Extensão Rural à Distância: um Estudo de Caso1
Vinícius Augusto Morais, 9º módulo de Engenharia Florestal/UFLA, [email protected]; Elias Rodrigues de Oliveira, Prof. Orientador – DAE/UFLA, Dr. em Administração,
Área: Desenvolvimento Rural e Agricultura Familiar
Palavras-chaves: agricultura familiar, cartas, extensão universitária.
1. INTRODUÇÃO
A extensão universitária é tida como um processo educativo, cultural e científico que articula o ensino e a pesquisa de forma indissociável, viabilizando a relação transformadora entre universidade e sociedade, propiciando ao acadêmico realizar atividades de caráter interdisciplinar, e, ainda, possibilitando ao mesmo a junção da teoria e a prática, vivenciando experiências tal como no campo profissional.
A geração de conhecimentos científicos, através de pesquisas, é um dos fundamentos básicos da universidade, e a difusão destes conhecimentos é de vital importância tanto para própria universidade quanto para a sociedade. Nesse contexto destacam-se produtores rurais, sobretudo, aqueles que integram o segmento da agricultura familiar que detêm menos condições materiais para se informarem e acessarem determinadas tecnologias.
Há também o fato de que, em certos casos, os resultados de trabalhos de pesquisa não chegam ou têm dificuldade de ser acessado pela comunidade, e assim não cumprindo a universidade o seu papel fundamental expresso no tripé ensino, pesquisa e extensão.
Assim sendo, o trabalho apresentado tem como objetivo relatar a experiência realizada durante a execução de um projeto anual de extensão cujo objetivo é difundir e socializar conhecimentos produzidos pela Universidade Federal de Lavras, respondendo cartas e e-mails enviados por agricultores de todo Brasil, tornando assim o conhecimento gerado na universidade acessível a todos de forma democrática. Trata-se, portanto, de um trabalho continuo que vem sendo realizado desde 2006 e que conta com o apoio da Pró-Reitoria de Extensão e Cultura (PROEC).
1 Este trabalho é parte de um projeto de extensão que vem sendo desenvolvido desde 2006 e vinculado ao
2. ALGUNS CONCEITOS IMPORTANTES 2.1. Universidade
Chauí (2001) citada por Santos (2003), em seu trabalho intitulado “A universidade hoje”, descreve a universidade como uma instituição social, cientifica e educativa, com identidade fundada em princípios, valores, regras e formas de organização que lhe são inerentes.
Na verdade, a sociedade muitas vezes desconhece as funções da universidade e talvez a própria universidade, e ao desconhecê-las não oferece o apoio necessário para desenvolvê-las. Muitas vezes a sociedade não tem consciência das potencialidades da universidade (SANTOS, 2003).
Os objetivos da universidade se traduzem por seus princípios: ensino, pesquisa e extensão, de modo a garantir a disseminação e democratização do saber científico e cultural, além da preparação de profissionais e pesquisadores embebidos do espírito científico. (CAMPOS, 1997)
As palavras ensino, pesquisa e extensão quando aparecem juntas estão, quase sempre, acompanhados da palavra indissociabilidade. O princípio da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão está expresso na Constituição Federal de 1988 no artigo 207, que trata da autonomia universitária.
Porém existem grandes entraves para implantação integral deste modelo de universidade em países em desenvolvimento, como é o caso do Brasil, pela falta de pessoal qualificado, financiamento à pesquisa e uma política nacional de educação que englobe desde a pré-escola até a pós-graduação (CAMPOS, 1997).
2.2. Extensão universitária
O termo extensão universitária não é bem compreendido talvez mais pela relação assimétrica que possui entre os dois outros componentes do tripé básico da universidade, tal seja o ensino e a pesquisa. Segundo Filho (1997), a literatura sobre extensão é muito reduzida, e se a compararmos com as correspondentes literaturas sobre ensino e pesquisa, ela é praticamente nula, ou seja, desaparece no meio destas ultimas. Diante desse hiato há que se perguntar o que deve ser feito para então se buscar um equilíbrio.
Esforços nesse sentido vêm sendo desenvolvidos ultimamente, a exemplo do que o Plano Nacional de Extensão preconiza (CORRÊA, 2003). Assim, considerando extensão como um marco conceitual o autor define extensão universitária como o processo educativo, cultural e científico que articula o ensino e a pesquisa de forma indissociável e viabiliza a relação transformadora entre a universidade e a sociedade.
Na prática da extensão universitária ocorre, na realidade, uma troca de conhecimentos, em que a universidade também aprende com a própria comunidade sobre seus valores e a cultura dessa comunidade (SILVA, 1997). Para o autor, a extensão universitária exprime a necessidade de a universidade dialogar com as questões sociais e se envolver com as mesmas, ou seja, influenciar e ser influenciada pela comunidade, possibilitando uma troca de valores entre universidade e o meio, onde a universidade leva conhecimentos e/ou assistência à comunidade ou traz até ela a comunidade, e recebe da comunidade influxos positivos e também aprende com o saber dessas comunidades. No entanto isso só verdadeiramente acontece quando no trabalho de extensão se utiliza de metodologias participativas, operando a dialogicidade segundo os princípios defendidos por Freire (1981, 1987) na construção e compartilhamento do conhecimento.
3. METODOLOGIA
A metodologia do trabalho envolve o recebimento, catalogação e respostas às cartas e e-mails enviados à UFLA, por produtores rurais de todo país, notadamente agricultores familiares, buscando solução aos problemas no cotidiano das atividades produtivas.
As cartas recebidas pela UFLA, por meio da Pró-Reitoria de Extensão e Cultura (PROEC), são repassadas a um bolsista do Programa de Extensão que as cataloga em um banco de dados especifico. Após esta etapa as cartas são apresentadas, pelo bolsista, a um especialista no assunto, solicitando deste auxilio na resposta. Com a resposta formulada a mesma é digitalizada e enviada ao solicitante por meio da PROEC.
Todas as respostas com orientação/recomendações técnicas são dadas por Professores, Técnicos e Doutorandos dos diversos departamentos da UFLA. A fim de conferir eficiência no trabalho tem-se o cuidado para que as respostas dadas sejam de fácil compreensão pelos seus autores e que as recomendações sejam exeqüíveis no contexto da agricultura familiar.
4. PRINCIPAIS RESULTADOS
Os resultados do presente trabalho consistem no relato sintetizado dos projetos de extensão realizados nos anos de 2006, 2007 e 2008, respectivamente intitulados: “Uma
Alternativa para o Pequeno Produtor”; “Extensão Rural à Distância: uma alternativa à agricultura familiar”; e “Extensão Rural à Distância: a UFLA responde”. Todos eles foram desenvolvidos com o apoio da PROEC no seu programa de Bolsa de Extensão.
No período de execução desses projetos, foram respondidas 240 cartas e 21 e-mails de todo o Brasil com os mais diversos tipos de dúvidas ligados à produção animal, vegetal, processamento de alimentos, identificação de plantas, entre outros.
O objetivo fundamental dos citados projetos foi responder às questões apresentadas por agricultores familiares de todo Brasil, que buscam na universidade, por meio de cartas ou e-mails, respostas para os mais diversos tipos de dúvidas ligados à sua lide na produção animal, vegetal, processamento de alimentos, identificação de plantas, dentre outros.
Durante os três anos de realização daqueles projetos foram recebidas cartas de 22 estados brasileiros, assim distribuídos: em 2006 foram recebidas e respondidas 91 cartas de 17 estados brasileiros; em 2007 foram recebidas e respondidas 65 cartas de 18 estados; e em 2008 foram recebidas e respondidas 87 cartas de 13 estados.
Os estados que se destacam pela procura à UFLA são: São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia e Paraná que encaminharam no período 76, 46, 31, 11 e 10, cartas, respectivamente. A quantidade de cartas recebidas e respondidas de cada estado brasileiro nos anos de 2006, 2007 e 2008 está expressa na Figura 1.
Fig. 1 - Quantidade de cartas recebidas e respondidas de cada estado brasileiro nos anos de 2006, 2007 e 2008.
As cartas recebidas no período citado foram divididas em dois grupos: um deles as cartas que continham dúvidas e outro que trazia as com pedidos de Boletins de Extensão. Porém, desde 2005 alguns destes boletins, que antes eram impressos, passaram a ser disponibilizados somente por meio digital na Home Page da editora UFLA.
Antes do início deste projeto as cartas recebidas pela UFLA, com pedidos de boletins e outras literaturas eram respondidas com o encaminhamento dos mesmos aos seus solicitantes; e as cartas que continham dúvidas eram arquivadas para serem analisadas posteriormente por um grupo de especialistas definido como “Grupo de Extensão”. Este grupo as respondia e enviava a resposta a seus remetentes. Na versão atual dessa atividade de extensão da UFLA tal procedimento de recepção, catalogação e encaminhamento aos especialistas, vem sendo desenvolvida por bolsistas de extensão que aliam conhecimento teórico com a prática quando buscam as respostas nos departamentos técnicos, discutindo-as com seus autores e mediando a comunicação entre a sociedade e a universidade.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Procurou-se neste trabalho relatar de forma breve uma importante ação extensionista que vem sendo desenvolvida por um estudante de graduação, num projeto apoiado pelo Programa de Bolsa de Extensão da UFLA.
Os resultados refletem a importância do trabalho de extensão mesmo que à distância como no caso relatado. Dada a extensão continental do país e as dificuldades de acesso à informação ou às modernas tecnologias de comunicação como a internet ou outras mídias eletrônicas, a alternativa de correspondência por meio de cartas ainda é para muitos agricultores familiares a única acessível.
Além disso, por algum motivo esses agricultores se encontram isolados do conhecimento gerado nas universidades brasileiras e isto talvez se dê pelo fato de as universidades historicamente privilegiarem mais ações de geração e difusão de tecnologias voltadas para as elites econômicas e sociais, visto que, muitas vezes, são elas as principais fontes financiadoras das pesquisas que irão gerar tais tecnologias, ficando assim no esquecimento e sem acesso aqueles brasileiros que não têm recursos para fazerem uso das inovações tecnológicas, como a internet, por exemplo.
5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CAMPOS, L. F. de L. Universidade: pesquisa e extensão. Revista Integração
ensino-pesquisa-extensão, São Paulo, n. 9, p. 143-145, mai 1997.
CORRÊA, E. J. Extensão universitária, política institucional e inclusão social. Revista
brasileira de extensão universitária, Rio de Janeiro, v. 1, n. 1, p. 12-15, jul-dez 2003.
FILHO, A. M. A. política da extensão. Revista Integração ensino-pesquisa-extensão, São Paulo, n. 9, p. 138-143, mai 1997.
FREIRE, P. Educação e mudança. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981. FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
SANTOS, C. R. A. dos. A nova missão da universidade: a inclusão social. Revista brasileira
de extensão universitária, Rio de Janeiro, v. 1, n. 1, p.7-11, jul-dez 2003.
SILVA, O. D. da. O que é extensão universitária? Revista Integração