2.3 COMPORTAMENTO VISUAL NOS ESPORTES
2.3.3 Comportamento visual no voleibol
O comportamento visual é um dos mecanismos cruciais para o uso da informação na TD. Diversos estudos analisaram as diferenças entre peritos e novatos em situações de decisão utilizando-se do sistema de rastreamento ocular (GEGENFURTNER; LEHTINEN; SALJO, 2011; VICKERS, 2007; WILLIAMS; JANELLE; DAVIDS, 2004).
Nem todos os esportes necessitam das mesmas habilidades visuais e nem todas as ações dentro de um mesmo esporte possuem as mesmas exigências perceptivas (ARROYO, 2012). A modalidade voleibol é considerada altamente visuo-motor, cujas ações demandam fundamentalmente habilidades como dinâmica visual, movimentação ocular extrínseca, visualização, coordenação entre visão e execução motora (CAMPO, 2007), rapidez perceptiva, focalização da atenção (KIOUMOURTZOGLOU et al., 2000), antecipação (LIU, 2015). Jogadores de voleibol, devido à rapidez do curso das ações e a movimentação intensa que o jogo proporciona, exigem movimentos oculares sacádicos para um melhor desempenho (JAFARZADEHPUR; AAZAMI; BOLOURI, 2007).
O voleibol é um esporte de características abertas, onde o jogador tem que se comportar de acordo com as ações do oponente e mudanças ambientais (VILA- MALDONADO et al., 2014a). Estas características específicas da modalidade (VANSTEENKISTE et al., 2014) fazem com que a visão seja um dos principais órgãos sensoriais para receber a informação do ambiente, sendo reconhecidamente uma exigência específica dessas modalidades (ARROYO, 2012).
Apesar do grande número de investigações centradas na modalidade voleibol, poucos experimentos têm-se centrado nos padrões de busca visual (VANSTEENKISTE et al., 2014) e, na maioria utiliza-se desses padrões para a comparação entre peritos e novatos (ARROYO, 2012; LIU, 2015; SCHORER et al., 2013) e tem sido, muitas vezes restrita a ações isoladas ou momentos específicos que utiliza-se de um número limitado de jogadores envolvidos (VANSTEENKISTE et al., 2014).
No estudo de Afonso e Mesquita (2013) com 15 atletas femininas de voleibol divididas em dois grupos: habilidosas e menos habilidosas utilizou-se o rastreamento ocular e relatos verbais em cenas dinâmicas de tarefas ofensivas a fim de uma maior compreensão dos mecanismos por trás da TD no esporte. Os resultados deste estudo demonstraram diferenças significativas na duração média das fixações (p=0,019), sendo que as atletas mais habilidosas realizaram fixações mais duradouras quando comparadas às atletas menos habilidosas. Nas variáveis número de fixações e número de locais de fixações não foram encontradas diferenças significativas entre os grupos.
Estudos com uma abordagem de desempenho (ALVES et al., 2013; FARROW; ABERNETHY, 2003; LIU, 2015; MANN et al., 2007; WARD; WILLIAMS, 2003) têm demonstrado que os peritos, quando comparados aos novatos, possuem mais conhecimento em tarefas mais elaboradas, fazem mais uso das informações disponíveis, detectam objetos e possuem padrões mais rápidos de busca visual no ambiente, codificam e recuperam informações de forma eficiente e tomam decisões mais rápidas e adequadas. Além disso, demonstrou-se que peritos realizam mais fixações nas tarefas relevantes e menos em áreas de tarefas não relevantes, acompanhada de fixações de curta duração e alocação da atenção seletiva (GEGENFURTNER; LEHTINEN; SALJO, 2011). As informações relevantes incluem-se, entre outros, a distância da bola, o seu ângulo, sua trajetória, velocidade e aceleração da descida e movimentos dos corpos dos adversários (LIU, 2015).
Em condições próximas do jogo real os peritos demonstram maior precisão em suas previsões quando se têm condições de oclusão de qualquer movimento pré-contato (ABERNETHY; ZAWI, 2007; ABERNETHY; ZAWI; JACKSON, 2008), demonstrando-se uma maior capacidade de previsão de passe e direção do levantamento quando comparados a jogadores novatos (VANSTEENKISTE et al., 2014). Arroyo (2012) considera que os esportistas peritos não são melhores porque possuem componentes visuais mais evoluídos ou perfeitos, e sim porque possuem uma alta capacidade de processamento de informações dos elementos chave para o rendimento.
No voleibol, quando a bola está na quadra adversária, analisa-se a qualidade da recepção, possibilidades de configuração do ataque, qualidade do passe e movimentos do levantador e atacantes (VANSTEENKISTE et al., 2014). Nessa modalidade os peritos são melhores que os novatos em tarefas relativas à atividade perceptual e antecipativa, extensão do foco de atenção, previsão e estimativa de velocidade e direção dos objetos em movimento (LIU, 2015; PIRAS; LOBIETTI; SQUATRITO, 2010).
No estudo de Piras, Lobietti e Squatrito (2010), os autores encontraram que os jogadores de voleibol peritos em comparação com os novatos, fazem um menor número de fixações de maior duração nas mãos e corpo do adversário, principalmente no levantador, tentando-se alguma informação para prever a trajetória da bola. Além disso, gastam mais tempo no voo inicial da bola, desconsiderando a fase intermediária, revelando-se uma estratégia de busca visual mais eficaz e eficiente. Já os novatos tendem a assistir toda a trajetória da bola.
Recentemente, Liu (2015) publicou um estudo de caso comparando jogadores de voleibol peritos e novatos na tarefa de bloqueio de dois tipos distintos de ataque, para tal o pesquisador utilizou cenas de vídeo e o Eye Tracking para o rastreamento ocular. O objetivo do autor visou examinar as relações entre o comportamento de busca visual e respostas antecipatórias (tempo de reação) comparando-se as estratégias utilizadas por peritos e novatos. Segundo o autor, observam-se estratégias diferentes para cada tipo de ataque, modificando os locais de fixação visual.
Afonso et al. (2012b) relataram diferentes comportamentos visuais entre atletas peritos e novatos femininas de voleibol quando joga-se seis contra seis utilizando-se o Eye Tracking como instrumento para análise. Nessa situação, atletas peritas empregaram mais fixações curtas em um grande número de locais e mais tempo de fixação em espaços intermediários (espaços funcionais, vazios na quadra adversária) antes e durante o contato com a bola. Sugere-se com esses resultados que atletas peritas de voleibol obtêm uma maior quantidade de informações utilizando-se mais eficientemente da visão periférica.
Vansteenkiste et al. (2014) realizaram um trabalho analisando o comportamento visual (estratégias de busca visual) de atletas de voleibol feminino de níveis de elite, intermediário e novatas. Utilizou-se o Eye Tracking para rastreamento ocular de cenas de vídeos com situações de ataque e tarefas de bloqueio. Relata-se que atletas mais experientes utilizam-se mais da visão periférica e não observam a bola antes da recepção. Atletas intermediários e novatos observam a direção da bola, muitas vezes fixando a visualização longe do receptador. Além disso, observa-se que atletas de elite observam espaços funcionais entre a bola e as
mãos do levantador para análise da direção do passe, enquanto atletas intermediários e novatos olham mais para o próprio levantador.
Schörer et al. (2013), realizaram um estudo com atletas femininas de voleibol com o objetivo de fornecer informações sobre as vantagens da visão (central e periférica) de peritos em comparação com novatos. Utilizaram-se vídeo clipes de situações de ataque sob três condições visuais: visão completa, visão central e visão periférica. Os autores encontraram diferenças positivas nas previsões das jogadas quando comparados os peritos com os novatos. No trabalho realizado por Vila-Maldonado et al. (2014a), não foram encontradas diferenças na antecipação, percepção periférica, habilidades visuais e velocidade de reconhecimento em testes laboratoriais entre jogadores de voleibol de diferentes experiências e com a mesma faixa etária.
3 MÉTODOS