Risoleta Pacola
Relações de trabalho em O Cortiço
Graduanda em Sociologia e Política pela FESPSP ([email protected])
Resumo
Este estudo se propõe a analisar as relações de trabalho presentes no romance O Cortiço,
escrito por Aluízio Azevedo, em 1890, e como essas relações de trabalho colaboram como um agente modificador do meio urbano, mostrando a complexidade da divisão social do trabalho presente na obra e a transição do uso da mão de obra escrava para a mão de obra livre assalariada na sociedade brasileira do fim do século XIX.
Palavras-chave
Introdução
O Cortiço, romance de Aluízio Azevedo, publicado
em 1890, retrata o cotidiano urbano de uma região da capital fluminense, o bairro do Botafogo, durante o final do século XIX, um período de intensas mudanças no cenário político e social do Brasil. A trama desse romance se desenrola em dois ambientes socialmente distintos, porém muito próximos espacialmente: o rico sobrado do negociante português Miranda e o cortiço ocupado por trabalhadores pobres explorados pelo ambicioso português João Romão. Observa-se ao longo da obra a ênfase dada às fatigantes e degradantes relações de trabalho vividas pelas personagens, certamente, isso se dá porque o romance possui uma perspectiva naturalista, que, por ser uma fase do estilo literário chamado realismo, analisa o meio social sem ir além da realidade observável, sem as idealizações da literatura romântica, por exemplo. Esse teor naturalista da obra cria uma narrativa que expõe as indignas e exploratórias relações de trabalho existentes no tempo do autor, e por meio delas as personagens, construídas com aspectos animalescos e patológicos típicos de ideias deterministas, atuam e fazem do cortiço um agente modificador do ambiente urbano e das pessoas.
O Cortiço retrata o cenário transitório das relações
de trabalho no Brasil do fim do século XIX, período no qual a sociedade oscilava entre duas perspectivas sobre o trabalho: a liberal capitalista e a escravagista do período colonial. Por isso, não é um absurdo afirmar que as relações de trabalho ocupam um papel de destaque na obra de Aluízio Azevedo, pois o desenvolvimento do cortiço e a dinâmica das personagens ao longo do romance estão diretamente em função do trabalho e de todas as discussões que margeiam seu universo.
O presente estudo propõe analisar as relações
de trabalho do romance: primeiramente, como agente modificador do meio urbano; depois, mostrando a complexidade da divisão social do trabalho presente na obra; e, por último, a transição do uso da mão de obra escrava para a mão de obra livre assalariada na sociedade brasileira da época.
Construção do cortiço: ambiente urbano
modificado devido às relações de trabalho
Ao narrar a construção do cortiço da personagem João Romão, o autor também narra o êxito desse comerciante em expandir seu cortiço, a “Estalagem de São Romão”, que se ampliou por conta do grande número de trabalhadores que lá estavam concentrados, em geral, pessoas pobres e de diferentes origens que encontravam no cortiço tanto uma habitação quanto a possibilidade de uma ocupação remunerada. A maioria dos moradores do cortiço trabalhava na pedreira ou nas tinas de lavagem de roupas, como se observa nos seguintes trechos:
Não obstante, as casinhas do cortiço, à proporção que se atamancavam, enchiam-se logo, sem mesmo dar tempo a que as tintas secassem. Havia grande avidez em alugá-las; aquele era o melhor ponto do bairro para a gente do trabalho. Os empregados da pedreira preferiam todos morar lá, porque ficavam a dois passos da obrigação... (AZEVEDO, 1954. p 26).
“Estalagem de São Romão. Alugam-se casinhas e tinas para lavadeiras”. As casinhas eram alugadas por mês e as tinas por dia; tudo pago adiantado. O preço de cada tina, metendo a água, quinhentos réis; sabão à parte. As moradoras do cortiço tinham preferência e não pagavam nada para lavar. Graças à abundância da água que lá havia, como em nenhuma outra parte, e graças ao muito espaço de que se dispunha no
cortiço para estender a roupa, a concorrência às tinas não se fez esperar; acudiram lavadeiras de todos os pontos da cidade, entre elas algumas vindas de bem longe (AZEVEDO, 1954. p 27 - 28).
As relações de trabalho mencionadas acima favoreciam a expansão do cortiço devido ao grande número de trabalhadores ocupando o mesmo espaço, causando, assim, uma intensa alteração no ambiente urbano, pois quanto maior o adensamento populacional, maior será a demanda pela utilização e ampliação da infraestrutura urbana. No romance, o ambiente urbano é modificado pelo cortiço São Romão e outros cortiços que se espalhavam pelo bairro do Botafogo na medida em que essas habitações coletivas transformavam as casas do bairro, nas quais, outrora, havia somente um núcleo familiar ou um pequeno comércio, em uma aglomeração de pessoas que, conforme a narrativa, faziam o movimento pendular casa-trabalho trabalho-casa, pois no cortiço encontravam abrigo, alimentação e, até mesmo, empréstimos financeiros. A habitação coletiva da qual João Romão se beneficiava financeiramente, modificou a estrutura urbanística do bairro do Botafogo, já que, visando abrigar o maior número de trabalhadores possível, a habitação começou a ser adaptada. Seus quartos, menores a cada reforma ou mudança estrutural, amontoavam-se e avançavam para outros espaços, especificamente, em direção à residência do comerciante Miranda. Os próximos trechos evidenciam, resumidamente, como a desonestidade e a ambição de João Romão, somadas à exploração do trabalho alheio, construíram a “serpente de pedra e cal” chamada “Estalagem de São Romão”:
[...] não perdendo nunca a ocasião de assenhorear-se do alheio, deixando de pagar todas as vezes que podia e nunca deixando de receber, enganando os fregueses, roubando nos
pesos e nas medidas, comprando por dez réis de mel coado o que os escravos furtavam da casa dos seus senhores, apertando cada vez mais as próprias despesas, empilhando privações sobre privações, trabalhando e mais a amiga como uma junta de bois, João Romão veio afinal a comprar uma boa parte da bela pedreira, que ele, todos os dias, ao cair da tarde, assentado um instante à porta da venda, contemplava de longe com um resignado olhar de cobiça. Pôs lá seis homens a quebrarem pedra e outros seis a fazerem lajedos e paralelepípedos, e então principiou a ganhar em grosso, tão em grosso que, dentro de ano e meio, arrematava já todo o espaço compreendido entre as suas casinhas e a pedreira, isto é, umas oitenta braças de fundo sobre vinte de frente em plano enxuto e magnífico para construir (AZEVEDO, 1954. p 16).
[...] as casinhas continuassem a surgir, uma após outra, e fossem logo se enchendo, a estenderem-se unidas por ali a fora, desde a venda até quase ao morro, e depois dobrassem para o lado do Miranda e avançassem sobre o quintal deste, que parecia ameaçado por aquela serpente de pedra e cal. O Miranda mandou logo levantar o muro. Nada! aquele demônio era capaz de invadir-lhe a casa até a sala de visitas! E os quartos do cortiço pararam enfim de encontro ao muro do negociante, formando com a continuação da casa deste um grande quadrilongo, espécie de pátio de quartel, onde podia formar um batalhão. Noventa e cinco casinhas comportou a imensa estalagem (AZEVEDO, 1954. p. 26).
Nota-se nos trechos transcritos acima como a estalagem modificou parte do ambiente urbano devido ao empenho de João Romão na transformação do dinheiro em capital. Segundo Karl Marx, em O Capital,
esse tipo de transformação ocorre conforme se investe dinheiro em mercadorias para trocá-las novamente por mais dinheiro, e é exatamente isso que o português dono do cortiço fez enquanto comercializava mercadorias e serviços no seu estabelecimento ou estimulava a circulação
do dinheiro por meio de investimentos financeiros para a construção de casas, tinas ou, ainda, quando comprou a pedreira. Assim, através de investimentos e reinvestimentos, João Romão transformou, não apenas, o ambiente urbano, mas modificou as relações de trabalho ao seu redor e a sua própria relação com a sociedade. As relações da personagem João Romão com o capital e o trabalho foram se modificando ao longo do romance. Inicialmente, ele era o empregado de um vendeiro e depois se tornou o capitalista da obra, aquele que é capaz de lucrar a partir da troca de dinheiro por mercadoria, ou, no caso dele, dinheiro por habitação, alimentação e meios de trabalho, que era novamente trocado por mais dinheiro.
Durante a trama de O Cortiço, as modificações
urbanas devido às relações de trabalho demonstram que João Romão, em sua trajetória de acumulação de capital, transformou a “Estalagem de São Romão” em um ambiente propício ao abrigo de trabalhadores e, consequentemente, estimulou o deslocamento de pessoas pelo bairro do Botafogo em busca de sua estalagem, causando no bairro uma modificação drástica:
Entretanto, a rua lá fora povoava-se de um modo admirável. Construía-se mal, porém muito; surgiam chalés e casinhas da noite para o dia; subiam os aluguéis; as propriedades dobravam de valor. Montara-se uma fábrica de massas italianas e outra de velas, e os trabalhadores passavam de manhã e às Ave-Marias, e a maior parte deles ia comer à casa de pasto que João Romão arranjara aos fundos da sua varanda. Abriram-se novas tavernas; nenhuma, porém, conseguia ser tão afreguesada como a dele. Nunca o seu negocio fora tão bem, nunca o finório vendera tanto; vendia mais agora, muito mais, que nos anos anteriores. Teve até de admitir caixeiros. As mercadorias não lhe paravam nas prateleiras; o balcão estava cada vez mais lustroso, mais gasto. E o dinheiro a
pingar, vintém por vintém, dentro da gaveta, e a escorrer da gaveta para a barra, aos cinqüenta e aos cem mil-réis, e da burra para o banco, aos contos e aos contos (AZEVEDO, 1954. p. 25).
Portanto, fica claro no romance de Aluízio Azevedo como as relações de trabalho transformaram o bairro do Botafogo em um efervescente ponto comercial, com um intenso fluxo de pessoas atraídas pelas diversas relações de trabalho. O trecho a seguir mostra que a ascensão econômica de João Romão, conquistada através da acumulação de capital, foi capaz de modificar a estrutura urbanística e arquitetônica da rua onde ficavam as instalações:
O prédio do Miranda parecia ter recuado alguns passos, perseguido pelo batalhão das casinhas da esquerda, e agora olhava a medo, por cima dos telhados, para a casa do vendeiro, que lá defronte erguia-se altiva, desassombrada, o ar sobranceiro e triunfante. João Romão conseguira meter o sobrado do vizinho no chinelo; o seu era mais alto e mais nobre, e então com as cortinas e com a mobília nova impunha respeito. Foi abaixo aquele grosso e velho muro da frente com o seu largo portão de cocheira, e a entrada da estalagem era agora dez braças mais para dentro, tendo entre ela e a rua um pequeno jardim com bancos e um modesto repuxo ao meio, de cimento, imitando pedra. Fora-se a pitoresca lanterna de vidros vermelhos; foram-se as iscas de fígado e as sardinhas preparadas ali mesmo à porta da venda sobre as brasas; e na tabuleta nova, muito maior que a primeira, em vez de “Estalagem de São Romão” lia-se em letras caprichosas: “AVENIDA SÃO ROMÃO” (AZEVEDO, 1954. p. 270).
Enfim, nota-se que a narrativa parece descrever um lugar totalmente diferente daquele que foi descrito no início da obra. A estalagem se modificou de maneira proporcional às modificações das relações de trabalho
encontradas ao longo do romance, ou seja, quanto mais distintas e complexas elas se tornaram, mais o ambiente urbano descrito em O Cortiço foi modificado.
Divisão social do trabalho presente na obra
Conforme João Romão prosperou como capitalista, tornando-se o fornecedor de mercadorias das tabernas e armarinhos do bairro do Botafogo, as relações de trabalho se desenvolveram, tornando-se cada vez mais diversificadas. Por isso, utilizando a obra Da Divisão Social do Trabalho, de Émile Durkheim,como instrumento de análise, há nessa diversidade das relações de trabalho elementos que anulam a possibilidade de existir no romance uma solidariedade mecânica, o que se observa são características de uma solidariedade orgânica. Durkheim descreve dois tipos de
solidariedade, a mecânica e a orgânica. Na solidariedade mecânica a vontade individual está em maior acordo com coletividade, os indivíduos se assemelham e, portanto, a força coercitiva social não entra em conflito com a individualidade de cada um, já na solidariedade orgânica existe uma maior possibilidade de uma relação conflituosa entre a vontade individual e a coletividade, ou seja, há uma diferenciação maior entre os indivíduos, uma multiplicidade de vontades que torna as relações sociais mais complexas. O autor exemplifica a relação entre os tipos de solidariedade através da divisão social do trabalho. Em uma sociedade onde a divisão do trabalho estabelece uma solidariedade mecânica os indivíduos se assemelham, há um consenso entre o individual e o coletivo o que torna a divisão do trabalho mais simples, normalmente se estabelece uma divisão sexual do trabalho, e é de comum acordo com todos os indivíduos que compõem a sociedade. As individualidades das personagens de O Cortiço se exteriorizam em muitos
momentos, bem como a presença de uma divisão social do trabalho dotada de complexidade, portanto, com solidariedade orgânica ao invés de mecânica. Lemos isso no seguinte excerto:
A sua casa tinha agora um pessoal complicado de primeiros, segundos e terceiros caixeiros, além do guarda-livros, do comprador, do despachante e do caixa; do seu escritório saiam correspondências em várias línguas e, por dentro das grades de madeira polida, onde havia um bufete sempre servido com presunto, queijo e cerveja, faziam-se largos contratos comerciais, transações em que se arriscavam fortunas; e propunham-se negociações de empresas e privilégios obtidos do governo; e realizavam-se vendas e compras de papéis; e concluíam-se empréstimos de juros fortes sobre hipotecas de grande valor. E ali ia de tudo: o alto e o baixo negociante; capitalistas adulados e mercadores falidos; corretores de praça, zangões, cambistas; empregados públicos, que passavam procuração contra o seu ordenado; empresários de teatro e fundadores de jornais, em aparos de dinheiro; viúvas, que negociavam o seu montepio; estudantes, que iam receber a sua mesada; e capatazes de vários grupos de trabalhadores pagos pela casa; e, destacando-se de todos, pela quantidade, os advogados e a gente miúda do foro (AZEVEDO, 1954. p. 290-291).
Com base em Durkheim, podemos afirmar que as relações de trabalho descritas na obra não permitem caracterizar a solidariedade da sociedade retratada por Aluízio Azevedo como mecânica, apesar da divisão social do trabalho apresentada no começo da obra ser sexual, aparentemente, já que os homens trabalhavam na pedreira e mulheres nas tinas do cortiço. Apesar disso, há personagens com relações de trabalho típicas do capitalismo, um sistema caracterizado pela intensa divisão do trabalho, portanto, dentro do romance, a solidariedade não pode ser mecânica, uma vez que não
há a ausência de uma complexa divisão do trabalho. Além disso, consciência individual dos habitantes do cortiço deveria convergir para uma consciência coletiva, mas em O Cortiço se evidencia personagens com traços
de individualidade distintos umas das outras. Ou seja, em suas relações de trabalho, nacionalidade, regionalidade e orientação sexual, por exemplo, as personagens expõem características de sociedades complexas, nas quais há a solidariedade orgânica.
Sociedades com solidariedade orgânica apresentam uma multiplicidade de vontades entre os seus indivíduos e um número maior de individualidades divergindo da coletividade que torna a atividade de cada pessoa individualizada. Quanto maior a individualidade maior é a especialização e divisão do trabalho e quanto mais dividido e especializado for o trabalho, mais dependente o indivíduo é do corpo social no qual está inserido. Percebemos essa relação de dependência entre os indivíduos na medida em que, por exemplo, mulheres de várias partes da cidade e do próprio cortiço, a fim de trabalhar, alugavam as tinas construídas por João Romão, já os homens da pedreira preferiam ficar na estalagem por causa da proximidade com o local de trabalho. Caixeiros e funcionários públicos se alimentavam no armazém da estalagem, além das diversas relações de comércio e trabalho que foram estabelecidas pela existência do cortiço. O cortiço se transformou em algo análogo a um organismo, no qual cada órgão possui uma função específica e trabalha em conjunto para o funcionamento adequado de todo o sistema. As palavras de Durkheim, expostas no excerto a seguir, sustentam essa ideia:
...é apenas possível se cada um tem uma esfera de ação que lhe é própria, por conseguinte, uma personalidade. É preciso, pois, que a consciência coletiva deixe descoberta uma parte da consciência individual, para que aí se
estabeleçam estas funções especiais que ela não pode regulamentar; quanto mais extensa esta região, tanto mais forte é a coesão resultante desta solidariedade. por outro lado, cada um depende tanto mais estreitamente da sociedade quanto mais dividido é o trabalho, e, além disto, a atividade de cada um é tanto mais pessoal quanto mais especializada... esta solidariedade assemelha-se àquela que se observa nos animais superiores. Cada órgão aqui tem sua fisionomia especial, sua autonomia e, entretanto, a unidade do organismo é tanto maior quanto mais marcada é a individuação das partes. Em razão desta analogia, propomos chamar orgânica a solidariedade devida à divisão do trabalho (DURKHEIM, 1973, p.372).
Então, a complexidade das relações de trabalho mostrada no ambiente da estalagem aumenta do começo ao fim do romance e a configuração capitalista da estalagem, por meio da qual o português se faz dono dos meios de produção, favoreceu uma complexa divisão do trabalho. A fim de se tornar acumulador de capital, João Romão separou o trabalhador do meio pelo qual este realizava o seu trabalho, isso se mostra por meio das lavadeiras que trabalhavam nas tinas alugadas por ele, ou por meio dos cavouqueiros que trabalhavam em sua pedreira. Marx discorre sobre essa separação no capítulo XXIV de O Capital, cujo título é A Chamada Acumulação Primitiva:
O sistema capitalista pressupõe a dissociação entre os trabalhadores e a propriedade dos meios pelos quais realizam o trabalho [...] A chamada acumulação primitiva é apenas o processo histórico que dissocia o trabalhador dos meios de produção. É considerada primitiva porque constitui a pré-história do capital e do modo de produção capitalista (MARX, 1974. p. 830).
Enfim, no romance de Aluízio Azevedo, nota-se que existem relações de trabalho complexas -
características de uma solidariedade orgânica – dotadas de uma intensa divisão do trabalho, que se intensifica conforme a personagem do ambicioso português passa a acumular capital, este conseguido por meio da estratégia capitalista de se apropriar dos meios de produção.
Transição do uso da mão de obra escrava
para mão de obra livre
Ao longo do romance O Cortiço, as relações
de trabalho estão contextualizadas em um ambiente cujas práticas capitalistas ainda não estão consolidadas, pois na sociedade retratada por Aluízio Azevedo há a coexistência entre a mão de obra livre assalariada e a mão de obra escrava. O autor retrata um período de transição entre as duas formas de trabalho existentes no Brasil do final século XIX. Este conturbado período é marcado pelo embate entre os abolicionistas e escravistas. Aqueles que eram favoráveis ao trabalho escravo conseguiram estender a escravidão, fazendo do Brasil o último país independente da América a abolir escravidão, com ações políticas pouco eficazes, pois criavam leis que não aboliam completamente o regime escravista, como a Lei do Ventre Livre, ou Lei Rio Branco,
que é mencionada no romance:
Assim, eram às vezes muito quentes as sobremesas do Miranda, quando, entre outros assuntos palpitantes, vinha à discussão o movimento abolicionista que principiava a formar-se em torno da lei Rio Branco. Então o Botelho ficava possesso e vomitava frases terríveis, para a direita e para a esquerda, como quem dispara tiros sem fazer alvo, e vociferava imprecações, aproveitando aquela válvula para desafogar o velho ódio acumulado dentro dele. - Bandidos! berrava apoplético. Cáfila de salteadores! (AZEVEDO, 1954. p. 35)
No mesmo contexto sócio-histórico havia a presença de trabalhadores livres assalariados e ambos os regimes de trabalho, escravo e assalariado, ocorriam de maneira simultânea no mesmo tempo e espaço, como observado a seguir:
Jerônimo viera da terra, com a mulher e uma filhinha ainda pequena, tentar a vida no Brasil, na qualidade de colono de um fazendeiro, em cuja fazenda mourejou durante dois anos, sem nunca levantar a cabeça, e de onde afinal se retirou de mãos vazias e com grande birra pela lavoura brasileira. Para continuar a servir na roça tinha que sujeitar-se a emparelhar com os negros escravos e viver com eles no mesmo meio degradante, encurralado como uma besta, sem aspirações, nem futuro, trabalhando eternamente para outro (AZEVEDO, 1954. p.68).
Observa-se que a transição do trabalho escravo para o trabalho livre se constituiu quando o mercado interno do país ainda era incompleto, da perspectiva liberal capitalista, e não oferecia mão de obra livre assalariada de maneira regular, ou seja, ainda havia um amplo uso da mão de obra escrava, gerando assim uma coexistência entre escravos e trabalhadores livres, o que não era suficiente para causar um quadro social igualitário entre eles, pois o contato direto entre essas duas relações de trabalho apenas demonstrou que a figura do senhor de escravos e a figura do capitalista estão o mesmo cenário, e, muitas vezes, em cooperação. Por isso, nesse período transicional, não há a separação entre o sistema capitalista e o sistema escravista, além disso, a brutal desigualdade entre os trabalhadores se dá por causa da não separação entre as “condições inorgânicas da existência humana e a existência ativa”, o que não permite ao escravo ter posse sobre seu próprio trabalho. Marx expõe isso da seguinte forma:
não há tal separação; o que acontece é que uma parte da sociedade é tratada pela outra como simples condição inorgânica e natural de sua própria reprodução. O escravo carece de qualquer espécie de relação com as condições objetivas de seu trabalho. Antes, é trabalho em si, tanto na forma de escravo como na de servo, situado entre outros seres vivos (Naturwesen) como condição inorgânica de produção, juntamente com o gado ou como um apêndice do solo. Em outras palavras: as condições originais de produção surgem como pré-requisitos naturais, como condições naturais de existência do produtor, do mesmo modo que seu corpo vivo, embora reproduzido e desenvolvido por ele, não é, originalmente, estabelecido por ele, surgindo, antes, como seu pré-requisito; seu próprio ser (físico) é um pressuposto natural não estabelecido por ele mesmo (MARX, 1985. p. 82 -83).
A condição social do trabalhador livre no romance é diferente, pois a mão de obra livre se relaciona com a condição objetiva de seu trabalho, ou seja, ela é dona de sua própria força de trabalho, porém não é proprietária dos meios para exercê-la. Por esse motivo, os trabalhadores precisam trocar sua força de trabalho por dinheiro, caracterizando uma relação comercial entre o dono da força de trabalho e o dono dos meios de produção. Essa relação é vista no diálogo entre a personagem João Romão e a personagem Jerônimo, que procura o dono do cortiço para vender sua força de trabalho:
Em vez de todas aquelas lesmas, pagas talvez a trinta mil-réis...
- É justamente quanto lhes dou.
- ... melhor seria tomar dois bons trabalhadores de cinqüenta, que fazem o dobro do que fazem aqueles monos e que podem servir para outras coisas! Parece que nunca trabalharam! Olhe, é já a terceira vez que aquele que ali está deixa cair o escopro! Com efeito! João Romão ficou calado, a cismar, enquanto voltavam. Vinham
ambos pensativos.
- E você, se eu o tomar, disse depois o vendeiro, muda-se cá para a estalagem?...
- Naturalmente! não hei de ficar lá na cidade nova, tendo o serviço aqui!...
- E a comida, forneço-a eu?...
- Isso é que a mulher é quem a faz; mas as compras saem-lhe da venda...
- Pois está fechado o negócio! deliberou João Romão, convencido de que não podia, por economia, dispensar um homem daqueles. E pensou lá de si para si: “Os meus setenta mil-réis voltar-me-ão à gaveta. Tudo me fica em casa!”
- Então estamos entendidos?... - Estamos entendidos!
- Posso amanhã fazer a mudança?
- Hoje mesmo, se quiser; tenho um cômodo que lhe há de calhar. É o número 35. Vou mostrar-lho. E aligeirando o passo, penetraram na estrada do capinzal com direção ao fundo do cortiço.
- Ah! é verdade! como você se chama?
- Jerônimo, para o servir. (AZEVEDO, 1954. p.64-65)
A transição entre trabalho escravo e trabalho livre, demonstrada por Azevedo, parece ainda mais complexa quando este apresenta uma modalidade de trabalho que não é limitada por uma relação direta entre o escravo e o senhor, relação de trabalho que foi muito comum nos últimos anos do regime escravagista no Brasil. O chamado “escravo de ganho” é explicado da seguinte maneira pelo historiador Boris Fausto, em a
História Concisa do Brasil:
Houve cativos alugados para a prestação de serviços a terceiros, e nos centros urbanos existiram os “escravos de ganho” uma figura comum no Rio de Janeiro dos primeiros decênios do século XIX. Os senhores permitiam que os escravos fizessem seu “ganho”, prestando serviços ou vendendo mercadorias, e cobravam
em troca uma quantia fixa paga por dia ou por semana. Escravos de ganho foram utilizados em pequena e em larga escala, de um único cativo a trinta ou até quarenta. Se a maioria deles exercia sua atividade nas ruas, caindo inclusive na prostituição e na mendicância com o assentimento de seus senhores, existiram também barbeiros instalados em lojas ou operários enquadrados nessa modalidade. (FAUSTO, 2000. p. 32)
Na relação de trabalho mencionada por Boris Fausto, o escravo se assemelha a um misto de trabalhador livre e escravo. Esse tipo de relação é retratada no romance em algumas passagens. A seguinte frase mostra escravos negociando com João Romão mercadorias roubadas como uma maneira conseguir dinheiro: [...] comprando por dez réis de mel coado o que os escravos furtavam da casa dos seus senhores [...] (AZEVEDO, 1954. p.16).
Entretanto, é na figura da escrava Bertoleza que se caracteriza melhor a presença do “escravo de ganho”. No início do romance ela comercializa alimentos, e com seus rendimentos pode pagar a seu senhor uma determinada quantia de dinheiro a fim de obter sua própria alforria. Tais relações não eram comuns em regimes escravagistas, pois permitem ao escravo uma dupla função: a de componente do meio de produção e a de mercador de sua própria força de trabalho. O trecho abaixo exemplifica nas ações de Bertoleza como escrava de ganho:
A comida arranjava-lhe, mediante quatrocentos réis por dia, uma quitandeira sua vizinha, a Bertoleza, crioula trintona, escrava de um velho cego residente em Juiz de Fora e amigada com um português que tinha uma carroça de mão e fazia fretes na cidade. Bertoleza também trabalhava forte; a sua quitanda era a mais bem afreguesada do bairro. De manhã vendia angu, e à noite peixe frito e iscas de fígado; pagava
de jornal a seu dono vinte mil-réis por mês, e, apesar disso, tinha de parte quase que o necessário para a alforria (AZEVEDO, 1954. p.11).
Em O Cortiço, Aluízio Azevedo mostra que a
substituição do trabalho escravo pelo trabalho livre se dá a partir de um processo histórico que cria condições para emergência do trabalho assalariado e, no romance, a figura do português João Romão é a transfiguração do processo de acumulação primitiva, condição fundamental
do desenvolvimento do modo capitalista de produção. Também é importante ressaltar que o trabalho livre é apresentado na obra como degradante, seja por meio dos trabalhadores da pedreira ou na figura da personagem Bertoleza, um misto entre o trabalhador livre e o escravo. Esse modo de apresentar as relações de trabalho se dá porque para existência e manutenção tanto do sistema escravagista quanto do capitalista é necessária a exploração do trabalho humano. Bertoleza, na condição de escrava de ganho, é símbolo da uma exploração realizada por ambos os sistemas e, por essa razão, ao se tornar ciente de que fora enganada e sempre esteve presa a um ciclo de dupla exploração escolhe a morte, descrita dramaticamente no fim do romance:
Num relance de grande perigo compreendeu a situação; adivinhou tudo com a lucidez de quem se vê perdido para sempre: adivinhou que tinha sido enganada; que a sua carta de alforria era uma mentira, e que o seu amante, não tendo coragem para matá-la, restituía-a ao cativeiro. Seu primeiro impulso foi de fugir. Mal, porém, circunvagou os olhos em torno de si, procurando escapula, o senhor adiantou-se dela e segurou-lhe o ombro.
- É esta! disse aos soldados que, com um gesto, intimaram a desgraçada a segui-los.
- Prendam-na! É escrava minha!
peixe, com uma das mãos espalmada no chão e com a outra segurando a faca de cozinha, olhou aterrada para eles, sem pestanejar. Os policiais, vendo que ela se não despachava, desembainharam os sabres. Bertoleza então, erguendo-se com ímpeto de anta bravia, recuou de um salto e, antes que alguém conseguisse alcançála, já de um só golpe certeiro e fundo rasgara o ventre de lado a lado. E depois embarcou para a frente, rugindo e esfocinhando moribunda numa lameira de sangue. João Romão fugira até ao canto mais escuro do armazém, tapando o rosto com as mãos. Nesse momento parava à porta da rua uma carruagem. Era uma comissão de abolicionistas que vinha, de casaca, trazer-lhe respeitosamente o diploma de sócio benemérito. Ele mandou que os conduzissem para a sala de visitas (AZEVEDO, 1954. p. 304).
Considerações Finais
As condições sociais e históricas apresentadas por Aluízio Azevedo em O Cortiço nos permitem
constatar que as relações de trabalho existentes na sociedade oitocentista, especialmente na carioca, foram o principal fator de influência das transformações do ambiente urbano, uma vez que estimularam o aumento do fluxo de trabalhadores, relações comerciais que causaram mudanças estruturais no ambiente físico. Também é possível constatar que o romance analisado é capaz de fornecer informações muito relevantes sobre o processo de desenvolvimento da divisão do trabalho na sociedade brasileira ao fim do século XIX, apresentada pelo autor como complexa e intensamente dividida, apresentando características daquilo que Durkheim chama de solidariedade orgânica. Por fim, Azevedo mostra em sua obra um período de transição das relações de trabalho no Brasil, do trabalho escravo para o trabalho livre assalariado, e, por isso, evidencia a exploração do trabalho humano tanto por parte do
aristocrata escravista quanto por parte do capitalista emergente empenhado em realizar o que Marx caracteriza como acumulação primitiva.
Referências bibliográficas
AZEVEDO, Aluízio. O cortiço. Rio de Janeiro:
F. Briguet & Cia - Editores, 1954.
DURKHEIM, Émile. Da divisão social do trabalho.
In: Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1973. FAUSTO, Boris. História concisa do Brasil.
São Paulo: EDUSP, 2000.
MARX, Karl. Formações Econômicas
Pré-Capitalistas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985.
MARX, Karl. O capital: crítica da economia –
Volume I. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008 __________. O capital: crítica da economia
– Volumes II e V. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,1974.