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nicolas behr brasilíada

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nicolas behr

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Copyright © 2010 Nicolas Behr

Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, em vigor no Brasil desde 2009. Editor Eduardo Coelho Diogo Henriques Assistente editorial Carolina Casarin Elisa Izhaki Capa Rico Lins Foto de capa J. Costa Editoração

Leandro Collares (Selênia Serviços)

Behr, Nicolas

Brasilíada / Nicolas Behr. – Rio de Janeiro : Língua Geral, 2010. – (Coleção Língua Real)

ISBN 978-85-60160-48-8 1. Poesia brasileira. I. Título. II. Série.

10-00801 CDD-869.91

Todos os direitos desta edição reservados à Língua Geral Livros Ltda.

R. Marquês de São Vicente, 336 Rio de Janeiro – RJ – 22451-040 Tel.: (21) 2279-6184

Fax: (21) 2279-6151 www.linguageral.com.br

Índices para catálogo sistemático: 1. Poesia : Literatura brasileira 869.91

DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP) (CÂMARA BRASILEIRA DO LIVRO, SP, BRASIL)

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COLEÇÃO LÍNGUA REAL

Se há território

no qual a língua portuguesa se distin‑ gue, é o da poesia. Através da coleção Língua Real, trazemos aos leitores brasileiros alguma da melhor poesia que se escre‑ veu, e se escreve, em português, seja em Lisboa ou em Luan‑ da, em Dili ou no Recife. Uma língua real, com o sabor de muitos sotaques e a luz de paisagens muito diferentes. Porque acreditamos que existem leitores para a poesia e que esses lei‑ tores merecem o melhor.

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NOTA DO AUTOR

O termo “cerratense”

é uma criação do amigo, poeta e historiador Paulo Bertran (1948 ‑2006). Literalmente, quer dizer: aquele que habita o cerrado.

“Braxília”, com “x” mesmo, é uma uma cidade imagi‑ nária, não ‑capital, não ‑poder, não ‑brasília. A utopia dentro da utopia.

Nas páginas 49 e 59 os textos entre aspas são paródias do sonho de Dom Bosco. Em 1883 o santo italiano João Bosco teve um dos seus famosos sonhos, prevendo o nascimento de uma civilização entre os paralelos 15º e 20º em algum lugar no centro da América do Sul. Estas profecias foram manipu‑ ladas pelos idealizadores de Brasília para justificar, perante uma população predominantemente católica, a construção da nova capital.

(10)
(11)

SUMÁRIO

aos que não acreditaram ... 17

brasília foi construída ... 17

se você ama brasília ... 18

como toda cidade mítica ... 18

uma forte tempestade trouxe à luz ... 19

nas escavações também foram encontrados ... 19

os candangos acreditavam ... 20

os candangos comiam bolinhos ... 20

enquanto os candangos dormiam... 21

fósseis de mísseis, pegadas de heitor e ... 21

e assim, surpreendentemente, os candangos ... 22

jk desafiou zeus e fundou brasília ... 22

qual o livro sagrado da mitologia candanga? ... 23

jk voltará glorioso, coberto de asfalto, ... 23

candangos que nunca chegaram ... 24

as obras da construção da antiga capital ... 24

e então jk ordenou ao sumo‑sacerdote‑ ... 25

o primeiro mito ... 25

desconstruir jk ... 26

sobre as ruínas de sete capitais ... 26

era prática comum no império cerratense ... 27

aquela é a estátua de teseu, ... 27

enquanto como um pastel ... 28

condenado por conspirar ... 28

vassalos de todas as partes do império ... 29

(12)

a profecia dizia que quando jk ... 30

brasília escavada à unha ... 30

bernardo sayão — um dos companheiros ... 31

finalmente a civilização chega ao planalto ... 31

candangos, ... 32

esta cabeça de bronze é de jk ... 32

jk não morreu ... 33

foi preciso demolir brasília para que outra, ... 33

desenterraram brasília ... 34

brasília são as ruínas de machu picchu ... 34

tudo estava muito bem planejado ... 35

jk queria começar a construção de brasília ... 35

antes de ser matéria compacta ... 36

em meio ao vazio do cerrado ... 36

Brasilírico ... 37

que cidade é essa ... 37

assim como brasília, ... 38

brasília pronta ... 38

o dia 21 de abril amanheceu ... 39

acena e sorri ... 39

jk pegou o bonde andando ... 40

para os candangos não tinha sábado, ... 40

brasília começou do nada... 41

aceitar brasília ... 41

aqui estou: expediente encerrado, ... 42

brasília é uma cidade autoritária? ... 42

brasília é o que resta da cidade ... 43

brasília foi destruída... 43

xingar burocrata é fácil, ... 44

usar lápis, régua, ... 44

uma vida inteira para ir ... 45

sonhos retorcidos ... 45

brasília, por outro lado,... 46

(13)

após terem sido sacrificados, ... 47

um dos relatos mais antigos sobre a criação ... 47

eu me prostro, me prostituo ... 48

os candangos nunca ... 48

jk construiu brasília ... 49

mas isso não era tudo. entre os paralelos... 49

brasília desabou, afundou ... 50

brasília em 2060 ... 50

cidade fundada ... 51

jk não deixou descendentes ... 51

jk chorou, deus chorou, os candangos ... 52

jk tentou, de todas as maneiras, ... 52

cidade sem passado? ... 53

cidade‑mato‑maquete ... 53

liga não ... 54

o cafezinho quente ... 54

como chegar: não se chega ... 55

brasília inicial, esculpida no barro ... 55

brasília é o teorema de pitágoras finalmente ... 56

estacionamentos ... 56

imagine se brasília ... 57

o poeta irreconhecível ... 57

burocrata até a alma trazia o crachá ... 58

deste império cerratense, desta solidão, deste ... 58

“e sem saber como, encontrei‑me em pleno ... 59

eu, o sem‑agenda ... 59

com o passar do tempo o conceito ... 60

quando cheguei já tinham derrubado ... 60

pesadelo de dom bosco... 61

jotakamon, último faraó, ... 61

jk construiu brasília com cimento, ... 62

meu plano recusado / rasgado / pisado ... 62

nada do que era de bronze, ... 63

(14)

areia sobre os automóveis do ... 64

persona non grata com muita honra ... 64

eixos transversais se prolongam formando ... 65

quando uma cidade — brasília — ... 65

melhor do que viver ... 66

brasilia era moderna, ... 66

homem‑público ... 67

quando reconstruírem meu bloco ... 67

(15)
(16)
(17)

aos que não acreditaram aos que desistiram

aos que não tiveram forças nem para sonhar

este livro é dedicado aos fracassados de brasília

• • •

brasília foi construída para ser destruída aos poucos exatamente como estamos fazendo

(18)

se você ama brasília (como eu)

não leia este livro perco um leitor

e você não perde o seu tempo

• • •

como toda cidade mítica a origem de brasília se perde na noite dos tempos noite que as luzes do eixão tentam iluminar

(19)

uma forte tempestade trouxe à luz uma parte do que poderiam ter sido os ministérios, iniciando escavações que permitiram identificar também estruturas habitacionais bastante complexas, com pessoas aparentemente vivendo dentro de grandes caixas de concreto

• • •

nas escavações também foram encontrados clips pré‑históricos, grampeadores de sílica, crachás em plaquinhas de ouro, carimbos petrificados, ministros embalsamados e ofícios em escrita ainda não decifrada

(20)

os candangos acreditavam (e ainda acreditam) que, um dia, no planalto cerratense,

seria erguida uma cidade‑monumento em forma de borboleta, de proporções colossais, homenageando‑os

• • •

os candangos comiam bolinhos de cimento, mastigavam barro, bebiam suco de tinta com argamassa, respiravam poeira, cuspiam brita, babavam cascalho, choravam areia, urinavam lama, defecavam concreto e transpiravam esperança

(21)

enquanto os candangos dormiam a cidade surgia, impulsionada

pelo entusiasmo do sonho de construir diz a lenda que, em brasília,

os edifícios e os monumentos apareceram como que por encanto, espontâneos, brotando do chão

• • •

fósseis de mísseis, pegadas de heitor e ulisses, metralhadoras de ossos e granadas de pedra polida atestam que a guerra de troia realmente aconteceu nas proximidades do lago paranoá, quando este ainda se chamava mar egeu a frase “impossível agradar a gregos e goianos”, ainda hoje em uso, é um claro resquício dos tempos homéricos

(22)

e assim, surpreendentemente, os candangos constroem as primeiras habitações

permanentes da civilização ocidental: as legendárias superquadras

• • •

jk desafiou zeus e fundou brasília os candangos foram então castigados, trabalhando acorrentados, com a eterna sina de construir a cidade de dia para ser destruída durante a noite

(23)

qual o livro sagrado da mitologia candanga? por que toda a mitologia candanga acontece em torno da construção de brasília, não incluindo revelações ou ensinamentos espirituais? por que na mitologia candanga os deuses rivais, dos burocratas, escolheram a praça dos três poderes como olimpo? por que jk não é considerado o filho de deus, aquele que morreu atropelado por nós para que pudéssemos atravessar o eixão sem olhar para os lados?

• • •

jk voltará glorioso, coberto de asfalto, poeira e lama, vestindo o manto de plumas dos tupinambás na mão esquerda a espada de são jorge e na direita o tacape de cunhambebe, provocando assim a ira de iansã e a inveja do saci‑pererê

(24)

candangos que nunca chegaram cidade não construída

transferência que não aconteceu inauguração que não houve (o cerrado intacto, de pedra, observa)

a cidade que está por vir saúda o poema inexistente

• • •

as obras da construção da antiga capital nunca começam e nunca terminam todos aguardam o nascimento‑e‑morte‑do‑ deus‑mito‑futuro‑fundador‑da‑cidade‑que‑ nem‑na‑imaginação‑existe

(25)

e então jk ordenou ao sumo‑sacerdote‑ ‑arquiteto‑mor‑do‑templo que criasse uma cidade ao mesmo tempo monumental e simplezinha, leve e pesada, funcional e complexa, lógica e irracional, moderna e barroca, bela e aterradora

mas que não fosse

uma cidade‑de‑beira‑de‑estrada

• • •

o primeiro mito de brasília é jk o segundo, renato russo o terceiro mito sou eu mas isso vocês não sabem porque ainda não morri

(26)

desconstruir jk reconstruir braxília desbrasilianizar jk rebraxilianizar brasília rejuscelinizar braxilia desjuscelinizar jk

reinventar a cidade inventada

• • •

sobre as ruínas de sete capitais jaz a cidade imperial: brasília resumo de tudo: tebas, luxor, atenas, babilônia, persépolis, roma, cuzco jk são as iniciais de julio kesar saúdo tuas legiões de famintos

(27)

era prática comum no império cerratense a venda, compra, aluguel, empréstimo, consignação e troca de cargos de deputados e senadores

por isso muitos dos que se diziam representantes do povo

ocupavam seus cargos por pura vaidade

• • •

aquela é a estátua de teseu, maior herói cerratense (sim, filho, maior que jk) libertou brasília da opressão do burocrotauro, um ser meio homem meio carimbo que vivia pelos labirintos dos ministérios, devorando lentamente qualquer fila que se formasse a sua frente

(28)

enquanto como um pastel na rodoviária

brasília é bombardeada o centro histórico

impiedosamente destruído

um soldado candango passa e pergunta ao próprio fantasma: pra que lado fica a asa norte?

• • •

condenado por conspirar pela mudança da capital, tiradentes foi enforcado novamente na praça dos três poderes a cabeça colocada na ponta do mastro da bandeira, os olhos sobre o monumento da justiça, os pés aos pés do monumento aos candangos o sexo picadinho, dado aos pombos

(29)

vassalos de todas as partes do império cerratense vinham regularmente à brasília prestar homenagens ao fundador

jk detestava baba‑ovos

mas se um gaiato trouxesse um violão e cantasse uma modinha pra ele, ah, jk logo o indicava para ministro da alegria

• • •

neste dia 21 de abril, consagrado a juscelino kubitschek do monte das oliveiras, o santo construtor, ao centésimo ano da fundação de juscelinopla, é reinaugurada, sem a proteção de jk, a cidade apócrifa de braxília

(30)

a profecia dizia que quando jk visse uma coruja buraqueira, pousada num cupinzeiro, devorando um rato que segura um carimbo, aí seria o sítio ideal para erguer sua capital e assim se fez

• • •

brasília escavada à unha onde as gengivas das superquadras sangram e os dentes dos pilotis mordem os que passam

(31)

bernardo sayão — um dos companheiros

mitológicos de jk, a respeito do qual os candangos contam inúmeras histórias fabulosas.

uma delas diz que, certa vez, seu jipe alado atolou nas proximidades de onde é hoje a água mineral. na verdade, o peso do veículo, ao tocar o solo, revelou uma enorme

nascente, origem mítica de toda a água que veio a formar o lago paranoá

• • •

finalmente a civilização chega ao planalto cerratense e apresenta suas credenciais: nascentes soterradas, rios profanados, árvores arrancadas, animais mortos, chão maculado

(32)

candangos, identificai‑vos pela poeira na íris, lama na córnea, cimento nos olhos identificai‑vos pelos cílios saudosos, pela vista cansada

• • •

esta cabeça de bronze é de jk ou de um descendente seu jk não é o herói‑civilizador‑cerratense jk é o mito e quem é o herói? o herói somos nós

(33)

jk não morreu tragado pelo asfalto desapareceu em meio à poeira da via dutra o corpo que repousa no memorial é de outro, mas com o mesmo nome: o santo

jk está vivo e voltará para trocar

de arquiteto

• • •

foi preciso demolir brasília para que outra, mais moderna, fosse construída no lugar quem pensou que brasília seria eterna, dançou

(34)

desenterraram brasília desenterraram roma desenterraram luziânia desenterraram troia em nenhuma delas encontraram meus ossos

• • •

brasília são as ruínas de machu picchu invertidas, cuzco reconstruída, tiahuanaco inacabada, pirâmide de teotihuacán ao contrário, palácio do altiplanalto atlântida cerratense, cidade perdida dos candangos a esfinge fita seu espelho: jk as linhas do eixo monumental são continuação das linhas de nazca

(35)

tudo estava muito bem planejado brasília seria demolida

logo após a inauguração porém, no último instante, num gesto de grandeza, jk mudou de ideia

• • •

jk queria começar a construção de brasília de qualquer maneira alexandre o grande então se propôs a financiar a grande obra mas os candangos recusaram sua oferta afirmando que “não estaria certo que um deus construísse uma cidade para outro”

(36)

antes de ser matéria compacta esse concreto que você toca foi sonho

toque com cuidado

• • •

em meio ao vazio do cerrado construiu‑se uma cidade vazia habitada por pessoas vazias que circulam por avenidas vazias em carros vazios de pneus vazios mas cheias do vazio de si mesmas

(37)

BRASILÍRICO

por onde vou levo brasília comigo (o peso da culpa)

sou um candango errante amarro superquadras às costas

arrasto blocos

meus eixos são espirais

eu — lesma na cidade‑autorama

• • •

que cidade é essa que vejo — espelho — do avião? que cidade é essa que sangro — vermelho — da cruz? que cidade é essa que amo mais do que eu?

(38)

assim como brasília, o poema é lógico, planejado, racional imposto à página, como se não fosse preciso pedir licença às palavras nem ao papel

• • •

brasília pronta foi então preciso construir uma paisagem pra ela tiraram as árvores plantaram os edifícios parafusaram pessoas nas estruturas metálicas dos ministérios instalaram uma fábrica de moer carne humana na rodoviária

(39)

o dia 21 de abril amanheceu com cara de 21 de abril parecia que ia chover não choveu

• • •

acena e sorri abaixa o braço e fica sério jk está triste brasília não gosta da cidade que jk construiu pra ela

(40)

jk pegou o bonde andando parou em brasília

desceu

aí pegou o bonde da história e não desceu mais

• • •

para os candangos não tinha sábado, domingo, segunda‑feira, feriado, terça‑feira, quarta‑feira, dia santo, quinta‑feira, sexta‑feira durante a construção de brasília o tempo não existia

(41)

brasília começou do nada nada era o nome que se dava, na época da construção, ao cerrado brasília terminou em nada

nada é o nome que se dá, hoje, ao deserto de areia que cobre a capital

• • •

aceitar brasília é pegar a cidade pelas mãos pelas asas pelos cabelos

(42)

aqui estou: expediente encerrado, papel timbrado, burocrata infeliz, prazo vencido, portaria vazia, inútil carimbo

aqui estou novamente: candango esquecido, concreto armado, ferro retorcido, cimento gasto, brita zero • • •

brasília é uma cidade autoritária? é sim! quer ver? pra subir pra falar com o ministro só de terno e gravata pra descer só nu

(43)

brasília é o que resta da cidade quando as luzes se apagam

• • •

brasília foi destruída para virar matéria orgânica matéria de poesia teus poetas, teus decompositores, besouros rola‑bosta de papel

(44)

xingar burocrata é fácil, ainda mais em brasília quero ver escrever o poema seguindo os temas, rimas, espaçamentos, normas, prazos e condições estabelecidas pelo edital anterior

• • •

usar lápis, régua, marreta ou dinamite? nenhum jk depois de jk 50 anos sem um novo deus

(45)

uma vida inteira para ir rastejando, de costas, da praça dos três poderes até a rodoferroviária outra vida (se vida ainda houver) para ir de uma ponta a outra do eixão, de joelhos, lambendo o asfalto e desviando dos carros

• • •

sonhos retorcidos esperanças se oxidando ferros que me atravessam e me sustentam aos poucos brasília desmorona dentro de mim

(46)

brasília, por outro lado, continuou a progredir: muralhas foram erguidas em torno do lago sul

dois túneis agora ligam o setor comercial sul ao setor gráfico norte e a oitava ponte está sendo construída sobre o lago, mesmo seco lamenta‑se apenas a transformação

da praça dos três poderes

em estacionamento de shopping center

• • •

a peça central do que restou do conjunto cultural (curiosamente sem nome) é aparentemente a ponta de uma enorme glande do outro lado uma pirâmide sem tumbas e mais à frente uma catedral sem cruzes uma biblioteca sem livros um museu sem passado e mais além uma cidade sem alma e um poeta enforcado

(47)

após terem sido sacrificados, num ritual cheio de filas, ao deus kalimbu, adorado pelos burocratas, os corpos dos candangos foram todos devidamente identificados, numerados, embalsamados, protocolados e lançados oficialmente no lago paranoá

• • •

um dos relatos mais antigos sobre a criação de brasília fala de um ser imenso e opressor, chamado kalimbu todas as ações de kalimbu faziam surgir coisas: kalimbu chorou e surgiu o lago paranoá. espirrou e apareceram os ministérios. balançou os cabelos e os fios que caíram viraram largas avenidas... num dia pouco inspirado kalimbu inventou a fila, o ofício, o protocolo, o não e a má vontade

(48)

eu me prostro, me prostituo como da tua grama

bebo da tua lama nado em teu esgoto me corto por dentro

me crucifico em teus postes para que não me mereças, brasília!

• • •

os candangos nunca se recuperaram do trauma pela não‑conclusão‑das‑obras‑ ‑de‑brasília de quem foi a culpa? o que fazer com as ruínas? retomar a construção em outro lugar? só quando jk voltar à terra com aquele entusiasmo que não soubemos aproveitar

(49)

jk construiu brasília

os candangos ficaram olhando

• • •

mas isso não era tudo. entre os paralelos 15º e 20º havia um deserto muito extenso, que partia de um ponto, onde, em épocas remotas, havia um lago. então uma voz disse repentinamente: “quando escavarem a areia escondida no meio deste deserto encontrarão uma cidade, em ruínas, a pompeia sertaneja, e aí aparecerá a terra comprometida, de onde jorrará areia, areia e mais areia e será um areal inconcebível”

(50)

brasília desabou, afundou

a ermida sitiada / o oráculo mudo e eu dentro do cavalo

feito de restos de tábuas da cidade livre

• • •

brasília em 2060 eu já estarei com cento e dois anos lúcido, mas cego, surdo e mudo (também não haverá mais nada para ver, ouvir ou falar) — as mãos inúteis em 2060 tudo estará muito diferente nós estaremos todos mortos nós estaremos todos errados

(51)

cidade fundada pela palavra pela palavra do fundador da cidade grandes deslocamentos de terra grandes deslocamentos de dor • • •

jk não deixou descendentes o império foi então dividido em pequenos reinos minúsculos feudos microscópicos castelos invisíveis burocratas

(52)

jk chorou, deus chorou, os candangos todos choraram (eu, mesmo não estando lá, chorei), quem viu a fotografia

também chorou, quem não chorou se arrependeu tanto que chorou até os burocratas choraram nesse dia as águas do lago paranoá ficaram levemente salgadas

• • •

jk tentou, de todas as maneiras, impedir a construção de brasília mas os candangos, disfarçados de operários e usando poderes mágicos, edificaram uma cidade subterrânea, viva, noturna, alternativa, rebelde, roqueira, a qual chamaram de braxília

(53)

cidade sem passado? teu passado sou eu

e tua tradição começa aqui marco zero • • • cidade‑mato‑maquete cidade‑mata‑maquete cidade‑mini‑maquete cidade‑mínima‑maquete cidade‑minha‑maquete cidade‑em‑mim‑maquete cidade‑mito‑maquete cidade‑minto‑maquete

(54)

liga não

em brasília o poder é mero acessório os políticos são visitantes ocasionais e logo logo os expulsaremos

• • • o cafezinho quente a água gelada o riso fácil (o salário fácil) o tapete macio a conversa macia o ar macio (o salário macio) os termos de poesia, dispensados

(55)

como chegar: não se chega pois não se parte

onde ficar: não se fica (cidade suspensa) o que ver: não há nada para ver

pois brasília (bem imaterial) só existe na teoria como sair: a cidade não tem saída

nem entrada é labirinto

• • •

brasília inicial, esculpida no barro superquadras aos cacos blocos modernos em forma de potes jk amassando a argila do futuro canto a brasília que a chuva levou que a lama tragou e que o mundo esqueceu

(56)

brasília é o teorema de pitágoras finalmente revelado: num triângulo amoroso,

a superquadra da musa

é igual à soma das superquadras dos catetinhos

• • •

estacionamentos de árvores genealógicas dinastias de engravatados sua majestade o presidente dom carimbo de visconde cargos hereditários nobres funções

(57)

imagine se brasília tivesse sido construída no planalto cerratense, e não na califórnia

imagine uma cidade planejada, moderna, revolucionária, ousada, no meio do cerrado um lago a lhe emoldurar a alma imagine • • • o poeta irreconhecível entre os escombros a cabeça esmagada os braços cortados, sem as pernas primeiro a realização, depois o sonho brasília aconteceu ao contrário: inauguraram‑se as ruínas os habitantes começaram então a abandonar a cidade

(58)

burocrata até a alma trazia o crachá em forma de coração junto ao peito

não, aquilo era mais que um simples crachá era como uma medalha, um distintivo, uma condecoração

• • •

deste império cerratense, desta solidão, deste palácio que em breve se transformará em ruínas, lanço meu olhar cansado mais uma vez sobre os escombros do meu país e antevejo uma alvorada que não chega nunca, com uma raiva danada e uma desconfiança enorme no eterno país do futuro

(59)

“e sem saber como, encontrei‑me em pleno deserto, onde estava reunida muita

gente. pegamos o trem e eu perguntei, ao jovem que nos conduzia, onde estávamos. ‘olhai! viajamos em direção ao grande deserto cerratense.’ por muitas milhas e milhas percorremos este enorme deserto, virgem e inexplorado. não só nos

deslumbrávamos ao longe com os pirineus, como víamos até as cadeias de montanhas de alto paraíso. todas desérticas e erodidas, naquela imensidão incomensurável”

• • •

eu, o sem‑agenda eu, o acessível eu, que nunca estou em reunião eu, o sem‑poder eu, o impotente

(60)

com o passar do tempo o conceito de superquadra teve de ser atualizado: “espaço residencial fechado por muros e guaritas, heliporto exclusivo, blocos de vários gabaritos, sem áreas verdes, com quitinetes ocupando a área antes livre dos pilotis”

• • •

quando cheguei já tinham derrubado os ministérios e a catedral a rodoviária no chão, uma tristeza tanto cimento desperdiçado foi só isso que destruíram porque o resto ainda não existia

(61)

pesadelo de dom bosco loucura de jk

delírio de glauber rocha palhaçadas de ary para‑raios histórias de paulo bertran odes de fernando mendes vianna delicadezas de athos bulcão aqui os mortos têm desejos

• • •

jotakamon, último faraó, inaugura o deserto junto à tumba foram encontrados uma máquina de escrever discursos um fusca em miniatura duas dentaduras cinco pares de sapatos ó grande faraó jotakamon teus hieróglifos são siglas tuas siglas, nossos enigmas nossos enigmas para sempre soterrados

(62)

jk construiu brasília com cimento, saliva, areia e lábia

jk foi um construtor de palavras invasão e bloco são palavras palácio e miséria são palavras violência e gramado são palavras

superquadra e atropelamento são palavras solidão e avenida são palavras

utopia e exclusão são palavras

• • •

meu plano recusado / rasgado / pisado meu plano‑rascunho do próprio punho punho fechado / murro no muro inexistente murro substituído pela porrada muro substituído pela distância

(63)

nada do que era de bronze, mármore, concreto ou ferro ficou restou apenas o barro

frágil barro inicial

• • •

este livro é um elogio à brasília ou uma crítica à burocracia? na dúvida, carimbe aqui

(64)

areia sobre os automóveis do setor comercial sul

(é o deserto chegando)

• • •

persona non grata com muita honra inclua meu nome na lista dos que nunca serão convidados

(65)

eixos transversais se prolongam formando vias paralelas à pista principal,

simetricamente opostos em apenas um dos acessos, de modo a permitir

intercomunicação na extremidade sul do retângulo, cujo lado menor é justamente o lado maior do vértice, de onde partem ruas em espirais, contínuas, portanto, entre si, interrompidas apenas pelo acesso que deforma a figura geométrica proposta, que chamaremos de cidade, junto da interseção da pista inferior, mas oposta às superquadras, articulando‑se assim com o centro

propriamente dito, mas fora do perímetro urbano, interligando o todo urbanístico ao setor viário ainda não definido

• • •

quando uma cidade — brasília — perde a identidade o que ela faz? vai pegar fila, brasília requisitar uma segunda via sonhar com uma segunda chance e sofrer na via crucis que está em sua própria origem

(66)

melhor do que viver é viver em brasília cidade‑amada cidade‑mamada cidade‑mimada cidade‑mamata cidade‑matada o arquiteto endeusado o poeta banido jk decapitado

a graça para sempre perdida

• • •

brasília era moderna, mas feia aí enormes pedaços de carne humana começaram a passar lentamente por entre as superquadras, eixos, palácios e monumentos, polindo‑os ensanguentando‑os

(67)

homem‑público homem‑púbico homem‑bico homem‑bic

• • •

quando reconstruírem meu bloco quando o eixão virar um jardim quando os anjos retornarem à catedral quando jk for definitivamente reabilitado quando brasília voltar a ser patrimônio cultural da humanidade quando a poesia for necessária quando se realizar a profecia de dom bosco quando os candangos forem bem‑vindos na cidade fortificada quando derrubarem os tapumes da maquete quando implodirem todos os ministérios quando os burocratas forem expulsos quando o massacre da geb for esclarecido quando a catedral voltar a ser ecumênica quando brasília se chamar braxília quando a cidade começar a existir

(68)

todos fazem fila pra pular

da torre de televisão somos um povo feliz porque sabemos o que queremos

(69)

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Este livro foi composto em Electra LH corpo 11

e impresso pela gráfica Imprinta Express Ltda. sobre papel Pólen Bold, com tiragem de 1.000 exemplares, em setembro de 2010.

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