua fisioterapeuta inscrita, Sara Cunha Silva, substituindo-a (cfr. fls. 46 dos autos).

No entanto, acrescentou o Recorrente que “todos eles se mostraram indisponíveis para prestar esse serviço por motivos de ordem profissional, nomeadamente a sobrecarga de trabalho no exercício das suas funções profissionais resultado da pandemia”, pelo que sugeria a sua inquirição no âmbito dos presentes autos (cfr. fls. 46).

7.Por Despacho de fls. 49, foi determinado que a inquirição das testemunhas ficaria dependente da remessa aos autos de “documento idóneo que comprove as habilitações / profissão de cada uma das testemunhas”. Uma vez munidos os autos dos referidos documentos, procedeu-se à inquirição das testemunhas Rosinda Marinho Pereira da Costa, enfermeira (cfr.

auto de inquirição a fls. 73 e suporte digital a fls. 74), e Paulo José Soares Teixeira, enfermeiro (cfr. auto de inquirição a fls. 76 e suporte digital a fls. 77).

8.Os autos foram novamente conclusos ao Relator, entendendo-se que os mesmos apresentam, neste momento, elementos suficientes à decisão da causa e à apreciação da pretensão recursiva do Recorrente.

§2. Da pretensão do Recorrente

9.Na petição recursiva apresentada, o Recorrente sustenta, nos seus traços essenciais, que a fisioterapeuta Sara Cunha Silva, inscrita na ficha de jogo referente ao jogo oficial n.º 515.01.014, não compareceu ao referido jogo, “por motivo de doença, como comprova baixa médica”.

10.A petição recursiva vem acompanhada de 2 (dois) documentos. O primeiro documento corresponde a Certificado de Incapacidade Temporária para o Trabalho referente a Sara Cunha Silva, preenchido e assinado em 05.11.2020, pela Dra. Carlota Saraiva, na qualidade de médica, determinando a incapacidade temporária para a atividade profissional de Sara Cunha Silva pelo período entre 28.10.2020 e 29.10.2020, por motivo de “Doença natural”. O Certificado em causa determinava ainda que “[o] doente só pode ausentar-se do domicílio para tratamento”

(fls. 2). O segundo documento corresponde igualmente a Certificado de Incapacidade Temporária para o Trabalho referente também a Sara Cunha Silva e preenchido e assinado, em 09.11.2020, pela Dra. Carlota Saraiva, na qualidade de médica, determinando a prorrogação do

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período de incapacidade para a atividade profissional de Sara Cunha Silva pelo período entre 30.10.2020 e 15.11.2020, uma vez mais por motivo “Doença natural”, reiterando que “[o]

doente só pode ausentar-se do domicílio para tratamento” (fls. 3).

11. Em sede de esclarecimentos adicionais prestados aos autos, a Recorrente alegou ainda que envidou esforços no sentido de procurar substituir a sua fisioterapeuta inscrita, que não poderia comparecer ao jogo, mas que não havia sido possível encontrar substituto, uma vez que as pessoas abordadas se encontravam impedidas de comparecer ao jogo por motivos profissionais, sobretudo em face das exigências decorrentes da pandemia relativamente aos profissionais de saúde.

12. Por tudo isto, vem o Recorrente peticionar que seja considerada “sem efeito a multa aplicada, bem como ser arquivado o processo que lhe deu origem” (fls. 1).

II – QUESTÕES PRÉVIAS

§1. Da tempestividade do recurso

13.Antes de prosseguir, cumpre aferir da tempestividade do recurso interposto. Nos termos do disposto no artigo 257.º, n.ºs 1 e 2, do RDFPF, “[a]s decisões proferidas [...] pelos membros da Secção Não Profissional do Conselho de Disciplina da FPF, em reunião restrita, podem ser objeto de recurso para a reunião do pleno”, a apresentar “no prazo de 5 dias úteis contados da notificação da decisão através de requerimento devidamente fundamentado dirigido ao Presidente do Conselho de Disciplina”. No que ao caso vertente concerne, mister é notar que as deliberações do CDSNP tomadas em sede de processo sumário são notificadas através de “publicação de mapa no sítio da internet oficial da FPF” (cf. artigo 225.º, n.º 2, do RDFPF) e que se presumem realizadas “no segundo dia posterior ao da publicação”, ou, quando esse dia não seja útil, “no primeiro dia útil seguinte” (cf. artigo 225.º, n.º 10, do RDFPF).

14. No presente caso, a decisão recorrida constou expressamente do Comunicado Oficial da FPF n.º 198, datado de 20.11.2020, que foi publicado no sítio da FPF na internet no mesmo dia. O primeiro dia útil seguinte a essa publicação foi o dia 23.11.2020, segunda-feira,

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pelo que, atenta a presunção vertida no citado artigo 225.º, n.º 10, do RDFPF, se tem a mencionada decisão por notificada ao Recorrente nesse dia. Nessa medida, a decisão em apreço era suscetível de impugnação através de Recurso para o Pleno até ao dia 30.11.2020 (quinto dia útil posterior ao da notificação da decisão recorrida).

15. Neste contexto, torna-se forçoso concluir que o impulso recursivo promovido pelo Recorrente foi inequivocamente tempestivo, porquanto deu entrada, conforme resulta dos autos, em particular de fls. 2 e 3, dentro do prazo, mais concretamente mediante remessa da petição recursiva, acompanhada de documentos, através de correio eletrónico, no dia 27.11.2020, pelas 08:24 horas, à Secretaria da Associação de Futebol de Viana do Castelo, que, no mesmo dia 27.11.2020, pelas 09:41 horas, remeteu a referida petição recursiva ao CDFPF (data em que, à luz do que dispõe o artigo 227.º, n.º 3, do RDFPF, se considera praticado o ato).

16.Tendo o Recorrente, na qualidade de visado pela decisão recorrida, que o sancionou diretamente no pagamento de multa fixada no valor de € 255,00 (duzentos e cinquenta e cinco euros), legitimidade para a interposição do presente Recurso, inexistem outras questões que obstem ao conhecimento da causa, cujo conhecimento ou exame prévio se imponha, sendo os elementos constantes dos autos suficientes para tomar conhecimento do objeto do recurso.

III – COMPETÊNCIA DO CONSELHO DE DISCIPLINA

17.De acordo com o artigo 43.º, n.º 1 do RJFD2008 (4), compete a este Conselho, de acordo com a lei e com os regulamentos e sem prejuízo de outras competências atribuídas pelos estatutos e das competências da liga profissional, instaurar e arquivar procedimentos disciplinares e, colegialmente, apreciar e punir as infrações disciplinares em matéria desportiva.

No mesmo sentido, dispõe o artigo 15.º do Regimento deste Conselho (5).

(4) Aprovado pelo Decreto-Lei n.º 248-B/2008, de 31 de dezembro (regime jurídico das federações desportivas e do estatuto de utilidade pública desportiva) e alterado pelo artigo 4.º, alínea c), da Lei n.º 74/2013, de 6 de setembro (cria o Tribunal Arbitral do Desporto e aprova a respetiva lei) e ainda pelos artigos 2.º e 4.º do Decreto-Lei n.º 93/2014, de 23 de junho, cujo texto consolidado constitui anexo a este último.

(5) Disponível, na íntegra, na página oficial da FPF na internet.

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18. Além disso, à luz do que determina o artigo 257.º, n.º 1, do RDFPF, o Pleno do CDSNP tem ainda competência para apreciar e decidir os recursos interpostos de decisões aplicadas em processo sumário, pela sua formação colegial restrita.

IV – ÂMBITO DO RECURSO

19.Aqui chegados, antes de adicionais indagações e tomando como referente a petição recursiva, importa circunscrever o thema decidendum, ou seja, o âmbito do Recurso em apreço.

20.Resulta de fls. 2 e 3 que o Recorrente não fez acompanhar a sua petição recursiva da formulação de conclusões (que sempre auxiliariam na definição e delimitação do âmbito do Recurso em apreço). Porém, tal formalidade processual não é, em rigor, exigida pelo RDFPF, pois aquele normativo disciplinar obriga apenas à apresentação de requerimento devidamente fundamentado — pelo que, decorrente de tal omissão, não se afigura legítimo retirar quaisquer consequências desfavoráveis para o Recorrente.

21. Assim, procedendo-se à fixação do objeto do recurso, constata-se que a questão — única, aliás — que o Recorrente pretende ver reapreciada e decidida consiste em saber se o mesmo praticou efetivamente a infração por que vem condenado, nos termos do artigo 108.º, n.º 1, do RDFPF, por referência ao artigo 66.º, n.º 4, do Regulamento do Campeonato Nacional I e II Divisão e Sub-19 Feminino de Futsal, ou, no limite, se atuou sem culpa, quando a fisioterapeuta Sara Cunha Silva, que foi inscrita pelo Recorrente nas fichas técnicas do jogo n.º 515.01.014, não compareceu ao respetivo jogo, por se encontrar, à data, em situação de “baixa médica”, por motivo de “Doença natural” (como atestam os Certificados de Incapacidade Temporária para o Trabalho preenchidos e assinados pelo Dra. Carlota Saraiva, na qualidade de médica, respetivamente em 05.11.2020 e 09.11.2020, e referentes a Sara Cunha Silva, que constam de fls. 4 e 5), e ainda tendo em conta que o Recorrente procurou, embora sem sucesso, substituir a fisioterapeuta ausente, contactando profissionais de saúde que pudessem estar presentes no jogo dos autos.

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V – FUNDAMENTAÇÃO DE FACTO

22.Perante a argumentação aduzida em sede de petição recursiva importa, antes de mais, aferir da materialidade que a prova constante dos autos demonstra para, ulteriormente, considerar o pedido deduzido pelo Recorrente.

§1. A prova no direito disciplinar desportivo

23.Em sede de direito disciplinar desportivo, atenta a particular natureza sancionatória do respetivo processo, tem plena validade a convocação — em sede de exame crítico da prova

— do princípio geral da livre apreciação da prova, consagrado no artigo 127.º do Código de Processo Penal, de acordo com o qual, “[s]alvo quando a lei dispuser diferentemente, a prova é apreciada segundo as regras da experiência e a livre convicção da entidade competente”. O RDFPF prevê expressamente este princípio no n.º 2 do artigo 220.º, onde estatui que, “[s]alvo quando o Regulamento dispuser diferentemente, a prova é apreciada segundo as regras da experiência e a livre convicção dos órgãos disciplinares”.

24. Todavia, no âmbito disciplinar desportivo, a concreta conformação do mencionado princípio vê-se condicionada pelo valor especial e reforçado que os relatórios oficiais e declarações complementares das equipas de arbitragem e dos delegados da FPF merecem em tal contexto. Com efeito, o RDFPF — numa aproximação à previsão constante do artigo 169.º do Código de Processo Penal — dispõe, no n.º 3 do artigo 220.º, que os factos presenciados pelas equipas de arbitragem e pelos delegados da FPF, no exercício de funções, constantes de relatórios de jogo e de declarações complementares, se presumem verdadeiros, enquanto a sua veracidade não for ”fundadamente” posta em causa (6).

(6) O valor probatório qualificado a que o RDFPF alude constitui um mecanismo regulamentar compreendido e justificado pelo cometimento de funções particularmente importantes aos árbitros e delegados da FPF, a quem compete representar a instituição no âmbito dos jogos oficiais, cumprindo e zelando pelo cumprimento dos regulamentos, nomeadamente em matéria disciplinar (ainda que isso possa não corresponder aos interesses egoísticos dos clubes). Na verdade, encontramo-nos, nesta sede, no domínio do exercício de poderes de natureza pública – in casu, disciplinares –, que se sobrepõem aos interesses particulares dos clubes. No quadro competitivo, enquanto os clubes concretizam interesses próprios, compete a quem tem o poder e o dever de organizar a prova e fazer cumprir os regulamentos prosseguir um interesse superior ao interesse próprio de cada um dos clubes que a integram. Neste conspecto, o interesse superior da competição, realizado no âmbito de determinados poderes de natureza pública (que são exercidos em representação da própria FPF), justifica perfeitamente que os relatórios dos árbitros e dos delegados e respetivas declarações complementares – vinculados que estão a deveres de isenção e equidistância – gozem da aludida presunção de veracidade (presunção juris tantum). Trata-se, afinal, da consequência

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25. Destarte, a credibilidade probatória reforçada de que gozam tais relatórios oficiais só sairá abalada quando, perante a prova produzida, existirem fundadas razões para acreditar que o seu conteúdo não é verdadeiro. Para além disso, e em segundo lugar, no que tange à atividade decisória, a força probatória reforçada de que tais relatórios beneficiam impõe ao julgador, quando entenda impor-se o afastamento da presunção de veracidade, um “especial dever de fundamentação” (7).

26.Em todo o caso, importa ainda tomar em linha de conta que, à semelhança do que sucede no processo penal, são, neste contexto e à luz do que determina o n.º 1 do artigo 220.º do RDFPF, “admissíveis as provas que não forem proibidas por lei [...], podendo os interessados apresentá-las diretamente ou requerer que sejam produzidas quando forem de interesse para a justiça da decisão”.

§2. Factos provados

27. Analisada e valorada a prova produzida nos autos, com relevância para a decisão da causa, consideram-se provados os seguintes factos:

1) O Recorrente Santa Luzia Futebol Clube disputa, na época desportiva 2020/2021, entre outros, o Campeonato Nacional da 1.ª Divisão Feminino de Futsal, competição organizada pela FPF.

2) A agente desportiva Sara Cunha Silva encontra-se inscrita na FPF, na presente época desportiva 2020/2021, como fisioterapeuta do Recorrente Santa Luzia Futebol Clube para o Campeonato Nacional da 1.ª Divisão Feminino de Futsal.

3) De entre a lista de agentes desportivos inscritos pelo Recorrente, na corrente época desportiva 2020/2021, na FPF, não consta a inscrição de qualquer médico ou enfermeiro ou fisioterapeuta, além da agente desportiva Sara Cunha Silva.

necessária e justificada do exercício, no quadro do jogo, da autoridade necessária para assegurar a ordem, a disciplina e o cumprimento dos regulamentos, distanciando-se das disputas que envolvem os participantes nas provas.

(7) Convocando o pensamento de PAULO PINTO DE ALBUQUERQUE, “A limitação do julgador consiste em que ele deve

’fundadamente’ pôr em causa a autenticidade ou veracidade do documento”, in Comentário ao Código de Processo Penal, 2.ª Edição, Universidade Católica Editora, 2008, pág. 452.

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4) No dia 15.11.2020, no Pavilhão EB 2/3 Lourosa, pelas 10:30 horas, realizou-se o jogo oficial nº 515.01.014, disputado entre o Lusitânia FC Lourosa (833) e o Santa Luzia Futebol Clube (3645), a contar para o Campeonato Nacional da 1.ª Divisão Feminino de Futsal, época desportiva 2020/2021, cujo resultado final foi 0-11.

5) Esse jogo foi dirigido pela equipa de arbitragem composta por Francisco Fernandes Morais, na qualidade de árbitro, Fábio José Nunes Jesus, na qualidade de 2.º árbitro, e David Howard Capristano Furtado Júnior, na qualidade de cronometrista.

6) Nas fichas técnicas que entregou à equipa de arbitragem, antes do início do jogo, o Santa Luzia Futebol Clube inscreveu a agente desportiva Sara Cunha Silva como sua fisioterapeuta para o jogo n.º 515.01.014.

7) A fisioterapeuta inscrita na ficha técnica, Sara Cunha Silva, não compareceu ao jogo.

8) Atenta a ausência de comparência ao jogo da fisioterapeuta Sara Cunha Silva, o Santa Luzia Futebol Clube não apresentou, nesse jogo, qualquer médico, enfermeiro ou fisioterapeuta, pois não tem qualquer outro médico, enfermeiro ou fisioterapeuta inscrito, na FPF, na época desportiva 2020/2021.

9) No período compreendido entre 28.10.2020 e 29.10.2020, a agente desportiva Sara Cunha Silva encontrava-se temporariamente incapacitada para a sua atividade profissional, por motivo de “doença natural”, como atesta Certificado de Incapacidade Temporária para o Trabalho elaborado e assinado, em 05.11.2020, pela Dra. Carlota Saraiva, na qualidade de médica portadora da Cédula Profissional n.º 57919, não podendo Sara Cunha Silva, nesse período, ausentar-se do domicílio, salvo para receber tratamento médico.

10) No período compreendido entre 30.10.2020 e 15.11.2020, a agente desportiva Sara Cunha Silva ainda se encontrava temporariamente incapacitada para a sua atividade profissional, por motivo de “doença natural”, como atesta Certificado de Incapacidade Temporária para o Trabalho elaborado e assinado, em 09.11.2020, pela Dra. Carlota Saraiva, na qualidade de médica portadora da Cédula Profissional n.º 57919, não podendo Sara Cunha Silva, nesse período, ausentar-se do domicílio, salvo para receber tratamento médico.

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11) No dia da realização do jogo dos autos, 15.11.2020, a agente desportiva Sara Cunha Silva ainda se encontrava incapacitada temporariamente para a sua atividade profissional.

12) Em momento anterior à realização do jogo dos autos, Luís Rodrigues, dirigente desportivo do Recorrente, contactou telefonicamente os enfermeiros Rosinda Marinho Pereira da Costa e Paulo José Soares Teixeira, no sentido de indagar a sua disponibilidade para comparecerem ao jogo dos autos, em substituição da fisioterapeuta inscrita Sara Cunha Silva.

13) Os enfermeiros Rosinda Marinho Pereira da Costa e Paulo José Soares Teixeira não tinham disponibilidade para comparecer no jogo dos autos, em virtude do pré- agendamento de outros compromissos profissionais, pelo que não puderam aceder à solicitação dirigida pelo Recorrente.

14) O dirigente desportivo Luís Rodrigues perguntou à enfermeira Rosinda Marinho Pereira da Costa se poderia indicar outra pessoa que pudesse estar presente no jogo dos autos, porém a enfermeira em causa não conseguiu indicar outro colega, devido aos diversos compromissos da sua classe profissional em face das contingências associadas à pandemia Covid-19.

15) Em consequência da falta de comparência de médico, enfermeiro ou fisioterapeuta do Santa Luzia Futebol Clube, no jogo dos autos, o Recorrente foi sancionado, nos termos do disposto no artigo 108.º, nº 1, do RDFPF, por referência ao artigo 66.º, n.º 4, do Regulamento do Campeonato Nacional I e II Divisão e Sub-19 Feminino de Futsal, com a sanção de multa determinada no valor de € 255,00 (duzentos e cinquenta e cinco euros), tendo essa sanção disciplinar sido publicada e divulgada no Comunicado Oficial da FPF nº 198, de 20.11.2020.

§3. Factos não provados

28. Analisada e valorada a prova produzida nos autos, inexistem factos não provados que se pudessem afigurar relevantes para a decisão a ser proferida a final, nos presentes autos.

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§4. Motivação

29.A factualidade julgada provada resulta da análise e valoração, isolada e conjuntamente, dos elementos probatórios juntos ao processo, à luz das regras da experiência comum. Concretizando:

a) O facto julgado provado 1) decorre da ficha de jogo e fichas técnicas, a fls. 8 e ss., bem como do detalhe de inscrição do Recorrente, como clube, na época desportiva 2020/2021, a fls. 20 e 21;

b) O facto julgado provado 2) resulta do conteúdo da ficha de jogo e fichas técnicas de fls. 8 e ss., assim como de detalhe de inscrição da agente desportiva Sara Cunha Silva, na qualidade de fisioterapeuta do Recorrente para o Campeonato Nacional da 1.ª Divisão Feminino de Futsal, na época desportiva de 2020/2021, a fls. 23 e 24, e ainda da lista de agentes desportivos inscritos pelo Recorrente na FPF, na corrente época desportiva, como resulta de fls. 22 dos autos;

c) O facto julgado provado 3) resulta da informação constante da lista de agentes desportivos inscritos pelo Recorrente, na época desportiva 2020/2021, a fls. 22;

d) Os factos provados 4), 5), 6), 7) e 8) resultam da análise e valoração da ficha de jogo e fichas técnicas de fls. 8 e ss., bem como de detalhe de inscrição da agente desportiva Sara Cunha Silva, na qualidade de fisioterapeuta do Recorrente para o Campeonato Nacional da 1.ª Divisão Feminino de Futsal, na época desportiva 2020/2021, a fls. 23 e 24, e ainda da informação constante da lista de agentes desportivos inscritos pelo Recorrente, na época desportiva 2020/2021, a fls. 22 dos autos;

e) O facto julgado provado 9) decorre do Certificado de Incapacidade Temporária para o Trabalho referente a Sara Cunha Silva, preenchido e assinado em 05.11.2020, pela Dra. Carlota Saraiva, na qualidade de médica portadora da Cédula Profissional n.º 57919, que determinava a incapacidade para a atividade profissional de Sara Cunha Silva pelo período compreendido entre 28.10.2020 e 29.10.2020, por motivo de

“Doença natural” (cf. fls. 4);

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f) O factos julgados provados 10) e 11) resultam do Certificado de Incapacidade Temporária para o Trabalho referente a Sara Cunha Silva, preenchido e assinado em 09.11.2020, pela Dra. Carlota Saraiva, na qualidade de médica portadora da Cédula Profissional n.º 57919, que determinava a incapacidade para a atividade profissional de Sara Cunha Silva pelo período compreendido entre 30.10.2020 e 15.11.2020, por motivo de “Doença natural” (cf. fls. 5);

g) Os factos julgados provados 12), 13) e 14) decorrem essencialmente dos depoimentos prestados pelas testemunhas Rosinda Marinho Pereira da Costa e Paulo José Soares Teixeira, ambos enfermeiros (cfr. respetivos autos de inquirições e suportes digitais de gravação de inquirição a fls. 73 e 74 e a fls. 76 e 77, respetivamente, bem como as suas Cédulas Profissionais da Ordem dos Enfermeiros, a fls. 56 e 58 – sendo a testemunha Rosinda Marinho Pereira da Costa enfermeira na Unidade Local de Saúde do Alto Minho, em Viana do Castelo, ao passo que Paulo José Soares Teixeira é enfermeiro em Hospital de Viana do Castelo). Os depoimentos das referidas testemunhas revelaram-se credíveis, coerentes, suficientemente claros na sua exposição, não existindo qualquer motivo que diminua ou abale a sua credibilidade, uma vez que ambas as testemunhas afirmaram não possuir qualquer ligação ao Recorrente, não integrando a sua estrutura. As testemunhas confirmaram que foram contactadas por Luís Rodrigues, dirigente desportivo do Recorrente, no sentido de indagar sobre a disponibilidade daqueles para estarem presentes no jogo dos autos, em substituição da fisioterapeuta Sara Cunha Silva. Ambas as testemunhas recusaram o convite, devido a impossibilidade de agenda, por força de outros compromissos profissionais (“Foi exatamente o Luís Rodrigues, que eu nem sei exatamente qual é o cargo no clube, não é?, que me contactou e me perguntou se eu estava disponível para colaborar com o clube, sendo que, atendendo ao contexto em que estamos, tive de dizer imediatamente que não” – citamos, aqui, excerto das declarações prestadas pela testemunha Rosinda Marinho Pereira da Costa. “Fui contacto por um diretor […], Luís Rodrigues”; “Fui contactado por esse diretor na eventualidade de poder participar num jogo devido a que o fisioterapeuta do clube, o Santa Luzia, provavelmente estaria infetado com Covid-19”; “Eu respondi perentoriamente logo que não era de todo possível. Eu trabalho na Unidade de Cuidados Intensivos e como estamos com uma sobrecarga de trabalho enorme,

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portanto, eu informei logo, textualmente, que não poderia desenvolver essa função”

– citamos passagens das declarações prestadas pela testemunha Paulo José Soares Teixeira). A testemunha Rosinda Marinho Pereira da Costa, não obstante nunca ter prestado serviços para o Recorrente, admitiu ter sido convidada anteriormente em outras ocasiões, porém “nunca se proporcionou”. Esta testemunha confirmou inclusive que o dirigente desportivo do Recorrente que a contactara lhe pediu a indicação de outros colegas de profissão da testemunha que pudessem eventualmente estar disponíveis para comparecer no jogo dos autos. Porém, a testemunha foi incapaz de indicar nomes alternativos, dada a ocupação dos seus colegas de profissão, no contexto da pandemia Covid-19 (“na altura, nem sabia outra pessoa para indicar”; “estávamos completamente assoberbados, como estamos agora, não é? De trabalho e… era completamente impossível aceitar, por muito que gostasse”; “está toda a gente que eu conheço, estava toda a gente ocupadíssima” – citando o depoimento da testemunha Rosinda Marinho Pereira da Costa).

h) O facto julgado provado 15) resulta do próprio teor do Comunicado Oficial da FPF n.º 198, de 20.11.2020, acompanhado de extrato do respetivo mapa anexo, a fls. 6 e 7 dos presentes autos;

30. Em suma, a convicção que subjaz à decisão ora proferida relativamente à matéria de facto assenta sobretudo no teor e conteúdo dos Certificados de Incapacidade Temporária para o Trabalho, que constam de fls. 4 e 5 dos autos, nos quais a Dra. Carlota Saraiva, na qualidade de médica titular da Cédula Profissional n.º 57919, atestou a incapacidade para a atividade profissional da agente desportiva Sara Cunha Silva, por motivo de “Doença natural”, inicialmente pelo período compreendido entre 28.10.2020 e 29.10.2020 (como decorre do primeiro Certificado, a fls. 4) e, mais tarde, renovado pelo período entre 30.10.2020 e 15.11.2020 (como se atesta a partir do segundo Certificado que consta dos autos a fls. 5). Ambos os Certificados dispunham expressamente que o doente, in casu a agente desportiva Sara Cunha Silva, apenas se poderia ausentar do seu domicílio para receber tratamento médico. Daí que, à data da realização do jogo n.º 515.01.014, em 15.11.2020, a fisioterapeuta inscrita não poderia comparecer no referido jogo, por se encontrar temporariamente incapacitada para o exercício da sua atividade profissional, na qual se compreende também o exercício das funções próprias de fisioterapeuta no quadro de uma competição desportiva organizada pela FPF. Além disso,

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importa não descurar a relevante circunstância de o Recorrente apenas ter inscrito, na corrente época desportiva 2020/2021, um único fisioterapeuta para o Campeonato Nacional da 1.ª Divisão Feminino de Futsal, não inscrevendo sequer um médico ou um enfermeiro (cf. fls. 22 dos autos). Além disso, o Recorrente ainda contactou pelo menos dois enfermeiros, com o intuito de indagar a sua disponibilidade para substituir a sua fisioterapeuta ausente, Sara Cunha Silva. Contudo, devido a outros compromissos profissionais, ambos os enfermeiros contactados não se encontravam disponíveis para comparecer no jogo dos autos.

31.Cumpre também notar que, entre a primeira data a partir da qual, de acordo com os Certificados de fls. 4 e 5 dos autos, a agente desportiva Sara Cunha Silva se encontrava temporariamente incapacitada para a sua atividade profissional e o dia em que se realizou o jogo dos autos, apenas teve lugar uma jornada do Campeonato Nacional da 1.ª Divisão Feminino de Futsal, uma vez que, em face do Comunicado Oficial n.º 178 da FPF, datado de 30.10.2020, nos termos do qual, em face da Resolução do Conselho de Ministros n.º 89-A/2020, “os jogos agendados nas datas acima mencionadas [entre as 00h00 de 30 de outubro e as 06h00 de dia 3 de novembro de 2020] não se irão realizar e serão indicadas novas datas oportunamente”.

Assim, na única jornada que teve lugar entre o início da incapacidade temporária da agente desportiva Sara Cunha Silva e o jogo dos autos, o Recorrente foi sancionado, em sede processo sumário, pela ausência da fisioterapeuta inscrita, como decorre do Comunicado Oficial da FPF n.º 189, de 13.11.2020. Contudo, o Recorrente interpôs recurso para o pleno, que foi autuado e tramitado como Recurso para o Pleno n.º 11 – 2020/2021, no âmbito do qual esse sancionamento em sede de processo sumário foi revogado, como se pode constatar a partir da leitura e análise do Acórdão aí prolatado pelo CDSNP, que se encontra livremente acessível (8), e cuja posição se recupera infra.

VI – FUNDAMENTAÇÃO DE DIREITO

§1. Enquadramento jurídico-disciplinar – Fundamentos e âmbito do poder disciplinar

(8) O Acórdão que decidiu o Recurso para o Pleno n.º 11 – 2020/2021, publicado na página da internet da FPF em 04.12.2020, encontra-se livremente acessível em:

https://www.fpf.pt/Institucional/Disciplina/Sec%C3%A7%C3%A3o-N%C3%A3o- Profissional/Ac%C3%B3rd%C3%A3os.

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32. O poder disciplinar exercido no âmbito das competições organizadas pela Federação Portuguesa de Futebol assume natureza pública. Com clareza, concorrem para esta proposição as normas constantes dos artigos 19.º, n.ºs 1 e 2, da Lei n.º 5/2007, de 16 de janeiro (Lei de Bases da Atividade Física e do Desporto), e dos artigos 10.º e 13.º, alínea i), do RJFD2008.

33. A existência de um poder disciplinar justifica-se pelo dever legal — artigo 52.º, n.º 1 do RJFD2008 — de sancionar a violação das regras de jogo ou da competição, bem como as demais regras desportivas, nomeadamente as relativas à ética desportiva, entendendo-se por estas últimas as que visam sancionar a violência, a dopagem, a corrupção, o racismo e a xenofobia, bem como quaisquer outras manifestações de perversão do fenómeno desportivo (artigo 52.º, n.º 2 do RJFD2008).

34.O poder disciplinar exerce-se sobre os clubes, dirigentes, praticantes, treinadores, técnicos, árbitros, juízes e, em geral, sobre todos os agentes desportivos que desenvolvam a atividade desportiva compreendida no seu objeto estatutário (artigo 54.º, n.º 1, do RJFD2008).

Em conformidade com o artigo 55.º do RJFD2008, o regime da responsabilidade disciplinar é independente da responsabilidade civil ou penal.

35.O quadro normativo agora sumariado alumia estarmos na presença de um poder disciplinar que se impõe, em nome dos valores mencionados, a todos os que se encontram a ele sujeitos, no âmbito já delineado e que, por essa razão, assenta na prossecução de finalidades que estão bem para além dos pontuais e concretos interesses desses agentes e organizações desportivas.

§2. Das infrações disciplinares em geral

36. O RDFPF encontra-se estruturado, na previsão das infrações disciplinares, pela qualidade do agente infrator — clubes, dirigentes, jogadores, delegados dos clubes e treinadores, demais agentes desportivos, espectadores, árbitros, árbitros assistentes, observadores de árbitros e delegados da FPF. Para cada um destes tipos de agente o RDFPF recorta tais infrações e respetivas sanções em obediência ao grau de gravidade dos ilícitos, qualificando assim as infrações como muito graves, graves e leves.

§3. O caso concreto: subsunção ao direito aplicável

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37. Determina o artigo 15.º, n.º 1, do RDFPF, o seguinte: “[c]onstitui infração disciplinar o facto voluntário, ainda que meramente culposo, que por ação ou omissão previstas ou descritas neste Regulamento viole os deveres gerais e especiais nele previstos e na demais legislação desportiva aplicável”.

38. No caso em apreço, vem o Recorrente sancionado, em sede de processo sumário, mediante decisão adotada por formação restrita do CDSNP, pela prática da infração prevista e sancionada pelo artigo 108.º, n.º 1, do RDFPF, pelo que é mister analisar o tipo infracional em causa, consagrado na referida norma disciplinar, de modo a aferir do eventual preenchimento, mediante a conduta imputa ao Recorrente, dos elementos constitutivos (objetivos e subjetivos) da referida infração – considerando, desde logo, que a sujeição do Recorrente ao exercício do poder disciplinar da FPF não suscita quaisquer dúvidas, atento o disposto nos artigos 3.º, n.º 1, e 4.º, alínea d), ambos do RDFPF.

39. O mencionado artigo 108.º, n.º 1, do RDFPF dispõe o seguinte: “O clube que não indique ou não apresente delegado a jogo oficial ou outro agente desportivo, cuja presença seja considerada obrigatória segundo o regulamento da respetiva competição, é sancionado com multa entre 15 e 30 UC, sem prejuízo do disposto no regulamento da competição concretamente aplicável relativamente às habilitações mínimas dos treinadores”.

40. A infração disciplinar em causa convoca o disposto no artigo 66.º, n.º 4, do Regulamento da respetiva competição e para a época desportiva 2020/2021, in casu o Campeonato Nacional I e II Divisão e Sub-19 Feminino de Futsal, no qual se estatui o seguinte:

“É obrigatória a presença de um delegado ao jogo e de um treinador principal e um médico ou enfermeiro ou fisioterapeuta ou, nos jogos do Campeonato Feminino Sub-19 de Futsal, que algum dos elementos constantes da ficha técnica que não as jogadoras, tenha certificação SBV- DAE e o respetivo equipamento” (9).

41.Importa tecer algumas considerações relevantes a propósito do agora citado artigo 66.º, n.º 4, do Regulamento da competição em causa nos autos, atenta a sua relevância para a decisão a ser proferida (10). Essa norma regulamentar, atento o respetivo elemento literal, é

(9) Certificação SBV-DAE corresponde a curso de suporte básico de vida e desfibrilhação automática externa.

(10) Recuperamos, aqui, o entendimento anteriormente sufragado no Acórdão proferido pelo CDSNP no Recurso para o Pleno n.º 11 – 2020/2021, anteriormente mencionado.

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clara na utilização distinta da conjunção copulativa “e” e da conjunção disjuntiva “ou”. Assim, a norma em causa impõe a presença obrigatória e cumulativa, no banco de suplentes, de (i) um delegado ao jogo, bem como de (ii) um treinador principal e ainda de (iii) um de três possíveis elementos: médico, enfermeiro ou fisioterapeuta (ou, em jogos disputados no âmbito do Campeonato Feminino Sub-19 de Futsal, que não é o caso dos autos, de um dos elementos constantes da ficha técnica, excetuando jogadoras, que possua Certificação SBV-DAE e respetivo equipamento). Daí que a norma regulamentar em causa imponha, por isso, a presença obrigatória e simultânea de três agentes desportivos distintos, cada qual com funções próprias no decurso do jogo. Donde, o médico ou enfermeiro ou fisioterapeuta deverá ser um agente desportivo inscrito e não confundível com os outros dois agentes identificados no mesmo artigo 66.º, n.º 4, a saber: o delegado ao jogo e o treinador principal.

42.Regressando à infração disciplinar prevista e sancionada pelo artigo 108º, nº 1, do RDFPF, note-se que, ao utilizar a conjunção coordenativa disjuntiva “ou”, a norma em apreço aponta no sentido da existência de uma relação de alternância entre os elementos ligados pela referida conjunção. Ou seja, a norma disciplinar estatui duas circunstâncias, autónomas e alternativas, que permitem cada uma per se o preenchimento do tipo: (i) ou o clube não indica delegado ou outro agente desportivo cuja presença seja considerada obrigatória; (ii) ou o clube não apresenta delegado ou outro agente desportivo cuja presença seja considerada obrigatória.

Basta a verificação concreta de um dos dois circunstancialismos típicos assim enunciados pela estatuição da norma para se concluir pelo respetivo preenchimento.

43.Donde, o elemento literal da norma permite concluir que o tipo-de-ilícito se mostra preenchido se/quando, sendo obrigatório: (i) o clube não inscrever o agente desportivo na ficha técnica; ou, em alternativa, se/quando (ii) o agente desportivo não estiver efetivamente presente no jogo, ainda que esteja inscrito na ficha técnica.

44.Ora, cumpre referir que: (i) um médico ou enfermeiro ou fisioterapeuta é, in casu, um agente desportivo cuja presença no banco de suplentes era obrigatória (cf. o supra citado artigo 66º, nº 4, do Regulamento da competição em causa, época desportiva 2020/2021); e que (ii) o Recorrente inscreveu na ficha técnica, mas não apresentou no jogo, um médico ou um enfermeiro ou um fisioterapeuta, como decorre dos factos julgados provados 6), 7) e 8), na decisão referente à matéria de facto supra enunciada e fundamentada.

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45. Assim, não obstante a ficha técnica apresentada pelo Recorrente no jogo dos autos, a fls. 10, indicar como inscrita, na qualidade de fisioterapeuta, a agente desportiva Sara Cunha Silva, o certo é que, como consta das observações constantes da ficha de jogo, a fls. 7, a agente desportiva Sara Cunha Silva não compareceu ao jogo.

46. Como tal, em face da norma em questão estipular duas vias, autónomas e alternativas, para o seu preenchimento típico, é mister concluir que, no caso que nos ocupa, se verifica objetivamente uma daquelas duas alternativas, a saber, a não presença, no banco de suplentes do clube Recorrente, de um médico ou um enfermeiro ou um fisioterapeuta. Portanto, neste contexto, tal conduta do Recorrente afirmar-se-ia como típica, sendo objetivamente prevista e sancionada pelo artigo 108.º, n.º 1, do RDFPF.

47.Daí que, no Comunicado Oficial da FPF n.º 198, de 20.11.2020, no qual foi publicitada a decisão sancionatória proferida em sede de processo sumário pelo CDSNP, em formação restrita, consta, objetivamente: (i) a referência ao jogo oficial em que a conduta ocorreu (jogo n.º 515.01.014); (ii) a competição na qual foi praticada a infração disciplinar (Campeonato Nacional da 1.ª Divisão Feminino de Futsal); (iii) a identificação da norma sancionatória (“Artº 108.1”), referindo-se inequivocamente ao artigo 108.º, n.º 1, do RDFPF; (iv) a identificação da norma regulamentar em causa (“Ex. vi. artigo 66º, nº 4 do Regulamento da Competição”); (v) indica ainda o comportamento sancionado (“Falta de comparência de médico ou enfermeiro ou fisioterapeuta ou massagista”); e (vi) esclarece o motivo da redução da sanção (“Sanção reduzida para 1/6 – artigo 25.º, n.º 4, alínea d) do RDFPF”).

48.Contudo, isto não basta. É necessário ir mais além, na apreciação do thema decidendum, uma vez que estas conclusões que ora se avançam carecem, em rigor, de ser desenvolvidas e analisadas sob uma perspetiva diferente, atento o circunstancialismo fático alegado e documentado na petição recursiva do Recorrente e acima julgado provado, sem esquecer, naturalmente, os depoimentos prestados pelas duas testemunhas inquiridas. Por outras palavras: é necessário aquilatar se a justificação avançada pelo Recorrente para a não comparência da agente desportiva Sara Cunha Silva, apesar de inscrita na ficha técnica, no jogo oficial a que se reportam os autos, se afigura como válida e/ou suficiente para afastar o preenchimento da infração disciplinar aqui em apreço, e se o Recorrente agiu de forma diligente, procurando obstar à verificação do resultado desvalioso que conduziu ao seu sancionamento em processo sumário pela prática do ilícito consagrado no artigo 108.º, n.º 1, do RDFPF. É o

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mesmo que questionar se seria possível ao Recorrente ter atuado de maneira diferente daquela como efetivamente se comportou. Citando, aqui, Figueiredo Dias, está em causa saber se era possível que “outros, agindo em condições e sob pressupostos fundamentalmente iguais àqueles que presidiram à conduta do agente, teriam previsto a possibilidade de realização do tipo de ilícito e tê-la-iam evitado” (11).

49.Em primeiro lugar, note-se que o clube Recorrente logrou juntar à sua petição recursiva dois documentos que permitem atestar que, à data da realização do jogo dos autos, 15.11.2020, a sua agente desportiva Sara Cunha Silva, inscrita na ficha técnica, se encontrava temporariamente incapacitada para o exercício da sua atividade profissional. Por outras palavras: à data da realização do jogo oficial a que se reportam os autos, a agente desportiva em causa encontrava-se sujeita ao que vulgarmente se denomina “baixa médica”.

50.Os dois documentos em causa, preenchidos e assinados pela Dra. Carlota Saraiva, na qualidade de médica (titular da Cédula Profissional n.º 57919 emitida pela Ordem dos Médicos (12)), atestam expressamente o que assim se afirma. Segundo o primeiro Certificado, a fls. 4 dos autos, a incapacidade temporária da agente desportiva iniciou-se pelo período temporal compreendido entre 28.10.2020 e 29.10.2020, por motivo de “Doença natural”. Essa situação de incapacidade temporária para a atividade profissional prolongou-se pelo período de 30.10.2020 a 15.11.2020, como atesta o segundo Certificado junto aos autos a fls. 5, igualmente por motivo de “Doença natural”.

51.Ambos os Certificados, emitidos ao abrigo do artigo 14.º do Decreto-Lei n.º 28/2004, de 4 de fevereiro, são claros em expressamente estatuírem que “[o] doente só pode ausentar- se do domicílio para tratamento”, pelo período durante o qual se encontre o mesmo doente temporariamente incapacitado. Donde, não seria exigível nem expectável que a agente desportiva Sara Cunha Silva, em situação de “baixa médica”, se deslocasse ao pavilhão onde teve lugar o jogo dos autos, para comparecer no jogo oficial n.º 515.01.014.

52.Conquanto se possa eventualmente admitir que o exercício das funções próprias de fisioterapeuta inscrita na FFP, na época desportiva 2020/2021, do Santa Luzia Futebol Clube não

(11) JORGE DE FIGUEIREDO DIAS, Direito Penal. Parte Geral. Tomo I, 2.ª edição, Coimbra: Coimbra Editora, 2011, pp. 896 e 899.

(12) Esta informação é igualmente suscetível de confirmação mediante consulta da lista de médicos registados na Ordem dos Médicos, livremente acessível online em www.ordemdosmedicos.pt.

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esgota o âmbito da atividade profissional da agente desportiva Sara Cunha Silva, a verdade é que essas funções também não se encontram excluídas desse exercício de atividade, uma vez que a inscrição (e eventual comparência) da agente desportiva Sara Cunha Silva no jogo dos autos visava dar cumprimento à obrigatoriedade de presença de um fisioterapeuta no banco de suplentes, em ordem a garantir a assistência médica imediata das jogadoras do clube Recorrente, caso tal se revelasse necessário. Mas, independentemente disso, uma situação de

“baixa médica” decorrente da verificação de “Doença natural” nunca poderia deixar de ser motivo suficientemente válido e atendível para que a agente desportiva Sara Cunha Silva não comparecesse ao jogo no qual havia sido inscrita. Mesmo não se sabendo em concreto a

“Doença natural” em causa, os autos encontram-se instruídos com 2 (dois) documentos elaborados e assinados por um médico, por isso alguém com conhecimentos técnicos específicos nessa matéria, determinando que, por razões médicas justificadas por verificação de

“Doença natural”, a agente desportiva Sara Cunha Silva se encontrava temporariamente incapacitada.

53. O circunstancialismo assim subjacente à não comparência da agente desportiva Sara Cunha Silva, no jogo dos autos, uma vez que se encontra devidamente suportado em prova documental suficiente, permite comprovadamente justificar essa ausência, o que sempre resulta em falta justificada, nos termos do n.º 2 do artigo 108.º da RDFPF.

54. Analisemos, agora, como procedeu o Recorrente, enquanto clube que participa em competição oficial organizada pela FPF, no seguimento da informação de que a sua agente desportiva, Sara Cunha Silva, fisioterapeuta inscrita na corrente época desportiva 2020/2021, não poderia comparecer ao jogo dos autos, no qual se encontrava inscrita.

55. É verdade que a situação de incapacidade temporária da fisioterapeuta Sara Cunha Silva teve início em 28.10.2020 e o jogo dos autos apenas ocorreu em 15.11.2020 (precisamente o último dia da situação de incapacidade temporária para o trabalho a que alude o Certificado a fls. 5 dos autos). No entanto, não devemos desconsiderar os esforços conduzidos pelo Recorrente, ainda que em vão, no sentido de procurar substituir a fisioterapeuta Sara Cunha Silva, em momento anterior ao jogo dos autos. Com efeito, como resultou provado supra, o Recorrente contactou pelo menos os enfermeiros Rosinda Marinho Pereira da Costa e Paulo José Soares Teixeira, procurando saber se teriam disponibilidade para comparecer no jogo dos autos – convite que ambos se viram forçados a recusar, devido a outros compromissos de foro

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profissional (como, aliás, ambos explicaram nos seus depoimentos prestados nos autos, na qualidade de testemunhas). Donde, reconhecendo o desvalor associado à ausência de fisioterapeuta no jogo dos autos, o Recorrente procurou obstar à sua verificação, tentando substituir a fisioterapeuta ausente por motivos de incapacidade temporária para o trabalho.

56. Nesta linha, importa não desconsiderar que, como resultou provado supra, o Recorrente não possui qualquer outro médico, enfermeiro ou fisioterapeuta inscrito na FPF, na corrente época desportiva 2020/2021, que não a fisioterapeuta Sara Cunha Silva. E, perante a incapacidade temporária desta sua agente desportiva, o Recorrente contactou outros profissionais que eventualmente poderiam substituir a fisioterapeuta ausente, como sucedeu com os enfermeiros que foram inquiridos nos autos, na qualidade de testemunhas. Sem esquecer que a referida incapacidade para o exercício da atividade profissional da fisioterapeuta Sara Cunha Silva era meramente temporária (aliás, o jogo dos autos coincide com o último dia do período de incapacidade temporária a que se refere o Certificado a fls. 5 dos autos), o que não exigiria uma substituição permanente e definitiva da fisioterapeuta Sara Cunha Silva por outro médico, enfermeiro ou fisioterapeuta, mediante a sua inscrição como agente desportivo junto da FPF.

57.E urge também não olvidar o específico contexto temporal em que os factos em apreço ocorreram, que coincidiram com um período de escalada do número de contágios devido ao vírus SARS-Cov-2 e à doença Covid-19 que lhe está associada (tanto assim é que, como vimos, foi inclusive adiada, nesse período, uma jornada da competição em que se inseriu o jogo dos autos, em face da Resolução do Conselho de Ministros n.º 89-A/2020), o que implicou uma ocupação maior por parte de diversos profissionais de saúde, como inclusive explicaram aos autos as testemunhas Rosinda Marinho Pereira da Costa e Paulo José Soares Teixeira (ambos enfermeiros), e que dificultavam a tarefa de encontrar um substituto para a fisioterapeuta Sara Cunha Silva. Tanto mais que o Regulamento da Competição em causa é particularmente exigente, impondo a inscrição na ficha técnica do jogo e a presença no banco de suplentes de (i) médico, (ii) enfermeiro ou (iii) fisioterapeuta, sem mais, estando em causa a I e II Divisão de Futsal Feminino. Trata-se de um dever de cumprimento mais difícil, em determinadas conjunturas excecionais, face, por exemplo, ao que o mesmo Regulamento impõe no Campeonato Feminino Sub-19 de Futsal, no qual admite que aquelas funções sejam

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desempenhadas por “algum dos elementos constantes na ficha técnica que não as jogadoras, tenha certificação SBV-DAE e o respetivo equipamento”.

58.Ademais, o jogo dos autos não teve lugar no recinto desportivo utilizado pelo Recorrente, mas antes no Pavilhão EB 2/3 Lourosa, o que exigia uma deslocação de toda a equipa técnica e staff do Recorrente de Viana do Castelo até Lourosa, concelho de Santa Maria da Feira, com um dispêndio acrescido de tempo, o que ainda mais dificultava a tarefa de encontrar alguém que pudesse preencher a exigência de presença no banco de suplentes decorrente do artigo 66.º, n.º 4, do Regulamento da Competição em causa.

59. O Recorrente, de facto, não logrou substituir a sua fisioterapeuta ausente, no jogo oficial n.º 515.01.014. Contudo, como vimos supra, o Recorrente apenas tinha, na corrente época desportiva, inscrito na FPF a fisioterapeuta Sara Cunha Silva que, à data do jogo dos autos, se encontrava temporariamente incapacitada para a sua atividade profissional, como atestam e comprovam os mencionados Certificados de Incapacidade Temporária para o Trabalho, a fls. 4 e 5 dos autos. O período decorrido entre o início da verificação da situação de incapacidade e a data da realização do jogo dos autos impunha, pelo menos, que o Recorrente encetasse esforços no sentido de procurar substituir a fisioterapeuta ausente naquele jogo. Foi isso que o Recorrente fez, como decorreu dos depoimentos prestados nos autos pelas testemunhas, que foram contactadas pelo Recorrente para aferir da sua disponibilidade para estarem presentes no banco de suplentes do Recorrente, no jogo dos autos, na qualidade de enfermeiros.

60.Assim, existindo os Certificados de Incapacidade Temporária para o Trabalho preenchidos e assinados por uma médica devidamente registada junto da Ordem dos Médicos, atestando a incapacidade temporária da agente desportiva Sara Cunha Silva, por período de tempo que abrangia a data da realização do jogo dos autos, e não tendo o Recorrente inscrito na FPF, na corrente época desportiva 2020/2021, qualquer outro médico, enfermeiro ou fisioterapeuta, apenas se exigiria ao Recorrente, enquanto diligência média que deve ser adotada por um clube, que mobilizasse esforços para procurar obviar à verificação do resultado desvalioso, como sucedeu, ainda que de forma infrutífera. Não existe, em situações similares, uma medida exata e rigorosa que permita aferir da efetiva suficiência e adequação das diligências promovidas por um sujeito jurídico para obviar à verificação de um resultado desvalioso, apenas existe a bitola da diligência média, aquela que seria adotada e que é

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expectável que seja adotada por um clube medianamente zeloso e cuidadoso. E essa bitola encontra-se respeitada e cumprida in casu.

61.Em rigor, outro clube, normalmente diligente e prudente, na mesma situação e sob os mesmos pressupostos em que se encontrava, neste caso concreto, o Recorrente, teria adotado a diligência que o Recorrente também evidenciou e adotou. O Recorrente tentou obviar à verificação do resultado em causa (traduzido na não comparência da sua fisioterapeuta inscrita na ficha técnica do jogo). Porém, atento o circunstancialismo do caso e as especificidades próprias da conjuntura de pandemia que vigorava à data dos factos, não poderia ser exigível ao Recorrente que evitasse, em absoluto, a materialização daquele resultado. Representando como possível aquele resultado, apenas se exigiria ao Recorrente que mobilizasse esforços e meios no sentido de obstaculizar à sua verificação, como efetivamente sucedeu. A conduta adotada pelo Recorrente demonstra que não se conformou com a verificação eventual daquele resultado, agindo no sentido de evitar a sua verificação, comportando-se com a diligência e prudência normais e medianamente exigíveis, naquele específico circunstancialismo. Exigir-se da parte do Recorrente que evitasse in totum a verificação do resultado desvalioso seria exigir algo que extravasava a esfera de domínio do Recorrente, enquanto clube de futebol, atentas as diversas contingências aqui em concurso: (i) não ter outro médico, fisioterapeuta ou enfermeiro inscrito na FPF, nesta época desportiva; (ii) estar em causa uma situação de incapacidade temporária que se prolongou por pouco mais de 2 (duas semanas) e que inclusive findava no dia da realização do jogo dos autos; e (iii) ter o Recorrente contactado outras pessoas na tentativa de garantir a sua presença no jogo dos autos, em substituição da sua fisioterapeuta temporariamente incapacitada.

62. Assim, não resta outra hipótese senão concluir-se que não pode ser imputada ao Recorrente a prática da infração disciplinar prevista e sancionada pelo artigo 108.º, n.º 1, do RDPFP.

63.E, ainda que assim não fosse, e novamente em face de tudo quanto foi escalpelizado supra e decorre da factualidade julgada provada e dos elementos probatórios constantes dos autos que a suportam, também nunca poderia assacar-se um juízo de censura ético-jurídica ao Recorrente. Dito de outro modo: o Recorrente não agiu com culpa. Exigir-se comportamento distinto ao Recorrente seria ultrapassar as barreiras ditadas por um imperativo de justiça material e corresponderia a um sancionamento manifestamente objetivo, desconsiderando o

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princípio da culpa, essa trave-mestra do direito sancionatório, incluindo disciplinar, sem a qual não é possível sancionar comportamentos, pois, como afirma Faria Costa, “é materialmente injusto expressar um juízo de censura ao agente quando ele não podia nem lhe era exigível que pudesse agir de outra maneira” (13). Com efeito, o Recorrente agiu com a diligência e cuidado médios exigíveis a clubes que se encontrassem na mesma situação e sob pressupostos fundamentalmente similares. O Recorrente representou como possível a verificação do resultado desvalioso, não se conformou com a sua verificação e encetou esforços no sentido de procurar evitar a sua verificação. Nada mais seria exigível.

64. Assim, é possível concluir-se, como vimos, que outros, agindo nas mesmas condições e sob pressupostos fundamentalmente iguais àqueles que presidiram à conduta do Recorrente, teriam agido do mesmo modo que o Recorrente atuou em concreto, não se podendo admitir que poderia e deveria o Recorrente agir de forma diversa, garantindo in casu o cumprimento dos comandos normativos extraídos da conjugação dos artigos 108.º, n.º 1, do RDFPF, e 66.º, n.º 4, do Regulamento do Campeonato Nacional I e II Divisão e Sub-19 Feminino de Futsal.

65. Pelo que, tudo visto e ponderado, é mister concluir que o circunstancialismo fático alegado e demonstrado pelo Recorrente, e aqui julgado provado, se revela excludente da sua responsabilidade disciplinar pela alegada prática da infração prevista e sancionada pelo artigo 108.º, n.º 1, do RDPFP, por referência ao artigo 66.º, n.º 4, do Regulamento do Campeonato Nacional I e II Divisão e Sub-19 Feminino de Futsal.

VII – DECISÃO

Nestes termos e com os fundamentos expostos, o Conselho de Disciplina, Secção Não Profissional, da Federação Portuguesa de Futebol considera totalmente procedente o recurso interposto pelo Santa Luzia Futebol Clube e, em consequência, revoga a decisão recorrida, que sancionou o Recorrente Santa Luzia Futebol Clube, em processo sumário, com sanção de multa

(13) JOSÉ DE FARIA COSTA, Noções Fundamentais de Direito Penal (Fragmenta iuris poenalis), 4.ª edição, Coimbra: Coimbra Editora, 2015, p. 432.

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determinada no valor de € 255,00 (duzentos e cinquenta e cinco euros), mais se ordenando, em conformidade, a anulação do respetivo registo em sede de cadastro disciplinar.

Sem custas, atenta a procedência do recurso.

Registe, notifique e publicite.

Cidade do Futebol, 29 de janeiro de 2021

O Conselho de Disciplina, Secção Não Profissional

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RECURSO DESTA DECISÃO

As decisões do Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol são passíveis de recurso, nos termos da lei e dos regulamentos, para o Conselho de Justiça ou para o Tribunal Arbitral do Desporto.

De acordo com o artigo 44.º, n.º 1, do Decreto-Lei n.º 248-B/2008, de 31 de dezembro, na redação conferida pelo artigo 2.º do Decreto-Lei n.º 93/2014 de 23 de junho, cabe recurso para o Conselho de Justiça das decisões disciplinares relativas a questões emergentes da aplicação das normas técnicas e disciplinares diretamente respeitantes à prática da própria competição desportiva.

O recurso deve ser interposto no prazo de 5 dias úteis (artigo 35.º do Regimento do Conselho de Justiça aprovado pela Direção da Federação Portuguesa de Futebol, em 18 de dezembro de 2014 e de 29 de abril de 2015 e publicitado pelo Comunicado Oficial n.º 383, de 27 de maio de 2015).

Em conformidade com o artigo 4.º, n.ºs 1 e 3, da Lei do Tribunal Arbitral do Desporto (aprovada pelo artigo 2.º da Lei n.º 74/2013 de 6 de setembro, que cria o Tribunal Arbitral do Desporto e aprova a respetiva lei, na redação conferida pelo artigo 3.º da Lei n.º 33/2014 de 16 de junho - Primeira alteração à Lei n.º 74/2013, de 6 de setembro, que cria o Tribunal Arbitral do Desporto e aprova a respetiva lei), compete a esse tribunal conhecer, em via de recurso, das deliberações do Conselho de Disciplina.

Exclui-se dessa competência, nos termos do n.º 6 do citado artigo, a resolução de questões emergentes da aplicação das normas técnicas e disciplinares diretamente respeitantes à prática da própria competição desportiva.

O recurso para o Tribunal Arbitral do Desporto deve ser interposto no prazo de 10 dias, contados da notificação desta decisão (artigo 54.º, n.º 2, da Lei do Tribunal Arbitral do Desporto).

Referências

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