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ASPECTOS JURÍDICOS DA CIRURGIA ESTÉTICA

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Academic year: 2021

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PEDRO PAULO DE ALMEIDA DUTRA Professor da Faculdade de Direito da UFMG

A origem da c iru rg ia plástica rem onta a tem pos im em o-riais. O Professor Ivo Pitanguy, em a rtig o publicad o na «T ribuna M édica» de a b ril de 1967, sob o títu lo de «O rigem da C irurgia Plástica» reg istra a existência de operações reparadoras en tre os hindus, 4 .0 0 0 anos AC.

Transplantes de tecidos já eram realizados no a n tigo Egito e descritos no P apiro de Ebers, de 3 .5 0 0 A.C. O P apiro de Edwin S m ith, de 2 .2 0 0 A.C. descreve operações plásticas de nariz e lábios.

O Prof. Evaldo Assum pção, em seu liv ro «C onceitos Básicos de C irurgia Plástica» inform a que textos indianos, com o os «Vedas

Sagrado» e o «A yurveda» do c iru rg iã o Susruta relatam c iru rg ia s reco nstrutora s de nariz, lábios e orelhas, datando de 2 .0 0 0 A.C.

Mas os tra b a lh o s de C ornelius Celsus, nativo de Roma, escrito s no ano 3 0 DC, pelas suas descrições m ais detalhadas de c iru rg ia s reparadoras, é que representam um m arco d e fin itiv o na histó ria da C irurgia Plástica.

A palavra plástica deriva do la tim plasticus, que po r sua vez provém do grego plástikós com o s ig n ific a d o in trínse co e extrinseco de m oldar, plasm ar, fo rm a r e reparar.

Do âm b ito da c iru rg ia plástica são as correções dos defeitos tra u m á tico s, congênitos ou estéticos.

Com preende dois ramos:

a) cirurgia reparadora, tam bém cham ada reco nstrutora , reconstrutiva, restauradora, estrutiva ou anaplástica, que c orrige

lesões congênitas (p o r exem plo, lábio le po rino ), ad qu irid a s (lesões nasais por doença com o a blastom icose) e acidentes (m utilaçõe s);

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b) cirurgia corretora, tam bém cham ada c a lip lá s tic a , cosm é-tic a ou estéé-tica, que se propõe re s titu ir a aspectos norm ais de de form id ade s estéticas congênitas (orelhas em abano), c o rrig ir de form id ade s da pele (rug as) excessos de te c id o s gordurosos ou cica trizes mal form ad as.

U tiliz a tod os os m étodos da c iru rg ia geral, preocupando-se com os aspectos estéticos.

O nosso País desenvolve, hoje, uma c iru rg ia plástica a lta -m ente conceituada no -m undo in te iro , a ponto de possuir-m os c iru rg iõ e s de renom e in te rn a cio n a l, m estres consagrados, que engrandecem a m edicina bra sile ira .

É com preensível, pois, que o desenvolvim ento e x tra o rd in á rio dessa técnica op era tó ria desperte a atenção não só da com unidade cie n tífic a , com o tam bé m de outros setores, en tre os quais o JURÍDICO.

I — CONCEITOS JURÍDICOS BÁSICOS

Os aspectos ju ríd ic o s que vão in te ressa r ao tem a proposto se relacionam com as condições que envolvem a responsabilidade civil e penal do m édico em geral, p a rtic u la rm e n te do ciru rg iã o , e de form a m u ito especial do c iru rg iã o na intervenção c irú rg ic a plástica e estética.

A inda que o tem a se lim ite som ente ao ú ltim o , algum as referências devem ser fe ita s às duas p rim e ira s hipóteses, à guisa de s itu a r o p rin c ip a l em seu contexto p ró p rio .

É sabido que toda m anifestação da a tivid a d e hum ana tra z em si o problem a da «RESPONSABILIDADE», que não é fenôm eno exclusivo da vida ju ríd ic a , antes se liga a todos os dom ínios da vida social.

Um grande ju ris ta ,1 que investigou apaixonadam ente a questão, fris a o acerto dessa concepção, ao p ô r em relevo o c a rá te r u n itá rio c o n tid o na noção de responsabilidade. M ostra

1. Les Fondements de Ia responsabilité civile. Paris — 1938 — n9 97 — Pg. 304.

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que ela não é independente de qualquer premissa, mas «term o com plementar de noção prévia mais profunda, qual seja a de DEVER, de OBRIGAÇÃO». A responsabilidade é, portanto, resultado da ação pela qual o homem expressa o seu com portam ento, em face desse dever ou obrigação. Se atua na form a indicada pelos cânones, não há vantagem, porque supérfluo seria indagar da responsabilidade daí decorrente. Sem dúvida, continua o agente RESPONSÁVEL pelo procedim ento. Mas a verificação desse fato não lhe acarreta obrigação alguma, isto é, qualquer dever, tra d u -zido em sanção ou reposição, como s ub stitutivo do dever de obrigação prévia, precisamente porque a cum priu.

O que interessa, quando se fala de responsabilidade, é aprofundar o problema na face assinalada, de violação da norma ou obrigação diante da qual se encontrava o agente.

MARTON estabelece com m uita lucidez a boa solução, quando define responsabilidade como a situação de quem, tendo violado uma norma qualquer, se vê exposto às conseqüências desagra-dáveis decorrentes dessa violação, traduzidas em medidas que a autoridade encarregada de velar pela observação do preceito lhe im ponha, providências essas que podem, ou não, estar previstas.

Os diferentes planos em que se desenvolve a atividade do homem, inclusive a sim ples atividade da consciência, é que caracterizam os aspectos da responsabilidade. Todavia, uma visão de conjunto reduz a dois esses aspectos: o ju ríd ico e o m oral.

A finalidade da regra jurídica se esgota com m anter a paz social, e esta só é atingida quando a violação se tradu z em PREJUÍZO. Daí, resulta que não se cogita de responsabilidade jurídica enquanto não há prejuízo.

A responsabilidade moral se confina — explicam Henri et Leon Mazeaud — no problema do pecado. O homem se sente moralmente responsável perante Deus ou perante sua consciência, conform e seja, ou não, um crente. Puramente objetiva, portanto, é a sua noção. Para apurar se há, ou não, responsabilidade m oral, cum pre indagar do estado de alma do agente: se aí se acusa a existência do pecado, de má ação, não se pode negar a respon-sabilidade m oral. Não se cogita, pois, de saber se houve, ou não,

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prejuízo, porque um sim ples pensamento induz essa espécie de responsabilidade, terreno que escapa ao campo do direito, destinado a assegurar a harm onia das relações entre os indivíduos, objetivo que, logicam ente não parece atingido por esse lado.

Os mesmos autores salientam a estreita afinidade entre as duas disciplinas. A regra de direito careceria de fundam ento, se não se ativesse à ordem moral. O dom ínio desta é, sem dúvida, mais extenso que o do direito, e isto porque desembaraçado de qualquer fim u tilitá rio , o que não acontece com o direito, cuja função é fazer prevalecer a ordem e assegurar a liberdade individual e harm onia de relações entre os homens. Mas, restrito a essas finalidades, nem por isso o direito , como finalm ente nenhuma outra m atéria, pode deixar de ser expressão dos p rin c í-pios definidos pela moral. (Cf. Mazeaud e Mazeaud, in A guiar Dias, Da Responsabilidade C ivil, Vol. I, pág. 11).

Deve-se esclarecer ainda que a RESPONSABILIDADE pode resultar da violação a um só tem po de normas MORAIS e JURÍDICAS, o que mostra que a inclusão de um fato em um dos títu lo s não o exclúa do âm bito do outro. Assim, o fato em que se concretiza a infração participa de caráter m ú ltip lo , podendo ser proibido, por exemplo, pela lei moral, religiosa, de costumes ou pelo direito.

Isolada da responsabilidade m oral, a responsabilidade ju rí-dica logo precipita a necessidade de nova distinção.

MAZEAUD e MAZEAUD a estabelecem, pondo em relevo que os danos que turbam a ordem social são de natureza diversa: ora atingem a coletividade, ora o indivíduo, às vezes é a ambos que alcança. A sociedade reage contra esses fatos que ameaçam a ordem estabelecida: fere o seu autor, com o propósito de im p ed ir que volte a afetar o eq uilíbrio social e e vita r que outros sejam levados a im itá-lo.

É onde a responsabilidade ju ríd ica se cinde em responsa-bilidade CIVIL e responsaresponsa-bilidade PENAL, exigindo a acentuação dos seus caracteres diferenciais.

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RESPONSABILIDADE PENAL — A responsabilidade penal pressupõe uma turbação social, determ inada pela violação da norma penal. No caso do CRIME, o delinqüente in fring e uma norma de direito público e seu com portam ento perturba a ordem social. Seu ato provoca uma reação do ordenam ento ju ríd ico . A reação da sociedade é representada pela PENA.

SOLON, segundo refere PLUTARCO, já dizia que a cidade realmente civilizada é aquela em que todos os cidadãos sentem a injúria feita a um só e em que todos exigem sua reparação tão vivamente como aquele que a recebeu.

Obediente ao princípio «nulla poena sine lege» o legislador compendia, nos Códigos Penais, os atos que considera pre ju-diciais à paz social e que, como ta l, acarretam a RESPONSA-BILIDADE PENAL do agente. Esta ação repressora não se preocupa com o dano aos particulares, mas tem em vista o DANO SOCIAL.

RESPONSABILIDADE CIVIL — vem definida por SAVATIER «como a obrigação que pode in cum b ir uma pessoa a reparar o prejuízo causado a outra, por fato próprio, ou por fato de pessoas ou coisas que dela dependam». O problem a em foco é o de saber se o prejuízo experim entado pela vítim a deve ou não ser reparado por quem o causou.

Ensina Aguiar Dias, que a responsabilidade civil emerge do sim ples fato do prejuízo que viola tam bém o equilíbrio social, mas que não exige as mesmas medidas no sentido de restabele-cê-lo, mesmo porque outra é a form a de conseguí-lo. A reparação civil visa reintegrar o prejudicado na situação patrim onial anterior, o que se consegue pela via indenizatória. Assim, certos fatos põem em ação somente o mecanismo recuperatório da respon-sabilidade civil; outros m ovim entam tão-som ente o sistema repressivo ou preventivo da responsabilidade penal; outros, enfim , acarretam , a um tem po, a responsabilidade civil e a penal. Expostos os fundam entos ju ríd ico s da responsabilidade PENAL e CIVIL pode-se agora indagar:

— se o médico, como profissional, deve RESPONDER pelas faltas legais ou morais com etidas no exercício de suas atividades?

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Essa é a responsabilidade médica ou responsabilidade profissional do médico que não deve ser confundida com a que, em suas várias modalidades, obriga o médico como indivíduo componente do meio coletivo.

A responsabilidade médica é, para LACASSAGNE «a obrigação

para os médicos de s o fre r as conseqüências de faltas por ele com etidas no exercício da arte, falta s que podem o rig in a r uma dupla ação-civil e penal». (Cf. Med. Legale — Paris — 1906 — Lacassagne).

A atualidade do tem a e sua im portância podem ser avaliadas pelas seguintes passagens do Editorial in titu la d o «The C riticai M alpractice Problem », publicado pelo Dr. Howard P. House no Arch. O talaring Vol 89: 68 5-689, May, 1969:

«Aproxim adam ente sete em cada dez médicos, na Comarca de Los Angeles, já foram envolvidos em questões de responsabilidade médica. Um em dez médicos está, pre-sentemente, envolvido de m aneira ativa em uma ação de responsabilidade profissional. Um em cada dois neurocirur- giões tem , no mom ento, uma ação de responsabilidade pendente, devido ao alto risco da natureza da sua peculiar especialidade. Outras especialidades de alta responsabilidade são: a ortopedia, a ciru rgia plástica e a anestesia». (In Responsabilidade Médica, Hermes Rodrigues de Alcântara). Convém ao médico, pois, conhecer bem a sua responsabi-lidade LEGAL, para bem desem penhar as suas nobilitantes funções no seio da comunidade. Não me re firo a sua responsa-bilidade MORAL, que é o seu com portam ento perante Deus ou sua consciência; o que está em causa é a conform idade de sua conduta ao ordenam ento LEGAL vigente.

II — A RESPONSABILIDADE MÉDICA

Flamínio Fávero, em seu livro «M edicina Legal», volum e terceiro, dedicado à Deontologia Médica e M edicina P rofissional

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prestarem contas de suas falta s, nem sem pre foi ad m itid a pacificam ente por eles, havendo ainda os que desejam uma IRRESPONSABILIDADE MAIS ABSOLUTA se não m oral, pelo menos jurídica.

N aturalm ente, conclui Fávero, acham esses de bom aviso concordar com a asserção maldosa de MONTAGNE que:

«les m edecins ont cet heur que le soleil éclaire le ur succès et que Ia te rre cache leurs fautes: errata m edicorum te rra o ccu ltat» (Apud B riand et Claudé, Med. Legale, Paris, 19 63 ).

Essa do utrin a absurda encontrou eco, no já d ista n te 1829, na Academ ia de M edicina de Paris que, na discussão de uma questão célebre assegurava ser a m edicina «um m andato ilim ita d o

ju n to à cabeceira dos doentes, aos quais só pode a p rove itar essa condição». Em 1834, a mesma Academ ia pretendeu que «os m édicos e ciru rg iõ e s não são responsáveis pelos erros que com etessem de boa fé, no exercício de sua ^irte». «Os p a rtid á rio s dessa corrente argum entaram com base na incom petência dos juizes para a va lia r as fa lta s m édicas e o prejuízo para o doente que tra ria a constante preocupação em que o m édico se visse em face da ju s tiç a a re s trin g ir-lh e a ação e im p ed ir-lh e o uso de práticas salvadoras de exceção.

C ontra-argum entaram outros que, de um lado, os ju izes se m anifestam apenas depois de ouvirem os pró prio s m édicos, como

peritos, e, de o u tro lado, a ju stiça apenas argüi — e este argum ento é de in discu tíve l atualidade — da im prudência, im perícia e negligência do pro fissio nal, qu er dizer das falta s graves deste, sem, em absoluto, pretender, direta ou in d ire ta -m ente, e-m baraçar-lhe a ação benéfica e h u -m an itária .

Os que propugnam pela necessidade de uma sanção legal para as fa lta s dos m édicos argum entam , conclusivam ente, que estes exercem um verdadeiro m onopólio, gozando um p riv ilé g io especial, ga ran tidos pelas leis que punem a tod o aquele que, não estando h a b ilita d o convenientem ente, queira p ra tic a r a m edicina. É ju sto , destarte, que em troca dessa pre rrog ativa, a

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mesma lei im peça que os com ponentes da sociedade sejam atin g id o s por danos que os m édicos possam causar-lhes, pu nindo m esm o os que os pra ticare m .

A noção de responsabilidade, e s tim u la n d o a prudência, a perícia, a dedicação, é uma garantia para a p ró p ria m edicina que, assim , será extrem am ente beneficiada.

A irre sp o n sa b ilid a d e absoluta do m édico, assegura Foderé (apud A frân io Peixoto, Med. Leg. Rio de Janeiro, 1 9 2 7 ) entravaria o p ró p rio progresso da m edicina que seria, então, te m id a com o um verdadeiro perigo social; (Cf. Flam ínio Fávero, Med. Legal, pág. 66, 3 9 volum e).

De tod o o exposto, e considerando o estágio atual da ciência ju ríd ic a , seria ab solutam en te inócua q u a lq u e r pretensão no sentido de de fend er a IRRESPONSABILIDADE ABSOLUTA DO MÉDICO. Em assim sendo, a preocupação deve ser a de te r consciência plena dos term os em que se coloca a sua RESPON-SABILIDADE.

É o que se pretende faze r a seguir, dando-se breve in fo r-mação sobre a RESPONSABILIDADE PENAL do m édico, oferecendo s im ples notícia sobre a responsabilidade m oral para depois se chegar ao exame da sua responsabilidade no plano civil, objetivo p rin c ip a l desta palestra.

Responsabilidade Penal

É d ific il a rro la r um in ven tá rio das culpas penais envolvendo a responsabilidade do m édico.

O Código Penal se refere (A rt. 15, II) à im p rudê ncia, à negligência e à im p erícia que con stituem , assim , trê s m odalidades de falta médica.

Preleciona Flam ínio Fávero que na im p rudê ncia, o agente revela audácia na conduta e a titu d e s não ju s tific a d a s nem reconhecidas pela experiência, com o intervenções c irú rg ic a s a rris -cadas, doses exageradas de m edicam entos. A negligência im p lica a om issão de precauções e cuidados tid o s com o necessários, sem os quais devem ser previstos danos: o em prego de m e d i-cam entos trocados, o esquecim ento de in s tru m e n ta l c irú rg ic o

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no campo operatório, o abandono do doente, a propagação de doenças infecciosas pelo médico pouco cuidadoso estão nessa categoria. A imperícia traduz incapacidade técnica, falta de habilidade, ignorância grave na realização de atos profissionais, como sejam: a perfuração do fundo do útero numa curetagem; o com prom etim ento da artéria braquial ao pra ticar uma san-gria, etc.

Do que os vários comentadores de leis e os julgados de trib u n a is nos ensinam, a falta do médico, para ser punida, deve ser grave, pesada, notória, m anifesta, evidente.

A preocupação essencial dos m agistrados parece ser a de assegurar, em qualquer circunstância, que as regras de prudência sejam sempre respeitadas.

Responsabilidade Moral do Médico

Os mesmos critérios adm itidos para avaliar a responsabi-lidade legal do médico devem ocorrer na conceituação da responsabilidade m oral.

Convém te r presente que as exigências das ordenanças morais devem ser mais apertadas.

Muita coisa que a lei tolera, a moral não pode consentir. Os tribu na is competentes que falem a respeito, em cada par-tic u la r.

Quais os juizes adequados para avaliar a responsabilidade moral dos médicos?

Em prim eiro lugar, sua própria consciência que, penetrando nos pensamentos e intenções, dirá se são lícitos ou não certos atos realizados.

Depois, os órgãos supervisores da ética profissional aos quais os médicos estejam filiados.

Responsabilidade Civil do Cirurgião na Intervenção Cirúrgica da Espécie Plástica e Estética

Aspecto moderno da responsabilidade médica é o que se refere à cirurgia estética ou plástica, hoje em voga.

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PODE O MÉDICO REALIZAR INTERVENÇÕES CIRÚRGICAS com o fato único de m elhorar a estética do cliente?

Seria lícita ou não a realização de uma intervenção cirú rgica com essa finalidade?

Poderia o médico ser responsabilizado CIVILMENTE pelos resultados de operação plástica que não correspondam ao que prometeu?

A resposta a essas perguntas tem suscitado controvérsias, constituindo-se em tem a de grande interesse e de perm anente atualidade.

Esta aplicação da ciência, segundo depoim ento do renomado ju ris ta AGUIAR DIAS não tem sido encarada com m uita bene-volência pelos trib u n a is , naturalm ente im pressionados pela feição menos nobre da ciru rgia estética, por vezes, posta a serviço da vaidade fú til ou dos até hoje m esquinhos processos de rejuve-nescimento, mas esquecidos das assombrosas possibilidades que ela pode a b rir à hum anidade dentro das altas fina lid ad es da arte médica.

As duas indagações in icia is questionam sobre a ciru rgia estética em si mesma, se deve ou não ser aceita como especiali-dade médica, enfim , se diante da lei escrita e da m oral médica é lícita ou não sua prática.

A resposta é im ediata e incisiva: ninguém discute mais a liceidade de sua prática, o seu reconhecim ento como especia-lidade médica im portante e de enorme potencial de desenvolvi-mento. Entretanto, as indagações feitas têm outros propósitos, entre os quais, o de le m brar que em outros tem pos viva oposição se fez à ciru rgia estética. Voltando ao passado, conhecendo as

restrições que lhe foram feitas poder-se-á balizar, com pro-priedade, o campo de atuação em que ela deve se im p or e as restrições que incidem sobre o exercício da atividade do cirurgião na espécie estética e plástica.

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Está ainda na lem brança de todos a viva oposição que a c iru rg ia estética sofreu, em 1929, quando, na França, um c iru rg iã o fo i condenado a pagar 2 0 0 m il francos a uma jovem que teve grave dano numa intervenção plástica. M odelo de modas, era bela, mas apresentava grossura excessiva das pernas que lhe to rtu ra va m a vaidade. Como ia casar-se, achou m elho r c o rrig ir o defeito receosa de que este in fluisse na fe lic id a d e conjugal. Um ciru rg iã o especialista interveio, mas não fo i feliz. Seguiu-se gangrena do pé que pôs em risco a vida da pobre moça. Então, o recurso extrem o fo i a AMPUTAÇAO da perna operada.

Viva celeum a despertou a sentença contra o m édico mal aventurado.

Flamínio Fávero fazendo a síntese de suas repercussões, encontrou entre os que a defenderam , o argum ento de que não havia indicação precisa para a desastrosa intervenção. O utros a atacaram , in s is tin d o em que à Justiça cabia a g ir apenas se hou-vesse fa lta m édica, o que não ficou provado. A indicação, quem a sabia, era o pro fissio nal.

AGUIAR DIAS,2 que é a m aior au torid ade no B rasil em Res-ponsabilidade C ivil assim se m anifestou sobre o caso de scrito:

«Tam bém nós condenaríam os o m édico, se nos fosse dado ju lg a r causa desse gênero. Não, porém , com o sucedeu na espécie citada, para pro nu ncia r a reprovação da c iru rg ia estética, mas porque da im pressão da le itura resultou con-siderarm os provada a negligência do c iru rg iã o , não v e r ifi-cando a natureza da pele e p e rm itin d o que se m anifestasse a gangrena, seja pelo de feituoso tra ta m e n to para fo rç a r a sutura, seja por deixar de v ig ia r constantem ente (o que não quer dize r in in te rru p ta m e n te ) o processo de cicatrização e, m ais, por desatender aos sintom as m anifestados.» (Da R esponsabilidade C ivil, Vol, I, pág. 3 0 7 )

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A bem da verdade, deve-se esclarecer que não fo i som ente no aresto refe rid o que a c iru rg ia estética despertou oposição. Há reg istro de ou tro s fatos sem elhantes, en tre os quais, o o c o rrid o du ran te o XVI Congresso de M edicina Legal de Língua Francesa em que o fam oso M a itre M aurice Garçon buscou proscrever a c iru rg ia estética, sustentando que a c iru rg ia deixa de ate nde r a sua fin a lid a d e quando praticada em in divíd uo são.

Se assim acontecera no PASSADO, modernamente não tem m ais sentido a condenação da c iru rg ia estética em si, dada sua irreversível incorporação à arte m édica. M uitos argum entos valiosos e fatos concretos p o s s ib ilita ra m que essa esp ecialidade se im pusesse de m odo d e fin itiv o .

As objeções quan to ao seu objeto fo ra m neutralizadas, a p a rtir do m om ento em que se evidenciou que nem sem pre é a vaidade ou o luxo que a de term in a; em m uito s casos é exigência da saúde pre te nd er alguém desfazer-se de uma fo n te inesgotável de depressão psíquica.

Não têm razão, pois, os que censuram a m edicina po r se colocar a serviço da beleza, acusando-a de em parelhar-se com o charlatanism o.

Bem ao c o n trá rio , a m edicina e a c iru rg ia confinam , nesse caso, de m aneira grandiosa, «com a missão de re s titu ir à vida, à alegria e ao am or, quem deles andava ap artad o por te r nascido de feituoso ou defeituoso te r fica d o em v irtu d e de um desastre ou crim e». (Cf. A lfre d o A ri dos Santos in A g u ia r Dias, Vol I, p. 3 0 8 )

Avancemos ju n to s, m ais um passo, nesta cam inhada.

Uma vez aceita a c iru rg ia estética, reconhecida a liceidade de sua prá tica e vislu m b ra d a s as grandes possib ilidad es que ela pode a b rir à hum anidade, cabe agora, s itu a r a questão nos seus precisos term os, m ediante o exame, o m ais su cin to possível, da responsabilidade médica no plano c iv il, para da orientação GERAL e x tra ir os prin c íp io s que serão aplicados, no caso especial, da responsabilidade c iv il do c iru rg iã o na intervenção c irú rg ic a da espécie plástica e estética.

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A responsabilidade médica, no plano civil, constitui uma espécie de responsabilidade civil que se distingue por p a rtic u la ri-dades de relevante significação para sua organização, a começar pelo seu fundamento.

Hoje, já se aceita, pacificam ente, que a responsabilidade do médico é CONTRATUAL. Entre o profissional e o doente con-clui-se um contrato, e não é menos contrato pelo fato de ser

verbal, por via do qual assume o médico a obrigação de tra ta r o

doente, dando-lhe CUIDADOS ATENCIOSOS, PRUDENTES, CONS-CIENCIOSOS, CONFORMES AOS DADOS ATUAIS DA CIÊNCIA, para usar expressões correntes nos arestos dos trib u n a is franceses e com grande freqüência adotadas pelos brasileiros.

A violação dessa obrigação contratual torna-o civilmente responsável, sujeitando-o ao pagamento dos danos decorrentes da sua inadim plência. Se assim é para o médico, em geral, igual responsabilidade tem o CIRURGIÃO, mas é indiscutível que sua obrigação é mais resoluta e incisiva por se entender que qualquer incidente ligado à operação im porta sua infração.

Fique claro, desde já, que a obrigação do médico não é, nem poderia ser, a de CURAR O DOENTE. Ninguém , em sã cons-ciência, poderá exigir isso do médico. Não há opinião discrepante a respeito. E esse ponto é fundam ental para evitar argumentações que se constróem embasadas em premissas falsas.

O com prom isso do médico é, em síntese, uma obrigação de diligência, de prudência, de interesse, de plena consciência de sua tarefa. Compromete-se a empregar, no tratam ento, os meios indicados pela ciência e pela técnica para cum prí-lo, nor-malmente.

Por isso é que se diz que o contrato de prestação de serviços médicos é um dos raros contratos que estabelecem norm alm ente, a títu lo principal, OBRIGAÇÕES DE MEIOS, de pura diligência e v prudência, porque o médico deve conservar ampla liberdade de ação, dando ao paciente cuidados conform es aos dados adquiridos da ciência. (Cf. Frossard, «La distinctio n des obligations de

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Em interessante tra b a lh o publicado sobre o tem a o ilustre Prof. O rlando Gomes,3 em érito civilista baiano, afirm a que vem se desenvolvendo INSISTENTE TENDÊNCIA para, em certas s itu a

-ções, tra n s fo rm a r essa obrigação de meios em obrigação DE RESULTADO. Assim ocorre quando a atividade do profissional se exerce nos domínios da cirurgia plástica. (Cf. Orlando Gomes, Questões de D ireito C ivil, pág. 4 6 0 )

Juridicam ente, o conteúdo da prestação do operador plástico e a finalidade da intervenção em prestam ao contrato médico para a sua realização uma fisionom ia singular, caracterizando-o como

um contrato SUI-GENERIS no quadro da atividade profissional do cirurgião.

Sua atuação não se exerce, para salvaguardar a vida ou a saúde do paciente, mas para m elhorar a aparência das pessoas, pretendendo essa m elhora, tal como prom etida, às pessoas que contratam com o especialista.

Indiscutivelm ente, é o RESULTADO que o cliente pretende com a ciru rgia . Essa a razão por que, em face dessas p a rtic u la ri-dades, a doutrina afirm a que é distinto do contrato entre o médico clínico e o cliente o contrato que vincula o CIRURGIÃO PLÁSTICO ao CLIENTE, porquanto, mais do que ensejar um serviço, se trata de comprometer-se a um resultado. (Cf. J. DIEZ DIAZ, Los derechos fisicos de Ia personalidad, Ediciones Santillana, M adrid, s /d , pág. 137, apud O rlando Gomes, obra citada.)

Foi exatam ente essa espécie de contrato médico, observa

ORLANDO GOMES, que veio despertar a atenção dos ju rista s

para uma figu ra que escapava à regra geral do exercício con-tratua l da profissão médica.

Constatou-se a possibilidade de ser incorporada nos con-tratos de prestação de serviços médicos a obrigação de resultado para os caos em que o objeto fosse intervenção cirú rgica da espécie estética e plástica.

Caberia então indagar:

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— se o cirurgião estético deverá responder pelo fracasso da operação, devolvendo o paciente em pior estado que o anterior, ou, mesmo, deixando-o em condições de não te r alcançado o RESULTADO apetecido?

A indagação com porta algumas considerações.

Estando o cirurgião estético com prom etido com um deter-minado resultado, e dado que ele somente cum prirá, pelo modo devido, a sua obrigação se conseguir o resultado a que se com -prometeu, a sua responsabilidade na hipótese de um resultado

infausto, é patente.

Na fixação dos term os dessa responsabilidade, dividem-se os doutos, em algumas correntes.

A corrente RADICAL sustenta que o cirurgião responde por todas as conseqüências do fracasso operatório, notadamente pelos danos que hajam resultado da operação. Essa corrente adota a RESPONSABILIDADE OBJETIVA. A obrigação de indenizar, am plamente, é conseqüência da existência do dano sofrido pelo cliente, não interessando indagar sobre a conduta do cirurgião. A objetividade da teoria se traduz só no fato da existência

do dano.

Como todo radicalism o é perigoso, e, no mais das vezes, injusto, predomina, na espécie, a corrente que SUBORDINA a responsabilidade do cirurgião à CULPA, subdividindo-se seus adeptos em dois grupos:

a) os que entendem que o ônus da prova incum be ao cirurgião;

b) o dos que pensam caber, ao contrário, ao paciente.

De acordo com o prim eiro grupo é o próprio cirurgião que deve provar tudo te r fe ito para ser bem sucedido, mas que foi, conform e as expressões de Aguiar Dias, apoiado em Savatier «vítim a de um acontecim ento de força m aior que tornou inevitável o m alogro». (Cf. Aguias Dias, pag. 283).

De acordo com o segundo grupo, cum pre ao operado provar que o cirurgião foi im perito, negligente ou im prudente.

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Sem aprofundar o exame das razões de cada um dos grupos para determ inar com quem deve fic a r o ônus da prova, prevalece o entendim ento de que, envolvendo a intervenção cirú rgica uma obrigação de RESULTADO é ao cirurgião que cabe provar que o m alogro não resultou de sua irreflexão, ou de sua im perícia, ou de sua negligência. Se fiz e r prova convincente nesse sentido não ficará obrigado a qualquer indenização. Por essa razão é que se diz que essa segunda corrente adota a RESPONSABILI-DADE SUBJETIVA, em que a conduta do ciru rgiã o será necessa-riam ente examinada.

ê evidente que, tendo em vista a orientação adotada no d ire ito brasileiro, ao ciru rgiã o incum be, pois, por uma medida de cautela plenam ente ju stificá ve l, te r sempre em mente que sua conduta no ato operatório, poderá a qualquer momento ser questionada devendo, em razão disso, te r em mãos elementos convincentes, de que poderá lançar mão, em caso de necessidade. No meu entender, não deve o ciru rgiã o p e rm itir qualquer envol-vim ento em ocional na execução das medidas cautelares reco-mendadas. Ele as deve considerar como providências úteis ao cliente, não se pe rm itind o m in im iza r as repercussões de qualquer cirurgia, seja ela qual fô r, ainda que na realidade seja m uito sim ples. Ninguém , em sã consciência, poderá c ritic a r aquele que se m ostra cuidadoso e diligente ANTES do ato operatório. O contrário, sim , é que tem despertado vivas críticas. O d ire ito brasileiro, no meu pensar, consagra a m elhor tese que em nada afetará o exercício correto da atividade médica. Os cuidados prelim inares sugeridos, não representam qualquer novidade sendo utilizados por m uitos, há m uito tem po.

Ainda que de passagem, gostaria de reg istrar que o problem a de «m alpractice» (erros profissionais e assistenciais) está assu-m indo proporções sérias nos Estados Unidos. O sisteassu-m a ju ríd ico norte-am ericano, segundo os especialistas, teria conduzido o exercício da m edicina e a atividade ho spita lar a um ponto crítico. A freqüência dos processos e o alto volum e da indenização m uitas delas ultrapassando 1 m ilhão de dólares levaram os m édicos a se organizarem para m elhor defesa dos seus interesses.

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O te m o r do processo ju d ic ia l é de ta l ordem ordem que m uitos médicos procuram calçar, com o m áxim o de cautelas, o tratam e nto pre scrito ou a intervenção c irú rg ic a a ser realizada. Os pacientes ficam obrigados a assinar uma série de docum entos antes de se in te rna rem . A verdade é que o te m o r excessivo conduz, inevitavelm ente, a exageros. Sendo os pacientes instados a assinar ta is docum entos, m uitos são os que preferem , antes co n su lta r seu advogado a respeito, que passa a ser o te rce iro , na relação m édico-cliente. Ora, é indiscu tíve l, que a in icia tiva do docum ento não é do cliente, fo i do m édico. Conclusão: o envol-v im e nto do adenvol-vogado se fez, in dire tam en te , pelo m édico. É claro que, no m om ento em que o adovgado é consultado, previam ente, em caso de insucesso, ele voltará a ser consultado e possivel-m ente upossivel-m novo processo será instaurado. Portanto, a validade e conveniência dessas providências, em debate mais am plo, poderá ser questionada.

O problem a é tã o grave, nos Estados Unidos, que os legisladores estão ten ta ndo e n con tra r um ponto de e q u ilíb rio , no qual se conciliem os aspectos relevantes do problem a: a proteção do paciente e a atuação dos m édicos.

Diferentem ente do que ocorre no B rasil, nos Estados U nidos o atual sistem a de ju lga m en to é fe ito por um corpo de 12 jurados, estando sendo preconizada a fó rm u la da decisão ju d ic ia l por um ju iz togado, com o se faz em nosso País.

D outrinariam ente, surg iu a idéia da elim inação do sistem a ju ríd ic o baseado na culpa, isto é, sugere-se a adoção do sistem a da responsabilidade objetiva (ou teo ria do risco), em que, havendo a lesão, não se indaga qual fo i a conduta do ciru rgiã o, se ele agiu ou não com culpa. O só fato da existência do dano im p lica na obrigação de indenizar.

Pessoalmente, recebo com grandes reservas a tese que está sendo discutid a. A teo ria do risco está sendo utilizad a, em alguns setores, com proveito. Em princípio, não me parece que seja adequada sua aplicação no caso da responsabilidade m édica. Essa ob jetividade poderia ser desastrosa.

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III — JURISPRUDÊNCIA BRASILEIRA

Um tra b a lh o que se propõe a ab ord ar os ASPECTOS JU R Í-DICOS DA CIRURGIA ESTÉTICA não poderia deixar de a n a lisa r o com p ortam e nto da J u ris p ru d ê n c ia bra sile ira no toca nte à questão ora em exame. Não uma análise abrangente e m inuciosa como o tem a ensejaria, mas de acordo com as lim itaçõe s que as circu nstân cias de term in am . 0 im p o rta n te é que se extraiam dos poucos casos relacionados, os p rincípios que têm s e n s ib ili-zado juizes e trib u n a is para o ju lg a m e n to dos mesmos.

1? caso — Negligência pro fissio nal — M édico que subm eteu c liente a tra ta m e n to p lá s tic o p e rem p to riam e nte condenado — P arafinoterapia que acarretou a deform id ade da fisio n o m ia do paciente. Ação de Indenização julgada PROCEDENTE — aplicação do A rtig o 15 45 do Código C ivil.

COMETE ATO ILÍCITO o pro fissio nal que, fu g in d o aos preceitos de sua arte, e às cautelas e precauções necessárias ao resguardo da vida e da saúde dos clientes, causa-lhes por meio de tra ta m e n to c ie n tific a m e n te condenado, m alefícios físicos e m orais, como, po r exem plo, a deform ação fis io n ô m ic a . (Acórdão p ro fe rid o pela P rim e ira Câmara Civil do T rib u n a l de Justiça de São Paulo, na Apelação n. 3 9 6 4 1 , em decisão UNÂNIME).

Decisão — o m édico fo i condenado a pagar uma indenização, cujo m ontante seria apurado em execução. A indenização deverá atender ao que dispõe o A rt. 1538 do Código C ivil, devendo o Réu pagar os ju ro s de mora, custas ju d ic ia is , honorários advo- catícios, etc. (In Responsabilidade M édica, Herm es Rodrigues de A lcântara).

2° Caso — IMPERÍCIA MÉDICA — NEGLIGÊNCIA. — T ra ta

-m ento ra d io te rá p ico causador de dano estético, e-m -moça solteira — Indenização devida, in clusive dote — Ação ju lga da procedente — Aplicação dos A rts. 159, 1 5 38 e § 29 do Código C ivil.

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Em se tra ta n d o de médico, age ele com culpa e está obrigado a ressarcir o dano se, sem o consen tim ento espontâneo do cliente, subm ete-o a tra ta m e n to do qual lhe advém seqüelas danosas.

Se o doente é m enor ou insano, esse consentim ento terá que v ir de seus pais ou responsáveis.

E age, ainda, com culpa grave quando subm ete o clie n te a tra ta m e n to perigoso sem antes c e rtific a r-s e da im p erio sid ade de seu uso. (ACORDÃO unânime pro fe rid o pela Q uinta Câm ara Civil do T ribu na l de Justiça de São Paulo — Apelação n. 6 8 9 5 2 ).

3 9 caso — O te rc e iro caso se refere ao Processo n. 6 3 .2 6 5 /7 4 da 17» Vara da Com arca do Rio de Janeiro, Ação O rdin ária de Indenização movida por Da. Helena Fernandes Sobral visando responsabilizar CIVILMENTE o especialista po r danos causados, em operações c irú rg ic a s , da espécie ESTÉTICA, por ele realizadas. O ju lga m en to dessa ação é m u ito recente e a decisão proferida po r um Juiz de grande conceito pro fissio nal, pela sua in discu tíve l com petência.

O caso, em síntese, é o seguinte: alegou a A utora que foi subm etida a c iru rg ia plástica no rosto ( liftin g e peeling), que não obteve êxito. Dezoito dias após o ato c irú rg ic o subm eteu-se a nova operação, para correção da prim eira , havendo o ciru rg iã o , sem consulta prévia à A utora, extraído de seu ventre pele para enxerto no rosto. Cinco meses após o 2Ç ato c irú rg ic o , te rce ira intervenção fo i fe ita no rosto.

É ainda a Autora que inform a que, passados cinco meses, o c iru rg iã o lhe falou que «seu caso não tin h a je ito » e que «ela te ria que faze r mais duas ou trê s operações no rosto para tentar m elho ra r o aspecto das lesões resultantes do erro c irú rg ic o , porém , as m arcas laterais nas faces jamais desapareceriam».

Diante do que lhe fo i revelado, a Autora desistiu das novas ciru rg ia s, que seriam sim plesm ente paliativas, mesmo porque já estava com problem as NERVOSOS e CIRCULATÓRIOS decorrentes

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das constantes e prolongadas anestesias. Sobre os antecedentes médicos da A utora, constava do processo te r a mesma se subm e-tid o , a contento, a tod os os exames de apuração de sua ape-tidão para o ato c irú rg ic o e que com a falh a do c iru rg iã o e conseqüente insucesso da operação, resulta clara a resp on sabilid ad e do Réu pelo insucesso e po r sua deform ação facia l pelo que ela deve ser indenizada.

DEFESA DO RÉU — O c iru rg iã o réu apresentou longa defesa culpando a A utora po r te r abandonado o tra ta m e n to , a trib u in d o o insucesso à infecção superveniente; negando a existência dos pressupostos para a indenização, a firm a n d o ser im possível a g arantia do resultado, de nunciando a ameaça de escândalo, etc.

DECISÃO — A questão fo i julgada em 20 de m aio de 1975 pelo Dr. José de M esquita Lara, t itu la r da 17? Vara Cível da Comarca do Estado do Rio de Janeiro.

Ao p ro fe rir sua sentença o em inente ju lg a d o r a fez preceder de longa e cuidadosa ju s tific a tiv a , cuja síntese é a seguinte:

1. pelo que dos autos constava, considerou incontestes os fatos p rin c ip a is que interessavam ao desate da lide, a saber:

a) operações realizadas pelo Réu na A utora;

b) uma infecção que im p o s s ib ilito u o êxito das operações; c) a necessidade de outras intervenções para c o rrig ir o

resultado das anteriores;

2. entendeu que fico u cla ro no processo que o insucesso da 1* intervenção não se deveu à ím perícia ou im p rudência do ciru rg iã o réu, mas tão som ente à infecção sobre-vinda já na fase pós-operatória;

3. não acolheu os argum entos do Réu e as conclusões dos LAUDOS PERICIAIS que consideravam a infecção um «acidente», um «acon te cim en to im p revisível», uma «e ventualidade fo rtu ita » , e «com plicação fo rtu ita e im p revisível»;

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4. entendeu que uma infecção, na dogmática jurídica, decor-rente de intervenção cirúrgica, ocorrida no am biente desta, não pode ser tida como um EVENTO CASUAL e FORTUITO. E argumenta que este só se configura, juridicam ente, quando fô r inim aginável, não puder ser previsto, pensado, suposto, ou caso o seja, que seus efeitos não possam ser evitados ou impedidos. (Cód. Civil, Art. 1058, par. único);

5. acolheu ainda o dado de que uma infecção num pós-ope-ratório é perfeitam ente imaginável e previsível e os efeitos dela são contornados, se tratados a tempo;

Sob o fundam ento Je que a responsabilidade civil do médico, no direito brasileiro, está contemplada no capítulo da

responsa-bilidade aquiliana, onde a culpa do causador do dano é presumida,

concluiu no sentido de que: uma vez aceita a existência da infecção (fato inegável) e não contestada que sua causa tenha sido a operação a que se submeteu a Autora, NÂO SE PODERIA NEGAR A RESPONSABILIDADE CIVIL DO CIRURGIÃO pelos danos causados, sobretudo porque em nenhuma passagem de sua defesa, imputa-se ao ambiente hospitalar ou a seus empregados a causa da infecção.

A dm itiu e insistiu sobre esse ponto na sentença que a responsabilidade não se deveu à im prudência ou a im perícia do grande cirurgião em causa. Reconheceu que ele não praticou uma «faute lourde» ou uma «faute évidente» e nem se portou com uma «im prudence caractérisée». O que estava em jogo, nos autos, era a infecção surgida na Autora. Não aceitando a sua qualificação como caso fortuito ou de força maior, não se tendo irrogado a culpa dela ao Hospitalar; e desde que da infecção

resultaram PREJUÍZOS para a Autora, deverá o médico responder pela referida infecção e suas conseqüências.

Concluiu: resulta clara a responsabilidade civil do médico: uma negligência causadora da infecção; e esta, por sua vez, causadora das lesões físicas apresentadas pela Ré. E a respon-sabilidade civil tem como corolário indeclinável a obrigação de

indenizar. E a indenização como regra geral, deve abranger os

prejuízos havidos e os futuros, direta e im ediatam ente relacionados com o fato ilícito.

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A ação fo i julgada PROCEDENTE para condenar o Réu a in d e n iz a r a Autora das despesas por ela feitas com as operações; a pagar-lhe todas as despesas com o tratam ento necessário à corre ção dos defeitos decorrentes das operações a que se subm e-te u , com preendidos nessas despesas todos os gastos da Autora, no B ra sil, com exames pré-operatórios, com as intervenções c irú r-gicas propriam ente ditas, com médicos, anestesistas, assistentes, e n fe rm e iro s, os gastos com remédios, com curativos, de estada em hospita is, inclusive para um acompanhante, e tudo o mais que se relacionar diretam ente e com aquele tratam ento, conform e se a p u ra r em execução. O Réu foi ainda condenado ao pagamento de ju ro s legais sobre o quantum operado, desde o ingresso da A uto ra em Juízo, e honorários de advogado na base de 2 0 % sob re o to ta l da condenação.

IV — O RISCO NO PROCESSO E AS FALTAS QUE DETERMINAM A RESPONSABILIDADE DO CIRURGIÃO

Do exame do utrin ário e ju rispru de ncia l envolvendo aspectos do tem a proposto podem ser deduzidos alguns princípios de g ra nd e im portância capazes de o rie n ta r uma atuação mais segura dos ciru rg iõ e s, na especialidade estética e plástica.

Devendo-se entender, como «atuação mais segura» aquela que m enos exponha o cirurgião e seu traba lh o às restrições que lhes possam fazer.

Isso im plicará numa tom ada de consciência PRÉVIA que o o b rig a rá a atentar para todos os aspectos que envolvem sua atuação, e que não são poucos: científico, m oral, social, fa m ilia r, econôm icos, jurídicos, para fic a r somente nesses.

Deve-se ressaltar que, mesmo tom ando todos esses cuida-dos não te rá ele a garantia absoluta de não v ir a ser processado.

O risco do processo sempre existiu, existe e sempre existirá. E co n tra essa possibilidade nada há o que fazer.

Mas, diante da inevitabilidade desse fato, cabe considerar que realm ente não é o processo que com prom ete o nome p ro fis -sional do cirurgião, e sim sua condenação no mesmo.

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Todo esse longo apanhado d o u trin á rio e ju ris p ru d e n c ia l fic a ria to ta lm e n te sem sentido, repito, se dele não se extraíssem certas diretrizes para a atuação do c iru rg iã o .

Em p rim e iro lugar, é indispensável que tenha plena cons-ciência não só dos princípios éticos que condicionam sua atuação, mas tam bém das restrições decorrentes do ordenam ento ju ríd ico - legal vigente que incidem sobre o exercício de sua ativida de pro fissio nal. C onseqüentem ente, a inobservância desses p rincípios coloca-o em situação de faltoso.

O bjetivam ente, a questão pode ser tratad a considerando algum as fa lta s em que pode in c o rre r o c iru rg iã o :

la . Falta por não ter se assegurado do consentimento do cliente para o tratamento ou operação

Para proceder a um tra ta m e n to arrisca d o ou a uma operação (seja qual fo r: a regra é que toda operação oferece perigo) deve o m édico o b te r o consentimento do cliente e, não só o consentim ento, mas aquiescência livre e clara, após exposição dos riscos e perigos que cercam a operação.

Tal dever consta do CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA e tem expressiva repercussão no cam po ju ríd ic o .

Em prin cíp io , o consentim ento do paciente libera o m édico de responsabilidade. Mas, — e eu pe diria atenção especial para o que se segue — há casos em que o m édico não pode invocá-lo. Isso ocorrerá em todos os casos em que as VANTAGENS do tra ta m e n to ou da intervenção estejam em desproporção com os

riscos ou as desvantagens correspondentes, com enfase toda especial, no que respeita a c iru rg ia estética.

Discute-se com insistência na ju ris p ru d ê n c ia francesa se as cláusulas de NÃO RESPONSABILIDADE seriam válidas entre o cliente e o c iru rg iã o ; se este, m ediante pleno assentim ento do clinete realiza uma operação perigosa.

O problem a com porta distinções, ainda que para o leigo isso possa parecer absurdo porque entende que cada um é senhor absoluto de si m esm o. Mas, ju rid ic a m e n te , não o é. A respeito, prevalece o p rin cíp io da in colu m id ade do CORPO HUMANO com o

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m atéria de ORDEM PÚBLICA, contra cujo m andam ento não vige a m áxim a « vo le nti non f it in ju ria » (não acontece in ju stiça àquele que consente).

A d istinçã o é a seguinte:

— se se tra ta r de uma operação que não tenha q u alque r u tilid a d e para a VIDA ou SAÚDE do cliente, com o uma operação

de ordem exclusivamente estética «a clá usu la de não responsa-b ilid a d e » não pode isentar o c iru rg iã o das oresponsa-brigações pro fissio nais assum idas. Isso porque, na ju ris p ru d ê n c ia referida, considera-se «faute lo urd e» (fa lta grave) rea liza r uma operação perigosa, sem necessidade. E com o «as cláusulas de não responsabilidade» não excluem a responsabilidade pelas conseqüências dos fatos graves, «ipso facto» em erge a responsabilidade do c iru rg iã o e seu co ro -lá rio que é a obrigação de indenizar.

Estaria nesse caso, por exem plo, uma operação realizada para d im in u ir o volum e dos seios de uma paciente, com a fin a lid a d e única e exclusiva de c o rrig ir a linha, ten do dela de corrid o graves conseqüências para a paciente. A Justiça francesa tem entendido te r o c iru rg iã o com etido « fa u te lourde» (fa lta grave) quando aceitou faze r a c iru rg ia .

Rege a espécie o p rin c íp io de que o m édico que arrisca tra n s fo rm a r uma im p erfeiçã o física em um mal verdadeiro, tem o dever de recusar seu concurso.

O m esm o fa to te ria ou tro tra ta m e n to ju ríd ic o com pletam ente dife re n te se a indicação da cirurgia de busto se devesse a problem as de coluna vertebral que estivessem a tin g in d o a paciente, pelo peso excessivo de seu busto. Nessa hipótese, qu alque r com plicação surgida no pós-operatório, seria julgada de form a menos exigente, pois não se te ria caracterizado a «faute lourde». 2a. Falta consistindo em fazer uma intervenção cirúrgica em

que os riscos são flagrantemente desproporcionais à vantagem pretendida.

Essa fa lta já fo i in dire tam en te tra ta d a no item a n te rio r relativam ente ao consentim ento do cliente. Lim ito-m e ao registro de que essa é uma das fa lta s que m ais sen sib ilizam os juizes e trib u n a is .

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3a. Falta por «Erro de Técnica»

O «erro de técnica tem sido apreciado com prudente reserva pelos T ribunais. Ele se configura de acordo com certas normas que exigem:

a ; que o médico tenha agido com desprezo ou desconhecim ento de seus deveres; e que tenha se utilizado de técnicas já totalm ente superadas e até mesmo condenada, pela classe

médica;

b) que, além de certa, a culpa no seu procedim ento, seja GRAVE (faute lourde).

De modo geral, os autores aplaudindo a ju risprudência ju stificam essa orientação, salientando que é de interesse geral, inclusive do próprio cliente, que o médico, por tem or de excessiva severidade na apreciação de sua responsabilidade, não se veja tolhido, paralisado.

Se essa tolerância é uma im posição do interesse geral e da liberdade profissional, tam bém não há de ser exagerada a ponto de c o b rir as faltas graves que tenham sido praticadas. V — A CIRURGIA ESTÉTICA E A IDENTIFICAÇÃO CIVIL

Ainda que preocupado porque essas considerações se alongam além do razoável, embora não além do necessário, porque o tem a é de in fin ita abordagem, não posso me fu rta r à menção de que tra m ita no Senado Federal projeto de lei apre-sentado pelo Senador Vasconcelos Torres, em 24 de maio do corrente ano, dispondo sobre «o encam inham ento pelos médicos que realizarem ciru rgia plástica ou correção ortopédica, de fotografias e outros elementos de inform ação ao INSTITUTO NACIONAL DE IDENTIFICAÇÃO.

Na justificação do projeto sustentou o Senador Vasconcelos Torres que «tanto a ciru rgia plástica, quanto à correção ortopédica, se apresentam com ângulos novos, para o estudo do problema que se vem criando no campo da identificação. Seu argum ento

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principal é o de que «sem quebrar, de nenhum modo — são suas expressões — o sagrado sigilo profissional, o que se pretende é atender ao interesse do indivíduo e do Estado, para este inclusive, de inequívoco alcance na área de com bate ao crim e, sob m últiplas facetas. Aos facultativos que incorrerem em infração à lei é cominada a pena de UM a TRÊS ANOS de RECLUSÃO.

O referido projeto de lei, que recebeu o n. 106, foi publicado no Diário do Congresso Nacional, Seção II, em 2 5 .5 .7 7 , e, no momento, segundo me consta, está sendo examinado pelas Comissões Técnicas do Senado, tendo grandes possibilidades de se converter em lei.

REGISTRE-SE, ainda, por oportuno, que em 7 de junho de 1973, o Deputado PEIXOTO FILHO já tin h a apresentado na Câmara dos Deputados idêntico projeto, que recebera o n. 1331 — cujo objetivo princip al era a exigência de cientificação de

identificação civil sem pre que, m ediante operação plástica tivessem sido alterados substancialmente os traços fisionôm icos de determ inada pessoa, de ta l sorte que não perm ita o seu reconhecim ento direto, por não guardar semelhança com a fis io -nomia anterior.

Antecipando-se a qualquer objeção ao projeto ressalvou o Deputado que de form a alguma o projeto visara cercear o livre exercício da nobre profissão. Pelo contrário, a própria profissão é que estaria resguardada das investidas dos que agem deso-nestamente visando a p e rtu rba r o bem -estar social da coletividade.

O referido projeto foi aprovado pelas Comissões de C onsti-tuição e Justiça e de Saúde. Posteriorm ente, pouco antes de ser subm etido à sanção do Presidente da República, foi apresentada em PLENÁRIO emenda sub stitutiva do Deputado PRISCO VIANA, que dava à m atéria disciplina jurídica bem mais abrangente. Em novem-bro de 1975 o projeto, com a emenda apresentada, recebeu parecer favorável da Comissão de Saúde. Depois, não se teve mais notícia do encam inham ento que lhe fora dado, tud o levando a crer que tenha sido arquivado. É a conclusão que se impõe, tendo em vista a apresentação, relativam ente recente, do projeto do Senador Vasconcelos Torres, já mencionado.

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A opinião dom inante no meio m édico ao que consta, é a de que esses projetos, além de com prom eter o « s ig ilo pro fissio n a l» na realidade, em nada acrescentam à segurança da coletividade.

P rim eiro, porque nunca se realiza uma c iru rg ia plástica que m od ifiq ue sub stancialm e nte a fisio no m ia do paciente.

Segundo, porque os fatos têm revelado que os que procuram fu g ir à ação POLICIAL buscam outros a rtifíc io s m ais fáceis, que não dependem de outra pessoa e de m uito menos repercussão que a c iru rg ia plástica, ta is com o passar a usar longas barbas, ad otar o bigode — o mais cheio possível, m udança do penteado e cor dos cabelos, óculos escuros, etc.

Todavia, o registro que ora se faz à existência de dois projetos, um em tra m ita ç ã o e com grande possib ilidad e de se tra n s fo rm a r em lei, parece-me ú til e oportuno, com o subsídio para que os órgãos d iretam e nte interessados na questão com m u ito mais propriedade definam , se ainda não o fizera m , sua posição dian te dos projetos referido s. Às vezes, uma atuação consciente de esclarecim ento aos legisladores, com dados técnicos e da prática m édica, pode e v ita r a edição de uma lei que pode se to rn a r inconveniente.

Ao fin a l do presente tra b a lh o quero e xte rn ar m inha a d m i-ração po r essa nobre ativida de objeto dessas considerações de natureza ju ríd ic a . Valendo-m e das palavras do Papa Pio XII, ao receber os m em bros do X Congresso Italiano de C iru rg ia P lástica, em alocução a eles destinada, disse:

«... É certo que o C ris tia n is m o e sua m oral ja m ais conde-naram com o ilíc ito em si a estim a e o cuidado o rd in á rio s com a beleza física.

Certas deform idades ou m esm o certas im perfeições podem provocar perturbações psiquicas na pessoa, ou m esm o se to rn a r um obstáculo às relações sociais e fa m ilia re s , com o tam bém c o n s titu ir um im p ed im en to — especialm ente em pessoas voltadas para a vida pública ou para as artes — no desenvolvim ento de suas atividades.

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A beleza física assim sendo encarada, numa perspectiva c ris tã e as condições m orais indicadas sendo respeitadas, a cirurgia estética, longe de ir con tra a vontade de Deus, quando ela re s titu i a perfeição à obra m áxim a de criação v isível — o hom em — parece antes secundá-la e to rn a r

m a n ife sto o testem unho de sua sabedoria e bondade.

Já, nesta função, a mão do ciru rgiã o, parece rep etir, de q u a lq u e r form a, o ato da mão de DEUS, que m odela o hom em ».

Lícita e benfazeja é, pois, a c iru rg ia estética.

E se alguém ainda in s is tir em negar essa verdade, estará se esquecendo do ensinam ento sub lim e de JOUBERT:

« ... quad tu auras perdu ton unique bien, il restera encore le bien que tu peux fa ire aux autres; cella vaut encore Ia peine de v iv re et de travailleD>.

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