ANÁLISE DO COMPORTAMENTO VISUAL E DA TOMADA DE DECISÃO NO VOLEIBOL
Belo Horizonte
Universidade Federal de Minas Gerais
Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional 2015
ANÁLISE DO COMPORTAMENTO VISUAL E DA TOMADA DE DECISÃO NO VOLEIBOL
Dissertação apresentada ao Programa de Pós Graduação em Ciências do Esporte da Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional da Universidade Federal de Minas Gerais, como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre em Ciências do Esporte.
Área de concentração: Metodologia do Treinamento Esportivo
Orientador: Prof. Dr. Pablo Juan Greco
Belo Horizonte
Universidade Federal de Minas Gerais
Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional 2015
Dedico este trabalho aos meus familiares, à minha esposa Marina Vilas Boas, aos meus verdadeiros amigos e aos grandes professores que tive, principalmente o meu orientador Prof. Dr. Pablo Juan Greco. Obrigado por tudo!
Agradeço em primeiro lugar a Deus, por ser essencial na minha vida, pela saúde, força e coragem, e por iluminar o meu caminho durante toda esta jornada, sendo meu socorro presente nas horas de angústia.
Agradeço à minha esposa Marina Vilas Boas pelo apoio incondicional e incentivo. Sem a sua paciência, seus conselhos, seu carinho, sua dedicação e seu infinito amor eu não teria conseguido. Tenho muita sorte de ter você ao meu lado, maravilhosa e companheira para toda a vida. Muito obrigado por tudo. Eu te amo.
Agradeço à minha família pela paciência e ajuda em tudo que precisei para chegar até aqui. A torcida de vocês pelo meu sucesso foi fundamental durante todo esse processo.
Aos meus verdadeiros amigos, meu agradecimento. Obrigado pela amizade sincera e parceria de anos, sempre apoiando e me colocando para cima nos momentos de dificuldade.
Ao meu amigo e orientador Prof. Dr. Pablo Juan Greco, agradeço pelos ensinamentos, pela confiança e paciência na orientação e incentivos. Com o sr. aprendi o quanto é fascinante fazer ciência, ser um pesquisador e querer saber sempre mais. Seus conselhos, “puxões de orelha” e nossas conversas formais e informais dentro e fora do laboratório, foram fundamentais. Obrigado pelo crescimento intelectual, profissional e principalmente pessoal.
Agradeço aos meus colegas e amigos do Centro de Estudos de Cognição e Ação (CECA), onde passamos juntos vários anos. Em especial aos meus amigos Gustavo, Ciro, Gibson e Pedro, que estiveram mais próximos de mim e me apoiaram e ajudaram em tudo que precisei durante essa caminhada. Vocês são “MITOS”!
Aos professores do UNI-BH, UFMG e UCB pelo conhecimento compartilhado. Vocês todos foram muito importantes para a minha formação.
Obrigado às instituições participantes: Minas Tênis Clube (em especial ao Cláudio Olívio, Sérgio Veloso, Yssanaie Ramires e atletas do Voleibol Juvenil), Olympico Club (em especial a Sofia Bicalho, ao Ediney Limas, Mateus Graçano e atletas do Voleibol Infanto), Colégio Militar de Belo Horizonte - CMBH (em especial ao Pablo Ramón “Pablito” e alunos do ensino médio) e aos calouros do curso de Educação Física da UFMG pela confiança, suporte, apoio e voluntariedade durante as minhas coletas. Sem vocês, nada disso seria possível e nada teria acontecido!
No esporte o sistema visual aporta ao indivíduo informações do ambiente que se relacionam entre si e confluem para a tomada de decisão (TD). O presente estudo objetiva (1) verificar o comportamento visual utilizando-se do rastreamento ocular (via Eye Tracking fixo); (2) verificar a qualidade da tomada de decisão (TD); e (3) verificar a quantidade de opções geradas nos momentos com e sem oclusão visual em cenas de vídeos reais de jogo de atletas e não atletas de voleibol. A amostra constituiu-se de 48 voluntários do sexo masculino divididos em atletas (n=25; idade média de 16,9±1 anos) e não atletas (n=23; idade média de 17,6±1,7 anos). Para análise do comportamento visual (número e duração das fixações visuais) foi utilizado o Eye Tracking SMI RED500® durante o Teste de Conhecimento Tático Declarativo no Voleibol Geral - TCTD:VbG. Para avaliação da qualidade da TD e quantidade de opções geradas, foi utilizado o relato verbal dos participantes. Nas análises do número de fixações visuais, para três variáveis com distribuição normal (Ataque de Extremidade-AE, Bloqueio-BL e Levantamento-LE) utilizou-se o teste t independente para comparação entre os dois grupos. Já para a variável com desvio significativo à normalidade (Ataque de Central-AC) recorreu-se ao teste Mann-Whitney U. Nas análises da duração das fixações visuais utilizou-se o teste Mann-Whitney U para comparação entre os grupos. Nas análises da qualidade da TD utilizou-se do teste Qui-Quadrado de proporções. Nas análises do número de opções geradas nos momentos com e sem oclusão visual, realizou-se a ANOVA two-way para os fatores grupo (atletas e não atletas) e momento (com e sem oclusão). Para as variáveis nas quais detectou-se interação entre fatores principais, realizou-se ainda análise de desdobramentos. Para a duração das fixações visuais, encontra-se uma diferença significativa na situação de AC, sendo as fixações mais rápidas realizadas pelos atletas. Para a qualidade da TD, revelam-se diferenças significativas nas situações de AE e AC quando comparados atletas e não atletas, sendo que o grupo de atletas acertou mais respostas do que o grupo de não atletas. Para a quantidade de opções geradas, em relação aos momentos (com e sem oclusão visual), observa-se uma diferença significativa sendo maior para o grupo de atletas quando comparados com o grupo de não atletas no momento com oclusão visual em todas as situações de jogo. Além disso, no momento sem oclusão gerou-se mais opções do que no momento com oclusão nos dois grupos. Diante dos resultados encontrados considera-se que jovens atletas de voleibol realizam fixações mais rápidas em situações de AC e ainda tomam decisões mais corretas em situação de ataque (AE e AC) quando comparados com não atletas. As diferentes estratégias de busca visual nos momentos com e sem oclusão evidenciaram-se
número e os tipos de opções geradas depende das estratégias utilizadas para a resolução de uma determinada ação.
Palavras-chave: Voleibol. Busca visual. Sinais relevantes. Tomada de Decisão.
In sports the visual system contributes to the individual information’s of the environment, which relate to each other and converge for decision-making (DM). This project has the intention to (1) verify the visual behavior using the eye tracking (via Eye Tracking fixed); (2) verify the quality of decision-making (DM); and (3) verify the amount of options generated in moments with and without visual occlusion in clips of real game of volleyball athletes and non-athletes. The sample was composed of 48 male volunteers divided into athletes (n=25; mean age of 16.9±1 years) and non-athletes (n=23; mean age of 17.6±1.7 years). It was used the Eye Tracking SMI RED500® to analyze the visual behavior (number and duration of the visual fixation) during the Tactical Declarative Knowledge Test in the General Volleyball - TDKT:GVb. It wasused the verbal report of the participants to evaluate the quality of DM and the amount of options generated. It was used the independent t test to compare the two groups in the analyzes of the number of visual fixation for three variables with normal distribution (End Attacking-AE, Blocking-BL and Lifting-LE). For the significant deviation to normality (Central Attacking-AC) we applied to the Mann-Whitney U test. For the duration of visual fixations we opted for the Mann-Whitney U test for comparison between groups. To analyze the quality of DM, we used the chi-square test of proportions. To analyze the number of options generated in moments with and without visual occlusion, we performed the ANOVA two-way for the group (athletes and non-athletes) and moment (with and without occlusion) factors. For the variableswhich we detect interaction between the principal facts, we performed the deployment analyze. For the duration of visual fixations, we observed a significantly difference for the AC situation, with a faster fixation realized by the athletes. For the quality of DM, significantily differences are revealed on the situations of AE and AC, when athletes and non-athletes are compared, resulting in a higher frequency of correct answers of athletes in relation of non-athletes. For the amount of options generated in moments (with and without visual occlusion), significantily differences are observed, in which, they are higher for the group of athletes compared with the non-athletes group on the moment with visual occlusion in all the game situations. Furthermore, on the moment without occlusion more options were created then on the moment with occlusion in the two groups. Given the results found, we conclude that young volleyball athletes perform faster fixations in situations of AC and take more correct decisions in attacking situation (AE and AC) compared to non-athletes. The different strategies of visual search in moments with and without occlusion are perceived as un important factor that prove the differences found on the
used for the resolution of a certain action.
Figura 1 - Fases do processo de tomada de decisão técnico-tática (KONZAG, 1981) ... 29 Figura 2 - SMART: Situation Model of Antecipated Response Consequences of Tactical
Decisions (Modelo de Antecipação das Consequências das Respostas em Situação de decisões
Táticas) (RAAB, 2007) ... 30 Figura 3 - Modelo de interação bidirecional entre a tomada de decisão, percepção e ação (OLIVEIRA et al., 2009) ... 31 Figura 4 - SMART-ER: Situation Model of Antecipated Response Consequences in Tactical
Decisions – Extended and Revised (Modelo de Antecipação das Consequências das Respostas
em Decisões Táticas – Estendido e Revisado) (RAAB, 2015) ... 33 Figura 5 – Interações dos processos de bottom-up e top-down que envolvem a organização da TD (RAAB, 2015) ... 33 Figura 6 - Foto do Eye Tracking SMI RED500® ... 52
Tabela 1. Caracterização da amostra descrita em média e desvio-padrão ... 48 Tabela 2. Média (±desvio-padrão) do número de fixações visuais entre os grupos em cada situação ... 60 Tabela 3. Média (±desvio-padrão) da duração das fixações visuais entre os grupos em cada situação ... 60 Tabela 4. Média (±desvio-padrão) da quantidade de respostas corretas (qualidade da TD) entre os grupos em cada situação ... 61 Tabela 5. Média (±desvio-padrão) da quantidade de opções geradas entre os grupos em cada situação e cada momento ... 62
AE ... Ataque de extremidade AC ... Ataque de central BL ... Bloqueio CECA ... Centro de Estudos de Cognição e Ação CVC ... Coeficiente de Validade de Conteúdo COEP ... Comitê de Ética em Pesquisas CBV ... Confederação Brasileira de Voleibol CD ... Conhecimento declarativo CP ... Conhecimento processual CTD ... Conhecimento tático declarativo CTP ... Conhecimento tático processual CNS ... Conselho nacional em saúde DP ... Desvio-padrão E-A-T ... Ensino-Aprendizagem-Treinamento EEFFTO ... Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional FIVB ... Federação Internacional de Voleibol FMV ... Federação Mineira de Voleibol IAD-VB ... Instrumento de Avaliação do Desempenho técnico-tático do voleibol JEC ... Jogos esportivos coletivos LE ... Levantamento MT ... Memória de trabalho ms ... Milissegundos SMART-ER ... Modelo de Antecipação das Consequências das Respostas em Decisões Táticas – Estendido e Revisado (Situation
Model of Antecipated Response Consequences in Tactical Decisions – Extended and Revised)
SMART ... Modelo de Antecipação das Consequências das Respostas em Situação de decisões Táticas (Situation Model of
Antecipated Response Consequences of Tactical Decisions)
TALE ... Termo de assentimento livre e esclarecido TCLE ... Termo de consentimento livre e esclarecido TD ... Tomada de decisão UFMG ... Universidade Federal de Minas Gerais
1 INTRODUÇÃO ... 13 1.1 JUSTIFICATIVA ... 17 1.2 OBJETIVOS ... 18 1.2.1 Geral ... 18 1.2.2 Específicos ... 18 1.3 HIPÓTESES ... 18 2 REVISÃO DE LITERATURA ... 20 2.1 CONHECIMENTO TÁTICO ... 21
2.1.1 Relação entre a memória e o conhecimento tático ... 24
2.2 TOMADA DE DECISÃO (TD) ... 25
2.2.1 Modelos teóricos da TD no esporte ... 28
2.2.2 Tomada de decisão (TD) no voleibol ... 34
2.3 COMPORTAMENTO VISUAL NOS ESPORTES ... 37
2.3.1 Busca visual ... 37
2.3.2 Atenção visual ... 41
2.3.3 Comportamento visual no voleibol ... 44
3 MÉTODOS ... 48
3.1 Caracterização do estudo ... 48
3.2 População e amostra ... 48
3.3 Instrumentos ... 49
3.3.1 Questionário de dados demográficos ... 49
3.3.2 Teste de Conhecimento Tático Declarativo no Voleibol Geral (TCTD:VbG) ... 49
3.3.3 Eye Tracking (rastreamento ocular) ... 51
3.4 Delineamento experimental ... 53
3.5 Procedimentos de coleta ... 55
3.6 Variáveis analisadas ... 57
3.6.1 Comportamento visual ... 57
3.6.2 Tomada de Decisão (TD) ... 57
3.7 Análise dos dados ... 57
3.7.1 Número de fixações visuais ... 57
3.7.2 Duração das fixações visuais ... 58
4 RESULTADOS ... 60
4.1 Número de fixações visuais ... 60
4.2 Duração das fixações visuais ... 60
4.3 Qualidade da Tomada de Decisão ... 61
4.4 Número de opções geradas nos momentos com e sem oclusão visual ... 61
5 DISCUSSÃO ... 63
5.1 Número de fixações visuais ... 63
5.2 Duração das fixações visuais ... 64
5.3 Qualidade da Tomada de Decisão ... 66
5.4 Número de opções geradas nos momentos com e sem oclusão visual ... 68
6 LIMITAÇÕES DO ESTUDO ... 71
7 CONCLUSÕES ... 72
REFERÊNCIAS ... 74
ANEXOS ... 97
Anexo I. Questionário de dados demográficos ... 97
Anexo II. Ficha de controle de coletas ... 98
Anexo III. Termo de concordância da instituição... 99
Anexo IV. Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE)-Voluntário ... 101
Anexo V. Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE)-Pais/Responsável ... 103
Anexo VI. Termo de Assentimento Livre e Esclarecido (TALE)-Voluntário ... 105
Anexo VII. Aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da UFMG ... 107
Anexo VIII. Artigo submetido advindo de colaboração para a dissertação de Mestrado... 108
Anexo IX. Artigo submetido advindo da dissertação de Mestrado ... 109
1. Esportes em que o contexto ambiental varia (VILA-MALDONADO et al., 2014a) de acordo com o meio ambiente, tarefa a ser executada e participantes (como exemplo: jogos esportivos coletivos)
1 INTRODUÇÃO
Os Jogos Esportivos Coletivos (JEC) são compostos por elementos táticos (cognitivos) e técnicos (motores) individuais e coletivos, que em interação com o conjunto de capacidades inerentes ao rendimento esportivo, caracterizam a complexidade do jogo (PAULA; GRECO; SOUZA, 2000; RAAB, 2003). As particularidades dos JEC consistem na presença de uma grande quantidade de combinações de movimentos e ações que são concebidas individual, coletivamente ou em pequenos grupos (MENEZES, 2012). Também destaca-se à partir da percepção do ambiente a variabilidade das situações de jogo, a velocidade do processamento das informações, e da execução das ações motoras. Ou seja, apresentam-se em interação a complexidade e a imprevisibilidade provocadas pela combinação das características citadas (MENEZES; MARQUES; NUNOMURA, 2014; RAAB, 2007).
Nos esportes abertos1, o comportamento tático solicita do atleta uma dupla tarefa: uma cognitiva (solução do problema - “o que fazer”) e outra motora (aplicar uma técnica - “como fazer”) (GRECO, 2013; RAAB, 2003), que ocorrem simultaneamente. Nesse sentido Moran (2012) destaca que a cognição não pode ser dissociada da ação motora, já que, na interação das tarefas se concretiza a tomada de decisão (TD) e a realização motora subsequente (RAAB, 2003, 2007; SILVA; GRECO, 2009; WILLIAMS; FORD, 2008; WILLIAMS; REILLY, 2000).
A TD, de acordo com Marasso et al. (2014), é a capacidade das pessoas em escolher uma entre diferentes opções em diferentes condições em um determinado tempo (momento). A TD em esportes aqui será considerada como uma “cognição em ação”, isto é, a resposta (ação) que o atleta realiza em uma situação de jogo, solicitando da cognição uma relação com os aspectos “o que fazer”, “por que fazer”, “onde e quando fazer” (GRECO, 2009b; 2013; ROTH; RAAB; GRECO, 2000; ROTH; SCHÖRER; GRECO, 2004). Sua continuidade se concretiza quando o atleta realiza a técnica (resposta motora) que está sempre em relação de dependência com os processos cognitivos (GONZAGA et al., 2013; MACQUET, 2009; SCHLAPPI-LIENHARD; HOSSNER, 2015).
Um dos focos de estudo da TD implica no entendimento das escolhas realizadas pelo participante dentro das várias opções apresentadas durante uma situação de jogo (BAR-ELI; RAAB, 2006; JOHNSON; RAAB, 2003; LABORDE; RAAB, 2013; RAAB, 2015; RAAB;
JOHNSON, 2007; VILA-MALDONADO et al., 2014b). Na pesquisa científica na área das ciências do esporte, o tempo para gerar a primeira opção e o tempo de geração de todas as opções são mais baixos em peritos. Além disso, muitas vezes a primeira escolha e a melhor escolha entre as opções não são as mesmas (RAAB; JOHNSON, 2007).
A TD pode ser influenciada por fatores como o número de alternativas e compatibilidade de estímulo-resposta (MATIAS; GRECO, 2011; SANFEY, 2007), quantidade de prática (FERNÁNDEZ-ECHEVERRÍA et al., 2014; GIL et al., 2011ab, 2013), pressão de tempo (RAAB, 2015), fatores cognitivos como a percepção (JANELLE; HATFIELD, 2008; PALMI, 2007; WILLIAMS; GRANT, 1999), atenção (AFONSO; GARGANTA; MESQUITA, 2012; BRANDT et al., 2012; HÜTTERMANN; MEMMERT, 2014, 2015; JOHNSON, 2006; OLIVEIRA; LOBINGER; RAAB, 2014), antecipação (BORDINI et al., 2015; TENENBAUM, 2003) e memória (DODDS; GRIFFIN; PLACEK, 2001; HILL; WINDMANN, 2014; FURLEY; MEMMERT, 2012, 2015), pensamento, inteligência (AFONSO; GARGANTA; MESQUITA, 2012; GRECO, 2006ab) e por fatores fisiológicos como a intensidade do exercício (JÚNIOR; ALMEIDA, 2013). Além disso, os jogadores mais experientes sabem como e quando utilizar o maior conhecimento em relação aos novatos, identificando e manipulando de forma eficiente as informações relevantes em qualquer tempo, permitindo uma TD mais rápida e bem-sucedida (ARAÚJO; AFONSO; MESQUITA, 2011; GRIME, 2009; MANN et al., 2007; MEMMERT; SIMONS, 2009; OLIVEIRA; LOBINGER; RAAB, 2014; RAAB; LABORDE, 2011).
Conhecer o funcionamento dos processos decisionais pode ajudar a melhorar o rendimento dos esportistas peritos e a otimizar a formação dos iniciantes (VILA-MALDONADO et al., 2014b). Porém, Raab e Harwood (2015) citam que ainda há lacunas no conhecimento sobre os processos que impulsionam o desenvolvimento da perícia esportiva e fora dos esportes.
Dentre os vários JEC, o voleibol é um jogo de oposição-colaboração, no qual a ação de uma equipe se desenvolve em um espaço separado daquele do adversário (MORENO, 1994). Essa modalidade diferencia-se dos outros esportes coletivos como futebol, futsal, basquete, handebol, ente outros, uma vez que no voleibol não se apresenta a invasão da quadra adversária, bem como as situações de confronto simultâneo ataque-defesa com a outra equipe se dão em espaços separados (MATIAS; GRECO, 2009ab). A interação entre as duas equipes opostas com essas características leva o surgimento de padrões de jogo únicos. Esta especificidade está fortemente relacionada com as condições momentâneas e eventos críticos do jogo devido à sua constante variabilidade (AFONSO et al., 2012c).
As análises no voleibol realizam-se para observar, por exemplo, fatores que afetam os níveis de desempenho de atletas e da equipe, para tal leva-se em consideração parâmetros técnicos, táticos (ARAÚJO; NEVES; MESQUITA, 2012; CASTRO et al., 2013; COSTA et
al., 2013; FERNÁNDEZ-ECHEVERRÍA et al., 2014; GIL et al., 2011ab, 2013; IGLESIAS et al., 2005; MATIAS; GRECO, 2013; MORENO et al., 2006ab; PORATH et al., 2012),
tomada de decisão (SCHLAPPI-LIENHARD; HOSSNER, 2015) e instruções dos treinadores (RODRIGUEZ-RUIZ et al., 2011). No voleibol verificam-se estruturas sequenciais de ações que se iniciam no saque adversário e seguem pela recepção ou passe, levantamento, ataque, bloqueio e defesa, diferentes das que estão presentes nos jogos de invasão. Nos jogos de invasão, os problemas colocados nos diferentes momentos do jogo solicitam dos praticantes o ajuste das suas ações a cada situação tática apresentada mesmo em situações de confronto de 1x1 e com carga física (AFONSO et al., 2012c; GRECO, 2011; LIMA; MARTINS-COSTA; MESQUITA, 1996).
Logicamente, diferencia-se a demanda das atividades cognitivas - de percepção e TD - e as motoras (LIMA; MATIAS; GRECO, 2012; SÁEZ-GALLEGO et al., 2013). Ou seja, solicita-se um conjunto de respostas corretas que relacionem a percepção (recepção, transmissão, interpretação e relação do estímulo) com a decisão (seleção da resposta adequada e comparação com experiências anteriores), e consequentemente à execução (elaboração, coordenação, transmissão e realização da resposta) (SÁEZ-GALLEGO et al., 2013) considerando as situações de alternância de posse de bola, que está a cada momento de um lado da quadra.
Esse conjunto de respostas solicitadas para solução da situação-problema do jogo se concretiza com o apoio do sistema visual (MEMMERT; SIMONS; GRIME, 2009; SÁEZ-GALLEGO et al., 2013; WILLIAMS; SINGER; FREHLICH, 2002). O voleibol é considerado um esporte tático e estratégico, onde as relações entre a TD e o desempenho assumem particular importância para compreender as variáveis que influenciam no jogo (ARAÚJO; AFONSO; MESQUITA, 2011) onde a experiência prévia do atleta se destaca como fator determinante (BALSER et al., 2014). A separação dos momentos percepção-tomada de decisão descritos aqui apoiam-se somente na finalidade didática, objetivando uma melhor compreensão dos processos cognitivos presentes no esporte.
Durante o jogo, uma variedade de sinais é apresentado ao jogador, ou seja, inúmeras informações sobre o ambiente e sobre a tarefa a realizar, onde o indivíduo deve considerar e escolher as melhores para tomar uma decisão (JOHNSON, 2006). Sendo assim, o indivíduo apoia-se no sistema visual, que aporta informações do ambiente que se relacionam entre si e
com a memória, e confluem para a TD (KREITZ et al., 2014; MEMMERT; SIMONS; GRIME, 2009; SÁEZ-GALLEGO et al., 2013; WILLIAMS; SINGER; FREHLICH, 2002). A memória participa da relação entre o comportamento de busca visual e a focalização da atenção (LABORDE; FURLEY; SCHEMPP, 2015) onde direciona os estímulos que a atenção detecta para o que está armazenado, utilizando-se da memória de trabalho (LOLA; TZETZIS; ZETOU, 2012; MORIYA; KOSTER; RAEDT, 2014).
Na busca por informações relevantes para a tarefa, há uma necessidade de focar a atenção visual nos sinais relevantes que levarão aos objetivos da ação (CARRASCO, 2011). Esses sinais relevantes foram aprendidos e estão armazenados na memória, fazem parte do conhecimento tático do indivíduo. A função da atenção consiste em otimizar o desempenho de tarefas visuais, orientar o foco para pontos relevantes e conduzir o comportamento esportivo para fatores que conduzam o sucesso da tarefa (BRANDT et al., 2012; NAJEMNIK; GEISLER, 2005).
Na apresentação de cenas de vídeos, a oclusão visual objetiva extrair as informações relacionadas ao comportamento visual para a TD aproximando-se ao máximo da situação de jogo real (BORDINI et al., 2015), exibindo características favoráveis à decisões intuitivas (BELLING; SUSS; WARD, 2015ab). Já a não oclusão visual das cenas objetiva uma condição de percepção constante, obtendo-se mais tempo para a análise da ação, induzindo processos de TD dedutivos (RAAB; JOHNSON, 2007).
Durante o planejamento para solução de problemas, processos cognitivos como a atenção influenciam no comportamento do atleta, participando decisivamente tanto da TD bem como da execução das habilidades motoras. Ou seja, adquirem o status de fator determinante para um ótimo desempenho atlético esportivo (BRANDT et al., 2012; MACHADO et al., 2009).
Com o avanço tecnológico, atualmente o sistema de rastreamento ocular (denominado
Eye Tracking) permite a detecção do movimento dos olhos (GEGENFURTNER;
LEHTINEN; SALJO, 2011; VICKERS, 2007; WILLIAMS; JANELLE; DAVIDS, 2004), a análise da movimentação do globo ocular e dilatação da pupila (HANSEN; HAMMOUD, 2007; LARSSON et al., 2015; NUMMENMAA; HYÖNÄ; CALVO, 2006). O sistema utiliza principalmente do princípio de reflexão da córnea via emissão de raio infravermelho (TIEN et
al., 2014). A base do desenvolvimento da ferramenta segue os princípios metodológicos e
práticos sobre o rastreamento da trajetória ocular (BARRETO, 2012; DUCHOWSKI, 2007; SÁEZ-GALLEGO et al., 2013; TIEN et al., 2014). Assim a partir dessas alternativas que a tecnologia oferece, analisar–se-a para a presente coleta de dados, fatores relacionados com a
percepção-atenção-TD tais como: quantidade e duração das fixações visuais, qualidade da TD e quantidade de opções geradas.
Atletas peritos consideram as informações visuais para prever o efeito das ações, sendo essa capacidade de antecipação fundamental para um bom desempenho (AFONSO; MESQUITA, 2013; BALSER et al., 2014; OLIVEIRA; LOBINGER; RAAB, 2014; PIRAS; LOBIETTI; SQUATRITO, 2014). Segundo Poth et al. (2014), o monitoramento visual define-se como a preparação para a detecção de eventos visuais no ambiente. Nesse sentido, quando nos procedimentos de pesquisa se realiza o rastreamento ocular, este ocorre por meio da gravação por infravermelho da movimentação dos olhos (AFONSO et. al., 2012ab; SÁEZ-GALLEGO et al., 2013), que fornecem informações importantes para estabelecer quais os sinais relevantes em determinadas situações, e assim facilitar a elaboração de processos de ensino-aprendizagem (PIRAS; LOBIETTI; SQUATRITO, 2010; VILA-MALDONADO et
al., 2012).
1.1 JUSTIFICATIVA
O voleibol é uma modalidade esportiva que solicita do praticante um planejamento estratégico das suas ações no ataque e na defesa. Desta forma, exige-se consideravelmente o comportamento visual e o processamento cognitivo das informações do ambiente (colegas, adversários, situações dos jogadores, placar, tempo, etc.) devido à alta imprevisibilidade do jogo (SÁEZ-GALLEGO et al., 2013; ARAÚJO; AFONSO; MESQUITA, 2011; MESQUITA, 1996; VILA-MALDONADO et al., 2012, 2014ab; ARROYO et al., 2008).
Schlappi-Lienhard e Hossner (2015) citam que apesar de vários estudos examinarem a TD relacionada à percepção visual e conhecimento específico na modalidade, o atual estado das pesquisas exibe limitações referentes à (1) análise da percepção visual com os sistemas de rastreamento ocular, (2) a identificação de aspectos do jogo relevante de conhecimento de domínio específico e (3) as interações entre ambos os aspectos para a TD. Além disso, Johnson e Raab (2003) citam que a geração de opções em situações de TD é um importante contribuinte para o desenvolvimento de modelos e metodologias voltadas para a melhora da TD.
Assim torna-se importante o estudo no voleibol da (1) percepção de sinais relevantes e direcionamento da atenção para a elaboração de uma resposta utilizando-se do rastreamento ocular; (2) a análise da qualidade dessas respostas (TD); e (3) a geração de opções para a resolução de situações reais de jogo.
Considerando esses aspectos, o presente estudo justifica-se pelo interesse na busca do conhecimento sobre como ocorre o direcionamento da atenção de atletas e não atletas de voleibol durante a análise de cenas reais de jogo para a elaboração de uma resposta (TD). Isto é, conhecer o comportamento de busca visual de atletas e não atletas em cenas de voleibol recorrendo-se da utilização do rastreamento ocular via Eye Tracking, verificar a qualidade das decisões tomadas e a quantidade de opções geradas.
Além disso, em um nível mais prático, o conhecimento dos elementos que sustentam o desenvolvimento cognitivo ajuda a apontar os fatores que impactam efetivamente não só o ensino e a prática dos esportes, mas também o desempenho e a aprendizagem da TD em contextos similares, constrangidos temporalmente e com limitados recursos temporais disponíveis.
1.2 OBJETIVOS
1.2.1 Geral
O presente estudo objetiva (1) verificar o comportamento visual de atletas e não atletas de voleibol; (2) verificar a qualidade da tomada de decisão (TD); e (3) verificar a quantidade de opções geradas nos momentos com e sem oclusão visual em cenas de vídeos reais de jogo.
1.2.2 Específicos
- Analisar o número e a duração das fixações visuais de atletas e não atletas de voleibol utilizando cenas de vídeos de jogos reais com situações de TD.
- Analisar a qualidade da TD de atletas e não atletas de voleibol utilizando cenas de vídeos de jogos reais em diferentes situações.
- Analisar a quantidade de opções geradas por atletas e não atletas de voleibol utilizando cenas de vídeos de jogos reais nos momentos com e sem oclusão visual.
1.3 HIPÓTESES
H0: O comportamento visual, a qualidade da TD e a quantidade de opções geradas não se alteram quando comparados atletas e não atletas de voleibol utilizando cenas de vídeos de jogos reais com situações de TD em nenhum momento.
H1: O número de fixações visuais será menor e com maiores durações para a TD dos atletas de voleibol em comparação com não atletas nas situações de análise de cenas de vídeo de jogos reais.
H2: A qualidade da TD dos atletas em cenas reais de jogos de voleibol será melhor em comparação com não atletas.
H3: A quantidade de opções geradas será maior nos momentos sem oclusão visual nas análises das cenas reais de jogos de voleibol.
2 REVISÃO DE LITERATURA
De acordo com Moreno (1994), os JEC podem ser classificados como esportes de cooperação-oposição e as ações de jogo resultam das interações dos participantes, produzidas de forma que uma equipe coopere entre si para opor-se a outra que age também em cooperação e que se opõe ao anterior. Os JEC podem ser analisados em relação ao uso do espaço: compartilhado, quando existe invasão do campo do adversário (handebol, basquetebol) ou não (voleibol); e à forma de participação dos jogadores: alternada (squash, tênis, badminton, voleibol) ou simultânea (basquetebol, handebol, futebol, futsal) (MORENO, 1994).
Na dualidade colaboração-oposição no confronto entre os participantes no espaço de jogo, e conforme as alternativas que o regulamento do jogo específico da modalidade apresenta, desenvolvem-se comportamentos táticos, ou seja, os jogadores se movimentam e realizam ações que seguem o objetivo tático específico para essa ação. Segundo Greco e Benda (1998), tática é um conjunto de processos cognitivos-motores que em determinado momento da relação espaço-tempo-energia caracterizadas na situação de jogo, conduzem à TD adequada à solução desse problema. Barbanti (2003) cita tática referindo-se às alternativas de decisão ou planos de ação que permitem resolver situações, garantindo o sucesso esportivo. A tática nas modalidades esportivas coletivas refere-se à capacidade que o atleta possui para resolver os problemas que o contexto do jogo impõe (SAAD; NASCIMENTO; MILISTETD, 2013; WILLIAMS; DAVIDS; WILLIAMS, 1999).
Na ação esportiva para obter sucesso a interdependência entre as ações de jogo se apresenta como fator diferenciador. As ações são moduladas pela eficácia dos procedimentos de jogo (SANTOS; MESQUITA 2003). Além disso, a redução do número de erros é um importante indicativo da melhoria do desempenho, ocorrendo à partir da eficiência técnica-tática (DIAS, 2004). Desta forma, torna-se necessária grande versatilidade nos planos tático, técnico e físico durante o jogo. Portanto estes aspectos tornam-se relevantes durante a elaboração do planejamento dos processos de ensino-aprendizagem-treinamento (E-A-T).
Os métodos de ensino não devem concentrar-se somente na execução de uma série de habilidades motoras, mas também na aquisição de habilidades cognitivas (GIL et al., 2014), essas habilidades oportunizam a aquisição do conhecimento tático, ao qual o jogador recorre para solução das tarefas e problemas apresentados no jogo. Diferentes metodologias de treinamento técnico-tático apresentaram efeitos relacionados a mudanças na capacidade tática no decorrer do tempo (MENDONÇA, 2014). Variáveis relacionadas à capacidade tática são
frequentemente testadas por meio de parâmetros como a competência de tomar decisões em situações reais de jogo (COSTA et al., 2007).
2.1 CONHECIMENTO TÁTICO
Na psicologia cognitiva, o conhecimento é considerado em duas formas de manifestação: declarativo (CD) e processual (CP) (ANDERSON, 1982; HOUSNER; FRENCH, 1994). Alguns autores no Brasil (ABURACHID; GRECO; SILVA, 2014; GONZAGA et al., 2014; GRECO, 2006b; LIMA; COSTA; GRECO, 2010; MATIAS; GRECO, 2010; MENDONÇA, 2014; PORATH et al., 2012) e no exterior (ARAÚJO; NEVES; MESQUITA, 2012; FERNÁNDEZ-ECHEVERRÍA et al., 2014; GARGANTA, 2001; GIL et al., 2011ab, 2013; GRÉHAIGNE; GODBOUT, 1995; WILLIAMS; DAVIDS; WILLIAMS, 1999) adotam esta divisão, ressaltando a relação do conhecimento com a tática, denominando esses, de CTD e CTP.
O caráter situacional das ações no jogo exige respostas táticas (PORATH et al., 2012), isto é, na ação o jogador realiza mentalmente constantes interações entre seu Conhecimento Tático Declarativo (CTD) e seu Conhecimento Tático Processual (CTP), ou seja, relaciona mentalmente “o que fazer” e o “como fazer”, o que lhe demanda ativar processos cognitivos que o conduzam à encontrar a TD adequada à situação que defronta (GARGANTA, 2001; GRECO, 2006ab, 2013; LIMA; COSTA; GRECO, 2010; SILVA; GRECO, 2009).
O CTD baseia-se na construção de uma rede conceitual, que permite ao atleta saber “o que fazer”, portanto, oportuniza uma extensa rede de ligações entre representações mentais e conceitos, inter-relacionando elementos cognitivos (como memória, percepção e atenção) constitutivos do processo de TD e sua realização (GRECO, 2006ab). O CTD pode ser verbalizado perante questões relacionadas com aspectos táticos sobre quais melhores formas de resolver situações de jogo, quais as melhores formas de tomar decisões, quais as funções dos jogadores nas diferentes posições e quais as estratégias básicas de defesa e ataque (GIACOMINI et al., 2011; OLIVEIRA; BELTRÃO; SILVA, 2003). Estudos mostram que o CTD é importante para o desempenho motor de peritos (WILLIAMS; DAVIDS, 1995), sendo observadas diferenças entre os atletas e treinadores com distintos níveis de experiência (ABURACHID; GRECO; SILVA, 2014; ABURACHID; MORALES; GRECO, 2013; ARAÚJO; NEVES; MESQUITA, 2012; GARCÍA-GONZÁLES et al., 2012; GIL et al., 2011b, 2012; GONZÁLEZ-VÍLLORA et al., 2013).
O CTP apresenta-se nas ações motoras visíveis do jogo, relacionadas ao “como”, “quando” e “onde” aplicar determinada técnica esportiva (GRECO, 2006ab). O CTP caracteriza-se pelo saber “como fazer”, relaciona-se à competência do jogador ao operacionalizar os elementos motores que configuram uma ação, mesmo que não seja capaz de expressá-la ou descrevê-la verbalmente (COSTA et al., 2010; FERNÁNDEZ-ECHEVERRÍA et al., 2014; OLIVEIRA; BELTRÃO; SILVA, 2003; WILLIAMS; DAVIDS; WILLIAMS, 1999). Como a representação do CP se dá via recurso da memória não declarativa, em muitos casos os peritos podem não ter consciência dos processos por meio dos quais eles se apoiaram para produzir essas soluções (MAXWELL; MASTERS; EVES, 2003). O conhecimento pode ser investigado também no domínio do conhecimento estratégico (ABERNETHY; THOMAS; THOMAS, 1993; ARAÚJO; NEVES; MESQUITA, 2012; GRÉHAIGNE; GODBOUT; BOUTHIER, 2001; THOMAS; THOMAS, 1994). Alexander e Judy (1988) citam que o conhecimento estratégico é uma forma especial do CP, uma forma de conhecimento específico que transmite a compreensão do quando e onde aceder determinados fatos ou aplicar procedimentos particulares, dependente dos constrangimentos situacionais que o jogador defronta.
Autores como Gréhaigne, Godbout e Bouthier (2001) e Thomas e Thomas (1994) diferenciam formas de comportamento tático-estratégico do jogador o qual solicita relacionar a recepção da informação com o conhecimento para a elaboração da resposta adequada, determinando nos esportes coletivos, que as ações sempre tenham uma finalidade tática conforme destacado por Garganta (2006) e Matias e Greco (2011). No voleibol, um esporte eminentemente tático-estratégico, a questão do conhecimento do jogador deve ser relevante quando pretende-se analisar diferentes variáveis condicionantes do rendimento do jogador e da equipe (MATIAS; GRECO, 2009b; QUEIROGA et al., 2010).
No voleibol, foram propostos vários instrumentos para análises do CTD e do CTP. Para o CTD, entre os que relacionam-se (1) os testes computadorizados como o “Teste de CTD – Ataque de Rede” (PAULA, 2001) para situações de ataque de rede, o “Teste de CTD – Levantador” (MATIAS; GRECO, 2009b) para situações de levantamento; e (2) os questionários para avaliação geral do CTD como o “Questionário para avaliação do CTD no voleibol” (MORENO et al., 2010) e o “Questionário para avaliação do CTD no voleibol em contexto escolar” (PRITCHARD et al., 2008), entre outros. Para o CTP, temos (1) os instrumentos de análise de jogo como o “Instrumento de Avaliação do Desempenho técnico-tático do voleibol (IAD-VB)” (COLLET et al., 2011), o “Sistema de Observação e Avaliação da distribuição no voleibol” (MOUTINHO, 1993, 2000); (2) e situações de alta competição -
os scouts utilizados pela Confederação Brasileira de Voleibol (CBV) e Federação Internacional de Voleibol (FIVB) e o “Scout de Finalização” (HAIACHI et al., 2008); e (3) os questionários como o “Questionário para avaliação do CTP no voleibol” (MORENO et al., 2006a) e o “Questionário para avaliação do CTP no voleibol em contexto escolar” (PRITCHARD et al., 2008), entre outros.
Estudos atuais no voleibol relacionam o nível de prática, rendimento e o desenvolvimento técnico-tático na modalidade (ARAÚJO; NEVES; MESQUITA, 2012; CASTRO et al., 2013; COSTA et al., 2013; FERNÁNDEZ-ECHEVERRÍA et al., 2014; GIL
et al., 2011ab, 2013; IGLESIAS et al., 2005; MATIAS; GRECO, 2013; MORENO et al.,
2006ab; PORATH et al., 2012), por exemplo, nos estudos de Gil et al. (2011a) encontraram-se diferenças significativas nos níveis de CTP e CTD em relação aos anos de experiência federada na modalidade (GIL et al., 2011b) e também às diferentes categorias de jogo (GIL et
al., 2011a), sendo mais elevados à medida que aumenta-se as categorias e a experiência na
modalidade. Moreno et al. (2006b) encontraram diferenças significativas nos níveis de CTD de atletas de voleibol sendo maiores quanto maior o tempo de experiência na modalidade. Nos estudos de Fernández-Echeverría et al. (2014) e Moreno et al. (2006a) encontraram-se diferenças significativas positivas para o CTP em relação à nível de experiência federada e rendimento de jovens atletas de voleibol, demonstrando que quanto maior a experiência, maior o rendimento e maior o nível de CTP. Já Araújo, Neves e Mesquita (2012) não encontraram diferenças no CTP de jogadoras de voleibol de diferentes faixas etárias e experiência específica. Os resultados contraditórios podem ser explicados pelos diferentes níveis de experiência e faixas etárias considerados nos artigos apresentados.
Embora existam essas diferenças entre esportes devido à natureza específica do jogo, considera-se que o conhecimento está relacionado à capacidade de análise de informações relevantes e, por isso, jogadores mais experientes são capazes de antecipar mais adequadamente a ação do adversário (VANSTEENKISTE et al., 2014). No trabalho realizado por Saad, Nascimento e Milistetd (2013) com atletas de futsal e por Porath et al. (2012) com atletas de voleibol, a experiência esportiva favoreceu o maior nível de desenvolvimento técnico-tático dos jogadores. Porath et al. (2012) cita que o desempenho técnico tático dos atletas de voleibol relacionados à experiência na modalidade ocorre à partir da categoria infantil, visto que representa o inicio de uma especialização esportiva, o que não ocorre na categoria anterior (mirim). Na categoria mirim, os processos de treinamento apoiam-se mais em estruturas gerais, não abordando especificamente o aprofundamento técnico-tático.
2.1.1 Relação entre a memória e o conhecimento tático
A memória é a capacidade de adquirir, conservar e restituir informações (DORSCH; HÄCKER; STAPF, 2001). Segundo Sternberg (2010) a memória, constitui-se em uma estrutura com a função de atender a uma finalidade particular nas interações da pessoa com o ambiente. A mesma, a partir da experiência prévia desenvolve a capacidade de alterar o comportamento (HELENE; XAVIER, 2006). A memória permite aos organismos vivos ajustar o seu comportamento com base nas informações adquiridas por meio de suas experiências com o mundo (KLEIN et al., 2002), portanto, tem sua finalidade no fornecimento, de informações úteis para os sistemas de TD dos organismos (PIZZERA; RAAB, 2012). A aquisição, formação, conservação e evocação de informações constituem as principais operações mnemônicas (IZQUIERDO, 2011).
Diversos estudos citam a memória como uma estrutura complexa, constituída por formas distintas de armazenamento e dependente dos sistemas cerebrais, demonstrando que as informações são adquiridas em diferentes domínios, representadas e recuperadas (KLEIN et
al., 2002; KRUPA, 2009; POLDRACK et al., 2001; POLDRACK; PACKARD, 2003;
POLDRACK; RODRIGUEZ, 2004). Além disso, pesquisas buscam relacionar a influência da memória no conhecimento tático e na TD (AFONSO; GARGANTA; MESQUITA, 2012; FURLEY; MEMMERT, 2015; GARCÍA-GONZÁLEZ et al., 2013; KLEIN et al., 2002; LABORDE; FURLEY; SCHEMPP, 2015; LOLA; TZETZIS; ZETOU, 2012; PIZZERA; RAAB, 2012; SHARPS; HESS; RANES, 2007; SILVA; OLIVEIRA; HELENE, 2013).
Laborde, Furley e Schempp (2015) encontraram uma diminuição no desempenho da memória de trabalho (MT) a partir de uma condição de baixa pressão temporal para condição de alta pressão temporal. Os autores citam que a falha em habilidades sob pressão está relacionada com a MT de duas formas: bloqueando a capacidade limitada da MT com outras habilidades cognitivas ou carregando a MT com conhecimento declarativo, impedindo a execução de habilidades que dependem do conhecimento processual (LABORDE; FURLEY; SCHEMPP, 2015). De acordo com Lola, Tzetzis e Zetou (2012), em seu estudo com atletas novatas de voleibol, observou-se que o papel da MT é reduzido nas fases iniciais de aprendizado, sendo o acúmulo de conhecimento declarativo (por meio de processos de aprendizagem explícita) benéfico para o CTP e melhorar a TD.
De acordo com García-González et al. (2013), tenistas na situação de jogo concretizam suas decisões influenciados por duas adaptações da memória de longo prazo: (1) os perfis de planos de ação armazenados na memória de longo prazo são utilizados para
decidir e realizar a ação; e (2) os perfis de eventos atuais, scripts táticos que orientam a construção e mudanças nas ações subsequentes serão armazenados na memória de longo prazo. Embora a memória de longo prazo seja efetiva para uma capacidade de tomar decisões, ela afigura-se insuficiente (AFONSO; GARGANTA; MESQUITA, 2012), sendo necessários que os aspectos relevantes estejam presentes em um contexto muito próximo da situação de TD imediatamente disponíveis na MT (SHARPS; HESS; RANES, 2007). Ressalta-se, assim, que a memória é um processo contínuo de manifestações que interage com a TD de uma forma flexível e dinâmica, podendo exercer um papel relevante ou até mesmo irrelevante na decisão (AFONSO; GARGANTA; MESQUITA, 2012).
Além disso, a MT influencia diretamente no comportamento de busca visual e focalização da atenção (KREITZ et al., 2014) direcionando a percepção dos estímulos para o que está armazenado na MT (MORIYA; KOSTER; RAEDT, 2014). Pessoas com maior capacidade de MT são mais rápidas e precisas em tarefas atencionais (KREITZ et al., 2014; McCULLICK et al., 2006).
O conjunto das capacidades inerentes ao rendimento esportivo se inter-relacionam no momento da TD, sendo que os processos cognitivos contribuem nessa função (LIMA; COSTA; GRECO, 2010). O conhecimento influencia outros processos cognitivos (GARCÍA-GONZÁLEZ et al., 2013), dentre eles destacam-se ao realizar-se uma ação a percepção, a atenção, a antecipação, a memória, o pensamento, e a inteligência tática, processos que confluem na tomada de decisão (MATIAS; GRECO, 2010; PORATH et al., 2012; SILVA; GRECO, 2009; WILLIAMS; FORD, 2008; WILLIAMS; REILLY, 2000).
2.2 TOMADA DE DECISÃO (TD)
A tomada de decisão (TD) pode ser definida como o processo de escolha entre duas ou mais alternativas concorrentes, onde demanda-se análise da eficácia de cada opção e a estimativa de suas consequências (MATA et al., 2011). Sendo assim, de acordo com Marasso
et al. (2014), TD é a capacidade das pessoas de escolher entre diferentes opções em diferentes
condições em um determinado tempo (momento). Considera-se TD como a realização de um processo intencional, direcionado a um objetivo, sendo considerada nos esportes como uma “cognição em ação”, isto é, o solicita-se da “cognição” na elaboração de uma resposta (para realizar a ação) perante uma situação do jogo (GRECO, 2009b). Júnior e Almeida (2013) sintetizam a definição de TD considerando-a como o planejamento de uma ação intencional para atingir uma meta como resposta aos problemas encontrados. Para Raab (2005; 2007), a
TD é a escolha vinda do conhecimento para eleger a técnica correta em função da situação que se desenvolve a ação do jogo, relacionada ao contexto da situação.
A TD supõe o processo de selecionar uma resposta em um ambiente de múltiplas respostas e escolhas possíveis (SANFEY, 2007; MATIAS; GRECO, 2011). No processo decisional, encontram-se numerosas variáveis que interagem para chegar a decisão concreta em uma situação determinada de jogo (DOMÍNGUEZ et al., 2010, 2011). Isto envolve processos cognitivos (MATIAS; GRECO, 2011) como percepção (JANELLE; HATFIELD, 2008; PALMI, 2007; WILLIAMS; GRANT, 1999), atenção (AFONSO; GARGANTA; MESQUITA, 2012; BRANDT et al., 2012; HÜTTERMANN; MEMMERT, 2014, 2015; JOHNSON, 2006; OLIVEIRA; LOBINGER; RAAB, 2014), antecipação (TENENBAUM, 2003), memória (DODDS; GRIFFIN; PLACEK, 2001; FURLEY; MEMMERT, 2012, 2015; HILL; WINDMANN, 2014; PIZZERA; RAAB, 2012), pensamento, inteligência (AFONSO; GARGANTA; MESQUITA, 2012; GRECO, 2006ab) e fatores fisiológicos como a intensidade do exercício (JÚNIOR; ALMEIDA, 2013), que estarão de certa forma condicionando a TD. Vila-Maldonado et al. (2014b) destacam a importância de se conhecer os processos decisionais a fim de melhorar o rendimento dos atletas peritos e otimizar a formação e treinamento dos atletas iniciantes.
O esporte oferece uma excelente oportunidade para o estudo da TD devido uma série de fatores presentes nas ações esportivas como, por exemplo, os agentes da decisão (treinadores, jogadores), tarefas a serem executadas (alocação da bola, início do jogo) e contextos de jogo (durante o jogo, durante o tempo de espera) (JOHNSON, 2006). A imprevisibilidade no esporte dificulta a oportunidade de um adversário antecipar com sucesso o tipo de jogada a ser realizada pelo seu oponente. Ao mesmo tempo, o esporte proporciona aos pesquisadores a oportunidade de analisar uma variedade de processos cognitivos relacionados à TD (JOHNSON, 2006; LIMA; COSTA; GRECO, 2010; MATIAS; GRECO, 2011). Incluem-se assim processos como a atenção, a antecipação, a memória (JÚNIOR; ALMEIDA, 2013), o reconhecimento de padrões e reconhecimento de sinais relevantes, fatores esses que contribuem para o sucesso no jogo (RAAB, 2005, 2007).
Sabe-se que no contexto do jogo são requeridos do praticante as capacidades cognitivas de percepção, pensamento, inteligência, TD, entre outras (COSTA et al., 2007; LIMA; COSTA; GRECO, 2010; PINHO et al., 2010; RAAB, 2005, 2007), o que determina que esses processos sejam considerados no ensino-aprendizagem-treinamento. Os processos citados fazem com que o esporte seja considerado um “laboratório” ideal para o estudo dos processos cognitivos (GASPAR; FERREIRA; PÉREZ, 2005). O processo de TD ocorre pela
exploração do ambiente e de acordo com as características psicossociais do indivíduo (ARAÚJO, 2009).
A decisão motora decorre de forma simultânea nas interações do tratamento da informação conforme os processos de botton-up e top-down (RAAB, 2003). O conhecimento tático assume o papel do eixo de um pêndulo entre ambos os processos (botton-up e
top-down) (ABURACHID; GRECO, 2010; MORALES; GRECO, 2007), as relações entre estes
processos ocorre de forma pendular, oportunizando-se construir a TD. Assim, na proposta dessa alternativa para se considerar como se procede a TD, o pêndulo da troca de informações ocorre nas estruturas de recepção (percepção, antecipação e atenção) e processamento da informação (pensamento e inteligência) (MORALES; GRECO, 2007), sendo a memória crucial na relação entre o passado, presente e futuro (consequências da mesma), e na interação do CTD e CTP na ação, como afirmam Memmert e Perl (2009).
Laborde e Raab (2013) citam que a TD é muitas vezes descrita por uma escolha final já apresentada dentro de um conjunto fixo de opções, ignorando-se como as opções são geradas no ambiente ou recuperadas pela memória. Relatórios sobre experiências e eventos passados não dependem apenas da recuperação das informações armazenadas na memória, mas também de um processo de TD subjetivo (intuitivo), que desempenha um papel especial quando o traço de memória é fraco ou de difícil recuperação, colocando dúvida na decisão a ser tomada (HILL; WINDMANN, 2014).
A TD nos esportes ocorre sob condições de pressão de tempo (CAUSER; FORD, 2014) e capacidade cognitiva limitada (RAAB, 2012), o que demanda conhecimento tático adquirido previamente, ou seja, solicitam-se a extração de informações relevantes do ambiente de jogo e buscar a solução tática adequada para os diferentes cenários (SANFEY, 2007). A seleção da resposta correta em uma situação de jogo é tão importante quanto à execução motora (VILA-MALDONADO et al., 2012, 2014b). O conhecimento tático orientando a TD é um componente essencial dos jogos esportivos coletivos, refletindo a competência do participante de planejar com antecedência e influenciar as decisões dentro de uma situação (RAAB, 2007). Nos esportes, os peritos utilizam menos informações, apresentam um menor número de fixações (RAAB; LABORDE, 2011), conseguem gerar um número menor de opções com maior qualidade (JOHNSON; RAAB, 2003) e obtêm respostas mais rápidas (RAAB; JOHNSON, 2007) do que os novatos na TD (OLIVEIRA; LOBINGER; RAAB, 2014; PIZZERA; RAAB, 2012).
Tomar uma decisão tática nos esportes significa que o atleta define: o que fazer, porque fazer, quando fazer, onde fazer, e também como fazer, ou seja, com qual gesto técnico
será concretizada a TD necessária para solucionar a tarefa ou problema que o aluno/atleta se defronta na situação (JOHNSON, 2006; LIMA; MATIAS; GRECO, 2012; PINHO et al., 2010; RAAB, 2005, 2007). Em tal processo, a percepção do jogador facilita apurar os sinais relevantes da ação, sendo necessário entender a importância da alternância do foco da atenção (HÜTTERMANN; MEMMERT, 2015), a antecipação e o controle visual, bem como a atenção orientada, o tempo de decisão (CAUSER; FORD, 2014; JOHNSON; RAAB, 2003; LABORDE; RAAB, 2013; PIZZERA; RAAB, 2012; RAAB; JONHSON, 2007; RAAB; LABORDE, 2011) que conduzem a uma TD eficiente (WILLIAMS; FORD, 2008; WILLIAMS; REILLY, 2000), observação dos detalhes do adversário, o contexto externo, contexto situacional, os movimentos do adversário e intuição (SCHLAPPI-LIENHARD; HOSSNER, 2015).
Em primeiro lugar, a experiência (ou seja, o fato de ter vivências anteriores) determina a preferência inicial por uma opção específica. Nas situações imprevisíveis do jogo certamente existe uma predisposição por opções que são conhecidas e foram bem sucedidas anteriormente (JOHNSON, 2006). Nesse contexto a capacidade cognitiva que interfere no processo decisório é a memória (FURLEY; MEMMERT, 2012, 2015; HILL; WINDMANN, 2014; PIZZERA; RAAB, 2012), auxiliando o direcionamento da atenção e das estratégias de focalização e antecipação adotadas (JÚNIOR; ALMEIDA, 2013). Logo, aspectos relacionados à cognição tornam-se fundamentais para um rendimento satisfatório nos JEC (LIMA; MATIAS; GRECO, 2012).
2.2.1 Modelos teóricos da TD no esporte
De acordo com Greco (2009), existe uma carência de modelos teóricos que descrevam os processos geradores da TD na ação esportiva, sendo, um dos motivos da mesma explicado pelas múltiplas interações dos processos cognitivos intervenientes da decisão (conhecimento e processos subjacentes), e das influências e dos condicionantes contidos nas capacidades técnico-táticas. Esse autor ainda sugere que os principais modelos de TD em esportes agrupariam-se em: (1) Modelos sequenciais (destacando-se os trabalhos de TEMPRADO; FAMOSE, 1993; KONZAG, 1981; entre outros); (2) Modelos de comportamento decisório antecipativo - SMART (destacando-se os trabalhos de RAAB, 2003; 2007); (3) Modelo da interação bidirecional entre a TD, percepção e ação (OLIVEIRA et al., 2009); o que levara esse autor a propor um (4) Modelo Pendular (GRECO, 2006ab; 2009) relacionando as informações em contextos de interação, decorrendo-se paralelamente e não sequencialmente
como muitas vezes proposto. Mais recentemente, Raab (2015) propôs uma reformulação no modelo SMART, apresentando um modelo estendido e revisado denominado pelo autor como SMART-ER.
Nos modelos sequenciais (onde destacam-se, por exemplo, os modelos propostos por TEMPRADO; FAMOSE, 1993; KONZAG, 1981) (Figura 1) o processamento da informação distribui-se ao longo de fases, de forma sequencial, e sucedem-se sem recuperação temporal, ou seja, a informação só passa de uma fase para outra depois de ter sido tratada, o que torna mais longa a duração do respectivo processamento (TAVARES, 1995).
Figura 1 - Fases do processo de tomada de decisão técnico-tática.
Fonte: KONZAG, 1981.
Esses modelos têm sido criticados, pois nas diversas situações de jogo o atleta não teria tempo suficiente para realizar todo esse processamento de informações e cumprir todas as tarefas, bem como não observam-se possíveis mecanismos de feedback internos, o que dificulta a sua aceitação de forma incondicional (GRECO, 2009).
Perspectivas teóricas baseadas no processamento cognitivo, com eminente importância de processos top-down, ou seja, tratamento da informação de cima para baixo, do cérebro para
o ambiente (ROCA et al., 2011), e relacionadas às abordagens ecológicas, com eminente importância de processos bottom-up, ou seja, do processamento impelido pelo ambiente, denominado de baixo para cima (TRAVASSOS et al., 2013) são frequentemente adotadas, apresentando visões complementares sobre o problema. Recentemente, novas abordagens da tomada de decisão buscam ampliar as interações entre processos top-down e bottom-up. Dentre essas abordagens, encontram-se os modelos de comportamento decisório antecipativo, destaca-se o denominado “Modelo de Antecipação das Consequências das Respostas em Situação de decisões Táticas” (Situation Model of Antecipated Response Consequences of
Tactical Decisions – SMART), proposto por Raab (2003, 2007) e apresentado na figura
abaixo (Figura 2).
Figura 2 - SMART: Situation Model of Antecipated Response Consequences of Tactical Decisions
(Modelo de Antecipação das Consequências das Respostas em Situação de decisões Táticas).
Fonte: RAAB, 2007.
O SMART contempla os processos cognitivos subjacentes à TD tática considerando as duas possíveis estratégias de tratamento da informação presente na situação de jogo,
reconhecendo-a de forma explícita (top-down) ou implícita (bottom-up). Neste modelo, processos top-down e bottom-up são apresentados enquanto funções da experiência representados em classe de equivalência, ou seja, tanto processos cognitivos quanto possibilidades de ação no meio relacionam-se até a TD. Por outro lado, autores ainda explicam a TD por meio de achados no campo das teorias ecológicas. Nelas, pesquisadores apontam que a tomada de decisão emerge com menor participação das representações internas – ou seja, memória – sendo em resumo uma relação bidirecional entre a atenção (e a percepção de estímulos) e a ação (OLIVEIRA et al., 2009). Assim o modelo proposto por Oliveira et al. (2009) descreve uma interação bidirecional entre a TD e o complexo percepção-ação, como se realiza a aprendizagem e como se capta experiência para melhorar a TD (Figura 3).
Figura 3 - Modelo de interação bidirecional entre a tomada de decisão, percepção e ação.
Fonte: OLIVEIRA et al., 2009.
As interações entre a TD, percepção e ação são influenciadas pelas restrições imposta pelo meio ambiente e de acordo com o tempo, o atleta vivencia mais experiências que são guardadas na memória de curto, médio e longo prazo. Observa-se que as interações entre os elementos (TD, percepção e ação) se fortalecem à medida que se essas vivências são armazenadas na memória, sendo mais concisas e mais fortes quando se perpassa da memória
de curto, para a de médio e finalmente para a de longo prazo (representada no modelo pelas espessuras das linhas que interligam os elementos). O SMART (RAAB, 2003; 2007) e o modelo de interação bidirecional entre a TD, percepção e ação sugerido por Oliveira et al. (2009) permitem que professores e treinadores planejem processos de E-A-T considerando atividades direcionadas a concretizar a interação entre duas formas distintas de aprendizagem: explícita e implícita. Com isso, os processos de TD são modelados de forma que tanto a recepção e a elaboração de informações via top-down e bottom-up ocorra concomitantemente e sobre uma perspectiva interligada (RAAB, 2003).
O modelo pendular de Greco (2006a), modificado em Greco (2009) indica que a TD deriva-se do conhecimento tático-técnico que o atleta detém, indicando que o tratamento das informações e as decisões ocorrem de forma paralela e simultânea, inter-relacionando-se e trocando informações entre as estruturas de recepção, elaboração de informação que decorrem de maneira pendular e simultaneamente à realização da ação motora, ou seja, concretizar a TD. A ideia fundamental é de considerar o processo de TD na visão pendular (lateral e verticalmente), permitindo a compreensão de como se procede a TD. Nesse contexto o modelo facilita a compreensão de que o indivíduo organiza e codifica os sinais, relacionando-os com relacionando-os aspectrelacionando-os novrelacionando-os, sendo a estrutura do conhecimento técnico-tático (processual e declarativo) o elo para essas conexões. Nesse movimento pendular apresentam-se permanentemente, interações do conhecimento técnico-tático com as estruturas que compõe a TD. O conhecimento constitui-se no eixo de recepção e estruturação da elaboração das informações.
Logicamente a memória ocupa um papel central nesse processamento e elaboração de soluções. A estrutura perceptiva é constituída pela tríade dos processos de percepção-antecipação-atenção, já no processamento de informações destaca-se a díade pensamento-inteligência. O comportamento tático se visualiza externamente a partir da execução técnica, isto é do conhecimento processual, automatizado, internalizado na memória (GRECO, 2006ab).
No modelo pendular proposto por Greco (2006a, 2009), observa-se que a TD concretizada pode ser inteligente e/ou criativa, pois toda decisão criativa é um ato inteligente, sendo pré-requisitos a novidade, a adequação e a flexibilidade (BAR-ELI; RAAB, 2006; FURLEY; MEMMERT, 2015; MEMMERT; HÜTTERMANN; ORLICZEK, 2013; MEMMERT; PERL, 2009; ROTH; RAAB; GRECO, 2000; ROTH; SCHÖRER; GRECO, 2004; WILLIAMS; FORD, 2008; WILLIAMS; REILLY, 2000).
Ainda seguindo essa linha de modelos para a TD, atualmente Raab (2015) propõe uma mudança em seu modelo SMART, denominado pelo autor de “Modelo de Antecipação das Consequências das Respostas em Decisões Táticas – Estendido e Revisado” (Situation Model
of Antecipated Response Consequences in Tactical Decisions – Extended and Revised ) –
SMART-ER (Figura 4).
Figura 4 - SMART-ER: Situation Model of Antecipated Response Consequences in Tactical Decisions – Extended and Revised (Modelo de Antecipação das Consequências das Respostas em Decisões Táticas –
Estendido e Revisado).
Fonte: RAAB, 2015.
Segundo o autor, a manipulação dos processos de bottom-up e top-down avaliou-se aplicando-se pressão de tempo e também em situações complexas, o que envolve escolhas para a TD e reduz o acesso rápido ao conhecimento que se encontra na memória. No SMART-ER, o autor destaca quatro tipos de interações dos processos de bottom-up e
top-down que envolvem a organização da TD, descritas abaixo na figura 5.
Fonte: RAAB, 2015.
Na interação seletiva é selecionado apenas um processo (bottom-up ou top-down), não havendo uma simultaneidade entre eles; na interação competitiva, os dois processos contribuem, porém sempre há um que emerge como dominante; na interação consolidada os dois processos são envolvidos na TD, neles a ligação proporciona o direcionamento de uma resposta mais rápida. Pela sua vez, na interação corretiva descreve-se a sequência dos efeitos dos processos. As interações presentes na TD são dinâmicas e dependem das experiências prévias vivenciadas e dos seus sucessos, na utilização das mesmas armazenadas na memória (Figura 5).
Portanto o modelo SMART-ER prevê quando as interações dinâmicas entre os processos de bottom-up e top-down tem um efeito benéfico ou prejudicial no desempenho e aprendizagem dependendo de características e restrições situacionais como a complexidade ou pressão de tempo (RAAB, 2015).
Modalidades esportivas como o voleibol, exigem habilidades específicas como o reconhecimento da informação visual proporcionada pela situação de jogo, os sinais que emergem dos comportamentos dos diferentes esportistas participando direta e indiretamente da ação, a elaboração das suas estratégias de percepção e TD (condicionadas pela conexão entre o sistema visual e os lóbulos frontais do cérebro) e a produção eficiente de ações específicas resultantes da integração entre o sistema visual, cérebro e corpo (KUKLA et al., 1996; PALMI, 2007), ou seja, um complexo e delicado processo de interações entre pessoa-tarefa-ambiente, do qual emergem respostas e ações para obter-se vantagem no jogo.
A otimização do conhecimento tático (ARROYO et al., 2008), as capacidades perceptivo-visuais e de TD são imprescindíveis em esportes abertos como o voleibol, caracterizados por situações e ambiente variável (VILA-MALDONADO et al., 2012, 2014b), movimentos rápidos da bola, focalizações variadas entre oponente e ambiente (VILA-MALDONADO et al., 2014a), pressão de tempo e as opções diversas para resolução da ação (RAAB, 2003).
No estudo realizado por Pereira e Tavares (2003) com 18 levantadores não verificaram-se diferenças no tempo da TD adequada quando comparados os atletas da primeira e segunda divisões do campeonato português de voleibol, o que significa que as decisões corretas não diferiram nos tempos de resposta. Esses resultados explicam-se pelos semelhantes níveis de experiência e idades entre os atletas utilizados no estudo.
Bordini et al. (2015) realizaram um estudo com atletas masculinos de voleibol de diferentes níveis de experiência relacionando a oclusão temporal de cenas de ataque com a antecipação das respostas (TD) de defesa, encontrando-se melhores antecipações e respostas nos atletas mais experientes.
Para o Ensino-Aprendizagem-Treinamento (E-A-T) da TD nos esportes, no entanto, é importante a compreensão da lógica do jogo (RAAB, 2007). No estudo realizado por Schlappi-Lienhard e Hossner (2015) com o objetivo de identificar os fatores que influenciam nas TD de atletas de vôlei de praia em situações de defesa, constatou-se que a TD depende dos detalhes da informação emitida na situação de jogo pelo adversário, o contexto externo, o contexto situacional específico e os movimentos do adversário. Além disso, relata-se uma alta influência do comportamento visual e do domínio do conhecimento específico da modalidade. É importante que a transferência de aprendizagem considere a influência de experiências anteriores sobre a realização de uma ação em um novo contexto.
Domínguez et al. (2011) realizaram um estudo com jogadores de voleibol na etapa de formação (14 e 15 anos de idade) com o objetivo de uma intervenção com um programa de