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Raios X : (estudo clinico)

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Academic year: 2021

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(1)

v^7

-Y-

A

RAIOS X

( E S T U D O C L I ^ T I O O ) DISSERTAÇÃO INAUGURAL A P R E S E N T A D A A X S C Ó L A M E » I C O - C I K U K G I C A DO P O R T O P O R

IttilZ Cândido Corrêa d'RBflflfiCHES

JULHO

S^/i nnt

~& >-g>-c MDCCCXCVU IJSdCPR.EiNS.A. C O M M E R C I A L 29—Rua da Conceição—37 POKTO

(2)

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(3)

ESCOLA MEEICO-CIRDE&ICA DO PORTO

CONSELHEIRO-DIRECTOR

DR. WENCESLAU DE SOUZA PEREIRA DE LIMA

SECRETARIO

RICARDO D'ALMEIDA JORGE

C O R P O D O C E N T E

PROFESSORES PROPRIETÁRIOS

1.* Cadeira—Anatomia descriptiva

o • n?* g­e r a l lii. ' ■ ; "• ­ ' • • J o ã o Pel'eira Dias Lebre, o­, Cadeira­Physiologia . . . . Antonio Placido da Costa.

<s." Cadeira—Historia natural dos medicamentos e materia me­

4 . r £ í 2 L ' r.' , ; , ' •• •_!­ • • Ulidio Ayres Pereira do Valle. 4.» Cadeira—Pathologia externa e

H . ^ L6^6™ ' ^ ? *1 6"1* : • • Antonio Joaquim de Moraes Caldas.

5.« Cadeira­Medicina operatória . Eduardo Pereira Pimenta. 6.» Cadeira­Partos, doenças das

mulheres de parto e dos re­

7 » r S ™/.* Cadeira—Pathologia interna e a Spa dt ° i f i" •• ? »' ' • Dr­Agostinho Antonio do Souto. o . terapêutica interna. . . . Antonio d'OliveiraMonteiro. a. Cadeira­Clinica medica . . . Antonio d'Azevedo Maia. i n . Cadeira­Chnica cirúrgica . . Cândido Augusto Correia de Pinho, lu." Cadeira—Anatomia pathologi­

n » pfaD')r„' TIV Â, •' 'i ' i V ­ • ' A ugu 8 t° Henrique d'Almeida Brandão.

11.* cadeira—Medicina legal, hygie­ ne privada e publica e toxico­

, » , v j w ï / _* / • ,■ Ricardo d'Almeida Jorge. 12." Cadeira­Pathologia geral se­

meiologia e historia medica . Maximiano A. d'Oliveira Lemos rnarmacia Muno Freire Dias Salgueiro.

PROFESSORES JUBILADOS

Secção medica. . . j J o s é d'Andrade Gramacho.

„„„„. . . ' ' ( Dr. José Carlos Lopes. Secção cirúrgica pedro Augusto Dias.

PROFESSORES SUBSTITUTOS

ão medica j J o ã o Lopes da Silva Martins Junior.

( Alberto Pereira Pinto d'Aguiar. Secção cirúrgica . . . . ! Roberto Belarmino do Rosário Frias.

' j Clemente Joaquim dos Santos Pinto. DEMONSTRADOR DE ANATOMIA

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(5)

A MEUS PAES

A vós, que me haveis criado com todo o bafo do vosso amor, consenti que a primeira pagina d'esté meu trabalho seja offerecido e n'este offerecimento empe-nho toda a sinceridade do

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A MEU IRMÃO

Os Irmãos dedicados são uma jóia tão preciosa, que bem raramente se encontra: Vós sempre o tendes sido e por isso eu orgulho-me de tão publicamente o declarar, tributando-vos aqui o meu amor e o meu reconheci-mento.

(7)

Á MEMORIA DE MEUS AVÓS

í MEMORIA DE MINHAS PRIMAS

Felismina A. C. d'Oliveira

E

Maria Henriqueta C. d'Oliveira

(8)

DR. JOAQUIM ARANTES PEREIRA

Eminente bacteriologista

e digníssimo director do «Instituto Pasteur do Porto»

Se são grandes os favo-res que V. Ex.* me tem dis-pensado, também será eter-no o meu reconhecimento.

0 vosso discípulo

(9)

A

k

Dans la plénitude du Donneur, chaque jour est une vie entière.

(10)

DE

RAYMUNDO COELHO DE SOUZA

A. M E M O R I A

DO MEU CONDISCÍPULO

Manoel Correia i'Ataeiia

SAUDADE

(11)

AO ILL."10 E EX,m0 SN II.

Bernarftino ie Senna Vasconcelos

A SUA EX.1"" ESPOSA

D. Maria ïAssmicao Ferreira ÏAlmeiia

E A SEUS E X .m o s FILHOS

Antonio Lopes d'Almeida Vasconcellos

E

Padre José Lopes dAlmeida Vasconcellos

AO MEU PARTICULAR AMIGO E CONDISCÍPULO

Casimiro Lopes dAlmeida \asc<nccllos

Um simples offerecimen-to do meu insignificante tra-balho não é muito para quem tanto vos deve, mas sirva elle ao menos, para vos mos-trar o apreço e a considera-ção em que vos tenho e fi-carei

(12)

contente-D. Maria Lnflovîna Je Souza Mello

GEATIDÃO

AO ILL.™ E EX.»10 SNR.

Antonio Ferreira da Cruz

A SUA E X .m a ESPOSA

D. Aurora Candida Ferreira da Cruz

E A SUAS E X .m a s FILHAS

D. Maria Emilia Ferreira da Cruz

D. Felisbela de Jesus Ferreira da Cruz

EESPEITO

A M E U S P R I M O S

Dr. Eduardo Corrêa d'Oliveira

Conselheiro Antonio Augusto Corrêa d'Oliveira

E

Frederico Corrêa d'Oliveira

(13)

AOS MEUS AMIGOS

AOS MEUS CONDISCÍPULOS

E EM ESPECIAL A

Joaquim da Silva Ramalho Albano Augusto d'Oliveira

Francisco Ferreira de Figueiredo Leitão Miguel Carlos Moreira

Abel Fernandes Baptista Vieira

Pedro Pereira da Silva Guimarães Junior Torquato Ernesto Leite Brochado Illydio Monteiro

Custodio Pinto João Ferreira Augusto Cardia Pires Cunha Pinto

Antonio Corrêa Alves Antonio Henriques Álvaro Martins

José Teixeira de Castro Guimarães

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DR. JOSÉ CARLOS LOPES

dislinclo lente jubilado da Escola Medica do Porto

Ser grato é o dever de todo o homem; eis. o que re-presenta esta pagina.

(15)

AOS MEUS AMIGOS Emygdio Corrêa d'Almeida Navarro Padre Manoel Joaquim Gomes Antonio Joaquim d'Almeida Esteves Arnaldo de Souza Dória

AO MEU ANTIGO CONDISCÍPULO

O I L L .m o K E X .m o SNR.

t Wmt glwpM0 um $má$$

AOS MEUS CONTEMPORÂNEOS

E EM ESPECIAL A

Eduardo d'Almeida Esteves Figueira Antonio Augusto Fernandes

Alberto José Baptista Antonio d'Almeida Trinta

José Augusto Monteiro de Souza Machado Augusto José Gezar Massa

Aurélio A. Rodrigues Seara Francisco José de Souza Eleuterio Santa Rita

Agostinho Simões d'Oliveira Gomes Lino José dos Santos

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(17)

DA

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H i s t o r i a

Século das luzes é o epitheto do século que

dentro em dois annos vae findar; melhor epi-theto não podia ter século em cujo cyclo se des-cobriram tantas luzes — a luz eléctrica, a luz da acetylena, etc.

E ao despedir-se de nós, este século tão scien-tifico e tão humanitaiio ainda quiz justificar o seu merecido epitheto, dando-nos a conhecer uma luz nova, que, abalando a optica, nos re-vela muito do invisível e nos leva a perceber o que está além dos corpos opacos, corpos que hoje perderam essa denominação.

E, ainda mal conhecida a descoberta dos raios Rõntgen, já as suas applicações são enormes: a medicina, a cirurgia, a hygiene e a industria já se apoderaram d'ella em proveito próprio.

Se é verdade que a descoberta do grande pro-fessor de Wiirzburg data de alguns mezes

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ape-24

nas não foi, porem, uma descoberta sem prece-dentes e feita de toute pièce.

Bastantes precursores teve Rõntgen, mas ne-nhum d'elles tão feliz como elle.

As primeiras tentativas operadas com o fim de obter imagens do invisivel datam de 1849.

Então Reichenbach tentou e conseguiu re-gistrar sobre placas de daguerreotypo os vestí-gios dos effluvios odicos, fluidos que, segundo o sábio austríaco, se desenvolvem de todos os seres vivos, compostos chimicos, alguns imans etc. e que individuos chamados sensitivos percebem directamente na obscuridade.

Cito as suas proprias palavras nas

Recher-ches physico-physiologiques (') a respeito das

suas experiências.

«Pour me convaincre moi-même, autant que possible, s'il s'agissait bien là d'une lumière ou d'une autre espèce d'apparence perçue par les sensitifs, je désirai faire une experience avec le daguerréotype et voir si une plaque d'argent iodée pourrait être impressionnée. M. Karl Schuh, professeur libre de physique à Vienne, bien connu par ses recherches sur le microscope à gaz et par son habilité en daguerreotypie, voulut bien me prêter son concours. Il mit dans une

(') Eeichenbach - Eecherches physico-physiologiques 1849, traducção de M. E. Lacoste, em «O. Fluido dos ma-gnetisadores» pelo tenente coronel de Eochas d'Aiglun. Paris 1891.

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chambre noire une plaque iodée, en face de la-quelle on plaça un aimant ouvert; au même temps, il disposait de même une autre plaque dans une autre chambre noire mais sans aimant. Après quelques heures, il reconnut que la première plaque, après qu'elle eût été traitée par les vapeurs mercurielles avait été affectée par la lumière, tandis que la seconde ne l'avait pas été; mais la difference entre les deux était peu mar-quée. Pour mieux voir l'effet, il prit l'aimant, l'appliqua sur une plaque iodée, en prenant les plus grandes précautions pour éviter la moindre trace de lumière pendant la manipulation à l a -quelle j'assistai; il plaça le tout dans une boite, que l'on glissa entre d'épais matelas et qu'on laissa là pendant soixante quatre heures. Repri-se dans l'obscurité et exposée à la vapeur mer-curielle, la plaque laissa voir le plein effet de la lumière qu'elle avait reçue sur toute sa surface. Il est donc évident, à moins que d'autres cau-ses ne soient capables d'affecter les plaques pho-tographiques après un temps considérable, qu'une lumière, faible il est vrai, et d'action lente, se dégage de l'aimant.»

Apesar dos esforços empregados não conse-guiu elle convencer os sábios do seu tempo e por conseguinte a sua doutrina não despertou inte-resse algum, ficou isolada no auctor e com elle morreu.

A sciencia moderna, orientada por dados theo-ricos mais precizos, tomou de novo o problema,

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que diz respeito á fixação das imagens inacees-siveis á nossa vista.

Foi o estudo do espectro solar que conduziu os physicos a uma descoberta preciosa, a da trans-parência de certos corpos opacos a irradiações particulares, susceptíveis de influenciar as subs-tancias chimicas da mesma maneira que a luz.

Explorando o espectro demonstraram que além da parte corada visível existiam outras re-giões que eram caloríficas, aquém do vermelho, e chimicas, além do violete.

M. M. Chardonnet et Soret estudando espe-cialmente a região ultra-violete reconheceram que se ella escapava á nossa vista era porque as irradiações que a compunham eram absorvidas pelos humores do olho, antes de chegarem á re-tina.

Em 1880 já Cornu notou que se pode obter effeitos de fluorescência atravez d'uma lamina de prata, deposta chimicamente, mas bastante es-pessa para deter os raios luminosos ordinários.

Pouco tempo depois, porém, M. Chardonnet observou também que uma lamina de prata, muito delgada, más bastante espessa para se op-pôr á passagem da luz, era perfeitamente per-meável aos raios ultra-violetes e que era portan-to possível obter uma phoportan-tographia atravez d'es-sa placa.

Esta experiência foi realisada por M. Char-donnet em 1886, epocha em que por conseguin-te foi obtida a primeira photographia atravez

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d'ura corpo opaco, conseguindo obter uma pho-tographia do arco eléctrico, fechando uma lan-terna de Dubosq, dentro da qual se encontrava o arco voltaico, por um obturador formado por uma delgada lamina de crown-glass prateado n'uma das faces; e uma reproducção á luz solar d'uma estatua de mármore de Carrara, atravez do mesmo obturador prateado, com um tempo de pose de 15 minutos.

Como se vê os raios ultra-violetes compor-tam-se, n'este ponto, como os raios descobertos pelo professor Rõntgen.

Querendo ser o mais completo possivel na historia da photographia do invisível, antes de Rõntgen, devo citar as experiências do Dr. Bou-det, de Paris, e de M. Tommasi, também em '1886, que lhe mostraram que o effluvio eléctrico (descarga obscura) permittia photographar sem o auxilio da luz. Tommasi collocava uma placa sensivel perpendicularmente a duas escovas me-tallicas que communicavam respectivamente com os dois pólos de uma machina de Holtz; com al-guns minutos de exposição elle obtinha uma imagem. Ultimamente M. G. Moreau (3 de feve-reiro de- '1896) conseguiu obter uma imagem de

uma chave de aço, de uma roda de alumínio, etc., n'uma placa sensivel encerrada em uma caixa de cartão, collocada parallelamente á

ai-grette de uma bobina de Rhumkorff, obtida

en-tre uma ponta ligada ao polo positivo e um pe-queno plateau ligado ao polo negativo; não

(23)

con-28

seguindo obter, porém, imagem alguma, quando a placa estava collocada perpendicularmente.

Ainda devo mencionar a experiência do pro-fessor de Praga, Ch. V. Zenger em 17 de Agos-to de 1893 em Génova, que conseguiu á meia noite tirar uma photographia do Monte Branco, que elle via illuminado por uma luz amarello-esverdeada semelhante á côr que mostram os tubos de Crookes. 0 professor Zenger serviu-se para esta experiência de uma placa feita com collodio fluorescente, corado com chlorophylla; posteriormente obteve melhores resultados com placas orthochromaticas.

Hertz estudando os raios cathodicos demons-trou que estes raios tinham a particularidade de impressionar as placas photographicas exacta-mente do mesmo modo que os raios ultra-viole-letes do espectro e que alem d'isso, á semelhan-ça d'estes, tornavam phosphorescentes certas substancias taes como ao platino-cyaneto de ba-ryo e atravessam varias folhas de metal perfei-tamente opacas para a luz ordinária. Posto que, Ebert, Jaumann, Wiedeman, observassem que a faísca eléctrica produzida em tubos em que se havia feito o vacuo emittia irradiações susce-ptíveis de tornar phosphorescentes, a tempe-raturas muito baixas, um grande numero de substancias, é a Lenard, comtudo, discipulo e preparador de Hertz que cabe a honra de ser o primeiro que, com o auxilio dos raios ca-thodicos, obteve por meio do tubo de Crookes

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e atravez de corpos opacos imagens photo-graphias. M. Lenard, seguindo os conselhos de Hertz, tentando fazer sair para a atmosphera os raios cathodicos desenvolvidos dentro do tu-bo fez o seguinte: construiu um tutu-bo de Cro-okes munido n'uma das suas extremidades de um diaphragma de alumínio tendo de espessura três millesimas de millimetre que, apezar da sua pequena espessura, era entretanto opaco, evi-tando assim a passagem da luz ordinária, e re-sistindo também á pressão atmospherica. Produ-zindo no interior d'esté apparelho raios cathodi-cos de grande intensidade e dirigindo-os sobre a placa d'aluminio, Lenard observou que elles atravessavam a placa d'aluminio e que se difun-diam na atmosphera, aqui reconhecidos pela ap-proximação de substancias phosphorescentes, as quaes se tornavam extremamente brilhantes; e pelo ennegrecimento rápido de placas photo-graphicas collocadas em frente da placa d'alu-minio.

A hypothèse de Crookes sobre a materia

ir-radiante foi o ponto da partida natural que

con-duziu o professor Rõntgen á sua magica e ma-ravilhosa descoberta.

Foi o acaso o guia de Rõntgen na desco-berta dos seus raios, acaso que porém nada ti-ra ao valor da obti-ra do gti-rande physico bavaro pois que é quazi sempre assim que os grandes bemfeitores da humanidade têm descoberto uma verdade scientifica nova. Desprevenidos, elles

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30

encontraram por um feliz acaso essa verdade nova, apoderaram-se d'ella, reviram-n'a, final-mente fizeram-na passar pela fieira do sen muito saber e eis assim lançado na sciencia mais um facto e talvez mesmo uma theoria. Arago o gran-de não disse que em toda a gran-descoberta scientifi-ca a parte do leão pertence ao imprevisto?

E a prova do valor da descoberta dos raios X está no enthusiasmo que ella despertou no mundo profano — as primeiras noticias que nos chega-ram da descoberta viechega-ram por intermédio dos jornaes políticos que logo começaram a dar no-ticias minuciosas das experiências de Rõntgen e das que se repetiam nos diversos paizes.

Foi em fim de Dezembro de 1895 que o pro-fessor Rõntgen fez a sua communicação á Socie-dade physimedica de Wúrtzburg e já em co-meços de Janeiro de 1896 os jornaes políticos (antes que os jornaes scientiíícos) faltavam e re-latavam as experiências.

Repetindo Rõutgen as experiências de Cro-okes, Hertz e Lenard sobre os raios cathodicos, foi que o sábio physico conseguiu conhecer os seus raios. Eis como foi disposta a sua expe-riência.

Tomou um tubo de Hittorf, envolveu-o em papel negro; depois em face do tubo coberto, a 0,m20, a um metro, a dois metros,

collo-cou successivamente uns écrans cobertos com uma camada de plantino-cyaneto de baryo. Ora estes diaphragmas tornaram-se brilhantes,

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phos-phorescentes, portanto certos raios atravessam o papel negro, assim como a luz atravessa uma vi-draça. Continuando a sua experiência, já então dirigida em outro sentido, Rõntgen viu que o

écran phosphorescente se illuminava mesmo

atravez de vários baralhos de cartas, um grande diccionario de 1000 paginas, blocos de madeira de 0,m02 a 0,m03 de espessura, placas de

alumí-nio de 0,m015 e placas de ebonite de vários

cen-tímetros de espessura.

Se mesmo a mão é collocada deante do

écran phosphorescente a sombra dos ossos

projecta-se em negro sobre elle. Estes raios extraordinários que atravessam tão completa-mente os corpos opacos derivam bem dos raios cathodicos, mas evidentemente não são os raios cathodicos ordinários.

Rõntgen, para abreviar a sua designação,—é a razão que elle apresenta na sua memoria—cha-mou-lhes raios X.

Logo depois Rõntgen começou a estudar as propriedades dos raios X e é-nos agradável ac-companhal-o na sua memoria sobre os pontos mais essenciaes :

Primeiro elle viu que a densidade é um fa-ctor importante da opacidade dos corpos, mas não é o único: «Prova-se isto empregando como

écrans laminas de egual espessura de spatho de

Islândia, de vidro, d'aluminio e de quartzo. O spatho d'Islandia mostra-se muito mais

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transpa-32

rente que os outros corpos bem que elle tenha a mesma densidade, approximativamente.

« Augmentando­se a espessura, augmenta­se a resistência offerecida aos raios por todos os c o r p o s . . .

«Bocados de platina, chumbo, zinco e alu­ mínio em folhas foram preparados de modo a obter o mesmo enfraquecimento do effeito. 0 quadro junto dá as espessuras relativas e as den­ sidades de folhas de metal equivalentes :

Espessura Espessura Densidade ■""» relativa

P l a t i n a . . 0,018 1 21,5 Chumbo. 0,050 3 11,3 Z i n c o . . . . 0,100 6 7,1 Alumínio 3,500 200 2,6

« Resulta d'estes valores que a opacidade não é proporcional ao producto da densidade pela espessura d'um corpo. A transparência augmenta muito mais rapidamente do que o producto não decresce.»

Rõntgen procurou, sem o conseguir, demons­ trar uma acção calorífica dos raios X; com cer­ teza esta acção existe visto que estamos em pre­ sença de uma forma de energia, susceptivel de transformação ; o que, porém, pode dar­se é que a energia dos raios seja muito fraca.

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Rõntgen pensa que a causa está na insensibili-dade da retina, mas hoje parece provado que ainda que a retina fosse sensivel a estes raios el-les ficariam invisíveis porque os meios do olho é que são opacos aos raios X.

A propriedade mais notável que Rõntgen descobriu nos raios X é a sua propagação de tal modo rectilínea que elle não chegou a encontrar desvio algum na passagem atravez d'um prisma, nem mesmo de uma columna de sal gemma, de zinco ou de prata pulverisados (*). Pareceu-lhe possível que a disposição geométrica das molé-culas modificasse a acção que exerce um corpo sobre os raios X; se assim fosse o spatho d'Is-landia, por exemplo, poderia apresentar pheno-menos différentes, segundo a orientação da irra-diação em relação ao eixo de crystal. Expe-riências feitas com o quartzo e o spatho d'Islan-dia não deram resultado algum.

O ponto de emissão dos raios Rõntgen é se-gundo o seu descobridor o ponto do tubo em que os raios cathodicos tocam o vidro; a partir d'esté ponto, a intensidade do seu effeito

dimi-í1) Kood diz que chegou a determinar uma reflexão

dos raios X recebendo-os sobre uma folha de platina a 45.» e mantendo a ampola em actividade durante dez ho-ras. A relação entre a acção directa e a acção reflecta, seria segundo es cálculos de Georges Brunnel somente

d e WÃM'

(29)

34

nue era razão do quadrado da distancia, a absor-pção pelo ar sendo tão fraca que pode ser des-prezada pelo menos em primeira approximação.

De mais, desloca-se a origem dos raios X, actuando com o auxilio de um iman sobre os raios cathodicos, de modo a dirigil-os a um ou-tro lugar do tubo.

Ròntgen pensa também que os novos raios sejam idênticos aos que emanam do cathodo, mas différera d'elles por varias propriedades im-portantes, principalmente pela acção do iman.

«O desvio dos raios cathodicos pelo iman é uma das suas características especiaes; Hertz e Lenard observaram que existe varias espécies de raios cathodicos, que différera pela sua proprie-dade de excitar a phosphorescencia, pela sua fa-cilidade de absorpção e pelo seu grau de desvio pelo iman; mas observou-se um desvio notável em todos os casos estudados e eu penso que este desvio constitue um caracter que não se pode desprezar facilmente.»

Rõntgen viu depois que algumas substan-cias se illuminam sob a acção dos raios X e es-tudou a sua acção photographica.

«Eu confirmei d'esté modo muitas observa-ções feitas primeiro examinando o écran fluores-cente. E' aqui que a propriedade apresentada pelos raios X de passar atravez da madeira ou do cartão se torna util. A placa photographica pôde ser exposta á sua acção sem que se tenha de levantar a cobertura do chassis ou a caixa

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protectora, de modo que a operação não tem ne-cessidade de ser feita no escuro. E' claro que as placas que não estão em experiência não devem ser deixadas na caixa na visinhança do tubo.

«Resta saber se a impressão sobre a placa é um effeito directo dos raios X ou um resultado devido á fluorescência da materia da placa. Pel-liculas podem ser impressionadas tão bem como placas seccas ordinárias.»

_ Eis o que nos disse Rõntgen sobre os seus raios, que immediatamente foram aproveitados não só pelos physicos. tentando, com elles e o seu estudo, buscar fundamento para as novas theorias da optica e da electricidade expendidas por Maxwell; mas também pelos práticos (medi-cos, cirurgiões, hygieuistas industriaes, etc., etc.) procurando tirar proveito das suas applica-ções.

Innumeros são os auctores que tem ligado o seu nome, em tão poucos mezes, aos raios Rõntgen, mas para não nos repetirmos reserva-mos para os capítulos seguintes (sobre a nature-za e applicações dos raios X) citar os trabalhos posteriores a Rõntgen, mesmo porque é justo fechar com chave de oiro este capitulo—e essa chave não pode ser senão a citação que já fize-mos do trabalho do sábio physico bavaro.

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X>uas p a l a v r a s a c e r c a d a n a t u r e z a e o r i g e m d o s r a i o s X

«0 que são pois estes raios? Pois que não são raios cathodicos, poder-se-hia suppor, pela sua faculdade de produzir a fluorescência e a acção chimica, que elles são devidos á luz ultra-violete. Um conjuncto imponente de provas está em contradicção com esta hypothèse: Esta luz nova possue, com effeito, as propriedades se-guintes:

<ia) Não se réfracta passando do ar á agua, ao

sulfureto de carbono, ao alumínio, ao sal gem-ma, ao vidro ou ao zinco.

«b) Não se pode reflectir regularmente á

su-perficie dos mesmos corpos.

«c) Não é polarisada por nenhum dos meios

polarisantes ordinários.

«d) E' absorvida pelos différentes corpos,

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«Isto leva-nos a dizer que os novos raios de-vera comportar-se de outro modo différente que os raios visiveis ou infra-vermelhos e os raios ultra-violetes já conhecidos. Isto parece bastan-te inverosímil para que eu bastan-tenha procurado fa-zer uma outra hypothèse.

«Parece haver uma espécie de relação entre os novos raios e os raios luminosos; pelo menos a producçâo de sombras, de fluorescência e de acções chimicas parece indical-o. Ora, sabe-se desde muito tempo que alem das vibrações que produzem phenomenos luminosos, é possível que vibrações longitudinaes se produzam no ether; certos physicos pensam mesmo que estas vibra-ções devem existir. Comtudo deve-se convir que a sua existência nunca foi posta em evidencia e que as suas propriedades não foram estabeleci-das pela experiência.

«Estes novos raios não deveriam ser attribui-dos a ondas longitudinaes do ether?

«Eu devo declarar que & medida que conti-nuava estas pesquizas, eu me acostumava mais e mais a esta ideia e permitto-me ennuncial-a, ' sem me dissimular que a hypothèse exige ser

es-tabelecida mais solidamente» (l).

Transcrevemos estas palavras por serem de Rõntgen; façamos agora um pequeno estudo dos

(i) Kevue général des sciences pures et appliquées, 1896 n.° 2 pag. 63.

(33)

39

raios cathodicos para então proficuamente ava-liarmos a natureza dos raios X e suas proprie-dades.

As primeiras pesquizas systematica^ sobre os phenomenos que acompanham a passagem da electricidade atravez de um gaz 30b fraca pres-são pres-são devidas a Faraday (*). Estas experiên-cias de Faraday são hoje repetidas nos cursos de physica com o apparelho productor do ovo

eléctrico onde á proporção que a pressão baixa

as faíscas eléctricas diminuem de brilho augmen-tando, porém, em frequência.

Pouco a pouco, ellas se transformam em

ai-grettes d'apparencia continua, (o ovo eléctrico)

que também vão desapparecendo com o vacuo crescente até darem lugar a simples clarões cer-cando os dois pólos.

Abria em 1843 operando esta experiência em tubos cylindricos viu que o clarão que se produ-zia n'estes tubos era dividido em estratos equi-distantes. Geissler em 1861 observou que uma descarga n'um tubo, em que o vasio era relati-vamente considerável, produzia effeitos lumi-nosos e para isso mandou construir um tubo de vidro de trinta centímetros de comprido, fechado nas extremidades, as quaes, porém, eram atra-vessadas por fios de platina. Construindo estes tubos com vidro de variadas cores obtinham-se

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colorações e phosphorescencias d'um effeito sur-prehendente.

Annos depois (1879) Crookes produzindo n'es-tes tubos um vasio muito mais elevado (a pressão era reduzida a algumas millesimas de atmosphera) observou que a descarga eléctrica dentro d'estes tubos produzia effeitos completa-mente différentes dos que tinham sido observa-dos por Geissler. Em vez da fluorescência que, no tubo de Geissler, illumina o apparelho intei-ro, á volta do fio ligado ao polo negativo cons-tata-se um espaço quasi escuro, e a região opposta do vidro manifesta effeitos notáveis de phosphorescencia. N'este espaço escuro en-tretanto existem raios capazes de impressio-nar uma substancia photographica, de torimpressio-nar luminosos certos corpos phosphorescentes (vi-dro, rubi, diamante etc.), de produzir effeitos caloríficos e mecânicos—são os raios cathodicos. Crookes notou mais: que collocando deante do cathodo uma cruz d'aluminio via a sombra d'ella projectar-se sobre o fundo brilhante do tubo; que se entre os dois eléctrodos collocava uma roda, ao passar a descarga esta punha-se em mo-vimento; que se a roda fosse substituída por

uma lamina metallica inclinada dava esta ori-gem, a um som perceptível quando o tubo era percorrido pela descarga. Estes raios são desvia-dos pelo iman e produzem calor quando detidesvia-dos no seu movimento.

(35)

hy-41

pothese seguinte: que a materia contida dentro do tubo, onde o vasio é muito grande, era pro-jectada violentamente do eléctrodo Degativo para o eléctrodo positivo, produzindo-se assim uma espécie de bombardeamento.

Foi d'esté facto que nasceu em Inglaterra a theoria da materia irradiante, e a hypothèse d'um quarto estado dos corpos : solido, liquido, gazoso e irradiante.

Dizia-nos o celebre mathematico inglez: Se se considera um gaz sobre a pressão ordinária, sabe-se que elle é formado por um numero enor-me de moléculas accumuladas umas perto das outras e movendo-se livremente. Entretanto, em razão da immensa quantidade d'estes elementos primordiaes constitutivos dos gazes, os limites do percurso que uma molécula pôde fazer sem vir chocar-se contra uma outra molécula visinha são fatalmente extremamente reduzidos. Mas n'um meio rarefeito como o de seus tubos, o fa-cto já não é o mesmo; aqui, com effeito, o nu-mero das moléculas tendo diminuido emquanto que o volume do recipiente ficou constante, o comprimento medio do percurso livre de cada uma d'ellas cresceu proporcionalmente e por tanto o numero das collisões que tem lugar em um dado tempo tornou-se por assim dizer des-prezável e então as moléculas podem seguir sem obstáculos os seus movimentos ou as suas leis proprias. N'este estado a materia apresehta-se

(36)

sob um quarto estado que Crookes chama

esta-do irradiante, o qual é tão ajfastaesta-do esta-do estaesta-do gasoso como este o é do estado liquido.

Esta materia irradiante apresenta evidente-mente propriedades características. Assim, sob a acção da descarga eléctrica, as moléculas que a compõem podem animar-se de movimentos muitíssimos rápidos de repulsão e de attracção dando então lugar a verdadeiros

bombardea-mentos moleculares, que se nos revelam por

phe-nomenos luminosos, affectando formas diversas: bandas luminosas, aureolas, estratificações co-radas, etc., e por phenomenos mechanicos.

Devo dizer que Crookes teve um antecessor nos seus trabalhos. Hittorf, que porém não con-seguiu dar-lhes alma, razão porque na sciencia estas experiências são conhecidas pelo nome do primeiro.

Apezar, porém, do engenho das demonstra-ções de Crookes os sábios não adoptaram sem discussão as ideias do physico inglez.

Goldstein, Hertz, Wideman, Ebert, Jaumann e outros sábios instituíram também por seu lado experiências que abriram brecha na theoria ci-nética do quarto estado da materia.

Foi uma verdadeira lucta a que então se tra-vou entre os sábios inglezes e os sábios allemães e que terminou com a victoria d'estes pelos me-moráveis trabalhos do sábio húngaro Lenard, a quem o próprio Rõntgen, honra lhe seja, com

(37)

43.

uma elevada probidade scientifica, ao dar conta das circumstancias da sua descoberta, declarou como o seu verdadeiro percursor.

Finalmente a experiencia.de Lenard, que já descrevemos com minuciosidade no capitulo an-tecedente (pag. 29), trazendo os raios cathodicos

para fora do tubo em que foram produzidos, veio mostrar sem replica possível a inanidade da theoria do bombardeamento molecular ele-va-nos a admittir estes raios como verdadeiros raios luminosos originados pelas vibrações do ether.

Logo depois se reconheceu que os raios ca-thodicos, invisíveis por si próprios, provocam, como já vimos a phosphorescencia de alguns corpos—o platinocyaneto de baryo, o pentade-cylparatolylacetona, uma mistura de sulfureto de baryo ou de cálcio com o oxydo de antimo-nio (Batelli e Garbano), o tungstato de cálcio cristallisado (Edison) e sobretudo o platinocya-neto de potássio, que, segundo Silvanus Thom-pson, seria em egualdade de circumstancias dez vezes mais fluorescente que qualquer outra sub-stancia. Também se viu que estes raios impres-sionam as placas photographicas ; que o seu mo-do de propagação, pelo menos na atmosphera, não era rectilíneo ; que elles eram incapazes de penetrar os corpos opacos, mas deviam contor-nal-os ; que eram desviados pelo iman não só no ar mas também nos tubos de Crookes; que não eram sempre da mesma natureza e que,

(38)

segun-do o seu estasegun-do, eram mais ou menos influen-ciados pelas acções magnéticas e apresentavam capacidades de phosphorescencia particulares. Ulteriormente J. Perrin mostrou ainda que os raios cathodicos eram sempre electrisados nega-tivamente.

Eis os raios cathodicos com as suas proprie-dades, que balanceadas com as dos raios X nol-os mostram bem différentes.

Qual é, portanto, a natureza dos raios pro-duzidos no tubo de Crookes concorrentemente com os raios cathodicos?

Rõntgen, como já vimos (pag. 38), diz-nos que os seus raios são devidos a vibrações longi-tudinaes do ether, vibrações já admittidas ante-riormente por Jaumann e lord Kelvin.

Poincaré, (*) diz-nos que os raios Rõntgen são «um agente novo, tão novo como o era a ele-ctricidade no tempo de Gilbert, o galvanismo no tempo de Volta».

Na Inglaterra onde a' theoria de Crookes ain-da conta partidários, enunciou-se a opinião de que os raios X são devidos ao movimento das moléculas materiaes.

São ainda as theorias de Tesla em acção e por isso iremos mesmo citar as palavras do

au-(>) Kevue générale des sciences pures et appliquées 1896 n.° 2 pag. 56.

(39)

45

etor no Scientific American ('): «E' pouco du-vidoso, hoje, que uma corrente cathodica n'um tubo seja composta de pequenas partículas de materia lançadas do eléctrodo com uma grande velocidade. A velocidade provável realizada jus-tifica plenamente os effeitos mechanicos e calo-ríficos produzidos pelo feixe contra a parede do tubo ou do obstáculo que encontra. Alem d'isso é reconhecido que as porções de materia proje-ctadas actuam como corpos não elásticos, innu-meraveis balas infinitessimaes. Pode-se mostrar que a velocidade da corrente pode attingir 100 kilometros por segundo e mesmo mais. A mate-ria movendo-se com uma tal velocidade deve se-guramente penetrar a uma grande profundidade nos obstáculos que ella encontra, se as leis da mechanica são applicaveis á corrente cathodica. «A materia que compõem a corrente catho-dica é reduzida a uma força primaria até aqui ainda desconhecida, porque taes velocidades e choques tão violentos nunca foram provavelmen-te estudados nem mesmo realisados anprovavelmen-tes que estas manifestações extraordinárias tivessem sido observadas. O ponto importante assignalado pri-meiro por Ròntgen e confirmado pelas pesqui-zas subsequentes, a saber: que um corpo é tanto mais opaco aos raios quanto mais denso elle é,

(*) Traducção feita por Jougla em La Vie

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não saberia explicar-se d'uma maneira mais sa-tisfactoria que pela theoria considerando estes raios como correntes de materia... Uma prova decisiva da existência de correntes materiaes é fornecida pela formação de sombras no espaço a uma certa distancia do tubo. Estas sombras não poderiam ser fornecidas nas condições descriptas senão por corrente materia».

Esta hypothèse de Tesla q, ousada e temerá-ria, jamais quando a theoria do bombardeamen-to molecular applicada aos raios cathodicos está muito escancellada.

Muitos sábios querem que os raios X sejam simplesmente produzidos pelas vibrações trans-versaes do ether, vibrações extremamente cur-tas e então seriam raios luminosos ultra-violetes. Esta ultima opinião tem o appoio de' Charles Henry, (l) distincto chefe de conferencias na

Sorbonne.

Para Henri Dufour, (2) professor de physica

na Universidade de Lausanne, os raios X teriam uma origem eléctrica: «as irradiações actinicas que emanam da superficie dos tubos de Crookes, diz elle, parecem ter uma oiúgem eléctrica; el-las constituem um phenomeno análogo ao efflu-(') Sur les rayons Bontgen. Compte-rendus de l'Aca-démie des Sciences, pag. 787, 1896.

(2) Observations sur la formation des rayons

Eon-tgen. Eevue générale des sciences pures et appliquées n.° 4, pag. 193.

(41)

47

vio eléctrico e actuam como taes sobre as placas sensíveis».

Zenger, muito mais radical ainda, affirma que os raios Rõntgen não existem e que as pho-tographias apresentadas e feitas segundo a indi-cação do sábio professor de Wúrtzburg eram simplesmente devidas a «um phenomeno d'in-ducção eléctrica produzindo a phosphorescencia da gelatina e ao mesmo tempo a descarga elé-ctrica na mesma gelatina (das placas sensíveis) ; emfim a fluorescência do ar ambiente, como no caso da descarga em aigrettes (descarga escura) da electricidade. Na minha opinião são estes trez agentes que determinam a decomposição dos saes de prata na camada sensível ; não ha irradiação especial, raios X ou luz negra (*).» Esta opinião tem a sèu favor os trabalhos de Donato Tomasi de que já fallei a pag. 27.

Eis relatadas as opiniões reinantes na sciencia sobre a natureza dos raios X e por esta exposição vemos claramente que a materia não passou ain-da em julgado.

Alguma coisa mais, porém, já se sabe sobre a origem dos raios de que me occupo.

Já conhecemos qual a opinião do prof. Rõn-tgen e que circunstanciadamente referi no ca-pitulo antecedente a paginas 33.

(') Sur la production des silhouettes de Rõntgen, Compte-rendus de l'Académie des Sciences, 1896, n.° 8— 456.

(42)

Mas esta opinião é contestada e começarei por citar a opinião de Heen de Liege, que nos diz que os raios X «emanariam do ânodo, quer dizer do polo positivo do tubo.

Para o demonstrar basta collocar entre o tu-bo de Crookes e a placa sensível um écran de chumbo atravessado por algumas aberturas per-mittindo a passagem dos feixes de raios.

A direcção d'estes sobre a placa indica que elles emanam do polo positivo e não do polo negativo—são, pois, raios anódicos» (')

Girard, director do laboratório municipal de Paris e F. Bordas affirmam que estes raios ema-nam, simultaneamente, do ânodo e do cathodo.

Para proval-o alojaram um tubo de Crookes no interior de uma caixa rectangular de madei-ra, inteiramente coberta de chumbo, e munida em cada uma das paredes e na parte media de um orifício circular de dois centimetros de diâmetro. Depois servindo-se de placas sensíveis collo-cadas em face d'estes buracos viram estes dois illustres experimentadores que «os clichés for-necidos pelas partes lateraes do tubo de Crookes representavam a imagem do tubo com duas zo-nas circulares, correspondendo ao ânodo e ao ca-thodo» ; substituindo o diaphragma circular por outro estrellado «obtiveram sobre a placa uma

(') Carta dirigida em 13 de Fevereiro de 1896, ao Se-cretario perpetuo da Academia de Sciencias de Paris.

(43)

49

imagem dupla da estrella»; se se intercepta por meio de uma lamina de chumbo, no inte-rior da caixa «os raios emanando, quer do âno-do, quer do cathoâno-do, obtem-se um só circulo sobre o cliché.» (x)

Ainda assim Jean Perrin ('), o princepe B. Ga-litzine e A. de Karnojitzky (3) não se

considera-ram convencidos e tentaconsidera-ram novas experiências que os levaram a admittir a opinião de Rõntgen.

Na verdade Perrin conseguiu verificar que os raios X se desenvolvem effectivamente sobre as paredes interiores do tubo, «mais geralmente nos pontos em que um obstáculo qualquer de-tém os raios cathodicos e não em outros pon-tos».

Se os raios cathodicos vêm a ferir o ânodo— como succède em alguns tubos de Crookes— pro-duz-se n'este lugar um ponto de partida para os raios X, ponto perfeitamente accidental e

devi-(') Ch, G-irard e F. Bordas-Sur les rayons de M. Eõntgen—Comptes rendus hebdomadaires des Séances de l'Académie des Sciences—séance du 9 Março 1896-pag. 605.

(2) Jean Perrin-Origine des rayons de Eõntgen.

Comptes-rendus hebdomadaires des Séances de l'Acadé-mie de Sciencies-Séance du 23 Março 1896-pag. 716.

Í3) Prince B. Calitzine e A. de

Karnojitzky-Becher-ches concernant les propriétés des rayons X—Comptes-rendus hebdomadaires des Séances de TAcadémie des Sciences-Séance du 23 Março 1896 p. 718.

(44)

do unicamente ao ânodo ter servido de écran Sobre o qual vieram cahir os raios cathodicos. Ainda assim esta pluralidade de opiniões mostra que o assumpto necessita ser batido para então trazer a convicção a todos.

Se mais ou menos conhecemos a natureza e o ponto da emissão dos raios X, passemos agora ao estudo da sua technica.

(45)

Ill

T e c h u i c a d o s r a i o s X

Não ha technica que era tão pouco tempo te-nha feito tantas e tão radicaes modificações co-mo a dos raios Rõntgeu e para provar esta mi-nha affirmação basta lembrar que o tempo de pose, que ao começo era de 30 minutos e mais, hoje acha-se reduzido a 2 ou 3. Hoje, o exame dos ossos da mão, braços, etc., passa por um brinquedo de crianças, e a nova technica dirige-se antes ao diagnostico de lesões visceraes.

Mas, vejamos qual é a technica que se deve adoptar para applicar tão mysteriosos raios á

medicina. Para isso dividirei o assumpto em

va-rios sub-capitulos:

I Fonte de electricidade. II Bobina de inducção. III Tubo de Crookes. IV Accessorios.

V Parte photographica. VI Radioscopia.

(46)

l—FONTE DE ELECTRICIDADE

A fonte de electricidade deve fornecer uma corrente continua, constante e sempre no mesmo sentido; esta corrente póde-nos ser fornecida por:

a) Pilhas primarias. b) Accumuladores.

c) Uma machina eléctrica.

d) Uma distribuição de corrente continua

for-necida por uma fabrica central.

a) Pilhas primarias

Para o nosso fim—excitar uma forte bobina de Rhumkorff—convém empregar pilhas de alta intensidade, de uma grande constância e que pos-sam funccionar durante um certo tempo sem ne-cessitar de renovar os líquidos. As pilhas deBun-zen e as de bichromato de potassa são as que melhor preenchem estas condições, devendo-se, porém, preferir sempre a de bichromato, não só por desenvolver uma tensão de perto de 2 volts, mas também pela inocuidade relativa dos pro-ductos chimicos que consome e sobretudo por-que não desenvolve emanação alguma

(47)

desagra-53

davel ou nociva. Existindo vários modelos (Tes-tas pilhas, nós devemos adoptar aquelle em que a resistência interna é menor e cujo funcciona-mento é mais fácil (que se esvazia e carrega mais rapidamente).

A pilha deve fornecer 10 amperes sob o volts, ou uma potencia de 50 watts. Se quizermos que a experiência dure vinte horas, sem que a pilha seja carregada de novo, deverá esta mostrar uma energia de 1000 watts-hora, isto é, 50 watts multiplicado por vinte horas. Sabendo nós que a pilha de bichromato de potassa dá, por kilo de bichromato consumido, approxima dam ente 300 amperes-horas, ou seja, sob pressão de 2 volts (força electro-motriz do elemento), 300x2=600 watts-hora; logo a quantidade de bichromato que devemos empregar é-nos dada n'este caso pela formula SÍTT, approximadamente 2 kilos.

Ora, como cada elemento de pilha gasta 200 grammas, nós deveremos empregar, portanto, 10 elementos para gastar os 2 kilos de bichromato de potassa com o fim de obtermos o effeito de-sejado.

Apurado o numero de elementos necessários, vejamos agora qual será o agrupamento que devemos preferir. O que produzir corrente de maior intensidade e a este requesito satisfaz aquelle em que a resistência interna da pilha é egual á resistência externa.

(48)

Designando a resistência interna de cada ele-mento por r—0,2 ohm, a equação de Ohm

tE=l/B-f--r\ com t q = 1 0 = n (I ) nos indicará qual o agrupamento a empregar.

Como a resistência interna é egual á resistên-cia externa, logo:

- r = B = 0 , 5 ohm (resistência do inductor) d'onde tiramos tr=Bq.

Estas ultimas equações dão-nos: t r = B - ou t2= n ~ d'onde t = \ / n

-t r V r Substituindo os respectivos valores, temos:

Uzando agora a formula (1) e substituindo os valores conhecidos vemos que

10 0

(49)

55

em 2 series de 5 elementos é o que melhor nos convém pois que nos dá uma corrente de

I = -t E

B+-r

q

' —10 amperes " 0 , 5 + | x 0 , 2 0'5X ° '5

Portanto 10 elementos de 0,2 ohms seriam suf-ficientes, mas entre a pilha e a bobina nós de-vemos empregar varias resistências (instrumen-tos de medida necessários e um rheostato desti-nado a manter a intensidade da corrente); de-mais é ouzado contar com a potencia maxima de uma pilha, pois que esta potencia pode baixar rapidamente algumas vezes e assim compromet-ter o resultado de uma experiência, logo deve-mos munir-nos de alguns elementos mais.

N'estas circumstancias é prudente adquirir 10 elementos de 0,2 ohm e agrupal-os em 2 series de 8 elementos cada um. A differença de poten-cial, nos bornes extremos da pilha será pouco mais ou menos 1 0 x R = 1 0 „ 0,2=8 volts e a po-tencia fornecida 80 watts.

Devemos fazer notar que o interruptor perió-dico, na sua marcha, augmenta muito a resistên-cia do circuito inductor.

(50)

b) Accumuladores

Os accumuladores ou pilhas secundarias são verdadeiros voltametros, que têm os eléctrodos formados por duas placas de chumbo de grande superficie, as quaes mergulham, muito perto uma da outra, n'uma solução de acido sulfúrico izento de arsénico.

Carregam-se os accumuladores por meio de uma corrente primaria de qualquer origem que, decompondo a agua, oxyda a lamina positiva e reduz a lamina negativa. Assim dá origem a uma força contraria electro-motriz de polarisação dos eléctrodos, que fornecerá logo depois, n'um circuito de utilisação uma corrente de descarga (secundaria) que é de sentido contrario ao da cor-rente de carga (primaria). A descarga reconduz as placas ao estado primitivo em que ellas po-dem receber uma nova carga, após o esgota-mento.

Comportam-se assim como reservatórios de electricidade que a accumulant em grande quan-tidade para ser usada a propósito.

O emprego dos accumuladores na producção de raios X é, pois, absolutamente comparável ao das pilhas.

Todas as espécies de correntes de accumula-dores podem servir, mas devem-se runir 5 ou 6 e agrupal-os em tensão pelo mesmo motivo que já expuz para as pilhas.

(51)

57

c) Machina eléctrica

As machinas electro-estaticas sâo as que mais vulgarmente são empregadas. 0 seu uso

dis-pensa a bobina; ellas directamente excitam o tubo de Crookes.

Comtudo esta fonte de electricidade apresenta muitos inconvenientes de valor: o seu gasto e a sua tensão estão longe de ser constantes, podem variar com varias razões, por exemplo a veloci-dade de rotação dos pratos e o estado hygrome-trico da atmosphera. Nunca se está senhor da machina e accontece frequentes vezes que a am-polla faz de condensador, carrega-se e quebra-se com uma faísca poderosa. Entretanto é justo também affirmar que estes inconvenientes pro-vêm em maior parte da má utilisação que se faz das machinas estáticas; mas se fossem uzadas, en-cerrando a machina n'uma caixa de vidro con-tendo matérias exsiccadoras de modo a tornar constante o grau hygrometrico do meio am-biente e accionando-as por um motor mechani-co que lhes desse uma. velocidade rigorosamente constante, então o seu gasto seria sufficiente-mente regular para alimentar em condições ex-plendidas um tubo de Crookes.

Guilloz conseguiu tirar excellentes radiogra-phias com a machina electrostática de Bonetti.

(52)

d) Corrente fornecida pelas fabricas centraes

Em certas cidades pode o medico utilizar a corrente de uma fabrica que tem ordinariamente uma differença de potencial de 110 volts.

Esta corrente pode ser alternativa (constituí-da por uma serie de correntes que se seguem alternativamente em sentidos inversos, á razão de 30 a 40 por segundo); para as empregar é necessário attenual-as por meio de um rheostato collocado entre a origem e a bobina e só depois lançal-a na bobina induetora, mas estas corren-tes, á descarga no tubo de Crookes, produzem também correntes que passam alternativamente em sentido inverso e que por isso mesmo dete-rioram rapidamente os tubos de eléctrodos de-licados, como os que se constroem presentemen-te para a radiographia; póde-se, porém, remediar este grave inconveniente por meio de um inter-ruptor synchronico (diapasão que dá tantas vi-brações, quantas mudanças de sentido comporta a corrente).

A corrente de 110 volts pode ser continua e então basta introduzir no circuito da fabrica a bobina induetora, um ampere-metro e um rheos-tato capaz de baixar o consumo a 10 amperes ou menos.

(53)

59

II — BOBINA DE INDUCÇÃO

Bobina d'indueçao é um apparelho que tem por fim transformar uma energia electriea, que lhe é fornecida por uma corrente intensa, de baixo potencial, em uma energia eléctrica de grande potencial, mas de fraca intensidade.

Para obtermos esta transformação dispomos duas bobinas sobre o mesmo eixo.

A bobina interna ou inductor (bobina in-ductora ou primaria) é enrolada n'um cylindro de ferro. Pondo em communicação esta bobina inductora com uma fonte eléctrica o cylindro de ferro é fortemente magnetisado e em volta d'elle nasce um campo magnético muito intenso.

A apparição d'esté campo magnético, que passa repentinamente de zero a um alto valor de energia, é um gasto que repparece na bobi-na exterbobi-na ou induzida origibobi-nando uma cor-rente induzida de grande energia, mas sempre inferior á corrente inductora e em sentido con-trario. Abrindo ou fechando o circuito inductor, apparecerá na bobina secundaria uma corrente induzida directa do mesmo sentido que a do in-ductor.

Tanto a corrente induzida directa como a in-versa são eguaes em quantidade, mas a sua for-ça electro motriz é différente. A corrente indu-zida directa é muito maior do que a inversa.

(54)

A corrente induzida inversa é tão fraca que affastando ura pouco as extremidades do fio in-duzido a corrente não passa; pelo contrario a corrente induzida directa produz-se mesmo que os dois topos do fio estejam affastados alguns decimetros.

Fechando e abrindo alternativamente a cor-rente inductora produz-se uma serie de corcor-rentes induzidas que têm todas o mesmo sentido assim como as descargas produzidas entre os dois fios, correspondendo cada uma das suas extremi-dades aos pólos da bobina, tendo o mesmo si-gnal que elles, e podendo mudar de sisi-gnal logo que se inverta o sentido da corrente inductora— o que é de grande utilidade para os tubos ra-diographicos, como veremos em tempo oppor-tuno.

Qual é a dimensão absoluta que deve ter uma bobina destinada ao fim que temos em vista?

Será aquella que dér pelo menos uma faisca de 5 ou 6 centímetros de comprimento, limite inferior, mas na pratica estas bobinas são in-sufficientes e nós devemos preferir antes uma bobina que dê 10 a 12 centimetres de faisca. Quanto maior, porém, fôr a bobina, maior ener-gia util temos e por isso mais vantajosa se torna na pratica ; por isso o limite superior não pôde ser dado por ora.

Ha bobinas que dão faíscas desde 25 centí-metros a um metro de comprido, mas estas

(55)

ul-61

tiraas, além de serem caras, são de difficil trans-porte ; na pratica medica bastar-nos-ha uma que dê 30 a 45 centímetros de faisca.

Toda a bobina d'inducçao deve ser acompa-nhada d'um interruptor periódico e d'um con-densador, de que, porém, me occuparei no sub-capitulo dos accessorios.

III — TUBOS DE CROOKES

São tubos de vidro (l) de formas variadas, nos

quaes o vacuo é tão perfeito quanto possivel. (') Estes tubos têm soldado ás suas paredes dois eléctrodos, um positivo ou cathodo e outro ne-gativo ou ânodo. 0 cathodo é formado por um

(') As différentes espécies de vidro não apresentam a mesma transparência aos raios X; segundo Chabaud, os vidros com base de soda, potassa e cal e o vidro allemão, dando uma fluorescência verde, são relativamente muito transparentes; o vidro de urânio é um pouco mais opaco, mas o crystal, que dá uma fluorescência azul, é muito opaco, o que se explica facilmente pela presença do chum. bo. Por isto se vê que nem todos os vidros servem para a fabricação dos tubos de Crookes.

(3) Para que uma ampolla funccione convenientemen-te é essencial que o seu vacuo corresponda a uma pressão

comprehendida entre T ^ e ™ de millimetre de mercú-rio.

(56)

longo fio de platina que se continua para o in-terior do tubo, por um disco d'aluminio ao qual se dá uma curvatura propria. 0 anódo quando' termina internamente por um disco de platina, este disco toma o nome de anticathodo ou

fo-cus (1). Fora do tubo os fios de platina dos dois

eléctrodos formam um pequeno annel no qual se faz passar a extremidade do rheophoro do mesmo signal (conductor' do induzido). 0 tubo de Croo-kes é munido d'um tubo cylindrico estreito por onde se faz, por meio de uma bomba, o vacuo tão perfeito quanto seja possível no interior do tubo (ordinariamente uma millionesima de atmos-phera), servindo também para o fixar no sup-porte.

Os tubos com vacuo destinados a obter radio-graphias devem ser construídos de maneira que os raios cathodicos, emittidos por cada ponto do cathodo, perpendicularmente á sua superfi-cie, venham convergir a um mesmo ponto deno-minado foco anticathodico ou focus, o qual deve estar situado sobre a lamina.

As ampollas (tubos de Crookes) para a radio-graphia tem sido sempre fabricadas segundo as regras das três theorias seguintes :

í1) ' O anticathodo pôde ser o próprio vidro (tubos

da l.a serie), pois como vimos já os raios X tomam

ori-gem no ponto em que um obstáculo qualquer se oppõe á passagem dos raios cathodicos.

(57)

63

1 .a Bazea-se na acção directa da irradiação (é

a mais antiga).

2." Utiliza a acção dos raios cathodicos refle-ctidos (dá uma grandíssima rapidez em radio-graphia).

3." Combina as duas primeiras theorias (os tubos assim fabricados produzem o instantâneo).

Os primeiros tubos, os das primeiras expe-riências, eram de acção directa, utilizavam os raios emittidos pelo cathodo e passando atravez da parede do vidro para ir n'uma direcção re-ctilínea impressionar a placa sensível.

A segunda serie de tubos, a que fornece os magníficos resultados conhecidos até hoje, tem por principio a theoria da reflexão dos raios ca-thodicos. Por um phenomeno de galvanoplastia, as moléculas metallicas volatilizadas ficam sobre o espelho e só os raios cathodicos, izentos de to-da a poeira metallica, vêm atravessar a parede da ampolla. Estes tubos, que fizeram diminuir consideravelmente o tempo de pose, compõem-se escompõem-sencialmente de dois ânodos e um cathodo ; um dos ânodos é formado por um disco de pla-tina, de forma qualquer, com uma inclinação de 45.° (chamado espelho), que reflecte totalmente os raios cathodicos. A' custa de innumeras ex-periências foi que se conseguiu vêr que, nos tu-bos da primeira serie, o metal volatilizado era projectado contra a facevinterna do vidro, que acabava por metallizar-se, diminuindo assim

(58)

len-tamente, a força dos raios e chegando mesmo a detel-os (*).

A terceira serie, cuja theoria foi habilmente exposta por Georges Brunnel (a), e em que o

au-ctor combinou as duas theorias anteriores, é composta de tubos que têm dois ânodos e dois cathodos ou vários ânodos ou cathodos.

Innumeros são os modelos apresentados e somente me referirei ao nome dos auctores, pois que é impossivel n'um modesto trabalho como o meu fazer a descripção de todos elles; mas ain-da assim apresento na estampa I as suas formas»

Eis, pois, os nomes dos auctores das ampol-las mais conhecidas, catalogadas segundo a campol-las- clas-sificação que fiz mais acima:

/.a serie.—Crookes (vários modelos) Rõntgen

(idem); Seguy (idem) Wood; d'Arsonval (dois modelos), Chabaud e Hurmuzescu, Puluj Le Roux, Colardeau, Hard e Kiss (dois modelos).

2." serie.—Seguy (vários modelos) Silvanus

Thompson, Le Roux (dois modelos) Brunel-Se-guz, Jackson e o tubo iriglez «Penetrator».

(') Os metaes não são transparentes aos raios X e mesmo pouco são os que não lhe oppõem grande resis-tência á passagem.

(2) Conferencia—Nouvelles scientifiques et

(59)

65

3." serie.—Rufz, Seguy (dois modelos) Muret e o tubo da «Algemeine Electricitãts Gesell-schaft» de Berlim.

Mas na pratica basta simplesmente dividir os tubos em dois grandes grupos:

1.° Tubos fracos. 2.° Tubos fortes.

Os tubos fracos, systema Colardeau, suppor-tam apenas faíscas de 5 a 6 centímetros de com-prido e são utilisados para obter radiographias de corpos de pequena espessura.

Os tubos fortes são munidos d'um ânodo sup-plementar para diminuir a resistência eléctrica do tubo e são empregados para obter radiogra-phias atravez de corpos de grande espessura, visto que supportam faíscas de 20 a 50 centíme-tros de comprido.

Alteração de tubos de Crookes. —As ampollas

não tem uma duração indefinida porque o seu continuo funccionamento altera-as de modo tal que a producção regular dos raios é prejudica-da, ou mesmo aniquilada; além de varias cau-sas que concorrem para a sua alteração, duas são as principaes:

\." E' devida a um transporte daluminio do

cathodo para o ânodo ou para as paredes do tu-bo, formando sobre elles um deposito impalpá-vel d'esté metal. Este deposito apresenta-se com t m a côr violete, a principio, e mais tarde acas-tanhada. Estas manchas absorvem, posto que em

(60)

pequena quantidade os raios J. e portanto pou­

ca attenção nos deve merecer. '

■>

2." E' devida á resistência eléctrica no inte­

rior do tubo, que augmenta progressivamente

com o uso. Este augmento de resistência é devi­

do á absorpção do gaz residual pelas paredes do

tubo e pela lamina cathodica, Em virtude d'esté

augmento de resistência, veêm­se, passado algum

tempo, faiscas passar d'um reophoro para o ou­

tro, ao lado do tubo, atravez da atmosphera.

Esta alteração que é muito séria retarda­se

limpando muitas vezes a poeira deposta sobre a

superficie, guardando o tubo n'um logar bem

secco e operando n'uma atmosphera quente a

secca; ou então aquecendo o tubo a uma lâmpa­

da d'alcool, antes de o pormos a funccionar. Este

ultimo meio é difficil de executar e reclama mui­

to cuidado para não se dar um aquecimento de­

sigual, que fende facilmente as soldaduras.

Visto que este aquecimento é assim tão me­

lindroso ura outro meio temos para o fazer

e consiste em submetter, durante um certo

tempo, o tubo a uma serie de descargas a prin­

cipio fracas, depois mais fortes e, de quando em

quando, mudando­lhe o sentido das correntes.

Por este artificio o ar do interior do tubo se

aquece, a sua resistência diminue, e as partes

solidas, em virtude do • aquecimento, expulsão

uma parte do gaz absorvido. Por este modo o

tubo torna a adquirir as suas propriedades pri­

mitivas.

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67

Um outro processo consiste em aquecer o tubo n'uma estufa de modo que o calor chegue a este muito lentamente, espalhando-se n'elle uniformemente, e em seguida deixa-se resfriar também lentamente. Uma hora a 100.° bastará pa-ra a primeipa-ra passagem pela estufa, mas se não fôr suficiente elevar-se-ha a temperatura a Iõ0.°, 200.°, 250.» e 300.°. Este processo é o preferido porque é o mais seguro e o mais pratico.

Ainda para augmeutar a vida dos tubos Ed. Guillaume, eminente adjunto no Bureau In-ternational des Poids et Mesures, de Paris, ba-zeando-se na propriedade que possue o palladio de absorver em grande quantidade o hydroge-nio e de o restituir, em parte, quando aqueci-do, suggeriu a Chabaud o introduzir nos tubos uma pequena placa d'esté metal. Esta peça de metal está collocada n'uma pequena ampolla la-teral, que pode facilmente ser aquecida isola-damente por meio d'uma lâmpada d'acool; esta lamina de palladio representa o papel d'um ter-ceiro eléctrodo independente. Os tubos assim fabricados são lavados internamente com hydro-genio; o excesso de gaz é absorvido pelo palla-dio e, no momento em que o tubo se torna re-sistente, aquece-se a ampolla accessoria com pre-caução.

Qual o meio de avaliar a força de ura tubo? A melhor maneira de experimentar um tubo de Crookes, isto é, constatar o seu rendimento aproximativo em raios X, consistiria

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evidente-mente em realisar uma operação com este tubo e vêr se a sua efficacia é real, mas póde-se tam-bém empregar um methodo baseado no poder que possuem as irradições Rõntgen de descarre-gar os corpos electrisados (x). Para nos

assegu-rarmos, pois, do bom funccionamento d'um tu-bo não teremos mais que ligal-o a uma tu-bobina de Rhumkorff e approximar d'elle um electrosco-pio carregado; a descarga deve fazer-se em dois

ou trez segundos.

Para o mesmo fim podemos também servir-nos de écrans phosphorescentes.

Existe ainda o processo de Imbert e Bertin-Sans, (3) de Montpellier, para reconhecer o

valor de um tubo e também o valor relativo das diversas regiões do mesmo tubo, mas con-sideram ol-o pouco pratico pai'a os clinicos, sen-do para estes sufnciente os sen-dois methosen-dos já ex-postos.

Alguns authores propoem-se, para augmen-tar o rendimento dos tubos em raios X, collocar dentro d'elles ou cobrir o anticathodo com subs-tancias luminicentes: Silvanus Thompson cobre o anticathodo com um esmalte contendo

sulfu-X1) Perrin demonstrou que os raios X tinham a

cu-riosa propriedade de descarregar os corpos electrisados sem ter a necessidade de estar em contacto com elles; o que nos leva a pensar que para os raios de Kõntgen, os bons tubos gozam p papel de conductores..

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reto de cálcio; Piltschikoff emprega somente substancias phosphorescentes nas ampollas; Edi-son para o mesmo fim asa o tungstato de cál-cio; comtudo esta pratica não se generalisou e parece mesmo não ter grande influencia sobre o rendimento dos tubos.

Imbert, Bertin-Sans, Kœnig e outros preco-nisam, para augmentar a nitidez das imagens o emprego de diaphragmas de metal ou de vidro espesso, não deixando passar senão um pequeno feixe de raios; é evidente que quanto menor fôr a abertura do diaphragma tanto mais nitidas se-rão as sombras, mas pelo contrario a intensida-de é diminuída e o tempo intensida-de pose intensida-deve ser au-gmentado.

IV — ACCESSORIOS

Entre os accessorios devemos estudar:

a) 0 condensador. b) O interruptor periódico. c) Os rheostatos. d) Apparelhos de medida. e) Conductores. a) Condensador

O condensador, collocado no sócco da bobi-na, é constituído por uma serie de folhas de

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es-tanho sobrepostas e isoladas entre si por folhas maiores de mica, papel paraffinado, gutta-per-cha ou seda; todas as folhas de estanho de nú-meros pares estão reunidas entre si e com uma das extremidades do circuito inductor; do mes-mo mes-modo as folhas impares estão em communi-caçâo entre si e com a outra extremidade do fio inductor. O uzo do condensador foi proposto por Fizeau; o seu fim é attenuar a faisca de ro-ptura de corrente, que pouco a pouco consome as superficies de contacto do interruptor e que algumas vezes mesmo pode trazer a sua solda-dura, parando então o apparelho e estragando-o. O condensador consegue este fim, aproveitando uma parte da corrente em carregar-se.

b) Interruptor periódico

Não ha prezentemente modelo algum no commercio que possa convir a todas as applica-ções dos raios X.

Podemos classificar os interruptores em len-tos e rápidos.

Dos primeiros temos um exemplo no ruptor de Foucault; dos segundos todos os inter-ruptores sólidos.

Desnecessário é descrever estes interrupto-res, que são conhecidos de todos e só me refe-rirei aos mais uzados, citando-lhes os nomes e alguma particularidade digna de menção.

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/

n

uzado embora todos os fabricantes (Richard-Ch, Heller, Gaiffe e d'Arsonval,Chabaud e Radiguet) lhe tenham feito modificações importantes; qua-zi outro tanto se pôde dizer do interruptor com metronomo (Chabaud e Gaiffe), que ainda assim tem admiradores.

Os interruptores hoje mais adoptados são o

phonotrembleur de Radiguet e o interruptor

ro-tatório de d'Arsonval e Gaiffe.

A bobina com que trabalhei e que existe no Instituto Pasteur do Porto tem o phonotrem~

bleur de Radiguet, que funcciona muito

regu-larmente.

c) Rheostatos

Os rheostatos são apparelhos que se interca-lam no trajecto da corrente para a estorvar e as-sim fazer com que o apparelho deante do qual se colloca, não receba senão a quantidade de ele-ctricidade de que elle necessita para funccionar convenientemente. São formados por corpos pou-co pou-conductores e que a pou-corrente experimenta difficuldade em atravessar.

Em qualquer installação é necessário ter um rheostato bem installado, afim de poder dar a cada tubo o cumprimento de faisca—intensidade de corrente—que lhe convém. Sem isto os tubos deterioram-se rapidamente ; demais é necessário que nas platinas do interruptor não haja cham-ma notável.

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O rheostato com que trabalhei é o de Radi-guet, cuja excellencia pude reconhecer.

d) Apparelhos de medida

São essencialissimos para quem deseje traba-lhar com precisão e certeza absoluta e mesmo para não expor o tubo de Crookes a correntes excessivas, que o podem deteriorar.

Estes apparelhos são o volt-metro que indica a pressão ou força electro-motriz, ou differença de potencial que existe nos bornes da bobina 6 o ampere-metro que marca a quantidade de ele-ctricidade que passa pelos conductores.

e) Conductores

Os fios conductores destinados a estabelecer as ligações eléctricas devem ser fios flexíveis, isolados e cobertos de seda, como os que se em-pregam na illuminação eléctrica. Os que se des-tinam ás correntes de grande intensidade da bo-bina inductora deverão ser escolhidos bastante grossos para supportar as mais fortes correntes em uzo (10 amperes) sem se aquecer; os que conduzem as correntes induzidas de alto poten-cial,—mas de fraco gasto, podem ser finos, mas devem ser bem isolados,—os do commercio têm um isolamento insuffiçiente para evitar as fais-cas, logo que se passa na sua visinhança.

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conveniente, introduzir os fios conductores em tubos espessos de borracha—os que ordinaria-mente servem para ligar uma trompa a um vazo em que desejamos fazer o vacuo—, assim evitam-se as grandes faíscas que dão commoções des-agradáveis e algumas vezes até perigosas.

f) Supportes isoladores

Para completar a installação ainda devo fal-íamos, supportes que servem para segurar o tubo de Crookes, ás vezes os conductores, e o écran.

Os melhores são feitos de madeira tendo um pezado pedestal de ferro.

V —PARTE PHOTOGRAPHICA

Eis impressionada a chapa photographica (*) ; a successão dos phenomenos para a impressio-na ção da chapa descrevo-os a pag. 79 e 80.

I) Revelação

Agora transportamos a chapa na sua caixa protectora para a camará escura, pequeno

quar-(*) Uzei sempre chapas de E. W. Thomas & C.° de Londres, vindas directamente para o Instituto Pasteur do Porto.

Referências

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