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Animação em meio rural: o caso da aldeia de Pegarinhos no concelho de Alijó

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Academic year: 2021

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ANIMAÇÃO EM MEIO RURAL: O CASO DA ALDEIA DE

PEGARINHOS NO CONCELHO DE ALIJÓ

Dissertação de Mestrado em

Ciências da Educação - Especialização em Animação Sociocultural

Carlos Manuel Guedes Rebuge

Professora Doutora Maria José Santos Cunha

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ANIMAÇÃO EM MEIO RURAL: O CASO DA ALDEIA DE

PEGARINHOS NO CONCELHO DE ALIJÓ

Dissertação de Mestrado em

Ciências da Educação - Especialização em Animação Sociocultural

Carlos Manuel Guedes Rebuge

Orientadora: Professora Doutora Maria José Santos Cunha

Projeto produzido no âmbito do Projeto de Mestrado em Ciências da Educação - Especialização em Animação Sociocultural, com vista à obtenção do Grau de Mestre em Ciências da Educação.

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Dedicatória

À minha esposa Chems Edha

Ao meu filho Ali

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Agradecimentos

No momento da conclusão desta dissertação, compete‐me agradecer a todos os que, de alguma forma, contribuíram para que eu a tenha conseguido levar a bom termo.

À minha orientadora, Professora Doutora Maria José dos Santos Cunha, cujo conhecimento e elevada competência me guiaram durante esta investigação. Não só me deu valiosas sugestões que contribuíram para enriquecer o meu trabalho, como também me apoiou nos momentos mais difíceis com elevada dedicação.

Aos professores que colaboraram comigo e que acreditaram nesta investigação.

Ao Eng. Jorge Paulo dos Santos, diretor da Escola Profissional de Chaves, pela forma como me encorajou e por todo o apoio que me facultou.

À Escola Profissional de Chaves por abrir as portas para que eu pudesse realizar este percurso universitário.

Ao meu amigo e colega Júlio Costa do Mestrado em Ciências da Educação- Especialização em Animação Sociocultural, pelo apoio e amizade.

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Resumo

O presente projeto de investigação que tem como título, “Animação em meio rural: o caso da aldeia de Pegarinhos no concelho de Alijó” surge como forma de reflexão sobre a valorização do património local através da Animação Sociocultural a fim de recuperar as tradições existentes em Pegarinhos que se tem vindo a perder ao longo dos tempos. O desenvolvimento cultural é valorizado, refletindo as aspirações e realidades das comunidades e assume-se como a plena realização humana do homem. Assim, desenvolve-se o seu potencial, e a criatividade, a partir da participação consciente e comprometida com uma projeção futura, através da animação.

Nele se reflete também a importância da animação sociocultural como uma alternativa para projetos de desenvolvimento cultural nas comunidades, já que oferece a oportunidade e o espaço para as pessoas reunirem em grupo e darem início a um conjunto de transformações socioculturais que contribuam para aprofundar o seu processo de desenvolvimento cultural.

O estudo levado a cabo permitiu-nos retirar ilações positivas relativamente à animação sociocultural como alternativa para o trabalho cultural a realizar por ser uma mais-valia no estímulo da criatividade, na participação, na coesão do grupo e satisfação das necessidades culturais da comunidade.

Palavras-chaves: Animação sociocultural; Pegarinhos; valorização do património;

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Abstract

This project of investigation entitled "Animation in rural areas: the case of village in the municipality of Pegarinhos Alijó", comes up as a way to value the local heritage through socio animation culture. In order to recover the existence of Pegarinhos traditions those have been lost over time. Cultural development is valued, reflecting on the aspirations and realities of communities as well as assuming the human realization. Thus, it develops its potential, and creativity starting with the conscious and committed participation through animation in its prospective scope.

In it is reflected also the importance of sociocultural animation as an alternative to cultural development projects in communities, since it offers the people with the opportunity and space to gather in groups and kicking off a series of socio-cultural changes that will contribute to deepen the process of cultural development.

The study carried out allowed us to draw conclusions regarding the socio-cultural activities as an alternative to the cultural work the perform to be an added value in can become a mechanism that contributes to creativity, participation and group cohesion and meets the cultural needs of the community.

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Índice

Dedicatória ... I Agradecimentos ... II Resumo ... III Abstract ... IV Índice ... V

Índice de gráficos ... VIII

Lista de Abreviaturas ... X

Introdução ... - 1 -

Capitulo I - Enquadramento Teórico ... - 3 -

1.1. Animação Sociocultural: Definição de conceitos ... - 4 -

1.2. A animação e o seu papel na promoção de um território ... - 6 -

1.2.1. A animação no meio rural: um fator de crescimento ... - 8 -

1.3. Algumas considerações sobre animação, cultura e turismo ... - 9 -

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Capitulo II - Local de estudo ... - 15 -

2.1. Caraterização ... - 16 -

2.2. Pegarinhos e as suas tradições ... - 18 -

2.2.1. A tradicional romaria em honra da Sr.ª dos Aflitos ... - 20 -

2.2.2. A fogueira do Natal ... - 22 -

2.2.3. Cortejo fúnebre do rei entrudo (carnaval) ... - 23 -

2.2.5. O teatro popular ... - 27 -

2.2.6. Gastronomia ... - 29 -

Capitulo III - Opções metodológicas ... - 31 -

3.1. Problemática, tema e pergunta de partida ... - 32 -

3.2. Hipóteses de trabalho ... - 33 -

3.3. Objetivos da investigação ... - 34 -

Objetivo Geral ... - 34 -

Objetivos específicos ... - 35 -

3.4. Metodologias e técnicas de investigação utilizadas... - 35 -

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3.6. Constituição da amostra ... - 39 -

Capitulo IV – Análise de Dados ... - 40 -

4.1. Apresentação e análise dos dados recolhidos ... - 41 -

4.2. Discussão dos resultados conseguidos através do questionário aplicado ... - 46 -

5. Conclusão e prospetivas ... - 47 -

Bibliografia ... - 49 -

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Dados do questionário

Questão 1 - Sexo ... - 41 -

Questão 2 - Idade ... - 41 -

Questão 3 - habilitações literárias ... - 41 -

Questão 4 - No seu entender a ASC ocupa um lugar de destaque na aldeia de Pegarinhos? - 42 -

Questão 4.1 - Justifique a sua resposta ... - 42 -

Questão 5 - Se respondeu negativamente à questão 4 é de opinião que uma intervenção através da Animação Sociocultural possibilitaria o fortalecimento cultural de Pegarinhos? . - 42 -

Questão 6 - A divulgação das tradições da aldeia de Pegarinhos pode ser um recurso primário em termos de projeção cultural? ... - 43 -

Questão 6.1. - Justifique a sua resposta ... - 43 -

Questão 7 - Na sua opinião, o fortalecimento cultural pode representar uma mais-valia na vida da população de Pegarinhos? ... - 43 -

Questão 7.1. - Justifique a sua resposta ... - 43 -

Questão 8 - A aldeia de Pegarinhos têm conseguido preservar as suas tradições nestes últimos anos? ... - 44 -

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Questão 9 - O património cultural de Pegarinhos é um recurso com possibilidades de desenvolvimento? ... - 44 -

Questão 10 - Concorda com a criação de workshops na aldeia, de forma a preservar as tradições/costumes locais? ... - 45 -

Questão 11 - Estaria disponível para ser parte integrante e fundamental na realização de Workshops, como agente ativo? ... - 45 -

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-Lista de Abreviaturas

ASC – Animação sociocultural

TER - Turismo em espaço rural

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Introdução

A animação é um marco importante na vida das comunidades, quer quando inova através de técnicas, ideias e conhecimentos que modificam as realidades em que essa inovação se produz, quer quando cria cultura.

A sua finalidade é assim, produzir nas comunidades e realidades em que emerge, transformações com vista a uma melhoria da qualidade de vida dessas comunidades.

Com base nestes pressupostos e tendo em conta que Pegarinhos, uma freguesia do concelho de Alijó, no distrito de Vila Real, onde temos não apenas as nossas raízes e por isso a ela estarmos ligados afetivamente, mas sobretudo, e não menos importante, pelo facto de Pegarinhos ser uma freguesia marcada por um conjunto de tradições, costumes e crenças que a gente desta localidade guardou ao longo das diferentes gerações, procurando com isso estabelecer a sua herança cultural que dava a conhecer em festividades religiosas ou populares através dos jogos, cantares, rezas, poesia e memórias e que aos poucos se têm vindo a perder, surgiu em nós a vontade de encontrar resposta para a questão que então se nos colocou e que era a de saber: “Qual a eficácia de uma intervenção através da Animação Sociocultural em Pegarinhos?”.

Como forma de conseguir essas respostas decidimos desenvolver um projeto de investigação que denominamos de “Animação em meio rural: o caso da Aldeia de Pegarinhos no concelho de Alijó”, que mais do que tudo é um estudo de caso, com o qual pretendemos encontrar os caminhos certos para fortalecer o património cultural da freguesia, resgatar as tradições locais, darmos a conhecer as suas potencialidades e perspetivar a freguesia como um possível território turístico onde a tradição é mantida e transmitida.

A metodologia a que recorremos para levar por diante este estudo foi não apenas de caráter quantitativo mas também qualitativo.

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O trabalho está estruturado em quatro capítulos, sendo que no primeiro deles denominado “Enquadramento teórico”, tratamos da animação sociocultural: definição de conceitos; a animação e o seu papel na promoção de um território; algumas considerações sobre animação, cultura e turismo e tradição e transmissão. No capítulo II “Local do Estudo” abordamos a caraterização do mesmo e Pegarinhos e as suas tradições. No Capítulo III “Opções metodológicas” abordamos a problemática, tema e pergunta de partida; hipóteses de trabalho; objetivos da investigação; metodologias e técnicas de investigação utilizadas; instrumentos de recolha de dados utilizados e a constituição da amostra. No último Capítulo o IV “Análise de dados”, procedemos à apresentação e análise dos dados recolhidos através do questionário aplicado e à discussão dos resultados dos mesmos a que se segue a conclusão e prospetivas.

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1.1. Animação Sociocultural: Definição de conceitos

De uma forma geral, a definição de animação está ligada à ideia de movimentação e ação. Como afirma Toraylle (1973: 32), “animar é considerado um meio de dar vida ou alma a algo, de modo a proporcionar as mudanças sociais, nas quais as pessoas detêm um papel elementar”. O conceito na forma em que é empregue na atualidade é bastante recente, e, apesar de ter estado sempre presente em toda a história da humanidade, só na década de 60 do século XX é que se dá o seu desenvolvimento e rápida expansão (Toraylle, 1973). De facto a animação surge pela primeira vez, na Europa, na França, assinalando um grupo de ações que tinham como principal objetivo a participação das pessoas na vida social e que se caraterizava, segundo Ferreira (2005: 90) “ por um prodigioso intrincado e variado de práticas o campo social e cultural que se designavam por animação sociocultural assomando, ainda com frequência a designação de animação comunitária”.

Para Ayuso (2002: 62), “a UNESCO considera a animação sociocultural como um conjunto de práticas sociais que têm como objetivo estimular a iniciativa e a participação das comunidades no processo do seu próprio progresso e na dinâmica global da vida em que estão inseridos”. Por seu lado, Trilla (2004: 26) define a animação sociocultural como o conjunto de ações realizadas por sujeitos, grupos ou organizações numa comunidade (ou sector da mesma) e dentro do âmbito de um território concreto, com o objetivo principal de promover nos seus membros uma postura de participação ativa no processo do seu próprio desenvolvimento quer social quer cultural. Na mesma linha de pensamento Ander-Egg entende a Animação sociocultural como

(…) Um conjunto de técnicas sociais que, apoiadas numa didactologia participativa tem por objetivo principal promover práticas e atividades voluntárias, que com a participação ativa dos sujeitos, se desenvolvem no seio de um grupo ou determinada comunidade, e se manifestam nos diferentes âmbitos das atividades socioculturais que indagam o crescimento da qualidade de vida” (2000:100).

Bento descreve-a como “uma forma de ação sociopedagógica que, sem ser única, se qualifica pelo propósito de gerar normas de participação das pessoas em áreas culturais,

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sociais e educativas que se ajusta, aos seus próprios interesses e necessidades” (2003: 120-121). Outros autores como Quintana (1986), Besnard (1991), Ventosa (1993), Trilla (1998), Ander-Egg (2000) são alguns dos que têm vindo a conjeturar acerca da animação sociocultural e como seria de esperar nem todos compartilham dos mesmos términos e fundamentos. Surgida da carência da criação de projetos e iniciativas que tivessem como destino o melhoramento das situações de vida e o bem-estar social, a animação sociocultural cada vez mais, e como afirma Pereira (2008: 7-8) “tem de ser enfrentada como um direito dos cidadãos e como parte essencial do dia-a-dia das sociedades, do seu património cultural e da educação”. Assume-se como um processo complexo inserido no desenvolvimento de culturas das comunidades, associações, instituições, setores e grupos dirigidos de forma a conseguir a participação da sociedade na cultura. Neste processo, a animação descobre a formas práticas de facilitar a incorporação no desenvolvimento cultural, não só da memória histórica, das tradições e costumes, mas também, as novas propostas e alternativa para a conservação, defesa e desenvolvimento do património cultural, da identidade e da cultura.

A animação sociocultural integra todos os aspetos possíveis da evolução individual. Expõe-se, deste modo, como uma visão vasta, como um elemento modificador da vida associativa, como um lugar novo de educação, de recriação cultural e também de transformação social. Processo no qual o individuo como parte da comunidade tem uma participação autogestionária no seu próprio desenvolvimento cultural. E porque a cultura permite ao homem assimilar e transformar os valores que herda e cria no seu entorno e projeta conscientemente no futuro, o homem, como ser social que é, tem um papel ativo que lhe permite desenvolver a criatividade num projeto de vida não só individual, mas também coletivo. Deste modo se entende o importante papel da cultura com respeito ao desenvolvimento, pois este só pode prosperar, ser satisfatório e obtenível, quando está centralizado na cultura e tradições de cada povo ou comunidade, quando tem em conta os estilos de vida, sistema de valores, tradições, crenças, conhecimentos e atitudes da comunidade, o que exige, por sua vez a participação ativa dos indivíduos como beneficiários deste processo. Não admira portanto que atualmente tenha grande importância não apenas a satisfação das necessidades espirituais e como elemento de influência direta na produção de meios materiais da vida em sociedade, mas também como um modelo de intervenção, que parte de um aspeto importante que é

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a cultura, para posteriormente abordar o que conformaria o seu processo de intervenção sobre uma realidade determinada.

1.2. A animação e o seu papel na promoção de um território

O desenvolvimento do turismo em espaço rural pode ter um importante papel no processo de diversificação da economia das zonas rurais e na introdução de elementos diferenciadores da oferta turística nessas zonas. No caso de Pegarinhos, é importante potenciar as suas tradições tendo em vista essa finalidade. Até porque a cultura, as tradições e os modos de vida das populações constituem fatores de atração turística importantes, na medida em que influenciam a escolha do destino turístico.

“A comunidade é uma categoria social que expressa de relações humanas, é um ligar de convivência, um território donde os atores sociais que a integram atuam e interatuam em função do alcance das metas e propósitos comuns compartindo as condições básicas sociais, historias, culturas, ambientes de vida. Comunidade indica o grupo humano nas suas manifestações primigénias, esta intimamente ligada aos conceitos de cooperação e desenvolvimento que lhe imprime a sociedade um selo característico, uma forma de vida coletiva, que a constituem em unidade complexa em permanente transformação e a distingue de qualquer outra fazendo que ela de gera e desenvolva nos sentimentos de solidariedade e de identidade que conexiona o grupo e impões estabilidade e permanência” (Macías 2003; 19)

Além disso, no Alto Douro, o turismo está atualmente numa fase de desenvolvimento, daí que as regiões procurem oferecer a quem as visita, o que melhor as carateriza, como é o caso das paisagens, o património rural, as atividades agrícolas ou a tradição gastronómica, fatores que enriquecem o acervo turístico que influenciam os turistas. Se a isto se aliar a animação, a atração turística poderá ser facilitada. Importante se torna, para isso, que as populações locais tomem consciência do valor dos seus territórios e haja um esforço comum de cooperação por parte das instituições da região, para que, através da sua experiência, ideias e desenvolvimento de parcerias, procurem potenciar e incentivar a aplicação de estratégias inovadoras de desenvolvimento sustentável, integradas e de qualidade, como forma de valorizar as festas, o património natural e cultural, o reforço do ambiente económico e a melhoria da capacidade organizacional da comunidade.

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A animação acarretará por certo uma melhoria na qualidade da oferta e na satisfação dos clientes, dado que o seu papel não será apenas o de entreter e divertir, mas terá o potencial de uma ferramenta educacional e de marketing. A animação pode assim surgir como oferta turística complementar, como mais um produto de oferta ou como um produto central na oferta turística, relegando neste caso outros aspetos, para segundo plano. Numa outra ótica, a animação turística tem outra dimensão, que é a possibilidade de criar um espaço de enriquecimento intercultural, entre os locais e os visitantes, o que não implica considerá-la como um simples negócio turístico, com o qual se procura a mera recreação e alienação, mas também como oportunidade de intercâmbio que contribui para o entendimento mútuo entre pessoas vindas de diferentes universos sociais e culturais.

(…) O Desenvolvimento deve ser um processo integrado, envolvendo as dimensões económica, social, cultural, ambiental e política, privilegiando para essa integração o trabalho a nível local, em meios desfavorecidos, atuação que não se esgota na componente económica do desenvolvimento, incluindo também com destaque a educação para a autoestima, a cidadania ativa e a valorização da cultura local (…) (Animar, 1998:4)

Ezequiel Ander-Egg categoriza o crescimento local como sendo ações à escala social, formando um modo de fortalecer a democracia desde suporte comunitário e o contributo para a fortificação das direções municipais. Ander-Egg suporta a tese de que o “local” é o espaço mais apropriado para o desenvolvimento de programas de e para a comunidade. As estruturas comunitárias ficam fortalecidas com o decurso do desenvolvimento local protagonizado pelas ações territoriais dos movimentos sociais e das organizações não-governamentais.

Uma comunidade é uma organização, um conjunto de pessoas que habitam num espaço geográfico delimitado, cujos membros tem consciência de identificação com algum símbolo local e que a internacional entre si de forma mais intensa e apoio mútuo, com o propósito de alcançar determinados objetivos e satisfazer necessidades, resolver problemas ou desempenhar funções sociais relevantes a nível local (Ander-Egg 2003: 25).

Rudolf Rezsohazy afirma que, (…) o desenvolvimento comunitário é uma ação coordenada e sistemática que, em resposta as necessidades ou demanda social, trata de

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organizar o progresso global de uma comunidade territorial de uma povoação – objetivo, com a participação dos interessados (…) (1988:18).

1.2.1. A animação no meio rural: um fator de crescimento

Nas áreas rurais existirem uma serie de características como a dispersão geográfica, o despovoamento, e pequenos municípios, razão porque animação sociocultural nestas áreas é muito global, levando a que se trabalhe com diversas associações, municípios, grupos formais de todos os setores da população, grupos informais ou indivíduos de qualquer grupo.

Valcárcel-Resalt e Troitiño definem o desenvolvimento do meio rural “como um processo localizado por uma mudança social e crescimento económico sustentável, que tem como finalidade o progresso permanente da comunidade rural e de cada individuo integrado nela”. (1992:66)

Por outro lado, Gomez acrescenta que “ pode entender-se no sentido básico como a melhoria das condições de vida dos habitantes dos territórios rurais, o que por sua vez implica o incremento dos níveis de renda, a melhoria das condições de vida e de trabalho e a conservação do meio ambiente”. (2002:SN)

Todos eles de uma forma geral fornecem informação, aconselhamento e apoio técnico, promoção e capacitação em todos os momentos da participação e integração na vida social da sua comunidade. Nestes espaços a animação, quer seja por si própria, ou através da dinamização de outras atividades que lhe são tributárias e que com ela interagem constitui uma atividade criadora de progresso económico para a comunidade que nele vive. Nas zonas rurais, onde esta atividade se tem vindo a desenvolver, é já possível constatar um tributo positivo para a melhoria da economia rural, do seu desenvolvimento e dinamismo, dando um contributo positivo para o desenvolvimento local, conservação das tradições dinamização de iniciativa culturais, recuperação do património histórico, revitalização através do aparecimento de novas dinâmicas, ideias e iniciativas e educação da população.

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Para Izquierdo Vallina o desenvolvimento local “é um método que pretende a evolução do território por meio de um processo de mobilização dos recursos endógenos – isto é, os próprios de um território ou de uma cultura – ao serviço da promoção social e pessoal da comunidade local. A sua execução logra-se assumindo iniciativas de emprego e desenvolvimento compatíveis com a conservação do seu património cultural e natural”. (2005:287)

Os grupos que mais contribuem para este desenvolvimento são os poucos jovens das áreas rurais, já que a maioria migrou para as áreas urbanas e mulheres que hoje têm um papel fundamental no desenvolvimento das zonas rurais. No entanto, a maior dificuldade para a organização de atividades de animação no meio rural advém da falta de recursos, quer humanos quer monetários.

Contudo, uma característica positiva dos residentes nestas zonas é a solidariedade e cooperação que sempre demonstram, quando se trata de ajudar a melhorar e desenvolver a região. O essencial para que tais valores se manifestem é que as ações a desenvolver, impulsionem a população, fortaleçam as relações entre os indivíduos e lhes proporcionem as competências necessárias para que atinjam todo o seu potencial.

1.3. Algumas considerações sobre animação, cultura e turismo

A cultura é o somatório de tudo aquilo que produzimos ao longo da vida, da forma como o fazemos e tentamos conservar, de ideias, criações e memórias. Processa-se através da criação e transmissão de conhecimentos, costumes, usos e crenças, práticas rituais, mitos, tradições, padrões de comportamento, ideais de vida e por todo um património cultural que é necessário e urgente preservar e conservar como memória da história de um povo.

Segundo Sousa (1997), a cultura inclui um conhecimento dos hábitos e de todas as capacidades adquiridas pelo Homem como membro da sociedade. Ainda segundo o mesmo autor (1997: 84) “nenhum homem pode integrar determinada cultura se não for educado e criado segundo as suas normas e valores”. O património lúdico tradicional,

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que tem a sua origem na cultura da comunidade a onde pertence, pode e deve contribuir para uma melhor harmonia do método aprendizagem, já que "é urgente viver o presente, preparando o futuro, e respeitando a tradição" Noronha Feio (cit. por Guedes, 1995).

A cultura é assim um sistema dinâmico que se caracteriza pela constante incorporação de novos elementos e perda de outros e se transmite de geração em geração, constituindo a tradição.

Ander-Egg é de opinião que,

(…) As classes populares foram no passado depositárias vitais da cultura nacional. Porém, os tempos mudaram e o desenvolvimento cultural (…) não pode continuar a defesa e afirmação do passado: é desse passado que se deve criar o presente e projetar o futuro” (2003: 49-50).

Para Crespi a cultura surge,

(…) como um conjunto polivalente, diversificado e frequentemente heterogéneo de representações, códigos, leis, rituais, modelos de comportamento, valores que constituem, em cada situação social específica, um conjunto de recursos, cuja função própria surge diferentemente definida consoante os momentos. (…) Um pouco como a caixa de ferramentas (tool kit) ou um repertório, contendo símbolos, narrações, rituais e conceções do mundo, que os indivíduos, selecionando instrumentos diversos para a construção da sua linha de ação, possam utilizar em configurações específicas, que variam no tempo (1997: 30).

Por sua vez, o turismo constitui hoje um meio de confronto de comportamentos, mentalidades e costumes das populações com diferentes culturas, o que, na opinião de Figueira (2002: 49), “surge como fator de alteração económica, social e cultural, podendo contribuir para uma maior abertura à modernidade”, ao abrir as portas às grandes massas. De facto, este sector — que é uma janela aberta para a economia nacional — ao oferecer perspetivas de descoberta de novos horizontes, mudança de ambiente, ou participação e conhecimento da vida de outras comunidades, quebrou o isolamento e, em simultâneo, abriu novas fronteiras ao conhecimento.

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Como tal, o “turismo cultural” está a servir como uma etiqueta comercial para vender cultura e património cultural, sendo estes convertidos em simples mercadorias Sierra e Pereiro (cit. por Pereiro 2009:112).

Segundo o antropólogo Manuel Delgado (cit. por Pereiro 2009:116) o turismo cultural é, “…o turismo cultural é uma indústria cuja matéria-prima é a representação teatralizada e sobretudo realista, com qualidades que se consideram de algum modo permanentes a determinadas agregações humanas de base territorial – cidades, regiões, e países”.

Segundo Clifford (cit. por Pereiro, 2009:117), “O turismo cultural como uma forma específica de viajar, fala do turismo cultural, já não segundo o ponto de vista dos produtores e dos produtos, mas sim segundo o ponto de vista dos consumidores e do consumo.”

Por outro lado, o turismo permitiu a aproximação dos povos e o estabelecimento de relações interpessoais, como forma de fruição e de lazer. E ao favorecer o contacto entre o turista e a população local, estimula o intercâmbio cultural e leva a um entrosamento amigável e responsável. É este relacionamento entre as partes que conduz, no entender de Oliveira (2001: 46),

(…) O local visitado ao desenvolvimento económico, à medida que a localidade se organiza e dinamiza o sector turístico. É justamente nesse ponto que o turismo começa a produzir os seus resultados, com a circulação da moeda, aumento do consumo de bens e serviços, aumento da oferta de empregos, elevação do nível social da população e ainda o aparecimento de empresas dedicadas ao sector.

Assim sendo, a cultura, tradições e modos de vida constituem fatores de atração turístico importante, na medida em que influenciam a escolha do destino turístico. Porém, a crescente concorrência verificada ao nível de oferta turística tem provocado um alargamento do mercado com a consequente necessidade de renovação e diversificação das ofertas. E é aqui que a animação adquire importância, na medida em que possibilita ao turista poder envolver-se com o ambiente e enriquecer-se a nível de experiências. Ela surge portanto, como ponto forte na resolução de alguns dos

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problemas rurais, sobretudo quando existe já oferta de alojamento de qualidade, mas não se conseguem atrair turistas, pois faltam atividades relacionadas com o lazer e a recreação.

1.4. Tradição e transmissão

Os seres humanos criam cultura. A nossa forma de pensar, de sentir, de atuar, a língua que falamos, as nossas crenças, a comida e a própria arte, são alguns das expressões da nossa cultura. Este conjunto de saberes e experiências transmite-se de geração em geração por diferentes meios. As crianças aprendem dos adultos, e os adultos aprendem dos mais idosos. Aprendemos aquilo que ouvimos, lemos, vemos ou experimentamos por nós mesmos ou através da convivência quotidiana. Assim se geram as tradições.

Mediante a transmissão dos seus costumes e tradições, um grupo social tenta assegurar que as gerações jovens dêem continuidade aos conhecimentos, valores e interesses que os distinguem como grupo e os fazem diferentes dos outros. Conservar as tradições de uma comunidade ou de um país significa praticar costumes, hábitos, formas de ser e modos de comportamento das pessoas.

Para nos conhecermos melhor como pessoas e como grupo humanos é importante refletir sobre os nossos costumes e tradições, pensar e dialogar com a comunidade sobre que podemos resgatar do legado dos nossos antepassados. Necessário também é discutir com que critérios aceitamos ou rejeitamos os costumes e tradições dos outros povos. Podemos aproveitar as nossas heranças culturais, considerarmos que os costumes e tradições são os laços que estreitam as relações de uma comunidade, que lhe deram identidade, rosto próprio e facilitam a projeção para um futuro em comum.

Conhecemos a tradição como sendo um conjunto de ideias, usos e costumes ou atividades que se transmitem de geração em geração, seja por via oral, mediante festas, vestuário, bebida, gastronomia, arquitetura e outros aspetos culturais. Etimologicamente, a palavra tradição deriva do latim traditio. Dos vários sinónimos que lhe são atribuídos (como por exemplo: transmissão, consignação, ensinamento e narração), um elemento permanece invariável: “a passagem de um conjunto de dados

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culturais de um antecedente a um consequente” (Romano, 1997: 166), sejam famílias, grupos, gerações, classes ou sociedades.

É importante também questionar quanto tempo é necessário para que algo seja considerado tradição. Para Shils (1981:15) é categórico: “qualquer ´coisa` tem que durar pelo menos três gerações – sejam elas longas ou curtas – para ser uma tradição”.

Por outro lado “tradição” pode referir-se a um ambiente sociocultural de certo tipo. É isso que acontece num dos usos mais correntes do termo, aquele que contrasta “tradição e modernidade”.

De todas as definições existentes, uma das que seguimos como modelo deste trabalho de investigação é a do antropólogo Maddox que no seu estudo sobre: “Políticas da Tradição” afirma que: “ […] a tradição envolve uma invocação do passado para os objetivos do presente, e está constantemente a ser inventada e reinventada por forma a assegurar arranjos sociais presentes” (1993: 9-10).

Segundo Silva (2000:14), “as tradições (…) funcionam como textos, mensagens autorizadas, detentoras de realidade e legitimidade próprias, que servem de referência comum”. Este vetor de realidade pode muitas vezes, vendo a sua origem demasiado remota, criar raízes no imaginário comum, isto é:

Tendo a origem real das sedimentações perdido importância, a tradição pode inventar uma origem completamente diferente, sem com isso ameaçar o que foi objetivado. Em outras palavras, as legitimações podem seguir-se umas às outras, de vez em quando outorgando novos significados às experiências sedimentais da coletividade em questão (Berger, 1976: 97).

Vários comportamentos, tidos como tradicionais, funcionam como uma ponte ao longo do tempo e, deste modo, no decurso de processos de conservação e inovação, compreendem múltiplas possibilidades para uma interação entre o passado e o presente.

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Fará, então, sentido reconhecer que:

Não existem sociedades sem tradições: não existe sociedade na qual os conteúdos culturais e estruturais que caracterizam as suas dinâmicas históricas não se manifestem como a intersecção permanentemente mutável entre um património marcado pelo passado e as constantes exigências de inovação que surgem a todos os níveis da vida coletiva” (Romano, 1997: 191).

Segundo Romano,

A herança da tradição tenta muitas vezes transformar-se na representação vinculativa e compulsiva, da ‘verdade’. (…) Pondo-se como garantia de crenças, enunciados, visões do mundo, comportamentos cuja persistência parece torná-los inatacáveis, e quanto mais eles remontam a épocas remotas mais reclamam um direito quase automático à legitimação (1997: 166).

Podemos concluir que tradição pode representar uma repetição de um caminho já antes percorrido, um modelo ou evento referente ao passado, que encontra neste a sua origem.

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2.1. Caraterização

O concelho de Alijó é um dos que fazem parte do distrito de Vila Real. Delimitado pelos rios Douro, Tua, Tinhela e Pinhão e pelas montanhas transmontanas, tem uma área aproximada de 300 Km2 e insere-se na Região Demarcada do Douro. Detentor dos mais belos solares, igrejas, capelas e casas senhorial deste concelho apresenta um caráter rural. As suas gentes vivem essencialmente da agricultura e do pequeno comércio. A cultura vitivinícola dos vinhos finos ou generosos e de mesa, praticada essencialmente nas terras junto aos rios que delimitam o concelho, são o seu principal suporte económico, a par da prática da pastorícia em lameiros e dos soutos, nas terras mais altas. Tal como no passado, também hoje, o clima, a situação geográfica e o magnífico património natural e arqueológico se impõem como fatores de atração. Constituído por catorze freguesias, o concelho é marcado por duas zonas distintas: a zona Norte, agreste, rica na cultura do azeite, cereais, leguminosas, batata e amendoais e a zona Sul, tipicamente duriense, repleta de vinhedos em socalcos e paisagens verdejantes. Uma dessas freguesias é Pegarinhos, situada na margem direita do rio Tinhela, a 14 Km de Alijó e constituída por Vale de Mir, Castorigo e Pegarinhos.

Entre montes, fragas e pinhais, a freguesia de Pegarinhos para além de ser um local de lazer, onde a harmonia rural se associa à beleza das suas paisagens, apresenta muitos locais dignos de serem vistos e apreciados e longínquas marcas de ocupação territorial, ainda percetíveis na paisagem montanhosa que a circunda. A ligação à A4 faz-se pelo nó de Murça - 7 km; pelo nó do Pópulo – 10 km; Estrada nacional Nº. 212 Pópulo/ Alijó - 5 km. A arte rupestre, as pontes romanas, o santuário e igrejas que resistem à passagem do tempo, são símbolos e marcos históricos da freguesia. Os rituais pagãos, que desde a pré-história tinham lugar nesta paisagem, marcam um sistema de povoamento regular que aproveitava os recursos que a terra e a rede hidrográfica do Tinhela ofereciam. Rituais que estão bem marcados nas estações de arte rupestre da Botelhinha e da Igrejinha, onde são visíveis nos batólitos graníticos que cobrem a serra da Botelhinha, gravações de cruzes, motivos raiados, reticulados e ferraduras, que atestam, pela tipologia que apresentam, uma continuada utilização do sítio, bem como a afirmação de um sistema de povoamento mais vinculado à terra. O Castro de Vale de

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Mir e o Castelo de Castorigo são exemplos marcantes de povos da idade do ferro que, posteriormente foram absorvidos pela máquina conquistadora romana.

O Castro de Vale de Mir, que se localiza na vertente do planalto de Alijó, apresenta duas linhas de muralhas entre as quais se encontram diversos fragmentos cerâmicos, moedas e moinhos manuais que caraterizam tanto a idade do ferro, como a denominação romana neste local. O Castelo de Castorigo, situado a noroeste de Pegarinhos, apresenta três linhas de muralhas, entre as quais são igualmente visíveis inúmeros fragmentos de cerâmica manual, datável da idade do ferro. A ocupação romana no Castelo de Castorigo é atestada pelos lagares romanos cavados na rocha, no sopé do monte e todo o material que lhe está associado. O domínio romano nesta área veio certamente enriquecer os contactos entre os povos, a julgar pelos troços da via romana que são visíveis no sopé da serra da Botelhinha e que muito provavelmente, a julgar pelo troço de via existente nesta vila, ligariam, pelo Alto do Pópulo, os principais pontos de povoamento na região, nomeadamente os povoados de Vale de Mir, Castelo de Castorigo e o Castelo do Cadaval em Murça,

Outros elementos patrimoniais que marcam a paisagem de Pegarinhos, são a ponte de pedra sobre o regato do Souto, a Igreja Matriz (1804), as cruzes em pedra no adro desta, as casas senhoriais que ladeiam o largo principal, as alminhas e nichos que acompanham os caminhos mais recônditos, as capelas de S. Francisco e de S. Bartolomeu, o Santuário da Nossa Senhora dos Aflitos e o nicho do Santo Cristo, em Vale de Mir, datado de 1744. A economia da freguesia, bem como a sua paisagem, tem a ver com a sua privilegiada localização geográfica e tem a ver com a exploração do pinheiro; sobreiro; predomínio das amendoeiras, que para além de fornecerem o fruto, proporcionam uma real beleza na época da floração; as vinhas e oliveiras, razão para que até há bem pouco tempo existisse uma azenha para o fabrico do azeite, bem como uma adega regional de onde saem prestigiados vinhos de mesa tratados. O cabrito assado, o bolo de carne e vinhos tratados e de mesa são as especialidades da terra. As atividades ligadas à ferraria, tanoaria e empalhamento dão lugar ao artesanato local. Existem ainda duas coletividades que apoiam diversas ações de âmbito cultural: a Associação Desportiva e Cultural de Pegarinhos, fundada em 1978 e o Grupo de Teatro da Casa do Povo.

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2.2. Pegarinhos e as suas tradições

O povo português, nomeadamente o da região trasmontana, foi sempre um povo de tradições que acompanham as populações desta região desde o berço e que lhes foram legadas pelos antepassados. As tradições — práticas ou maneiras de fazer ou dizer próprias de determinado grupo, que as repete em determinadas circunstâncias — não se limitam à transmissão de valores, hábitos, ensinamentos, comportamentos, repetição mecânica de termos e formas ou mesmo à conservação de princípios imemoriais, porque se atendermos que transmitir cultura é o ato pelo qual uma manifestação se identifica consigo própria e que transmitir é ter consciência do que permanece da sua história, elas dão-nos, sobretudo, a sensação de um eterno regresso às origens.

Tradição é um termo que deriva do latim “ tradictio” que significa transmissão. É de acordo com o Dicionário da Língua Portuguesa (2001: 3600) a “transmissão de valores e de factos históricos, artísticos e sociais, de geração em geração, através da palavra ou do exemplo”. Existe a tradição escrita e a tradição oral. A tradição escrita é de acordo com o Dicionário da Língua Portuguesa (2001: 3600)

Transmissão de factos feita através de documentos escritos e da sua leitura”. A tradição oral é a “transmissão feita através da oralidade, fala e escrita. [...] Facto que é transmitido de geração em geração através da palavra ou do exemplo. [...] Conjunto de factos, crenças, valores e costumes que constituem memória coletiva de uma comunidade.

Segundo Parafita (2005:30)1

Tradição oral é a transmissão de saberes feita oralmente, pelo povo, de geração em geração, isto é, de pais para filhos ou de avós para netos. Estes saberes tanto podem ser os usos e costumes das comunidades, como podem ser os contos populares, as lendas, os mitos e muitos outros textos que o povo guarda na memória (provérbios, orações, lengalengas, adivinhas, cancioneiros, romanceiros, etc.).

1

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Podemos assim definir tradições populares como:

O conjunto das criações culturais de uma comunidade, baseado nas suas tradições expressas, individual ou coletivamente, representativo de sua identidade social. Constituem-se fatores de identificação da manifestação folclórica: aceitação coletiva, tradicionalidade, dinamicidade, funcionalidade. 2

Ou como salienta Giddens considerar a tradição como sendo uma:

(…) rotina, mas é uma rotina que tem um significado intrínseco e não meramente um hábito vazio só pelo hábito. O tempo e o espaço não são as dimensões desprovidas de conteúdo em que se tornaram com o desenvolvimento da modernidade, mas estão contextualmente implicados na natureza das atividades vividas. Os significados das atividades rotineiras residem no respeito geral, ou reverência até, intrínsecos à tradição e na ligação da tradição com o ritual (1994: 86-87).

Transmitir é agir sobre a herança que recebemos, é selecionar, adaptar valores tradicionais ao meio, é integrar novos dados na experiência e conhecimentos que antes detínhamos, daí que nada permaneça imutável, o que leva Brito a referir que, nas tradições “permanentemente se incorporam as inovações que recuperam sobre aspetos novos o sentido mais profundo que as exige” (1991: 8).

Desta forma e tal como refere Pires Ferreira (1991: 132), “há instrumentos, costumes, formas de trabalhar, de cantar e rezar, que perduram séculos de vida; outros desaparecem e deles não fica recordação e memória nas histórias, nos instrumentos, nos lugares que os viram florir e morrer”. Podemos assim encarar a tradição como um fator dinâmico de transmissão, manutenção e transformação comedida da herança recebida, cuja importância advém do facto de nos vir de um passado imemorial, em que foi vivido e sentido, que herdamos, que é autêntico, diferente, que foi assimilado e conservado e que, por isso, nos leva a tentar agarrar o tempo para as mantermos, uma vez que o ser humano necessita de uma memória coletiva, de conhecer as suas raízes, o seu passado, o que lhe vai permitir dar passos em direção ao futuro.

2

Congresso Brasileiro de Folclore(8:1995:Salvador, BA). Anais. Rio de Janeiro: UNESCO. Comissão nacional de folclore. 1999. Pp.1997.

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Assim acontece com a aldeia de Pegarinhos, uma aldeia com pouco mais de quatrocentos e cinquenta habitantes, mas que possuiu um conjunto de tradições que a identificam e caraterizam, bem como às suas gentes e que a marcam com uma forte presença cultural.

Algumas das principais tradições da aldeia de Pegarinhos são: a grandiosa romaria em honra de Nª. Sr.ª. Dos Aflitos no último domingo de agosto, que se realiza desde 1835. A feira mensal no 3º. Domingo de cada mês, a fogueira do Natal, os casamentos do entrudo, a queima do entrudo e as cascatas de S. João. Os jogos da malha, as corridas de sacos, as corridas de burros, as corridas de cântaros, o jogo das pedrinhas, o jogo do dá-me ludá-me e o pau ensebado, são alguns dos que ainda se realizam.

2.2.1. A tradicional romaria em honra da Sr.ª dos Aflitos

O santuário de Nossa Senhora dos Aflitos, em Pegarinhos, popularmente conhecido por Senhora da Aparecida, teve origem, segundo a tradição, na devoção despertada por uma imagem da Virgem encontrada por caçadores debaixo de um zimbreiro, no monte, onde atualmente se encontra a Capelinha.

O facto atraiu a atenção dos frades franciscanos que ali se fixaram, promovendo o culto à Senhora dos Aflitos, cuja primeira romaria data de 1835, ali construindo, em 1838, a capelinha que ostenta as “Armas de S. Francisco” e à qual já nos referimos.

A romaria tem lugar em finais do mês de agosto, mais propriamente na última semana, sendo que a procissão se realiza no último domingo do mês. A procissão parte da nova igreja situada no meio da povoação, segue pelas ruas íngremes até à capela, bem lá no alto, como quem caminha em direção ao céu.

A fé, a paixão, estão bem patentes em todos os participantes e assistentes. Nela desfila uma grande quantidade de jovens que ilustram andores humanos e cenas bíblicas, anualmente renovadas e nunca repetidas. Cenas que se creem únicas no país. São elas, aliás, o grande atrativo dos filhos da terra, que anualmente voltam desejosos por participar e colaborar, bem como por ver as cenas que nesse ano irão ser apresentadas.

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A procissão organizada em honra de Maria, intitulada, Senhora dos Aflitos, traz consigo muitos emigrantes e gentes, que assim lhe prestam homenagem de forma calorosa. Este é um ritual marcado por um conjunto de sentimentos e sensações que são vividos intensamente por quem encontra na santa, não apenas um culto religioso, mas também um elemento identificador e característico da própria aldeia.

Esta tradição, praticada ao longo dos tempos repetidamente, estrutura a exteriorização da religiosidade desta gente, dando sentido à sua vida. Esta romaria diferencia-se de outras devido ao carater participativo da população local, quer a que permanentemente aqui vive, quer a que emigrou à procura de uma vida melhor. Porém esse afastamento, não os impede de todos os anos regressarem à sua terra natal, à procura das suas raízes, na tentativa de manterem esta tradição.

Segundo Quintas (1998: 32),

Festas populares, proteção da cultura popular, defesa do meio natural, o fomento do emprego juvenil, as visitas aos bens culturais, o cultivo do desporto popular, os encontros entre municípios, a defesa da saúde e dos cidadãos, os projetos de lazer e tempo livre, as sessões de participação cidadã, os centros juvenis, as aulas de cultura, etc. A animação converte-se num fator dinâmico das atividades da comunidade.3

Segundo Vallbona e Costa (2003: 402), “ As manifestações festivas dos povos, que foram passando ao longo das gerações, têm a sua raiz nas tradições e crenças mais antigas, constituindo um incrível e valiosíssimo património cultural, e por sua vez, um impressionante recurso turístico”.

3

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2.2.2. A fogueira do Natal

O Natal é uma data em que comemoramos o nascimento de Jesus Cristo. Na antiguidade, o Natal era comemorado em várias datas diferentes, pois não se sabia com exatidão a data do nascimento de Jesus.

Foi somente no século IV que o 25 de dezembro foi estabelecido como data oficial de comemoração. Na Roma Antiga, o 25 de dezembro era a data em que os romanos comemoravam o início do inverno. Portanto, acredita-se que haja uma relação deste facto com a oficialização da comemoração do Natal.

De acordo com Soledade Martinho Costa,

(…) na Antiguidade, o ritual sagrado do fogo, ou lume novo, acontecia por ocasião do solstício do Inverno, com as fogueiras acesas tendo por intenção que o Sol voltasse a brilhar com maior intensidade, temendo-se, particularmente nas comunidades rurais, que as trevas afastassem definitivamente a luz e o calor, situação que correspondia a um acentuado declínio da luz solar e respetiva diminuição gradual do sistema diurno, até ao culminar no dia menor do ano – o dia de Natal. (2003:SN)

As antigas comemorações de Natal costumavam durar até 12 dias, pois este foi o tempo que levou para os três reis Magos chegarem até a cidade de Belém e entregarem os presentes (ouro, mirra e incenso) ao menino Jesus. Atualmente, as pessoas costumam montar as árvores e outras decorações natalinas no começo de dezembro e desmontá-las até 12 dias após o Natal. Do ponto de vista cronológico, o Natal é uma data de grande importância para o Ocidente, pois marca o ano 1 da nossa História.

A Fogueira de Natal tal como em Pegarinhos é também uma tradição em muitas localidades. Assim depois da ceia de Natal e antes da Missa do Galo, as pessoas juntam-se, em alegre convívio, à volta da enorme fogueira4, feita com troncos e lenha que se juntou e que por vezes dura vários dias.

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2.2.3. Cortejo fúnebre do rei entrudo (carnaval)

O carnaval é uma festa pública, que ocorre imediatamente antes da quaresma cristã, e que combina alguns elementos, tais como trajes, desfiles e festas de rua. Apesar da grande diferença que apresenta a sua celebração no mundo, a sua característica comum é a de ser um momento de permissividade e alguns deslizes.

Segundo João Malaca Casteleiro (2001) entre os vários significados “Entrudo” pode-se considerar-se como: “Os três dias imediatamente anteriores à quarta-feira das cinzas, ao início da Quaresma, dedicados a brincadeiras e festejos populares”.

Segundo Oliveira (1995: 51), o Carnaval:

Não corresponde apenas aos três dias que vão do Domingo Gordo à terça-feira: por todo o País, certas manifestações características da quadra, tais como mascaradas, bailes festivos, etc., têm lugar antes desse período, que delimita contudo a ocasião das grandes licenciosidades autorizadas pelo costume.

No que diz respeito ao nome, vários autores, entre os quais Pedro Gomes Barbosa (apud. Silva, 2006), referem que nome Carnaval é derivado da expressão “carne vale”, que significa “adeus, carne” ou até “carne levare” que se poderia traduzir como “renunciar à carne”.

Relativamente à designação de “Entrudo”, os estudiosos desta matéria, nomeadamente Bretão (1998) mencionam que este termo provém do latim introitus, que significa “entrada”. Isto é, de forma simbólica entra-se numa época do ano mais triste, mais séria e solene. O carnaval, sendo uma festa cíclica, representa uma espécie de “ritual de transição”, que acompanha as mudanças das estações do ano e os rituais agrícolas.

Na perspetiva de Benjamim Pereira (op. cit.) o Carnaval é uma das festividades cíclicas mais ricas no sentido folclórico que originalmente tem uma estreita relação com o calendário agrícola. Sendo móvel e tendo cada ano uma data diferente, relaciona-se mais com o ciclo lunar.

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Possivelmente pode ter a sua origem nas festas pagãs, saturnais romanas, que indicavam o início da Primavera. Alguns dos elementos inevitáveis de qualquer festejo carnavalesco são a música, a dança e as máscaras.

Na noite de Carnaval vale tudo e é por isso que as máscaras são feitas. A origem da celebração parece provável de festas pagãs, como os realizados em honra de Baco, o deus do vinho, a Saturnália romana e Lupercalia, ou os realizados em honra do touro Ápis no Egito. Segundo alguns historiadores, as origens desta data festival volta à antiga Suméria e Egito mais de 5000 anos atrás, com celebrações muito semelhantes na época do Império Romano, onde o costume na Europa se ampliou, sendo levado para a América pelos marinheiros espanhóis e portugueses do século XV.

O carnaval está associado principalmente com os países de tradição católica, e em menor grau com os cristãos ortodoxos orientais. As culturas protestantes, geralmente não comemoram o carnaval ou têm tradições modificadas, como o carnaval dinamarquês.

Umas das principais tradições do carnaval em Pegarinhos era “O enterro do rei Entrudo”, cortejo no qual participam três homens ou rapazes vestidos de padres, com opas brancas, óculos e um livro aberto nas mãos, devendo o mais alto ir no meio, com a sua mitra alta, feita de papel ou cartolina; quatro gatos-pingados, que têm como função pegarem no caixão do defunto; um rapaz que faz de sacristão, levando uma grande cruz; um rapaz que leva a caldeirinha da água benta e o enxofre; seis rapazes que levam archotes ou círios; cinco ou seis mulheres carpideiras, vestidas de preto, que, em voz alta, fazem clamores e uma grande choradeira e rapazes miúdos que têm a função de chorar pelo avozinho.

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2.2.4. Os jogos Tradicionais

Na antiguidade, os habitantes de Pegarinhos preenchiam os seus tempos livres realizando vários jogos tradicionais. Hoje em dia, alguns destes jogos são retomados e postos em prática por homens e crianças.

A profundidade dos vales, rasgados aqui e além por linhas de água cristalina, e alternando com as serranias graníticas, colossais, não deixa indiferente nem, o mais a pático observador. Mas, a beleza singular desta Região não está, apenas nos aspetos puramente físicos ou geológicos. O quadro das suas maravilhas é vasto e de rica variedade: à paisagem deslumbrante [...], junta-se os usos e costumes do seu povo, as tradições, as lendas, os contos, os saberes ancestrais (Parafita, 1999: 13).

Os jogos tradicionais têm vindo a acompanhar diversas épocas e culturas, funcionando como um espelho que reflete o perfil coletivo de um povo e a maneira de ser e de viver das gentes (Cabral, 1985; Guedes, 1991; Cabral, 1998).

Os jogos tradicionais encontram a sua origem no trabalho, principalmente rural, embora alguns apresentem uma estrutura compósita, com elementos provindos da imaginação estimulada em tempo de lazer, e outros, os caracteristicamente infantis, tenham a ver com a fantasia desencadeada por processos inconscientes (Cabral, 1985, p.13)

Em conclusão, os jogos tradicionais são uma forma de passatempo, descanso e divertimento, mas sobretudo em veículo privilegiado para o desenvolvimento da motricidade infantil (Cabral, 1985; Vasconcelos, 1989; Guedes, 1991; Bragada, 2002).

Da ampla categoria de jogos, podemos destacar:

A Malha – jogo que se deve jogar à distância oficial de vinte e cinco metros. As

equipas são sorteadas quinze minutos antes do início do jogo e quem o começa é a equipa que tiver sido sorteada em primeiro lugar. As equipas mudam de campo sempre que se iniciar uma nova partida, sendo a segunda e terceira partidas começadas pela

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equipa que perdeu a anterior. Cada jogo terminará logo que estiverem concluídas três partidas.

Relativamente à pontuação, procede-se da seguinte forma: o derrube de cada pinoco vale seis pontos; após quatro lançamentos, contam-se três pontos para a equipa que tiver a malha mais próxima do pinoco; de cada vez que se vence uma partida, obtém-se três pontos.

A Corridas de Sacos - Os participantes entram num saco de serapilheira e, saltitando,

procuram alcançar a meta estabelecida. Vence a corrida aquele que chegar primeiro e com menos tombos.

A Cabra-Cega - Põe-se uma venda a um jogador para ser a Cabra-Cega. Os outros

participantes andam à sua volta, tocando-lhe e dizendo "Cabra-Cega", mas sem se deixarem apanhar. Quando um jogador é apanhado pela Cabra-Cega não pode falar, uma vez que esta deve identificá-lo através do tato. Se conseguir adivinhar quem apanhou, o jogador apanhado passa, então a ser a Cabra-Cega.

Lencinho - Neste jogo, pode participar um número ilimitado de jogadores, apesar de

não se poderem formar grupos muito grandes. Os participantes devem ser divididos em dois grupos com o mesmo número de elementos, ficando apenas um jogador de fora. A cada elemento do grupo corresponderá um número que terá que ser decidido dentro do próprio grupo. O jogador que não está integrado em nenhum dos grupos deve segurar num lenço e colocar-se a, aproximadamente, dez passos dos grupos formados. Os grupos devem estar colocados em fila, com os elementos de cada grupo virados um para os outros. O jogador que segura o lenço, com o braço esticado, chama, em voz alta, um número qualquer. Os jogadores detentores desses números correm até ao jogador que segura o lenço e tentam apanhar o lenço, sem que, no entanto, o jogador da equipa adversária o apanhe. Se o apanhar perde. Se o participante conseguir chegar até ao seu grupo sem ser apanhado, ganha. Se um dos jogadores necessitar de ajuda para "roubar" o lenço, pode pedir auxílio aos outros elementos do grupo, chamando pelo número.

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O Bom Barqueiros - Dois dos jogadores dão as mãos e levantam os braços, de modo a

que os outros participantes, que se encontrem na fila indiana, consigam passar por baixo dos mesmos. Enquanto os jogadores que estão em fila vão passando por baixo dos braços dos outros dois participantes, vai-se cantando: "O Bom Barqueiro". Previamente, os jogadores que formam a ponte com as mãos combinam entre si dois frutos, animais ou cores e, quando acabam de cantar, o jogador que estiver a passar pela "ponte" fica retido, sendo-lhe perguntado qual o fruto, animal ou cor que prefere. A opção que tomar dá-lhe direito a colocar-se atrás do jogador que corresponde a sua escolha. Volta-se a repetir o jogo, até não haver mais ninguém na fila dos barqueiros. No final, ficam formadas duas filas, definindo-se uma margem entre as duas. Os jogadores que estão à frente das duas filas dão as mãos e cada fila terá que puxar os seus elementos para trás, de maneira a tentar que a fila adversária atravesse a margem definida. Vence o jogo a fila que conseguir que a outra atravesse a margem que foi previamente definida.

2.2.5. O teatro popular

Definido por Grotowski como aquilo que tem lugar entre espetador e ator,

(…) o teatro é um ato realizado aqui e agora no organismo do Actor, na presença de outros homens, […] a realidade teatral é instantânea, não uma ilustração da vida, mas qualquer coisa que com a vida se liga por analogia” (1975: 82).

Segundo Peter Brook,

(…) o teatro é, antes de mais, a vida. É esse o ponto de partida indispensável, e não há mais nada capaz de nos interessar de facto do que aquilo que faz parte da vida, no mais amplo significado possível da palavra (1993:18).

Enquanto que Artaud defende que,

Do ponto de vista humano, a ação do teatro […] é benéfica, pois, ao compelir os homens a verem-se tais como são, faz com que a máscara tombe, põe a nu a mentira, o relaxe, a baixeza, a hipocrisia deste nosso mundo; vence a inércia asfixiante da matéria que se apodera até do mais claro testemunho dos sentidos; e, ao revelar às coletividades humanas o seu poder

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sombrio, a sua força oculta, incita-as a tomarem, em face do destino, uma atitude superior e heroica, que nunca teriam assumido sem o teatro (2006:36).

Esta tradição antiga tem-se manifestado ao longo dos anos, através da encenação de textos conservados pelas diversas gerações na aldeia de Pegarinhos. A sua lembrança e memória histórica estão de tal forma entranhadas na aldeia, que a própria bandeira e emblemas da freguesia, ostentam como símbolo emblemático, máscaras teatrais.

Máscaras que concedem um poder simbólico, tradicional, cultural e histórico, não só à freguesia, mas também às atividades teatrais nela realizadas, isto apesar da importância que em outros tempos, lhe foi atribuído, o que não quer dizer que Pegarinhos se assinale ainda como um local de grande presença cultural, cujos habitantes ensaiam e levam à cena textos ou peças teatrais, engrandecidos pela fantasia dos que na aldeia habitam.

O Teatro tem neste caso como função, levar a que se abarquem as coisas para que se consiga interferir nelas, modificando-as, de forma, a que o ser humano possa viver cada vez melhor. O seu objetivo é portanto o melhoramento da condição humana, o que pode ser visto como uma ação social.

Há muito de aproveitável no homem, dizemos nós, poder-se-á fazer muito dele. No estado em que se encontra é que não pode ficar; o homem tem de ser encarado não só como é, mas também como poderia ser. Não se deve partir dele, mas, sim, tê-lo como objetivo. O que significa que não deve simplesmente ocupar o seu lugar, mas pôr-me perante ele, representando todos nós. É esse o motivo por que o teatro tem de distanciar tudo o que apresenta (Brecht, 2005: 147).

São as razões apontadas que fazem de Pegarinhos, um marco histórico, provido de acontecimentos inesperadas e fascinação quer seja no sentido cultural ou teatral, não só por parte de quem realiza e mas também de quem observa, e que leva a que estes fatores se expressem como tradicionais e se venham passando verbalmente de geração em geração, subsistindo na memória de quem viveu e recorda com alegria e saudade um período tão importante e eloquente.

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2.2.6. Gastronomia

A Gastronomia Tradicional apresenta-se como resultado da aplicação de conhecimentos construídos ao longo de muitas gerações, representando a associação de práticas para a constituição de certa identidade ou marca regional de identificação (Perassi, 2002).

A Gastronomia Tradicional está formada por conjunto de produtos alimentares e processamentos característicos de uma região, que são confecionados em semelhança com valores tradicionais, ou históricos que expressa a organização social, a história, a própria geografia, o clima e envolvência de uma cultura podendo ser incluída no agrupado de bens que constitui o património cultural imaterial.

Segundo a UNESCO (1989), esses patrimónios podem ser definidos como a manifestação patrimonial da porção intangível da herança cultural dos povos, sendo essas, as tradições, o folclore, as línguas, as festas e outras manifestações, incluindo a gastronomia.

No tocante à gastronomia portuguesa, que se enquadra na cozinha mediterrânea e gira à volta de três produtos principais: o pão, o vinho e o azeite, têm sofrido influências várias em especial da Ásia, África e Brasil e até da cozinha Árabe, sobretudo no que se refere ao uso das especiarias como o piripiri, o pimentão e a canela.

Segundo Araújo a essência do termo Gastronomia que está relacionado à história cultural da alimentação e afirma que sua essência “é a mudança, a temporalidade, a visão de passado, como processo contínuo de perspetivas sobre tendências, o constante e o eventual” (2005: 15).

Brillat-Savarin, por sua vez traduz Gastronomia como “o conhecimento fundamentado de tudo que se refere ao homem na medida e que ele se alimenta, objetivando zelar pela saúde por meio da melhor alimentação possível” (1995: 57), e segundo Gomensoro “representa a arte de bem comer e do saber escolher a melhor bebida para acompanhamento da refeição” (1999: 195).

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A gastronomia de uma região é sempre o resultado de um determinado envolvente natural e da cultura própria das comunidades que a constituem. Também Pegarinhos tal como a maioria das regiões do país, tem uma gastronomia ímpar, de que se destaca o cabrito assado, a bola de carne, o feijão branco com dobrada, a carne de porco e o fumeiro.

A doçaria é rica e dela podemos destacar o sarrabulho doce, as amêndoas cobertas, as cavacas, o bolo borrachão, o doce da Teixeira, o toucinho-do-céu, o bolo mulato, o pão-de-ló de água, as fritas de chila e as fritas de abóbora.

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3.1. Problemática, tema e pergunta de partida

A problemática surgiu em função da proximidade, que temos com a freguesia de Pegarinhos, que na realidade é a aldeia natal dos meus pais, dai que pela nossa vivência e observação diária, nos tenhamos apercebido da necessidade de fazer algo que de certo modo impedisse que as tradições locais se venham perdendo com o decurso dos anos.

Citando Gonçalves (1998: 105):

A investigação é um processo, um conjunto hierarquizado de atividades interdependentes. O que se faz em cada passo deve ter em consideração o que já fez, o que também se está a fazer e o que, previsivelmente, se fará. A investigação pode ser ainda associada a uma estratégia. Trata-se de escolher o melhor caminho (método) a percorrer, numa miríade de pequenas e grandes decisões orientadas para o melhor alcance dos objetivos mediante uma otimização dos recursos mobilizados e disponíveis.

Aliados ao facto de estarmos a frequentar o mestrado em animação, que provavelmente fizeram despertar em nós a vontade de levar por diante um trabalho de investigação, sob a forma de estudo, que de certa forma respondesse à questão que então se nos colocava, a de sabermos “Qual a eficácia de uma intervenção através da Animação Sociocultural em Pegarinhos?”, e com ele encontrar respostas para esta questão.

O tema escolhido para esse trabalho de investigação seria “Animação em meio rural: o caso da aldeia de Pegarinhos no concelho de Alijó”, sendo que a escolha do tema é um dos pontos principais de um projeto de investigação e como tal o ponto inicial de toda a averiguação científica.

Dependendo da disponibilidade de tempo e de outros recursos necessários ao desenvolvimento de determinada pesquisa e da abrangência do tema, às vezes torna-se necessária uma delimitação daquilo que será pesquisado, pois quanto mais abrangente, menor tende a ser a profundidade. ” (Parra filho; Santos, 2002: 208).

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3.2. Hipóteses de trabalho

Uma vez identificada e definido o problema, e com base na sua experiência e conhecimentos, o investigador desenvolve uma tentativa de explicação do carater da natureza do problema, capaz de cobrir vários aspetos de conceção preliminar.

Esta abordagem preliminar é designada pelo nome de hipóteses. Tenta avançar com uma explicação teórica do problema e, assim, facilitar a solução prática. Surge como a resposta esperada para as questões levantadas ou seja aquilo que pretendemos demonstrar com a investigação. As hipóteses são instrumentos que facilitam a seleção e recolha de dados. Para Cunha (2009: 47),

A hipótese é o ponto de chegada do primeiro movimento de um percurso de pesquisa e é a explicação ou solução mais plausível de um problema. As hipóteses são as respostas prováveis à pergunta de partida de qualquer investigação, na medida em que indica a direção a seguir para se conseguir, orientar objetivamente a investigação através de formulações provisórias e, mais tarde, sujeitas a processos de confirmação ou infirmação, numa vertente representacional de manipulação da realidade.

As hipóteses por nós formuladas no âmbito desta investigação foram as seguintes:

Hipótese 1

Uma intervenção através da Animação Sociocultural possibilita o fortalecimento cultural de Pegarinhos, desde que a comunidade se disponha a participar.

Hipótese 2

O património cultural de Pegarinhos é um recurso com possibilidades de desenvolvimento.

Referências

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