Uma estranha
vingança
Aránzazu Rodríguez
Joelma
Alex abriu os olhos, sentindo o sangue correr cálido por seu peito. O tiro não tinha roçado o coração, mas a ferida era mais que suficiente para matá-lo, e o momento não demoraria a chegar. A cada respiração ficava mais difícil manter-se consciente, mas continuou lutando enquanto amaldiçoava aquele desejo desesperado que o impedia de abandonar-se nos braços da morte. Uma parte dele continuava esperando que ela aparecesse, o beijasse e dissesse que tudo era um engano e que o amava.
Há mais de duzentos anos Alex vaga pela terra. Traído, morreu às mãos de quem mais amava, e vive esperando a oportunidade de ressarcir-se disso. Estamos ante um homem que fez da vingança sua meta, seu motivo para seguir existindo. E quando a oportunidade chega… Elisa é uma jovem normal e simples, acossada pelas lembranças de um passado que não lhe pertence. Ingênua e inocente, não chegou nem a vislumbrar tudo o que a espera. Sua pacífica e agradável vida se vê sacudida até os
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alicerces quando um homem misterioso começa a visitá-la… Seus caminhos se encontram, e surge a magia…
PRÓLOGO
1759
Alex abriu os olhos, sentindo o sangue correr cálido por seu peito. A bala não tinha roçado o coração, mas a ferida era mais que suficiente para matá-lo, e o momento não demoraria a chegar. A cada respiração se tornava mais difícil manter-se consciente, mas continuou lutando enquanto amaldiçoava esse desejo desesperado que o impedia de abandonar-se nos braços da morte. Uma parte dele continuava esperando que ela aparecesse, o beijasse e dissesse a ele que tudo era um engano e que o amava.
A neve ao seu redor estava tingida de vermelho, o aroma do sangue não demoraria a atrair aos lobos. Esse mesmo frio era o que o mantinha consciente, mas não continuaria assim por muito tempo. Sua visão começou a falhar rapidamente, e fechou os olhos para conter as lágrimas que se acumulavam neles ao compreender a magnitude de seu engano. Não só ele pagaria as consequências. Mas agora já era muito tarde.
Uma estranha paz o invadiu, imergindo-o em algo que se assemelhava ao sonho, levando consigo todo rastro de dor. Alex sorriu, dedicando um último pensamento a sua família. Se isso era a morte… não era tão ruim.
A dor voltou, mais forte que nunca, seguida pelo prazer mais intenso que havia conhecido em toda sua existência. Tudo se tornou branco, e logo sua visão retornou.
Estranhamente, as coisas foram se tornado cada vez mais definidas, os contornos mais precisos, as cores mais vivas. E a cima de tudo, o homem que estava ajoelhado ao seu lado. Tinha os olhos fechados e um
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ricto1 de concentração no rosto. Parecia que estava
sofrendo, pois segurava o pulso esquerdo com força. Alex quis falar com ele, perguntar quem e o que era, porque essa beleza não podia ser humana. Mas captou o aroma do sangue que gotejava pela mão do homem, e o desejou desesperadamente. Ele parecia saber disso, abriu os olhos e o olhou.
- Mais? - levantou o pulso ferido em um gesto inquisitivo.
Alex não pensou, puxou o homem para si e grudou os lábios à ferida. O prazer voltou feito em ondas, ao tempo que bebia. A abominação deste ato não causava repugnância nele, como deveria ser. Era uma comunhão, um vínculo que estava acima das normas humanas. Não havia nada errado nisso, no pulso do sangue na boca, na calidez de suas veias, no abraço do homem. Não soube quanto tempo passou até que o homem retirou seu pulso e o enfaixou com um lenço.
- Parece - disse o homem que ficou muito pálido. - que já basta.
- Quem é?- perguntou Alex que se reclinou. Em sua camisa uma mancha vermelha testemunhava o ferimento, mas não restava nem sinal dela em sua pele. Estava completamente curado.
- O dilema não é quem sou, irmão. - respondeu o homem. – E sim o que sou. E o que você é.
- Não entendo - sacudiu a cabeça - estava morrendo e agora…
- Agora está morto. Nada poderá ferir você outra vez, nem a enfermidade nem o tempo nem as armas humanas. – puxou Alex para levantá-lo e fez um gesto com a mão, apontando para o bosque nevado - Contempla o mundo, irmão, pois agora é teu. Meu nome é Gabriel, e sou um vampiro. Igual a você. - sorriu - Bem-vindo à família.
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CAPÍTULO 1
O sol acabava de se pôr. Ainda se sentia o calor abrasador que tinha assediado a cidade durante todo o dia embora a brisa fresca que chegava do mar anunciasse que ia ser uma noite fria.
Alex despertou sobressaltado. Estava aí, sentia-a de novo depois de dois séculos esperando. A mesma aura, a presença. Olhou pela janela do quarto do hotel. Montões de pessoas pela rua, passeando, voltando para casa do trabalho. Poderia ser qualquer cidade do mundo, isso nunca mudaria. Amantes, amigos… tudo o que ele não podia ter. Nunca suportava contemplá-los, sentir-se tão isolado deles quando foi igual. Mas esta vez era diferente, e não ia deixar que a solidão o distraísse. Esta vez havia alguém escondido na multidão, alguém a quem ele queria encontrar.
Só tinha chegado à cidade de passagem antes de reunir-se com Gabriel em Paris. Havia sido uma enorme casualidade, ou ao menos isso pensaria se acreditasse nelas. Quem poderia imaginar que ia encontrar o motivo de sua existência nesse lugar…
Vestiu-se rapidamente logo que baixou o último raio de sol. Enquanto fosse de dia ele pareceria alguém quase normal, exceto pelos óculos do sol que não poderia tirar sob nenhuma desculpa. Mas isso não significava que saísse frequentemente à rua enquanto o sol estivesse alto. Não pertencia à minoria que gostava de sair de dia, com seus poderes minguados e seus sentidos reduzidos a um nível quase humano.
Qualquer um poderia atacá-lo durante o dia, bom, qualquer um que soubesse como atacá-lo… e para começar tinha que acreditar nele, o que era impossível nesse século. Ah, a era da tecnologia. Que maravilha.
Saiu do hotel ignorando os comentários da recepcionista a respeito das áreas noturnas da cidade para sair em uma sexta-feira. Deixando-se levar pelo
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instinto se aproximou da área histórica da cidade. Era muito tarde para os turistas e muito cedo para os adolescentes (e não tão adolescentes) com vontade de andar. Continuou caminhando até que a viu. Mas não era ela. A jovem que caminhava tranquilamente alheia a sua observação não se parecia em nada com quem devia ser. Sondando sua mente captou seu nome: Elisa.
Elisa voltava para casa depois do trabalho, como todas as tardes. Sorria enquanto o vento retirava seu cabelo do rosto, refrescando-a depois do calor da cafeteria. O vestido de verão formava redemoinhos em torno de suas pernas enquanto sapateava pelas ruelas da cidade velha. A maioria das pessoas preferia o caminho marítimo para ver o entardecer, assim o centro estava bastante vazio. E adorava essa solidão pacífica do anoitecer.
De repente, sem nenhum motivo se sentiu incômoda. Observada. Lutando contra o impulso de começar a correr, girou sobre si mesma para averiguar a causa da repentina sensação. Não havia tal causa, a rua deserta, as janelas estavam fechadas. Esfregou as têmporas dizendo-se que era apenas uma sensação, uma estúpida sensação que passaria em dez minutos se a ignorasse. Continuou caminhando, evitando o medo, cantarolando para si mesma tentando tirar da mente aquela idéia absurda. Seu apartamento ficava ainda a umas cinco ou seis ruas de distância, o que lhe pareceu uma eternidade.
Pensou que era impossível, mas a impressão de ser vigiada aumentou ainda mais, suas têmporas pulsavam, sentia em sua mente: alguém a olhava, observava-a.
- Por favor… Quem está aí?- perguntou a beira do pânico - Por favor… por que está me observando?
Alex se retirou um pouco da mente dela, dando-se conta de que a transtornava com sua presença. O pranto da jovem o inquietou mais do que deveria, fazendo-o sentir-se mau. Escondeu-se entre as sombras, esperando que não o visse.
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Nunca houve nenhuma resposta a sua pergunta, embora Elisa tampouco a esperasse.
Segurando a bolsa, pôs-se a correr sem parar até que chegou a seu apartamento e fechou a porta com chave. Sentiu-se ridícula, mas o gesto lhe deu segurança. Não podia parar de tremer, assim fez o que o sempre a relaxava: encheu a banheira de água, jogou os sais de banho com aroma de rosas e se meteu nela. A água quente a relaxava e fazia sentir-se bem, tanto que inclusive conseguiu esquecer a angústia dessa tarde e convenceu-se de que tinha sido idéia dela, que o calor a tinha transtornado.
Quando saiu enrolada em uma toalha só podia pensar no jantar e no filme que tinha planejado ver essa noite, algo romântico e agradável para chorar a vontade. Daquela vez, suas amigas não insistiram em sair na sexta-feira… e com um pouco de sorte também poderia ficar em casa no sábado, com um bom livro entre as mãos e uma taça de vinho branco à mão. Suspirou. Aos vinte e quatro anos já tinha gostos de solteirona.
Teria que comprar um gato. Pôs alguns pedaços de pizza para esquentar enquanto vestia um robe. Encolheu-se no sofá com a comida requentada em seus joelhos, e deu play.
Alex apareceu no balcão da humana. Estava dormindo, deitada no sofá e enrodilhada enquanto os créditos de um filme terminavam de passar na tela em frente dela. Tinha-a encontrado depois de tantos anos. Tudo nela havia mudado. Seus cabelos já não eram loiros, e sim vermelhos escuro. Sua pele já não era branca, tinha um tom dourado que só se conseguia passando tempo sob o sol. Respirava pausadamente envolvida em um penhoar branco que deixava descobertas suas pernas dobradas e os pés descalços. Como tinha mudado tanto? Haviam prometido a ela que a reconheceria, e o fez. Mas não era a mulher a quem queria vingar-se.
Esta jovem não parecia a mesma que o destruiu. Ficou olhando-a através do vidro, enquanto ela continuava seu pacífico sonho. Não foi o mesmo
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naquela tarde. Normalmente os seres humanos nunca detectavam sua presença, mas ela o percebeu e pôs-se a correr, refugiando-se inconscientemente no único lugar em que estaria a salvo dele. No momento.
Desgostou-o que o temesse dessa forma, que tivesse reagido fugindo ante ele. Franziu o cenho ante esse pensamento. Ele vivia para vingar-se, assim que o terror da jovem tinha que lhe dar alguma satisfação em vez de fazê-lo sentir remorsos, não é verdade? Mas em vez disso se sentia como se tivesse feito mal a uma menina, assustando-a sem motivo.
Voltou a contemplá-la. Imersa em seu sonho estava realmente bonita. Pacífica. Algo se rebelou em seu interior ante a idéia de machucá-la, mas ignorou. Disse-se que não importava, que já tinha ocorrido isto com ele antes e que saberia como dirigi-la. “Poderei resistir”, pensou enquanto olhava fixamente a curva de seu rosto, os lábios entreabertos em uma ameaça de sorriso e os cabelos roçando-a como uma carícia. O desejo de tocá-la se tornou irresistível. Apoiou as mãos contra o vidro do terraço, sabendo que estava proibido de entrar até que ela autorizasse, sabendo também que se o visse grudado a sua janela a meia-noite ia levar um susto de morte. Chamou-a mentalmente, despertando-a. Viu-a revolver-se entre as almofadas, o robe abrindo-se enquanto girava sobre si mesma, deixando ver seu pescoço e clavículas, quase até o nascimento dos seios. Uma profusão de desejo o atravessou o deixado desconcertado. Viu a si mesmo beijando aquele pescoço de cisne, separando o robe até encontrar-se com seus seios e… Basta! Tinha que deixar disso ou acabaria entrando, mesmo contra as normas.
Elisa despertou com a sensação de ter dormido muito tempo. Durante um segundo se sentiu totalmente desconcertada quando ao virar-se descobriu que não estava onde deveria estar: em sua cama. Logo recordou o filme que tinha tentado ver e que, evidentemente, teria que suspender para outro dia. Uma olhada a seu relógio a informou que passava da meia-noite. Suspirou e decidiu que o melhor plano era ir
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para a cama, dado que nem sequer conseguiu ficar acordada o tempo suficiente para terminar um triste filme de hora e meia de duração.
Saiu da sala em direção a seu dormitório, suspirando com antecipação quando viu sua cama coberta com o suave edredom de plumas. Desamarrou o robe e deslizou entre os lençóis, acolhendo com um calafrio o frescor do cetim sobre sua pele nua. Não demorou nem um minuto para adormecer, e menos ainda para começar a sonhar, o que a surpreendeu porque muito poucas vezes sonhava.
Estava em um quarto estranho, que ela nunca tinha visto, mas que sabia que lhe pertencia. Os lençóis que a envolviam eram mais ásperos que os seus, arranhado sua pele sensível. Uma calidez a envolvia, uma que não procedia dos lençóis nem das mantas. Um corpo masculino dormia contra suas costas, um de seus braços rodeando-a possessivamente, suas pernas entrelaçadas com as dela. A cabeça do homem estava apoiada perto do pescoço dela, de tal forma que sentia sua respiração.
Quando tentou mover-se para poder olhar para ele, ele despertou e falou com ela.
- Amor, já está acordada?
- Bom dia. – ouviu a si mesma responder. - Como dormiu?
- Com você ao meu lado? Impossível estar melhor - respondeu o homem enquanto depositava um beijo na curva de seu pescoço. O braço que a envolvia puxou-a para girá-la e ficar cara a cara com ela.
Se tivesse podido fazer algo, teria suspirado. O homem que a olhava era a perfeição masculina reencarnada. Os cabelos escuros caíam até os ombros dele enroscando-se em suaves cachos. Seu rosto era perfeito, a testa orgulhosa, o nariz cinzelado e o queixo um pouco arrogante. Os olhos eram assombrosamente verdes e quando sorriu covinhas se formaram em suas faces, cobertas por uma sombra de barba. O olhar desses olhos era de uma adoração absoluta, de um
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amor incondicional.
Surpreendeu-a que ela não sentisse nada por esse homem, absolutamente nada. A forma em que a olhava indicava que estava completamente apaixonado por ela, mas tudo que ela podia sentir era desejo. Um desejo intenso, mas sem estar tingido nem de ternura nem de carinho. O amor era só por parte dele, e Elisa se perguntou por que seria.
Quando ele a beijou devolveu seu beijo, acariciando seus cabelos, puxando-o contra ela. Mas tudo era falso, só luxúria. Elisa se horrorizou, apanhada dentro do sonho, tentando separar-se do homem que a amava, mas sem poder fazer nada. Estava perdida em sua própria imaginação, como se fosse só uma espectadora sem poder de decidir. Uma espectadora que o vivia em primeira pessoa.
Finalmente, terminou o beijo. Acariciou sua face, sorrindo para ele suavemente.
- Amo você. - disse. - É a luz de minha existência. - Eu também o amo. - ouviu-se responder de novo, apesar da mentira machucá-lo. Por que não podia controlar esse sonho? Ia ferir o homem que a amava, tinha certeza. Mas não podia evitar. Ouviu-se continuar falando, com essa voz que soava estranha aos seus ouvidos. - Mas tem que partir. Se meu irmão o vê partir me prenderá.
- Sabe que poderíamos evitar isso se você se casasse comigo. - respondeu ele.
- Ainda não, carinho. Sou muito jovem, e não posso fugir com você. Sabe disso, ambos sabemos.
- Não a importa que não tenha fortuna?
- Não, sabe que não. Meu amor, se puder estar com você não importa onde. Mas meu irmão precisa de mim. Ainda não aprendeu a dirigir as terras desde a morte de papai, e sabe. Não posso falhar com ele.
Mentira! Tudo isso era mentira! Elisa queria gritar. A mulher que falava, porque não podia a considerar como
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ela mesma, não o amava. Ele era seu melhor amante, e queria conservá-lo até que seu compromisso com um duque fosse oficial. Só alentava porque sabia que ele nunca ficaria com ela se estivesse comprometida com outro homem. A morte do marquês, seu pai, só era uma desculpa para pospor o casamento, para ela dava no mesmo que ele já não estivesse e as preocupações de seu irmão não a importavam no mais mínimo.
Viu-se levantar da cama e aproximar-se de um espelho de corpo inteiro. Tinha o aspecto de ser muito antigo, já que não era de vidro, e sim de metal polido. Os contornos se viam imprecisos, mas ela chegou a distinguir uma figura muito mais voluptuosa do que a que possuía. Seus seios eram grandes e seus quadris, arredondados.
Também era mais baixa, e menos delgada que o normal. Cobria-a uma cabeleira loira que chegava até além dos seus quadris, completamente lisa. Quando se aproximou mais do espelho encontrou refletido um rosto oval que tinha certa semelhança com o seu, salvo pelos olhos que eram azuis em lugar do tom violáceo que tinham os seus e que tantas preocupações lhe deu, além de serem menores e rasgados.
Quando a mulher se virou para contemplar seu amante, Elisa pôde fixar-se nos detalhes do quarto. Definitivamente, não era de sua época O quarto era de pedra, chão e paredes, embora o primeiro estivesse quase que completamente coberto com alguns tapetes enormes. O mobiliário era pesado, feito de madeira maciça, e escasso.
Havia uma cama, um armário com as portas fechadas e uma mesinha onde descansavam uma jarra e uma bacia de prata. A cama era enorme e estava situada em cima de… uma plataforma? Também tinha dossel e cortinas de veludo que a cobririam totalmente se as soltasse. As paredes estavam cobertas com tapeçarias, e mal havia janelas, que eram pouco mais que aberturas na rocha. A parede norte era coberta por uma enorme lareira, ainda acesa.