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FELIPE ALMEIDA DOS SANTOS AGOSTO DE 2011

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Academic year: 2018

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AS INUNDAÇÕES NA BACIA DO ARICANDUVA (MUNICÍPIO DE SÃO PAULO) E O SUPORTE DOS REVESTIMENTOS VEGETAIS DA APA DO CARMO NA INTERCEPTAÇÃO DAS PRECIPITAÇÕES.

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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO - SP PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM GEOGRAFIA

AS INUNDAÇÕES NA BACIA DO ARICANDUVA (MUNICÍPIO DE SÃO PAULO) E O SUPORTE DOS REVESTIMENTOS VEGETAIS DA APA DO CARMO NA INTERCEPTAÇÃO DAS PRECIPITAÇÕES

FELIPE ALMEIDA DOS SANTOS

Dissertação apresentada à Banca Examinadora como exigência parcial para a obtenção do título de MESTRE em Geografia na área de concentração Territorialidade e Análise Sócio-Ambiental da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, PUC-SP, sob a orientação do Prof. Dr. Edson Cabral.

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FOLHA DE ANÁLISE DA BANCA

Felipe Almeida dos Santos

AS INUNDAÇÕES NA BACIA DO ARICANDUVA (MUNICÍPIO DE SÃO PAULO) E O SUPORTE DOS REVESTIMENTOS VEGETAIS DA APA DO CARMO NA INTERCEPTAÇÃO DAS PRECIPITAÇÕES

Dissertação apresentada ao Programa de Pós Graduação em Geografia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo para a obtenção do Título de Mestre em Geografia

Linha de pesquisa: Meio Ambiente e Novas Tecnologias

Aprovado em: ____/_____/2011

Banca Examinadora:

Orientador: Prof. Dr. Edson Cabral

Instituição: PUC – SP Assinatura:_________________

Prof. Dr. José Bueno Conti

Instituição: FFLCH - USP Assinatura:_________________

Prof. Dr. Carlos Alberto Bistrichi

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“Os poderosos podem matar uma, duas, até três rosas, mas nunca

deterão a primavera”

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AGRADECIMENTOS

Agradeço a todos os envolvidos direta e indiretamente nesse trabalho, uma vez que inúmeros foram os participantes e apoiadores de tal feito que representa esse estudo em minha trajetória de estudante, de sujeito inquieto perante as injustiças e desigualdades existentes e também de educador que sou, confiante em uma transformação a partir das vias da educação pública, no levante dos “de baixo”.

Em especial agradeço meus familiares: meus pais Ademir e Teresa pelo apoio fraterno e sentimento de amor, bem como toda a formação cultural e familiar transmitida; minha Irmã Denise, meu cunhado Junior e minha sobrinha Isabela, que mesmo não os vendo diariamente, são parte plena de minha vida. Agradeço meus primos: Ne, pelo apoio amigo e a grande colaboração na coleta dos totais pluviométricos após o acidente que sofri; Daniel, pelas ideias trocadas e colaboração com o tratamento das imagens; Poio, pelo estímulo do pensamento de que, se ainda nada mudou, ainda pode ser mudado.

Meu grande companheiro e amigo Ronaldo Malheiros Figueira, grande mestre da geografia; André Lusivo, amigo, colaborador de ideias e cartógrafo de minhas maluquices, sempre dando sua força nos materiais cartográficos; Ricardo Yuzo, grande amigo que sempre me apoiou, e mesmo estando distante, sei que muito torceu pela elaboração desse trabalho.

Meus amigos da Escola Caritas, onde iniciei minha prática docente e construí as ideias iniciais desse trabalho.

Os companheiros da Escola Estadual Cidade de Hiroshima, que muito me apoiaram e contribuíram para minha formação crítica e ideológica.

Em especial agradeço meus orientadores: Carlos Alberto Bistrichi, pelas ideias, sugestões e apoio durante toda a pesquisa; Prof. Dr. Edson Cabral, por sua profunda solidariedade, colaboração e companheirismo nas ideias, sugestões e recomendações, bem como pelo aceite e acolhida quando da mudança de orientação.

Ao Prof. Dr. José Bueno Conti pela imensa contribuição em sua apreciação ao trabalho.

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guarda-parques que diariamente me acompanharam nas caminhadas e coletas durante os procedimentos de análise das interceptações.

Agradeço ao SESC Itaquera pela autorização de pesquisa e instalação dos pluviômetros.

Agradeço meus companheiros da PUC-SP pelas colaborações e sugestões, em especial a Prof. Dra. Vilma, por suas broncas sempre alegres e seu infinito conhecimento de campo.

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RESUMO

Este trabalho tem por objetivo analisar o suporte dos dois principais revestimentos vegetais da APA do Carmo na interceptação das precipitações, enquanto alternativa a política dos reservatórios de retenção/contenção (piscinões), adotados enquanto solução prioritária a problemática das inundações na bacia do Aricanduva, município de São Paulo. Para tanto, buscou-se compreender a gênese das inundações a partir da originalidade fisiográfica da bacia do Aricanduva, localizada no extremo leste do município de São Paulo, destacando os processos históricos que resultaram na intensificação dos episódios de inundações na bacia, bem como sua correlação com a expansão urbana. A fim de inferir o suporte das áreas verdes na redução do potencial hídrico proveniente das precipitações torrenciais, foi adotada metodologia de análise da interceptação vegetal, distribuindo um total de dez pluviômetros em dois dos principais revestimentos vegetais da APA do Carmo, respectivamente floresta atlântica em estágio avançado de regeneração e eucaliptal com sub-bosque, tendo como parâmetro de análise dois pluviômetros instalados em área aberta adjacente aos respectivos tipos de vegetação. Os totais interceptados foram coletados diariamente durante os meses de verão, com início em dezembro de 2009 e término em março de 2010, período caracterizado como de maiores médias pluviométricas no município. A partir dos resultados obtidos, levantou-se que nesse período ocorreu na bacia do Aricanduva um total de nove episódios de inundação, com médias de precipitação da ordem de 38,9 mm, sendo que nesses eventos pluviais a interceptação atingiu em média 35% (18 mm), o que possibilita apontar que às áreas totais dos respectivos revestimentos vegetais, contribuem para interceptar o equivalente a um piscinão com capacidade média. Desta forma, frente ao aumento expressivo dos episódios de inundações na bacia do Aricanduva, mesmo após a adoção da política dos piscinões, destaca-se a necessária incorporação dos remanescentes florestais existentes em toda bacia enquanto instrumento prioritário aos planos de macrodrenagem, uma vez o custo mínimo de manutenção das áreas verdes em comparação aos piscinões, dentre todos os potenciais ecodinâmicos possibilitados pela conservação dos espaços florestados.

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ABSTRACT

Their work aims to analyze the support of two major plants facing the APA do Carmo in the interception of precipitation, against the policy of holding tanks / containments (piscinões), used as a reference to problems of flooding in the basin of Aricanduva. To this end, we adopted the methodology of analysis of vegetation interception, distributing a total of ten rain gauges in two major plants facing the APA do Carmo, having as parameter analysis of two rain gauges installed in an open area adjacent to the respective vegetation types. Totals intercepted were collected daily during the summer months, starting in december 2009 and ending in march 2010, a period characterized as the highest average rainfall in the county. From the results obtained, we inferred that in this period occurred in the Aricanduva basin a total of nine episodes of flooding, with average rainfall of about 38.9 mm, and rainfall interception in these events has averaged 35% (18 mm), allowing it to approach an area with native forest regeneration on relatively homogeneous, contributes to intercept the equivalent of a big pool with medium capacity. Therefore, against the significant increase of flooding episodes in the basin of Aricanduva even after the holding tanks incorporation, stands out the require to insertion of the remaining forests that exist in the role basin as a tool to priority plans of microdrainage, once the minimum cost of maintenance of green areas compared to the holding tanks among all potential Eco dynamics enable because of the conservation of the forested areas.

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LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

AF – Subprefeitura de Arivanduva/Formosa A.P. – Antes do presente

APA – Área de Proteção Ambiental

APA DO CARMO – Área de Proteção Ambiental Parque e Fazenda do Carmo CGE – Centro de Gerenciamento de Emergências

COMDEC – Coordenadoria Municipal de Defesa Civil

COHAB – SP – Companhia Metropolitana de Habitação de São Paulo CT – Subprefeitura de Cidade Tiradentes

DAEE – Departamento de Águas e Energia Elétrica METRO – Companhia do Metropolitano de São Paulo ONU – Organização das Nações Unidas

PE – Subprefeitura da Penha

PMSP – Prefeitura Municipal de São Paulo

PNMFC – Parque Natural Municipal Fazenda do Carmo

PNUMA – Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente PPDC – Plano Preventivo de Defesa Civil

SABESP – Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo SESC - Serviço Social do Comércio

SM – Subprefeitura de São Mateus

SMA – Secretaria do Meio Ambiente / Estado

SNUC – Sistema Nacional de Unidades de Conservação SPR – Companhia São Paulo Railway

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LISTA DE FIGURAS

01 - Setores da Fazenda do Carmo em 1940 ... 32

02 – Geologia da Bacia do Aricanduva ... 40

03 – Hipsometria da Bacia do Aricanduva ... 41

04 – Modelo Digital do Terreno da Bacia do Aricanduva ... 42

05 – Subprefeituras da bacia do Aricanduva ... 49

06 – APA Parque e Fazenda do Carmo em 2001(uso do solo e revestimentos vegetais) ... 81

07 – Zoneamento ambiental da APA Parque e Fazenda do Carmo ... 82

08 – Área de Proteção Ambiental Parque e Fazenda do Carmo... 88

09 – Distribuição dos pluviômetros instalados no Parque Natural Municipal Fazenda do Carmo... 89

10 – Distribuição dos pluviômetros instalados no SESC ... 90

11 – Pluviômetros utilizados ... 91

12 – Pluviômetro localizado em área aberta adjacente ao eucaliptal com sub-bosque no SESC... 93

13 – Pluviômetro localizado em área aberta no Parque Natural Municipal Fazenda do Carmo ... 94

14 – Pluviômetro (10) localizado no interior de área florestada no Parque Natural Municipal Fazenda do Carmo ... 95

15 – Pluviômetro (03) localizado no interiror de área de eucaliptal com sub-bosque no SESC ... 96

16 – Correlação de interceptação/precipitação ... 98

17 – Registros de precipitações por intensidades ... 99

LISTA DE TABELAS 01 – Repercussões e totais pluviométricos dos episódios de inundações na bacia do Aricanduva entre 1995 e 2010 ... 51

02 – Totais de episódios de inundações por grupos de intensidade de precipitações entre 29/01/1995 e 13/12/2010 ... 57

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ... 14

I – A BACIA HIDROGRÁFICA DO ARICANDUVA NO CONTEXTO DE FORMAÇÃO DA METRÓPOLE PAULISTANA ... 19

I.I As inundações e a relação das águas com o sítio inicial da metrópole paulistana... ... 19

I.II A expansão da metrópole “rumo” ao leste e sua relação com o sistema hídrico ..29

I.III Originalidade Fisiográfica da bacia hidrográfica do Aricanduva ... 37

II – A EVOLÇÃO DOS EPISÓDIOS DE INUNDAÇÕES NO ARICANDUVA E SUA CORRELAÇÃO COM A EXPANSÃO URBANA ... 46

II.I Evolução e repercussão dos episódios de inundações no Aricanduva... ... 46

II.II A supressão aos espaços florestados na bacia do Aricanduva ... .60

I.III Agravantes dos episódios de inundações ... 66

I.IV Política de macrodrenagem na bacia do Aricanduva ... 70

III – REVESTIMENTOS VEGETAIS DA APA DO CARMO E O SUPORTE NA INTERCEPTAÇÃO DAS PRECIPITAÇÕES ... 76

III.I A APA do Carmo e a tipologia dos revestimentos vegetais... ... 76

III.II O suporte das interceptações florestais ... .84

III.III Procedimentos de análise da interceptação das precipitações nos revestimentos vegetais da na APA do Carmo ... 86

I.IV Totais interceptados e resultados obtidos ... 97

I.IV Interceptação florestal versus política dos piscinões ... 102

CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 107

REFERÊNCIAS ... 111

ANEXO 01 Desmatamento no município de São Paulo (1991-2000) ... 119

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INTRODUÇÃO

Os períodos que antecedem os meses de verão, especificamente nas grandes cidades do domínio tropical atlântico, são historicamente marcados por questionamentos quanto às possíveis consequências das inundações durante os episódios de precipitação intensa.

A busca por soluções aos impactos das inundações em áreas urbanas, apesar de abranger extensos debates na mídia e na opinião pública, continuamente negligencia a gênese das inundações a partir da dinâmica climática e da originalidade geomorfológica dos espaços herdados da natureza.

Constantemente esferas do Poder Público recorrem aos céus para justificar os agravantes das cheias, eximindo assim a omissão das políticas de combate às inundações que privilegiam especificamente estratégias paliativas, de interesse da especulação imobiliária e de setores responsáveis pelas eternas ações de intervenção nos cursos d´água.

A busca pela contraposição a atual política de macro drenagem na bacia do Alto Tietê, especificamente na sub-bacia do Aricanduva, onde a implementação dos reservatórios de contenção/detenção (popularmente chamados de piscinões) é caracterizada enquanto ação prioritária de combate às cheias, possibilitou indagar a respeito do suporte dos remanescentes florestais quanto estratégia de combate e/ou minimização dos agravantes dos episódios de inundações.

Sendo a APA do Carmo a maior área verde ao leste da metrópole paulistana (SÃO PAULO, 2004), localizada em sua quase totalidade na bacia do Aricanduva, tomou-se essa unidade de conservação referência de análise do suporte dos remanescentes vegetais ao combate às inundações, uma vez destacadas as potencialidades desse significativo espaço de natureza (SANTOS, 2007).

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Para tanto, adotou-se as bases teóricas da ecodinâmica estabelecida por Tricart (1977), a partir da análise integrada dos processos ecológicos oriundos da relação entre sociedade e natureza.

Ao caracterizar a vegetação enquanto suporte à redução da instabilidade morfodinâmica, que acaba por ocasionar impactos ecológicos no metabolismo urbano, Tricart (1977) estabelece a importância da variável vegetação no que concerne à estrutura dos meios estáveis, especificamente na interceptação das precipitações.

No âmbito da Geografia, as análises de interceptação das precipitações/interceptação florestal, apesar da origem acadêmica e profissional de Jean Tricart, ainda carecem de incorporação, uma vez a carência de publicações que apresente a seguinte abordagem em caráter geográfico.

Sendo a maior parte das pesquisas de interceptação florestal de caráter edáfico, apesar da abordagem ecodinâmica proposta por Tricart (1977), destaca-se a necessária caracterização da interceptação das precipitações nas áreas verdes urbanas enquanto agentes de minimização dos impactos das inundações, possibilitando assim a abordagem unitária em Geografia destacada por Monteiro (2008), especificamente na caracterização da “cidade como reflexo da relação homem-natureza”.

Os procedimentos de ordem teórica e documental foram organizados a partir de levantamento bibliográfico e cartográfico, especificamente registros literários reunidos em livros e artigos científicos onde se buscou caracterizar as bases teóricas que fundamentam este trabalho, bem como a elaboração e organização do texto.

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O primeiro capítulo está organizado a partir da caracterização das inundações e a relação das águas com o sítio inicial da metrópole, especificamente o papel das águas no processo de formação da cidade, com destaque para expansão da metrópole “rumo” ao leste e sua relação ao sistema hídrico.

Para tanto, buscou-se caracterizar a originalidade fisiográfica da bacia do Aricanduva, uma vez necessária para compreensão dos processos responsáveis pela gênese dos episódios de inundações.

Os procedimentos adotados na elaboração do referido capítulo foram basicamente de natureza documental, a partir de levantamentos bibliográficos, registros históricos em fotografias, análise e interpretação cartográfica de plantas, fotografias aéreas e mapas temáticos.

O segundo capítulo caracteriza a evolução dos episódios de inundações na bacia do Aricanduva e sua correlação com a expansão urbana, onde se buscou organizar um histórico da evolução e repercussão dos episódios de inundações na bacia, a partir dos registros no site folha.com, correlacionando-os aos totais

pluviométricos obtidos junto a Defesa Civil, CGE-SP e SAISP, como forma de caracterizar o total precipitado em cada episódio, obtendo-se assim a média precipitada na bacia a partir dos registros das subprefeituras de Cidade Tiradentes – CT, São Mateus – SM, Aricanduva Formosa – AF e Penha – PE.

Ainda no capítulo dois, são destacadas a supressão dos espaços florestados na bacia e sua contribuição para evolução das inundações, os agravantes dos episódios de inundações, especificamente os impactos de ordem econômica e sanitária, em especial as enfermidades de veiculação hídrica. Ao final destaca-se a política de macrodrenagem na bacia do Aricanduva, em especial aos programas de combate às inundações iniciadas na década de 1970, com destaque para adoção dos reservatórios de contenção/detenção ao final da década de 1990.

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Os procedimentos de análise da interceptação das precipitações da APA do Carmo caracterizam especificamente, a aplicação da proposta definida por Lima (2008) nos dois mais significativos revestimentos vegetais existentes na APA, constituídos, respectivamente, por floresta atlântica em estágio avançado de regeneração e eucaliptal com sub-bosque.

Ao final, os totais interceptados foram inicialmente organizados, interpretados e posteriormente submetidos à regressão linear, a fim de se obter resultados que possibilitasse questionar a política de macrodrenagem, especificamente a adoção dos reservatórios de contenção/retenção enquanto estratégia prioritária ao combate as inundações, em detrimento das áreas verdes e o suporte dos remanescentes florestais.

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I - A BACIA HIDROGRÁFICA DO ARICANDUVA NO CONTEXTO DE FORMAÇÃO DA METRÓPOLE PAULISTANA

A problemática das inundações na Bacia do Aricanduva, antes de ser considerada um fenômeno local e isolado na escala da metrópole paulistana, requer melhor caracterização e contextualização da compartimentação geomorfológica, a partir da análise do suporte ao sistema hídrico e da influência da dinâmica das águas na constituição do sítio urbano e formação histórica da cidade.

O presente capítulo procurará discutir a natureza das inundações a partir da influência do relevo na dinâmica hídrica do sítio inicial da metrópole paulistana, caracterizando assim a bacia do Aricanduva no contexto da hidrogeomorfologia regional.

As inundações, antes de ser um fenômeno oriundo da expansão da cidade, é um processo originário do sistema hidrogeomorfológico local, passível de intensificação a partir da expansão do espaço fenômeno urbano e seus agravantes de apropriação dos espaços herdados da natureza.

I.I As inundações e a relação das águas com o sítio inicial da metrópole paulistana.

A formação histórica da cidade, hoje metrópole de São Paulo, apresenta uma íntima associação ao suporte geomorfológico local, principalmente devido à posição privilegiada possibilitada pela tipologia do sistema de várzeas e colinas existentes no Planalto Paulistano (AB´SABER, 1957; AB´SABER, 1958).

A própria gênese da bacia de São Paulo constata o papel fundamental do sistema hidrográfico na constituição da geomorfologia regional.

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Ab´Saber (1957) aponta para a similaridade entre a bacia sedimentar e a hidrografia do Alto Tietê, alongada sobre o setor mais elevado do principal rio do estado.

Desta forma, encarcerado por estruturas cristalinas ao nordeste, sudoeste e sudeste, respectivamente representados pelas serranias da Cantareira, Itapecerica, serra do Mar (bordo oceânico do Planalto Atlântico) e Itapeti (AB´SABER, 1957; ALMEIDA, 1958), o paleotietê e seu complexo sistema paleohidrográfico foi responsável por um entalhamento inicial, seguido por um período de retalhamento posterior sob diferentes condições paleoclimáticas.

Em detalhado levantamento geomorfológico, Ross & Moroz (1997) indicam que na unidade morfoestrutural Cinturão Orogênico do Atlântico é encontrada a unidade morfoescultural Planalto Paulistano / Alto Tietê, onde se aloja outra unidade morfoestrutural (Bacias Sedimentares Cenozóicas / Depressões Tectônicas), a Bacia de São Paulo. Aí:

(...) predominam altimetrias entre 700 e 800m, sendo que os patamares são aplanados e encontram-se em altitudes de 740m enquanto as colinas atingem entre 760m a 800m. As planícies fluviais dos rios Tietê, Pinheiros e Tamanduateí, estão entre 720 e 730m. As vertentes das colinas apresentam declividades que oscilam entre 20 e 30%. (ROSS & MOROZ, 1997, p.50)

No trabalho intitulado “A planície aluvial do Tietê em foco”, Ab´Saber (2006) aponta para a importância da paleohidrografia e paleoclimatologia na compreensão da gênese da planície do Tietê ao longo do período Quartenário:

A história do leito do rio nos últimos tempos do período Quartenário foi complexa. Na época de formação das cascalheiras dos baixos terraços do vale, predominavam climas secos e menos quentes, dotados de fortes chuvas concentradas, responsáveis por uma drenagem torrencial. Processos formadores de extensas postas de seixos fluviais, relativamente pequenos, foram oriundos de fragmentos de rochas cristalinas existentes desde as cabeceiras e soleiras rochosas do largo leito do rio na época. Mais tarde, através de mudanças climáticas e processos de reescalação pluvial sofridos pelo leito do rio, formaram-se extensas e descontínuas massas de areias, por entre as soleiras rochosas remanescentes do período anterior (...).

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ocasionando o afastamento das bordas dos terraços preexistentes e escondendo a maior parte das massas de areias e algumas soleiras rochosas (...).

Os travessões rochosos ocorrentes entre a região de Santana do Parnaíba e Carapicuíba foram essenciais para os transbordes a montante, responsáveis pela aluviação criadora das planícies do Tietê, Pinheiros e seus afluentes, durante o processo de retropicalização sofrido pelo Brasil tropical atlântico. (AB´SABER, 2006, p.153-154)

A partir da caracterização do sistema geomorfológico do Planalto Paulistano, Ab´Saber (1958) identificou oito principais componentes topográficos do sítio urbano de São Paulo, localizando-se nestes os dois principais sistemas de planícies de inundações com regimes hidrográficos específicos, os de número 7 e 8.

7) Planícies de inundação sujeitas a inundações periódicas. – Zonas largas e contínuas, domínio de aluviões argilo-arenosas recentes e solos turfosos de várzea. Altitude variando entre 722 e 724 m.

8) planícies de inundação sujeitas a enchentes anuais – Zona de “banhados” marginais e meandros abandonados, com solos argilosos escuros, permanentemente encharcados. Altitude entre 718 e 722 m. (AB´SABER, 1958, p.181)

Enquanto a primeira unidade compreendia áreas de maior extensão sujeitas a inundações apenas em episódios sazonais de precipitações intensas (meses de verão), a segunda unidade caracterizada enquanto planícies sujeitas a cheias anuais compreendiam as áreas de formação mais recentes, constantemente encharcadas e de maior dificuldade para apropriação.

Tais constatações sobre a gênese geomorfológica da bacia sedimentar e do Planalto Paulistano, bem como os componentes topográficos da cidade, apontam o papel das águas na constituição fisiográfica dos espaços originários do sítio inicial da metrópole paulistana.

Além do complexo geomorfológico, o sistema hidrográfico do Planalto Paulistano condicionou os assentamentos e relações humanas muito antes do processo de ocupações portuguesa.

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processo de formação da metrópole, destacando os mitos e lendas criados e vivenciados por seus habitantes.

Não faz muito tempo – foi no começo do século XX -,o rio Tietê, hoje uma visão incômoda com seu leito aparentemente “paralisado” pela degradação, movimentava a São Paulo da época: oferecia areia e pedregulho para a construção da maior cidade brasileira, abastecia as casas, gerava trabalho (barqueiros, cobradores de pedágios de pontes), fornecia pescado para os mais pobres, alimentava as terras dos mais ricos, funcionava como lazer de pobres e ricos, assombrava (e fascinava) com suas cheias, escondia mistérios da vida privada dos paulistanos de outrora. (SANT´ANNA, 2007, capa final) Ab´Saber (2004) destaca a relação entre os assentamentos de grupos indígenas a posição altimétrica privilegiada do Planalto Paulistano. Tal posição também influiu sobre as investidas portuguesas e os agrupamentos jesuíticos.

Lima (1946) destaca a preferência indígena por sítios lindeiros aos principais rios e ribeirões, onde:

[...] extendia-se o campo que os indígenas denominavam Guarepê situado na margem esquerda dos dois grandes rios que ali se juntavam, o Piratininga que passava perto de Santo André da Borda do Campo e o Anhembí que corria a grande baixada, do nascente para o poente, vindo das serras distantes quase junto ao mar. (LIMA, 1946, p.89)

As águas sazonalmente abundantes devido ao suporte geomórfico da bacia sedimentar que, circundada por extensas serranias formadoras de um complexo sistema de drenagem, facilitaram inicialmente a instalação de assentamentos indígenas e posteriormente agrupamentos jesuíticos.

Os grupos indígenas preferiam sítios mais próximos da linha d´água, utilizando-se porém de estratos sobre terraços fluviais para suporte de suas aldeias e tabas. Por sua vez os missionários jesuítas preferiam sítios a um tempo defensivos e de boa visibilidade em relação ao território circunvizinho. (AB´SABER, 2004, p.14)

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colina histórica entre os vales do Anhangabaú e Tamanduateí, caracterizando-a enquanto um setor de “terra firme” junto a um refúgio a ação das águas, além de um excelente observatório sobre grande extensão do Planalto Paulistano.

Por um longo tempo, durante a ocupação Jesuíta, as água impuseram um condicionamento às relações e aos assentamentos humanos, restringindo-os aos sítios mais elevados representados por colinas tabulares e/ou áreas de espigões, conforme identificados inicialmente por Ab´Saber (1958).

Por influência das águas, a maior metrópole e centro econômico do país, permaneceu por quase três séculos refugiada sobre a colina histórica (AB´SABER, 2004), se expandindo vagarosamente de colina à colina devido às características hidrogeomorfológicas de seu sítio inicial.

[...] Outra complicação em relação ao sistema de relações entre o núcleo original de São Paulo de Piratininga com seu entorno imediato ou distante derivava da largura das planícies de inundação regionais, situadas entre 715 e 729 m de altitude, porém dotadas de larguras excepcionais e complexos cinturões meândricos, tropicais. Razão pela qual a cidade ao longo dos seus primeiros séculos teve de saltar de colina em colina e utilizar preferencialmente os patamares e as rampas de acesso aos setores colinosos mais altos, mais tarde incorporados os setores suspensos do espigão central [...] (AB´SABER, 2004, p.14)

As inundações, muito antes de ser um problema exclusivo da expansão urbana, caracterizam-se como um significativo condicionante das relações socioeconômicas ao longo dos quatro séculos de ocupação e presença portuguesa no Planalto Paulistano, acarretando maiores impactos sobre os períodos ainda desprovidos de técnicas mais significativas para intervenções.

As águas dos córregos, ribeirões e rios, alheios ao crescer da cidade, continuavam a correr silenciosamente nos seus leitos naturais nas épocas de estiagem; quando chegava a época das chuvas transbordando espraiavam suas águas pelas baixadas formando pequenos e grandes alagadiços [...] (LIMA, 1946, p.90)

Apesar dos esparsos registros históricos sobre episódios de inundações ocorridos em São Paulo, houve intensos períodos de cheias desde o ano de 1556, conforme cronologia destacada por Lima (2007).

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hidrelétrica de Parnaíba em 1901, bem como sua influência sobre a circulação na cidade:

As famosas “cheias” dos anos de 1560, 1624, 1850, 1851 e 1856, assim como a enchente da várzea do Carmo de 1892 – que mereceu uma pintura de Benedito Calixto -, transformavam São Paulo numa espécie de ilha entre águas. Quando os bondes eram puxados por tração animal, as chuvas impediam seu trânsito, pois os burros corriam o risco de escorregar. Já naquela época as águas que vinham do céu criavam problemas infernais para o trânsito paulistano. (SANTA´ANNA, 2007, p.146)

Além da formação do sítio inicial, o sistema hídrico dificultava diretamente a circulação pelo Planalto Paulistano, principalmente durante as periódicas chuvas intensas responsáveis por inundações sazonais. Desta forma, as primeiras vias intituladas de esporões (LANGENBUCH, 1969) instalaram-se sobre colinas e espigões devido suas características geomórficas de “terra firme”, aliadas a reduzida dificuldade de sua implantação e manutenção.

Quanto à transposição das várzeas, principalmente o que concerne aos períodos de cheias, Santa´Anna (2007) destaca o papel fundamental das pontes (de madeira ou de pedra) e pinguelas como importantes modos de organização da travessia de rios e ribeirões, fundamentais ao sistema de circulação e trânsito de pessoas e mercadorias ao longo da história de São Paulo.

Apesar de sua importância fundamental, as pontes eram muito afetadas durante os episódios de chuvas intensas (SANT´ANNA, 2007), chuvas essas que inibiram a instalação de vias de circulação pelo sistema de várzeas até o início das primeiras intervenções nos principais rios da cidade. Tais dificuldades contribuem para a explicação do caráter recente das vias de fundo de vale, devido aos obstáculos e dificuldades de sua apropriação / instalação:

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viário e sua circulação, sendo que as colinas tabulares o fizeram em parte, enquanto os terraços contribuíram para o livre desenvolvimento viário.

Desta forma, o sistema hídrico destaca-se como principal condicionante as vias de circulação na cidade, e apesar das novas técnicas e do intensivo processo de intervenção nos cursos d‟água, esses são ainda os principais agravantes ao sistema viário e a expansão urbana no Planalto Paulistano.

Durante essa intrigada relação da cidade com as águas, inúmeras foram as intervenções realizadas a fim de reduzir e/ou minimizar os condicionantes do sistema hídrico e principalmente os impactos das inundações sobre o crescimento e expansão urbana.

O nascer do século XX concretiza na cidade de São Paulo uma febre de dessecamentos, canalizações, aterros e obras de redução das grandes superfícies de água aparente, febre nascida das preocupações epidemiológicas e com higiene do “final do século”, parte de um movimento mundial. (KAHTOUNI, 2004, p.67)

Muito antes dos primeiros aterramentos de várzeas e retificações iniciadas a partir da conclusão das obras realizadas em 1849 no Rio Tamanduateí, das pinguelas e pontes que já exerciam papel fundamental na circulação da cidade, das primeiras vias instaladas sobre colinas e terraços mais favoráveis, projetos de drenagem dos rios já ocupavam os engenheiros ainda no período imperial (SANTA´ANNA, 2007).

Obras antecedentes e similares aos piscinões (guardadas as devidas proporções) passaram a ser adotadas no início do século XIX devido às periódicas inundações no Tamanduateí:

[...] os alagamentos provocados pelo Tamanduateí, por exemplo, deram lugar, já em 1810, a construção de uma vala no centro da várzea do Carmo. (SANTA´ANNA, 2007, p.148) Tal intervenção, assim como os atuais piscinões, possuía caráter de retenção das águas pluviais drenadas pelo Tamanduateí, onde em períodos de chuvas torrenciais ocasionavam extensas inundações.

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Kahtouni (2004) destaca a mudança de caráter no fundamento das intervenções, inicialmente como medida de estratégia sanitária e posteriormente enquanto estratégia de especulação imobiliária:

As novas tecnologias de canalização e retificação, desenvolvidas primeiramente por questões sanitárias, como as obras pioneiras de Santos e Pernambuco, comandadas pelo engenheiro Saturnino de Brito, antes da primeira década de 1900, passam a ser largamente utilizadas para ganhar terras dos rios. As terras das antigas curvas e sinuosidades são, agora, efetivamente, bens de consumo vendidos em séries de lotes na cidade de São Paulo (KAHTOUNI, 2004, p.79).

Custódio (2002), ao analisar a “persistência das inundações”, caracteriza a evolução histórica das soluções para as inundações enquanto um processo contraditório, pois quanto mais as obras são realizadas, mais o fenômeno se amplia e persiste.

A gênese da expansão / explosão urbana da cidade de São Paulo, assim como as constantes intervenções que se fizeram necessárias, além do contexto e bases econômicas, estão diretamente associados à transposição dos condicionantes fisiográficos impostos pela originalidade hidrogeomorfológica de seu sítio inicial. O próprio desenvolvimento econômico, segundo Azevedo (1945), esteve diretamente atrelado à instalação e multiplicação das vias-férreas, que, somente puderam ocorrer a partir das melhorias técnicas de apropriação dos espaços herdados da natureza. Ab`Saber (1958) identifica os sítios preferenciais a adoção do sistema ferroviário, onde:

As ferrovias seguiram as zonas de transição entre as planícies aluviais e as colinas mais suaves, superpondo-se, muitas vezes, aos principais tratos de terraços fluviais que a região de São Paulo apresenta. (AB´SABER, 1958, p.177-178)

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Segundo Ab´Saber (2004, p.18), após “...acantonada na colina histórica por quase três séculos (1554-1820)”, a cidade permaneceu durante longas datas

mergulhada por um processo de crescimento inexpressivo e até mesmo inexistente: Foi somente na segunda metade, sobretudo fins do século XIX, que se esboçou uma cidade grande, devido à expansão para outras colinas, por meio de loteamentos especulativos de antigas chácaras e sitiocas. A passagem da antiga ferrovia SPR pelos terraços do Tamanduateí até a colina da Luz e terraços do Tiête foi essencial para a primeira fase leste-oeste do crescimento urbano. Tudo isso se consolidou com as iniciativas para obtenção de energia elétrica, de início muito abundante e barata (AB´SABER, 2004, p.18-19).

Segundo Lemos e França (1999), apesar do sítio urbano de São Paulo apresentar-se privilegiado quanto as grandes linhas de circulação, principalmente por meio da locomoção por água, tal característica não exercia vantagem em relação às condições histórico-econômicas que bloqueavam seu crescimento.

Ao destacar as razões do extraordinário crescimento de São Paulo, Azevedo (1945) enumera a expansão cafeeira, a multiplicação das vias férreas, o desenvolvimento da imigração junto ao loteamento de grandes propriedades, todos esses atrelados à superação dos agravantes do meio físico, onde além de apresentar aspectos inibidores ao crescimento, São Paulo possuía como principal contribuinte para tal expansão sua importante posição geográfica colocada no planalto brasileiro em relação ao contato entre interior e litoral.

A constituição de uma cidade de expressão nacional perpassa pela chegada do período de monocultura cafeeira e instalação de sistema ferroviário Inglês, representado pela antiga companhia São Paulo Railway.

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núcleos do centro; os reflexos diretos e indiretos do industrialismo pós-Primeira Grande Guerra; o desenvolvimento de novos distritos centrais de negócios e ruas comerciais. Uma complexa história da maior e mais complexa metrópole do mundo (2004) (AB´SABER. 2004, p. 17-18).

São Paulo, nas décadas de 1920, 1930 e posteriores, já ostentava o rótulo de centro industrial, mesmo tratando-se de um processo em formação e crescimento. A própria estrutura existente no estado de São Paulo, oriunda do período cafeeiro, possibilitou após a crise de 1929 uma reincorporação do capital produzido pela monocultura em um sólido e maciço período urbano-industrial, aglutinado às já existentes indústrias do final do século XIX e das décadas iniciais do século XX.

A incorporação do período urbano-industrial no espaço total da cidade de São Paulo consolidou além da constituição de uma complexa estrutura urbana, um processo macrocefálico de conurbação após o período de bairros da década de 1950, conforme salienta Seabra (2004):

São Paulo realizou-se como uma cidade de bairros nos anos cinqüenta. Tanto que entre 1950 e 1980, implodiam as estruturas internas da cidade e explodia o tecido urbano na formação das periferias que davam configuração, propriamente, à metrópole (SEABRA, 2004, p. 277).

A antiga São Paulo foi ficando imersa num processo de “explosão-implosão” para as periferias,

[...] submetida a um complexo movimento de massas em todas as direções e com uma estrutura material de enorme complexidade, sem fronteiras ou limites, a metrópole de São Paulo é formada por uma superfície de urbanização contínua que, no sentido Leste-Oeste, tem mais de cem quilômetros de diâmetro e que, no sentido Norte-Sul alcança de modo inexorável, áreas tidas até bem pouco tempo inabitáveis, tais como a região das represas situadas ao sul de São Paulo e a vertente sul da serra da Cantareira (SEABRA, 2004, p.273-274).

Ao caracterizar a importância hídrica na configuração da metrópole, Kahtouni (2004) define quatro principais períodos durante o processo de formação histórico-geográfico de São Paulo.

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intensificação do processo urbano-industrial e do eminente lançamento de efluentes e contaminantes de diversas origens sobre o sistema hídrico, acarretando na alteração da qualidade das águas. O último período, “O Novo Espaço das Águas”, seria resultado da intensificação do processo de urbanização, que acarretou o rearranjo do sistema hidrográfico inicial, onde atualmente as águas drenam em canais artificiais, sistemas de drenagens construídos, piscinões, tubulações dentre outras intervenções. Para Custódio (2002), essas ações apenas contribuem para a persistência do problema e na melhoria das formas de convivência com o mesmo, e perante todas as estruturas criadas para conter as cheias, por vezes acabam por ocupar o tecido urbano metropolitano, seja por meio das inundações em avenidas de fundos de vale, setores residenciais, comerciais e industriais, entre outras áreas vulneráveis ao fenômeno. A isto Ab´Saber (2004c) denominou “Revanche das Águas”, devido os períodos de cheias ocasionadas por chuvas torrenciais sobre bacias hidrográficas transformadas durante a produção do espaço urbano.

I.II A expansão da metrópole rumo ao leste e sua relação com o sistema hídrico.

Apesar da distância do núcleo urbano inicial de São Paulo, o extremo leste do município apresenta uma íntima associação histórica com a São Paulo de Piratininga, principalmente o que concerne à relação hídrica.

O extremo leste de São Paulo configurou-se como via de passagem somente após mais de cem anos iniciada a ocupação portuguesa, devido à existência de grandes barreiras como destacado por Azevedo (1945):

[..] em primeiro lugar, a presença, mais além, da Serra do Mar e seus contrafortes; em segundo lugar, a existência de uma área florestal, possivelmente vasta, no vale do Paraíba; e, finalmente, a presença ali de índios mas ou menos hostis, como os Puris. Daí a preferência dada à via marítima por quantos desejavam alcançar o Rio de Janeiro, procedentes de São Paulo. (AZEVEDO, 1945, p.55-56).

Em relação à ocupação inicial do extremo leste:

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desde a vila de São Paulo até as Minas Gerais dos Cataguás.” (AZEVEDO, 1945, p.56)

Somente com a implantação do caminho de São Paulo ao Rio de Janeiro que a região passou efetivamente a ser ocupada, a partir da instalação dos primeiros assentamentos estabelecidos em locais de pouso (DELI, 2005), sendo que Azevedo (1945) destaca a possível utilização anterior a ocupação portuguesa desse caminho enquanto rota indígena no acesso ao Vale do Paraíba.

Deli (2005) destaca o caráter histórico da ocupação na bacia do Aricanduva a partir da consolidação do aldeamento de São Miguel por meio de doação de terras de sesmaria em 1580. O referido autor salienta ainda a utilização e apropriação do conhecimento indígena na circulação e acesso a novos sítios para a instalação de núcleos e aldeamentos:

São grandes as chances, por exemplo, de o caminho do Ururaí – que ligava São Paulo à sede do aldeamento de São Miguel, e muito até pelo menos o início do século XVIII – ter sido parte de uma via pré-crabalina. (DELI, 2005, p.87)

A Bacia do Aricanduva provavelmente foi uma importante rota de acesso ao vale do Tietê e núcleo de São Miguel a partir do antigo aldeamento de São Bernardo da Borda Leste do Campo, acesso este estabelecido pelo vale do Tamanduateí e pela travessia do interflúvio com o Aricanduva em seu trecho alto, onde hoje está instalado o bairro de São Mateus. Tal percurso estendia-se sobre o divisor de águas dos rios Aricanduva-Jacu, do qual ganhava a sua planície em direção ao Tietê e aldeia de São Miguel, cruzando assim o atual bairro de Itaquera (DELI, 2005).

Apesar dos caminhos principais ao extremo leste se estabelecerem por terra, o rio Tietê e seus principais afluentes possuíam importante destaque no que concerne à circulação e acesso aos principais pontos de parada situados na rota São Paulo - Rio de Janeiro, e principalmente a instalação dos primeiros aldeamentos ao leste da cidade, representados por São Miguel e Itaquaquecetuba.

Segundo Azevedo (1945), a instalação do caminho ao Rio de Janeiro foi favorecida pela topografia sem grandes barreiras, e mesmo antes do advento do transporte ferroviário, os primeiros núcleos e aldeamentos de “pontos de parada” de tropeiros já realizavam importante papel no contato com o núcleo central.

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instalada a partir do século XVI, sendo assim uma das localidades mais antigas do Estado (AZEVEDO, 1945).

A partir do núcleo estabelecido na colina da Penha, área esta protegida das inundações periódicas do Aricanduva em sua foz junto ao Tietê, a ocupação na bacia do Aricanduva amplia-se por meio de sítios e áreas agrícolas.

Azevedo (1945) destaca que até meados da década de 1930, os agrupamentos mais avançados ao leste da metrópole situavam-se nos arredores da Penha, a partir da recém formada Vila Esperança. Mais ao extremo, isolado por extensas áreas rurais, localizavam-se ao nordeste a vila de São Miguel, e ao leste o pequeno núcleo de Itaquera.

A Bacia do Aricanduva, devido sua extensão, esteve associada a diferentes processos de ocupação, principalmente pela proximidade de alguns trechos ao núcleo da Penha, e outros ao agrupamento de Itaquera.

Lemos e França (1999) destacam que somente a partir da instalação do trecho São Paulo-Jacareí da estrada de ferro SP-RJ, denominada “Linha Tronco”, no ano de 1875, que o extremo leste é incluso no processo inicial de crescimento da cidade de São Paulo.

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A Bacia do Aricanduva, devido sua extensão, sofreu uma fragmentação em relação à ocupação e circulação, conforme salienta Deli (2005), principalmente devido à localização e à proximidade de diferentes agrupamentos a trechos de sua bacia.

Desta forma, em seu trecho baixo, adjacente ao aldeamento da Penha, a bacia do Aricanduva possuía extensas áreas agrícolas sob regime de arrendamento, com cultivos diversificados de flores: cravos, copos-de-leite, dálias, Rainha Margarida entre outros (AZEVEDO, 1945).

Apesar de comuns as culturas localizadas em colinas e terraços no vale do Aricanduva, as principais atividades agrícolas estendiam-se sobre as planícies relativamente extensas de seu trecho baixo, por meio de horticultura e arrozais (AZEVEDO, 1945).

Em seu trecho médio e alto, sob maior proximidade do distrito ou vila de Itaquera, criado em 1920, a bacia do Aricanduva era ocupada basicamente por atividades agrícolas de subsistência em terras que pertenceram à antiga Fazenda Caguaçu.

Apenas no ano de 1924, com a chegada dos primeiros japoneses vindos exclusivamente para cultivar os solos da área, após a compra de parte da fazenda do Carmo pelo coronel Bento Pires de Campos, presidente da então Companhia Comercial Agrícola e Pastoril, é que a região passa efetivamente a ser ocupada (LEMOS; FRANÇA, 1999). Sua intenção era formar pequenas propriedades produtivas e que tivessem mão-de-obra especializada para fomentar o desenvolvimento agrícola da localidade.

A partir da introdução da Colônia Japonesa, após o fim da Segunda Grande Guerra, é que legumes, hortaliças, frutas (com destaque ao pêssego pelo pioneirismo de seu cultivo comercial no Brasil), passaram a compor com maior intensidade a utilização dos então espaços livres das antigas fazendas do Carmo e Caguaçu.

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alcachofras, couves-flores, alfaces, cenouras, repolhos, batatinha etc. (AZEVEDO, 1945, p. 113)

Além das já citadas atividades agrícolas, outra atividade econômica de grande importância e destaque no vale do Aricanduva foram as olarias, localizadas em seu trecho baixo, principalmente junto a sua foz no Tietê. Atividades essas de extrema importância na produção de tijolos necessários ao crescimento contínuo da metrópole em formação. Tais atividades conotam o papel dos rios e dos sedimentos aluvionares quartenários enquanto fonte de matéria-prima necessária enquanto “alimento” da cidade crescente.

Nas proximidades do distrito de Itaquera, junto aos trechos médio e alto da bacia do Aricanduva, destacaram-se as esparsas atividades de extração mineral, por meio das pedreiras para obtenção de granito, principalmente em áreas sobre o maciço cristalino de Itaquera, localizadas em maior parte nas terras de propriedade da antiga Fazenda Carmo.

As atividades econômicas na bacia do Aricanduva iniciadas a partir dos distritos da Penha e Itaquera, junto à instalação das ferrovias e dos novos sistemas de transportes a partir da década de 1950, contribuíram para expansão desses pequenos agrupamentos, bem como para a ampliação da mancha urbana metropolitana, que segundo Azevedo (1945), na década de 1940 já chegara às proximidades do Tatuapé, estando a uma pequena distância de conurbar com a Penha, bloqueada até então principalmente devido aos freqüentes episódios de cheias do Tietê e do Aricanduva que dificultavam o assentamento e ocupação em suas planícies.

Déli (2005) destaca o papel fundamental das ferrovias e da implantação de novas ligações viárias ao crescimento urbano no extremo leste:

De um lado as ferrovias estimulando a implantação de indústrias e viabilizando o crescimento urbano horizontal (é o Brasil saindo da era do café e diversificando sua produção); - De outro, as novas ligações viárias através das estradas de rodagem adaptadas ao automóvel (este que cada vez mais iria se tornando um importante meio de transporte) estimulam, junto a especulação imobiliária, o surgimento de novos loteamentos [...] (DÉLI, 2005, p.94)

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O então expressivo processo de crescimento, industrialização e urbanização da cidade de São Paulo, até o início da Segunda Grande Guerra ainda não conquistara sua periferia:

Para o leste, a cidade não ultrapassa muitos os limites da Penha e, assim mesmo com muitos vazios (loteamentos) ainda entre o centro e aquele bairro” [...]

“O processo de crescimento se acelera a partir de 1950 e isso se faz sentir espacialmente, criando-se novas formas de uso do solo, em detrimento de antigas áreas rurais. É o caso do cinturão verde horti-fruti-granjeiro, que se distancia cada vez mais do „continnum‟ urbano (LEMOS, FRANÇA, 1999, p. 58-74).

O cerco às áreas agrícolas, de cultivo familiar bem antes do início da década de 1970 já estava criado:

Contudo, apesar da intromissão do urbano no meio rural, desmantelando o „cinturão verde‟ de Itaquera, ainda restam espaços vazios consideráveis, nesse ano de 1984, que possam justificar novos projetos de habitação popular que, brevemente, se concretizarão. Itaquera entra, assim, nos dias atuais, em plena era do domínio urbano (LEMOS; FRANÇA, 1999, p.71). Junto à redução dos espaços agrícolas, a intensificação do urbano sobre o extremo leste resultou na significativa eliminação dos remanescentes vegetais nas últimas décadas (SÃO PAULO, 2004), além de uma constante transformação no sistema hidrográfico por meio de mudanças de cursos, retificações e aterros instalados nas planícies dos principais rios e ribeirões dessa região.

Importante ligação viária entre São Miguel e São Mateus passando por Itaquera, a estrada do Pêssego, construída entre as décadas de 1940 e 1950 durante o período de maior produtividade agrícola da colônia japonesa (LEMOS; FRANÇA, 1999), teve como percurso principal grande extensão da planície do ribeirão/rio Jacu a partir de seu divisor com o Aricanduva (onde bifurcava com a antiga estrada do Iguatemi, sob as planícies desse rio) até as proximidades de sua foz junto ao rio Tietê.

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Além da apropriação do sistema viário ao domínio de planícies, padrão em toda a cidade conforme salienta Langenbuch (1969), na bacia do Aricanduva e na maior parte do extremo leste os primeiros loteamentos localizaram-se sobre colinas intermediárias, interflúvios e terraços elevados devido à melhor topografia dessas feições em relação ao assentamento urbano, bem como a própria distância aos espaços vulneráveis a episódios de inundações, tendo como exemplo o Jardim Nossa Senhora do Carmo (LEMOS; FRANÇA, 1999) e as Vilas Nova Manchester (DELI, 2005) e Carmozina (AZEVEDO, 1945).

Iniciado nas colinas intermediárias, o processo de ocupação na bacia do Aricanduva estendeu-se por setores dos terraços iniciais a partir da instalação da Av. Rio das Pedras, ganhando posteriormente as planícies do baixo vale após a retificação do canal durante a construção do trecho inicial da linha leste do Metrô (linha vermelha).

A incorporação das planícies do Aricanduva ao espaço urbano da metrópole consolidou um extensivo e complexo processo de ocupação, onde predomina no alto vale o uso residencial vertical baixo, a partir do trecho oeste do conjunto habitacional Cidade Tiradentes, dotado de esparsos fragmentos florestais em estágio médio e inicial de regeneração, eucaliptais e inúmeras áreas de solo exposto (IPT, 2004), dentre eles uma grande área de movimentação de terra destinada ao empréstimo de solo ao aterro São João, localizado entre o município de Mauá e o bairro de São Mateus. No alto vale o curso ainda meandrante do Aricanduva, apresenta suas margens retilineamente ocupadas por residências de baixo padrão e assentamentos precários, tendo em seus terraços intermediários setores residenciais e comerciais acompanhando a extensão da Avenida Ragueb Choff, desde o Jardim Iguatemi, passando por subsetores da APA do Carmo até as proximidades da comunidade do Tabor, no Jardim São Gonçalo.

O trecho do médio Aricanduva, a partir do cruzamento das Av. Aricanduva e Ragueb Choff apresenta uso residencial térreo, dotado de setores comerciais pontuais e lineares a partir do acompanhamento das avenidas principais (JARDIM, 2001). A vegetação é escassa, com exceção ao trecho dotado de formações arbustivas e florestais junto a Área de Proteção Ambiental Parque e Fazenda do Carmo – APA do Carmo.

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principalmente com agências de automóveis, junto a galpões, micro-empresas, grandes estabelecimentos como shopping centers e hipermercados. O uso

residencial é composto por setores pontuais de moradias de baixo padrão nas proximidades na Av. Aricanduva e principalmente, pela crescente verticalização voltada para uso residencial alto padrão nos setores onde estão situados os bairros de Vila Carrão, Vila Matilde, Tatuapé, Vila Dalila e adjacências, circundados pelas principais vias arteriais que cruzam e/ou acompanham o traçado paralelo a Avenida Aricanduva.

Ao longo do baixo vale, a bacia do Aricanduva apresenta os mais baixos índices de área verde por habitante - m² no município (SÃO PAULO, 2004), estando restritas as poucas praças e áreas de lazer existentes, que junto à escassez similar no médio vale, ao crescente desmatamento no trecho alto, somado às inúmeras áreas fontes de sedimentos (IPT, 2004), acabam por culminar em frequentes episódios de inundações, que apesar de oriundas da originalidade fisiográfica da bacia, são intensificados progressivamente pelo extensivo processo de urbanização.

Desta forma, a gênese da expansão da cidade rumo ao leste, da mesma forma que a formação do núcleo urbano inicial, esteve associada a uma intima relação com o sistema hídrico, a partir das primeiras rotas e caminhos indígenas e portugueses sobre as planícies dos principais rios da região, por meio das atividades agrícolas situadas sobre os terrenos mais férteis das várzeas, bem como por todas as formas de especulação existentes a partir da apropriação das planícies pelo sistema viário inicial junto aos assentamentos urbanos dele oriundos.

I.III Originalidade fisiográfica da bacia hidrográfica do Aricanduva

Na bacia do Aricanduva, a urbanização ocorreu sob um sítio geomorfologicamente complexo, o que junto às constantes intervenções urbanas (des)planejadas, criaram um espaço problemático em relação aos períodos chuvosos.

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A compartimentação do relevo na bacia do Aricanduva ainda carece de estudos específicos e sistemáticos, sendo que se destaca na literatura dois entre vários trabalhos reunidos para a comemoração do IV Centenário da cidade de São Paulo, sob a organização de Aroldo de Azevedo, sendo o primeiro uma breve caracterização de Aroldo de Azevedo (1957) em seu “Itaquera, Poá, subúrbios residenciais”, que apontava as feições geomorfológicas como elemento dominante da paisagem, e junto a este, o trabalho do geólogo Fernando F. M. de Almeida (1957) sob o título de “Planalto Paulistano”, onde mesmo de forma sucinta, destaca a singularidade geomorfológica no vale do Aricanduva, devido ao contato brusco dos sedimentos terciário com o complexo granítico.

Em outro importante trabalho, Ab´Saber aponta em sua tese de doutoramento de 1957 (AB´SABER, 1957), o caráter estrutural do Aricanduva, a partir do curso direcional do rio que se encaixa entre o bordo SSE do maciço de Itaquera e da bacia sedimentar de São Paulo, onde:

Nota-se que 4 ou 5 km para sudeste, a montante de sua embocadura, o rio Aricanduva continua assimétrico, embora devido a razões diferentes: aí ele é nitidamente direcional, refletindo mais de perto o arranjo estrutural da região. Seu vale encaixou-se exatamente entre o bordo SSE do maciço granítico de Itaquera (750-840 m ) e uma das indentações sul-orientais da bacia sedimentar pliocênica regional. (AB´SABER, 1957, p.183)

Sendo que:

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Atualmente se sabe que a bacia Sedimentar de São Paulo remonta ao Paleógeno do período terciário (LIMA, 1991), e que a intrusão do maciço granítico de Itaquera ocorreu ao final do Proterozóico/início do Fanerozóico a cerca de 560 Ma Antes do Presente, a partir da estabilização da Plataforma Continental (SILVA, 2000).

Tal feição, que representa um bordo do Planalto Atlântico alteado em relação à Bacia Sedimentar de São Paulo (identificável no mapa geomorfológico de Ross & Moroz, 1997), é supostamente originária da reativação de falhamentos secundários com direção nordeste existentes no município (SÃO PAULO, 2004), formando um complexo de pequenos morros modelados por processos morfoclimáticos durante os períodos iniciais de formação dos planaltos do atlântico até os dias atuais, devido à atuação de processos climáticos sob o domínio tropical, responsáveis por suas feições mamemolares (AB´SABER, 2004b).

Conforme destacada na figura 2, a compartimentação geológica da bacia hidrográfica do Aricanduva, caracteriza-se pela linearidade das planícies aluvionares formadas por sedimentos de idade quartenária, circundados pelo contato entre a Bacia Sedimentar de São Paulo, composta por sedimentos de idade terciária, junto ao bordo leste inicial do Planalto Atlântico, constituídos por micaxistos e eventualmente gnaisses e granitos de idade pré-cambriana:

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Figura 02 – Geologia da Bacia do Aricanduva Fonte: DAEE (1999). Sem escala.

A geologia da bacia do Aricanduva, associada aos processos paleoclimáticos ocorridos no Quartenário (AB´SABER, 2004b), conferiu uma expressiva complexidade topográfica, apresentando uma amplitude altimétrica de aproximadamente 200 m ao longo de uma extensão aproximada de 19 km no transecto NO-SE.

Dessa forma, os padrões hidrográficos da bacia do Aricanduva, marcadamente de ordem dentrítica, são representados por um expressivo gradiente nas áreas a montante (cabeceira), principalmente devido ao padrão geomórfico mamemolar nos espaços situados sobre o maciço granítico de Itaquera, ganhando uma padrão de planície com baixa diferenciação altimétrica a partir de seu curso médio e baixo, onde os desníveis entre sua foz e as proximidades do Shopping Aricanduva (trecho

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morrotes mamemolares do maciço de Itaquera, ainda nas proximidades da Cidade Tiradentes, onde até o cruzamento das avenidas Ragueb Choff e Aricanduva, seu curso permanece encaixado entre o complexo granítico e o sistema de colinas (AB´SABER, 1957), sendo que neste setor sua planície encontra-se enclausurada pelos morrotes a sua margem esquerda, e pelo terraço fluvial onde se localiza a avenida Ragueb Choff, a sua margem direita. Nesse trecho, que pode ser considerado alto vale (devido as diferenças altimétricas na totalidade da bacia), há uma densa ocupação sub-urbana beiradeira a suas planícies fluviais, que constantemente é atingida (principalmente as ocupações localizadas à sua margem direita, devido ao enclausuramento entre seu canal e os morrotes do maciço de Itaquera) por episódios de inundações.

Em seu trecho médio, iniciado ao final da Av. Aricanduva (cruzamento junto a avenida Ragueb Choff), o canal (artificial devido desvios, canalizações e retificações) do Rio Aricanduva mantém como barreira intransponível os morrotes mamemolares à sua margem direita, o que lhe confere uma condição de encaixamento. Tal condicionante acarretou maior trabalho de suas águas sobre o bordo da bacia sedimentar, o que lhe possibilitou principalmente nos períodos de cheias e chuvas torrenciais, a constituição de uma extensa planície fluvial com até oitenta metros, ladeada por terraço lindeiro onde hoje se encontra instalada a movimentada Av. Rio das Pedras, conforme caracterizado por Ab´Saber (1957):

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direcionalmente, forçando seu baixo curso a obedecer as injunções estruturais imperantes em uma extensão considerável de seu trecho médio. Tal tendência para escavar a margem direita e deixar oportunamente quase exclusiva para o terraceamento da margem esquerda é bem visível nas baixas colinas entre o Parque São Jorge e a Vila Maranhão. Realmente, ali todos os baixos e médios terraços estão situados à esquerda do ponto de confluência Tietê-Aricanduva, enquanto a colina da Penha se salienta altaneira na vertente direita. (AB´SABER, 1957, p.285-286)

Por estar situado no contato entre o limite do Planalto Atlântico e da Bacia Sedimentar de São Paulo, o Aricanduva foi dotado de maior poder de erosão durante períodos climáticos de grande intensidade pluvial que atuaram sobre a bacia sedimentar (AB´SABER, 2006), criando assim um sistema geomorfológico fluvial originalmente vulnerável a chuvas torrenciais.

A constituição de uma microplanície configurada pelo contato abrupto com os morrotes graníticos à sua margem direita, e por uma extensa planície limitada pelos terraços à sua margem esquerda, possibilitaram a ocorrência de inundações periódicas que antecedem a “explosão da cidade”, quando subáreas adjacentes à Itaquera ainda eram marcadas por glebas rurais, sitiocas e fazendas, ou então por meio das primeiras glebas agrícolas oriundas dos pioneiros assentamentos com colonos japoneses (LEMOS; FRANÇA, 1999).

Sua originalidade geomorfológica e seus precedentes históricos, somados as inúmeras transformações ocorridas no espaço total de sua bacia, junto às inúmeras intervenções em seu canal e planície fluvial, conferem ao Aricanduva uma complexidade que deve se melhor compreendida, para desta forma pode-se apontar os agravantes e condicionantes dos períodos denominados por Ab´Saber (2004c) de “Revanche das Águas”.

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II - EVOLUÇÃO DOS EPISÓDIOS DE INUNDAÇÕES NO ARICANDUVA E SUA CORRELAÇÃO COM A EXPANSÃO URBANA

A compreensão da evolução dos episódios de inundações na bacia do Aricanduva, apesar de seu suporte geomórfico a ocorrência das cheias, demanda a necessidade de correlação com a expansão urbana, bem como a caracterização dos impactos do fenômeno urbano a intensificação das inundações.

Desta forma, o presente capítulo procurará discutir a evolução e repercussão dos episódios de inundações na bacia do Aricanduva, a partir de sua correlação com a expansão urbana, com destaque ao processo de supressão dos espaços florestados na bacia, os agravantes dos episódios de inundações, em especial aos prejuízos humanos e materiais, bem como aos impactos sobre a saúde pública. Ao final, destacam-se as características da política de macrodrenagem na bacia do Aricanduva, considerado como solução única a problemática hídrica local.

II.I Evolução e repercussão dos episódios de inundações no Aricanduva.

A evolução dos episódios de inundações na bacia do Aricanduva, antes de ser compreendida enquanto um fenômeno de ordem antrópica, deve ser caracterizada a partir de sua gênese geomorfológica que lhe confere uma condição, de suscetibilidade permanente aos períodos de cheias, devido ao seu sistema de planícies enclausuradas entre os morrotes do maciço de Itaquera e aos terraços que ponteiam os setores inicias do sistema de colinas da bacia sedimentar.

Ainda sobre a gênese das inundações, Ab´Saber (1957) destaca a composição argilosa dos estratos litológicos que revestem a bacia de São Paulo, conferindo-lhe assim menor maior condição de saturação hídrica e em consequência grande permanência de água na superfície durante os períodos de chuvas. Mesmo antes da intensificação do processo de urbanização na bacia, Azevedo (1945; 1957) caracterizou as cheias como um processo comum no Rio Aricanduva, apesar de considerá-lo uma drenagem intermitente e de pequeno porte, de caráter marcadamente sazonal:

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cuja largura não vai além de uns 2 metros e cjua extensão não chega a ser de 20 km.

[...]com as secas do inverno, tornam-se delgados filetes d´água (menos o Tietê, é claro), quando não desaparecem em boa parte de seus cursos; com as chuvas do verão, tomam vulto, inundam as várzeas, transformando-se muitas vezes em verdadeiras lagoas. (AZEVEDO, 1945: p.49-51)

Apesar da caracterização das inundações enquanto um fenômeno oriundo da gênese climática e geomorfológica, principalmente/especialmente no domínio tropical atlântico, os episódios de cheias são consensualmente considerados processos intensificados pela urbanização (ALVES FILHO 2001; CABRAL, 2002; AVLES FILHO; RIBEIRO, 2005; LIMA, 2007; BRANDÃO, 2010) e pelas inúmeras intervenções dela resultantes, tais como supressão da vegetação, impermeabilização dos solos, canalização, retificação e principalmente apropriação das planícies, genuinamente formadas para a permanência das águas durante os períodos de cheias.

Na bacia do Aricanduva, Lima (2007) destaca a ocorrência dos primeiros registros de inundações ainda durante as obras de canalização e retificação do rio no baixo vale, entre os anos de 1976 e 1980, e também durante a segunda etapa das obras realizadas entre 1981 e 1984.

A retificação do rio Aricanduva, junto ao aterramento de setores da planície que sazonalmente transformavam-se em lagoas durante os períodos de cheias, possibilitou a apropriação dos espaços varzeanos, uma vez que até então a ocupação restringia-se aos terraços e colinas, dentre outros setores de terra firme. Desta forma, com a consolidação do processo inicial de urbanização nas planícies do rio Aricanduva, os episódios de precipitação extrema passaram a ser considerados um problema, uma vez que atingiam instalações residenciais e comerciais, além da própria via de circulação, anteriormente inexistentes.

A partir de então, os episódios de inundações passaram a ter um caráter permanente, uma vez que as obras de apropriação das planícies do Aricanduva se intensificavam, inclusive sob o álibi da necessária redução e controle das inundações, possibilitando assim a ocupação de novas áreas, até então exclusivas aos períodos de cheias.

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