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Renata Monteiro Machado Ishida

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Academic year: 2019

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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO

PROGRAMA DE ESTUDOS PÓS-GRADUADOS EM PSICOLOGIA SOCIAL

Renata Monteiro Machado Ishida

Discursos de agentes comunitárias de saúde do município de

São Paulo sobre creche

Mestrado em Psicologia Social

.

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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO

PROGRAMA DE ESTUDOS PÓS-GRADUADOS EM PSICOLOGIA SOCIAL

Renata Monteiro Machado Ishida

Discursos de agentes comunitárias de saúde do município de

São Paulo sobre creche

Mestrado em Psicologia Social

Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência para obtenção de título de Mestre em Psicologia Social, sob orientação da Profa. Dra. Fúlvia Rosemberg.

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Banca Examinadora

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AGRADECIMENTOS

À Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, por ser minha casa de formação profissional e acadêmica, onde me fiz psicóloga e encontrei pessoas fundamentais na minha vida.

Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), pelo financiamento concedido, sem o qual a realização desta pesquisa não seria possível.

À minha orientadora Fúlvia Rosemberg, pela persistência no trabalho da formação de seus orientandos, pela competência na correção dos trabalhos, mas, principalmente, por me apresentar um novo campo de conhecimento, abrindo caminhos para outros diálogos profissionais e acadêmicos.

À Cris Vicentin, cuja presença na minha trajetória psi está marcada desde a

graduação, por me convocar a novos olhares, pela generosidade nas discussões, pela preciosas oportunidades de trabalho e pela confiança depositada. E ainda participar da banca examinadora! Contribuições que reverberam em mim em diversos aspectos da vida.

À profa. Eliana Saparolli, pelas ricas contribuições a este trabalho, pela seriedade, competência e disponibilidade.

Ao Núcleo de Estudos de Gênero, Raça e Idade (NEGRI), onde foi possível construir coletivamente o conhecimento, além de encontrar apoio para os obstáculos do percurso da formação. Em especial, Martita e Sil que estavam junto nos choros e conquistas.

Aos queridos: Miguel, Rafa, Roberth, Dom, Dayse, Lívia, Lu, Alyne, pelo companheirismo nos martírios e martinis. Por fazer da academia um lugar dos bons encontros.

À Marlene Camargo, pela prontidão no atendimento e auxílio das mais diversas questões que atravessamos nesse caminho.

A todos os professores e colegas de profissão que fizeram parte de algum momento da minha história, por me lapidarem na melhor profissional e (quase) pesquisadora que posso ser.

E, claro...

Aos meus pais, por sempre acreditarem que eu posso mais do que eu acho, por me transmitirem que a educação é um bem que ninguém te tira e me fazerem querer saber sempre mais.

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À Mari, minha pronto-socorrista, por me salvar nos apuros da madrugada, pela generosidade de abrir mão do seu computador, pelas conversas, por estar tão perto. Sempre.

À Aninha e à Té, que fazem, comigo, o trio mais multi e amado, por me darem o riso e o colo, a dança e o choro, as viagens e o abrigo.

Aos amigos: Ju, Gi, Bruno, Lu, Fi, Pucci e Carol, por acompanharem, cada um ao seu jeito, os passos dessa jornada e vibrarem comigo às pequenas conquistas da vida.

Às irmãs que eu escolhi: Dé, Rê e Má. Elas, que mesmo não estando no dia-a-dia, seguem sendo meus portos seguros, por me acompanharem na tarefa árdua que é crescer e se tornar adulto, mas ainda conseguem manter a espontaneidade de antes e a aquela gostosa e incontrolável vontade de rir. À minha banda favorita, Orquestra Voadora, por me fazer voar em tempos em que somos tão puxados ao chão.

Ao Marcelo, meu amor, por ser a parte mais alegre do meu dia, por musicar a minha vida, por mostrar que não existem fronteiras. Por me dar o Rio de Janeiro inteiro e todos os banhos de mar.

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RESUMO

A pesquisa tem como objetivo descrever e interpretar discursos de agentes comunitárias de saúde (ACS) do município de São Paulo sobre creche à luz da teoria de ideologia de John B. Thompson (2009). Ela integra um conjunto de pesquisas que vem colhendo, descrevendo e interpretando discursos proferidos por diversos atores sociais adultos sobre creche e/ou bebê, sua educação e cuidado. Nosso interesse político é compreender a posição deferida para o bebê e suas instituições, principalmente a creche, na sociedade. Esta pesquisa focalizou discursos proferidos por ACS sobre creche, tendo em vista sua posição estratégica na Atenção Básica de Saúde, por serem moradoras da região das pessoas atendidas, realizarem visitas domiciliares, com a função primordial de estabelecer um vínculo entre serviço de saúde e comunidade. O arcabouço teórico foi constituído pela teoria da ideologia (THOMPSON, 2009) e pelos Estudos Sociais da Infância, e a perspectiva metodológica Hermenêutica de Profundidade (HP) proposta por Thompson (2009). Para a descrição dos dados, foram utilizadas técnicasde análise de conteúdo propostas por Bardin e Rosemberg. Após gravação e transcrição das entrevistas, os dados foramorganizados em núcleos de sentido. Nas entrevistas transcritas, foi apreendida uma concepção de creche cuja principal função é suprir a necessidade das mães que trabalham.

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ABSTRACTO

La investigación tiene como objetivo describir e interpretar los discursos de agentes comunitarias de la salud (ACS) del municipio de São Paulo sobre la guardería, bajo la luz de la teoría ideológica de John B. Thompson (2009). Esta investigación integra a su vez un conjunto de investigaciones que recogen, describen e interpretan discursos de vários actores sociales adultos sobre la guardería y/o los bebés, su educación y cuidado. Nuestro interés político es comprender la posición concedida al bebé y sus instituciones, principalmente la guardería, em la sociedad. Esta investigación se centro em los discursos de los agentes comunitarios de la salud (ACS) sobre la guardería, teniendo encuenta suposición estratégica em la Atención Básica de la Salud, por ser habitantes de las regiones de las personas atendidas, por realizar visitas domiciliares, com la función primordial de establecer un vinculo entre el servicio de salud y la comunidad. El esqueleto teórico está constituido por la teoría de la ideología (THOMPSON, 2009) y por los Estudios Sociales de la Infancia, y la perspectiva metodológica Hermenéutica de la Profundidad (HP) propuesta por Thompson (2009). Para la descripción de los datos, se han utilizado técnicas de análisis de contenido propuestas por Bardin y Rosemberg. Después de la grabación y transcripción de las entrevistas, losdatos se organizaronen núcleos de sentido. Em las entrevistas transcritas, se ha revelado una concepción de guardería cuya principal función es suplirla necesidades de las madres trabajadoras.

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ÍNDICE DE QUADROS E TABELAS

Quadros

Quadro 1 - Teses e dissertações já defendidas do NEGRI, que analisaram discursos sobre a creche, o bebê, sua educação e

cuidado... 10

Quadro 2 - Delineamento geral dos enfoques da nova Sociologia da Infância...23

Quadro 3 - Taxas de frequência à creche ou escola de crianças de 0 a 6 anos por localização e variáveis selecionadas ... 51

Quadro 4 - Número de creches diretas e vagas disponíveis por administração e período. Município de São Paulo... 58

Quadro 5 - Caracterização das entrevistadas ... 99

Quadro 6 - Tempo de serviço como ACS e formação das entrevistadas ... 100

Quadro 7 - Aspectos ensinados sobre o bebê nos cursos de formação de ACS... 102

Quadro 8 - Definição de creche ... 104

Quadro 9 - Definição de creche de qualidade... 106

Quadro 10 - Diferenças entre a rotina da creche e a rotina de casa ... 108

Quadro 11 - Diferenças entre o creche e pré-escola ... 109

Quadro 12 - Concepção de bebê e de sua idade ... 111

Quadro 13 - Diferenças entre creche pública e creche privada ... 113

Quadro 14 - Melhor opção de educação e cuidado para o bebê... 116

Quadro 15–Bebê para quem a creche é destinada ... 117

Quadro 16 - Idade ideal do bebê para ingressão à creche... 118

Quadro 17 - Horário ideal para o funcionamento da creche... 120

Quadro 18 - Diferenças entre crianças que frequentam a creche pública das que frequentam creche privada... 123

Quadro 19 - Informações sobre as famílias das ACS atendidas em relação à creche ... 126

Quadro 20 - Estado tem responsabilidade para com o bebê ... 128

Quadro 21 - Responsabilidades do Estado para com o bebê ... 129

Quadro 22 - Interesse dos políticos pelas questões do bebê... 130

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Tabelas

Tabela 1 - Distribuição da porcentual de teses e dissertações das idades das crianças referidas às creches ...31 Tabela 2 -Distribuição por frequência do percentual de teses/dissertações por

estado brasileiro, entre 1987 e 2011... 40 Tabela 3 - Taxas de frequência à creche ou escola, por faixas de idade e

situação de domicílio. Brasil, 2010... 50 Tabela 4 - Taxa de frequência à creche ou pré-escola por faixa de idade.

Município de São Paulo, 2010... 61 Tabela 5 - Taxa de frequência à creche por classe de rendimento. Município de

São Paulo, 2010...63 Tabela 6 - Número e percentual de creches da rede municipal que dispõem de

componente selecionados de infra-estrutura básica por condição administrativa município de São Paulo, 2011....64 Tabela 7 - Docentes que atuam em creches, segundo a escolaridade e a

dependência de ensino da instituição. São Paulo, 2011... 65

Mapa

Mapa 1 - Taxa de frequência líquida em creche por distrito. Município de São Paulo, 2011...57

Gráfico

Gráfico 1 - Número de teses e dissertações com o descritivo creche publicadas

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LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

ABS Atenção Básica de Saúde ACS Agente comunitária de saúde APS Atenção Primária à Saúde

CASMU Comissão de Assistência Social Municipal

CAPES Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior CEU Centros Educacionais Unificados

CF/1988 Constituição Federal de 1988

COBES Coordenadoria de Bem-Estar Social CLT Consolidação das Leis do Trabalho DCB Departamento da Criança no Brasil DSN Doutrina de Segurança Nacional DSS Divisão de Serviço Social

ECA Estatuto da Criança e do Adolescente EI Educação Infantil

ESF Estratégia de Saúde da Família ESG Escola Superior de Guerra

FABES Secretaria da Família e do Bem-Estar Social

FUNDEB Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais de Educação

FUNDEF Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério

HP Hermenêutica de profundidade

IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística Inep Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas LBA Legião Brasileira de Assistência

LDB Lei de Diretrizes e Bases

MDB Movimento Democrático Brasileiro MEC Ministério da Educação

MS Ministério da Saúde

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OSM Organização Mundial da Saúde

PACS Programa de agentes comunitários de saúde PAS Programa de Assistência de Saúde

PIASS Programa de Interiorização de Ações de Saúde e Saneamento PNE Plano Nacional de Educação

PSF Programa de Saúde da Família SAS Secretaria de Assistência Social SEBES Secretaria de Bem-Estar Social SF Saúde da Família

SUBES Superintendência do Bem-Estar Social SUS Sistema Único de Saúde

UNESCO Organização das Nações Unidades para a Educação, a Ciência e a Cultura

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO... 9

1 TEORIA E MÉTODO ...16

1.1. Estudos Sociais da Infância...16

1.1.1 Os enfoques teóricos dos Estudos Sociais da Infância ... 22

1.1.2 Tensões nos Estudos Sociais da Infância... 26

1.2 Teoria de ideologia... 28

1.3 Método... 26

2 CONTEXTO SÓCIO-HISTÓRICO: creches e agentes comunitárias de saúde... 38

2.1 Creche ... 38

2.1.1 Creches no Brasil ... 38

2.1.2 Creches no município de São Paulo... 54

2.2 Estratégia de Saúde da Famíliae a Agente comunitária de saúde ... 67

2.2.1 Estratégia de Saúde da Família... 67

2.2.2 Agentes comunitárias de saúde ... 76

2.2.3 Agente comunitária de saúde, o bebê e a creche... 77

3 DISCURSOS SOBRE CRECHE PROFERIDOS POR AGENTES COMUNITÁRIAS DE SAÚDE ... 92

3.1 Procedimentos ... 92

3.1.1 Constituição do corpus ... 92

3.2 Cuidados éticos ... 98

3.3 Resultados ... 99

CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 134

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS... 138

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ANEXO 2: Linha do tempo da EI no Brasil ...186

ANEXO 3: Termo de consentimento livre esclarecido ...189

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INTRODUÇÃO

O objetivo desta pesquisa é descrever e interpretar discursos proferidos por agentes comunitárias de saúde1 (ACS) do município de São Paulo sobre creche. Ela faz parte do projeto coletivo do Núcleo de Estudos de Gênero, Raça e Idade (NEGRI), do Programa de estudos Pós-Graduados em Psicologia Social, que vem estudando o processo de construção social da infância, a partir da análise das concepções de atores sociais sobre o bebê e a creche.

Em seu conjunto, este projeto coletivo busca apreender e analisar, criticamente, a posição de subalternidade social outorgada ao bebê em detrimento de outras idades, visando tirar a pequena infância da invisibilidade e colaborar para a construção de uma proposta de cuidado e educação democrática e de qualidade para essa faixa etária. O NEGRI trabalha no desenvolvimento do campo de conhecimento dos Estudos Sociais da Infância, que concebe a infância como categoria social no contexto das relações de idade como etapa subordinada à adultez, concepção compartilhada nesta pesquisa.

Adotamos a perspectiva de reconhecer a creche como direito à educação de crianças de até 3 anos, conforme instituído pela Constituição Federal de 1988. Porém, ao confrontar o reconhecimento desse direito à educação à prática de sua implementação, observa-se uma desvantagem do bebê em relação a outras idades, inclusive crianças de 4 e 5 anos. De acordo com o Censo Demográfico de 2010, a taxa de frequência à creche/pré-escola na faixa etária de 0 a 3 anos era de 23,5%, já para aquelas com idade de 4 a 5 anos, a taxa chegou a 80,1% (ROSEMBERG; ARTES, 2012).

Na ausência de uma concepção explícita e unívoca para especificar a etapa da vida aqui focalizada, temos, no NEGRI, considerado bebê crianças de 0 a 3 anos, as quais poderão também ser chamadas de criança pequena, neste texto, como forma de evitar muita repetição. Creche, por sua vez, é a instituição de educação e cuidado para criança de 0 a 3 anos, denominação estabelecida pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional 9394/96.

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10 A grande linha de pesquisa do NEGRI, a construção social da infância no Brasil, engloba um eixo investigativo que busca apreender e analisar discursos proferidos por diversos atores sociais sobre a creche, o bebê, sua educação e cuidado.

Quadro 1: Teses e dissertações já defendidas do NEGRI, que analisaram discursos sobre a creche, o bebê, sua educação e cuidado.

Ano Título Autor (a)

2008 A criança pequena, seu cuidado e educação em

discursos de homens-pais Bárbara Galvão

2010 O bebê, sua educação e cuidado em discursos

de mães de camadas médias Elaine Cardia Laviola

2011 Discursos sobre a creche na revista Pais e

Filhos: análise da ideologia Leila Nazareth 2011 Uma interpretação à luz da ideologia de

discursos sobre o bebê e a creche captados em cursos de Pedagogia da cidade de São Paulo

Lourdes Pereira de Q. Secanechia

2011 Concepção de creche em revistas brasileiras de Pediatria: uma interpretação a partir da

ideologia

Flávio Urra

2012 Discursos sobre creche no jornal Folha de S.

Paulo on line (1994-2009) Carla Pellicer dos Santos 2013 Discursos de avós sobre bebê, sua educação e

cuidado Maria Eduarda A. Torres

Fonte: Elaborado pela autora.

O conjunto de pesquisas atuais, especificamente, sobre creche vem complementar uma trajetória de trabalhos anteriores sobre educação infantil (EI) de modo mais amplo.

Além desta dissertação, a esse grupo também se unem as pesquisas que pretendem analisar discursos sobre creche e/ou educação e cuidado de bebês proferidos por mães negras (SILVA, 2014), diretores de Centros de Educação Infantil paulistanos (BORGES, 2014), conselheiros de direito do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (SANTOS, 2014a) e aqueles captados durante a campanha eleitoral para a prefeitura de São Paulo de 2012 (SANTOS, 2014b).

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11 contexto familiar. A concepção de fragilidade e dependência atribuída à criança pequena diminui a relevância do direito à educação dos bebês nas negociações da agenda de políticas sociais.

A creche, nesses discursos, aparece, de modo geral, de forma negativa, como instituição de “risco” para a integridade do bebê e cujos serviços seriam de baixa qualidade, voltados principalmente para crianças pobres filhas de mães trabalhadoras (GALVÃO, 2008; LAVIOLA, 2010; SECANECHIA, 2011; TORRES, 2013). Tal ideia também foi captada em discursos midiáticos, como mostram Nazareth (2011), Urra (2011) e Santos (2012). Carla P. Santos (2012), por exemplo, em sua pesquisa sobre os discursos divulgados pelo jornal Folha de S. Paulo online, mostrou que a creche é estigmatizada e apresentada como instituição de caráter assistencial, voltada apenas à população de baixa renda. O bebê, nesses estudos, aparece ocupando uma posição de subalternidade em comparação às demais faixas etárias.

Para interpretar esses discursos no âmbito da compreensão de relações de poder, muitas de nossas pesquisas do NEGRI, inclusive esta, têm utilizado a teoria de ideologia, tal como foi proposta por Jonh B. Thompson (2009), em seu livro Ideologia e cultura moderna: teoria social crítica na era dos meios de comunicação de massa.

À luz da teoria de Thompson (2009), consideramos os discursos como formas simbólicas que podem, em determinados contextos, ser interpretados como ideológicos, o que significa que, em determinadas circunstâncias, podem estabelecer e sustentar relações de poder sistematicamente assimétricas entre categorias sociais. As pesquisas do NEGRI, que utilizaram como aporte teórico a teoria de ideologia crítica de Thompson (2009), compreendem que os discursos produzidos e divulgados pela mídia, por exemplo, têm sustentado relações de dominação da adultez em relação à infância, cujo poder de reivindicação pelos seus direitos públicos depende do adulto (URRA, 2011; SANTOS, 2012).

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12 Atenção Básica de Saúde2 (ABS), mais especificamente das agentes comunitárias de saúde (ACS), que trabalham no contexto da Estratégia de Saúde da Família (ESF).

Além de um interesse pessoal pela área da saúde, por ter trabalhado na ABS do município de São Paulo durante os últimos anos3, estudar discursos proferidos no contexto da saúde faz sentido na medida em que, em cenário nacional e internacional4, os temas da mortalidade e morbidade infantil têm constituído uma das principais ênfases voltadas para o bebê (e mesmo à criança de até cinco anos). De acordo com Teixeira (2006), no sentido de diminuir a taxa de mortalidade e morbidade infantil, gestantes e crianças de até 2 anos de idade, no Brasil, são consideradas prioridades nas políticas de saúde pública, recebendo cuidados através de programas como o incentivo à amamentação e vacinação e o acompanhamento da gestação e da puericultura.

O protagonista de cuidado e intervenção da ABS é a Estratégia de Saúde da Família (ESF), proposta de reorganização da rede de saúde que tem, entre outras, a finalidade de: “integrar ações de promoção e prevenção de saúde, racionalizar recursos destinados à atenção secundária e terciária, promover integração do SUS com universalidades e definir políticas de recursos humanos para atender os serviços de saúde” (TEIXEIRA, 2006, p.92).

Para viabilizar esses objetivos, a ESF recorre ao trabalho específico e relativamente recente no Brasil das ACS, moradoras da região, cuja missão principal é tentar estabelecer uma vinculação entre os profissionais da saúde e a população, no sentido de ampliar a eficácia das ações de saúde e favorecer a participação da comunidade nessas ações (GARBIN e colaboradores, 2011).

As ACS devem realizar visitas domiciliares mensais às famílias cadastradas no Sistema Único de Saúde (SUS) de sua região, visando a

2

A ABS é considerada como a porta de entrada para o sistema nacional de saúde, é através dela que os indivíduos, as famílias e as comunidades podem participar de um processo de atenção continuada (TEIXEIRA, 2006), como veremos no capítulo 2.

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A autora foi psicóloga de uma equipe NASF (Núcleo de Apoio à Saúde da Família) entre 2009 e 2011, na região sudeste paulistana, e ocupou o cargo de coordenadora de quatro equipes NASF, durante quatro meses do ano de 2014, na zona norte do município.

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13 acompanhar o processo de saúde-doença de maneira mais integral, o que inclui, desse ponto de vista, questões relacionadas à moradia, trabalho e educação. No caso das famílias com gestantes e/ou bebês, prevê-se que essas visitas sejam intensificadas (SILVA, 2002) e, consequentemente, a interação das famílias com a ACS de referência também tenderia a aumentar.

Embora instituída por lei, a profissão ainda não dispõe de uma formação específica e adequada e não possui código de ética que regule seus direitos e deveres (GARBIN e colaboradores, 2011), o que pode favorecer, ao nosso entender, a produção e circulação de formas simbólicas passíveis de serem interpretadas como ideológicas via produção e reprodução de discursos do senso comum.

A qualificação profissional das ACS fica sob responsabilidade do gestor de cada região, por isso não foi encontrado, nos documentos do Ministério da Saúde (MS), um modelo específico de curso para sua formação. O que o MS estipula como referência para todas as equipes de SF são materiais didáticos que ele mesmo produziu: manual O trabalho do agente comunitário de saúde (BRASIL, 2009a) e o Guia prático do agente comunitário de saúde (BRASIL, 2009b). Porém não indica como e quando esses documentos devem ser apresentados e tratados com as ACS.

Apesar de a proposta da ESF ser ampla e contemplar questões educacionais, não relaciona a creche como parte sistema educacional, situação semelhante aos resultados da análise de Urra (2011) sobre discursos captados em revistas científicas de Pediatria, quando apreendeu que artigos analisados não mencionam a creche como um direito da criança.

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14 Tal tratamento é contrário à tendência contemporânea, como se pode encontrar em Martins (2008), quando afirma que a responsabilidade do cuidado infantil não é exclusiva da família, mas um compromisso da sociedade, por isso, mais projetos conjuntos entre saúde e educação deveriam ser realizados. Atualmente, os principais profissionais com a função de estabelecer o vínculo entre serviço de saúde e comunidade são as ACS, consideradas, pelo MS, como líderes nas regiões em que trabalham e habitam.

A posição estratégica que as ACS ocupam permite contato com diversos atores sociais que compõe a ABS, entre técnicos de saúde e usuários do serviço. Dessa forma, apostamos que seus discursos profissionais poderiam ser revestidos de autoridade, assumindo posições hierarquicamente empoderadas que, por sua vez, poderiam, ou não, estar a serviço de relações de dominação. Daí nosso interesse em analisá-los à luz da teoria de ideologia de Thompson (2009).

Com a aprovação do projeto de pesquisa no comitê de ética da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) na Plataforma Brasil, foram entrevistadas cinco ACS.

A partir da leitura atenta das transcrições das entrevistas, apreendemos discursos ambíguos, que apontam para essa circulação pelos diversos espaços da rede de saúde.

Com relação à creche, as ACS, de maneira geral, caracterizaram-na como uma instituição voltada principalmente aos bebês cujas mães trabalham. As sugestões de horário de funcionamento da creche bem como a idade considerada ideal para o bebê começar a frequentá-la foram associadas às necessidades das mães.

Se casa foi tida como locus prioritário para a educação e o cuidado das crianças pequenas, nem por isso a creche foi descrita de maneira negativa. A proximidade com as instituições da região, bem como com famílias que as utilizam, pode ter favorecido para com a manifestação de aspectos positivos apontados pelas entrevistadas sobre a creche, em especial a creche pública. Entretanto, tais aspectos ainda indicam uma concepção mais assistencialista do que educacional da instituição.

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15 teóricos e a metodologia utilizada. Além da teoria de ideologia de Thompson (2009), utilizaremos como referencial teórico os Estudos Sociais da Infância, que também têm contribuído com o NEGRI nas discussões sobre o lugar da infância/criança na sociedade ocidental. Esses estudos concebem a infância como construção social e criança como ator social, sujeito de direitos. Tais concepções têm contribuído para uma mudança radical nos paradigmas acadêmicos e políticos referentes à infância e à criança à medida que desnaturalizam as diferenças entre adultos e crianças e apontam desigualdades sociais em torno das relações de idade.

Como método para orientar a pesquisa, optou-se pela hermenêutica de profundidade (HP), desenvolvida por Thompson (2009). A HP prevê três etapas para o desenvolvimento da pesquisa: análise do contexto sócio-histórico da produção, circulação e recepção de formas simbólicas; análise formal dos discursos; e interpretação e reinterpretação.

Do mesmo modo que ocorreu no texto deoutros(as) colegas do NEGRI, a estrutura dos capítulos da dissertação segue as fases da HP após o primeiro capítulo.

No segundo capítulo, referente ao contexto sócio-histórico e primeira etapa da HP, realizamos a revisão da literatura sobre a história da creche no Brasil, a creche no município de São Paulo, a Estratégia de Saúde da Família e o trabalho das ACS.

O último capítulo se ocupa em apresentar os procedimentos para localização das cinco ACS e realização das entrevistas, coleta e organização do corpus, bem como sua análise.

Por fim, nas considerações finais, tentamos articular os capítulos numa síntese para a promoção de novas reflexões e abertura novos caminhos em prol da visibilidade do bebê e a luta pela conquista de seu direito à creche de qualidade.

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1 TEORIAS E MÉTODO

Neste capítulo, serão apresentados os aportes teóricos para esta dissertação, os Estudos Sociais da Infância e a teoria de ideologia, e a metodologia hermenêutica de profundidade (HP).

1.1 Estudos Sociais da Infância

Os Estudos Sociais da Infância constituem um campo teórico em construção que, aliado à ação política, postula um novo paradigma para os estudos da infância e da criança, integrando um conjunto de disciplinas das Ciências Sociais e Humanas: Antropologia, Geografia, História, Pedagogia, Sociologia e Psicologia.

Na Europa e na América do Norte, desde os anos 1980, estudiosos vêm se dedicando a esse campo de estudos: na Inglaterra, encontramos Alan Prout, Allison James, Chris Jenks, Priscila Alderson, Berry Mayall, entre outros; nos Estados Unidos, temos a significativa contribuição de Willian Corsaro; entre os franceses, estão Cléopâtre Montadon e Régine Sirota; a importante referência dinamarquesa, Jens Qvortrup; a espanhola Lourdes Muñoz; e, de Portugal, vieram os estudos de Manuel Pinto e Manuel Sarmento.

No Brasil, tal enfoque só começou a ser trabalhado a partir do ano 2000, apesar de Fúlvia Rosemberg, em 1976, já ter chamado a atenção para a postura centrada no adulto adotada pelos estudos da época. As principais autoras brasileiras, cada um com sua abordagem teórica e ponto de vista, são Fúlvia Rosemberg, Lúcia Rabello de Castro, Fernanda Müller, Ethel Kosminsky, Rita de Cássia Marchi, entre outras(os).

É importante notar que essa mudança de olhar sobre a infância/criança ocorre seguida de outros movimentos importantes de transformação da sociedade, como os da antipsiquiatria, da luta pelos direitos da mulher e pelos direitos civis, os quais também serviram como referência e sustentação para o desenvolvimento e difusão desse novo campo de conhecimento.

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17 países ou tendências. Alguns autores, principalmente os de língua francesa, denominam este campo como Sociologia da Infância, a qual tem sido considerada, por parte da produção brasileira, como a única ou principal disciplina que vem contribuindo para a mudança paradigmática nos estudos contemporâneos da infância e da criança.

A escolha do NEGRI tem sido a de utilizar a expressão Estudos Sociais da Infância, uma vez que contempla a diversidade de disciplinas que se adotam tal paradigma, como as que foram citadas no início deste item, e, ao mesmo tempo, indica a similaridade aos Estudos Feministas, os quais também não separam a construção acadêmica do movimento e disputa em torno das relações de poder, além de proporem uma ruptura epistemológica com os paradigmas naturalizantes e universais que enfatizam a determinação biológica das identidades.

No campo dos Estudos Sociais da Infância, a novidade trazida é a concepção da infância como construção social, considerando a criança como sujeito-agente do processo de socialização e colocando-a no centro das pesquisas e das preocupações políticas. Tal novidade rompe, portanto, com a concepção dominante, que adotava o homem adulto, branco como ponto de partida das perspectivas dos estudos, enquanto a infância era entendida apenas como uma etapa para alcançar a completude da vida adulta (ROSEMBERG, 1976; BURMAN, 1999).

Historicamente, de acordo com Sirota (2001), Philippe Ariès foi o primeiro a apontar para um possível rompimento paradigmático, em 1960, em sua obra L'Enfant et la vie familiale sous l'Ancien Régime, quando questionou a noção naturalizante do termo infância, abrindo caminho para a compreensão dessa como construção social.

Qvortrup (2003) afirma que o interesse por esse novo paradigma, nos estudos sociológicos, só se deu recentemente devido à marginalização dessa faixa etária, tanto política e econômica, quanto nas produções intelectuais mais tradicionais.

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18 internacionais dedicadas a aos Estudos Sociais da Infância e maior número de periódicos disponíveis nessa área de conhecimento (CORSARO, 2011). O Brasil, por sua vez, também apresentou crescimento aparente nas últimas duas décadas do número de publicações de artigos, teses e dissertações sobre esse campo, como mostraram Ribeiro e colaboradoras5 (2011).

Uma contribuição para a difusão dessa discussão entre países ocidentais veio da Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança e sua aprovação, em 1989. Além disso, segundo Sgritta (2002), a Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança, na tentativa de legislar e regular a infância internacionalmente, orientou práticas no sentido de uma mudança no estatuto da criança no Ocidente.

No entanto, essa mudança parece ainda não ter sido alcançada, tendo em vista a realidade local de milhões de crianças. Sgritta (2002) afirma que os meios, os recursos econômicos e o poder são distribuídos de maneira desigual entre as categorias etárias, sendo as crianças as mais prejudicadas. Segundo o autor, as crianças são tratadas como cidadãs secundárias, cujos interesses políticos e econômicos não ocupam lugar significativo na agenda pública.

A posição de menor prestígio ocupada pelas crianças também é discutida por Rosemberg (2006), a qual destaca que aquelas entre 0 e seis anos, pobres, negras e indígenas, residentes da região Nordeste são as mais atingidas pelas desigualdades no Brasil. Segundo a autora, essa desigualdade social evidencia um desinteresse público pelas crianças pequenas, as quais são prejudicadas pelo seu baixo poder político de negociação.

Por outro lado, Rosemberg (2006) considera que a concepção brasileira sobre a criança pequena vem sofrendo mudanças, associadas a uma urbanização recente, ao acesso quase que universal à televisão e à expansão da EI, como o reconhecimento dos pais de que seus filhos pequenos apresentam aspectos de um sujeito ativo. Porém, para a autora, tais mudanças continuam, de modo geral, imbricadas no contexto privado, familiar, mantendo a invisibilidade pública da criança pequena.

5

(25)

19 A vinculação da visão de pequena infância ao espaço privado encontrava embasamento na maioria das produções científicas até quase o final do século 20. Tais produções sustentavam uma concepção, aqui denominada tradicional6, em que a criança é concebida como passiva em seu processo de socialização. Corsaro (2011) conceitua essa concepção como um modelo de socialização determinista.

Segundo o autor, nessa perspectiva determinista, nas décadas de 1950 e 1960, grande parte do interesse em estudar a criança se dava no sentido de compreender como o processo de socialização, entendida como internalização de regras sociais, poderia garantir o controle social.

A Psicologia do Desenvolvimento foi outro campo que se debruçou acerca das questões da socialização da criança. Piaget e Vygotsky, de acordo com Corsaro (2011), contribuíram com uma percepção da criança de maneira mais ativa em seu processo de aprendizagem, porém continuaram enfatizando o tornar-se adulto como a finalidade do desenvolvimento infantil.

Nosso objetivo, aqui, não é aprofundarmos a discussão sobre as teorias da Psicologia do Desenvolvimento, mas identificar as contribuições para a consolidação dos Estudos Sociais da Infância, através de argumentações de Corsaro (2011) e Rosemberg (1976) acerca da visão adultocêntrica encontrada em algumas delas.

Para Corsaro (2011), apesar de Piaget afirmar que, em seu desenvolvimento intelectual, a criança participa ativamente, ele ocorre por meio de uma sequência universal e progressiva de estágios. Nesse caso, a criança é entendida como um ser inacabado e o ápice de seu desenvolvimento, de acordo com Rosemberg (1976), é a fase adulta, cuja imagem é de maturidade, independência e completude. Tal enfoque contribuiria para com a lógica adultocêntrica da sociedade ocidental contemporânea, legitimando o poder que o adulto detém sobre a criança (ROSEMBERG, 1976).

Vygotsky (1978 apud CORSARO, 2011), por sua vez, vai além do papel individual e ativo da criança no seu desenvolvimento, destacando a importância do contexto social em que ela está inserida e as relações que estabelece com as outras pessoas e com o mundo. Segundo o autor, todas as habilidades

6

(26)

20 psicológicas e sociais são adquiridas a partir da interação com as pessoas. Porém, na visão de Corsaro (2011), Vygotsky continua preocupado com o alcance da maturidade e o foco da abordagem acaba recaindo sobre o desenvolvimento individual novamente.

Jobim e Souza (1997) afirmam que, no campo educacional, essa concepção, encontrada em uma certa Psicologia do Desenvolvimento, contribuiu para que a criança fosse entendida como um ser em formação, que se desenvolve por etapas cronológicas, isoladas e fragmentadas, estabelecendo o padrão de organização do processo escolar.

Castro (2010) afirma que a noção de infância, como fase de dependência e incompletude, restringe o território das crianças, limitando sua circulação apenas nos espaços da casa e da escola. Dessa forma, “participar ativamente da sociedade, e ser assim reconhecida, foi postergado para mais tarde, quando a criança se tornaria, enfim, um adulto” (p.22). Enquanto não atingem essa suposta maturidade, a socialização das crianças seria de responsabilidade dos adultos, num processo de inculcação, sustentando o controle e a estabilidade social (ROSEMBERG, 1976).

Corsaro (2011) critica a concepção de que a criança internaliza passivamente e individualmente as regras sociais e propõe uma reformulação do conceito de socialização, a que chamou de reprodução interpretativa: “a socialização não é só uma questão de adaptação e internalização, mas, também, um processo de apropriação, reinvenção e reprodução” (p.31). Desse ponto de vista, compreende-se que as crianças fazem parte e produzem cultura através da criação, alteração e reprodução dela com seus pares e com os adultos. Nesta perspectiva, reconhecem-se as crianças como atores sociais.

Vasconcellos (2006) afirma que tanto a Psicologia do Desenvolvimento, como demais abordagens, que concebem as crianças como atores sociais, entendem o seu desenvolvimento de forma prospectiva, mas não previsível ou predeterminada.

(27)

21 culturas, conforme apontaram as pesquisas antropológicas de Ruth Benedict7 e Margaret Mead8 (apud QVORTRUP, 2010).

Na Antropologia, Alma Gottlieb (2009) foi ainda mais provocativa ao chamar atenção para o grupo etário menos estudado na disciplina: os bebês. Em seu artigo Para onde foram os bebês?, realiza um trabalho em busca da construção de uma Antropologia dos bebês, criticando o lugar marginalizado que ele ocupa na literatura antropológica disponível e nos estudos sobre a construção sociocultural da infância.

Os Estudos Sociais da Infância propõem, então, um novo olhar sobre as crianças, que tem sido considerado um novo paradigma, cujos principais pontos foram sistematizados por James e Prout (2003):

1. A infância é entendida como uma construção social. Como tal, oferece uma estrutura interpretativa para a contextualização/compreensão dos primeiros anos da vida humana.

2. A infância é uma variável de análise social. Ela nunca pode ser inteiramente separada de outras variáveis como classe, gênero, ou etnia. Análises comparativas e entre culturas revelam uma variedade de infâncias ao invés de um fenômeno único e universal.

3. Os relacionamentos sociais e as culturas das crianças merecem ser estudados por si mesmos em seu próprio direito, independente da perspectiva ou das preocupações dos adultos. 4. As crianças são e devem ser vistas como ativas na construção e determinação de sua própria vida social, na vida daqueles que as cercam e das sociedades onde vivem. As crianças não são apenas sujeitos passivos de estruturas e processos sociais. 5. A etnografia é uma metodologia particularmente útil para o estudo da infância. Ela permite às crianças uma voz mais direta e maior participação na produção de dados sociológicos do que é usualmente possível através de pesquisas experimentais ou de campo.

6. A infância é um fenômeno em relação ao qual a dupla hermenêutica das ciências sociais está agudamente presente (ver GIDDENS9, 1976). Isto é para dizer que, proclamar um novo paradigma da Sociologia da Infância é também engajar-se em e responsabilizar-se pelo processo de reconstrução (JAMES e PROUT, 2003, p.8, tradução nossa).

7BENEDICT, Ruth. Barndommens historie. Copenhagen: NNF Arnold Busck, 1982.

8 MEAD, Margaret. Cuture and commitment: a study of He Genaration Gap. Herts: Panter Books, 1972.

9

(28)

22 Tais concepções podem sofrer variações em decorrência das teorias e dos enfoques metateóricos que compartilham, conforme será sistematizado no próximo tópico.

1.1.1 Os enfoques teóricos dos Estudos Sociais da Infância

Como todo campo disciplinar, os Estudos Sociais da Infância e a Sociologia da Infância se pautam por diferentes enquadres ou enfoques teóricos. Lourdez Muñoz (2006) oferece uma excelente síntese sobre os três enfoques distintos, por ela identificados, que norteiariam a Sociologia da Infância, e que podem ser adotados na descrição das abordagens dos Estudos Sociais da Infância: enfoque construcionista ou Sociologia Desconstrutiva da Infância; e enfoque relacional ou Sociologia da Criança; e enfoque estrutural ou Sociologia Estrutural da Infância (Quadro 2).

Para o enfoque construcionista, infância e criança são formações discursivas socialmente construídas e, por isso, um grande número de definições das mesmas é utilizado. Nesse enfoque, as crianças são atores sociais que constroem o contexto em que vivem e, portanto, a infância é concebida como uma variável de análise social (MUÑOZ, 2006).

O enfoque relacional entende a infância a partir de sua relação com outra categoria etária, a adultez, e defende o estudo das crianças em si e através de seus próprios pontos de vista, em uma perspectiva microssocial.

(29)

23 Quadro 2: Delineamento geral dos enfoques da nova Sociologia da Infância.

Estrutural Construcionista Relacional

IN

N

C

IA

1. A infância é uma forma particular e distinta da estrutura social.

2. É uma estrutura social permanente.

3. É uma categoria variável histórica e cultural.

4. Parte integral da sociedade e da divisão do trabalho.

5. Exposta às mesmas forças que a adultez, mas de modo distinto. 6. É uma minoria sujeita a

tendências de marginalização e paternalização.

1. A infância é uma construção social. 2. A infância é uma

variável de análise social.

3. Definir a infância como fenômeno é também um processo de construção.

1. A infância é um processo relacional. C R IA N Ç A S

1. São co-construtores da infância e da sociedade.

2. A dependência das crianças repercute em sua invisibilidade.

1. As relações sociais e culturais das crianças devem ser estudadas em suas próprias dimensões.

2. As crianças são ativas na construção de suas vidas sociais.

1. Deve ter-se em conta como as crianças experimentam suas vidas e relações sociais.

2. É preciso

desenvolver o ponto de vista das crianças.

3. O conhecimento

baseado na

experiência das

crianças é

fundamental para o reconhecimento de seus direitos. S O C IE -DADE

1. A ideologia da família constitui uma barreira para os interesses e o bem-estar das crianças. S O C IO LO -GIA

1. A etnografia é uma metodologia

particularmente útil para o estudo da infância.

1. A geração é um conceito chave para entender as relações crianças/adulto, seja no nível individual ou coletivo.

Fonte: Muñoz (2006, p.17).

(30)

24 principais proposições que embasam os estudos da infância em uma perspectiva estrutural.

A primeira tese postula que a infância é uma forma estrutural particular e distinta, independente de características individuais das crianças. Nesse caso, equipara-se às categorias de gênero e classe social, pois, na sociedade ocidental moderna, observamos a infância também organizada a partir de parâmetros de um grupo dominante, o dos adultos (QVORTRUP, 2011). Para nós, do NEGRI, a infância é uma das etapas da vida, socialmente constituída e demarcada, no âmbito das relações de idade (ROSEMBERG; MARIANO, 2010).

A segunda tese de Qvortrup (2011) afirma que a infância é uma estrutura permanente, mesmo com a entrada e saída de crianças dessa faixa etária no transcorrer do tempo e de configurações específicas que assuma.

A terceira tese considera a infância como categoria variável histórica e culturalmente. Portanto pesquisar é compreender as mudanças de concepção em relação à criança e à infância, e não investigar a criança individualmente, o que encobre seu lugar na sociedade (QVORTRUP, 2011).

A quarta tese de Qvortrup (2011) situa a infância no âmbito da divisão social do trabalho, reconhecendo a criança como participante ativa do contexto em que vive e alvo importante de um mercado de bens e serviços específicos. No NEGRI, concebemos a infância como participante da demarcação dos mercados de trabalho e de consumo. No mercado de trabalho das sociedades ocidentais, observa-se uma associação entre atividades ligadas à infância e às relações de gênero.

Qvortrup (2011), na quinta tese, reafirma o lugar das crianças como co-construtoras da sociedade e explica que isso não ocorre apenas no plano econômico, mas nas diversas interações e comunicações delas com o mundo, transformando tanto a sociedade, quanto a si mesmas.

(31)

25 (QVORTRUP, 2011). No NEGRI, damos destaque também aos movimentos sociais e às produções simbólicas de diversos atores sociais, cujas possíveis orientações ideológicas podem colocar a criança e a infância em uma posição de subalternidade.

A invisibilidade das crianças, em descrições históricas e sociais, percebida pelo baixo investimento de políticas públicas para a infância e da pouca informação sobre as crianças em documentos oficiais, é destacada pela sétima tese. Qvortrup (2011) afirma que, costumeiramente, utiliza-se a família como unidade de referência, o que impede a apreensão da real situação vivida pelas crianças. Nessa lógica, a oitava tese postula que a ideologia familiarista, não os pais e familiares em si, dificulta a responsabilização da sociedade e do Estado pelo bem-estar e direitos da criança, os quais tendem a ficar apenas sob incumbência da família. No NEGRI, estamos, particularmente, atentos a esta tese, quando estudamos o reduzido investimento social nas creches como instituição complementar aos cuidados e educação proporcionados pela família.

A nona e última tese, sustentada por Qvortrup (2011), afirma que “a infância é uma categoria clássica, objeto de tendências tanto marginalizadoras quanto paternalizadoras” (p.210). Para o autor, as crianças recebem um tratamento desigual e desprivilegiado em relação aos adultos e a infância é considerada um grupo minoritário nas sociedades adultocêntricas (QVORTRUP, 2011). No NEGRI, destacamos a dimensão adultocêntrica da sociedade brasileira e, nela, a posição hierarquicamente inferior do bebê no espaço público, no âmbito das políticas sociais.

Em suma, as pesquisas sobre infância que adotam um enfoque estrutural são voltadas para as inter-relações geracionais e para a situação em que as crianças são situadas em comparação as outras faixas etárias.

(32)

26

1.1.2 Tensões nos Estudos Sociais da Infância

Prout (2010), em seu artigo Reconsiderar a nova Sociologia da Infância, discute as tensões que identifica na Sociologia da Infância a partir da localização de dicotomias que, para o autor, estariam superadas na Sociologia geral, mas que ainda permanecem nesse recorte.

A primeira dicotomia apresentada pelo autor é a ação em contraposição à estrutura. De um lado, uma Sociologia da ação, cujo enfoque é microssocial e na qual as crianças, entendidas como atores sociais, são estudadas em suas ações específicas, por meio de suas atividades e interações com outros atores sociais. De outro, o olhar macrossocial, também presente na Sociologia da Infância, pelo qual o foco está na apreensão da infância como estrutura social, cujos estudos envolvem a compreensão das distribuições de recursos a esse grupo social (PROUT, 2010). Embora não sejam contraditórias, as posições teóricas e metodológicas de ambos os enfoques são distintas, como apontamos a partir da síntese da análise de Muñoz (2006). Se, em âmbito teórico e metateórico, o macro e o microssocial podem se integrar, na prática da pesquisa acadêmica, integrar ambos enfoques torna-se complexo.

O segundo binômio identificado por Prout (2010) é a oposição natureza e cultura. No primeiro polo, as ciências biológicas, soberanas até o século XX nos estudos da criança, definiam um modelo de criança universal e naturalizada. No segundo, a infância, assim como outras etapas da vida, passa a ser vista como construção social produzida por atos discursivos. Segundo o autor, para se opor ao reducionismo biológico, alguns estudos chegaram ao outro extremo, caindo em um reducionismo sociológico.

(33)

27 creche exclusivamente, ou principalmente, como formação do(a) futuro(a) cidadão(a), obnubila a garantia do direito à educação do bebê (ROSEMBERG, 2014).

Prout (2010), visando a uma eventual superação dessas dicotomias, propõe algumas alternativas, como buscar possíveis conexões e uma coexistência pacífica das dicotomias na forma de interdisciplinaridade ou hibridismo, por exemplo. Porém, de acordo com as discussões do NEGRI, é necessária cautela com o hibridismo para evitar a junção de teorias com pressupostos metateóricos antagônicos.

No NEGRI, temos identificado outras tensões na produção contemporânea dos Estudos Sociais da Infância. Rosemberg (2003), por exemplo, questiona sobre o limite etário da infância, visto que a delimitação de início e término da mesma parece não ser clara para a maioria dos autores. Segundo Corsaro (2011), definir as fronteiras da infância não é uma tarefa simples, visto que se trata de uma construção social “que está claramente relacionada à maturação física, às crenças culturais sobre a idade e à graduação etária institucional, ainda que não seja determinada por tais fatores” (p.214).

Rosemberg (2003) afirma que os autores acabam privilegiando uma faixa etária nesse campo de conhecimento, tendo em vista as diferentes idades que compõem a infância. Quando as idades não são apresentadas de forma explícita, situação frequente, a Sociologia da Infância parece se referir a crianças e adolescentes entre quatro e dezesseis anos, o que corresponderia à faixa etária de escolaridade obrigatória (ROSEMBERG, 2003; 2006b; 2009; 2014). A partir disso, formula, de modo provocativo, as seguintes indagações: qual a idade da criança dos Estudos Sociais da Infância e da Sociologia da Infância? Estariam os bebês incluídos? Como estender a condição de ator social para os bebês, não enquanto indivíduos, mas enquanto etapa da vida?

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28 adultocêntricas, que o lugar da criança é o espaço privado e familiar, a invisibilidade pública de seus direitos (ROSEMBERG; MARIANO, 2010, p.1).

Rosemberg (2003) ainda questiona se o conceito de infância deve ser considerado uma categoria analítica ou descritiva. Entendendo, como James e Prout (2003), a infância como uma variável de análise social, assim como as categorias classe, gênero e raça/etnia – conceitos relacionais que implicam outros –, infância estaria para idade, assim como mulher está para gênero? Seria mais adequado considerarmos a categoria “etapas da vida” ou estudos sobre relações de idade, e não apenas estudos sociais da infância?

Apresentados os Estudos Sociais da Infância, seus enfoques e tensões, o NEGRI se posiciona, aproximando-se do enfoque estrutural, concebendo a infância como categoria social no contexto das relações de idade como etapa, conforme mostram as pesquisas, em situação de subordinação à idade adulta.

Diante da preocupação em dar visibilidade pública aos bebês, bem como às questões relativas aos direitos desse grupo, esta dissertação foca na compreensão das concepções de creche que circulam no espaço público, a

partir de análise de discursos proferidos por ACS.

1.2 Teoria de ideologia

Será apresentada, neste tópico, uma síntese da teoria de ideologia proposta por Jonh B. Thompson (2009), em seu livro Ideologia e cultura moderna: teoria social crítica na era dos meios de comunicação de massa. A partir da reconstrução da trajetória dos sentidos atribuídos ao conceito ideologia por diversos autores, Thompson (2009) propõe uma definição crítica do termo, que sustenta estudos que procuram apreender se e como a produção, circulação e recepção de formas simbólicas produzem e sustentam relações de dominação. A definição crítica de ideologia apresentada por Thompson (2009) tem sido adotada como um dos arcabouços teóricos em pesquisas do NEGRI.

(35)

29 língua portuguesa, o termo ideologia ser facilmente substituído pela palavra ideário. Por outro lado, as concepções críticas atribuem um sentido negativo ao conceito de ideologia.

Diferentemente das concepções neutras, as concepções críticas implicam que o fenômeno caracterizado como ideologia – ou como ideológico é enganador, ilusório ou parcial. E a própria caracterização desses fenômenos como ideologia carrega consigo um criticismo implícito ou a própria condenação desses fenômenos (THOMPSON, 2009, p.73).

Conforme o percurso de Thompson (2009) em torno da trajetória do conceito, o termo ideologia foi usado, pela primeira vez, pelo filósofo francês Destutt de Tracy, em 1796, com o sentido de ciência das ideias”, que serviria para descrever o projeto de uma nova ciência interessada na análise sistemática das ideias e sensações. A ideologia, para de Tracy, seria a base da gramática, educação, da lógica, da moralidade e da compreensão da natureza, possibilitando a reestruturação da ordem social e política, de acordo com os interesses humanos (THOMPSON, 2009). Trata-se, pois, de uma concepção neutra do termo.

Concepções neutras de ideologia ainda são apreendidas por Thompson (2009) em textos de Lukács, Lênin e em parte do legado de Mannheim, em seu conceito de “concepção total”.

Na continuação da retomada histórica em torno do termo ideologia, Thompson (2009) identifica alteração no conceito introduzida por Napoleão Bonaparte, o qual atribuiu conotação pejorativa quando, em contexto político de embate, associou, ao termo ideologia, ideias abstratas e ilusórias.

A ideologia como ciência positiva e eminente, digna do mais alto respeito, gradualmente deu lugar a uma ideologia como ideias abstratas e ilusórias, digna apenas de ridicularização e desprezo. Uma das oposições básicas que caracterizam a história do conceito de ideologia – aquela entre um sentido positivo e neutro de um lado, e de um sentido negativo e crítico de outro – já estava presente na primeira década de sua vida, embora a forma e o conteúdo dessa oposição iria mudar, consideravelmente, nas décadas que se seguiram (THOMPSON, 2009, p.48).

(36)

30 história do conceito de ideologia. Estudiosos, incluindo Thompson (2009), identificam, na obra marxiana, concepções que se sobrepõem umas às outras e que se relacionam de formas distintas com os diferentes movimentos do pensamento do autor. Para facilitar o estudo e a identificação dessas concepções em Marx, Thompson (2009) distinguiu e nomeou três delas.

A primeira delas foi denominada por Thompson (2009) de “concepção polêmica”, seria aquela conceituação marxiana que identifica, na ideologia, uma doutrina teórica equivocada, que olha as ideias abstratas como autônomas e isoladas do contexto sócio-histórico.

Na “concepção epifenomênica” marxiana, a ideologia seria um arranjo de ideias que expressariam os interesses da classe dominante, envoltos, porém, em representação ilusória das relações de classe (THOMPSON, 2009). A terceira concepção captada por Thompson (2009), e menos evidente que as demais nos escritos marxianos, é denominada como “concepção latente”, visto que Marx nunca empregou a expressão ideologia para se referir a ela:

(...) um sistema de representações que servem para sustentar relações existentes de dominação de classes através da orientação das pessoas para o passado em vez de para o futuro, ou para imagens e ideais que escondem as relações de classe e desviam da busca coletiva de mudança social (THOMPSON, 2009, p. 58).

As concepções identificadas na produção de Marx foram classificadas como negativas, sendo que, particularmente, a “concepção latente” constitui o arcabouço da conceituação de ideologia proposta por Thompson (2009), que mantém o caráter crítico e cujo enfoque é orientado para a análise concreta dos fenômenos históricos.

Thompson (2009) define, então, ideologia como as maneiras pelas quais:

(37)

31 As formas simbólicas referem-se ao conjunto amplo de ações, falas, imagens, textos, expressões, produzidos e reconhecidos em contextos e processos socialmente estruturados. Diferente de Marx, na concepção de Thompson (2009), as formas simbólicas, para serem ideológicas, não precisam ser necessariamente falsas ou ilusórias.

Outra divergência entre os dois autores refere-se à proposta marxiana sobre as relações de dominação serem sustentadas exclusivamente por relações de classe. Para Thompson (2009), as relações de classe constituem apenas um dos eixos da desigualdade social e menciona, entre outras, as relações de idade, nosso foco de estudo nesta dissertação, como um dos eixos possíveis em torno do qual a desigualdade social pode se estruturar.

(...) parece-me fundamental reconhecer que existem relações de poder sistematicamente assimétricas que estão baseadas em fatores diferentes dos de classe – que estão baseadas, por exemplo, em fatores de sexo, idade, origem étnica– e parece-me essencial ampliar o marco referencial para a análise da ideologia para dar conta desses fatores (THOMPSON, 2009, p.127, grifo nosso).

A última diferença entre ambas conceituações, destacada por Thompson (2009), é de que Marx desconsidera “o quanto as formas simbólicas e o sentido assim mobilizado são constitutivos da realidade social e estão envolvidos tanto em criar como em manter as relações entre pessoas e grupos” (p.78).

De acordo com o autor, as formas simbólicas se caracterizam através de cinco aspectos (THOMPSON, 2009):

- intencional: formas simbólicas são sempre intencionais, o que não significa que o objeto transmitido seja idêntico à sua intenção;

- convencional: adotam às regras e convenções envolvidas nos processos de produção, uso e interpretação das formas simbólicas;

- estrutural: as formas simbólicas exibem uma estrutura articulada; - referencial: as formas simbólicas representam algo;

(38)

32 A conceituação de Thompson (2009) destaca a importância do contexto, pois as formas simbólicas não são ideológicas em si. Este qualificativo lhes é atribuído apenas quando servem para produzir e sustentar relações de dominação. Portanto, para análise da ideologia, é imprescindível a contextualização sócio-histórica dos fenômenos simbólicos estudados.

Thompson (2009) sugere certos modos gerais de operação da ideologia e indica algumas maneiras como eles podem estar ligados, em circunstâncias específicas, a estratégias de construção simbólica. Apesar de não serem os únicos, o autor identifica cinco modos principais de operação da ideologia, que podem se sobrepor e se reforçar mutuamente, e suas estratégias de construção simbólica.

Apresentaremos, a seguir, uma breve descrição de cada modo e suas estratégias de construção simbólica de operação da ideologia.

1. A legitimação é um modo de apresentar as relações de dominação como justas e defensáveis. Ela se expressa via estratégias como:

a. racionalização: construção de uma cadeia de raciocínios para defender ou justificar um conjunto de relações assimétricas, entre pessoas ou instituições sociais, induzindo, por fim, ao apoio;

b. universalização: acordos institucionais de interesse de alguns são apresentado como extensivos a todos;

c. narrativização: o tratamento do presente pela forma simbólica como tradicional, eterno e aceitável.

2. A dissimulação se dá pelo obscurecimento, ocultamento ou negação das relações de dominação, na(s) forma(s) simbólica(s), de maneira a desviar a atenção do receptor. Suas estratégias, apresentadas pelo autor, são:

a. deslocamento: a transposição de um termo, e suas características positivas ou negativas, de um objeto (ou pessoa) para outro;

b. eufemização: descrição ou redescrição de ações, instituições ou relações sociais de modo que transmitam uma valoração positiva;

(39)

33 desconsiderando idiossincrasias, pode estabelecer e sustentar relações de dominação. As estratégias sugeridas por Thompson (2009) são: a. estandardização ou padronização: adaptação das formas simbólicas a

um referencial padrão a ser partilhado e aceito pelo coletivo;

b. simbolização da unidade: construção de um emblema de unidade, identidade e identificação coletiva, difundidos por uma ou mais instâncias grupais.

4. A fragmentação ocorre quando se segmentam indivíduos e grupos que, se unificados numa coletividade, poderiam representar uma ameaça ao grupo dominante. Ela se dá via estratégias, tais como:

a. diferenciação: ênfase dada pelas formas simbólicas nas diferenças e divisões entre pessoas e grupos, fortalecendo a desunião entre eles; b. expurgo do outro: construção de um inimigo perverso e ameaçador,

interno ou externo, contra o qual os indivíduos devem resistir e lutar; 5. A reificação é a retratação, pela forma simbólica, de uma situação

histórica e transitória como natural e atemporal, não considerando os processos sociais e históricos dos fenômenos sociais. Ela pode se dar através das seguintes estratégias de produção simbólica:

a. naturalização: retratação de elementos sócio-históricos como naturais e inevitáveis;

b. eternalização: cristalização simbólicade fenômenos sócio-históricos, através de sua apresentação como eterno, imutável e recorrente e pelo esvaziamento de seu caráter histórico. O que impossibilita o questionamento de sua existência e manutenção;

c. nominalização/passivização: apagamento dos atores e da ação, como se os fenômenos sociais acontecessem sem a atividade de alguém. Na nominalização, os fenômenos sociais são transformados em nomes, como algo com vida própria. Já na passivização, os verbos são colocados na voz passiva, evitando expor os sujeitos da ação (THOMPSON, 2009, p.81-89)

(40)

34 de ideologia crítica, na medida em que são profissionais que seguem diretrizes de uma instituição.

Durante a apresentação de sua teoria, Thompson (2009) frisa que “estudar ideologia é estudar as maneiras como o sentido serve para estabelecer e sustentar relações de dominação” (p.76), reconhecendo as implicações metodológicas de sua teoria. Propõe, portanto, para a análise das formas simbólicas, uma metodologia que denominou hermenêutica de profundidade, objeto de síntese do próximo tópico.

1.3 Método: hermenêutica de profundidade

O referencial metodológico desta dissertação, a hermenêutica de profundidade, também foi proposto por Thompson (2009) e articula -se com a sua concepção teórica de ideologia, permitindo relacionar fenômenos simbólicos e dominação.

Segundo Thompson (2009), a tradição hermenêutica concebe as formas simbólicas como construções significativas que exigem interpretação e compreensão e, para tanto, demandam uma análise formal e objetivada. No âmbito dessa teoria, essas formas se apresentam como ações, falas, imagens e textos produzidos, recebidos e colocados em circulação são consideradas por quem as produz e recebe como significativas e reconhecidas em contextos socialmente estruturados.

De acordo com a proposta de “concepção estrutural” de cultura apresentada por Thompson (2009), os padrões de significados associados às formas simbólicas são compartilhados na vida cotidiana dentro dos contextos sócio-históricos, os quais envolvem “relações de poder, formas de conflito, desigualdades em termos de distribuição de recursos e assim por diante”(p.22). Negligenciar o contexto sócio-histórico da vida cotidiana, em que ocorre a produção e recepção das formas simbólicas, é “desprezar que o campo-objeto de nossa investigação é também um campo sujeito em que as formas simbólicas são pré-interpretadas pelos sujeitos que constituem o campo”(p.364), outro aspecto da tradição hermenêutica.

(41)

35 através da observação, mas é, também, um campo constituído por sujeitos "capazes de compreender, de refletir e de agir fundamentados nessa compreensão e reflexão" (p.359).

Essa interdependência entre sentido e contexto retoma o que já havia sido explicitado na teoria de ideologia: que as formas simbólicas não podem ser ideológicas em si, mas sim, e somente, em circunstâncias particulares, quando criam e sustentam relações de dominação.

Por tal razão, proposta metodológica da HP prevê como primeira etapa da pesquisa, uma análise sócio-histórica, cujo objetivo é a reconstrução de condições sociais e históricas de produção, circulação e recepção das formas simbólicas sob estudo, que, no caso desta dissertação, são os discursos proferidos por ACS sobre creche.

A tarefa da primeira fase do enfoque da HP é reconstruir as condições e contextos sócio-históricos de produção, circulação e recepção das formas simbólicas, examinar as regras e convenções, as relações sociais e instituições, e a distribuição de poder, recursos e oportunidades em virtude das quais esses contextos constroem campos diferenciados e socialmente estruturados (THOMPSON, 1998, p.369).

Thompson (2009) distingue aspectos dos contextos sociais que apelam por diferentes níveis de análise. Os aspectos são:

- espaço-temporais: tempos e espaços específicos de produção, circulação e recepção das formas simbólicas, os quais estão inseridos em campos de interação, que, nesta pesquisa, são as entrevistas realizadas com as ACS;

- campo de interação: locus das trocas simbólicas ou espaço de posições e conjunto de trajetórias que definem algumas relações e oportunidades a que as pessoas têm acesso, no qual essas se utilizam de regras, convenções, recursos, muitas vezes implícitos e passageiros. No caso desta dissertação, situamos a análise no Brasil contemporâneo;

Imagem

Gráfico  1:  Número  de  teses  e  dissertações  com  o  descritivo  creche  publicadas  pela  CAPES, entre 1987 e 2011
Tabela  1:  Distribuição  por  frequência  do  percentual  de  teses/dissertações  por  estado, entre 1987 e 2011
Tabela  2:  Distribuição  porcentual  de  teses  e  dissertações  por  idades  das  crianças referidas às creches
Tabela 3: Taxas de frequência à creche ou escola, por faixas de    idade e situação de domicílio
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