Dantas, Júlio
1023 ^2. ed.-j
^
^
n
^
JULIO DANTAS
1025
PORTUGAL BRASIL L°^
SOCIEDADE EDITORA
LIVRARIA ACADÉMICA
Q.
Q.WLda
da.Siba
R. Mártires da Liberdade, 10 Telefone 25988
— PORTO
LIVROS USADOS
COMPRA
EVENDE
1023
Episódio
em
verso, representado pelaprimeira vez no Teatro daRepública, de Lisboa,em
marçode 1914.Teatro de Júlio Dantas
"-O
quemorreu
deamor
(1899)—
4.* edição..^Viriato
Trágico
(1900)—
2.» edição.--C/Í
Severa
(1901)—
4." edição,no
prelo.Crucificados (1902)
—
3.*edição.^AZeia
dosCardeais (1902)—
23.*«edição.^D.
beltrão de Figueirôa (1902J—
4.'edição.^ Paço
de Veiros (1903)—
2.*edição.^Um
serão nas Laranjeiras (1904)—
3.^ edição.^7^1 Lear
(1906)—
2.*edição,no
prelo.^.lipsas
detodooano
(1907)—
7.' edição.^.
Mater Dolorosa
(1908)—
4*edição.^.
Santa
Inquisição (1910)—
2,* edição.^^
Primeiro'Beijo (1911)—
4.'edição.yD. liamon
de Capichuela (191 2)—
2." edição.O
l^eposteiro'Verde (19 12)—
2.' edição.y^ 1023
(1914)—
2." edição.Soror oMariana
(i9i5)—
2 *edição,no
prelo.^,
Carlota Joaquina (191 9)—
2." edição.^^D. João
Tenório (1920).JÚLIO DnNins
Sócioefectivoda Academia das Sciênciasde Lisboa
Da
Academia Brasileira de Letras1 O 2 3
1
nCTO EM VERSO
PÇRW9ÇMrviflCHS
i!sro«
PORTUGAL-BRASILLIMITADA SOCICDAOE EDITOKA 58—RUA0«RReTT
—
60IODt JANEIRO COMPANHIA CDITOKA AMCHICANA
tIVRARIAFRANCISCOAIVCI
Reservados todos osdireitosdereprodução:em
Portugal, conforme preceituamas disposiçõesdo CódigoCivilPortuguês;noBrasil,nos termosdo convéniode9desetembro de1889 elein.o 2.577 de17dejaneirode1912;nospaísesconvenciona- dos, emharmoniacomaConvençãode Berne,a que Portugaladeriu por decreto de 18demarço de1911.
A
propriedadedestaobra pertenceàSo-CIEDADEtOITORAl^ORTUOAL-BRASILV..""'
?(Jl
^Zél
// ^ARy-^^., D^nr
//
1
196&
^^ /.)
1
-
Imprensa
PORTUOALBRASIL,
Rua daAlegria, 100—
Lisboan ANTERO DE flGUEIREDO
FIGURAS
Um
cauteleiroChaby Pinheiro
Um
carteiroPinto Costa
Um
sujeito quelêManuel Pina
Uma
bonneAna Espinoza
Uma
criança , N. N.Lisboa
- actualidade.
1023
Jardim
público,em
Lisboa,Um banco à
E. B.;perto,um
marco do
correio.Outro banco à D.
F.,no alinhamento do
primeiro.Tarde
desol.Passa pouca
gente.No banco da
E.B.,uma
<^bonne^>,loira,de
avental branco, brincacom uma
criança.No banco da D.
F.,um burguez
velho, seco,de
suissas,fraque
preto, lêum
jornal.ROMÃO,
carteiro,palidez
de
cardíaco,casacãode
mescla,mala de
coiro, entra peloF. D., abre
a
caixado
correio, tiraas
cartas, meie-asna mala
;depois assenta-seno banco da
E. B.,ao pé da
'^bonne^,pousa a mala,
tira o boné,limpa
osuor com
oseugrande
lençode
Alcobaça,A BONNE,
levantando-se,mal
o carteiro seassenta,echamando
a pequena, quebrincaem
voltado banco:Ande,
venha,Mimi.
O CAUTELEIRO,
entrando pelo F., a apregoar a lista, calça debelbute, boina, lençodepintasazuis aopescoço:Quer
alista geral!
10 1023
Ao
sujeito quelê:Quer
a lista?O S\}]U10,
furioso:Não
vêque
estoulendo o
jornal?Malcriado
!
O CAUTELEIRO,
afastando-se:
Está
bom.
Basta.O SUJEITO,
continuando alêr:Praga
maldita!
O CAUTELEIRO,
àBonne,
quepassa juntodelecom
acriança pelamão
:O que
vale éassim uma
carabonita,De
vezem quando.
A BONNE,
saindopelo F.:Tolo!
O CAUTELEIRO,
vendoocarteiro
eaproximando-se:
A
lista,ó camarada.
1023
11ROMÃO não
responde;oCAUTELEIRO
insiste:Vêr
a lista geral?O CARTEIRO, sem
o olhar:Não.
O CAUTELEIRO Não tem jogo
?O CARTEIRO
Nada.
O CAUTELEIRO Quê? Então não jogou
estasemana?
O CARTEIRO
Não.
Oihando-o,
com
estranheza:
Como
sabevocê que
eujogo
?12 1023
O CAUTELEIRO,
rindo:
Seu Romão
!
Olha
!Não me conhece
!- O
15...O Zé Canelas
!
O CARTEIRO
Então vocemecê anda
avender
cautelas,Homem
?O CAUTELEIRO Ando.
O CARTEIRO
Você
jánão
estáao
serviço?
O CAUTELEIRO
Jálá vai
o boné.
O CARTEIRO
Castigo,
ou que
foi isso?O CAUTELEIRO
'Qual
castigo!Ninguém me
castigou.Í023 13
O CARTEIRO
Hom'essa
!
O CAUTELEIRO Uma
coisaqualquer que me deu na cabeça E
vai daí,-
adeus.Pedi
a demissão.O CARTEIRO
Falta
de
juizo, éque
é.O CAUTELEIRO,
assentandosenas cosias do banco:Falta
de
vocação.Inda não
équem quer que pode
ser carteiro.Tem mais
futuro, sim,ganha-se mais
dinheiro,É uma
posiçãomais
decente, éverdade
.. .Mas
isto,meu amigo,
é outraliberdade!
O CARTEIRO E
issoda venda,
deixaalguma
coisa?O CAUTELEIRO
Pouco.
14 1023
Por
causado pregão
andeitrêsmezes
rouco.Outro mez no
hospital...- Emfim, Deus nos
ajude.Depois
dum
silêncio,mudando
detom
:
Por
lá,vocemecê; como
vaiasaúde
?O CARTEIRO
Cançado. Incham- me
os pés. Depois,não durmo
nada.Dizem que
écoração.O CAUTELEIRO
Sobe-se
tantaescadaPausa
:
E
a petiza?O CARTEIRO,
a rir,com bonomia:
A
petiza?A minha
neta?Bem.
Coitadinha,
-morreu-lhe há
seismezes
amãe.
Tem o avô de
a deitar,de
avestir,de
entretê-laSe eu morro
parjiaí,que há-de
serfeito dela!
1023 15
O CAUTELEIRO Não pense
nisso.O CARTEIRO
Penso.
E penso muita
vez.Mudando
detom,como
afastandoum mau
pensamento:
O número da
sorte?O CAUTELEIRO,
mostrando-lhea lista :É o
mil e vintee três.Não tem jogo
?O CARTEIRO
Comprei qualquer
coisa,há
dois dias.Costumei-me
ajogar todas as loteriasNum
vigéssimo.Três
tostões.Tirandoa carteira do bolso
:
Estáaqui.
O CAUTELEIRO
Que número
?16 Í023
O CARTEIRO Não
sei.O CAUTELEIRO
Inda não
viu?O CARTEIRO,
metendoa carteira no bolso:Não
vi.Há
seisanos que
jogo,-
ede
sorte,nem
raça.O CAUTELEIRO
Dê-mo
cá,ti'Romão, que eu
vejo-lhode
graça.O CARTEIRO
Não
quero.É da pequena. -
Estáuma
mulher.Comprei-o
paraela,-
ela éque o há-de
vêr.AbrMo,
arir, elêro número ao
avô.Faz
osseteanos
hoje.É
aprenda que eu
lhedou.
O CAUTELEIRO
Deixe
vêrsempre.
1023 17
~i
o CARTEIRO
Não.
Vai elavê-loao
estanco.Com
tristeza, tirando otabaco:E
depois,paraquê
? Isto sáisempre branco
!Oferecendo:
Um
cigarro?O CAUTELEIRO,
tirandoum
cigarroPois
vai.Vendo
oRomão
acenderaisca:Tome
tentocom
isso.O CARTEIRO
Mas
você,porque
foique deixou o
serviço?Que diabo
! Isto já foipeor do que
é agora.Deitaroitotostões pela janela fora
!
O pão
certo,—
e depois,o amparo da
velhice.. .Ou eu me engano
muito,ou você
fez tolice,2
lÔ 1023 ____
o CAUTELEIRO
Sim,
talvez.O CARTEIRO Só
sealguém o ofendeu
...
O CAUTELEIRO
Não. Ninguém.
O
serviço erapouco
etratavam-me bem.
O CARTEIRO Nenhum
castigo,nem
...
O CAUTELEIRO, com or^lho:
Nem uma repreensão
!
O CARTEIRO Mas houve uma
razão...
O CAUTELEIRO
Sim,
houve uma
razão.Que diabo
!Um
passoassim não
sedá sem
motivo.1023 19
O CARTEIRO Nomearam
outrosupra
?O CAUTELEIRO
^.
Eu
já era efectivo.Não. A
coisafoi outra.Olhe: quer que
lhediga ?A minha demissão deu-ma uma
rapariga.Não
devia ir-meembora
; êleas razões sãoboas
;Mas
isto,a gente cria afeiçãoàs pessoas,E depois
custamuito
...A
vida éuma
cadela!
Isto, ter
coração
.. .Mudando
detom
eescondendoacomoção:Venha
lá acautela.Deixe
vêr isso. Fica a história p'ra outravez.Cantarolando, pensativo:
O número da
sorte éo
mile vinte etrês.. .O CARTEIRO,
depoisdum
silêncio :Foi uma
raparigaentão,que
...que
.. .O CAUTELEIRO
Coitada
!
20 1023
O CARTEIRO Mas que demónio
foique
ela lhefez?O CAUTELEIRO
Hum
...Nada.
Recordando, vagamente:
Há
setemezes
...Tinha entrado
aprimavera
.. .O CARTEIRO,
amedo
:
Companheira
?O CAUTELEIRO
Não,
não.O CARTEIRO
Irmã
?O CAUTELEIRO
Também não
era.1023 21
O CARTEIRO Noiva
?A um movimento
dooutro:
Pode
dizer,homem. Sou
seuamigo.
O CAUTELEIRO, com
tristeza:Sim,
ela iacasar,-mas não
eracomigo.
O CARTEIRO
Nem companheira, nem
irmã,nem namorada
.. .Que
seimporta
você, seelanão
lheeranada
?E que
fosse!As
paixões-inda
asque mais consomem !- Não valem o
futuro ea carreiradum homem.
O CAUTELEIRO Eu
lhe conto.Depois
dum
silêncio:Há um
ano,ano
emeio
talvez,Tive
a distribuição.. ,22 !023
O CARTEIRO Da zona 2
?O CAUTELEIRO Da
3.Nesse tempo -envelhece
agente a recordar!- Na
ruada
Barroca, oitenta, quarto andar,Morava uma pequena, olhos
grandes, airosa,Que engomava
p'ra fora e sechamava
Rosa.Nunca
viuma
côrde
peletão bonita!
Sustentava
um irmão pequeno,
coitadita,Mas sempre
tãoalegreesempre
tãocontente,Que
sóo
vê-larirdava
alegria àgente!
O CARTEIRO,
querendorecordar-se:Rosa
.. .Vivamente
:
Uma russa?
O CAUTELEIRO
Não.
Trigueira.Há mais
Marias,1023 23
Pausa
:
Eu
ia-lhe levartodos os
oito diasUma
cartado
Rio.Amores, com
certeza.Não
falhava:em chegando
aMala
Real Inglesa,Lá vinha
para aRosa
a cartado
Brazil.Comecei com
azona
aípor
finsde
abril:Pois durante o ano todo — o que o
destinoengana! — A
cartanão
falhouuma
únicasemana.
Quarta-feira, era certo:
esperava-me
àjanela.E em me vendo
chegar,—
ai, aalegria dela!Ria, batia as
mãos,
par'ciauma
criança!Dava
logo a notícia a toda a vizinhança, Iaa correr à porta,-e eu não
viamais
nada.Subia de galgão
oito lançosde
escada:
-
«Adeus, menina
Rosa, entãocomo passou
?»
Uma
escadatão alta,—
enunca me cançou
!Pausa, recordando-se:
Uma
vez—
éverdade
!— uma
vez, tardei mais.Muita
correspondência,uns poucos de
jornais.. .Não me
esperava já.Quis
experimentá-la.Entrei, peguei
na
carta, escondi-ana
mala,Subi
aescada a rir, toqueiàcampainha
...
— «A
respeitode
carta erauma
vez.Rosinha
!Hoje não
veio!»-
«Não
?»- Poz-se
branca,pasmada Se não
lhe deito amão,
caía estatelada.-
«Tome
lá!Aqui tem
! Veja,menina Rosa
!»24 1023
Fincou
asmãos na
carta,e ficou tão nervosa,Tão
tonta,tão contente,—
inda a sinto, inda a vejo !— Que
riu,chorou,dançou,
eno fim deu-me um
beijo.Quando alguém
sequer bem, -veja
lá, vejalá:Um nada de
papel aalegriaque dá
!
Pausa:
Era o meu pensamento uma semana
inteira:
Irlevaraalegriaà
Rosa engomadeira.
Emquanto não chegava
a carta,eu não
vivia.—
«Que diabo
hei-de fazer se elafalharum
dia?»—
Pensava.
E
iasempre
atremer
p'rao
correio.. .Té que um
diachegou em que
a cartanão
veio.Poz-se-me um
nó, aqui, aapertar-me
a garganta.Tinha
entradoo
paquete,-e
tanta carta, tanta!Que remédio
...Lá
fui para a distribuição.Havia de
dizer-lheaverdade?
Isso não.Caía
paraaídoente,- pobre Rosa!
A
mentiraémelhor porque
émais
caridosa.— «Que o Avon não chegou
... Acontecia, às vezes. .Umá pouca vergonha,
os paquetes ingleses!
Que
talvezno
outrodia,ou no
outro...»Pobre
dela Passeina
rua, olhei,não
avi àjanela.— «Ao menos não
a vejo.Antes
assim.»- A
gente.. .Isto,olhar
que não
vê,coração que não
sente!Ficavap'rá
semana. Era
coisaarrumada.
Oito
dias depois, outro paquete,-e
nada.Indaguei, procurei... Aquilo, pensei eu,
Ou o homem
adeixou - o
canalha!- ou morreu
.. ._^ 1023 25 O CARTEIRO,
reflexivo, escutandoQuando gostam dalguêm
sãoumas
desgraçadas!O CAUTELEIRO
Lá
fui; passeina
rua:as janelas fechadas.Inda me lembro:
asmãos puzeram-se-me
frias.Havia
coisa, olá.Sem
cartahá quinze
dias,A pequena,
enão vinha
esperar-me
à janela?Entrei
na
sôbre-loja e perguntei à adela,Uma
alta,bexigosa:- «Olhe
lá,ó
vizinha.Que
éda menina Rosa?» -
«Está doente.»- «A Rosinha?'
- «Tem
estadomuito
mal.Já lá foio doutor
...»Quis
ir vê-la, subir,-mas sem
cartaera peor. • Ia afligi-la mais.Era pena perdida
...
Deitei a
mão
àmala
eláme
fuià vida.Passou-se
uma semana,
outrasemana
inteira,Dois
paquetes, -atéque numa
quarta-feira, Fui a ver,-vinha
carta!A
carta,finalmente!Ai,
você
sabe lácomo eu
fiqueicontente!Vêr
aRosa
!Poder,
p'laminha
própriamão,
Ir levar-lhe a saúde, avida,a salvação!
Que
alegria p'raela,-e
p'ramim, que
alegria!Uma
carta,um
papel,um
nada,-e o que
valia!Não o dava
aninguém por todo o
oirodo mundo!
Entregaram-me
amala
e abalei,num segundo.
Subi
arua.Não
vi gente.Não
vi nada.26 1023
Já
me
caíaem baga o
suor.Galguei
aescada, Batià porta:não responderam.
BatiMais:
ninguém. Inda
mais:mas -que
diabo!-era
ali,Não me
tinhaenganado
...E ninguém respondeu.
Desço ao andar de baixo:- «A Rosinha?» -«Morreu.
Enterrou-se
ontem mesmo.
Estavadoente há um mez».
Nesse
dia, choreipela primeiravez.Porque
foique
anão
vi?Que
anão
quisvêr? Covarde!
Ai,as cartas
d'amor porque chegam
tão tarde?E porque
condição,porque
triste segredo,E que
asrosas,Senhor,
sedesfolham
tãocedo?
O CARTEIRO,
depoisdum
silênciode comoção:Para que
cemitério alevaram?
O CAUTELEIRO
Prazeres.
As
vizinhasde
baixo,umas pobres
mulheres,Informaram-me
então:-«Nâo
sabeo que
amatou?
A
cartaque o senhor
lhe trouxehá um mez. Entrou
A adoecer
...Coitada
!Há muita
gente vil!
Mandaram
ládizerao noivo
p'rao
BrazilQue
elatinhapor
cáum homem em Lisboa
.. .Falsidade
maior! E
êle, é claro, deixou-a...*A
cartade há um mez,
a cartaque
lhe dei.Que
ela aceitou a rir,-ecom que eu
a matei!!023 27
E
acartaque
talveza viessesalvar,-
Era
tardedemais
paraeu
lh'apoder
dar!Mas embora, -que
diabo!O meu
dever, primeiro:Tinha
aliuma
carta.Era
eu,ou
não, carteiro?Pois
bem!
Iafazer- coragem, coração !-
Pela última vezuma
distribuição.E
fuiao
cemitério.Era um
horto,um jardim
:Coval
dois mil e seis,uma
cruzláno
fim .. .Muito
sol,muita
flor,a terra indamolhada
.. .Levei-lhe a última carta à última
morada.
Elajá
não
a lia,anão
ser ládo
céu;Mas
haviade
ouvir-me. Abri-a, e li-lhaeu
:
Recitando a carta, decor:
-«Minha querida
Rosa.Eu
torno-te a escrever P'rate pedirperdão do que
te fiz sofrer.Sei já
que me enganei (Deus
lhesdê o
castigo!)Vou breve
aPortugal
para casarcomtigo
...»Numa
lágrima:
Foi preciso
morrer
p'raser feliz...Tão nova!
Lá
lhe deixei a cartaentreas floresda
cova,Escondida na
terra,ao pé do coração
...
Duas horas
depois, pedi a demissão.O CARTEIRO,
reflexivo:Desgraças! E
avida,-é o que
é.E
a vida.O
futuro cortado, a carreira perdida. , ,28 1023
O CAUTELEIRO
Foi
asneira,talvez.Mas que
diabo,-
indabem
!
Já
não torno
a levaradesgraça
aninguém.
O CARTEIRO
Ora! Quem
sabe lá! Isto,a vidaou
amorte
.. .O CAUTELEIRO
Meti-me
a cauteleiro,-
eagora vendo
asorte.O CARTEIRO
E eu compro-a.
O CAUTELEIRO
Mas
tenho,ou má
estrela,ou não
sei:Há
seismezes que
avendo, -
eainda não
a dei.
O CARTEIRO
Há
seisanos que
acompro, -e
ésempre por um
triz!1023 29
O CAUTELEIRO Deve
sermuito bom
fazeralguém
feliz!O CARTEIRO,
tristemente:A minha matacão
é a petiza, coitada...Era o
dotep'raela,-
e ficavaarrumada.
O CAUTELEIRO
Deixe
lá, ti'Romão. Uma
vez éa primeira.Quem
sabeseaítraz asortena
algibeira!O CARTEIRO Qual
história!
Tiratidoacarteira dobolso
:
E depois
. ..
Hesitando:
Isto,
assim como assim
.. .Resolvendo-seetirando o vigéssimo
da
carteira :Veja
lásempre o meu
vigéssimo.30 1023
O CAUTELEIRO,
recebendoobilhete dobrado:Pois
sim.Abre, olha, aexpressão ilumina-se-lhe: •
É o
mil e vinte etrês!É
asorte,Romão!
São
seiscentosmil réis!
O CARTEIRO,
mortalmentepálido, vacilandoelevando amão
aopeito:Ah!
O CARTEIRO
Que
élá isso?Então
IAmparando-o,
aflicto:Compadre
!
O CARTEIRO, numa
vozsumida
eestrangulada:A minha
neta...Um irmão meu, no Porto
.. .»
O CAUTELEIRO
Então
...Ó camarada! - Um copo d'água
...
Vendo-oresvalardebruços,
na
terra :Morto
!
1023 31
Gritando:
Valha-me Deus!
O SUJEITO,
aproximando-seiQue
foi ?O CAUTELEIRO
Um camarada meu
.. .Tinha
jogo, quis vêr... Dei-lhe a sorte,-
emorreu.
O SUJEITO,
aum guarda
do jardim, quesechega:Morto.
Junta-segente: garotos,
uma
varina, etc.O GUARDA,
ao garoto:A
esquadra.Uma maca. O
chefeque ma mande
.. .O CAUTELEIRO,
ao sujeito, olhandotristemente o vigéssimo eo cadáver:E
éa primeira vezque eu dou
a sortegrande
!
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D3M5
19—
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