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Pró-Reitoria Acadêmica
Escola de Educação e Humanidades
Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Educação
Pró-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa
A PERCEPÇÃO DE JOVENS UNIVERSITÁRIOS SOBRE O USO
DO CELULAR: POTENCIALIDADES E FRAGILIDADES PARA A
APRENDIZAGEM EM SALA DE AULA
Brasília - DF
2015
CARMEN DULCE DE BRITTO FREIRE DOURADO
A PERCEPÇÃO DE JOVENS UNIVERSITÁRIOS SOBRE O USO DO CELULAR: POTENCIALIDADES E FRAGILIDADES PARA A APRENDIZAGEM EM SALA DE
AULA
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Educação da Universidade Católica de Brasília, como requisito parcial para obtenção do Título de Mestre em Educação.
Orientador: Prof. Dr. Carlos Ângelo de Meneses Sousa
7,5cm
Ficha elaborada pela Biblioteca Pós-Graduação da UCB
D739p Dourado, Carmen Dulce de Britto Freire.
A percepção de jovens universitários sobre o uso do celular: potencialidades e fragilidades para a aprendizagem em sala de aula. / Carmen Dulce de Britto Freire Dourado – 2015.
114 f.; il.: 30 cm
Dissertação (Mestrado) – Universidade Católica de Brasília, 2015. Orientação: Prof. Dr. Carlos Ângelo de Meneses Sousa
1. Educação. 2. Tecnologia. 3. Telefonia celular. 4. Juventude. 5. Ciberespaço. I. Sousa, Carlos Ângelo de Meneses, orient. II. Título.
Dissertação de autoria de Carmen Dulce de Britto Freire Dourado, intitulada
“A PERCEPÇÃO DE JOVENS UNIVERSITÁRIOS SOBRE O USO DO CELULAR: POTENCIALIDADES E FRAGILIDADES PARA APRENDIZAGEM EM SALA DE AULA”, apresentada como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em Educação da Universidade Católica de Brasília, em _____ de _____ de 2015, defendida e aprovada pela banca examinadora abaixo assinada.
______________________________________________ Prof. Dr. Carlos Ângelo de Meneses Sousa
Universidade Católica de Brasília – UCB Programa de Pós-Graduação em Educação
Orientador
______________________________________________ Prof. Dr. Carlos Alberto Lopes de Sousa
Universidade de Brasília – UnB
Programa de Pós-Graduação em Educação Examinador externo
______________________________________________ Profa. Dra. Divaneide Lira Lima Paixão
União Marista do Brasil – UMBRASIL Examinadora externa
______________________________________________ Prof. Dr. Ricardo Spíndola Mariz
Programa de Pós-Graduação em Gestão do Conhecimento e da Tecnologia da Informação – UCB
Examinador interno
AGRADECIMENTOS
A Deus, pelo dom da vida, pela força para superar desafios e pela bondade imensurável em todos os momentos. Agradeço, principalmente, por ter colocado pessoas muito especiais ao meu lado, sem as quais tudo seria ainda mais difícil.
Aos meus pais, Leide e Alísio Dourado, por terem dito “sim” à minha vida e
por acreditarem em mim e na minha capacidade de ir sempre além.
À minha querida maninha, Ana Carolina, pelo amor e cumplicidade. Grata por estar sempre ao meu lado.
Aos meus irmãos, Paulo Gustavo e Eduardo, pelo apoio e incentivo durante toda a vida.
Ao meu filho, Taciano, e à minha nora, Ana Carolina, que me presentearam com Amora e Gael, verdadeiros pontos de luz na minha existência.
Às minhas cunhadas, Francisca e Sheila, que sempre demostraram acreditar em mim e torceram pelo meu sucesso.
Ao meu orientador, Prof. Dr. Carlos Ângelo, por compartilhar seu amplo conhecimento, pela paciência, pelo respeito às minhas ideias, por me instigar a ir mais longe. Sua tranquilidade e segura orientação foram fundamentais no árduo caminho percorrido.
Às grandes amigas, Daniele Alvim, Elizete, Janaina e Ângela, pela compreensão com as minhas ausências e pelo apoio incondicional.
Aos meus amigos do mestrado, pelos bons momentos juntos, Edgard, Camille, Mariana e, em especial, Ângelo, Cintia, Ione e Gleice, que me apoiaram nos Grupos Focais e compartilharam comigo angústias e alegrias.
Aos meus superiores e colegas de trabalho, que me apoiaram e compreenderam o meu momento, em especial, à Profa. Dra. Beatriz, Mac Cartaxo, Thaís, Gabriel, Anastácia, João Batista, Valdir, Rossana, André e demais professores dos cursos de Administração e Gestão de Recursos Humanos.
Ao Coordenador do curso de Psicologia, Prof. André Moniz pela gentil colaboração com os grupos focais.
Ao querido Prof. Dr. Francisco Paulo do Nascimento, que me pegou pela mão e me mostrou o caminho do Mestrado em Educação, no qual eu me encontrei e me sinto realizada.
RESUMO
DOURADO, Carmen Dulce de Britto Freire. A percepção de jovens universitários sobre o uso do celular: potencialidades e fragilidades para a aprendizagem em sala de aula. 2015. 114 p. Dissertação do curso de Mestrado em Educação –
Universidade Católica de Brasília, 2015.
A pesquisa analisou a percepção de estudantes universitários sobre o uso do celular, incluindo as potencialidades e fragilidades para a aprendizagem, no âmbito da sala de aula. Utilizou-se da metodologia do tipo qualitativa que propicia a interpretação em maior profundidade de aspectos relacionados ao comportamento do individuo com destaque para os hábitos e atitudes, relacionados às categorias de justificativa para o uso rotineiro e para a aprendizagem por intermédio do celular pelos jovens acadêmicos. A fundamentação teórica se baseou em Bauman, Lévy, Castells, Lemos, Moran, Nicolaci-da-Costa e Masetto, entre outros. Participaram da pesquisa 25 jovens do curso de Psicologia de uma IES privada, situada em Brasília
– DF. Os dados foram coletados por meio de questionários e aplicação de entrevistas em 03 grupos focais. A análise dos dados foi referenciada na análise de conteúdo de Bardin. Dos resultados encontrados, emergiram 2 categorias: justificativa e aprendizagem. Destas, assomaram 7 subcategorias primárias e 5 secundárias. Como exemplo de subcategorias, tem-se a ubiquidade, a conectividade, a sociabilidade, a praticidade, a dependência, as dispersões e a colaboratividade, entre outras. Os resultados indicam que a utilização do celular em sala de aula pelos jovens universitários é uma realidade constante e, apesar de ainda considerarem o professor como a maior fonte de conhecimentos, admitem o uso para pesquisas rápidas, troca de impressões, resolução de problemas e debates. Diante disso, fazem-se necessárias novas formas de pensar o espaço, o tempo e as tecnologias para que essa tríade funcione como catalisador para o processo de ensino-aprendizagem no contexto educacional.
ABSTRACT
The research has analyzed the perception of university students about the use of cell phones, including aspects which enable or hinder the process of teaching and learning in the classroom scope. The method employed is qualitative which provides deeper interpretation of aspects related to the behavior of an individual especially toward habits and attitudes associated with the categories of justification to the routine use and to the use of learning by means of the cell phone by the young scholars. The theoretical foundation is based on Bauman, Lévy, Castells, Lemos, Moran, Nicolaci-da-Costa and Masetto, among others. Twenty five Psychology students of a private higher education institution in Brasília – DF took part in the research. The data were collected through questioners and interviews of 03 (three) focal groups. The data analysis was referenced in Bardin's content analysis. Two categories emerged from the results: justification and learning. From these results, 07 (seven) primary and 05 (five) secondary subcategories were summed to. As examples of these subcategories there is the ubiquity, the connectivity, the sociability, the practicality, the dependence, the dispersions and the collaborativity, among others. The results indicate that the use of the cell phone in the classroom by the university students is a constant reality and although the professor is still considered the biggest source of knowledge, admit the use for fast researches, exchange of impressions, problems resolutions and debates. As a result, it is necessary new ways of thinking the space, the time and the technologies so that this triad works as catalysts for the teaching-learning process in the educational context.
LISTA DE GRÁFICOS
Gráfico 1: Sexo dos participantes
Gráfico 2: Faixa etária dos participantes Gráfico 3: Semestre dos participantes Gráfico 4: No momento você
Gráfico 5: Há quanto tempo você é estudante da IES? Gráfico 6: O que você lê com frequência?
Gráfico 7: Na semana, por quanto tempo você usa a internet diariamente em casa? (segunda a sexta)
Gráfico 8: Na semana, por quanto tempo você usa a internet diariamente em casa? (sábado e domingo)
Gráfico 9: Existe conexão à internet em seu celular?
Gráfico 10: Você costuma usar a internet do seu celular para... (Você pode marcar mais de uma resposta).
LISTA DE SIGLAS
ANATEL – Agência Nacional de Telecomunicações ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente
IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IES – Instituição de Ensino Superior
JETSA – Projeto de Pesquisa – Juventude, Educação e Tecnologia: Sociabilidades e Aprendizagens
TICs – Tecnologias da Informação e Comunicação
UNESCO – Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura GF-1 – Grupo Focal 1
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ... 11
CAPÍTULO 1: ELEMENTOS DA PESQUISA ... 13
1.1 PROBLEMA ... 13
1.2 JUSTIFICATIVA ... 16
1.3 OBJETIVOS DA PESQUISA ... 17
1.3.1 Objetivo geral... 17
1.3.2 Objetivos especificos ... 18
1.4 METODOLOGIA ... 18
1.4.1 Caracterização da pesquisa ... 18
1.4.2 Participantes, contexto da pesquisa ... 20
1.4.3 Procedimentos de coleta e análise de dados ... 22
CAPÍTULO 2: REVISÃO DA LITERATURA ... 27
2.1 ENSINO E APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR – DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS... 27
2.2 TECNOLOGIAS NA EDUCAÇÃO SUPERIOR BRASILEIRA ... 30
2.3 JOVENS E SUAS CONEXÕES ... 35
2.4 USO DO DISPOSITIVO MÓVEL UBIQUO: O CELULAR NA SALA DE AULA ... 40
2.5 A CONECTIVIDADE EM SALA DE AULA: PRESENÇA OU AUSÊNCIA? ... 44
2.6 CONECTIVIDADE E UBIQUIDADE: A VIRTUALIZAÇÃO NA SALA DE AULA .. 46
CAPÍTULO 3: APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS ... 49
3.1 QUEM SÃO OS PARTICIPANTES... 49
3.2 O QUE EXPRESSAM OS PARTICIPANTES ... 56
3.2.1 Categorias e subcategorias ... 57
3.2.1.1 Justificativa para o uso ... 58
3.2.1.1.1 Ubiquidade ... 62
3.2.1.1.2 Conectividade ... 64
3.2.1.1.3 Sociabilidade ... 66
3.2.1.1.4 Praticidade ... 69
3.2.1.1.5 Dependência ... 71
3.2.1.2 Aprendizagem ... 75
3.2.1.2.1 Fragilidades ... 75
b) Descontrole ... 81
c) Limitações ... 82
3.2.1.2.2 Potencialidades ... 86
a) Funcionalidades ... 87
b) Colaboratividade ... 90
CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 100
REFERÊNCIAS ... 100
APÊNDICE A – PERFIL – ALUNO ... 108
APÊNDICE B – ROTEIRO – GRUPO FOCAL ... 110
ANEXO A – L EI Nº 4.131, DE 02 DE MAIO DE 2008... 112
INTRODUÇÃO
O uso constante das Tecnologias de Informação e Comunicação – TICs, na sociedade contemporânea, tornou-se objeto de estudo em diversos países e sob vários aspectos. No passado, as ferramentas tecnológicas como computadores, celulares, iphones, smartphones,1 tablets e ipads eram produtos considerados inacessíveis à boa parte da população. Hoje, com o avanço da tecnologia e a concorrência entre empresas que oferecem o produto/serviço, tornou-se mais fácil adquiri-los. Com isso, esses produtos estão se tornando quase que aparatos obrigatórios para se viver em sociedade.
Aliada à evolução das ferramentas tecnológicas, surge a internet. Suas facilidades atraem significativo número de seguidores e as redes wi-fi e internet móvel permitem acessos em, praticamente, todos os ambientes, sejam eles residenciais, públicos, profissionais ou educacionais.
Chama-se a atenção principalmente para o uso da internet em um dos equipamentos mais utilizados pelos jovens na atualidade: o telefone celular, que, a partir de agora, no texto, será nominado somente de celular. Os indivíduos que utilizam o celular e seus aplicativos (SMS, WhatsApp,2 Skype, Instagram3) como
forma de se comunicar motivam os demais a adotarem esse sistema de comunicação e cobram reciprocidade.
A pesquisa “Juventude Conectada”,4 realizada em 2013, coordenada pela
Fundação Telefônica Vivo e realizada em parceria com o IBOPE Inteligência, Instituto Paulo Montenegro e Escola do Futuro – USP, demostrou que sete em cada dez jovens acessam internet pelo celular. Estar conectado em tempo integral é praticamente uma imposição social, tornou-se obrigatório estar on line, e, com isso, há uma crescente conexão no ciberespaço.5
Esse ambiente denominado ciberespaço, também chamado de rede (LÉVY, 1999), não se restringe à infraestrutura apenas, mas envolve todas as informações e pessoas que compõem essa conexão, bem como as relações daí decorrentes.
1 Significa telefone inteligente. 2
Aplicativo de smartphones que possibilita a comunicação imediata entre usuários e até mesmo entre grupos por meio da internet.
3 Aplicativo de smartphones que permite tirar fotos, tratá-las e disponibilizá-las por meio da internet. 4
Disponível em: <http://www.ibope.com.br/pt-br/noticias/Paginas/Sete-em-cada-dez-jovens-acessam-internet-pelo-celular.aspx>. Acesso em: 06 jul. 2015
5 Ciberespaço é o novo meio de comunicação que surge da interconexão mundial dos computadores
A utilização do ciberespaço transforma os indivíduos, de maneira geral, em
“nós” de uma grande rede, ou seja, em componentes interligados que interagem
com diversos fatores criados por eles próprios ou não (CASTELLS, 1999; SIMMEL, 2006; OLIVIERI, 2008). Há cada vez mais evidências da estreita relação entre a juventude e a necessidade de conexão. E essa relação hodierna caminha sobre um sustentáculo chamado de universo virtual.
Em meados do século passado, Lévy (1996) já afirmava que o telefone permitia apenas a comunicação entre dois indivíduos, restringindo assim o conhecer e o construir coletivo.
No atual contexto, o celular permite a conexão, via internet, com vários indivíduos e ao mesmo tempo. Cita-se, como exemplos, o WhatsApp, aplicativo de mensagens instantâneas ou os sites de bate-papo, nos quais a formação das redes surge pelo interesse mútuo e não pela territorialidade. Segundo Lévy (1996, p. 113),
“No ciberespaço, em troca, cada um é potencialmente emissor e receptor num espaço qualitativamente diferenciado, não fixo, disposto pelos participantes,
explorável”.
Segundo Nicolaci-da-Costa (2004), dentre as tecnologias da informação e telecomunicação, a internet e o celular foram os principais responsáveis por grandes impactos na sociedade moderna. Esses impactos são percebidos na maneira de ser e de agir dos indivíduos.
Diante disso, há uma crescente preocupação sobre o uso exagerado dos instrumentos tecnológicos e os reflexos sobre o comportamento dos indivíduos. Destaca-se, principalmente, o comportamento da juventude em contínua comunicação e interatividade na utilização de dispositivos móveis.
Por tudo isso, o presente trabalho de pesquisa investigou o uso do celular na percepção de jovens universitários: potencialidades e fragilidades para a aprendizagem em sala de aula.
CAPÍTULO 1: ELEMENTOS DA PESQUISA
1.1 PROBLEMA
Atualmente, um dos maiores desafios enfrentados pelos docentes no processo de ensino/aprendizagem está em despertar e manter a atenção dos alunos em sala de aula. Alguns dos maiores concorrentes nesse ambiente são os instrumentos tecnológicos utilizados pelos discentes: notebooks, ipads, tablets, netbooks, ipods e celulares.
Devido às dimensões cada vez menores e às funcionalidades cada vez maiores, os celulares são instrumentos tecnológicos cada vez mais presentes no cotidiano dos indivíduos. Fatores como comunicação, segurança e acesso à internet despontam como principais argumentos para o uso e o manuseio constantes na atualidade.
Sabe-se que o telefone celular deixou de ser exclusivamente símbolo de status e de comunicação móvel e rápida para converter-se, inclusive, em um instrumento gerador de dependência, a nomofobia (no mobile phobia) em que, no mobile significa sem telefone celular; e fobia, medo.
Sensações de ansiedade, desamparo, angústia, impotência e até sintomas físicos de pânico, como taquicardia e sudorese. Essas manifestações tão típicas de uma síndrome deflagrada por um hábito extremamente recente: o uso do celular e outros equipamentos tecnológicos que permitem a comunicação. Os sintomas aparecem quando a pessoa não está com os aparelhos ou, por algum outro motivo, está impossibilitada de se comunicar por meio deles (REVISTA VIVER MENTE E CORPO, 2010 apud POKER; NAVEGA; PETITTO, 2012, p. 17).
Essa dependência é fruto das funcionalidades oferecidas pelo dispositivo, tais como: mensagens instantâneas, diário pessoal, e-mail, despertador, calculadora, calendário, relógio, videogame, câmera (fotos e vídeos), tocador de música, TV digital, mapas com GPS, guias turísticos, recursos de tratamento de fotos e até projetor de imagens.
celulares: igrejas, restaurantes, hospitais, conferências, reuniões de trabalho,
bibliotecas, teatros e salas de aulas. Há sempre alguém “teclando” e falando ao
celular.
No ambiente acadêmico, e sob a visão dos docentes, atitudes como essas geram pensamentos e questionamentos expostos em conversas durante o intervalo
das aulas: “Minhas aulas estão desinteressantes?”; “O que devo fazer para coibir o
uso dos telefones celulares durante a exposição do conteúdo da disciplina?”; “Como
os jovens estudantes conseguem dividir a atenção entre o aprendizado presencial e
a utilização do ciberespaço?”.
O certo é que, de tão polêmica, a discussão sobre o uso dos celulares ultrapassou os muros escolares e chegou, por exemplo, ao Governo. No caso do Distrito Federal, o governador na época, José Roberto Arruda, resolveu intervir. A Lei nº 4.131, de 02 de maio de 2008 (DISTRITO FEDERAL, 2008),6 decretou: Artigo 1º - “Fica proibida a utilização de aparelhos celulares, bem como de aparelhos eletrônicos capazes de armazenar e reproduzir arquivos de áudio do tipo MP3, CDs e jogos, pelos alunos das escolas públicas e privadas de Educação Básica do
Distrito Federal”. A lei baseou-se nas reclamações dos docentes sobre o uso indiscriminado dos equipamentos durante as aulas que atrapalhavam tanto a concentração dos expositores como dos outros alunos.
Destaca-se que, se houve a necessidade de uma lei para coibir o uso dos equipamentos pelos alunos durante a Educação Básica, período no qual se percebe uma maior aquiescência às normas e regulamentos interpostos pelas instituições, o que se dirá dos alunos do Ensino Superior, os quais, durante as aulas, fazem uso desses equipamentos com mais frequência? A grande maioria dos estudantes se porta com a independência característica de suas idades e condições financeiras. Com isso, conclui-se a impossibilidade de proibir o uso nas instituições de Ensino Superior, excetuando-se casos de aplicações de provas e outras avaliações do gênero, durante as quais não pode haver nenhum tipo de fonte de consulta.
Estudos e publicações, cada vez mais frequentes, indicam que o uso de celulares, também chamados de dispositivos móveis ubíquos,7 no ambiente acadêmico, se tornou assunto polêmico. Se por um lado têm-se as proibições de
6 Ver Anexo A
órgãos governamentais e restrições nas salas de aulas, por outro, há os que incentivam o seu uso.
Como exemplo, cita-se a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura – UNESCO que, com o objetivo de orientar sobre o uso das
tecnologias móveis na aprendizagem, lançou em 2013 o “Policy Guidelines for Mobile Learning” e, em 2014, “O Futuro da Aprendizagem Móvel: Implicações para Planejadores e Gestores de Políticas”. As publicações fazem parte de uma série de
documentos recomendados para gestores, para educadores e para interessados e oferecem resultados de pesquisas, iniciativas de sucesso, politicas públicas favoráveis e ainda, os impactos das tecnologias móveis nos horizontes educacionais.
Por outro lado, sabe-se que, no cenário hodierno, boa parte das instituições de ensino no Brasil ainda trabalha em sala de aula com recursos tradicionais e pouco atrativos para as crianças e jovens. Mesmo em instituições onde o uso de recursos tecnológicos avançados é uma constante, a disputa pela atenção dos jovens em sala de aula se tornou motivo de preocupação dos docentes. Diante de tantos equipamentos móveis facilmente utilizáveis, o esforço por manter a atenção tornou-se um desafio.
Diante do exposto, citam-se algumas das questões abordadas no presente trabalho:
Como os jovens percebem o uso do telefone celular no ambiente de sala de aula?
Como os jovens percebem o uso do telefone celular para a aprendizagem em sala de aula?
Os jovens percebem o celular como provável causador de dispersões? Quais vantagens e desvantagens percebidas pelo uso do celular em sala
de aula?
Diante de uma realidade em que há possibilidades dos “distantes tornarem-se próximos e os próximos tornarem-se distantes”, como encontrar caminhos que
favoreçam o emprego dos aspectos positivos e minimizem os aspectos negativos dessa tecnologia na vida dos educadores e dos educandos?
O foco desta pesquisa analisou a percepção dos educandos acerca do uso do dispositivo móvel ubíquo, o telefone celular, no âmbito da sala de aula.
1.2 JUSTIFICATIVA
Este trabalho originou-se de uma inquietação da pesquisadora em relação ao uso dos equipamentos tecnológicos no ambiente acadêmico. Por atuar como docente em uma IES particular, observou a utilização cada vez mais frequente de telefones celulares em sala de aula e as constantes reclamações de outros docentes sobre seu uso. Em alguns momentos, principalmente durante a aplicação de provas e de exercícios sem consulta, percebia-se a dificuldade ou o desconforto dos alunos pela obrigatoriedade de desligar celulares e, com isso, ficarem momentaneamente desconectados do ciberespaço.
Baseado na afirmativa de que o uso dos dispositivos móveis possibilita a interação instantânea ao mundo cibernético e a consequente criação de liames universais e de variadas espécies sem as restrições de lugar e ocasião (LÉVY, 1999), é possível entender a dificuldade de indivíduos, especialmente dos jovens, em se desconectarem do ciberespaço durante sua permanência em sala de aula.
Segundo dados da Anatel – Agência Nacional de Telecomunicações (2014), em julho de 2014 houve 276.153.111 acessos de celulares pré e pós-pagos no Brasil. Em 2010 e no mesmo mês, foram 187.021.171 acessos. O crescimento na utilização de aparelhos móveis tem sido objeto de estudo de organismos internacionais como, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura – UNESCO, que lançou uma série de documentos, entre eles, o
Relatório “O Futuro da Aprendizagem Móvel: Implicações para Planejadores e Gestores de Políticas” (2014). A publicação tem como objetivo:
Outro artigo que suscita o debate sobre o uso do celular nas salas de aula intitula-se “A Contribuição do Uso de Dispositivos Móveis para um Currículo Voltado a uma Educação Transformadora na EJA” (DIAS; DE DEUS; IRELAND, 2013). A publicação apresenta reflexões sobre a utilização de smartphones como recurso tecnológico que favorece a aprendizagem da leitura e a consequente aquisição de saberes.
Tem-se ainda a tese “Mobile Learning: Explorando Potencialidades com o
Uso do Celular no Ensino − Aprendizagem de Língua Inglesa como Língua Estrangeira com Alunos da Escola Pública” (COSTA, 2013), que apresenta as potencialidades do uso do celular na aprendizagem e no desenvolvimento de habilidades com a flexibilidade proporcionada pelas funcionalidades inerentes ao dispositivo móvel.
Se por um lado há pesquisas que visam incentivar o uso dos dispositivos móveis na educação, há outras que alertam para os problemas ocasionados pelo uso indiscriminado, isento de critérios e ética que podem torná-los prejudiciais ao processo de ensino-aprendizagem.
Essas pesquisas estão sendo realizadas por todo o mundo e já há vários indícios de que o problema está assumindo números expressivos que corroboram a crescente importância do tema além da necessidade da sua inclusão em debates na comunidade acadêmica. Como exemplo, cita-se o relatório “A Geração Interativa na
Ibero-América: Crianças e Adolescentes diante das Telas”, publicado pela Universidade de Navarra, na Espanha, no qual se afirma: “O grau de penetração do
celular entre a Geração Interativa, seu uso intenso entre diversos interlocutores e o aproveitamento funcional das suas possibilidades acaba transformando-o na tela
mais difícil de apagar” (SALA; CHALEZQUER, 2005, p.116).
O presente trabalho focou na utilização da tecnologia móvel, em particular o telefone celular, na área de educação, sua inserção e utilização no ambiente acadêmico. Acredita-se que a pesquisa favoreceu o entendimento sobre as percepções dos discentes acerca do uso do dispositivo móvel e como ele pode impactar na aprendizagem no ambiente das salas de aula.
1.3 OBJETIVOS DA PESQUISA
Analisar a percepção8 dos estudantes acerca do uso dos telefones celulares e
os aspectos que contribuem e dificultam o processo de aprendizagem no âmbito da sala de aula.
1.3.2 Objetivos especificos
Investigar a percepção dos estudantes sobre o uso dos telefones celulares no âmbito da sala de aula;
Investigar a percepção dos estudantes sobre o aprendizado com o uso do celular no âmbito da sala de aula; e
Investigar sobre os aspectos positivos e negativos do uso do telefone celular no processo de aprendizagem no âmbito da sala de aula.
1.4 METODOLOGIA
1.4.1 Caracterização da pesquisa
Segundo Gil (2008), para que o trabalho a ser realizado possa ser definido como pesquisa, é necessário que haja todo um processo formal e sistematizado do método.
Para Medeiros (2010), uma pesquisa poderá ser classificada como cientifica se o seu desenvolvimento for foco de minucioso exame, bem planejado e que obedeça a normas e a padrões reconhecidos pela ciência. Assim, de forma objetiva
“[...] a pesquisa científica divide-se em pura e aplicada, e sua finalidade principal é concorrer para o progresso da ciência” (MEDEIROS, 2010, p. 30).
Corroborando as afirmativas anteriormente elencadas, destaca-se que “[...] a
pesquisa se constitui num procedimento formal para aquisição de conhecimento sobre a realidade. Exige pensamento reflexivo e tratamento científico” (MEDEIROS,
2010, p. 38).
8 Otermo percepção aqui adotado tem base em uma perspectiva filosófica, isto é, como “[...] ato de
Buscando a apresentação de um trabalho baseado nos conceitos dos autores citados, decidiu-se, para melhor compreensão do fenômeno, pela realização de pesquisa do tipo qualitativa de caráter exploratório. A opção pela pesquisa do tipo exploratória deu-se porque, de acordo com Gil (2008), ela objetiva o desenvolvimento, o esclarecimento e possíveis mudanças conceituais sobre determinados problemas. Entende-se que esses aspectos se coadunam com o que se espera do presente trabalho, objetos de estudos mais esclarecidos, mesmo que ainda sujeitos a investigações mais detalhadas na posteridade.
Ressalta-se a existência de muitas definições para as investigações qualitativas. De acordo com Richardson (1999, p. 90), a pesquisa qualitativa caracteriza-se pelo intento de entender os “[...] significados e características
situacionais apresentados pelos entrevistados, em lugar da produção de medidas
quantitativas de características ou comportamentos”.
Como menciona Marconi e Lakatos (2009), a metodologia qualitativa visa analisar e interpretar em maior profundidade aspectos relacionados ao comportamento do individuo com destaque para os hábitos, atitudes e tendências. Os autores afirmam que, na pesquisa qualitativa, há necessidade de, no mínimo,
uma “estruturação prévia”, mas pontuam que não deverá existir um regramento
rígido, com problemas, hipóteses e variáveis antecipadas.
Visando à efetiva aplicação da técnica referenciada, foram convidados a participar dos grupos focais discentes do curso de Psicologia de uma IES particular situada em Brasília – Distrito Federal. Os discentes foram informados da pesquisa nas salas de aula pelo coordenador do curso de Psicologia, alertados de que a participação era voluntária e que o assunto giraria em torno do uso dos aparelhos celulares pelos jovens universitários na atualidade. Diante disso, não houve complicações para que surgissem alunos interessados, pois o tema é considerado polêmico e contemporâneo.
A reunião com os discentes sempre foi iniciada com a exposição dos objetivos a serem alcançados e das normas de conduta para os participantes. Conforme acordado com o coordenador do curso, foram respeitados, ainda, os horários dos estudantes para que não houvesse prejuízos às aulas nem aos conteúdos e atividades aplicados pelos professores. Assim, as reuniões ocorreram antes ou depois das aulas e nos turnos matutino e noturno, obedecendo aos horários em que os alunos estavam matriculados na IES.
Segundo Gil (2008, p. 115), as entrevistas com o grupo deverá ter início com
o assunto em pauta e “[...] introduzido como uma questão genérica, que vai sendo detalhada até que o moderador perceba que os dados necessários foram obtidos.” O autor ainda adverte que, em caso de nítido cansaço por parte dos entrevistados, a reunião poderá ser encerrada. Seguindo a orientação do autor, foi elaborado um roteiro de questões conduzido pela pesquisadora, que também atuou como moderadora. O roteiro das questões levantadas para fomentar o debate encontra-se no apêndice B deste documento.
1.4.2 Participantes, contexto da pesquisa
primeiras instituições de ensino fundada em Brasília e possuir um histórico de excelência nos serviços prestados à comunidade acadêmica e à sociedade em geral.
Visando resguardar o anonimato, o nome não será divulgado. A IES faz parte de um grupo educacional brasileiro e foi fundada na década de 1960. Atualmente possui cerca de 11.000 alunos na unidade de Brasília - DF, 22 cursos de graduação e 30 de pós-graduação.
Embora se tenha apresentado a conceituação de juventude adotada pela UNESCO, optou-se pelos limites de idade fixados pelo IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística: jovens com idade entre 15 e 29 anos. A decisão levou em conta o ambiente universitário e, com isso, uma maior amplitude da faixa etária dos entrevistados (18 a 29 anos).
A pesquisa com dados colhidos de grupos focais foi realizada com alunos devidamente matriculados no curso de Psicologia e cursando semestres variados. A escolha do público-alvo no curso de Psicologia deu-se pelos seguintes motivos:
os alunos não estavam ligados à coordenação da qual a pesquisadora faz parte, eliminando a possibilidade de viés devido à posição de gestora do curso; e
alunos que, por estudarem a mente e o comportamento humano, geralmente tendem a desenvolver mais a capacidade de observação e análise das relações humanas.
Foram realizados 3 grupos focais em dias alternados e com a participação de 25 alunos no total. Duas reuniões aconteceram no turno noturno e uma no turno matutino. Todos os voluntários que concordaram em participar do estudo foram
informados dos procedimentos da pesquisa e assinaram um “Termo de Consentimento Livre e Esclarecido”.9 O primeiro grupo contou com a participação de 8 estudantes, o segundo, com 6, todos do noturno. E o último grupo contou com a participação de 11 estudantes do turno matutino.
Destaca-se a participação de pesquisadores do Grupo de Pesquisa
“Juventude, Educação e Tecnologia: Sociabilidades e Aprendizagens” – JETSA, em todos os grupos focais realizados. O grupo é formado por estudantes de iniciação científica, mestrandos e doutorandos da Universidade Católica de Brasília. A medida
refletiu a preocupação da pesquisadora para que houvesse maior credibilidade e transparência à pesquisa, percepções diversificadas sobre os resultados obtidos e, por conseguinte, maior possibilidade de debates sobre o tema proposto. Participaram mestrandos e o coordenador do Projeto, em um dos grupos focais.
1.4.3 Procedimentos de coleta e análise de dados
A escolha da metodologia para coleta e análise dos dados deu-se baseada diretamente no problema a ser investigado. Para a consecução do objetivo de extrair as percepções de estudantes universitários, utilizou-se a técnica de grupos focais. Para a análise dos dados obtidos, buscou-se principalmente Bardin (1995) e Richardson (1999), com a técnica de análise de conteúdo.
Importante frisar que, na análise de conteúdo, todo o material escrito ou falado é passível da submissão a uma análise de conteúdo. Segundo Bardin (1995,
p. 28), “[...] qualquer comunicação, isto é, qualquer transporte de significações de
um emissor para um receptor controlado ou não por este deveria poder ser escrito,
decifrado pelas técnicas de análise de conteúdo”.
A coleta de dados foi realizada em novembro de 2014 e teve por base as opiniões, como já informado, de 25 estudantes universitários participantes dos 3 grupos focais. Nos momentos iniciais das reuniões, foram apresentados os condutores da pesquisa (mediadora e observadores), os objetivos, a instituição de ensino ao qual pertence a pesquisa e solicitada a permissão para gravar todo o processo com a informação do sigilo absoluto quanto à identificação dos
respondentes. Assim, foram distribuídos os “Termos de Consentimento Livre e
Esclarecido” para assinatura e um pequeno questionário,10 contendo 12 perguntas
fechadas com o objetivo de traçar o perfil dos respondentes.
Como parte do processo, ao final, obtiveram-se as impressões e análises realizadas pelos membros do JETSA. Foram gravados e discutidos ao término de cada reunião os relatos sobre o comportamento e as expressões dos estudantes durante o debate, grau de interesse, condução da mediadora e uso do celular pelos participantes, entre outros.
Para a gravação de voz em todos os grupos focais realizados, foram utilizados equipamentos como tablets e celulares. O ambiente das reuniões deu-se na própria instituição de ensino em salas previamente reservadas e montadas para o maior conforto e disposição dos participantes. Não houve interferências externas e os participantes se mostraram à vontade com a disposição das cadeiras em círculos, propiciando boa visibilidade e interação entre eles. Apenas os membros do JETSA estavam fora do círculo e funcionaram como observadores durante todo o processo. Não foram percebidas introversões dos estudantes por estarem sendo observados em suas falas, pelo contrário, em diversos momentos e devido à empolgação pelo tema, fez-se necessária a intervenção da mediadora para que falasse um de cada vez. Cada reunião durou cerca de 1 hora e meia. O término delas deu-se pelo esgotamento do tema e pelo cansaço dos participantes, segundo observação da mediadora e de participantes do JETSA.
Após a coleta, as informações oriundas dos grupos focais foram transcritas,11
classificadas e analisadas, conforme os objetivos da pesquisa. Para tanto, usou-se a proposta de análise de conteúdo de Bardin (1995, p.37) que assim a define:
Um conjunto de técnicas de análises de comunicações visando obter, por procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens, indicadores (quantitativos ou não) que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção (variáveis inferidas) destas mensagens.
Segundo Richardson (1999), da análise de conteúdo, pela própria natureza cientifica, exige-se eficácia, rigor e precisão. Trata-se de um melhor entendimento acerca de discursos, do aprofundamento das suas características, sejam elas gramaticais, fonológicas, cognitivas, ideológicas etc. e, a partir dai, evidenciar as informações mais relevantes para a pesquisa.
Sobre a técnica de análise de conteúdo escolhida pode-se dizer que:
Na área de educação, a análise de conteúdo pode ser, sem dúvida, um instrumento de grande utilidade em estudos, em que os dados coletados sejam resultados de entrevistas (diretivas ou não), questionários abertos, discursos ou documentos oficiais, textos literários, artigos de jornais, emissões de rádio e de televisão. Ela ajuda o educador a retirar do texto escrito seu conteúdo manifesto ou latente. (OLIVEIRA et al., 2003, p.15).
11 Convém observar que todas as falas foram integralmente transcritas, com a preocupação de
A análise de conteúdo proposta por Bardin (1995) apresenta as seguintes fases organizadas cronologicamente: a pré-análise, a exploração do material, o tratamento dos resultados, a inferência e a interpretação.
Na 1ª Fase, a da pré-análise ou fase preparatória, buscou-se a sistematização das ideias e a operacionalização mediante a leitura flutuante12. Nessa etapa foi
possível conhecer o material, formular hipóteses, remeter aos objetivos da pesquisa e iniciar a elaboração de indicadores que auxiliassem na fundamentação da interpretação final.
A exploração do material coletado, ou 2ª Fase, constituiu-se da colocação em prática das decisões tomadas na fase preparatória. Tratou-se da codificação, da escolha das unidades de registro e da categorização,13 todas baseadas nos dados obtidos por meio dos grupos focais realizados sem perder de vista os objetivos da pesquisa.
Quanto à codificação, Bardin (1995) afirma que é o processo que transforma os dados brutos do material em unidades menores agregadas. A codificação deve ainda incluir etapas fundamentais para sua organização, como determinar as unidades que são:
unidades de registro: consideradas a base da análise, podem ser palavras, temas, frases; e
unidades de contexto: possuem dimensão superior à unidade de registro, favorecendo assim uma melhor compreensão do significado das informações (contextualização).
Finalizando a 2ª Fase, tem-se a categorização que, de acordo com Richardson (1999), compõe-se da classificação de elementos decodificados a partir
de textos ou falas, e segue determinados padrões. O autor ainda ressalta, “[...]
dentre as inúmeras possibilidades de categorização, a mais utilizada, mais rápida e eficaz, sempre que se aplique a conteúdos diretos (manifestos) e simples, é a
análise por temas ou temática” (RICHARDSON, 1999, p.243).
Ainda sobre a categorização, buscou-se Bardin (1995) que afirmou: “É uma
operação de classificação de elementos constitutivos de um conjunto, por
12
Segundo Bardin (1995), a leitura flutuante consiste em uma leitura superficial do material para se deixar imergir em impressões e possibilitar a concepções de hipóteses e tornar a leitura mais precisa. 13 Segundo Richardson (1999), dentre as diversas técnicas de análise de conteúdo, a mais antiga e a
diferenciação e, seguidamente, por reagrupamento segundo o gênero (analogia),
com os critérios previamente definidos” (BARDIN, 1995, p. 111).
No estágio da categorização, poderão ser empregados dois tipos de processos inversos: o sistema de categorias é fornecido previamente pelo referencial teórico (apriorísticas) ou posteriormente (não apriorísticas) de acordo com a análise progressiva dos dados coletados (BARDIN, 1995; CAMPOS, 2004).
A pesquisadora definiu a categorização tipo não apriorística como método utilizado o que ocasionou a imersão diversas vezes aos dados primários, ou seja, às respostas dos sujeitos e às teorias embasadoras da pesquisa.
De acordo com Bardin (1995) e Richardson (1999), as categorias devem apresentar as seguintes características:
Exaustividade: cada categoria escolhida deve propiciar a inclusão de todos os elementos selecionados relativos ao tema;
Exclusividade ou exclusão mútua: nenhum elemento poderá ser incluído em mais de uma categoria;
Concretude: possuir categorias concretas que permitam classificar mais facilmente os elementos selecionados;
Homogeneidade: as categorias devem originar-se de um mesmo principio de classificação; e
Objetividade e fidelidade: a objetividade e fidelidade deverão ser empregadas, pois mesmo as diferentes interpretações ou as subjetividades não irão enviesar a pesquisa. Como indicação de Richardson (1999), o pesquisador deverá se pautar em variáveis e indicadores claros e bem definidos.
Segundo Campos (2004), apesar de as fases da técnica de análise de conteúdo se apresentarem como facilitadoras para uma melhor compreensão do
processo, há um continuo “ir e vir” do pesquisador.
CAPÍTULO 2: REVISÃO DA LITERATURA
2.1 ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR – DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS
Entre os vários desafios contemporâneos, encontram-se, segundo Moran (2012), o ensinar e o aprender. O autor assevera que ainda há um maior destaque para o ensino de qualidade do que para a educação de qualidade. Segundo ele, ensinar e educar possuem diferentes conotações. Enquanto ensinar possui foco em atividades especificas para compreender as áreas do conhecimento, educar baseia-se não apenas na arte de ensinar, mas no apoio à integração de todos os aspectos
da vida, no encontro do “caminho intelectual, emocional, profissional” (MORAN,
2012, p. 12).
Nos dias atuais, exige-se muito mais flexibilidade de espaço, de tempo, de pessoal e de grupo para a consecução de objetivos no processo de ensino- aprendizagem. Um dos complicadores desse processo é conseguir articular a informação disponível, das mais variadas fontes, selecionar as realmente relevantes e incorporá-las no cotidiano físico e mental (MORAN, 2012).
Diante disso, e cada vez mais, o papel do educador possui acentuada importância para a formação dos indivíduos na sociedade. O ato de promover a integração entre as áreas do conhecimento, conteúdo curricular e a aprendizagem do educando é apenas um dos deveres do docente. O auxilio à evolução dos demais
aspectos, como o “[...] sensorial, intelectual, emocional, ético e tecnológico fazem parte das atribuições quando se objetiva não apenas ensinar, mas educar com
qualidade” (MORAN, 2012, p. 15).
Anísio Teixeira, há décadas, conclamava a refletir acerca da função do educador e seu papel no processo educativo que não é outro “[...] senão o próprio
crescimento do indivíduo, entendido esse crescimento como um desenvolvimento,
um refinamento ou uma modificação no seu comportamento, como ser humano”
(TEIXEIRA, 1977, p. 59).
Na concepção de Gadotti (2000, p. 8), “[...] o educador é um mediador do
conhecimento, diante do aluno que é o sujeito da sua própria formação. [...] O que é ser professor hoje? Ser professor hoje é viver intensamente o seu tempo, conviver; é
O papel do educador está além da mediação pedagógica, envolve aspectos sociais, humanos, éticos, ambientais e outros que permeiam uma relação delicada e ao mesmo tempo intensa, que poderá marcar a ambos, pela posteridade.
Na sociedade da informação, a escola deve servir de bússola para navegar nesse mar do conhecimento, superando a visão utilitarista de só oferecer
informações “úteis” para a competitividade, para obter resultados. Significa
orientar criticamente, sobretudo as crianças e jovens, na busca de uma informação que os faça crescer e não embrutecer (GADOTTI, 2000, p. 8).
No que diz respeito aos professores do ensino superior, dir-se-ia que, as “[...]
suas funções foram direcionadas para aquelas próprias de um formador e educador
de profissionais” (MASETTO, 2010, p. 68). De acordo com o autor, não houve redução da importância do papel docente e da sua necessidade, pois continua sendo referência de informações e experiência para o estudante.
Mas, o que dizer a respeito do estudante? Yus (2002), nos seus estudos sobre a Educação Holística, defende que o estudante é um ser resultante da união de tudo o que ele representa: matéria, mente, essência (alma) e sentimentos. Nesse processo de junção e numa abordagem holística, devem-se desenvolver metodologias de ensino e de aprendizagem que estimulem a relação dialógica dos estudantes com sua realidade endógena e exógena.
Segundo Demo (1999), os alunos contemporâneos buscam as universidades com o intuito de construir e reconstruir o conhecimento junto aos professores e não apenas serem meros espectadores da sua formação. O autor ainda afirma que, no ambiente acadêmico, a eletrônica não é essencial, mas tornou-se o mais interessante propulsor de informações. E adverte que os instrumentos eletrônicos não são por si só educativos ou formativos, mas contribuem juntamente com a
“ambiência humana” para um formato de aprendizado mais “atraente, dinâmico”. O
que aconteceu foi uma significativa mudança: maior responsabilidade no desempenho das funções docentes, pois se tornou mais complexo o ato de ensinar.
É indiscutível a importância do papel do docente na vida acadêmica estudantil: preparação dos jovens para um futuro incerto, repleto de variáveis que deverão enfrentar. Essa preparação envolve se instruir, utilizando saberes práticos e
Como assevera Masetto (2010), no que se refere às universidades, o cenário atual ainda reflete o modelo importado pela família real portuguesa que privilegiava apenas a reprodução do conhecimento e não o fomento à pesquisa e a mediação entre a ciência e os alunos.
Ainda arrasta-se um legado negativo do período do Brasil Colônia, o atraso à implantação de universidades brasileiras por total desinteresse dos colonizadores, proibindo o uso da imprensa ou de qualquer forma de desenvolvimento autônomo econômico, cultural e social no país (TEIXEIRA, 1989).
Os anos se passaram e, apesar da evolução em alguns aspectos, como um maior acesso, a quebra de paradigmas ainda se faz de maneira lenta e gradual, acerca desse tema, Demo (2005, p. 2), afirma que mudanças não constituíam o foco primordial nas universidades do passado, mas a “[...] preservação dos patrimônios culturais, o fomento da docência e o cultivo do saber elaborado”.
Completando a reflexão sobre a rigidez em assuntos acadêmicos, Demo (2005, p. 2) assevera que, mesmo nos dias atuais ainda prevalece “[...] mais facilmente o argumento de autoridade do que a autoridade do argumento”. Com a
assertiva, entende-se que o autor critica a postura de professores que ainda se veem como únicos detentores do conhecimento e declinam da possibilidade de tornar a sala de aula um espaço para construção conjunta do conhecimento e do desenvolvimento de habilidades que favoreçam tal perspectiva e não o contrário.
Além disso, destacam-se alguns aspectos que influenciam negativamente no processo de ensino-aprendizagem. Moran (2012) aponta a utilização de metodologias ultrapassadas que privilegiam puramente a exposição de conteúdos, salas de aulas com grande número de alunos, orientandos por professores com formação acadêmica e pessoal questionáveis, mal remunerados e com baixa motivação.
Outros problemas são acrescentados ao rol como o “[...] desinteresse por
parte dos alunos, altos índices de reprovação e desistência, desgaste e
desvalorização do professor, [...]” (RAMOS, 2011, p. 55).
Segundo o mesmo autor, a própria infraestrutura das instituições de ensino, via de regra, é inadequada, com salas impróprias, escassez de material escolar inovador e tecnologias de difícil acesso à maioria. E ainda afirma que, em boa parte, o ensino se volta apenas para o retorno financeiro facilitado pela enorme procura, utilizando-se de discursos que não estão alinhados com a prática.
Ao discorrer sobre o tema, pretendeu-se abordar as dificuldades enfrentadas por docentes e discentes no processo de ensino-aprendizagem no cenário hodierno. A própria dinamicidade das mudanças tecnológicas, politicas, sociais e econômicas impactam de maneira significativa nesse processo, ocasionando a necessidade de estudos e de pesquisas mais aprofundadas sobre o assunto.
Nesse sentido, busca-se, no presente trabalho, colocar em debate o uso da tecnologia, em especial, o dispositivo móvel ubíquo, no processo de ensino- aprendizagem no Ensino Superior e investigar as percepções dos alunos sobre o tema.
2.2 TECNOLOGIAS NA EDUCAÇÃO SUPERIOR BRASILEIRA
Nos anos 60 do século XX, Teixeira (1969, p. 157) já esboçava sua preocupação com os impactos das tecnologias na educação brasileira. E alertava:
“[...] com as tecnologias recentes ligadas ao próprio ato de pensar do homem [...]
não o atingem apenas em seu organismo, mas alteram também toda sua vida
institucional e social”.
Na referida publicação, Teixeira (1969) ainda descrevia o processo de inovação tecnológica, relembrando o computador Eniac, criado em 1946, sua dimensão, pois ocupava enorme espaço físico e pesava mais de 30 toneladas, e a necessidade de potente sistema de ar condicionado para dissipar o calor gerado pelos seus componentes.
Ainda com destaque para a visão futurista de Anísio Teixeira, ressalta-se sua percepção sobre a incapacidade geral de lidar com o progresso tecnológico.
Hoje, pouco mais de 60 anos depois do Eniac, surgem, em uma velocidade vertiginosa, dispositivos cada vez menores, mais avançados nas suas funcionalidades, que permitem aos seus usuários se conectarem, interagirem e até mesmo serem transportados virtualmente a lugares diversos. Citam-se, nesse caso, os notebooks, os netbooks, os tablets, os ipads e os celulares, ferramentas que possibilitam o acesso à internet e, consequentemente, a uma infindável rede de informações.
Segundo Lemos (2004), a tecnologia desenvolveu-se a partir da eclosão do
“imaginário social” e sua história caracterizou-se por três grandes fases: a fase da indiferença (até a Idade Média), a fase do conforto (Modernidade) e a fase da ubiquidade (Pós-modernidade):
primeira fase (indiferença): caracterizou-se pelo misto de “arte,
religião, ciência e mito. “A vida social é um todo coerente que gira em torno de um universo sagrado. [...] A técnica não é uma realidade em si [...]”.
segunda fase (conforto): “A natureza é dessacralizada, controlada, explorada e transformada. [...] A ciência substitui a religião no monopólio da verdade, e a tecnologia faz do homem um deus na administração racional
do mundo”.
terceira fase (ubiquidade): “A fase da simulação, a fase da
cibercultura. As ideologias da modernidade perdem forças e são substituídas pela ênfase no presente, numa sociedade cada vez mais refrataria às falas futuristas, cada vez mais submergida em jogos de linguagem. Estamos no vácuo espaço-temporal [...].” (LEMOS, 2004, p. 52-53).
Na atualidade, encontram-se diversos estudos que mapeiam a importância da evolução tecnológica e defendem seu uso na prática pedagógica por ser um
“caminho sem volta”. Lemos (2004) adverte que a tecnologia é considerada um dos
fatores essenciais na organização social da contemporaneidade e ressalta a intensidade relacional entre o homem e a tecnologia tendendo, inclusive, a uma
“interface zero, a uma simbiose completa” (LEMOS, 2004, p. 113).
mundo, em que se podem consultar obras e visitar museus e laboratórios, tudo isso em uma jornada virtual.
Inúmeras mostras da inserção e da importância das TICs no universo acadêmico surgem a cada dia. Tosta (2014) aborda sobre realidades tecnicizadas e as conexões e as desconexões entre professores e alunos no emaranhado midiático nos quais os tempos e os espaços excedem a sala de aula, a escola, a universidade.
Hodiernamente o individuo vivencia temporalidades fragmentadas, rotinas céleres. Com o uso da tecnologia, foi permitido executar inúmeras atividades de forma simultânea, possibilitando assim, uma maior interação social (RAMOS, 2011).
Baseando-se nessas afirmativas nas quais se percebe a sociedade atual mergulhada em uma grande teia cibernética, buscou-se por autores que venham a descrever suas percepções sobre os aspectos positivos e negativos acerca do uso da tecnologia no meio acadêmico.
Como assevera Demo (2000) em seu artigo sobre as “Ambivalências da Sociedade da Informação”, há grande perigo das transmissões informacionais se tornarem fontes de desinformações, pois dependem do interesse e percepção dos
sujeitos envolvidos no processo de comunicação. E conclui dizendo “[...] o mundo da
informação é agitado, conturbado, porque é, ao mesmo tempo, intrinsecamente manipulado e impossível de ser totalmente manipulado” (DEMO, 2000, p. 41).
Moran (2012) propõe como “integrar as tecnologias de forma inovadora” e
afirma que:
[...] aprendemos quando relacionamos, integramos. Uma parte importante da aprendizagem acontece quando conseguimos integrar todas as tecnologias, as temáticas, as audiovisuais, as textuais, as orais, musicais, lúdicas, corporais (MORAN, 2012, p. 32).
O autor ressalta que a sociedade ainda não aprendeu e nem explorou suficientemente todo o potencial resultante da rápida evolução “[...] do livro para a televisão e o vídeo e destes para o computador e a internet” (MORAN, 2012, p. 32).
tecnológica, dificulta o aprimoramento dos processos pedagógicos necessários ao planejamento, à prática e à avaliação segura dos resultados obtidos.
Corroborando o exposto anteriormente, Demo (2005, p.1) assevera que se habita em “[...] um cenário de mudanças [...], cada vez mais veloz, conturbado,
complexo, não linear, imprevisível, estonteante”, e todos esses aspectos geram dificuldades de nortear, de maneira segura, práticas de ensino e de aprendizagem, utilizando os recentes aparatos tecnológicos.
No seu artigo “Cultura Digital, Educação Midiática e o Lugar da Escolarização”, Buckingham (2010) expõe sua perspectiva em contraponto a diversos autores defensores do uso da tecnologia no ambiente escolar. O autor questiona se as TICs (que ele chama de ICT) são realmente indispensáveis no ensino-aprendizagem ou apenas sua disseminação está intimamente ligada à mercantilização dos seus equipamentos, como hardwares e softwares e ao consequente apoio das politicas governamentais.
Diversos estudos nos Estados Unidos e no Reino Unido hoje estão contando histórias semelhantes: mostram que a maioria dos professores são céticos em relação aos benefícios educacionais da tecnologia computacional e que o investimento em tecnologia nem sempre resulta em formas novas e criativas de aprendizagem, nem mesmo em progressos nos resultados das provas (BUCKINGHAM, 2010, p. 40, grifos da autora).
O mesmo autor, no bojo do artigo citado, traz à tona exemplos de pesquisas recentes que desconstroem o paradigma de que as TICs são imprescindíveis no âmbito acadêmico:
Dando continuidade à linha de pensamento das TICs como parte de um problema vivenciado na contemporaneidade, busca-se Behrens (2012) para provocar reflexões acerca do comportamento humano diante do uso contínuo de tais tecnologias.
Os avanços tecnológicos, científicos e eletrônicos não estão trazendo a vida em plenitude para o homem. Ao contrário, vieram desafiá-lo e angustiá-lo, levando-o ao estresse, à competitividade exacerbada, a um pensamento isolado e fragmentado, impedindo-o de ver o todo e retirando a responsabilidade de atos isolados perante a sociedade (CARDOSO, 1995 apud BEHRENS, 2012, p.81).
Assim, se por um lado, a tecnologia é vista como um mecanismo de
desagregação, por outro, propicia as abordagens pedagógicas “[...] a conjunção, a
interconexão, o inter-relacionamento da teia” (BEHRENS, 2012, p. 88).
Ainda na tentativa de expor a ambiguidade de percepção sobre a influência das tecnologias no cotidiano educacional, Demo (2001) levanta o debate acerca da
“telepistemologia: conhecimento reconstruído a distância, em particular no mundo virtual da internet” (DEMO, 2001, p. 55). E acrescenta que a denominada virtualização está a cada dia mais presente, habitual e cotidiana para muitos.
Se os muros das escolas já foram ultrapassados há muito, e os alunos agregam conhecimento de diversas formas, como lidar com essa realidade de difícil definição, pois, segundo Demo (2001), é menos palpável, mas cada vez mais presente.
As novas ferramentas tecnológicas favorecem o aprendizado on line, que, por sua vez, possibilita aos usuários a interação, o respeito aos seus próprios ritmos e limites, pois pode ser realizado a qualquer tempo e lugar. Por outro lado, essas facilidades promovem um sem número de ludíbrios, incertezas, abreviações (DEMO, 2005).
Segundo Moreira e Kramer (2007, p. 1048), “Para além do pessimismo ou do
otimismo, o que parece mais perigoso é a renúncia ao reconhecimento de que há
mudanças e novos aparatos tecnológicos que formam e informam uma geração”.
Esse é um importante alerta aos adultos, sobretudo aos pais e aos docentes.
improváveis, mais imprevisíveis”. É o que se verifica em vários aspectos da vida
cotidiana, especialmente na esfera da comunicação e da economia.
Ainda que se traga à tona a complexidade e a ambiguidade da questão, faz-se necessário um estudo de maior amplitude que possa favorecer uma melhor adaptação das instituições e da prática docente às novas formas de utilização das tecnologias ubíquas.
Adiante, serão abordadas as conexões e as interações entre os jovens na atualidade, proporcionadas pelo surgimento e pela disseminação dos dispositivos móveis ubíquos, em particular, o telefone celular, que se tornou, como se verá posteriormente, uma ferramenta tecnológica muito utilizada em sala de aula com propósitos acadêmicos ou não.
2.3 JOVENS E SUAS CONEXÕES
A juventude atual encontra-se inserida em um cenário altamente dinâmico, instável, no qual as transformações sociais, politicas, econômicas e os avanços tecnológicos, cada vez mais céleres, impactam a todos e provocam mudanças na forma de ser e de agir.
Nesse cenário, destacam-se as TICs, que surgiram da necessidade de comunicação e interação do homem com o meio em que vive e com seu semelhante.
Sobre a importância de comunicação para os indivíduos, Clarke (1979) afirma que o individuo necessita comunicar-se quase como precisa alimentar-se, pois poderá sobreviver algum tempo sem comida ou água, mas sem informações (ausência sensorial), torna-se impossível. Assim, faz-se imprescindível o funcionamento dos sentidos; visão, audição, paladar, tato e olfato, dentre outros ainda em estudos pelos cientistas, à sobrevivência do individuo. Para corroborar a relevância da captação dos estímulos ligados ao meio ambiente, principalmente no que se refere à aprendizagem, Shimizu e Miranda (2012, p.257) afirmam que:
Mesmo em tempos remotos, o maior objetivo de comunicar-se era a interação e a formação de redes. Como asseveram Magalhães e Mill (2013), desde a utilização dos desenhos rupestres, com imagens dos deuses, cenas militares entre outras, já estava implícito na função primordial da comunicação a formação da conectividade entre os seres.
A geração atual consegue conciliar o uso das TICs à sua necessidade de comunicação, de conexão e o faz utilizando diversas ferramentas disponíveis no mercado (celulares, computadores, tablets). “Todas as pesquisas recentes apontam
a velocidade com que as novas gerações absorvem o uso das novas tecnologias de
informação e comunicação” (ABRAMO, 2013, p. 22).
Como menciona Nicolaci-da-Costa (2005), a telefonia fixa e a telefonia celular proporcionam a interação virtual e podem fortalecer os relacionamentos. Citam-se, principalmente os dispositivos móveis, como os celulares, que se destacam pela quantidade de funcionalidades e dimensões cada vez menores.
Com o intuito de confirmar a disseminação do uso do celular pelos jovens contemporâneos, buscou-se a “Pesquisa Agenda Juventude Brasil” (2013), aplicada
entre jovens de 15 a 29 anos, residentes no Brasil, que aponta que 9 em cada 10 jovens (89%) possuem celulares e o utilizam para comunicar-se, por chamadas ou
por SMS. “O principal uso do celular é a comunicação, por chamadas ou mensagens
de texto, mas ganham presença outros usos como ouvir música, fotografar, filmar, buscar informações por internet e conectar-se a redes sociais” (ABRAMO, 2013, p.
24).
Segundo Yus (2002, p. 231), há uma “[...] crescente proximidade e o
encolhimento do mundo em virtude das facilidades dos meios de transporte e de
comunicação”. Esse movimento é assíncrono e cada vez mais veloz.
Na visão simmeliana, a sociedade é formada por indivíduos interdependentes e interagentes entre si. Essa convivência pode ser motivada por diversos tipos de estímulos: instintivos, religiosos, afinidades e de auxílio, dentre outros (SIMMEL, 2006). E essa relação provoca efeitos, influências recíprocas:
finalidades formam uma unidade - mais exatamente, uma ‘sociedade’.
(SIMMEL, 2006, p.59-60).
Essa convivência proporciona a formação de uma grande teia ou rede. Ressalta-se, inclusive, o surgimento, a partir da segunda metade do século XX, do
termo “aldeia global”,14 para conceituar a inexistência de limites geográficos e
temporais para a conexão e interação entre indivíduos em nível mundial.
Diante disso, procurou-se investigar o conceito de rede para favorecer ao melhor entendimento. Segundo Olivieri (2008), o termo "rede" vem do latim retis, significando o entrelaçamento de fios que formam uma espécie de tecido. Com o passar do tempo, a ideia do entrelaçar fios ganhou significados diversos, inclusive sendo utilizada para definir a atitude de conectividade entre pessoas.
De acordo com Castells (1999), uma rede pode ser definida como:
[...] um conjunto de nós interconectados. Nó é o ponto no qual uma curva se entrecorta. Concretamente, o que um nó é depende do tipo de redes concretas de que falamos [...]. Redes são as estruturas abertas capazes de expandir de forma ilimitada, integrando novos nós desde que consigam comunicar-se dentro da rede, ou seja, desde que compartilhem os mesmos códigos de comunicação (por exemplo, valores ou objetivos de desempenho) (CASTELLS, 1999, p. 498).
Ao citar os referidos autores, objetiva-se destacar que os indivíduos, de maneira geral, interagem como se fossem os nós de uma grande rede, ou seja, componentes interligados que interagem com os diversos fatores criados por eles próprios ou não. Chama-se a atenção, especificamente, para o comportamento da juventude no momento atual, no qual se percebe o contato contínuo, principalmente por meio dos celulares, que vai desde bate-papos sobre assuntos corriqueiros, compartilhamentos de fotos e vídeos até a discussão e resolução de trabalhos escolares, prática cada vez mais em voga no ambiente acadêmico.
É importante notar que o aparelho celular é um marco da atualidade, já que representa uma série de novas possibilidades do ponto de vista da comunicação, conectividade, mobilidade e socialização. Sua importância no cotidiano de qualquer sujeito, inclusive dos jovens, se mostra bastante pertinente ao momento sócio - cultural - histórico (ARRAIS, 2014, p.4).
14 O termo criado pelo sociólogo canadense Marshall Mc Luhan, refere-se ao conjunto formado pelo
entrelaçamento virtual global de indivíduos ultrapassando limites geográficos e temporais. Marshall McLuhan, The Gutenberg Galaxy. The Making Typographic Man, Toronto, University of Toronto