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A o b r a d o s p r o fesso r es Dar o n Acemoglu, do Massachusetts Institute of Technology, e James A. Robinson, da Universidade Harvard, traz a re-flexão sobre a importância e a rele-vância de compreender a relação en-tre economia e política. Nesse estu-do, eles preocupam-se em explicar por que a democracia surge e o que determin a a su a estabilidade. Par-t em d e p ergu n Par-t as in q u iePar-t an Par-t es, como: Por que os ricos não cedem u m p a p e l p o l í t i c o a o s p o b r e s ? Quando o fazem, por que não o to-mam de volta o mais rapidamente possível? É um estudo comparativo, no qual se procura explicar as tra-jetórias que tanto os regimes demo-cráticos como os não demodemo-cráticos podem trilhar, a partir dos casos do Reino Unido, Argentina, Cingapura e África do Sul.
ECONOM IA E POLÍTICA: O FUTURO DA DEM OCRACIA
Por José M atias-Pereira
Professor e pesquisador do PPGA-UnB
E-mail: [email protected]
Para alcançar os seus propósitos, Acemoglu e Robinson criaram um modelo explicativo da luta pela de-mocracia baseado na teoria dos jo-gos, que representa um embate en-tre dois jogadores: o jogador da “eli-te” e o jogador “cidadão”. Os joga-dores agem racionalmente, têm vi-são de longo prazo, levam-se mutua-mente em conta em cada um dos seus lances, e são motivados por interes-ses econômicos e não por ideologias. É necessário reconhecer que a sim-plificação exagerada da depuração de certos detalhes históricos para expor a estrutura subjacente ao surgimen-to da democracia nos pareceu, em princípio, preocupante.
Os au tores argu m en tam qu e o surgimento e a trajetória da demo-cracia no Reino Unido foram reco-nhecidamente lentos, complexos e
sofridos porque as classes dominan-tes permitiram apenas uma expan-são gradu al do direito ao voto. A dem ocracia n a Argen tin a oscilou sistematicamente no século XX. Em Cin gapu ra, a ditadu ra criou tan ta abundância que a oposição popular p er m an eceu m u it o red u zid a. Na África do Sul, o sistema de apartheid optou por elevar a repressão de for-ma cada vez for-mais violenta.
Para os professores Acemoglu e Robinson – que modelam o esforço para a democracia como uma parte da teoria de jogos a partir de uma com p et ição est r at égica en t re u m número reduzido de jogadores –, a resposta está nos custos e benefícios para am bas as partes en volvidas. Para os autores, as elites podem ce-der irrevogavelmente algum poce-der às massas mediante a criação de
ins-ECONOM IC ORIGINS OF DICTATORSHIP AND DEM OCRACY: ECONOM IC AND POLITICAL ORIGINS
De Daron Acemoglu e James A. Robinson.
Cambridge: Cambridge University Press, 2005. 540 p.
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tituições democráticas. Dessa forma, elas buscam reduzir drasticamente a ameaça de revolução e conservar uma parcela de poder para si.
Os au t ores argu m en t am ain d a qu e, como o cu sto da repressão é elevado, torna-se mais interessante para a elite abrir mão de uma parte do poder, em vez de partir para o enfrentamento. Por sua vez, os cus-tos das revoluções também são ele-vados, o qu e torn a mais atraen te para as massas aceitar compartilhar o poder do que eliminar a elite. A base do argumento para explicar por que a maioria exige mudança insti-tucional de preferência a alterações n as políticas é qu e a dem ocracia implica um compromisso de longo prazo por parte da elite.
Afirmam os autores ser mais pro-vável que a democracia apareça em uma sociedade industrial ou pós-in-dustrial do que em uma sociedade agrícola. As elites, n as sociedades agrícolas, preferem reprimir, e com isso acabam provocando a revolução. Nos países em que a democracia for-talece os direitos de propriedade, confere-se mais poder à maioria, o que torna a situação mais aceitável para as elites. Isso porque a desigual-dade econômica torna a democracia insuportável às elites e paradoxal-mente mais interessante às massas populares, já que assim se criam as condições para que se fomente o con-flito civil e conseqüentemente a ge-ração de democracias in stáveis. A existência de uma classe média am-pla, por suas vez, tende a conduzir o país rumo à democracia, visto que a sociedade civil se torna mais consis-tente, ao mesmo tempo em que os perigos do populismo irresponsável tendem a ser reduzidos.
A globalização, para Acemoglu e Robinson, contribui para reduzir o temor do populismo por parte das elites, visto que ela diminui a
capa-cid ad e d e t r ibu t á-las. Países qu e possuem vantagens comparativas na produção de mercadorias e serviços, e que utilizam grandes contingen-tes de mão-de-obra, são orientados para a democratização. Por sua vez, países qu e depen dem de recu rsos desigu almen te distribu ídos cami-nham em sentido contrário.
Dessa forma, os autores do estu-do buscam explicar por que a de-mocracia plen a se con solidou n o Rein o Un id o, t em sid o fr ágil n a América Latina, nunca aconteceu em Cingapura e demorou bastante tem-po para avançar na África do Sul. No Reino Unido, a combinação de desi-gualdade com industrialização e a as-censão da classe média tornara a de-mocracia tolerável para a elite e dese-jável para as massas. Na América La-tina, a desigualdade elevada e a pre-dominância da riqueza de recursos tornaram a democracia frágil, como também ocorreu na Rússia pré-revo-lucionária. Em Cingapura, a igualda-de tornou a igualda-democracia plena menos atraente para as massas. Na África do Sul, o elevado nível de desigualdade e os recursos naturais tornaram a re-pressão atraente, até o desenvolvi-mento da economia, quando os cus-tos da repressão se tornaram inviáveis. Ao tratar do fu tu ro da democra-c i a , a r gu m e n t a m Ademocra-c e m o gl u e Robin son ( n o décimo primeiro capítu lo do livro) : “Se essas mu dan -ças se d issem in am p elo m u n d o, pode-se esperar qu e as elites e os partidos con servadores se torn em mais poderosos, e a democracia n o fu tu ro se torn e men os redistribu ti-va, especialmen te se n ovas formas d e rep resen tação p ara a m aioria, tan to n a esfera política como n os locais de trabalh o, n ão se desen vol-verem. Dessa forma a democracia ten derá a con solidar-se. Todavia, para mu itos qu e esperam qu e a de-mocracia tran sforme a sociedade,
como acon teceu com a In glaterra n a primeira metade do sécu lo XX, poderá tratar-se de u ma forma de-cepcion an te de democracia”.
Ver ifica-se q u e a d em o cr acia emerge a partir de u m comprome-timento das elites com reformas por n ão possu írem altern ativas. Os au -tores argu men tam ain da qu e as eli-tes ten dem a con ceder a democra-cia quando se reduz o temor de uma tribu tação redistribu tiva. Observa-se, por fim, qu e em todo o mu n do as con dições para o su rgimen to de democracias estáveis estão se dis-semin an do. A base dessa trajetória está no processo de desenvolvimen-to econ ômico. Essa é u ma con sta-tação qu e deve ser celebrada pela h u man idade.
É importan te ressaltar qu e o es-tu do n ão está apoiado em trabalh o empírico. Os estu dos de casos es-tão distribu ídos de man eira frag-men tada ao lon go do livro, e foram escritos com o propósito de su sten -tar os argu men tos dos au tores. O emprego da teoria dos jogos tam-bém n ão é de todo satisfatório por-qu e as classes sociais ou econ ômi-cas n ão agem de forma u n ísson a.
Em qu e pesem as deficiên cias e as imperfeições dos modelos extre-m aextre-m en te técn icos, o trabalh o de Acemoglu e Robin son é in stigan te e deve ser recebido pelos leitores como u m estu do relevan te e in ova-dor. Merece ser in clu ído como lei-tu ra obrigatória para govern an tes, políticos e empresários brasileiros. Na academia, deve merecer a aten -ção daqu eles qu e se preocu pam em aprofundar seus conhecimentos so-bre as variáveis qu e tratam da in te-ração en tre política e econ omia, pecialmen te os pesqu isadores e es-tu dan tes dos cu rsos de gradu ação e pós-gradu ação em Econ omia, Ad-m in istr ação, Ciên cias Con tábeis, Ciên cia Política e Sociologia.