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477 Aves Atropeladas no trecho da BR-101 que Intercepta a Reserva Biológica de

Sooretama

L. M. Barreto

1*

, J. N. Silva

2

, R. P. Deolindo

3

, A. Banhos

1

, C. Duca

2

& M. R. Moreno

3

1

Universidade Federal do Espírito Santo – UFES.

2

Universidade de Vila Velha – UVV.

3

Reserva Biológica de Sooretama.

*Autor para correspondência: [email protected]

Introdução

As estradas apresentam uma grande importância para o homem, pois é o principal meio para o transporte terrestre no mundo. Contudo, é um dos principais fatores de perda de biodiversidade terrestre. A mortalidade de animais por atropelamento é uma das principais consequências das estradas, pois reduz diretamente o tamanho das populações de vertebrados (Alexander et al., 2005). A fragmentação de habitats por implantação de estradas pode conferir limitações para dispersão, migração e fluxo gênico das espécies.

Além disso, quando a dispersão animal é reduzida pela fragmentação de habitat, plantas que dependem dos animais para dispersar as suas sementes, também são afetadas (Primack

& Rodrigues, 2001). Esses efeitos apontam para problemas dos efeitos sinérgicos da rede de estradas sobre os ecossistemas em escalas mais amplas (Forman et al., 2003), aumentando os riscos de extinção de populações (Jaeger, 2004).

O Brasil possui mais de 50 mil quilômetros de rodovias federais. No contexto histórico brasileiro, a expansão das estradas foi um dos principais precursores de perda de cobertura florestal nativa. No início da década de 1970, por exemplo, a região sul da Bahia possuía as maiores faixas contínua de floresta de Mata Atlântica do país, mas após a abertura da rodovia BR-101 no ano 1971, perderam cerca de 80% de sua cobertura (Dean, 1996).

Além disso, muitos animais são atropelados nas estradas brasileiras. Estudos do Centro Brasileiro de Estudos em Ecologia de Estradas (CBEE) apontam que cerca de 450 milhões de animais selvagens morrem por ano nas rodovias que cortam o país. Os efeitos dos atropelamentos de fauna em Unidades de Conservação (UCs) são mais preocupantes e, portanto, precisam de mais atenção. Segundo Maia e Bager (2013), 300 UCs brasileiras de diferentes esferas governamentais apresentam problemas com atropelamento de fauna.

A rodovia federal BR-101, chamada também de Translitorânea, cruza 12 estados

brasileiros de norte a sul do país (Andrade et al., 2011). No Estado do Espírito Santo,

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intercepta a Reserva Biológica de Sooretama (Rebio de Sooretama), Reserva Natural Vale e Floresta Nacional de Goytacazes, onde são registrados atropelamentos de vários animais no trecho da BR-101 que corta a Rebio de Sooretama (Agnezi, 2003; Fernandes, 2013), incluindo espécies ameaçadas. Como agravante, está prevista a duplicação desse trecho da BR-101 a partir de 2017 (ANTT, 2011).

Tendo em vista a problemática acima levantada, a identificação das espécies atropeladas propicia uma melhor adequação das ações mitigadoras, pois permite a elaboração de estratégias específicas para reduzir o atropelamento das espécies mais afetadas, incluindo as espécies ameaçadas de extinção.

Material e Métodos

Área de Estudo. A Reserva Biológica de Sooretama possui 27.946 ha e é o resultado da união da Reserva Florestal Estadual de Barra Seca com o Parque de Refúgio de Animais Silvestres Sooretama. Sua criação teve como principal objetivo preservar as espécies da fauna local e remanescentes da Mata Atlântica (Brasil, 2013).

A Rebio de Sooretama está localizada no centro leste do estado do Espírito Santo, abrangendo os municípios de Linhares, Jaguaré e Sooretama, nas coordenadas geográficas 18°53’ e 19°55’ de Latitude Sul e 39°55’ e 40°15’ de Longitude Oeste (Brasil, 2013). O acesso é feito a partir da Rodovia BR-101, que tem 15m de largura e atravessa a Reserva numa extensão de 5,1 km.

Coletas de Dados. Os dados foram coletados no período de agosto de 2010 a setembro de 2013 pela Equipe de Monitoramento de Animais Atropelados, formada por técnicos e estagiários da Rebio de Sooretama. As amostragens foram realizadas semanalmente (de segunda a sexta-feira), durante todo o período de estudo, no trecho de 5,1 km da rodovia que intercepta a Rebio. A coleta de dados foi realizada entre 7h e 9h da manhã e o trajeto foi inteiramente percorrido a pé, vistoriando as duas pistas da rodovia.

Os dados foram anotados em uma planilha, com identificação do km em que foi

encontrado o registro, a data e hora da observação, o táxon registrado, sua localização na

estrada (acostamento ou pista) e o sentido em relação à rodovia (Linhares - São Mateus ou

São Mateus - Linhares). Os animais encontrados atropelados foram fotografados durante o

período de agosto de 2010 a agosto de 2011 e fevereiro de 2013 a setembro de 2013 (no

período de setembro de 2011 a janeiro de 2013 não foram realizados registros fotográficos

dos animais atropelados). Os exemplares em melhor estado de conservação foram

coletados e armazenados em uma solução de álcool, formol ou congelados para

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479 posteriormente serem depositados em coleções biológicas (ainda não definidas) localizadas no estado do Espírito Santo. Apenas os animais silvestres encontrados mortos no acostamento ou na pista foram registrados (Fernandes, 2013).

Análise de Dados. Foram considerados os registros de atropelamentos de aves. A identificação das espécies foi realizada a partir da análise das carcaças fotografadas e das anotações das observações em campo, comparando os registros com as imagens disponíveis em guias de campo e chaves de identificação (Guia de campo: Avifauna brasileira e Aves do Brasil Oriental). Quando necessário, os registros fotográficos foram encaminhados a especialistas para confirmação taxonômica.

Os dados obtidos foram organizados em uma lista de registros de atropelamento de Aves. A classificação taxonômica está de acordo com a Lista das aves do Brasil, 11ª Edição (autor e ano). Nesta lista foram inseridos: nome científico das espécies, nome popular, o número de animais identificados através dos registros fotográficos e sem os registros fotográficos. Para análise dos dados, foi quantificado o número de animais identificados em nível de espécie e os identificados apenas até gênero, família, ordem ou que permaneceram identificados apenas em nível de classe.

Resultados e Discussão

No período de agosto de 2010 a setembro de 2013, com um total de 717 dias de monitoramento, foram obtidos 233 registros de aves atropeladas no trecho de 5,1 km da BR-101 que intercepta a Rebio de Sooretama. Das aves registradas, 95 indivíduos (40,7%) foram identificados em nível de espécies e 138 indivíduos (59,2%) não foram identificados a este nível.

Do total de registros de aves, quase o dobro de indivíduos foram identificados em nível de espécie quando utilizadas as fotografias (90 aves identificadas e 46 aves não identificadas), enquanto nos registros de observação (sem fotos), somente cinco aves foram identificadas e 92 não identificadas.

Os registros fotográficos facilitaram a identificação das espécies atropeladas, uma

vez que favoreceram a realização de análises complementares, com o auxílio de guias de

campo e chaves de identificação, e a consulta a especialistas. Para os animais que não

foram realizados registros fotográficos, embora eles tenham sido identificados diretamente

no campo (menor nível taxonômico possível), não foi possível confirmar posteriormente a

identificação. Desta forma, recomenda-se que em estudos futuros seja realizado o registro

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fotográfico de todos os espécimes observados em campo visando à montagem de bancos de imagens e favorecendo a identificação das espécies afetadas.

Foram identificadas 41 espécies de aves e o número de registros obtidos foi bem distribuído entre elas (Tabela 1). As espécies com maior número de atropelamentos foram choquinha-de-flanco-branco (Myrmotherula axillaris, n=10) e bacurau (Hydropsalis albicollis) (n=08), o que pode estar relacionado a uma maior abundância de indivíduos dessas espécies nas áreas adjacentes (entorno) ao ambiente viário.

Foram detectadas duas espécies ameaçadas de extinção: a tiriba-de-orelha-branca (Pyrrhura leucotis, n=02), considerada como Quase Ameaçada na lista global de espécies ameaçadas de extinção (IUCN, 2013), Vulnerável na lista nacional (Machado et al., 2008) e Em Perigo na lista estadual (IPEMA, 2005); e o macuco (Tinamus solitarius, n=02), que é considerado como Quase Ameaçado na lista global (IUCN, 2013) e nacional (Machado et al., 2008), e Criticamente em Perigo na lista estadual (IPEMA, 2005). Foram observados alguns eventos de travessia da BR-101 por bandos de tiriba-de-orelha-branca. Além deste registro, durante as visitas de campo em 2013 (dados não publicados) foi encontrado a menos de 200 m da margem da rodovia, um ninho ativo de macuco, com uma fêmea adulta e três ovos. Assim, espécies de aves ameaçadas utilizam a Zona de Uso Conflitante, no trecho da BR-101, definida no Plano de Manejo da Rebio de Sooretama como zona de alto impacto ambiental incompatível com os objetivos de manejo da UC (IBDF, 1981).

Quinze espécies encontradas nos atropelamentos não constam na lista de aves da unidade em um inventário realizado em 2009 (Ecossistemas Consultoria Ambiental, 2009).

Uma dessas espécies é exótica, o pombo-doméstico (Columba livia), com cinco registros, o que evidencia o efeito negativo da estrada na UC, pois podem servir de corredores de imigração para espécies exóticas e invasoras (Coffin, 2007). O presente trabalho acrescenta mais 14 espécies silvestres nativas à lista de aves Rebio de Sooretama, o que mostra que o monitoramento e a identificação de espécies aves atropeladas pode contribuir para o conhecimento da diversidade da avifauna local.

Conclusão

Várias espécies de aves têm sido encontradas atropeladas no trecho monitorado,

incluindo algumas espécies ameaçadas. Isso é ainda mais preocupante pelo fato dos

atropelamentos ocorrerem dentro de uma Unidade de Conservação. A identificação das

espécies atropeladas pode ajudar a elaborar medidas de mitigação específicas,

considerando principalmente as espécies ameaçadas que utilizam a Zona de Uso

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481 Conflitante da Rebio de Sooretama. Entretanto, o número de espécies afetadas pode ser mais elevado que o detectado pelo monitoramento, considerando que muitos registros não foram fotografados para auxiliar na identificação e, além disso, muitas aves não puderam ser identificadas pelas fotografias.

Agradecimentos

A Fundação de Amparo à Pesquisa do Espírito Santo (FAPES) pelo apoio financeiro e a Reserva Biológica de Sooretama pelo apoio logístico nas atividades de coleta de dados em campo.

Literatura Citada

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483

Tabela 7. Registros de Aves atropeladas na BR-101 no trecho que intercepta a Reserva Biológica de Sooretama. (**) Três maiores registros de atropelamentos; (*) Aves presentes nas listas estadual e/ou nacional de espécies ameaçadas de extinção.

Ordem Família Subfamília Espécie Nome comum Registros

Tinamiformes Tinamidae Tinamus solitarius (Vieillot, 1819)* Macuco 2

Galliformes Cracidae Penelope superciliaris Temminck, 1815 jacupemba 1

Columbiformes Columbidae Columba livia Gmelin, 1789 pombo-doméstico 5

Cuculiformes Cuculidae Cuculinae Piaya cayana (Linnaeus, 1766) alma-de-gato 1

Cuculiformes Cuculidae Crotophaginae Crotophaga ani Linnaeus, 1758 anu-preto 1

Caprimulgiformes Caprimulgidae Hydropsalis albicollis (Gmelin, 1789)** Bacurau 8

Apodiformes Trochilidae Phaethornithinae Glaucis hirsutus (Gmelin, 1788)** balança-rabo-de-bico-torto 6

Apodiformes Trochilidae Phaethornithinae Phaethornis idaliae (Bourcier & Mulsant, 1856) rabo-branco-mirim 2

Apodiformes Trochilidae Trochilinae Chlorostilbon lucidus (Shaw, 1812) besourinho-de-bico-vermelho 1

Apodiformes Trochilidae Trochilinae Thalurania glaucopis (Gmelin, 1788) beija-flor-de-fronte-violeta 1

Apodiformes Trochilidae Trochilinae Amazilia versicolor (Vieillot, 1818) beija-flor-de-banda-branca 1

Trogoniformes Trogonidae Trogon viridis Linnaeus, 1766 surucuá-grande-de-barriga-amarela

3

Piciformes Ramphastidae Pteroglossus aracari (Linnaeus, 1758) araçari-de-bico-branco 6

Piciformes Ramphastidae Pteroglossus sp. 2

Piciformes Picidae Piculus flavigula (Boddaert, 1783) pica-pau-bufador 3

Falconiformes Falconidae Micrastur ruficollis (Vieillot, 1817) falcão-caburé 1

Psittaciformes Psittacidae Pyrrhura leucotis (Kuhl, 1820)* tiriba-de-orelha-branca 2

Psittaciformes Psittacidae Amazona amazonica (Linnaeus, 1766) curica 1

Passeriformes Thamnophilidae Thamnophilinae Myrmotherula axillaris (Vieillot, 1817)** choquinha-de-flanco-branco 10

Passeriformes Thamnophilidae Thamnophilinae Thamnophilus caerulescens Vieillot, 1816 choca-da-mata 3

Passeriformes Dendrocolaptidae Dendrocolaptinae Xiphorhynchus fuscus (Vieillot, 1818) arapaçu-rajado 2

Passeriformes Xenopidae Xenops minutus (Sparrman, 1788) bico-virado-miúdo 1

Passeriformes Xenopidae Xenops rutilans Temminck, 1821 bico-virado-carijó 1

Passeriformes Pipridae Piprinae Ceratopipra rubrocapilla (Temminck, 1821) cabeça-encarnada 3

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Passeriformes Pipridae Piprinae Dixiphia pipra (Linnaeus, 1758) cabeça-branca 1 Tabela 1. Continuação

Passeriformes Platyrinchidae Platyrinchus mystaceus Vieillot, 1818 patinho 1

Passeriformes Rhynchocyclidae Rhynchocyclinae Tolmomyias sulphurescens (Spix, 1825) bico-chato-de-orelha-preta 1

Passeriformes Tyrannidae Elaeniinae Elaenia flavogaster (Thunberg, 1822) guaracava-de-barriga-amarela 1

Passeriformes Tyrannidae Tyranninae Pitangus sulphuratus (Linnaeus, 1766) bem-te-vi 3

Passeriformes Tyrannidae Tyranninae Tyrannus melancholicus Vieillot, 1819 Suiriri 2

Passeriformes Tyrannidae Fluvicolinae Fluvicola nengeta (Linnaeus, 1766) lavadeira-mascarada 1

Passeriformes Tyrannidae Não identificada Não identificada 1

Passeriformes Vireonidae Vireo olivaceus (Linnaeus, 1766) juruviara-boreal 1

Passeriformes Troglodytidae Troglodytes musculus Naumann, 1823 corruíra 1

Passeriformes Turdidae Turdus rufiventris Vieillot, 1818 sabiá-laranjeira 2

Passeriformes Parulidae Setophaga pitiayumi (Vieillot, 1817) mariquita 4

Passeriformes Thraupidae Saltator maximus (Statius Muller, 1776) tempera-viola 1

Passeriformes Thraupidae Saltator similis d'Orbigny & Lafresnaye, 1837 trinca-ferro-verdadeiro 2

Passeriformes Thraupidae Tachyphonus coronatus (Vieillot, 1822) tiê-preto 1

Passeriformes Thraupidae Tangara seledon (Statius Muller, 1776) saíra-sete-cores 4

Passeriformes Thraupidae Dacnis cayana (Linnaeus, 1766) saí-azul 2

Passeriformes Thraupidae Sicalis flaveola (Linnaeus, 1766) canário-da-terra-verdadeiro 3

Passeriformes Fringillidae Euphonia chlorotica (Linnaeus, 1766) fim-fim 1

Passeriformes Fringillidae Euphonia sp. 1

Não identificadas 134

Total de registros 233

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