NOTAS
I e 2: Ver "Cultura do Povo e o Autoritarismo das Elites". Marilena de Souza Chaui. In Separata da Revista Cinema BR. p. 3, n.0 1, 1977, São Paulo. Sobre o assunto, consultar ainda: "Cultura y domina-ción". Aníbal Quijano. In Cultura y Dependencia Alfredo Chacon.
3:
4:
5 e 6:
7 e 8:
SI:
Montevidéu, 1974.
Sobre a utilização do conceito "política instrumental" c "agir ins-trumental", ver: '·Crítica de Ia Razón instrumental". Max Hork-heimer, Ed. Sur, Buenos Aires, 1973 e "La エ・」ィョゥアオセ@ et Ia sciences comme idéologie". Jürgen Habermas, Ed. Gallimard, Paris, 1973: Ver ainda "Conhecimento e Interesse", de Jiirgen Habermas, in Pen-sadores, n.0 48. Ed. Abril, 1975.
Consultar "A Cultura afirmativa". Herbert Marcuse. In "Cultura e Sociedade". Ed. Presença, Lisboa, 1970.
Consultar "Formalismo e Tradição Moderna", José Guilherme Mer-quior. p. 133, Ed. Forense/USP. São Paulo, 1974.
''Literatura e Vida Nacional". Antônio Gramsci. p. 184, Ed. Civili-zação Brasileira, Rio de Janeiro. 1968. Ver ainda "Analisis de la Cultura Subalterna''. L. Sartriani. Ed. Gallerna. Buenos Aires, 1974. "Formas de Organização da Atividade Econômica e Estrutura
Ocu-pacional". Elizabeth Jalin. In Cadernos Cebrap, n.0 9, pgs. 53/54. São Paulo, 1976.
10: "Ideologia, Estrutura e Comunicação". Eliseo Veron. Ed. Cultrix, São Paulo, 1969.
li e 12: "Lenguaje e Comunicación Social". Eliseo Veron. pgs. 141 e 142. Ed. Nueva Vision. Buenos Aires, 1974.
13: Consultar ainda: "O Bloco Histórico". Hugo Portelli. Ed. Paz e Terra. Rio de Janeiro, 1976.
14: "Cultura do Povo e Autoritarismo das Elite>". op. cit., p. 3.
observaᅦᅰeセᄋZ@ As fontes assinaladas sem referência de ー£ァゥョ。セ@ se consti-tuem apenas em subsídios para o aprofundamento das questões suscitadas no trabalho.
162
REV. C. SOCIAIS, FORTALEZA, V. VIII, N.os 1-2 (1977) 143-162--6CH-PER i.)D\COS
CULTURA POPULAR: CONSERVADORA?(*)
Antônio Augusto Arantes Neto
A minuta apresentada pela coordenação da mesa aponta para a dimensão política da "questão da cultura popular" ao referir-se ao que ela chama de "ambigüidade" das .manifes-tações culturais populares. Diz ela: "se, por um lado, elas têm um nítido valor de resistência à apropriação e ao controle (en-quanto são a reinvenção da capacidade de simbolizar, de vi-ver, de uma classe), por outro, assinalou Cavalcanti Proença que " ... há na literatura (cultura?) popular muito conservado-rismo e uma tendência ao equilíbrio social ( ... )" (p. 6).
Esta é, ao meu ver, uma falsa questão que decorre em grande parte do fato de se analisar as manifestações culturais como "coisas", ou, na melhor das hipóteses, como "bens aca-bados", de pior ou melhor qualidade, conforme seja o caso e, sobretudo, o critério de quem julga, mais ou menos conserva-doras, e que, uma vez produzidas, são reincorporadas à vida social que as gerou.(!)
Gostaria de colocar, a esse respeito, dois problemas. Primeiro, até que ponto esse caráter conservador ou de resistência ·são características intrínsecas às manHestações culturais populares; ou, em outros termos, qual a estratégia de análise mais adequada à compreensão da ideologia presente
( *) Trabalho apresentado na XXIX Reunião da Sociedade Brasileira Para o Progresso da Ciência, em São Paulo, 1977.
(1) Cf.: E. R. Durham: "A dinàmica cultural na Sociedade Moderna", in Cadernos de Opinião, n.0 4.
ou expressa através delas? E, segundo, que tipo de política cultural seria efetivamente favorável ao fortalecimento e ao
desenvolvimento (e não à conservação) da cultura das classes
populares? Parece-me que estas duas questões estão na ver-dade intimamente relacionadas. O ponto de vista que eu gos-taria de desenvolver aqui é o de que um encaminhamento ade-quado da reflexão sobre esses problemas depende de que se desloque o foco que ora incide sobre os produtos terminais para as componentes políticas do processo através do qual os even-tos culturais são produzidos. Esse é, ao meu ver, o lugar
privi-legiado onde as manifestações culturais como produtos
assu-mem suas características políticas fundamentais. Com o risco ele ser taxado aqui de antiquado, espero contribu:r ao debate sobre "a questão da cultura popular" desenvolvendo esse ponto de vista. Pois, na verdade, o seu fundamento teórico remonta ao
livro Política/ Systems ot Highland Burma de Edmund Leach,
publicado em 1954, em Londres, e certamente bastante conhe-cido de todos. Mas como me parece que nossos pesqu·sadores não levaram suficientemente em consideração a sua tese cen-tral que me parece altamente pertinente para as anál ises que nos temos proposto, vou reproduzi-la aqui após uma rápida di-gressão sobre o contexto teórico em que ela foi formulada.
Em seguida, para dar um mínimo de concre tude às minhas reflexões, vou me apoiar em material coletado por mim mesmo em trabalho de campo na Bahia.
Em oposição ao difusionismo que tanto influenciou e tem influenciado as pesquisas na área do folclore, e onde uma das
peocupações básicas foi - e tem sido - a de traçar as
traje-tórias dos costumes, objetos, ritos, mitos, no tempo e no espaço, para além dos limites políticos dos povos e grupos sociais, Ma-linowski num de seus ensaios hoje clássicos afirmou o se-guinte: "os contos populares, as lendas e os mitos precisam ser soerguidos de sua existência achatada no papel e
coloca-dos na realidade tridimensional da vida vivida" (MPP, p.
146) (2).
(2) B. Malinowski: "Myth in Primitive Psychology", in Magis, Science and Religion.
164
REV. C. SOCIAIS, FORTALEZA, V. VIII, N.os 1-2 (1977), 163- 169Esta, que É: uma exortação ainda oportuna nos dias de hoje
em que vivemos de certo modo numa perplexidade teórica
face aos fenômenos culturais populares - ao trabalho de
cam-po, a que se veja, registre e testemunhe que o evento cultural vive "no contexto da vida tribal" (p. 146), sugere por outro lado ao analista que, para ser compreendido adequadamente, esse
・セN[・ョエッ@ deve ser relacionado com o "todo social" ... essa pers-pectiva, coloca esse autor, vê-se que "o mito (e como ele ou-tros produtos culturais) corresponde efetivamente a uma rea-lidade cultural definida, pois todas as manifestações concre-tas das crenças, sentimentos e apreensões nativos com
rela-ção à morte e à vida extra-terrena são unificados e formam
uma grande unidade orgânica". (p. 136).
Aí está, na verdade, e como é sobejamente conhecido, uma das formulações mais criticáveis do funcionalismo.
Pois, se por um lado, ela
é
crítica da perspectiva difusio-nista que teve o efeito de justicar perante os intelectuais e administradores a apropriação, a descontextualização e sobre-tudo a desvitalização dos produtos culturais (materiais ou não) de vários povos num momento preciso da História, por outro ela elimina da reconstrução dos fenômenos sociais o que estes possuem de dinâmico e vivo, trabalhando no interior de mode-los conceituais que primam a noção de "equilíbrio" é, conse-qüentemente, que absorvem, abafam as tensões, oposições, contradições que existem nas sociedades reais. E, em conse-qüência disso, os eventos culturais em geral e em particular aqueles que se referem de perto aos valores mais "sagrados" dos grupos sociais são vistos necessariamente como sefossem intrinsecamente, e em grifo esse termo, imbuídos de um
caráter predominantemente conservador.
Além disso, como afirma Leach: "No esquema malinows-kiano os vários aspectos de uma cultura são necessariamente integrados de modo a formar um todo consistente; por conse-guinte, os mitos de um povo são vistos como se fossem mu-tuamente coerentes- é como se para qualquer grupo de pes-soas houvesse apenas uma cultura, um sistema estrutural, um
ou expressa através delas? E, segundo, que t ipo de política cultural seria efetivamente favoráv el ao fortalecimento e ao
desenvolvimento (e não à conservação) da cultura das classes
populares? Parece-me que estas duas questões estão na ver-dade intimamente relacionadas. O ponto de vista que eu gos-taria de desenvolver aqui é o de que um encaminham ento ade-quado da refl exão sob re esses problemas depende de que se desloque o foco que ora incide sobre os produtos terminais para as componentes polít icas do processo através do qual os even-tos culturais são produzidos. Esse é, ao meu ver, o lugar privi-legiado onde as manifestações culturais como produtos assu-mem suas características políticas fu ndamentais. Com o risco
ele ser taxado aqui de antiquado, esp ero contribu :r ao debate sobre "a questão da cultu ra popular" desenvolvendo esse ponto de vista. Pois, na verdade, o seu fundamento teórico re monta ao livro Política/ Systems ot Highland Burma de Edmund Leach, publicado em 1954, em Londres, e certamente bastante conhe-cido de todos. Mas como me parec e qu e nossos pesqu ·sadores não levaram suficientemente em consideração a sua tese cen-tral que me parece altamente pertinen te para as anál ises que nos temos proposto, vou reproduzi-la aqu i após uma rápida di-gressão sobre o contexto teórico em que ela foi formulada.
Em seguida, para dar um mínimo de concret ude às minhas re flexões, vou me apoiar em material coletado por mim mesmo em trabalho de campo na Bahia.
Em oposição ao difusionismo que tan to influenciou e tem influenciado as pesquisas na área do folclore , e onde uma das
peocupações básicas foi - e tem sido - a de t raça r as
traje-tórias dos costumes, objetos, ritos , mitos, no tempo e no espaço, para além dos limites políticos dos povos e grupos soc iais, Ma-linowski num de seus ensaios hoje clássicos afirmou o se-gu inte: "os contos populares, as lendas e os mitos precisam ser soergu idos de sua existência ach atada no papel e
coloca-dos na realidade tridimensional da vida vivida" (MPP, p.
146) (2).
(2 ) B . Malinows ki: "M yth in Prirnitive Psychology", in Magis, Science and R eligion .
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REV. C. SOCIAIS , FORTALEZA, V. VIII, N .os 1-2 (1977), 163- 169Esta, que 6 uma exortação ainda oportuna nos dias de hoje em que vivem os de certo modo numa perplexidade teórica
fnce aos fenômenos culturais populares - ao t rabalho de c am
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・セN[・ョエッ@ deve ser relacionado com o " todo social" . .. essa pers-pectiva, coloca esse autor, vê-se que "o mito (e como ele ou-tros produtos culturais) corresponde efetivamente a uma rea-lidade cult ural definida, pois todas as manifestações concre-tas das crenç as, sentimentos e apreensões nativos com
rela-ção à morte e à vida extra-terrena são uni f icados e formam
uma grande unidade orgân ica". (p. 136).
Aí está, na verdade, e como é sobej amente conhecido, uma das formulações mais criticáveis do func ionalismo.
Pois, se por um lado, ela
é
crítica da perspectiva difusio-nista que teve o efeito de justicar perante os intelectuais e administrad ores a aprop riação, a descontextualização e sobre-tudo a desvitalização dos produtos culturais (materiais ou não) de vários povos num momento prec iso da História, por outro ela elimina da reconstrução dos fenômenos sociais o que estes possuem de dinâmico e vivo, trabalhando no interior de m ode-los conceituais que primam a noção de "equilíbrio" é, conse-qüentemente, que absorvem, abafam as tensões, oposições, contradições que existem nas sociedades reais. E, em conse-qüência disso, os eventos culturais em geral e em particular aqueles que se referem de perto aos valores mais "sagrados" dos grupos sociais são vistos necessariamente como se fossem intrinsecamente, e em grifo esse termo, imbuídos de um caráter predominantemente conservador.Além disso, como afirma Leach: "No esquema malinows-kiano os vários aspectos de uma cultura são necessariamente integrados de modo a formar um todo consisten te; por conse-guinte, os mitos de um povo são vistos como se fossem
mu-tuamente coerentes- é como se para qualquer grupo de
pes-soas houvesse apenas uma cultura , um sistema estrutural, um
conjunto coerente de mitos" (PSHB, p. 265) (3) . A consequên-cia disso, em termos de trabalho de campo, e certamente em termos de uma política cultural que indague sobre "o que con-servar", é que se procurará erroneamente a versão autêntica, primeira, verdadeira, completa e sobretudo "correta" dos even-tos culturais, deixando de lado as discrepâncias reais entre as suas diferentes manifetações ou versões.
"No caso da mitologia Kachin", diz Leach - (p. 265/6) "não há possibilidade de eliminar as contradições e incoerên-cias. Elas são fundamentais ( ... ) e contar uma estória ( . .. )
tem uma finalidade; serve para validar o
status
do indivíduoque a conta, ou melhor, do indivíduo que paga a um contador para contar estória ( ... ) Mas se o status de um indivíduo é
va-lidado, isto significa quase sempre que o
status
de outro éde-negrido.
Pode-se mesmo partir da premissa de que todo conto tra-dicional ocorrerá em diferentes versões, cada uma tendendo a apoiar as reivindicações de diferentes grupos de interesse.
(p . 265/6).
Este modo de colocar o estudo da cultura recupera, ao meu ver, uma das dimensões de seu aspecto dinâmico. "O mito e o rito são uma linguagem de signos", diz esse mesmo autor, "em termos da qual são expressas reivindicações de direito e de
status,
mas são uma linguagem de discussão e não um coro de harmonia" (p . 278).Ou seja, entre, de um lado, os sistemas simbólicos que podem ser descritos como linguagens, ou seja, através de sua sintaxe e semântica próprias e, de outro, os eventos culturais efetivamente produzid os por um grupo social, ou seja, entre a língua e· a fala, e quisermos recorrer a imagens saussurea-nas, há a mediação necessária e· determinante do jogo de in-teresses políticos. Este é quem gera, no final de contas, as di-ferentes versões de um fenômeno cultural e determina os seus limites de variação, este é quem dá sentido a cada um deles
e
ao seu conjunto.(3) - E. R . Leach - Política[ systems of Highland Burma, London, 1954.
166
REV. C. SOCIAIS, FORTALEZA, V. VIII, N .os 1-2 (1977), 163- 169Para baixar de· novo à terra, consideremos um exemplo.
No período do Governo Castelo Branco um poeta (de cor-del) escreveu um Padre Nosso numa cidade da Bahia. Pensan-do em imprimi-lo para vender nas feiras, conhecenPensan-do as leis de censura e preocupado com a repressão, o seu autor consul-tou um amigo e ambos resolveram tornar o texto publicável, modificando estrofes que acharam "fortes demais".
Para que se possa avaliar o peso dessas modificações em termos da perspectiva política efetivamente expressa pelo texto publicado, apresento aqui a versão modificada e em se-guida a versão original de algumas estrofes desse Padre Nosso:
PAI NOSSO DA POBREZA
PAI NOSSO QUE ESTAIS NO CEU
criador do mundo inteiro vem livrar os nossos filhos da guerra e do cativeiro livra o mundo que nos deste da fome, da guerra e peste
do Brasil
e
do estrangeiroSANTIFICADO セ エ@ O TEU NOME
e os anjos digam amém a pobreza está morrendo sem proteção de ninguém para uns tanta riqueza outros com tanta pobreza
dai-nos um pouco também
VENHA A NóS O VOSSO REINO
e a vossa santidade fazei que o rico tenha um pouco de humanidade
conjunto coerente de mitos" (PSHB, p. 265) (3). A
consequên-cia disso,
em
termos de trabalho de campo, e certamente emtermos de uma política cultural que indague sobre "o que con-servar", é que se procurará erroneamente a versão autêntica, primeira, verdadeira, completa e sobretudo "correta" dos even-tos culturais, deixando de lado as discrepâncias reais entre as suas diferentes manifetações ou versões.
"No caso da mitologia Kachin", diz Leach - (p. 265/6) "não há possibilidade de eliminar as contradições e incoerên-cias. Elas são fundamentais ( ... ) e contar uma estória ( . .. )
tem uma finalidade; serve para validar o
status
do indivíduoque a conta, ou melhor, do indivíduo que paga a um contador para contar estória ( ... ) Mas se o status de um indivíduo é
va-lidado, isto significa quase sempre que o
status
de outro éde-negrido.
Pode-se mesmo partir da premissa de que todo conto tra-dicional ocorrerá em diferentes versões, cada uma tendendo a apoiar as reivindicações de diferentes grupos de interesse.
(p. 265/6).
Este modo de colocar o estudo da cultura recupera, ao meu ver, uma das dimensões de seu aspecto dinâmico. "O mito e o rito são uma linguagem de signos", diz esse mesmo autor, "em termos da qual são expressas reivindicações de direito e de
status,
mas são uma linguagem de discussão e não um corode harmonia" (p. 278).
Ou seja, entre, de um lado, os sistemas simbólicos que podem ser descritos como linguagens , ou seja, através de sua sintaxe e semântica próprias e, de outro, os eventos culturais efetivamente produzidos por um grupo social, ou seja, entre a língua e· a fala, e quisermos recorrer a imagens saussurea-nas, há a mediação necessária e· determinante do jogo de in-teresses políticos. Este é quem gera, no final de contas, as di-ferentes versões de um fenômeno cultural e determina os seus limites de variação, este é quem dá sentido a cada um deles e ao seu conjunto.
(3) - E . R . Leach - Political systems of High land Burma, London, 1954.
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REV. C. SOCIAIS, FORTALEZA, V. VIII, N.os 1-2 (1977), 163- 169セ@
Para baixar de· novo à terra, consideremos um exemplo.
No período do Governo Castelo Branco um poeta (de cor-del) escreveu um Padre Nosso numa cidade da Bahia. Pensan-do em imprimi-lo para vender nas feiras, conhecenPensan-do as leis de censura e preocupado com a repressão, o seu autor consul-tou um amigo e ambos resolveram tornar o texto publicável, modificando estrofes que acharam "fortes demais".
Para que se possa avaliar o peso dessas modificações em termos da perspectiva política efetivamente expressa pelo texto publicado, apresento aqui a versão modificada e em se-guida a versão original de algumas estrofes desse Padre Nosso:
PAI NOSSO DA POBREZA
PAI NOSSO QUE ESTAIS NO GEU
criador do mundo inteiro vem livrar os nossos filhos da guerra e do cativeiro livra o mundo que nos deste da fome, da guerra e peste do Brasil e do estrangeiro
SANTIFICADO Z セ@ O TEU NOME
e os anjos digam amém a pobreza está morrendo sem proteção de ninguém para uns tanta riqueza outros com tanta pobreza
dai-nos um pouco também
VENHA A NóS O VOSSO REINO
e a vossa santidade fazei que o rico tenha um pouco de humanidade
não para dar sua riqueza mas que ajude a pobreza com pequena quantidade
*
SEJA FEITA A VOSSA VONTADEde acordo com o vosso gosto é o que nós desejamos
de manhã ao sol posto pois queremos trabalhar para assim poder pagar
com ma:s prazer
o
impostoque venhas meter o pau neste governo tão mau que só faz cobrar imposto
セG@ ASSIM NA TERRA COMO NO CtU
é que queremos viver não pode tudo ser rico e nem igual no poder porém eu me aperreio
de ver trabalhar
o
feiopara o bonito comer
todos iguais em riqueza todos iguais em poder venha reinar em nosso me!o para que não trabalhe o feio
para o bonito comer
* O PÃO NOSSO DE CADA DIA
os avarentos tomaram os direitos dos pequenos os tubarões embargaram
estamos morrendo
à
fomee de Deus o Santo nome há tempos negociaram etc.
os homens ricos tomaram e· todo o nosso produto em armazéns depositaram
Duas versões de um mesmo texto. Pergunto: conservador? Qual a versão "correta"?
Gostaria de frizar aqui que não estou propondo que se reduza o estudo da cultura ao das condições que determinam a sua produção. Os sistemas simbólicos, como most ram C. Levi
168
REV. C. SOCIAIS , FORTALEZA, V. VIII, N.os 1-2 (1977) , 163- 169Strauss em várias de suas obras são relativamente a-históricos, de certo modo a-temporais , e devem ser descritos e anal isa-dos em si mesmos e por si mesmos. Por outro lado, modelos, formas padronizadas de se articular símbolos culturais de modo a se produzi r o que chamamos aqui de eventos ou produtos culturais são legados pela tradição de cada grupo social. Refi-ro-me aqui , por exemplo, aos princípios estruturais especifica-mente literários e musicais, numa palavra estéticos, que
orien-tam a criação poética, a literatura oral; refiro-me
à
estruturadas festas e danças, dos ritos; dos estilos de pintura, escultu-ra, cerâmica etc. Estes também podem e devem ser descritos e analisados em si mesmos e por si mesmos.
rt no contexto da vida social , entretanto, no âmbito da história de homens reais, que essas matrizes abstratas
preen-chem esses modelos, essas "maneiras corretas" de dizer e de fazer, e ganham a sua significação.
Deste ponto de vista, pensar a cultura como acervo que se transmite de geração a geração, como patrimônio ou tração, é perder de vista que ela vive e só ganha sentido na di-nâmica da história do grupo social que a produz. Assim, falar de preservação da cultura e da arte populares por exemplo me parece no mínimo falacioso pois elas florescerão necessa-riamente desde que os seus produtores e fruidores tenham espaço e liberdade para expressar a sua percepção das con-tradições estruturais por eles vividas.
não para dar sua riqueza mas que ajude a pobreza com pequena quantidade
*
SEJA FEITA A VOSSA VONTADEde acordo com o vosso gosto é o que nós desejamos
de manhã ao sol posto pois queremos trabalhar para assim poder pagar
com ma:s prazer
o
impostoque venhas meter o pau neste governo tão mau que só faz cobrar imposto
*
ASSIM NA TERRA COMO NO CtUé que queremos viver não pode tudo ser rico e nem igual no poder porém eu me aperreio
de ver trabalhar
o
feiopara o bonito comer
todos iguais em riqueza todos iguais em poder venha reina r em nosso me !o para que não trabalhe o feio
para o bonito comer
セセ ッ@ PÃO NOSSO DE CADA DIA
os avarentos tomaram os direitos dos pequenos os tubarões embargaram
estamos morrendo
à
fomee de Deus o Santo nome há tempos negociaram etc.
os homens ricos tomaram e todo o nosso produto em armazéns depositaram
Duas versões de um mesmo texto. Pergunto: conservador? Qual a versão "correta"?
Gostaria de frizar aqui que não estou propondo que se reduza o estudo da cultura ao das condições que determinam a sua produção. Os sistemas simbólicos, como mostram C. Levi
168
REV. C. SOCIAIS , FORTALEZA, V. VIII, N.os 1-2 (1977) , 163- 169Strauss em várias de suas obras são relativamente a-históricos, de certo modo a-tempo rais , e devem ser descritos e anali sa-dos em si mesmos e por si mesmos. Por outro lado, modelos, formas padronizadas de se articular símbolos culturais de modo a se produzi r o que chamamos aqui de eventos ou produtos culturais são legados pela tradição de cada grupo social. Refi-ro-me aqui , por exemplo, aos princípios estruturais especifica-mente literários e musicais, numa palavra estéticos, que
orien-tam a criação poética, a literatura oral; refiro-me
à
estruturadas festas e danças, dos ritos ; dos estilos de pintura, escultu-ra, cerâmica etc. Estes também podem e devem ser descritos e analisados em si mesmos e por si mesmos.
イセZZ@ no contexto da vida social , entretanto, no âmbito da
história de homens reais, que essas matrizes abstratas preen-chem esses modelos, essas "maneiras corretas" de dizer e de fazer, e ganham a sua significação.
Deste ponto de vista, pensar a cultura como acervo que se transmite de geração a geração, como patrimônio ou tração , é perder de vista que ela vive e só ganha sentido na di-nâmica da história do grupo social que a produz. Assim, falar de preservação da cultura e da arte populares por exemplo me parece no mínimo falacioso pois elas florescerão necessa-riamente desde que os seus produtores e fruidores tenham espaço e liberdade para expressar a sua percepção das con-tradições estruturais por eles vividas.