• Nenhum resultado encontrado

Vista do A metáfora na economia.

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2021

Share "Vista do A metáfora na economia."

Copied!
12
0
0

Texto

(1)

19

A metáfora na economia – um estudo com reportagens

jornalísticas

Marlene Silva Sardinha Gurpilhares Doutora em Linguística Aplicada, pela PUC/SP, professora de Linguística e de Língua Portuguesa na FATEA,

professora do Mestrado em Design, Tecnologia e Inovação, da FATEA.

Alba Luciene Thiago Licenciada em Letras, com habilitação em Inglês, pela FATEA.

Resumo

Este trabalho tem como objetivo examinar a força argumentativa da metáfora conceptual na construção do sentido do gênero discursivo “reportagem jornalística”, sobre economia. A opção por esse gênero deve-se ao fato de o mesmo ser um importante veículo de comunicação, que transmite informações atualizadas e aprofundadas, além de fazer parte do nosso cotidiano. A fonte de coleta – o jornal O Estado de São Paulo – foi escolhida devido à sua credibilidade na comunidade intelectual do país. O Corpus selecionado constituiu-se de uma reportagem jornalística, do caderno Economia & Negócios. Como fundamentação teórica, utilizamos propostas de GEARY (2011), SARDINHA (2007) e VEREZA (2007), sobre metáforas; COIMBRA (2004), KINDERMANN (2003) e MELO (2003), sobre reportagem jornalística, entre outros. Essa pesquisa teve como foco de análise, a dimensão argumentativa da metáfora e, sua análise mostrou que as expressões metafóricas, discursivamente inter-relacionadas, funcionam como fortes mecanismos de argumentação na construção do sentido do texto.

Palavras-chave

Argumentação; Economia; Metáfora Conceptual; Reportagem.

Abstract

This research has as objective to examine the argumentative strength of conceptual metaphors in the meaning construction of “economy news reporting discoursive genre”. The choice for this discoursive genre is due to the fact that this is an important méans of communication, which transmits updated and deepened information, besides making part of our day-by-day. The choice for the journal O Estado de Sao Paulo was done for the fact that it is well-qualified by the intellectual community of our country. The selected corpus was composed of news reportings, extracted from its section Economia & Negócios. As theoretical background, we used GEARY’s (2011), SARDINHA’s (2007) and VEREZA’s (2007) proposals about metaphors; COIMBRA’s (2004), KINDERMANN’s (2003) and MELO’s (2003) proposals about news reporting discoursive genre, among others. This research had as focus of analysis, the discursive dimension of metaphor, and its corpus analysis revealed that metaphorical expressions, discursively inter-related, work as strong mechanisms of argumentation, in the meaning construction of the text.

Keywords

(2)

20

Introdução

O tema abordado, a Metáfora e o Discurso Jornalístico, especificamente a reportagem sobre economia, é particularmente relevante, uma vez que contribui com a sociedade, despertando no leitor comum, um processo de conscientização a respeito das estratégias persuasivas utilizadas pelos jornalistas – sendo a metáfora uma delas – na construção do sentido do texto.

Por outro lado, visa romper com as práticas rotineiras, que acabam sempre focando a visão tradicional da metáfora, vista apenas como um ornamento linguístico ou uma figura de linguagem.

A opção pelo gênero discursivo reportagem jornalística deve-se ao fato de o mesmo ser um importante veículo de comunicação, que transmite informações atualizadas e aprofundadas a respeito de fatos relevantes que já repercutiram no organismo social, além de fazer parte do nosso cotidiano. E a fonte de coleta – o jornal O Estado de São Paulo – foi escolhida devido à sua credibilidade na comunidade intelectual do país.

A partir do exposto, esta pesquisa tem como objetivo examinar a força argumentativa das metáforas conceptuais na construção do sentido do gênero discursivo reportagem jornalística sobre economia, e tem, como foco de análise, a dimensão discursiva da metáfora, que foca em seu emprego em situações reais de linguagem em uso, como também propõe uma articulação entre os enfoques cognitivo, linguístico e pragmático.

Nossos pressupostos teóricos constam de propostas de GEARY (2011), SARDINHA (2007) e VEREZA (2007) sobre metáforas; COIMBRA (2004), KINDERMANN (2003) e MELO (2003), sobre reportagem jornalística, entre outros.

O corpus selecionado constitui-se de uma reportagem jornalística, do caderno

Economia & Negócios. E, para sua análise, propomos um modelo que segue a fundamentação

teórica exposta nessa pesquisa. O método utilizado é, portanto, estritamente bibliográfico, de abordagem qualitativa, uma vez que não emprega dados estatísticos como centro do processo de análise.

Considerações sobre a metáfora

A metáfora, ao longo dos tempos, deixou de ser um mero ornamento linguístico e passou a desempenhar uma função cognitiva. Essa mudança paradigmática tem merecido a atenção de muitos pesquisadores. Por isso, apresentaremos os principais conceitos da teoria da metáfora conceptual, bem como das abordagens da metáfora sistemática e da cognitivo-discursiva pragmática, por serem as mais relevantes para essa pesquisa.

A metáfora conceptual

De acordo com Sardinha (2007), a Teoria da Metáfora Conceptual (TMC) foi formulada por George Lakoff e Mark Johnson, linguista e filósofo americanos respectivamente, e divulgada no seu consagrado livro Metaphors We Live By, de 1980. Os conceitos principais dessa teoria são a própria noção de metáfora conceptual: “uma maneira convencional de conceitualizar um domínio de experiência em termos de outro, normalmente de modo inconsciente” (LAKOFF, 2002, p.4, apud SARDINHA, 2007, p.30); expressão metafórica, expressão linguística que exprime uma metáfora conceptual; domínio, área do

(3)

21

conhecimento ou experiência humana; mapeamentos, relações entre os domínios; e desdobramentos, inferências que fazemos a partir de uma metáfora conceptual. Com base nesses conceitos, ‘nosso casamento está indo muito bem’, é uma expressão metafórica que advém da metáfora conceptual AMOR É UMA VIAGEM, na qual amor é o domínio-alvo, abstrato, o qual desejamos conceitualizar, ao passo que viagem é o domínio-fonte, concreto, que está conceitualizando metaforicamente o amor.

Nessa teoria, o termo metáfora é sinônimo de metáfora conceptual e é uma representação cognitiva, pois existe na nossa mente e atua no nosso pensamento, sendo, portanto, abstrata. Entretanto, apesar de abstrata, a metáfora conceptual se manifesta tanto na fala quanto na escrita, por intermédio das expressões metafóricas, assim como também são acionadas automaticamente na nossa mente sem nos darmos conta de que as usamos. Dessa forma, as metáforas conceptuais ‘licenciam’ ou ‘motivam’ as expressões metafóricas, as quase não teriam sentido imediato e aparente sem esse licenciamento ou motivação, como é o caso do exemplo anterior: ‘nosso casamento está indo muito bem’, expressão metafórica que advém da metáfora conceptual AMOR É UMA VIAGEM.

Sardinha (2007) também salienta que a TMC contrapõe-se à visão lógico-positivista do mundo, propondo que não há verdades absolutas, pois as metáforas são culturais, resultantes de mapeamentos que variam entre uma cultura e outra, refletindo tanto sua ideologia como seu modo de ver o mundo. TEMPO É DINHEIRO é uma metáfora conceptual das culturas ocidentais, não tendo o mesmo sentido para os povos aborígenes, por exemplo. Segundo esse autor, o próprio título Metaphors we live by já evidencia o fato de que vivemos de acordo com as metáforas existentes na nossa cultura, bem como se quisermos fazer parte da sociedade, interagir, ser entendidos e entender o mundo, precisamos obedecer (live by) a estas metáforas que fazem parte do nosso cotidiano. Além disso, as metáforas conceptuais são em maior ou menor grau, corporificadas, possuindo uma base no corpo humano. Quando abraçamos alguém de quem gostamos muito, estamos exercendo a metáfora conceptual AFEIÇÃO É CALOR. Há também as metáforas orientacionais, que são aquelas que envolvem uma direção, como no caso BOM É PARA CIMA.

Por fim, existem muitas vertentes dessa teoria. A tradicional, de Lakoff e Gibbs, segue em grande parte os preceitos originais. Todavia, há outras que seguem apenas alguns desses pressupostos teóricos, sendo que para uma dessas, a metáfora é um fenômeno ‘social’ que busca entender como as pessoas vivem e interagem e, não um fenômeno individual ou corporificado, como o é na teoria essencialmente cognitiva. Por essa razão, o foco de suas pesquisas é a política, ideologia, produção de texto, ensino e aprendizagem de línguas, interfaceando com áreas como a análise do discurso crítica, a lexicografia, as ciências políticas e a linguística de corpus.

A metáfora sistemática

Segundo Sardinha (2007), a metáfora sistemática, também conhecida por abordagem discursiva ou metáfora em uso, é uma corrente de pesquisa que teve início por volta de 2000, com os estudos de Lynne Cameron, uma educadora inglesa. O enfoque principal dessa abordagem é a primazia dada à metáfora em uso, sendo quaisquer suposições sobre o processamento mental, um ato secundário. Portanto, ela é o oposto da teoria cognitiva da metáfora conceptual, na qual a representação mental antecede a realização linguística. Além disso, as expressões metafóricas são o foco da análise, e não as metáforas conceptuais.

Essa abordagem surgiu tanto pela grande disponibilidade de dados sobre o uso da linguagem – principalmente em formato digital, permitindo, através de softwares adequados, a percepção da sistematicidade do uso da metáfora em sua plenitude – quanto por causa do

(4)

22

ceticismo em relação às não provadas alegações sobre o funcionamento da mente pela TMC. Uma dessas alegações é a de que todas as pessoas acionam a mesma metáfora conceptual independentemente do contexto, ao passo que, na abordagem discursiva se faz necessária uma ocorrência sistemática de metáforas linguísticas, isto é, de expressões metafóricas, para alegarmos que alguma metáfora abstrata e mental está em jogo em determinado contexto.

Conforme Vereza (2007, p.490), “muito do material linguístico usado nesses estudos consiste de exemplos inventados” e, se os exemplos forem amostras reais de linguagem em uso, a sua legitimidade e eficácia podem ser garantidas. Ela ainda salienta que, “essas pesquisas pressupõem que a metáfora, mesmo como figura de pensamento, manifesta-se no âmbito da linguagem em uso, e é a partir do contexto discursivo que ela pode ser mais bem compreendida”.

De acordo com Sardinha (2007), as principais influências dessa abordagem são de Richards, Bakhtin, Firth, Sinclair e Vygotsky, de quem veio a noção de pensamento como uma ação internalizada:

Desse modo, as metáforas que conhecemos e usamos estariam disponíveis na nossa cognição por meio da abstração e da internalização de nossa experiência real. Uma metáfora como AMOR É UMA VIAGEM faz sentido para algumas pessoas porque elas foram capazes de abstrair e internalizar os conceitos de amar e viajar a partir de suas experiências (SARDINHA, 2007, p.43).

O mesmo autor conclui que, na visão discursiva, a metáfora é entendida como um processo social e não individual como o é nas visões tradicional e conceptual. Além disso, apesar de não descartar a existência de metáfora na mente e no corpo, enfatiza o seu uso recorrente e sistemático.

A metáfora e a argumentação

Segundo Vereza, vários estudiosos têm, mais recentemente, se focado na dimensão discursiva da metáfora, propondo uma articulação entre discurso e cognição. Desse modo, essas pesquisas têm se voltado para o uso da metáfora em situações reais de linguagem em uso, as quais presume a metáfora conceptual como uma ferramenta fundamental na construção de significados em determinados campos do discurso. Além disso, “a tentativa de ressaltar o aspecto social nos estudos cognitivos confere clara legitimidade ao conceito de

sócio-cognição, que não dicotomiza as noções de mente, sociedade e linguagem” (VEREZA,

2007, p.491). Pelo contrário, considera o enfoque cognitivo, bem como o pragmático, o qual pode ser associado a uma teoria geral de argumentação, com o intuito de oferecer um maior entendimento quanto ao uso da metáfora convencional ou nova, no discurso persuasivo. Assim sendo, essa pesquisadora também filia-se a esta tendência, pois também explora a dimensão argumentativa da metáfora, em especial a metáfora nova, como um recurso de natureza cognitivo-pragmática. Seguindo as propostas de Turner (2001) e Van Dijk (1990), apud Vereza (2007, p.494),

[...] adota-se uma visão que rejeita qualquer hierarquização ou até mesmo dicotomização entre a dimensão social e a cognitiva do significado: qualquer “atividade discursiva” emerge a partir de uma estrutura cognitiva sócio e discursivamente inserida.

(5)

23

Em seus estudos, Vereza optou por analisar o papel da metáfora nova na argumentação, por entender que “essa é uma das dimensões do uso da linguagem em que vários recursos linguístico-cognitivos, entre eles a metáfora, são acionados, mais explicitamente, para criar efeitos discursivos” (KOCH, 1988/2002, apud VEREZA, 2007, p.494). Essa pesquisadora propõe que, “a metáfora nova, a partir de uma cadeia de desdobramentos, textualmente coesivos, colabora, linguística, cognitiva e pragmaticamente para a força argumentativa do discurso” (VEREZA, 2007, p.496). Tais inferências, presentes em muitos textos argumentativos são vistos como um grupo de expressões metafóricas, discursivamente inter-relacionadas, denominadas nichos metafóricos.

Para concluir, Sardinha (2007) sintetiza que cada teoria ou abordagem possui um enfoque que contribui para entendermos um determinado aspecto da metáfora. Entretanto, elas apresentam alguns pontos em comum, tais como o fato de que a metáfora é um fenômeno cognitivo e um recurso habitual dos usuários de uma língua, uma vez que as pessoas se expressam metaforicamente. Adotar, portanto, apenas uma visão como a correta seria um meio de estreitar o nosso entendimento a respeito da metáfora.

Considerações sobre a reportagem

Conforme Kindermann (2003, p.30), um dos estudiosos que se destaca na área jornalística é José Marques de Melo, o qual afirma que “embora a identificação dos gêneros jornalísticos seja tarefa de pesquisadores acadêmicos, é na práxis que se busca a sua origem”.

De acordo com esse estudioso, há duas categorias de trabalhos jornalísticos: o jornalismo informativo, que engloba a nota, a notícia, a reportagem e a entrevista; e o opinativo, composto pelos gêneros editorial, comentário, artigo, resenha, coluna, crônica, caricatura e carta. Todavia, Melo (2003, p.25) enfatiza que a distinção entre essas duas categorias “corresponde a um artifício profissional e também político (...), onde a expressão ideológica assume caráter determinante. Cada processo jornalístico tem sua dimensão ideológica própria, independentemente do artifício narrativo utilizado”.

Para Kindermann (2003, p.11) a reportagem é um dos principais gêneros do jornal, porém sua constituição não é clara, uma vez que “as definições constantes nos manuais jornalísticos acadêmicos e de redação e estilo variam bastante, principalmente quanto às suas especificidades estruturais e funcionais”. Ainda acrescenta que, “um breve olhar sobre o jornal nos revela variantes da reportagem e mesmo momentos em que não é muito fácil discerni-la da notícia”.

Segundo essa pesquisadora, embora os teóricos acadêmicos que tratam do gênero jornalístico não o estabeleçam explicitamente, a reportagem pode ser caracterizada tanto como uma notícia ampliada quanto como um gênero autônomo.

A reportagem, como uma notícia ampliada, é defendida por autores como Bahia e Melo. Para Bahia (1990, p.49, apud Kindermann, 2003, p.39), a grande notícia é a reportagem, acrescentando que toda reportagem é notícia, mas o inverso não, pois a notícia não muda de natureza e sim de caráter ao evoluir para a reportagem. Isso acontece quando a notícia “se situa no detalhamento, no questionamento de causa e efeito, na interpretação e no impacto, adquirindo uma nova dimensão narrativa e ética”. Já para Melo (2003, p.65) “a notícia é o relato integral de um fato que já eclodiu no organismo social”, enquanto que “a reportagem é o relato ampliado de um acontecimento que já repercutiu no organismo social e produziu alterações que são percebidas pela instituição jornalística”.

(6)

24

jornalístico que se diferencia da notícia por vários aspectos. Para ele, “a reportagem não cuida da cobertura de um fato ou de uma série de fatos, mas do levantamento de um assunto conforme ângulo preestabelecido”. Além disso, acrescenta que a distância entre esses dois gêneros distintos se dá na prática, através do projeto de texto, isto é, da pauta, que deve indicar de que maneira o assunto deve ser abordado, que tipo de ilustrações e quantas, o tempo de apuração, os deslocamentos da equipe, o tamanho e até o estilo da matéria. Para Lage, o estilo da reportagem também é menos rígido do que o da notícia, variando de acordo com o veículo, o público e o assunto e, as informações podem aparecer em ordem decrescente de importância e por meio de uma linguagem mais livre.

Coimbra (2004, p.44) trabalha com tipologia textual e considera a dissertação, a narração e a descrição como modelos de estrutura do texto da reportagem. Para ele, na reportagem dissertativa, essa estrutura “se apoia num raciocínio explicitado através de afirmações generalizantes”, seguidas de fundamentação. Já, na reportagem narrativa, o texto contém os fatos organizados dentro de uma relação de anterioridade ou de posterioridade que mostra mudanças progressivas de estado nas pessoas ou nas coisas, através do tempo. Por último, a reportagem descritiva mostra as pessoas e coisas fixadas em um único momento, sem as mudanças progressivas que lhe traz o tempo, além de ter também como característica, o detalhamento do momento apreendido. Tanto o texto narrativo como o dissertativo podem conter trechos descritivos, da mesma forma que o texto descritivo pode ter trechos narrativos e dissertativos e, em geral o tem, pois “uma reportagem totalmente descritiva corre o risco de tornar-se discursiva ou extremamente fria” (SODRÉ e FERRARI, 1977, p.115, apud COIMBRA, 2004, p.90). Esse autor ainda salienta que “como na reportagem dissertativa a função de informar é inseparável do esforço para convencer o leitor a aceitar a informação no contexto de um raciocínio que se pretende correto, é óbvia a presença nela de argumentação”. E lembra também que os jornalistas em geral admitem que sua atividade contém alguma carga de subjetividade:

Por exemplo, o Manual geral da redação da Folha de S. Paulo (1987, p.34) diz no verbete sobre objetividade: Não existe objetividade em jornalismo. Ao redigir um texto e editá-lo, o jornalista toma uma série de decisões que são em larga medida subjetivas, influenciadas por suas posições pessoais, hábitos e emoções.

Entretanto, essa subjetividade não anula a busca da exatidão no Jornalismo. Esse mesmo manual (1987, p.30) declara que a exatidão é o elemento-chave da notícia, ou seja, da informação como puro registro dos fatos, sem comentário nem interpretação, afirmando que “a busca das informações corretas e completas é a primeira obrigação de cada jornalista”.

Por fim, esse autor faz menção à metáfora. Para ele, como um elemento articulador de imagem, a metáfora dá intensidade a um fragmento de texto que, sem ela, poderia tornar-se sem graça. Um fragmento descritivo sobre a fragilidade da economia brasileira, cientificamente correto, pode ter mais rigor, mas não será tão atraente quanto a frase: “A economia brasileira está na corda bamba”. Além disso, a metáfora evita o hermetismo.

O corpus

O corpus selecionado para essa pesquisa constitui-se de uma reportagem do jornal O

Estado de São Paulo, do Caderno Economia & Negócios, conforme Anexo A.

O critério de escolha desse material deve-se à importância de refletir sobre o poder persuasivo das metáforas no discurso jornalístico sobre economia, uma vez que jornalistas se

(7)

25

valem desses poderosos recursos tanto para criar um estilo próprio, quanto para formular uma linguagem mais acessível ao entendimento do leitor comum – especialmente na área da Economia, traduzindo o complicado “economês”.

As metáforas estão presentes em textos cotidianos de uma forma mais especializada do que se imagina. Pesquisas recentes constatam uma relação estreita, por exemplo, entre metáforas econômicas e a área da saúde (‘O mercado está na UTI’, Brasil recebe alta do FMI’, (...). No campo da política, tornou-se comum o apego ao repertório da guerra e do esporte (‘O candidato sofreu um nocaute nas urnas’, ‘O escândalo foi um golpe para o ministro’, em que a noção de disputa está em primeiro plano (GEARY apud GUERREIRO e JUNIOR, 2011, p.16).

Geary explica que essas afinidades revelam intenções enraizadas no idioma.

Procedimentos metodológicos

Trata-se de uma pesquisa estritamente bibliográfica, de abordagem qualitativa, uma vez que não faz uso de dados estatísticos como centro do processo de análise. Considerando a fundamentação teórica exposta, o método de análise do corpus segue cinco etapas,

1) seleção do fragmento da reportagem contendo a expressão metafórica para análise. 2) exposição da expressão metafórica.

3) explanação da incongruência semântica1 que gerou a expressão metafórica. 4) relação entre a expressão metafórica e a sua força argumentativa no texto. 5) levantamento de metáforas conceptuais subjacentes.

Análise do corpus

Para uma melhor visualização, a análise do corpus, contendo as cinco etapas propostas será apresentada na Tabela 1 – Reportagem do Caderno Economia & Negócios.

1) fragmento: (...), a presidente Dilma Rousseff voltou a criticar o “tsunami monetário” na

Europa, (...)

2) expressão metafórica: “tsunami monetário”

3) incongruência semântica: literalmente, tsunami é uma onda gigantesca provocada por um maremoto. Portanto, representa um fenômeno de ordem natural, diferentemente do sentido empregado no texto jornalístico, que retrata um fenômeno econômico.

4) força argumentativa: esse excesso de liquidez no mercado global é tão grave que causou

1 Refere-se à incompatibilidade entre as porções não-metafórica e metafórica de uma expressão linguística,

quando interpretadas literalmente. Para o levantamento do sentido literal dos termos foi utilizado o Novo Dicionário da Língua Portuguesa, com exceção de ‘tsunami’, que veio do Dicionário Escolar da Língua Portuguesa.

(8)

26

um desastre econômico tão impactante quanto um tsunami.

5) metáfora conceptual subjacente: MAIOR É PIOR e RUIM É PARA CIMA.

Segue-se, portanto, a análise de alguns dos fragmentos selecionados para essa pesquisa:

1) fragmento: (...), os chefes de Estado e de governo dos dois países entraram em rota de

colisão em público, ontem, em Hannover.

2) expressão metafórica: “entraram em rota de colisão em público”.

3) incongruência semântica: uma das acepções do substantivo rota seria combate, luta, bem como caminho, direção e rumo; já o substantivo colisão, envolve um embate recíproco de dois corpos. Como ambos implicam ações físicas, ocorre incongruência semântica na expressão, pois a situação de desentendimento entre os dois países, Brasil e Alemanha, é representada através da ação verbal, que é um processo cognitivo e não físico.

4) força argumentativa: está na analogia à uma batalha, visto que as discussões e as polêmicas políticas são fortes a ponto de se assemelharem a esforço físico.

5) metáfora conceptual subjacente: POLÍTICA É UMA GUERRA.

1) fragmento: (...) advertindo que o país poderia adotar medidas para proteger o real das

“desvalorizações artificiais” de outras moedas.

2) expressão metafórica: “proteger o real das desvalorizações artificiais”.

3) incongruência semântica: o verbo proteger implica, literalmente, dispensar proteção a, tomar a defesa de alguém, revelando, portanto, incongruência semântica quando empregado com o sentido de proteger o real, a moeda vigente em nosso país, que é uma medida de valor. 4) força argumentativa: essa expressão se relaciona à metáfora da saúde, pois trata a economia como um organismo que para se manter saudável, necessita de cuidados preventivos. Assim como é importante manter o organismo saudável, também a economia precisa manter-se forte e robusta para o bom desempenho do desenvolvimento do país. 5) metáfora conceptual subjacente: ECONOMIA É UM ORGANISMO.

1) fragmento: (...), Dilma disse que a injeção de US$ 8,8 trilhões no sistema financeiro nos

últimos três anos causa “desvalorização artificial” (...)

2) expressão metafórica: “a injeção de US$ 8,8 trilhões no sistema financeiro”.

3) incongruência semântica: injeção é o ato ou efeito de injetar, de introduzir sob pressão (gás, líquido ou fluido) em um corpo. Envolve, portanto, esforço físico, gerando incongruência semântica com o termo abstrato US$ 8,8 trilhões, uma quantia representativa de valores econômicos.

4) força argumentativa: essa expressão também se relaciona à metáfora da saúde, porém agora, tratando a economia como um organismo doente e carente de cuidados. A decisão de injetar uma quantia grande de dinheiro na Economia (‘o remédio’), tomada pelos BCs de

(9)

27

países ricos (‘médico especializado’), gerou um descontentamento por parte do governo brasileiro, pois essa medida vem desvalorizando a moeda brasileira.

5) metáfora conceptual subjacente: ECONOMIA É UM ORGANISMO. 1) fragmento: (...) e “equivale a barreiras tarifárias”.

2) expressão metafórica: “barreiras tarifárias”.

3) incongruência semântica: o substantivo barreira significa um parapeito (muro ou parede), composto de madeira ou de qualquer outro material como barro, saibro, metal etc. É, portanto, um substantivo concreto e gera incongruência semântica ao representar um obstáculo econômico.

4) força argumentativa: a palavra barreira confere mais força à instabilidade econômica gerada pela consequente desvalorização do real por causa da introdução de uma quantia alta de dinheiro no mercado financeiro. Nesse contexto, podemos fazer uma analogia com uma guerra porque não está havendo espírito cooperativo, uma vez que as barreiras tarifárias podem constituir obstáculo para entrada de produto externo.

5) metáfora conceptual subjacente: POLÍTICA FINANCEIRA É UMA GUERRA.

1) fragmento: (...) O mercado de derivativos cambiais também permanece na mira do

governo.

2) expressão metafórica: “na mira do governo”.

3) incongruência semântica: o verbo mirar significa cravar a vista em; fitar os olhos em; olhar, visando; tomar como alvo. Trata-se, portanto, de um ato físico enquanto que mercado de derivativos cambiais é uma entidade (abstrata).

4) força argumentativa: Enquanto a presidente toma medidas está protegendo o país, como também colaborando com o seu desenvolvimento econômico.

5) metáfora conceptual subjacente: POLÍTICA FINANCEIRA É UMA GUERRA.

Análise dos resultados

A análise do corpus selecionado para essa pesquisa nos permitiu constatar que nossos objetivos foram realmente atingidos, pois as expressões metafóricas, discursivamente inter-relacionadas, constituem forte mecanismo argumentativo na construção do sentido, do gênero discursivo reportagem jornalística, sobre economia. Quando a presidente Dilma Rousseff utiliza a expressão “tsunami monetário”, o sentido que ela quer transmitir assume um caráter persuasivo extremamente convincente, muito mais forte do que a utilização de uma linguagem literal.

Pudemos verificar também, como aponta Geary (2011), a estreita relação entre determinados tipos de metáforas e certas áreas do conhecimento e da atuação humana, como por exemplo, entre metáforas econômicas e a área da saúde; entre a política e o repertório de guerra. Da mesma forma, em nossa análise, a Política foi retratada pelas metáforas de guerra e a Economia, pelas metáforas da saúde.

(10)

28

Seguem-se alguns exemplos:

Expressões Metafóricas Metáforas Conceptuais

“...tsunami monetário...” MAIOR É PIOR. / RUIM É PARA

CIMA. “...entraram em rota de colisão em público...”

POLÍTICA É UMA GUERRA. “...barreiras tarifárias.”

“...na mira do governo.”

“...proteger o real das desvalorizações artificiais...”

ECONOMIA É UM ORGANISMO. “...a injeção de US$ 8,8 trilhões no sistema

financeiro...”

Considerações finais

Em vista do exposto, entendemos que o nosso trabalho é relevante porque contribui com a sociedade, despertando o senso crítico do leitor comum em relação às estratégias persuasivas utilizadas pelos jornalistas (sendo a metáfora uma delas) na construção do sentido do texto.

Esse trabalho também vai ao encontro dos objetivos do ensino-aprendizagem de Língua Portuguesa, visto que abre perspectiva para se trabalhar com outros gêneros discursivos, que além de contribuir para que os alunos desenvolvam senso crítico e criatividade, os tornam mais aptos e autônomos para ler, interpretar e lidar com as múltiplas linguagens que compõem o nosso cotidiano.

Além disso, favorece a interdisciplinaridade, pois as metáforas, por estarem presentes em muitos materiais didáticos como os de Química, Ciências, Biologia etc, constituem uma dinâmica ferramenta que facilita o entendimento de conceitos difíceis de serem compreendidos literalmente, como por exemplo, o de átomo, de DNA, de funcionamento das células e do corpo humano.

Adicionalmente, rompe com as práticas rotineiras, que sempre evidenciam a visão tradicional da metáfora e passa a focar o seu emprego em situações reais de linguagem em uso, reforçando, desse modo, o fato de que a metáfora é muito mais que uma figura de linguagem ou ornamento linguístico.

Essa pesquisa mostrou que a metáfora é um poderoso recurso de retórica, o qual muitos jornalistas, políticos e escritores fazem uso, com o objetivo de dar mais força argumentativa aos seus discursos, sejam eles orais ou textos escritos. Ela é, portanto, um recurso tão humano e natural e nós a utilizamos sem nos darmos conta.

Referências

(11)

29

ed. 3ª. impr. São Paulo: Ática, 2004 (Série Fundamentos).

FERREIRA, Aurélio de Buarque de Holanda. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. 1ª. ed. 14ª. impr. Rio de Janeiro: Nova Fronteira S.A., 1975.

GUERREIRO, Carmem; PEREIRA JUNIOR, Luiz Costa. Figura de linguagem: a metáfora ocupa seu espaço. Língua Portuguesa. São Paulo, ano 6, n. 71, p. 16-21, set. 2011.

KINDERMANN, Conceição Aparecida. A Reportagem Jornalística no Jornal do Brasil: desvendando as variantes do gênero. 2003. 141 f. Dissertação (Mestrado em Ciências da Li LAGE, Nilson. A notícia hoje e amanhã. In: _______. Estrutura da Notícia, 2ª. ed. São Paulo: Ática, 1987. P. 46-47. (Série Princípios).

LETRAS, Academia Brasileira. Dicionário Escolar da Língua Portuguesa. 2ª ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2008.

MELO, José Marques de. Jornalismo Opinativo: gêneros opinativos no jornalismo brasileiro. 3ª ed. ver. e ampl. Campos do Jordão: Mantiqueira, 2003.

NETTO, Andrei. Dilma promete ‘proteção’ ao real, e Merkel critica ‘protecionismo unilateral’. O Estado de São Paulo, São Paulo, 06 mar. 2012. Caderno Economia & Negócios. Disponível em: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,dilma-promete-protecao-ao-real-e-merkel-critica-protecionismo-unilateral--,844514,0.htm. Acesso em: 20 nov. 2012.

SARDINHA, Tony Berber. Metáfora. São Paulo: Parábola Editorial, 2007.

VEREZA, Solange Coelho. Metáfora e Argumentação: uma abordagem cognitivo-discursiva. Linguagem em (Dis)curso – LemD, v. 7, n. 3, p. 487-506, set./dez.2007.

Anexo

Dilma promete 'proteção' ao real, e Merkel crítica 'protecionismo unilateral'

ANDREI NETTO, ENVIADO ESPECIAL / HANNOVER - O ESTADO DE S.PAULO

06 Março 2012 | 03h 0 5

Em um evento que deveria marcar a comunhão de interesses entre Brasil e Alemanha, os chefes de Estado e de governo dos dois países entraram em rota de colisão em público, ontem, em Hannover.

Em entrevista concedida ao meio-dia de ontem, a presidente Dilma Rousseff voltou a criticar o "tsunami monetário" na Europa, advertindo que o país poderia adotar medidas para proteger o real das "desvalorizações artificiais" de outras moedas.

A resposta veio oito horas depois. Em discurso de improviso, a chanceler Angela Merkel advertiu que os países desenvolvidos observam "as medidas protecionistas unilaterais", em referência indireta aos emergentes.

A discussão foi o desdobramento da insatisfação do governo brasileiro com a crescente liquidez estimulada pelos BCs de países ricos. Citando números do Banco de Compensações Internacionais (BIS), Dilma disse que a injeção de

(12)

30

US$ 8,8 trilhões no sistema financeiro nos últimos três anos causa "desvalorização artificial" das moedas e "equivale a barreiras tarifárias". O tom das reclamações do Brasil cresceu quando o Banco Central Europeu (BCE) ofereceu mais € 530 bilhões aos seus bancos. De dezembro para cá, o valor chega a € 1 trilhão.

Questionada pelo Estado se o governo brasileiro estava pedindo a Merkel uma intervenção na autonomia do BCE, Dilma respondeu: "Não, sabe por quê? Porque estão interferindo na nossa". "O que o Brasil quer com isso é mostrar que está em andamento uma forma concorrencial de proteção de mercado, que é o câmbio. O câmbio virou uma forma artificial de proteção." Dilma antecipou que o governo pode tomar medidas para evitar a valorização artificial do real. "Tomaremos todas as medidas para nos proteger. Vamos ver quais medidas, como essa que tomamos recentemente sobre o IOF"

Questionada se pensava em quarentena de capital externo, reagiu: "Não estou defendendo quarentena".

Especulações. Nos últimos dias, aumentaram as especulações em torno da decisão de amanhã do Comitê de Política Monetária (Copom) do BC. Analistas interpretaram as medidas cambiais adotadas na semana passada e as

declarações de Dilma sobre o "tsunami" como uma sinalização de que o BC poderá ser mais agressivo no corte de juros.

Nesse cenário, um corte mais forte da Selic seria uma forma de se antecipar ao "tsunami" de dinheiro que deverá chegar ao Brasil como resultado da ação do BCE nos bancos europeus.

Nos bastidores do governo, aumenta o desconforto com o câmbio valorizado. A possibilidade de uso do Fundo Soberano do Brasil (FSB) vem ganhando força. O Fundo pode atuar comprando dólares em ações de surpresa. O mercado de derivativos cambiais também permanece na mira do governo.

Disponível em: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,dilma-promete-protecao-ao-real-e-merkel-critica-protecionismo-unilateral--,844514,0.htm. Acesso em: 20 nov. 2012.

Referências

Documentos relacionados

Não basta apenas pensar na educação para um princípio de realidade se não se amplia o próprio conceito de realidade, esta, na qual a criança deve aprender a satisfazer seus

Tendo em consideração que os valores de temperatura mensal média têm vindo a diminuir entre o ano 2005 e o ano 2016 (conforme visível no gráfico anterior), será razoável e

O feijão-caupi (Vigna unguiculata L., Walp .) é amplamente cultivado pelos pequenos produtores na região Nordeste, e constitui um dos principais componentes da

Revogado pelo/a Artigo 8.º do/a Lei n.º 98/2015 - Diário da República n.º 160/2015, Série I de 2015-08-18, em vigor a partir de 2015-11-16 Alterado pelo/a Artigo 1.º do/a

O presente texto, baseado em revisão da literatura, objetiva relacionar diversos estudos que enfatizam a utilização do dinamômetro Jamar para avaliar a variação da

Verificar a efetividade da técnica do clareamento dentário caseiro com peróxido de carbamida a 10% através da avaliação da alteração da cor determinada pela comparação com

Declaro meu voto contrário ao Parecer referente à Base Nacional Comum Curricular (BNCC) apresentado pelos Conselheiros Relatores da Comissão Bicameral da BNCC,

Teoria das emoções de James-Lange: uma emoção é uma espécie de percepção cognitiva sobre o que acontece no corpo durante um impacto. Catatimia: É a importante influência que a