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O impacto do design da cadeira de rodas na experiência de utilização e na perceção do estigma

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Academic year: 2021

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O impacto do Design da Cadeira de Rodas na

Experiência de Utilização e na Perceção do Estigma

Luciana Teles Carneiro

Orientador: Professor Doutor Francisco dos Santos Rebelo

Tese especialmente elaborada para obtenção do grau de Doutor em Motricidade Humana na especialidade Ergonomia

Júri: Presidente

Professor Doutor Francisco José Bessone Ferreira Alves Vogais

Professora Doutora Cristina Maria dos Santos Nunes Pires Caramelo Gomes Professora Doutora Arminda da Conceição dos Santos Guerra e Lopes Professor Doutor Paulo lgnacio Noriega Pinto Machado

Professora Doutora Ana Cristina Guerreiro Espadinha Professor Doutor Francisco dos Santos Rebelo

O trabalho apresentado nesta tese foi financiado pela Coordenação de

Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES | Ministério da Educação do Brasil, sob o processo número BEX 10078-13 /4.

Universidade de Lisboa

Faculdade de Motricidade Humana

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AGRADECIMENTOS

Agradeço a todos que contribuíram, direta ou indiretamente, para o desenvolvimento deste trabalho, nomeadamente a todas as pessoas que aceitaram participar das recolhas de dados, às equipas do Hospital Santa Maria e do Centro de Medicina Física e Reabilitação do Alcoitão e aos Docentes e Técnicos Administrativos da Faculdade de Motricidade Humana / Universidade de Lisboa.

Agradeço ao meu orientador, Francisco dos Santos Rebelo, pela enorme oportunidade de aprendizado e pela disponibilidade e empenho sempre presentes em todos os momentos de orientações durante este percurso acadêmico.

Agradeço às amizades construídas na Faculdde de Motricidade Humana: Ana Lúcia Almeida, Carlota Joaquina, Sarah Bernardes, Lara Amaral, Luís Teixeira, Elisângela Pessoa e Juana Navarro. O vosso apoio foi essencial nos momentos de incertezas. Agradeço à Cândida Antónia José e Maria Graciete José, por todo o suporte e acolhimento nos momentos menos bons, bem como pelo sincero contentamento nas partilhas dos momentos de alegria: vocês as duas foram a representação da minha família em Portugal. Agradeço profundamente a Rui Fragoso. A tua presença amorosa, paciente e encorajadora tornaram esta caminhada mais doce. Serei eternamente grata pelo teu apoio incondicional, lembrando-me sempre da minha competência e ensinando-me sobre resiliência e foco: cada etapa ultrapassada tem muito de ti. Todas as conquistas também são tuas.

Agradeço aos meus alicerces nesta vida: meu pai, Metódio Vaz Carneiro, minha mãe, Lucília Maria Teles Carneiro e minha irmã, Virgínia Teles Carneiro. Esta caminhada foi a comprovação da máxima: a distância separa os corpos, mas não as almas e os corações. A vossa força, o vosso Amor incondicional e os vossos ensinamentos sobre dignidade, ética e fé estiveram comigo todos os dias e foram indispensáveis para a conclusão deste ciclo, fortalecido com a chegada da nossa amada Amanda. A vocês dedico este trabalho, com Honra, Amor e profunda Gratidão.

Agradeço também à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES | Ministério da Educação do Brasil, pelo financiamento deste estudo, sob o processo número BEX 10078-13 /4.

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ABSTRACT

This study aims to evaluate whether wheelchairs with modern design lines are capable of providing better user experience and less stigma perception than traditional wheelchairs. The design and development of Assistive Technologies that rupture with usual design solutions can enable the reduction of eventual abandonment, inadequate use and, especially, minimize the association of those who use them to an image of dependence and disability. The lack of studies on the user experience with Assistive Technology or on the stigma associated with this interaction led us, in an initial phase, to explore different methodological approaches that resulted in two pilot studies that aimed to identify methods to evaluate the user experience with wheelchairs and to measure if the context influences this assessment. The results of these exploratory studies led to the definition of methodological approaches for the final study, in which the user experience was evaluated through the AttrakDiff2 and the perception of stigma by the Perceived Stigmatization Questionnaire. Two models of manual wheelchairs were selected together with professional designers, physiotherapists and ergonomists. After the development of the images of these devices in 3D, the tests were applied through video display, allowing 360 degree viewing. The sample consisted of people who use and of people who do not use wheelchairs. The results show that a wheelchair with a modern design provides a better user experience evaluation for both samples. The stigma was also less associated with the modern wheelchair than with the traditional wheelchair, mainly by people who use this Assistive Technology. These results lead us to infer that the design of a wheelchair is capable of influencing the way that a user and the society interact with this product, enabling a use that emphasizes skills, potentialities and allows greater social and labor inclusion. We aim that this work leads to reflections on manufacturers and Health Organizations about the importance of design to Assistive Technologies, and, consequently, to its users.

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RESUMO

Este trabalho pretende avaliar se cadeiras de rodas com linhas de design modernas são capazes de proporcionar melhor experiência de utilização e menor perceção de estigma do que cadeiras de rodas tradicionais. A conceção e desenvolvimento de tecnologias de apoio que rompam com soluções de design usuais podem possibilitar a diminuição de eventuais abandonos, do uso inadequado e principalmente, minimizar a associação de quem as utiliza a uma imagem de dependência e incapacidade. A não existência de estudos sobre a experiência de utilização com tecnologias de apoio e tampouco do estigma associado a esta interação, levou-nos, em uma fase inicial, a explorar diferentes abordagens metodológicas que se traduziram em dois estudos pilotos que objetivaram identificar métodos para avaliar a experiência de utilização com cadeiras de rodas e mensurar se o contexto influência esta avaliação. Os resultados destes estudos exploratórios conduziram à definição de uma abordagem metodológica para o estudo final, em que a experiência de utilização foi avaliada por meio do AttrakDiff2 e a perceção do estigma pelo Perceived Stigmatization Questionnaire. Foram selecionados dois modelos das cadeiras de rodas manuais, em conjunto com profissionais da área do design, fisioterapia e ergonomia. Após o desenvolvimento das imagens destes dispositivos em 3D, os testes foram aplicados por meio de exibição em forma de vídeo, permitindo a visualização em 360 graus. A amostra foi composta por pessoas que utilizam e por pessoas que não utilizam cadeiras de rodas. Os resultados obtidos demonstram que uma cadeira de rodas com design moderno proporciona melhor avaliação da experiência de utilização para ambas as amostras. O estigma também foi menos associado à cadeira de rodas moderna do que à cadeira de rodas tradicional, principalmente pelas pessoas que utilizam tal tecnologia de apoio. Estes resultados fazem-nos inferir que o design de uma cadeira de rodas é capaz de influenciar a maneira como um utilizador e a sociedade interagem com este produto, possibilitando uma utilização que enfatize habilidades, potencialidades e permita maior inclusão social e laboral. Almejamos que este trabalho provoque reflexões nos fabricantes e Organizações de Saúde sobre a importância do design para as tecnologias de apoio, e, em consequência, para seus utilizadores.

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Índice Geral

AGRADECIMENTOS _______________________________________________________________ I ABSTRACT ______________________________________________________________________ III RESUMO _________________________________________________________________________ V ÍNDICE GERAL __________________________________________________________________ VII

ÍNDICE DE TABELAS ______________________________________________________________ VIII

ÍNDICE DE FIGURAS ________________________________________________________________ IX I - INTRODUÇÃO __________________________________________________________________ 1 II - ENQUADRAMENTO TEÓRICO ___________________________________________________ 5 1 TECNOLOGIAS DE APOIO _____________________________________________________ 5 2 A CADEIRA DE RODAS _______________________________________________________ 10 2.1 EVOLUÇÃO HISTÓRICA ________________________________________________________ 11

2.2 TIPOS DE CADEIRAS DE RODAS __________________________________________________ 14

2.3 ELEMENTOS DA CADEIRA DE RODAS MANUAL ______________________________________ 16

3 USABILIDADE E EXPERIÊNCIA DE UTILIZAÇÃO ______________________________ 20

3.1 FATORES INFLUENCIADORES NA EXPERIÊNCIA DE UTILIZAÇÃO _________________________ 22

3.1.1 Emoções. ______________________________________________________________ 23

3.1.2 Contexto. ______________________________________________________________ 25

3.1.3 Estética. _______________________________________________________________ 26

3.2 INSTRUMENTOS E MÉTODOS DE AVALIAÇÃO ________________________________________ 28

4 EXPERIÊNCIA DE UTILIZAÇÃO COM CADEIRA DE RODAS _____________________ 34 5 ESTIGMA ___________________________________________________________________ 37 III. ORGANIZAÇÃO EXPERIMENTAL ______________________________________________ 41 1 ESTUDO 1: ANÁLISE DE MÉTODOS PARA AVALIAR A EXPERIÊNCIA DE

UTILIZAÇÃO COM CADEIRA DE RODAS ___________________________________________ 41

1.1 MÉTODOS __________________________________________________________________ 42

1.1.1 Seleção da tecnologia de apoio. ____________________________________________ 42

1.1.2 Instrumento de Avaliação. _________________________________________________ 43

1.1.3 Amostra._______________________________________________________________ 44

1.1.4 Protocolo e Local da Realização das Entrevistas. ______________________________ 45

1.1.5 Tratamento de Dados ____________________________________________________ 46

1.2 APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS ____________________________________ 46

1.2.1 Resultados Relativos à Usabilidade. _________________________________________ 47

1.2.2 Resultados Relativos à Experiência de Utilização. ______________________________ 49

1.3 CONCLUSÕES ________________________________________________________________ 51

2 ESTUDO 2: ANÁLISE DA INFLUÊNCIA DO CONTEXTO NA AVALIAÇÃO DA

EXPERIÊNCIA DE UTILIZAÇÃO COM CADEIRA DE RODAS _________________________ 53

2.1 MÉTODOS __________________________________________________________________ 54

2.1.1 Seleção da Cadeira de Rodas. ______________________________________________ 54

2.1.2 Ambientes Virtuais. ______________________________________________________ 55

2.1.3 Instrumento de Avaliação. _________________________________________________ 58

2.1.4 Amostra._______________________________________________________________ 60

2.1.5 Protocolo Experimental. __________________________________________________ 60

2.1.5.1 Tratamento de Dados. _________________________________________________________ 61

2.2 APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS ____________________________________ 61

2.3 CONCLUSÕES ________________________________________________________________ 64

3 ESTUDO 3: AVALIAÇÃO DA EXPERIÊNCIA DE UTILIZAÇÃO, REAÇÕES

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3.1.1.1 Reunião com profissionais da área do design, ergonomia e fisioterapia. __________________ 70 3.1.1.2 Aplicação do User Experience Questionnaire. ______________________________________ 70

3.1.2 Desenvolvimento das Imagens das Cadeiras de Rodas em 3D._____________________ 75

3.1.3 Instrumentos de Avaliação. ________________________________________________ 75

3.1.3.1 AttrakDiff2. ________________________________________________________________ 75 3.1.3.2 Geneva Emotion Wheel (GEW). ________________________________________________ 76 3.1.3.3 Perceived Stigmatization Questionnaire. __________________________________________ 78 3.1.3.4 Rosenberg Self Esteem Scale. __________________________________________________ 78

3.1.4 Amostra _______________________________________________________________ 79

3.1.5 Protocolo de Recolha de Dados ____________________________________________ 80

3.1.6 Tratamento de Dados ____________________________________________________ 83

3.2 APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS ____________________________________ 83

3.2.1 Pessoas utilizadoras de cadeiras de rodas ____________________________________ 84

3.2.2 Pessoas não utilizadoras de cadeiras de rodas. ________________________________ 89

3.2.3 Pessoas utilizadoras e pessoas não utilizadoras de cadeiras de rodas. ______________ 94

3.3 CONCLUSÕES ________________________________________________________________ 98

IV. CONCLUSÕES GERAIS ________________________________________________________ 101 BIBLIOGRAFIA __________________________________________________________________ 105 ANEXOS ________________________________________________________________________ 113

ANEXO A-TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO ____________________________ 113

ANEXO B-USABILITY AND USER EXPERIENCE OF TECHNICAL AIDS FOR PEOPLE WITH DISABILITIES? A

PRELIMINARY STUDY WITH A WHEELCHAIR _____________________________________________ 115

ANEXO C-CAN THE CONTEXT STIGMATIZE THE ASSISTIVE TECHNOLOGY?APRELIMINARY STUDY

USING VIRTUAL ENVIRONMENTS ____________________________________________________ 122

ANEXO D–80 MODELOS DE CADEIRAS DE RODAS –MÉTODOS DO ESTUDO 3: SELEÇÃO DE MODELOS DE

CADEIRAS DE RODAS ______________________________________________________________ 131

ANEXO E-USER EXPERIENCE QUESTIONNAIRE -UEQ ____________________________________ 151

ANEXO F-APROVAÇÃO DA COMISSÃO DE ÉTICA DO HOSPITAL SANTA MARIA _________________ 152

ANEXO G-ESCALA ATTRAKDIFF2 ADAPTADA PARA O PORTUGUÊS __________________________ 153

ANEXO H-PERCEIVED STIGMATIZATION QUESTIONNAIRE (PSQ)–ADAPTADO PARA O PORTUGUÊS __ 154

ANEXO I-ROSENBERG SELF ESTEEM SCALE ___________________________________________ 155

ANEXO J-APROVAÇÃO DA COMISSÃO DE ÉTICA DO CENTRO DE MEDICINA E REABILITAÇÃO DO

ALCOITÃO ______________________________________________________________________ 156

ANEXO K-COULD THE DESIGN FEATURES OF A WHEELCHAIR INFLUENCE THE USER EXPERIENCE AND

STIGMATIZATION PERCEPTIONS OF THE USERS? __________________________________________ 157

Índice de Tabelas

Tabela 1 - Guião da entrevista do Estudo ___________________________________ 44 Tabela 2 - Descrição da amostra do estudo 1 ________________________________ 45 Tabela 3 - Resultados da entrevista com pessoas utilizadoras de cadeira de rodas ___ 47 Tabela 4 - Instrumento desenvolvido com variáveis estéticas e emocionais ________ 59 Tabela 5 - Caracterização da amostra de pessoas utilizadoras de cadeira de rodas – Aplicação do UEQ ____________________________________________________ 71 Tabela 6 - Resultados do UEQ – Pessoas utilizadoras de cadeira de rodas _________ 72 Tabela 7 - Caracterização da amostra de pessoas não utilizadoras de cadeira de rodas – Aplicação do UEQ ____________________________________________________ 72 Tabela 8 - Resultados do UEQ – Pessoas não utilizadoras de cadeira de rodas______ 73 Tabela 9 - Resultados da escala GEW para pessoas utilizadoras de cadeira de rodas _ 88 Tabela 10 - Resultadas da escala GEW para pessoas não utilizadoras de cadeira de rodas ___________________________________________________________________ 93

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Índice de Figuras

Figura 1 - AutoCorn: dispositivo de apoio tecnológico desenvolvido para pessoas com dificuldade para falar (Vanderheiden, 2002, p.45). ___________________________ 6 Figura 2 - Distribuição das causas das deficiências em Portugal de acordo com o Inquérito nacional às incapacidades, deficiências e desvantagens (Secretariado Nacional de Reabilitação e Integração de Pessoas com Deficiência, 1995, p. 17). _____________ 7 Figura 3 – Categoria 12 22 constante na ISO 9999, que versa sobre a Lista de produtos de Apoio (Anexo I do Despacho nº 7197/2016, de 1 de junho). _________________ 10 Figura 4- Inscrição cravada em pedra de um sarcófago chinês (Carriel, 2007, p. 21) _ 11 Figura 5 - Imagem de cadeira utilizada pelo Rei Phillip II da Espanha (Carriel, 2007, p. 20). ________________________________________________________________ 11 Figura 6 - Imagem de Stephen Farfler e sua cadeira de rodas. (Carriel, 2007, p. 20). _ 12 Figura 7 - Cadeira de rodas desenvolvida no século XVIII por John Dawson; B – Produtos contemporâneos inspirados neste modelo de cadeira de rodas (Carriel, 2007, p. 24). _ 12 Figura 8 - A- Cadeira de rodas desenvolvida por Harry Jennings e Herbert Everest, em 1932. B- Modelo de cadeira de rodas manual tracional comercializado atualmente (Zimmermann et al., 2005, p. 3) __________________________________________ 13 Figura 9 – Cadeira de rodas entre as mais utilizadas (Costa, 2012, p.118) _________ 13 Figura 10 - Símbolo universal da pessoa com deficiência (Encarnação, Azevedo e Londral, 2015, p. 71) __________________________________________________ 14 Figura 11 - Classificação das Cadeiras de Rodas, de acordo com Bertoncello e Gomes (2002, p. 74) _________________________________________________________ 16 Figura 12 – Cadeiras de rodas com estrutura de fecho horizontal: A – constituída da material pesado (Retirado de www.medicalexpo.com); B – constituída de material leve (Retirado de www.kuschall.com). ________________________________________ 17 Figura 13 – Cadeira de rodas manual com fecho vertical. Retirado de www.ergometrica.pt ___________________________________________________________________ 17 Figura 14 – Cadeira de rodas rígida. Retirado de www.sunrisemedical.pt _________ 18 Figura 15 - Elementos principais de uma cadeira de rodas manual (Retirado de www.medicalshop.pt) __________________________________________________ 19 Figura 16 - Fatores quem compõem o conceito de emoção. Traduzido de Scherer (1984, p. 300). _____________________________________________________________ 23 Figura 17 - Geneva Emotion Wheel – Roda das Emoções de Genebra. Traduzido de Sacharin et al. (2012, p. 4). ______________________________________________ 30 Figura 18 - Representação esquemática dos elementos presentes em uma situação de estigma. Traduzido de Vaes (2014, p. 33). __________________________________ 39 Figura 19- Tipos de cadeiras de rodas de propulsão manual: A – cadeira de rodas standard; B – cadeira de rodas ativa. Retirado de www.invacare.pt ______________________ 43 Figura 20 - Modelo de cadeira de rodas selecionado para o estudo 2. Retirado de www. 3dwarehouse.sketchup.com _____________________________________________ 55 Figura 21 – Ambiente virtual com contexto do estudo 2. ______________________ 56

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Figura 22 – Ambiente virtual sem contexto do estudo 2. ______________________ 57 Figura 23 - Esquema da animação do estudo 2. ______________________________ 58 Figura 24 – Exemplo dado durante a orientação sobre como responder o instrumento desenvolvido _________________________________________________________ 61 Figura 25 – Gráfico de linhas mostrando os resultados das médias para os adjetivos emocionais. __________________________________________________________ 62 Figura 26 – Gráfico de linhas com os valores do desvio padrão para os adjetivos emocionais. __________________________________________________________ 62 Figura 27 – Gráfico de linhas com resultados das médias para os adjetivos estéticos. 63 Figura 28 – Gráfico de linhas com valores de desvio padrão para os adjetivos estéticos. ___________________________________________________________________ 63 Figura 29 - 16 modelos de cadeiras de rodas selecionados _____________________ 69 Figura 30- Modelos de cadeiras de rodas finais selecionados: B – cadeira de rodas tradicional; __________________________________________________________ 74 Figura 31 - Cadeiras de rodas modeladas. A - cadeira de rodas tracidional; B - cadeira de rodas moderna. _______________________________________________________ 75 Figura 32 - Distribuição das dimensões do GEW. Traduzida de Sacharin et al. (2012, p. 5). _________________________________________________________________ 77 Figura 33 - Primeiro slide do ficheiro PowerPoint apresentado durante o teste. _____ 80 Figura 34 - Imagens do vídeo com a cadeira de rodas tradicional ________________ 81 Figura 35 - Imagens do vídeo com a cadeira de rodas moderna _________________ 82 Figura 36 – Gráfico boxplot Resultados para a escala AttrakDiff2 – Amostra de pessoas utilizadoras de cadeira de rodas (n=30). ____________________________________ 85 Figura 37 – Gráfico boxplot com resultados da escala PSQ – Amostra de pessoas utilizadoras de cadeira de rodas (n=30) ____________________________________ 87 Figura 38 – Gráfico blospot com os resultados para a escala AttrakDiff2 – Amostra de pessoas não utilizadoras de cadeira de rodas (n=30). __________________________ 90 Figura 39 – Gráfico com os resultados para a escala PSQ – Amostra de pessoas não utilizadoras de cadeira de rodas (n=30). ____________________________________ 92 Figura 40 – Gráfico com resultados da análise da influência do tipo de amostra nas respostas do AttrakDiff2, onde 1: participante utilizador de cadeira de rodas; 2: participante não utilizador de cadeira de rodas. ______________________________ 95 Figura 41 – Gráfico com resultados da análise da influência do tipo de amostra nas respostas do PSQ, onde 1: participante utilizador de cadeira de rodas; 2: participante não utilizador de cadeira de rodas. ___________________________________________ 97

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I - Introdução

Tecnologias de apoio são produtos que têm como finalidade primordial suprir uma função perdida ou diminuída de um indivíduo. De acordo com o Decreto-Lei n.º 93/2009 são definidos como produtos de apoio: “qualquer produto, instrumento, equipamento ou sistema técnico usado por uma pessoa com deficiência, especialmente produzido ou disponível que previne, compensa, atenua ou neutraliza a limitação funcional ou de participação” (artigo 4º, alínea C).

A conceção e desenvolvimento das tecnologias de apoio geralmente baseia-se em conceitos médicos, sem considerar o que os utilizadores querem (Soares e Kirk, 2000). Para além disso, quando as Tecnologias de apoio são desenvolvidas a pensar no seu público utilizador específico, o foco é direcionado para itens da funcionalidade, biomecânica, eficiência, eficácia e materiais de fabrico, mais uma vez afastando esses produtos das componentes subjetivas de uso (Phillips e Zhao, 1993).

A investigação sobre tecnologias de apoio, em particular de cadeira de rodas, tem enfatizado nomeadamente aspetos da usabilidade. Não foram identificados estudos com objetivo de avaliar a experiência de utilização com cadeira de rodas, de forma que se faz necessária analisar se a experiência de utilização com estes dispositivos deve ser considerada, bem como a identificação de uma abordagem adequada para esta finalidade. Para além disto, ao considerar que é importante avaliar a experiência de utilização com cadeira de rodas, faz-se necessário também examinar se características de design podem influenciar nesta avaliação e na perceção de estigma associada a estes produtos.

Com base nisto, este trabalho é motivado pelo interesse em perceber se cadeiras de rodas com linhas de design diferentes são capazes de proporcionar uma melhor avaliação de experiência de utilização e menor perceção de estigma do que as cadeiras de rodas com características de design tradicionais.

Considerando que uma cadeira de rodas é um produto não desejado e de visibilidade obrigatória, proporcionar uma melhor experiência de utilização e menor estigmatização, significam possibilitar ao utilizador uma imagem onde é dada ênfase às suas capacidades e habilidades, em detrimento da usual associação às funções perdidas e dependência. A possibilidade de mudança na perceção do significado do produto e da imagem do utilizador, viabilizam um incentivo em sua auto-estima, proporcionando maior inclusão social e laboral.

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A escolha da temática sobre tecnologias de apoio surgiu a partir da formação profissional da investigadora, a fisioterapia, onde é notória a importância destes dispositivos para a manutenção e incremento da qualidade de vida de seus utilizadores. No entanto, a vivência clínica e acadêmica demonstram que os estudos que abordam estes produtos, em específico as cadeiras de rodas, centram-se nomeadamente em características funcionais e de desempenho, não enfatizando como o utilizador mensura aspetos da experiência de utilização com estes dispositivos.

Em consequência do exposto o objetivo geral deste trabalho é verificar se cadeiras de rodas com elementos de design distintos são capazes de proporcionar avaliação da experiência de utilização e da perceção do estigma diferentes. Desta forma, os objetivos específicos são:

 Identificar como pessoas utilizadoras avaliam a interação com cadeiras de rodas;

 Identificar aspetos da experiência de utilização decorrentes da interação com cadeira de rodas;

 Identificar se o contexto de uso influencia a experiência de utilização com cadeira de rodas;

 Identificar se características de design diferentes influenciam na avaliação da experiência de utilização com cadeira de rodas, por pessoas utilizadoras e pessoas não utilizadoras;

 Identificar se características de design diferentes influenciam nas reações emocionais decorrentes da interação com cadeiras de rodas, por pessoas utilizadoras e pessoas não utilizadoras;

 Identificar se características de design diferentes influenciam na perceção do estigma associado com cadeiras de rodas, por pessoas utilizadoras e pessoas não utilizadoras.

Assim este documento consiste em duas partes principais:

 Enquadramento Teórico: aborda os conteúdos que alicerçam esta Tese, a exemplo dos conceitos que envolvem as tecnologias de apoio, especificamente as cadeiras de rodas, a usabilidade, a experiência de utilização e o estigma.  Organização Experimental: descreve os três estudos realizados no intuito de

alcançar os objetivos propostos. Consta de dois estudos preliminares, que tencionam identificar métodos para avaliar as cadeiras de rodas e avaliar se o

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contexto influência a experiência de utilização com cadeiras de rodas, e um estudo final que objetiva mensurar se duas cadeiras de rodas com linhas de design diferentes proporcionam avaliações distintas quanto à experiência de utilização e perceção do estigma.

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II - Enquadramento Teórico

O objetivo desta secção é discorrer sobre temas relevantes para o desenvolvimento deste estudo, nomeadamente as tecnologias de apoio, cadeira de rodas, usabilidade e experiência de utilização e o estigma.

Em vista do grande número de tecnologias de apoio, optou-se por realizar um breve delineamento sobre este tema, dando mais ênfase às cadeiras de rodas, por meio de sua evolução histórica, tipos e elementos estruturais.

No âmbito da usabilidade e experiência de utilização, delineou-se conceitos e discorreu-se sobre métodos descritos na literatura que avaliam estes dois aspetos da interação com produtos, bem como fatores que influenciam estas avaliações,de maneira global e em específico para as cadeiras de rodas.

Em um último capítulo foi abordado o estigma e sua influência na interação com cadeiras de rodas, na perceção de quem utiliza este produto e da sociedade em geral.

1 Tecnologias de Apoio

Os recursos tecnológicos têm tido uma percetível evolução, tornando a tecnologia um elemento indispensável na vida das pessoas, revelando-se em alguns casos, um promotor de qualidade de vida (Azkoitia, 2007). Este crescimento nos últimos anos também tem influenciado o âmbito da reabilitação, observando-se uma significativa gama de estratégias e dispositivos destinados a pessoas com deficiência (Varela e Oliver, 2013).

Em 1970, Gregg Vanderheiden desenvolveu o Auto Monitoring Communication Board “AutoCorn”, tal como pode ser visto na figura 1: um dipositivo que permitia a comunicabilidade para pessoas que não conseguem falar, por meio de símbolos dispostos em um teclado, permitindo a formação de palavras e frases. Foi o primeiro dispositivo portátil para tal finalidade (Vanderheiden, 2002).

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Figura 1 - AutoCorn: dispositivo de apoio tecnológico desenvolvido para pessoas com dificuldade para falar (Vanderheiden, 2002, p.45).

Fruchterman e Vanderheiden (2007) defenderam a presença da tecnologia na vida das pessoas da seguinte forma:

a um preço acessível, todos devem ter acesso aos meios de comunicação e recursos tecnológicos para atender às suas necessidades pessoais, sociais educacionais e de emprego. Nós precisamos estimular a expansão da tecnologia para que todos os nossos cidadãos tenham pelo menos ferramentas básicas, para participar da nossa sociedade moderna. Todos merecem ter acesso à tecnologia (para. 3).

Neste trabalho a definição de deficiência segue os preceitos adotados pela Classificação Internacional de Funcionalidade e Saúde (CIF). Na língua inglesa esta classificação é denominada International Classification of Functioning, Disability and Health - ICF e foi publicada na sua versão final pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em 2001, com o objetivo de medir a saúde e a deficiência a nível individual e populacional.

Desta forma, de acordo com a CIF, o termo deficiência diz respeito à alteração funcional de um indivíduo, enquanto que possíveis limitações e restrições à participação de atividades decorrentes dessas alterações são denominadas incapacidades (OMS, 2001).

Além disso, nesta classificação da CIF (OMS, 2001) é considerada a influência dos fatores contextuais no delineamento da incapacidade, no que diz respeito a fatores ambientais (e.g. atitudes, estruturas sociais, condições arquitetónicas) e pessoais (e.g. gênero, idade, experiências atuais e passadas vividas pelo indivíduo).

Em Portugal, de acordo com resultados do Censo de 2001, divulgado pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), a população de pessoas com deficiência é de

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aproximadamente 640 mil, da qual cerca de 17 mil, apresentam deficiência motora. Ainda de acordo com o INE (2001) identificado que 23.2% da população portuguesa refere dificuldade para andar ou subir degraus, não sendo especificada a causa para a limitação desta atividade de vida diária.

Ambos os dados do Censo estão de acordo com os conceitos da CIF. Mas antes da publicação desta classificação, em 1995, foi realizado um “Inquérito nacional às incapacidades, deficiências e desvantagens” (Secretariado Nacional de Reabilitação e Integração de Pessoas com Deficiência, 1995), onde foi identificado que as deficiências físicas representavam 52.6 % entre as que foram mencionadas.

A figura 2 apresenta as principais causas associadas às deficiências em Portugal, relatadas neste mesmo Inquérito. Observa-se que a principal causa é atribuída à doença comum (40%), seguidamente a acidentes diversos (16%) e acidentes de trânsito (12%).

Figura 2 - Distribuição das causas das deficiências em Portugal de acordo com o Inquérito nacional às incapacidades, deficiências e desvantagens (Secretariado Nacional de Reabilitação e Integração de Pessoas com Deficiência, 1995, p.

17).

Quanto ao perfil das pessoas das pessoas com deficiência em Portugal, Encarnação, Azevedo e Londral (2015) enfatizam que houve alterações decorrentes de dois fatores:

“ i) o envelhecimento da população, com a inerente perda de capacidades funcionais; e ii) a evolução dos cuidados perinatais, em especial a assistência ao parto, que tem permitido uma crescente taxa de sobrevivência de crianças

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nascidas em condições de risco (e.g. baixo peso, prematuros, dificuldades respiratórias), mas por vezes sem evitar a existência de sequelas, levando a um aumento de crianças com deficiência, em especial com múltiplas deficiência” (p. 29).

A partir desta mudança de perfil populacional, também houve uma alteração na importância dada aos recursos para auxiliar essas pessoas: as tecnologias de apoio.

De acordo com a OMS (2001) tecnologias de apoio são definidas “como qualquer produto, instrumento, equipamento ou tecnologia adaptada ou especialmente concebidos para melhorar a funcionalidade de uma pessoa incapacidade” (p. 154). Já a legislação dos Estados Unidos, de acordo com a Lei de 1998 sobre tecnologias de apoio, alterada em 2004, define-as como qualquer item, equipamento ou sistema adquirido comercialmente, modificados ou personalizado que é utilizado para aumentar ou melhorar as capacidades funcionais de pessoas com deficiência.

No entanto, Cook e Polgar (2015) apresentam uma definição mais abrangente, onde uma tecnologia de apoio é definida para além de apenas um produto. Nesta definição a tecnologia de apoio é um recurso inclusivo, onde a tecnologia é agregada a um dispositivo com direcionamento específico para as disfunções de um indivíduo, de forma a permitir sua utilização em atividades de cognição, comunicação e mobilidade, em vários ambientes e sem a presença do preconceito. A importância não está apenas no produto em si e sua provisão, mas principalmente na possibilidade de integração na sociedade aos utilizadores.

O início da utilização de uma tecnologia de apoio pode desencadear várias alterações na vida de um indivíduo, em vista da possibilidade de isolamento, início de uma vida sedentária, mudanças no âmbito laboral e social, além de alterações da perceção do indivíduo sobre si mesmo (Martins, 2008).

Muitas dessas alterações podem influenciar no processo de aceitação e continuidade do uso de uma tecnologia de apoio. Estudo realizado por (Phillips e Zhao, 1993) com 227 adultos indicou que 29.3% dos dispositivos foram abandonados totalmente e que o abandono é mais presente do primeiro ao quinto ano de uso. Foi aplicado um questionário primeiro por telefone e depois por escrito, desenvolvido pelos autores a partir de informações dos consumidores, investigação anterior e literatura pertinente, constando de seis categorias de tecnologias de apoio. Foram incluídas para avaliação: auxiliares para atividades domésticas e cozinha, lazer e transporte, comunicação, uso geral, mobilidade e usos pessoais, totalizando 120 dispositivos de

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apoio. Quatro fatores foram associados ao resultado obtido: a falta de participação do utilizador na escolha do dispositivo, aquisição fácil sem informação adequada, desempenho abaixo do esperado e mudanças nas necessidades do utilizador. Também foi identificado que os dispositivos de auxílio à mobilidade são mais abandonados que outros tipos de tecnologias de apoio.

Galvin e Scherer (1996, citado por Goodman, Tiene e Luft, 2002) acrescentam como fatores relacionados a este abandono obstáculos ambientais, pouca informação sobre a manutenção do dispositivo e características técnicas a exemplo do peso, tamanho e aparência. Além disso, sugerem que três áreas devem ser enfatizadas junto ao utilizador quando é indicada uma tecnologia de apoio: o ambiente em ocorrerá o uso (estrutura física e também fatores psicossociais, como aceitação da família), fatores pessoais (motivação, experiências de vida, comportamentos perante situações de estresse e presença de otimismo) e características da tecnologia de apoio (segurança, facilidade de transporte, compatibilidade com outras tecnologias e facilidade para o uso e transporte).

Um estudo desenvolvido com idosos por Gitlin (1995) refere que o abandono de tecnologia de apoio tem relação com o atributo social dado à tecnologia de apoio devido a julgamentos da sociedade quanto à dependência ou independência do utilizador, em vista destes produtos poderem ser vistos positivamente, como recursos para recuperar ou manter a autonomia, ou negativamente se for associado à perda de habilidades do utilizador.

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2 A Cadeira de Rodas

Das inúmeras tecnologias de apoio existentes, selecionou-se para esta investigação a cadeira de rodas manobradas bimanualmente por rodas que está inserida na lista de produtos de apoio constantes na norma ISO 9999, de acordo com o publicado no Anexo I do Despacho n.º 7197/2016, em 1 de junho, de forma a poder ser atribuída gratuitamente. Este tipo de cadeira de rodas esta descrito na categoria de código ISO 12, que engloba os Produtos de apoio para mobilidade pessoal. O código ISO 12 22 (figura 3) descreve especificamente todos os itens da categoria cadeiras de rodas manuais.

Figura 3 – Categoria 12 22 constante na ISO 9999, que versa sobre a Lista de produtos de Apoio (Anexo I do Despacho nº 7197/2016, de 1 de junho).

De acordo com o referido por Sapey, Stewart e Donaldson (2005) a cadeira de rodas é simbolicamente associada à deficiência, apesar do facto de que menos de 10% das pessoas com deficiência utilizam cadeiras de rodas. Ainda segundo estes mesmos autores, apesar de mudanças ocorridas nos últimos anos, estes indivíduos têm seus direitos de escolha e preferências subjugados, em vista da constante associação à dependência de outras pessoas, principalmente em locais de assistência médica (Sapey et al., 2005).

Também é presente a sua associação a estados de falta de saúde, bem como de desamparo, incapacidade e passividade (Gaffney, 2010). O utilizador deste produto é desvalorizado quanto às suas habilidades preservadas, sendo rotulado apenas pelas funções perdidas, condenando-o a uma situação de inferioridade (Papadimitriou, 2008).

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2.1 Evolução Histórica

Em vista de existirem poucos estudos acerca da evolução histórica das cadeiras de rodas, este tópico será alicerçado no estudo realizado por Cariel (2007).

De acordo com Carriel (2007), os primeiros indícios históricos de surgimento de cadeiras de rodas datam de 525 d.C em uma inscrição cravada em pedra de um sarcófago chinês (figura 4). Outros relatos indicam que durante os séculos XVI e XVII, foram acopladas rodas em vários objetos para a locomoção de pessoas debilitadas ou com déficit de mobilidade, a exemplo do Rei Phillip II da Espanha (figura 5).

Figura 4- Inscrição cravada em pedra de um sarcófago chinês (Carriel, 2007, p. 21)

Figura 5 - Imagem de cadeira utilizada pelo Rei Phillip II da Espanha (Carriel, 2007, p. 20).

Como referido por Carriel (2007), a invenção da cadeira de rodas como é conhecida hoje é atribuída ao alemão Johan Haustach., ainda no século XVII. No entanto, modificações realizadas neste produto por um outro alemão, Stephen Farfler, permitindo

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o acionamento manual da cadeira, fez com que este recebesse o atributo de primeiro homem a utilizar uma cadeira de rodas por propulsão própria (figura 6).

Figura 6 - Imagem de Stephen Farfler e sua cadeira de rodas. (Carriel, 2007, p. 20).

Ainda de acordo com Carriel (2007), no século XVIII o inglês John Dawson desenvolveu um modelo de cadeira de rodas, que além de ter se tornado símbolo de riqueza e objeto de desejo, também foi inspiração para outros produtos como a bicicleta e o triciclo (figura 7).

A B

Figura 7 - Cadeira de rodas desenvolvida no século XVIII por John Dawson; B – Produtos contemporâneos inspirados neste modelo de cadeira de rodas (Carriel, 2007, p. 24).

Os modelos de cadeiras de rodas mantém-se muito semelhantes ao desenvolvido em 1930, com fecho vertical e constituída por aço, semelhantes aos desenvolvidos por Harry Jennings e Herbert Everest, nos EUA, em 1932 (Zimmermann, Hillman, e Clarkson, 2005), como exposto na figura 8.

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O desenho deste produto foi adaptado, fazendo surgir cadeiras de rodas mais leves e também as com propulsão elétrica. No entanto, a grande maioria das cadeiras de rodas têm design parecido com o de mais de 50 anos atrás, a exemplo de um dos modelos mais utilizados, de acordo com estudo desenvolvido por Costa (2012), como representado na figura 9.

Figura 9 – Cadeira de rodas entre as mais utilizadas (Costa, 2012, p.118)

Encarnação, Azevedo e Londral (2015) referem que a estrutura tubular em aço tornou-se característica da cadeira de rodas, tornando seu desenho estagnado e tornando este produto um ícone associado à deficiência (figura 10).

Figura 8 - A- Cadeira de rodas desenvolvida por Harry Jennings e Herbert Everest, em 1932. B- Modelo de cadeira de rodas manual tracional comercializado atualmente (Zimmermann et al., 2005, p. 3)

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Figura 10 - Símbolo universal da pessoa com deficiência (Encarnação, Azevedo e Londral, 2015, p. 71) Desta forma, percebe-se pela evolucão histórica, que as cadeiras de rodas inicialmente apresentavam contornos semelhantes a objetos de mobília, com mudancças em sua apresentação a partir da segunda metade do século XX. No entanto, a partir desta altura os seus contornos pouco mudaram, ficando seu modelo estagnado em linhas de design que associam este produto a conceitos médicos, caracterizados pela associação de quem as utiliza a patologias, diminuições funcionais e dependência (Encarnação, Azevedo e Londral (2015).

Esta pouca atenção ao design das cadeiras de rodas pode ser associado a paradigmas que determinaram conceitos acerca das pessoas deficiência, a exemplo do modelo clínico, onde, de acordo com a OMS (2001), as incapacidades decorrentes de uma deficiência são de responsabilidade única do indivíduo e o cuidar diz respeito unicamente ao reestabelecimento da função e da asssitência médica, não considerando outros fatores determinantes na reabilitação, como o atendimento de necessidades específicas de cada utilizador.

A partir deste princípio uma cadeira de rodas que cumpra com o papel de devolver a mobilidade é suficiente para promover a reabilitação e permitir o papel ativo e igualitário do utilizador na sociedade, o que não condiz com o conceito de saúde e bem-estar preconizado por Engel (1977), onde a saúde não é apenas a ausência de doencas e disfunções, mas sim um estado em que as esferas biológicas, psicológicas e sociais de um indivíduo estão em equiliíbrio.

2.2 Tipos de Cadeiras de Rodas

Existe uma enorme gama de cadeira de rodas. De acordo com Lianza (1994, citado por Bertoncello e Gomes, 2002), as cadeiras de rodas dividem-se nas seguintes categorias:

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 Dobráveis: utilizadas em ambientes domésticos e no exterior, com propulsão manual;

 Motorizadas: têm propulsão elétrica e são indicadas para pessoas com mobilidade condicionada severa nos membros superiores e inferiores;

 Destinadas ao desporto: têm desenho direcionado ao desporto específico a que se destinam e material ultraleve.

Se for considerado o grau de complexidade tecnológica Bertoncello e Gomes (2002) realizaram a seguinte classificação para as cadeiras de rodas (figura 11):

 Alta complexidade tecnológica: elétricas. Possuem dispositivos que utilizam princípios computacionais para a locomoção do indivíduo, a exemplo dos comandos por voz.

 Média complexidade: eletromecânicas. Apresentam como dispositivo de mobilidade os motores acionados pelo utilizador, sendo denominadas também de motorizadas e utilizadas para percorrer grandes distâncias em ambientes externos. Aqui também incluem-se os triciclos elétricos.

 Baixa complexidade: mecanomanuais. São acionadas pela propulsão do próprio utilizador ou de uma terceira pessoa. Podem ser ainda classificadas nos seguintes subgrupos:

- Incrementadas: caracterizadas pela leveza, design inovador, facilidade no transporte e transferências, e presença de roda pneumática que auxilia no uso externo;

- Especiais: apresentam caraterísticas manuais, mas diferenciam-se pelo forte conceito tecnológico. São exemplos desta categoria as cadeiras de rodas de desporto, que apresentam alumínio aeronáutico, e também as cadeiras de rodas manuais com verticalização.

- Padrão: são as mais conhecidas com e possuem pneu em borracha para utilização em ambientes internos, com a finalidade de reduzir o atrito com o solo. São de dois tipos: fixas e dobráveis.

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Figura 11 - Classificação das Cadeiras de Rodas, de acordo com Bertoncello e Gomes (2002, p. 74)

Neste estudo será utilizado a classificação de Rodrigues e Figueiredo e Silva (2000) que descrevem a cadeira de rodas standard como as caracterizadas pelo seu aspecto robusto, quase sempre em aço cromado e a cadeira de rodas ativa como aquelas construídas em materiais mais leves e manobráveis, com cores vivas e maior facilidade de manuseamento.

2.3 Elementos da Cadeira de Rodas Manual

Em vista deste estudo deter-se às cadeiras de rodas de propulsão manual, realizaremos a descrição dos elementos caracterizadores apenas deste tipo de cadeira de rodas, com base no folheto Cadeira de Rodas Manuais (2000).

O corpo de uma cadeira de rodas é a base de sua estrutura e tem muita influência na estabilidade durante o uso, bem como na facilidade do transporte. Desta forma, existem três tipos de estruturas:

 Estruturas que promovem o fecho no plano horizontal;  Estruturas que promovem o fecho no plano vertical;  Estruturas rígidas

As estruturas que promovem o fecho no plano horizontal estão presentes nas cadeiras de rodas com rebatimento das costas sobre o banco, sendo encontradas em modelos mais pesados em hospitais, sua robustez e em modelos mais leves associadas à extração da roda para melhor transporte (figura 12).

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Figura 12 – Cadeiras de rodas com estrutura de fecho horizontal: A – constituída da material pesado (Retirado de www.medicalexpo.com); B – constituída de material leve (Retirado de www.kuschall.com).

As estruturas responsáveis pelo fecho na vertical permitem conduzir a cadeira de rodas fechada, devido à presença de uma cruzeta vertical que liga a parte inferior da estrutura ao assento (figura 13).

Figura 13 – Cadeira de rodas manual com fecho vertical. Retirado de www.ergometrica.pt

As cadeiras de rodas de desporto enquadram-se nas de estrutura rígida, devido à grande estabilidade que apresentam, como exemplificado na figura 14. Estas também apresentam a possibilidade de rebater o encosto para um melhor transporte.

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Figura 14 – Cadeira de rodas rígida. Retirado de www.sunrisemedical.pt

Além da estrutura, a cadeira de rodas também é constituída pelos seguintes elementos principais (figura 15):

 Rodas motrizes: rodas maiores, geralmente posicionadas atrás;  Rodízios: rodas menores que se situam, em geral, na frente;

 Aro de tracção: tubo em forma de círculo que permite o utilizador propulsionar a cadeira de rodas; está acoplado às rodas motrizes;

 Apoio de pés (ou patim): local onde ficam apoiados os pés dos utilizadores;  Assento: local onde fica suportado o peso do utilizador;

 Costas: local que fica em contato com as costas do utilizador;  Cubo da roda: elemento que liga a roda à estrutura

 Raios da roda: elementos que ligam o cubo da roda à jante das rodas motrizes;  Travão: permite parar o movimento da cadeira de rodas.

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Figura 15 - Elementos principais de uma cadeira de rodas manual (Retirado de www.medicalshop.pt)

Para além destes, outros elementos como a proteção para as pernas e as pegas manuais para que a cadeira de rodas seja empurrada por uma outra pessoa, também podem estar presentes nas cadeiras de rodas manuais.

Desta forma, conclui-se a partir do exposto sobre cadeiras de rodas, que apesar de na atualidade existirem uma maior gama de modelos com a variação de alguns elementos (altura do encosto, aparência das rodas e rodízios e manipulação de cores, por exemplo) e a busca por fabrico em materiais leves, uma grande parte das cadeiras de rodas ainda mantém semelhança com aquelas desenvolvidas há quase 100 anos, mantendo a associação do utilizador a uma imagem de doença e incapacidade.

As características de design bem como a imagem a que é associado o utilizador podem influenciar na experiência de utilização com este tipo de tecnologia de apoio.

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3 Usabilidade e Experiência de

Utilização

De acordo com Tullis e Albert (2013) “a usabilidade geralmente é considerada a capacidade do utilizador usar algo para executar uma tarefa com sucesso” (p. 5). A ISO 9241-11, de acordo com Schifferstein e Hekkert (2011) atribui três aspectos à usabilidade: eficácia (realização de um objetivo), eficiência (percentual com que este objetivo pode ser alcançado) e satisfação (frequência com que um produto atende às necessidades do utilizador).

O estudo realizado por Chamorro-Koc, Popovic e Emmison (2009) analisou como a experiência do indivíduo influencia a avaliação da usabilidade de produtos. Vinte utilizadores e cinco designers foram solicitados a realizar a descrição por meio de desenho e descrição verbal acerca do uso produtos como tesoura de relva, martelo, lixeira, GPS, liquidificador, entre outros. Os resultados indicaram que a usabilidade é influenciada pelos seguintes fatores: familiaridade (contato anterior com produtos similares), experiências anteriores (conhecimento das características do produto em um uso anterior), formação cultural (o entendimento cultural do utilizador influencia na maneira como interpreta os produtos) e conhecimento específico (faz o utilizador desenvolver julgamentos e valores antecipados sobre o uso do produto).

Nos últimos anos, o foco do desenvolvimento de um produto tem enfatizado a experiência de utilização em associação à usabilidade, de maneira que tal processo tem buscado a valorização das necessidades humana e aspectos emocionais que o produto pode vir a elicitar (Väänänen-Vainio-Mattila, Roto e Hassenzahl, 2008)

O termo experiência de utilizacão ganhou expressividade com o crescimento de estudos no âmbito da interação homem-computador (human- computer interaction - HCI). No entanto uma definicão universal ainda não está definida pela associação de vários outros conceitos a exemplo de variáveis emocionais, estéticas, experienciais, bem como o facto de englobar interações de um utilizador final com um produto específico (Law, Roto, Hassenzahl, Vermeeren e Kort, 2009).

Segundo Hassenzahl e Tractinsky (2006) a experiência de utilização é consequência do estado interno do usuário (predisposições, expectativas, necessidades, motivaçoes, humor), das características do produto/sistema projetado (complexidade,

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finalidade, usabilidade, funcionalidade) e do contexto dentro do qual ocorre a interação (ambiente social ou de trabalho).

Hassenzahl, Diefenbach e Göritz (2010) também referenciam que experiência de utilização é composta por características hedónicas (a dinâmica da ação) e pragmáticas (a ação em si). Além disso, experiências positivas são atingidas quando três fatores estão associados ao produto: a estimulação (capacidade do produto despertar novas oportunidades), a identificação (forma como os utilizadores se refletem e interagem positivamente com os outros por meio do produto) e evocação (capacidade do produto despertar memórias positivas). De acordo com estes autores, quando estes três fatores estão presentes, a experiência de utilização ultrapassa a expectativa do utilizador quanto à interação com o produto.

Desmet e Hekkert (2007) defendem que a experiência de utilização é formada pelos seguintes componentes: experiência estética (estímulo sensorial positivo), experiência de significado (significado simbólico do produto) e experiência emocional (emoções positivas ou negativas elicitadas pelo uso do produto).

Para além disso, de acordo com Tullis e Albert (2013), a experiência de utilização inclui três principais características: o envolvimento de um utilizador; um utilizador interagindo com um produto, sistema ou interface; que a experiência seja observável ou mensurável. Deve haver um comportamento de interação presente, ou no mínimo uma intenção deste comportamento. Caso contrário, a avaliação é apenas das atitudes ou preferências.

De acordo com Garcia, Merino, Domenech e Merino (2016), a ISO 9241 refere que a experiência de utilização diz respeito às perceções e respostas do utilizador resultantes do uso e antecipação de uso de um produto. A antecipação do uso de um produto pode ser definida como a expectativa desenvolvida pelo utilizador sobre experiências e sensações antes da interação com um produto ou sistema (Yogasara, Popovic, Kraal e Chamorro-Koc, 2011).

O conceito do uso antecipado de um produto indica que um indivíduo forma expectativas e opiniões sobre um produto por meio de uma experiência indireta com tecnologias relacionadas, imagens, propagandas e opiniões dos outros (Roto, Rantavuo e Kaisa, 2009), indicando que uma experiência de utilização pode ser avaliada, por exemplo, com a visualização e consequente suposição do uso de um produto, por exemplo: uma cadeira de rodas.

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Schifferstein e Hekkert (2011, p. 137) ressaltam que:

“a forma que as pessoas experimentam produtos não é determinada somente por meio de interações físicas. Parte da experiência é frequentemente formada na mente do consumidor antes de usar ou comprar determinado produto. Ou seja, eles já podem imaginar o que iriam sentir ao usar o produto ao mostrá-lo aos amigos”.

A experiência de utilização é uma experiência multissensorial. Ainda de acordo com Schifferstein e Hekkert (2011) quando o produto não pode ser experimentado por meio da sensação tátil, sua apresentação por outro estímulo sensorial, a exemplo do visual, pode ser utilizado para criar uma situação cruzada, com objetivo de compensar o estímulo sensorial ausente.

Portanto, o conceito de experiência de utilização é influenciado pelas características e funcionalidades de um produto, mas vai além disto por também englobar perceções subjetivas durante a interação com um produto, incluindo reações emocionais antes, durante e após o uso. Tal experiência também é considerada durante um contato indireto como um produto, a exemplo de sua visualização.

Parette e Scherer (2004) indicam que no caso das tecnologias de apoio, a experiência de utilização também é influenciada pelo estigma em vista da perceção de diminuição de capacidades e da dependência associada a estes produtos.

Parette e Scherer (2004) ainda referem que idosos com dificuldade na locomoção podem não incorporar com facilidade na sua rotina diária o uso de cadeiras de rodas pela imagem vulnerável que isto pode vir a transmitir, e que pessoas jovens que têm a necessidade de usar um aparelho auditivo, muitas vezes utilizam lenços na cabeça para que o dispositivo não seja visto.

3.1 Fatores Influenciadores na Experiência de Utilização

A abordagem ergonômica da tecnologia, muitas vezes não leva em conta fatores sociais, emocionais e motivacionais, na conceção de um produto de cunho cognitivo ou de engenharia. Isto pode influenciar na taxa de um bom resultado na avaliação de experiência de utilização (Federici, Stefano e Scherer, 2012).

Baseado nisto, elencamos abaixo os três principais fatores que consideramos importantes na experiência de utilização com cadeiras de rodas.

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3.1.1 Emoções.

A definição de emoção é abrangente e varia de acordo com o âmbito em que é analisada. Scherer (2005) define emoção como uma ou mais respostas desencadeados por mudanças nos sistemas orgânicos por eventos externos ou internos, englobando outros fenômenos afetivos como sentimentos, humor e atitudes (crenças e predisposições).

Em trabalho desenvolvido anteriormente, Scherer (1984) propôs um modelo onde defende que as emoções são compostas por cinco componentes (figura 16). Este modelo tem como centro uma tríade formada por sensações subjetivas, respostas motoras e reações psicológica, onde estes três elementos estão conectados à avaliação cognitiva e às tendências de comportamento. De acordo com o autor, todos estes fatores têm influência no processo de interação do homem com um produto.

Por sua vez, Desmet e Hekkert (2007) definem emocões como mecanismos consequentes a eventos favoráveis ou desagradáveis, relacionados a estados de preocupação humana como o respeito, a auto-estima e a segurança e afirmam que produtos podem elicitar estímulos emocionais de três formas: pelo produto em si e seu design, como um agente associado a normas e como uma promessa de algo a ser usado no futuro.

Nos últimos anos as emoções têm tido maior valorização no âmbito da conceção e avaliação de um produto. Não desmerecendo a importância de requisitos de usabilidade,

Figura 16 - Fatores quem compõem o conceito de emoção. Traduzido de Scherer (1984, p. 300).

Sensações subjetivas TRÍADE EMOCIONAL Tendências de comportamento Avaliação cognitiva

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fatores emocionais diretos e indiretos exercem grande influência durante a experiência de utilização com um produto, antes, durante e após a interação (Agarwal e Meyer, 2009)

Para Norman (2004), o design de um produto apresenta três níveis: visceral, comportamental e reflexivo, onde, de maneiras diferentes, todos influenciam nas emoções que podem estar associadas a um produto. O nível visceral é responsável pela formação das primeiras impressões e futuros julgamentos por dizer respeito à forma e aparência do produto. Emoções de frustação ou entusiasmo podem estar presentes durante uma interação com um produto a depender do contentamento e efetividade do uso que o nível comportamental representa. E o nível reflexivo é o que pode despertar maior riqueza e diversidade de emoções, pois relaciona-se com a imagem pessoal do utilizador, suas memórias, experiências e influências culturais.

De acordo com Norman (2004) um produto caracteriza-se por um bom nível comportamental quando foi desenvolvido a partir das necessidades do utilizador e de como será utilizado em diversos contextos (casa, trabalho, lazer). O uso de fácil compreensão e o desempenho são importantes, de forma que os itens função, compreensão, usabilidade e sensação física são considerados essenciais para este nível do design. Ainda segundo (Norman, 2004) a aparência não é considerada tão importante: se o produto atender as necessidades funcionais pretendidas pelo utilizador tem uma boa avaliação

De acordo com este mesmo autor o nível reflexivo relaciona-se com a mensagem que o produto transmite quanto à auto-imagem do utilizador e a imagem percebida pelos outros. Neste nível, há uma grande influência dos aspetos culturais e das convenções aprendidas na sociedade em que o utilizador está inserido. Para um mesmo produto, é comum que a relevência do nível reflexivo ultrapasse a do nível comportamental.

Jordan (2000) incorporou o conceito de prazer (contentamento) na esfera da utilização do produto. Apesar do conceito de usabilidade englobar a satisfação com um produto, ainda enfatiza apenas a composição e características físicas de um dispositivo. Este autor sugere portanto que seja incluída uma abordagem considerando o contentamento dos indivíduos, com uma visão holística do ser humano, enfatizando de maneira mais ampla a relação entre os produtos e as pessoas para quem são projetados.

A partir disto Jordan (2000) categoriza três tipos de contentamento humanos: o contentamento físico, obtido pela resposta direta de órgãos sensoriais (gosto, tato, olfato); o contentamento social, gerado do relacionamento com os outros, derivando de interações

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sociais; e o contentamento conceitual, que está associado ao valor pessoal de cada indivíduo atribuído aos produtos.

Como referido por (Schifferstein e Hekkert, 2011) as perceções de Norman (2004) e de Jordan (2000) complementam-se, pois enquanto um observa as emoções a partir dos níveis de processamento do cérebro, o outro reflete a emoção em conformação com as necessidades individuais dos utilizadores. Desta forma, o nível visceral corresponde ao contentamento físico, o nível comportamental ao contentamento social e por último, o nível reflexivo ao contentamento conceitual.

Ainda no âmbito da influência dos tipos de emoções na perceção de um produto, Hassenzahl et al (2015) identificaram que a avaliação positiva de um produto tem relação direta com a afetividade positiva que o produto causa. E esta afetividade por sua vez, depende da satisfação das necessidades psicológicas de um indivíduo, decorrente da interação. Necessidades que podem ser exemplificadas por fatores relacionadas com sensações de parentesco, estímulo, popularidade, significado de pertença e segurança.

3.1.2 Contexto.

Bevan e Macleod (1994) referem que o contexto de uso engloba todas as condições presentes durante a intereção com um produto (os utilizadores, as tarefas e o ambiente) e enfatizam que é um fator tão relevante quanto as características do produto em si. Bernhaupt (2009) ressalta que para além do ambiente físico também devem ser consideradas as características individuais dos utilizadores e o âmbito social em que a interação está acontecendo.

Jumisko-Pyykkö e Vainio (2010) realizaram a seguinte categorização sobre o significado do contexto de uso na interação com dispositivos móveis:

 Contexto físico: localização espacial, lugar específico com características, por exemplo, climáticas;

 Contexto temporal: refere-se ao período de tempo ou horário em que ocorre uma interação;

 Contexto de tarefa: atividades que são realizadas durante a interação;

 Contexto técnico: relaciona-se com as características do produto, a exemplo de um hardware ou sofware;

 Contexto social: refere-se a possíveis relações interpessoais durante a interação, levando em conta a influência dos sujeitos que estão ao redor.

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No caso de produtos comercializáveis, as informações escritas, verbais ou não verbais que o caracterizam, também podem ser consideradas um tipo de contexto. Considerando que estas informações desencadeiam expectativas, que influenciam o julgamento do utilizador, corrobora-se a premissa de que o contexto podem alterar uma experiência de utilização (Schifferstein e Hekkert, 2011).

Toney, Mulley, Thomas e Piekarski (2003) indicam que o contexto em que uma tecnologia é utilizada pode causar afastamento entre o utilizador e a sociedade, devido a interpretações sobre a interação. Um exemplo é possibilidade de situações de estigma em ambientes sociais, como os de trabalho, onde um utilizador de tecnologias de apoio pode ser definido a partir do dispositivo que está utilizando, gerando isolamento e algumas vezes diminuição da produtividade.

Desta forma o contexto vai além do conceito de ambiente para abranger vários tipos de situações, influenciando e modulando a relação de um indivíduo com um produto ou sistema durante uma interação (Chamorro-Koc et al., 2009).

O contexto inclui muito além do plano físico e conceptual do ambiente onde é utilizado um produto. Informações sobre as habilidades do indíviduo, suas características físicas e intelectuais, a presença ou não de experiência anterior com o produto em si ou semelhante e todo conhecimento sobre o utilizador que seja relevante para potencializar a interação como o produto devem ser considerados como fatores integrantes do contexto (Mihailidis e Fernie, 2002).

3.1.3 Estética.

Os primeiros conceitos sobre este tema têm origem no mundo grego, e atualmente a estética é definida como o contentamento e o deleite obtidos a partir da perceção sensorial de um objeto. A abrangência deste o conceito não deve ser limitada à arte, à perceção visual, aos estilos de design e principalmente, estética não deve ser entendida como sinónimo de emoção (Schifferstein e Hekkert, 2011).

A estética tem grande importância na vida cotidiana: está presente na arquitetura, nos preceitos para o desenvolvimento de produtos, nos requisitos que um indivíduo analisa para escolher um produto, na estruturação de campanhas de marketing e influencia a interação social de um indivíduo, de acordo com sua aparência física (Lavie e Tractinsky, 2004).

A atual perspetiva da investigação sobre a interação do homem com produtos, tem ido além da análise do uso e da funcionalidade para incluir outros elementos que

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estimulam as necessidades e despertam sensações positivas no utilizador. Entre estes elementos está a estética, que está sendo associada a uma melhor avaliação do produto, ao gerar expectativas positivas durante uma avaliação visual, influenciando perceções que vão além da usabilidade (Moshagen e Thielsch, 2010).

Por meio de uma escala com 10 pontos de pontuação e avaliação de 252 pessoas acerca de 26 padrões de layout de uma interface quanto a como pareciam fáceis de usar e quanto pareciam bonitos, Kurosu e Kashimura (1995) desenvolveram estudo com objetivo de identificar se a avaliação da usabilidade de um produto pode ser influenciado por fatores estéticos. Os resultados demonstraram que a avaliação da usabilidade é menos associada à usabilidade em si do que aos aspetos estéticos. Isto parece indicar que durante uma avaliação, o utilizador pode ser influenciado pela estética do produto, a ponto disto interferir na perceção de aspetos inerentes à usabilidade, como a funcionalidade.

O que foi corroborado por Tractinsky, Katz e Ikar (2000) que indicam três possíveis fatores para justificar a relação da estética com a usabilidade: padrões populares de design quando presentes em certos produtos, atribuem boa avaliação de usabilidade em produtos com design semelhante; presença de resposta afetiva associada a determinadas linhas estéticas que influenciam no humor do utilizador e em consequência na avaliação global do produto; um efeito halo1 pode acarretar uma transição de elementos estéticos presentes no produto para outros elementos que não estão presentes.

No âmbito das tecnologias de apoio Schifferstein e Hekkert (2011) referem que para pessoas com deficiência a estética de um dipositivo é tão importante quanto sua funcionalidade, em vista da estreita associação que é feita à personalidade e à imagem do utilizador. Mas infelizmente, como exposto por Mace (1998) pouca ou nenhuma atenção é dada à estética das tecnologias de apoio:

“dos utilizadores, que são considerados pacientes, é esperado que usem os dispositivos selecionados pelos seus profissionais cuidadores e que seja gratos pela melhora na função e suporte que recebem, apesar de qualquer estigma, constrangimento ou imagem negativas que os dispositivos possam causar”. (p. 23).

1 O termo efeito halo foi designado em 1920, por Edward Lee Thorndike e faz referência ao fato de que quando criada uma primeira impressão sobre um indivíduo, as perceções norteiam-se no sentido da confirmação desta impressão. Atualmente é um conceito aplicado nos âmbitos de avaliação de produtos

Referências

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