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THOMAS HOBBES ENTRE A NATUREZA E O CONTRATO

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Academic year: 2021

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1 THOMAS HOBBES ENTRE A NATUREZA E O CONTRATO

Edson Peixoto Andrade 1 Anderson Souza Santos2

Edilamara Peixoto de Andrade3

GT10 – Práticas Investigativas na Educação Superior

RESUMO

O presente artigo objetiva discutir o sistema de Thomas Hobbes Homem-natureza-república. Sendo um trabalho de revisão bibliográfica, inicia apresentando, em linhas gerais, as ideias de Hobbes. Em seguida, discorre a respeito do homem no estado de natureza, o qual, tendo direito a todas as coisas, inclusive aos corpos uns dos outros, vive num estado de insegurança geral, a saber, o estado de guerra, que é contrário à lei de natureza. Em Hobbes, a saída para o homem passa pelo estabelecimento do contrato social e a consequente ereção de um poder soberano que possa garantir a ordem, estabelecer as leis comuns e assim, promover a paz social. O contrato é aquele instrumento que, em Hobbes faz surgir o estado social, o poder soberano e a paz artificial.

Palavras-chave: Natureza; Homem; Estado de Guerra; Paz; Contrato. ABSTRACT

The present article aims to discuss Thomas Hobbes's Man-nature-republic system. Being a work of bibliographical revision, it begins presenting, in general lines, the ideas of Hobbes. Then he talks about the man in the state of nature, who, being entitled to all things, including the bodies of one another, lives in a state of general insecurity, namely, the state of war, which is contrary to the law Of nature. In Hobbes, the departure for man passes through the establishment of the social contract and the consequent erection of a sovereign power that can guarantee the order, establish the common laws and thus, promote social peace. The contract is that instrument which in Hobbes brings forth the social state, sovereign power and artificial peace.

Keywords: Nature; Man; State of war; Peace; Contract.

1 INTRODUÇÃO

Que o homem sempre busca o melhor para si é algo que parece óbvio. É justamente esta, a leitura que Thomas Hobbes faz da pessoa humana naquilo que chamou estado de

1 Mestrando em Filosofia pela Universidade Federal de Sergipe, especialista em Metodologia do Ensino da História e da Geografia, licenciado em História pela Universidade de Uberaba, Bacharel em Psicologia pela Faculdade AGES, membro do GefilUFS (Grupo de Estudos de Filosofia da Linguagem da UFS), professor da Educação Básica no município de Paripiranga/BA. E-mail: <[email protected]>

2 Licenciado em Educação Física pela Faculdade Ages e funcionário da mesma instituição. E-mail: <[email protected]>.

3 Mestre em Filosofia pela Universidade Federal de Sergipe, especialista em Metodologia do Ensino da Língua Portuguesa e Inglesa, licenciada em Letras pela Faculdade AGES, Acadêmica de Direito pela mesma Instituição, membro do GefilUFS (Grupo de Estudos de Filosofia da Linguagem da UFS), mestranda em Filsofosia pela UFS. E-mail: <[email protected]>.

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natureza. Esta visão hobbesiana, apesar de todas as críticas que sofrera ao longo da história da filosofia, ainda mantém sua força e assim, seu estudo continua sendo importante.

O objetivo do presente artigo é discorrer a respeito das teorias de Thomas Hobbes no que tange à vida do homem no estado de natureza, o estado de guerra daí decorrente e a necessidade do contrato que engendra o corpo social e, de certa forma, promove a paz entre os homens.

A metodologia empregada na pesquisa pode ser descrita como leitura estrutural dos textos de Hobbes, sobretudo Os Elementos da lei natural e política e Leviatã. A partir da análise destas duas obras, no que tange ao estado de natureza e ao contrato social, serão abordados outros textos de comentadores que servirão para nortear a compreensão do referido filósofo.

O texto está estruturado da seguinte maneira: inicialmente se discorrerá sobre aquilo que se chamou “o grande sistema” de Hobbes, mostrando, em linhas gerais, o caminho que o filósofo percorrera para justificar o pacto social entre os homens. Num segundo momento se discorrerá sobre o estado de natureza e suas consequências e, em seguida, sobre a construção do corpo social mediante o contrato feito entre as pessoas.

2 THOMAS HOBBES: O filósofo do Pacto Social

Thomas Hobbes é, certamente, o filósofo que compreende o homem e a república como elementos de um mesmo sistema. Nesse sentido, Gaskin postula sobre “o grande sistema: Homem e República”(in HOBBES, 2010, p.XXXII), sobretudo na obra Os elementos da lei natural e política. Para este autor, a estrutura geral do argumento Hobbesiano na supramencionada obra, se dá em torno de quatro elementos: primeiro é apresentada uma análise daquilo que, para Hobbes, seria o homem no estado de natureza, em seguida, postula sobre o estado de guerra como uma decorrência do ser do homem enquanto natureza. O terceiro elemento do argumento de Hobbes gira em torno dos preceitos que, se adotados, podem levar o homem a superar o estado de guerra e, por fim, apresenta a república, o que se deve fazer para fazer cumprir as leis naturais e as forças que tendem à destruição do corpo político.

A tese central de Hobbes gira em torno da ideia de que, no estado de natureza todas as pessoas têm direito a tudo, inclusive aos corpos das outras pessoas. Nesse sentido, a efetivação do poder da pessoa, quer sobre as coisas ou mesmo, sobre o corpo do outro, se dá a partir da tomada de posse e da manutenção dessa posse. Nesse sentido, o estado em que os homens vivem é um estado de insegurança geral, um estado de guerra. No estado de guerra o

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homem não pode ter a paz e assim, não pode usufruir do seu direito. Desse modo, cabe a cada um individualmente, renunciar ao seu direito universal ou transferir tais direitos para um soberano que possa impor um sistema de leis, limitando os conflitos e assim, gerando a paz social (GASKIN, in HOBBES, 2010).

Para fundamentar sua tese, o filósofo aborda a questão do bem e do mal mostrando que, ambas as categorias são relativas aos indivíduos. Desse modo, “não há nada que o seja simples e absolutamente, nem há nenhuma regra comum do bem e do mal que possa ser extraída da natureza dos próprios objetos” (HOBBES4, 2003, p.23). No entanto, em seu parecer, Hobbes,

acredita existir “uma concepção de ‘bem’ e ‘mal’” a qual, mediante a razão, é conhecida por todos. Contudo, para o filósofo, essa não é uma concepção primária. Isso posto, se tem que, tanto os desejos, quanto as aversões individuais são diferentes em cada indivíduo e assim, o homem sempre irá agir a partir de uma espécie de egoísmo que lhe é natural. Tal egoísmo significa que a pessoa sempre buscará, como objetivo primário, o bem para si. (GASKIN, in HOBBES, 2010). A metáfora que Hobbes irá utilizar para se referir a esse suposto egoísmo humano é a da corrida. Para ele, a vida é uma corrida onde o principal objetivo é sempre chegar à frente dos demais. Em tal corrida, a felicidade consiste em superar aquele que está à frente. Em tal contexto, o abandono da corrida será fatal para a pessoa e lhe causará a morte.

A metáfora da vida como uma corrida, em que o objetivo é sobrepujar o adversário e abandonar o trajeto equivale a morrer, é fundamental para que Hobbes possa discorrer a respeito da ação humana de acordo com as paixões, cuja consequência é a instauração do estado de guerra que, nada mais é do que um estado de desconfiança e temor instaurado entre os homens que faz com que cada um tenha que lançar mão da força para se proteger e se preservar.

No entanto, no Leviatã, Hobbes deixa claro quais são as consequências desse estado de guerra, mostrando que tanto a economia, quanto a sociabilidade das pessoas se veem afetadas em tal estado (HOBBES, 2003). Sendo assim, o filósofo defende que, se no estado de liberdade natural, onde o homem é detentor de direitos sobre todas as coisas e até mesmo sobre as pessoas, o que se tem é o estado de guerra, então, para se viver em segurança, o homem precisa fundar o corpo social mediante a renúncia dos seus direitos e a transferência dos mesmos para o soberano.

E como deve se dar essa busca da paz? De acordo com Gaskin, na introdução de Os elementos da lei natural e política, tal busca se dá em dois níveis. Primeiro é uma busca da paz

4 Neste presente artigo trabalhou-se com a tradução do Leviatã de João Paulo Monteiro e Maria Beatriz Nizza da Silva (Martins Fontes, 2003). Contudo, o acesso ao texto se deu por meio de arquivo em PDF disponibilizado pela internet e a numeração seguida será diferente da publicação impressa.

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pelo uso da razão, pois, segundo Hobbes, é a razão que gera a concordância entre os homens (GASKIN in HOBBES, 2010). Através da razão é possível identificar “as condições que devem ser observadas para evitar o estado de guerra” (GASKIN; in HOBBES, 2010, p. XXXVII) e tais condições são as leis naturais as quais mostram onde encontrar a paz e como se defender quando ela não puder ser alcançada.

O segundo aspecto da busca da paz equivale à organização e defesa do corpo político ou sociedade civil o qual impõe os preceitos racionais visando evitar a guerra. Aqui se trata do poder soberano ou poder comum o qual, nesse contexto, é indispensável para se evitar a guerra e levar a pessoa a sair do estado de insegurança (GASKIN in HOBBES, 2010).

Nas próximas sessões serão aprofundados esses dois elementos supracitados.

3 O HOMEM NO ESTADO DE NATUREZA

O capítulo XIV de Os elementos da lei natural e política (Primeira Parte: A natureza humana) postula sobre o estado de natureza e parte da análise da “condição de segurança” da natureza humana e as possibilidades que essa natureza apresenta para a preservação da violência que, nesse estado, pode surgir entre as pessoas. Para Hobbes, considerando que as diferenças de força ou conhecimento entre os homens são mínimas, é fácil para um, mesmo que mais fraco, destruir o outro, aspirar às mesmas coisas que o outro, disputar entre si.

O primeiro aspecto sobre o qual é importante discorrer, seguindo o caminho indicado por Hobbes em A natureza humana e no Leviatã, versa sobre a igualdade dos homens no estado de natureza. O filósofo diz ser útil aos homens considerar a situação de natureza a fim de se preservar “da violência de uns contra os outros” (HOBBES, 2010, p.67). Nesse contexto, ele postula que, ao observar o estado de natureza, os homens deveriam concluir que estão “em situação de igualdade”. Mas onde estaria o problema dessa “situação de igualdade”? A resposta para essa pergunta é, justamente, o fundamento de toda a teoria hobbesiana sobre a situação dos homens antes do surgimento do Estado e o Contrato que os homens precisam fazer entre si a fim de, fundar o corpo social.

Como entender que a igualdade entre os homens no estado de natureza seja problemática? A primeira chave de compreensão é dada em A natureza humana quando Hobbes afirma que se contentar com essa situação de igualdade torna o homem “moderado” e, consequentemente “expostos à força dos outros que tentarão subjugá-los” (HOBBES, 2010, p. 68), o que equivale a dizer que, no estado de natureza parece não haver outra alternativa, senão

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se defender ou mesmo, atacar. Parece algo paradoxal mas, na verdade, a tese do filósofo é a de que, uma vez que os homens são iguais, seus desejos e suas ações seguirão percursos semelhantes e assim, os conflitos entre eles serão instaurados com facilidade.

No Leviatã, Hobbes postula sobre essa ideia da igualdade dos homens no estado de natureza apresentando três elementos que, em seu pensamento, podem definir o que seria esta realidade e sua interferência nas relações entre as pessoas. O que se tem, então, é uma espécie de psicologia humana hobbesiana que irá fundamentar a defesa que o filósofo fará da necessidade do contrato e do surgimento do Estado. Os homens, em Hobbes, agem todos de forma semelhante e assim, os efeitos das ações humanas no estado de natureza, podem ser, nessa visão, previstos. E tais efeitos, como se verá mais adiante, são desastrosos em vários sentidos.

O primeiro elemento é o da igualdade de forças. Para Hobbes, a igualdade existente entre os homens no estado de natureza, é uma igualdade de força. Os homens, no estado de natureza, sendo iguais, se encontram em condições de competir uns com os outros, em situação de igualdade, mesmo que hajam diferenças no tocante à força física ou mental. O filósofo diz que “a natureza fez os homens tão iguais [...] que embora por vezes se encontre um homem [...] mais forte de corpo, ou de espírito [...] a diferença entre um e outro homem não é suficientemente considerável” (HOBBES, 2003, p.45) que leve um deles a se considerar mais beneficiado do que outro de modo que “o mais fraco tem força suficiente para matar o mais forte”( HOBBES, 2003, p.45) quer maquinando em segredo, quer se juntando a outros que também se sintam ameaçados (HOBBES,2003).

O segundo elemento que Hobbes apresenta a respeito dessa igualdade entre os homens versa sobre o olhar que a pessoa tem sobre si, que é sempre um olhar de superioridade com relação aos demais. É o que ele chamou de “concepção vaidosa da própria sabedoria” (HOBBES, 2002, p. 45) a qual leva cada um a não reconhecer a existência de pessoas mais inteligentes, eloquentes ou mais sábias do que si mesmo.

Há ainda um terceiro elemento da igualdade. Segundo Hobbes, no Leviatã, esse terceiro elemento é “a igualdade quanto à esperança de atingirmos nossos fins” (HOBBES, 2003, p. 46). Há diferentes paixões entre os homens. De acordo com Ceccarelli & Barros, as “[...] paixões são intrínsecas a todos os homens, e são elas que no estado de natureza se mostram como regra no agir” (2012, p. 3) Será essa diversidade de paixões, que fará com que os moderados estejam “expostos à força dos outros que tentarão subjugá-los” (HOBBES, 2010, p.68).

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Por outro lado, pelos seus apetites, muitos homens procuram o mesmo e único fim, o qual, por sua vez, nem sempre pode ser dividido ou mesmo, desfrutado em comum, o que faz com que aquele que é mais forte, possa “desfrutá-lo sozinho” (HOBBES, 2010, p.68). Mas quem é o mais forte? Hobbes responde que “é pela batalha que se decide quem é o mais forte” (HOBBES, 2010, p.68).

Em síntese, “por causa da vaidade, da comparação ou do apetite, a maior parte dos homens, sem nenhuma garantia de superioridade, provoca os demais, que, do contrário, estariam satisfeitos com a igualdade” (HOBBES, 2010, p.68-69). É uma situação da qual não se pode fugir. Mesmo que uma pessoa seja moderada, a outra, que tem paixões diferentes, poderá atacá-la, restando à primeira a antecipação do ataque, a autodefesa.

Ainda no Leviatã Thomas Hobbes faz uma descrição do homem no estado de natureza apresentando dois aspectos: primeiro: nesse estado não existem noções de bem e de mal, do mesmo modo, não existem conceitos de justiça e injustiça uma vez que inexiste um poder comum e, consequentemente, uma lei; segundo: no estado de natureza não há propriedade, domínio ou “distinção entre o meu e o teu” uma vez que “só pertence a cada homem aquilo que ele é capaz de conseguir, e apenas enquanto for capaz de conservá-lo”(HOBBES, 2003, p.47). É justamente aqui, que Hobbes irá estabelecer a ponte entre a situação do homem no estado de natureza e a proposta de formação do estado via contrato. De que modo ele faz isso?

Parece já ter sido esclarecido que, no estado de natureza, cada homem se encontra numa situação de insegurança por três motivos: primeiro: eles são capazes de se enfrentar em situação de igualdade; segundo: todos tendem a se sentir superiores uns aos outros; terceiro: em seus apetites procuram, muitas vezes, as mesmas coisas, as quais nem sempre podem ser divididas. Isso gera duas consequências: a atitude de se preservar e o direito de atacar quando necessário.

De acordo com Hobbes, a natureza faz com que os homens queiram e desejem aquilo que é bom para si, ao tempo em que os leva a evitar o que lhes pode provocar algum dano, nesse sentido, o homem não age contra a razão da natureza quando emprega todos os seus meios “para preservar a sua própria existência e o seu próprio corpo da morte e da dor” (HOBBES, 2010, p. 69) e acrescenta: “[...] é, portanto, um direito de natureza que cada homem faça tudo o que puder para preservar a sua própria vida e os membros do seu corpo”(Id., 2010, p.69).

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Tanto em A natureza Humana (in HOBBES, 2010) quanto no Leviatã, encontra-se a ideia – já apresentada anteriormente - da igualdade natural dos homens que acarreta a desconfiança geral entre eles. Ou seja, uma vez que os homens são iguais em capacidade, eles também - como já foi visto no Leviatã - são iguais com relação à esperança de atingir seus fins. Desse modo, quando “dois homens desejam a mesma coisa, ao mesmo tempo que é impossível ela ser gozada por ambos, eles tornam-se inimigos” (HOBBES, 2003, p.46).

Essa situação de insegurança geral é, segundo Hobbes, possibilitada por que, cada homem é, por natureza, uma espécie de juiz de si próprio tanto no que tange aos meios de que necessita quanto no concernente aos perigos. Dito de outro modo se tem que, cabe a cada homem julgar aquilo que necessita para sua vida bem como, sobre aqueles aspectos que lhe podem causar danos.

No entanto, esse direito de julgar, de acordo com Hobbes, não se refere apenas às necessidades da pessoa para consigo mesma ou dos seus próprios perigos mas, a pessoa ajuíza também no que diz respeito ao outro. Ela, define o que é bom ou não para o outro. E tais definições têm em vista, o seu próprio benefício uma vez que, no estado de natureza, o juízo do homem “deve ser empregado em seu benefício próprio” (HOBBES, 2010, p.69). Do mesmo modo, “a força, o conhecimento e o talento de cada homem são corretamente empregados quando ele os usa para si mesmo” (Id., 2010, p.69) e é justamente aí que reside o direito de se preservar. Dito de outro modo, é justamente porque julga em seu próprio benefício e que emprega todos os meios para encontrar o que é melhor para si, que o homem tem o direito de se preservar.

Essa função de julgar o que é melhor para si e de empregar todos os meios para obter aquilo que julga necessitar faz surgir aquilo que pode ser considerado um ponto fundamental na tese hobbesiana, a saber, o direito dos homens, no estado de natureza, a todas as coisas, até mesmo, aos corpos das outras pessoas. Para Hobbes, “por natureza todo homem tem direito a todas as coisas, vale dizer, a fazer o que lhe apraz a quem lhe apraz; a possuir, usar e desfrutar todas as coisas que quer e pode” (HOBBES, 2010, p. 69-70) e esse direito a tudo está relacionado ao juízo que o homem faz daquilo que lhe é bom e que pode contribuir com a sua preservação. Disto se segue que cada homem “pode legitimamente fazer tudo” (HOBBES, 2010, p. 70).

Mas esse direito universal do homem gera problemas. Hobbes diz que o fato de ter direito a tudo não é algo melhor do que não ter direito a nada e justifica sua posição mostrando que, uma vez que o homem tem direito a tudo, isso não lhe é muito benéfico considerando que

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“outro, tão ou mais forte do que ele, tem direito à mesma coisa” (HOBBES, 2010, p. 70). É a lei do mais forte que, a julgar pela tendência humana a atacar uns aos outros quando isto lhe beneficia, bem como o direito que o homem tem de resistir à invasão do outro, gera um estado de “perpétua desconfiança, estudando como surpreender uns aos outros: o estado dos homens nessa liberdade natural é o estado de guerra” (HOBBES, 2010, p. 70).

De acordo com Ribeiro,

Todo homem é opaco aos olhos de seu semelhante – eu não sei o que o outro deseja, e por isso tenho que fazer uma suposição de qual será a sua atitude mais prudente, mais razoável. Como ele também não sabe o que quero, também é forçado a supor o que farei. Dessas suposições recíprocas, decorre que geralmente o mais razoável para cada um é atacar o outro, ou para vencê-lo, ou simplesmente para evitar um ataque possível: assim a guerra se generaliza entre os homens (RIBEIRO, 2004, p. 55).

É próprio da natureza dar ao homem o direito de se defender. E esse direito de se defender instaura o estado de guerra. Mas o que é guerra para Hobbes? “De fato, a guerra nada mais é que o tempo em que a vontade e a intenção de contender por meio da força são suficientemente demonstradas pelas palavras ou pelas ações; e o tempo que não é de guerra, é de paz” (HOBBES, 2010, p. 70).

No Leviatã ele apresenta a seguinte definição para o estado de guerra: “uma guerra que é de todos os homens contra todos os homens. Pois a guerra não consiste apenas na batalha, ou no ato de lutar, mas naquele lapso de tempo durante o qual a vontade de travar batalha é suficientemente conhecida” (HOBBES, 2003, p. 46). Mas aqui se poderia perguntar: se Hobbes estiver certo, será que, em algum momento, a humanidade, no estado de natureza, poderia ter alcançado um tempo de paz?

No Leviatã, o filósofo mostra que, no estado de guerra, que deriva do estado de natureza, tanto a natureza, quanto os homens são destruídos: não há indústrias, não se cultiva a terra, não se navega, nem se utilizam as mercadorias que se transportam pelo mar, não há construções, nem instrumentos capazes de mover as coisas, não há conhecimento, artes, letras, “não há sociedade; e o que é pior de tudo, um constante temor e perigo de morte violenta” (HOBBES, 2003, p. 46).

Assim, ele salienta que, contradiz-se a si mesmo aquele que “deseja viver em tal estado” (HOBBES, 2010, p. 70), como se fosse um “estado de liberdade e direito de todos” (HOBBES, 2010, p. 70). Tal contradição deriva do fato de que, no estado de natureza “cada homem deseja o seu próprio bem, o que é contrário a esse estado, no qual supomos uma

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contenda entre homens iguais por natureza, capazes de destruir uns aos outros” (HOBBES, 2010, p. 70-71).

Dito de outro modo, se tem que a busca pela liberdade e pelo direito universal, que gera o estado de guerra, não traz aquele bem que cada um procura para si. Uma vez que todos são livres para buscar o próprio bem, no momento em que cada um procura aquilo que é melhor para si, começa um embate com o outro que também está procurando o melhor para si. Desse modo, ao invés do bem e da liberdade, o que o homem encontra é o estado de guerra, que certamente é contrário àquilo que o homem busca no estado de natureza.

Na esteira do pensamento, Thomas Hobbes postula sobre o direito que um homem tem de dominar o outro: “quem tem em seu poder outro homem, seja para reprimi-lo ou governá-lo, para fazer-lhe o bem ou prejudicá-lo, tem direito, pela vantagem de seu poder atual, de precaver-se contra esse outro homem, como lhe aprouver, para a sua segurança futura” (HOBBES, 2010, p. 71) e acrescenta que, uma vez tendo subjugado, aquele que dominou tem o direito de fazer com que esse lhe seja submisso, orientado e governado por ele e isso é justificado pelo fato de que, ao buscar a própria segurança, não se pode libertar o que foi dominado, caso contrário, este poderia reunir forças e virar o jogo. Para Hobbes, no estado de natureza, o poder irresistível torna-se um direito (HOBBES, 2010).

4 A BUSCA DA PAZ ATRAVÉS DO CONTRATO ENTRE OS HOMENS

O que Hobbes defende, no entanto, não é esse estado de guerra, onde um pode dominar o outro, mas a busca da paz. Segundo ele “a razão dita que, para o seu próprio bem, cada um busque a paz, enquanto houver esperança de alcançá-la” (HOBBES, 2010, p.71).

No Leviatã, ele fala sobre aquelas paixões que fazem os homens tender para a paz, a saber, “o medo da morte, o desejo daquelas coisas que são necessárias para uma vida confortável, e a esperança de consegui-las através do trabalho” (HOBBES, 2003, p. 47) e por isso, mediante a razão, os homens procuram entrar em acordo e estabelecer normas entre si, normas estas que são as leis de natureza, (HOBBES, 2003, p.47), ou seja, aquela “que está contida na natureza da humanidade” (HOBBES, 2010, p.72).

No Leviatã Hobbes apresenta uma distinção entre lei de natureza e direito de natureza. Para ele “[...] o direito de natureza [...] jus naturale, é a liberdade que cada homem possui de usar seu próprio poder, da maneira que quiser, para a preservação de sua própria natureza, ou seja, de sua vida” (HOBBES, 2003, p. 47). E liberdade para Hobbes, significa

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“ausência de impedimentos externos” (HOBBES, 2003, p. 47). A partir daí, ele postula sobre a Lei de natureza que “é um preceito ou regra geral, estabelecido pela razão, mediante a qual se proíbe a um homem fazer tudo o que possa destruir sua vida ou privá-lo dos meios necessários para preservá-la” (HOBBES, 2003, p. 47).

Dito isso se tem o seguinte: uma vez que no estado de natureza cada pessoa tem direito a todas as coisas, inclusive aos corpos dos outros, faz-se necessário o esforço individual pela paz e, somente no caso em que esta não seja possível, é que cada pessoa “pode procurar e usar todas as ajudas e vantagens da guerra” (HOBBES, 2003, p. 48).

Da procura pela paz, portanto, resulta, segundo Hobbes, a seguinte lei da natureza: “[...] que um homem concorde [...] para a paz e para a defesa de si mesmo, em renunciar a seu direito a todas as coisas [...] porque enquanto cada homem detiver seu direito de fazer tudo quanto queira todos os homens se encontrarão numa condição de guerra” (HOBBES, 2003, p. 48).

Nesse contexto, Hobbes fala em transferência dos direitos pessoais tendo em vista outros direitos a usufruir, algum bem esperado ou mesmo, para a segurança pessoal. Para o filósofo, “a transferência mútua de direitos é aquilo que se chama contrato” (HOBBES, 2003, p.49).

Em Thomas Hobbes, tanto a razão quanto a paixão fazem parte da natureza humana e é idêntica em todos, uma vez que todos “concordam na vontade de serem dirigidos e governados no sentido daquilo que desejam alcançar, a saber, o seu próprio bem. E isso é obra da razão” (HOBBES, 2010, p. 72).

Hobbes deixa claro que o estado de guerra é contrário à lei de natureza. Assim, ele postula: “um preceito da lei de natureza é que todo homem se prive do direito que ele tem, por natureza, a todas as coisas” (Id., 2010, p.72) e justifica isso pelo fato de que, quando mais de um homem, tendo direito as todas as coisas e também às pessoas, efetivamente, exerce esse direito, o resultado será, por um lado, o movimento de invasão e, do outro lado, a resistência e é, justamente isso, na visão de Hobbes, que caracteriza o estado de guerra, que, para o filósofo, “[...] é contrário à lei da natureza” (HOBBES, 2010, p. 72), uma vez que o cerne de tal lei é a consecução da paz, para o usufruto do direito.

Dito de outro modo, uma vez que, de acordo com a natureza, o homem deve buscar a paz, a saída para esta, consiste na renúncia ao direito natural de se apossar de tudo e de todos, considerando que a efetivação de tal direito provoca conflitos entre as pessoas que também gozam do referido direito.

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Na esteira do pensamento, ele fala no Leviatã que “os homens não tiram prazer algum da companhia uns dos outros (e sim, pelo contrário, um enorme desprazer), quando não existe um poder capaz de manter a todos em respeito” (HOBBES, 2003, p. 46). E quais seriam essas fontes de desprazer, ou, conforme as palavras de Hobbes no Leviatã, essas causas da discórdia entre os homens? Ele aponta três causas: “primeiro, a competição; segundo, a desconfiança; e terceiro, a glória” (HOBBES, 2003, p. 46) Isso leva Hobbes a defender a existência de um poder comum que possa retirar os homens do estado de guerra em que vivem.

É a partir de tais postulados que ele irá passar a defender suas teses contratualistas ou pactuais. Nesse sentido, irá discorrer sobre a possibilidade que se abre para a busca da paz e a prevenção da guerra, e que consiste na renúncia ou transferência do direito natural a todas as coisas e a tudo. Segundo Hobbes: “quando um homem se priva e abre mão de seu direito, ele simplesmente renuncia a este ou o transfere para outro homem” (HOBBES, 2010, p. 72).

O ato de renúncia, na concepção hobbesiana, equivale a demonstrar, por meio de sinais evidentes, que a sua intenção é não oferecer resistência ou oposição a quem quiser usar o seu direito sobre as coisas ou pessoas. Uma vez que todos tem direito a tudo e a todos, quando se renuncia e transfere um direito, na verdade, não se dá um direito ao outro, considerando que, por natureza, ele já o tinha. O que se faz é “declarar a sua intenção de permitir que aquele a quem transferiu o seu direito possa beneficiar-se dele sem incômodo” (HOBBES, 2010, p. 73). É uma ação de renúncia do próprio direito de usufruir algo, ao tempo em que declara a intenção de não oferecer oposição a quem quiser se apossar de tal coisa ou pessoa.

A transferência do direito pode acontecer de modos variados, a saber, em primeiro lugar pela doação e em segundo lugar, pelo contrato: “quando um homem transfere seu direito, tendo em vista um benefício recíproco” (HOBBES, 2010, p. 74). No cerne de cada contrato está a confiança de que ambas as partes irão cumprir o acordado. É justamente essa confiança que gera a segurança para “desfrutar o que é acordado entre elas” (HOBBES, 2010, p. 74). Sendo assim, completa Hobbes, “ou ambos os contratantes confiam, ou nenhum dos dois confia, ou, ainda, um deles confia e o outro não” (HOBBES, 2010, p. 75).

No contrato, uma vez que ele consiste na confiança de um em relação ao outro, aquele que primeiro cumpre sua parte, se expõe à cobiça do outro, dada a natureza humana que o dispõe a ter vantagem em tudo. Desse modo, o poder coercitivo é o que pode dar validade ao pacto, “já que aquele que cumpre primeiro não tem nenhum motivo razoável para duvidar do cumprimento do outro, o qual pode ser compelido a tanto” (HOBBES, 2010, p. 75).

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Hobbes questiona a posição daqueles que defendem que um pacto não pode ser celebrado diante do medo de uma das partes. Para ele, quando se age por medo, não significa que a ação não seja voluntária. E essa tese é, justamente, decorrente daquela que diz estar o homem, no estado de natureza, agindo para a própria defesa e segurança. Desse modo, a ação do homem é motivada pelo medo, isto é, ele age tendo em vista sua segurança, por medo de que o outro possa invadir o que é seu e mesmo, dominá-lo.

Hobbes salienta que enquanto ainda existir uma situação onde os homens possam se atacar mutuamente e não houver segurança nas relações entre eles, tais homens irão continuar no estado de guerra, e desse modo, todas as suas ações serão empregadas no sentido de se defender, de se proteger (HOBBES, 2010).

Nesse contexto, o filósofo diz que “[...] a ajuda mútua é necessária para a defesa, assim como o medo mútuo é necessário para a paz” (HOBBES, 2010, p. 97). Contudo, tal ajuda mútua não poderá surtir efeitos caso todos os homens que se reúnem para a mútua defesa, não “dirijam suas ações para um único e mesmo fim” e é justamente essa direção para o mesmo fim que se chama “consenso” (HOBBES, 2010, p. 97). Tal consenso é causado ou pelo medo do invasor iminente; ou pela esperança de uma conquista ou pilhagem, no entanto, salienta Hobbes, que dada a diversidade dos juízos e paixões, tal consenso não pode perdurar sem a presença de um medo mútuo e comum que os possa governar (HOBBES, 2010).

Para Hobbes, “a concórdia entre os homens é artificial e resulta de um pacto” (HOBBES, 2010, p. 99). Assim, o consenso que equivale à “[...] concorrência da vontade de muitos homens com vistas a uma única ação” (HOBBES, 2010, p. 99) não consegue fornecer segurança suficiente para a existência da paz entre os homens, “caso esses homens não erijam algum poder comum, que lhes infunda medo, coagindo-os assim tanto a manter a paz entre si como a juntar suas forças contra um inimigo comum” (HOBBES, 2010, p. 99). A isso, Hobbes chama de “união” que é “aquilo que envolve ou inclui as vontades de muitos na vontade de um só, ou na vontade da maior parte de determinado número de homens, o que equivale a dizer, na vontade de um único homem ou de um conselho” (HOBBES, 2010, p. 99).

E como se realiza tal união? Segundo Hobbes “a realização de uma união consiste em que por um pacto cada um se obrigue para com um único e mesmo homem, ou para com um único e mesmo conselho, nomeado e determinado por todos a executar as ações que o dito homem ou conselho lhes ordene que faça” (HOBBES, 2010, p. 99), se privado de fazer, por outro lado, tudo aquilo que é proibido por esse homem ou por esse conselho. Aqui Hobbes deixa claro que a ação do homem é voluntária apenas no início.

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No momento em que “um homem concorda em sujeitar a sua vontade ao comando de outrem, ele se obriga a isto: a resignar a sua força e os meios de que dispõe àquele que ele concorda em obedecer” (HOBBES, 2010, p. 100), desse modo, “aquele que deve comandar pode, pelo uso de todos os meios e forças deles, inspirar o terror com vistas a ajudar a vontade de todos em uma unidade e concórdia entre si” (HOBBES, 2010, p.100). A essa união Hobbes chama “corpo político ou sociedade civil” (HOBBES, 2010, p. 100). Tal sociedade civil pode, segundo o filósofo, ser definida como um agrupamento de uma multidão que se reúne em torno de uma única pessoa, “por meio de um poder comum, para sua paz, defesa e benefício comuns” (HOBBES, 2010, p. 100).

É desse modo que Hobbes vê a validade do poder soberano que consiste naquele poder e naquela força que foi transferida por cada um, mediante um pacto sendo que, tal transferência significa, na prática, que cada um abriu mão do seu direito de resistência e assim, se tornou súdito do poder soberano, tendo em vista a própria segurança e a paz. Hobbes deixa claro esse ponto quando diz que “a causa que em geral leva um homem a tornar-se súdito de outrem é [...] o medo de não poder se preservar de outro modo” (HOBBES, 2010, p. 101). Nesse sentido, ele fala da república que consiste na sujeição dos homens por meio da “mútua concordância” entre eles.

A ereção do poder soberano, surge, no sistema hobbesiano, como algo que o homem não pode evitar se quiser usufruir da liberdade e dos seus direitos. Como foi dito anteriormente, a ausência de um poder comum gera, no meio dos homens, uma incapacidade de conviver em sociedade. Sem tal poder, os homens se encontram no estado de guerra e isso é contrário àquilo que eles esperam obter.

Assim, a vida no estado de natureza que engendra os conflitos, precisa dar espaço à possibilidade de convivência em sociedade, que é decorrente do contrato estabelecido entre os homens e da transferência do direito de cada um a alguém que vai exercer o poder comum e manter a ordem e a paz.

Nesse sentido, a paz é algo artificial, vindo a surgir como efeito do contrato social e da ereção de um poder soberano. De acordo com Marques “um dos objetivos da política pode vir a ser a contenção das diferenças intelectuais naturais pela imposição de uma igualdade política e jurídica artificial” (MARQUES, 2009, p. 2), ou seja, cria-se artificialmente uma igualdade no plano político e jurídico que exerce a função de conter a força da igualdade entre os homens no estado de natureza.

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No contexto de ereção de um poder comum, Hobbes passa a discorrer a respeito da república. Para conceituar a república como a reunião de uma multidão de homens que fazem um pacto para se defender mutuamente e lutar contra inimigos comuns, Hobbes mostra quão problemático é falar em “multidão” uma vez que, segundo ele, em primeiro lugar só se pode dizer que uma ação foi ação da multidão se, cada um individualmente concordou com a ação.

Em segundo lugar, mesmo que cada homem de dada multidão tenha decidido pela união “[...] eles encontram-se ainda naquele estado em que todo homem tem direito a todas as coisas” (HOBBES, 2010, p. 106), isto é, o estado de guerra no qual eles nada podem usufruir uma vez que, todos tendo direito a tudo, reina entre eles a desconfiança e o medo mútuos.

Assim, afirma Hobbes, eles devem “[...] consentir, cada qual expressamente, em algo que os aproxime mais de seus fins” (HOBBES, 2010, p. 106), o que, na visão do autor, nada mais é do que aceitar a vontade “da maioria de todos eles, ou a vontade da maioria de determinado número de homens por eles escolhidos e nomeados; ou, enfim, que aceitem que a vontade de um único homem implique a vontade de todos e seja tomada como tal” (HOBBES, 2010, p.106), desse modo, eles terão formado aquilo que Hobbes chamou de “corpo político”. Hobbes salienta que, a chave para avaliar se uma república foi, de fato, estabelecida, é a questão da segurança (HOBBES, 2010). Dito de outro modo, se uma república está estabelecida é sinal de que os homens renunciaram ao seu direito e assim, por meio do pacto, há um estado de segurança. Quando tal estado de segurança não se efetiva, não há república, e cada homem, continuando no estado de natureza, se defende com as próprias forças e ainda se encontra no estado de guerra.

No entanto, para que tal estado de segurança se efetue, a partir dos pactos estabelecidos, faz-se necessário que se erija “um poder de coerção” (HOBBES, 2010, p. 108) uma vez que “a vontade da maioria dos homens é governada apenas pelo medo, e que onde não há poder de coerção, não há medo” (HOBBES, 2010, p. 108).

Segundo Ribeiro, “o soberano representante age em nome dos súditos, não por amor a eles; por isso não é um estrato a mais na sociedade, mas o soberano; [...]” (RIBEIRO, 2004, p. 46). Essa é a função do Estado, a saber, estar acima das pessoas, estabelecendo normas legais para que, sendo cumpridas, o estado de segurança seja estabelecido e mantido e assim, a paz almejada no contrato social, possa se efetivar.

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15 CONSIDERAÇÕES

Pode-se dizer que o sistema hobbesiano fundamenta a república numa concepção de paz social percebida como um estado de segurança entre os homens, que decorre da criação do estado, como um poder soberano que estabelece regras de convivência e funda o corpo social. Tal estado de segurança se opõe ao estado de guerra que é a situação onde tanto no plano individual, quanto no social, político e econômico, não há possibilidade de se chegar ao usufruto do direito, à vivência da liberdade e, consequentemente, da paz.

Nesse sentido, à luz de tudo o que foi dito até aqui, é possível perceber que a paz à qual Hobbes se refere, e que fundamenta o contrato social, é algo que atende às aspirações do homem, ainda no estado de natureza uma vez que, conforme foi dito, os homens tendem para seus fins, ou seja, procuram aquilo que pode lhes realizar.

Se no estado de guerra, a realização humana não é possibilitada por causa da guerra que acontece de todos contra todos e da consequente situação de insegurança social, seria o contrato, aquele caminho adequado para que o homem pudesse se realizar. No entanto, pode-se notar que pode-se trata de um paradoxo. O homem sai de um estado de guerra, no qual é impedido de gozar seus direitos e se submete ao poder soberano, na tentativa de gozar direitos, mas, por outro lado, aceitando que, será esse soberano, a saber, o estado, quem irá cercear sua liberdade.

REFERÊNCIAS

CECCARELLI, M. B.; BARROS, Douglas Ferreira. Hobbes o contrato e a igualdade. Anais do II Encontro de Iniciação em Desenvolvimento Tecnológico e inovação. Campinas, SP: PUC, 2012. Disponível em: <www.puc-campinas.edu.br/websist/Rep/.../2012822_91834 _537765803_resarc.pdf>. Acesso em: 20 nov. 2016.

GASKIN, J. C. A. Introdução. In. HOBBES, T. Os elementos da Lei natural e política. Tradução Bruno Simões. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010.

HOBBES, T. Leviatã. Tradução João Paulo Monteiro e Maria Beatriz Nizza da Silva. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

HOBBES, T. Os elementos da Lei natural e política. Tradução Bruno Simões. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010.

MARQUES, José Oscar de Almeida. Hobbes e a medida da desigualdade entre os homens. In. Cadernos de Ética e Filosofia Política. São Paulo: FFLCH-USP, n. 14, 2009, p. 73-101. Disponível em: <www.unicamp.br/~jmarques/pesq/Hobbes_e_a_medida_da_desigualdade. pdf>. Acesso em: 15 nov. 2016.

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RIBEIRO, Renato J. Ao leitor sem medo: Hobbes escrevendo contra o seu tempo. 2. ed. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2004.

Referências

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