• Nenhum resultado encontrado

Amor e terror na visão de si: Narciso e outros mitos sobre o duplo

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2018

Share "Amor e terror na visão de si: Narciso e outros mitos sobre o duplo"

Copied!
8
0
0

Texto

(1)

A M O R E T E R R O R N A V ISÃ O D E SI:

*

zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

Nar~isoe outros m itos sobre o duplo

M a r ia G e r c ile n i C a m p o s d e A r a ú j o * *

RESUMO

fedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

E s t e t e x t o t e m e t i z e a r e l a ç ã o d o h o m e m c o n s i g o m e s m o , c o m s e u p r ó p r i o self. I n v e s t i g a a

problemé-t i c e d a v i s ê o d o d u p l o d e s i p a r a o i n d i v í d u o ap a r t i r d e e s t u d o s r e e l i z e d o s p o r O t t o R e n k . J e m e s F r a z e r e

o u t r o s a n t r o p ó l o g o s e c i e n t i s t a s s o c i a i s . s o b r e m i t o s , c r e n ç a s e t a b u s , r e g u l e l d o r e s s o c i a i s d e s d e o s t e m p o s

i m e m o r i e i s . A b o r d e m - s e c r e n ç a s d e p o v o s p r i m i t i v o s e s u a s c o g ê n e r e s e m c o m u n i d a d e s o c i d e n t a i s m s i s

r e c e n t e s . E m s e g u i d a , e n e l i s e - s e o m i t o d e N a r c i s o c o m o e m b l e m â t i c o d a t e m é t i c s : a m o r o s a e t e r r o r i t i c e :

d a v i s ã o d o p r ó p r i o r e f l e x o , p r e s e n t e n a c a d e i a d e m i t o s s o b r e o d u p l o . P o r f i m e r t i c u l e - s e a s s g e . d e

N a r c i s o a o d r a m a d o h e r ó i d e

MLKJIHGFEDCBA

"O e s t u d a n t e d e p r a g a ': f i l m e i n s p i r a d o n u m c o n t o d e H o t i i n e n n , q u e p r o b l e m e t i z a a q u e s t ã o d a v i s ê a d o D u p l o .

P s l s v r s s - c h s v e : N a r c i s o , m i t o l o g i a . d u p l o d e s i .

ABSTRACT

T b i s p e p e r f o c a .l i z e s m e r e l s t i o n s h i p o f t b e b u m e n b e i n g w i t h h i m s e l f ; b y m e i a v e s t i g e t i o n o f t b e

q u e s t i o n s c o n c e r n i n g t h e v i s i o n o f o n e s e l f 's d o u b l e o r o n e s e l f 's r e t l e x . l t s h o w s s t u d i e s e c c o m p l i s h e d b y

O t t o R e n k , J s m e s F r a z e r e n d o t h e r e n t h r o p o l o g i s t s e n d s o c i a l s c i e n t i s t s , e b o u t r n y t h s , b e l i e v e s e a d t e b o o s ,

w b i c h a r e s o c i a l r e g u l e t o r s s i n c e m e Í m m e m o r í a l t i m e . T h e p r i m k i v e p e o p l e ' b e l i e v e s e n d t h o s e o n e s c o n c e m i n g

r e c e n t o c i d e n t a l c o m m u n i t i e s a r e a p p r o c h e d T h e n , t h e m y t h o f N a r c i s o i s e n e l y s e d ase n e m b l e m o f l o v e e n d

t e r r o r t h e m e s , b o m p r e s e n t Í n a l l m e m y t h s e b o u t m e v i s i o n o f m e d o u b l e , e b o u t m e v i s i o n o f o n e s e l f 's r e i l e x . A t

l e s t , t h e s e g « o f N a r c i s o i s c o m p e r e d t o t h e h e r o 'sd r e r n e o f m e f i l m " T b eS t u d e n t o f P r a - h a ': w b i c h i s i n s p i r e d

i naH o f E n a n n 'st e l e e b o u t t h e d o u b l e .

K e y \ - % n : l s : T h e m y t h c f 'N e r c i s o , m y t h o l o g y , o n e s e l f 's d o u b l e .

* Esse artigo inspirou-se no trabalho realizado pela autora para o Dr. Luiz Roberto Monzani, seu professor no Curso de

Especiali-zação em Fundamentos Filosóficos da Psicologia e da Psicanálise, UNICAMP, nos idos de 1987 a 1989.

** Doutora em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo (USP). Professora do Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Ceará (UFC). (aposentada).

(2)

1 . I n t r o d u ç ã o

zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

As relações do indivíduo com seu próprio eu e a ameaça de seu aniquilamento pela morte parecem es-tar presentes no homem desde os tempos remotos e têm exercido influência notória sobre seus costumes, crenças e religiões. instaurando mitos, rituais e tabus e servindo como fonte de inspiração para a arte e litera-tura. Partindo de estudos já realizados por Rank, Frazer, Campbell, constatamos mitos, crenças e tabus existen-tes entre povos primitivosdesde os tempos irnernoriais, que denunciam a importância concedida por essas

se-ciedades às relações do indivíduo com o seu duplo. Essas sociedades chegaram mesmo a construir regras reguladoras de tais relações.

Além do exame dessas relações, não nos furta-mos de considerar os vestígios do legado desses mitos e tabus às sociedades modernas e contemporâneas, realizando, aqui e ali, quando julgamos pertinente, al-guma articulação entre eles, uma vez que, hor-diernarnente, a temática da produção das subietivida-des e das relações do sujeito consigo vem sendo alvo

de investigações e pesquisas em variados saberes da ciência contemporânea.

A trajetória que percorremos valeu-se também do mito de Narciso, como mito emblemático da

rela-ção do indivíduo com sua imagem refletida. Narciso foi aproximado da história do filme "O estudante de

Fraga'". Finalmente tratamos de localizarNarciso como

um dos elos da cadeia de mitos que tem tratado da relação do sujeito consigo mesmo através dos tempos.

2 . A im a g e m d e s i e o p e r ig o

Uma primeira visada sobre os mitos, crenças e tabus, relativos ao duplo, à imagem refletida do indiví-duo, mostra seu caráter terrorífico para o homem. Frazer (1982) e Rank (1973), entre outros estudiosos, contam que a imagem refletida do indivíduo tem a ele se apresentado como perigo iminente, presságio da morte e como anúncio de grandes infortúnios.

Para os povos primitivos, as formas do duplo, fosse a imagem refletida de si ou fosse a própria som-bra, que também constitui uma imagem projetada se si, eram um bem a ser preservado, a ser cuidado pois denunciavam a existência da alma e constituiam, por

assim dizer, seus representantes externos. Se a alma era o princípio vital que animava os corpos e neles habitava, o reflexo, a sombra, eram seus represen-tantes e, como tal, sua existência significava, para o homem, a garantia da permanência da alma no seu interior, logo, a imortalidade. Frazer (1982) nos diz que os povos primitivos explicavam a atividade hu-mana pela presença da alma, enquanto o sono e o transe significavam sua ausência temporária e a mor-te sua ausência definitiva.

Se a alma abandonasse o corpo durante a vigília, isso poderia resultar em insanidade ou morte. Tam~ bém se acreditava que, à hora da morte, poder-se-ia aspirar a alma do moribundo, que lhe escaparia pela boca, e assim, adquirir todas as qualidades do morto.

A análise inicial dessas crenças mostra como o homem precisava preservar o que considerava como manifestações exteriores da sua alma, pois qualquer ataque a estas ameaçava a alma interior. Sendo a som-bra equivalente à alma, então era preciso defendê-la, pois ter a própria sombra atingida por uma facada, por exemplo, levaria a pessoa a morrer. Uma análise mais demorada permite afirmar que as crenças em tomo do duplo vão agregar-lhe (ao reflexo e à sombra) uma significação terrorífica, que adicionará à atitu-de do indivíduo atitu-de proteger a própria sombra, uma atitude de evitação da visão de seu reflexo em espe-lhos ou nas águas da natureza.

A literatura é rica em exemplos que anunciam a visão terrorífica outorgada às várias formas do duplo por diversos povos. Vejamos alguns:

Frazer (1982) afirma que até mesmo em sonhos

a visão do reflexo de si era considerada pelos gregos como sinal premonitório de morte.

Haberland (apud Rank, 1973) refere-se às cida-des de Dalmatre e Oldernburg, onde se acreditava que se alguém olhasse para um espelho quando houvesse um cadáver na casa, esse alguém morreria. Acrescenta que na Alemanha, França e lituânia era costume co~ brir-se todos os espelhos da casa em caso de morte, uma vez que a alma do morto poderia fixar-se no es-pelho e tornar-se visível sob certas condições. Na Boêmia, pessoas doentes não poderiam olhar-se no espelho pois morreriam em pouco tempo se assim o fizessem.

W uttke (apud Rank, 1973) conta que na

Alerna-nha era proibido expor-se um cadáver diante de um

MLKJIHGFEDCBA

I O estudante de Praga, filme do diretor Hans Heins Ewers, cuja história é narrada por Oeo Rank, em sua obra M

fedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

L e D o a b le " ,publicada

pela Petite Payot, Paris, 1973.

(3)

espelho, pois se teria, então, dois cadáveres, e o

segundo anunciaria uma segunda morte. Comenta

autor que, na Prússia oriental, se alguém visse no

espelho uma figura ao lado de seu próprio reflexo,

acreditaria que teria morte em breve. Na França,

acreditava-se que quem olhasse no espelho àmeia,

noite perderia o seu reflexo, isto é, perderia sua alma,

que necessariamente traria a morte. [(Grim; Panzer;

tracberjan; W olf; Alpenboriag; W untteke), apud

Rank, 1973].

Muitas famílias indígenas da lndonésia impedem

as crianças de se olharem em espelhos, porque elas

odem perder a beleza e ficar disformes. Essa crença,

embora não anuncie a morte, prevê infelicidade. Na

mesma direção está a crença de que o espelho quebra,

o pode acarretar sete anos de azar e infortúnios.

Cren-?Ssemelhantes a estas existem ainda hoje em certas

regiões do Brasil. Por exemplo, no interior do

Nordes-te brasileiro, há pessoas que acreditam que espelho

ebrado traz azar para quem o quebrou.

3.LKJIHGFEDCBA

O d u p lo n a lit e r a t u r a

As primeiras manifestações do tema do duplo

re-etem ao tempo recuado do folclore, da superstição e

nascimento das religiões. Apesar de tão antigo, este

:ema continua apaixonando estudiosos

conternporâne-os, que lhe têm dedicado estudos científicos, contos,

mances, filmes, etc 2.

A história do filme "O estudante de Praga", do

cineasta Hans Heinz Ewers, inspirado num conto de

:-1offinann intitulado ';A.história do reflexo perdido", que

trata da relação do homem com o seu duplo, nos foi

apresentada por Otto Rank e será objeto de nossa

'iscussão mais adiante. Agora apresentaremos outros

exemplos da literatura que ilustram a temática em

estão.

O conto de Anderson intitulado ';A.sombra" se'

e a cadeia de mitos em tomo do duplo. Relata a

estória de um sábio, habitante dos países quentes, cuja

mbra o abandonara. Muitos anos depois o sábio

re-encontra sua sombra. Porém, esta havia se tornado um

ornem independente e rico e aos poucos vai

domi-nando o sábio. Desejando casar-se com a filha de um

rei, a sombra/homem tem a audácia de tratar o sábio

mo se ele fora sua própria sombra e, prometendo,

e riqueza, tenta convencê-lo a agir como sua sombra

diante de todos, no dia do casamento. Revoltado, o

sábio pretende desmascarar a sombra/homem,

po-rém, esta frustra os planos dele, manda-o para a

prisão, assegurando ànoiva que sua sombra

enlou-quecera e pensava-se um ser vivo.

Rank (1973, p.18) refere o poeta francês

Lenau, cuja poesia, ';A.nna", repete o tema da

rnor-te e da infelicidade ligados ao duplo. Anna era uma

belíssima jovem que temia perder sua juventude e

beleza caso se tomasse mãe. A seu pedido, uma

fei-ticeira faz-lhe um sortilégio que a libera de sete cri,

anças que deveria conceber. Durante sete anos de

casamento a beleza de Anna permanece imutável,

até que, certa noite à luz do luar, seu marido

perce-be que Anna não tinha sombra. lndagada, ela

con-fessa sua falta. O marido a expulsa e Anna passa os

próximos sete anos em penitência que lhe deixam

marcas profundas em sua figura. Perdoada por um

eremita, reconcilia-se com Deus e morre depois de

ver numa capela as sombras das sete crianças que

evitara conceber.

Os exemplos acima corroboram a saga

terrorífica e perigosa do duplo para o indivíduo,

como a denunciar a necessidade do homem de

cui-dar-se e defender-se de si mesmo, pois sua

proje-ção externa oferece-lhe perigos desconhecidos.

Falar do desconhecido no âmbito destas

refle-xões nos remete a pensar nos aspectos

inconscien-tes da condição humana, inicialmente estudados por

Freud desde sua invenção da Psicanálise. E hoje,

praticamente nenhum saber das ciências humanas

pode ignorar a importância e influência do

incons-ciente, quando da análise das construções

sirnbéli-cas do homem. Certamente as lendas, crenças,

rni-tos e tabus têm recebido, sobretudo da Psicanálise e

da Teoria analítica de jung, a atenção devida.

Agora, ocorre-nos indagar sobre a travessia de

significações do duplo para o homem. Dito de ou'

tra forma, por que razão a significação das formas

do duplo como um bem a ser preservado se

secun-dariza, salientando-se a primazia do sentido ter'

rcrífico, do duplo como ameaça de aniquilamento

e presságio de morte?

Gostaria de tecer algumas considerações. Ora,

do nosso ponto de vista, inicialmente a sombra e o

reflexo de si representavam a existência da alma que

habitava no interior do indivíduo. Estando no interior

- er o livro" OfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBAR e t r a t o d e D o r i a n G r a y de Oscar W ilde, que trata da relação de um jovem consigo mesmo, através de uma pintura de si que, com o passar dos anos, envelhecia e ficava feia, retratando-lhe os defeitos da alma, enquanto Dorian Gray mantinha-se belo e

saudável.

MLKJIHGFEDCBA

4 5

(4)

do indivíduo, este poderia exercer um certo

geren-ciamento sobre ela. O perigo vinha de fora, de ou'

trem que não o próprio duplo. A este era preciso

proteger. Mais tarde as várias formas do duplo

pas-sam a equivaler à alma. A equivalência entre "som,

bra", "reflexo de si" e "alma'? vem acompanhada

de uma significação terrorífica. Supomos que essa

equivalência projetou a alma para fora do homem,

para fora do si mesmo. Retirando-a do interior do

homem, onde habitava, outorgou-lhe uma quase

concretude e independências externas. A sombra e

o reflexo de si seriam a própria alma e não mais

apenas um sinal de sua existência dentro do

indiví-duo. Assim sendo, ver a sombra, ver o reflexo,

sig-nificava ver a alma. Projetada para fora, como

reflexo ou como sombra, colocava-se longe, fora

do indivíduo, distante de seu gerenciarnento, logo,

poderia tornar-se independente e para ele

consti-tuir perigo iminente. A história do sábio abandona,

do e traído pela própria sombra, que se tomou

in-dependente, radicaliza a visão terrorífica do duplo.

Paralelamente ao significado aterrorizante do

duplo, aparecem, em algumas circunstâncias, ou'

tros significados como, por exemplo, o significado

premonitório sobre o futuro. W uttke (apud Rank,

1973) refere que em Oldenburg as pessoas crêem

poder enxergar o futuro se, àmeia-noite, olharem,

se num espelho iluminado apenas por duas velas e

chamarem alto o próprio nome.

A complexidade do jogo de significações

refe-rente aos mitos em geral está presente em toda a mito,

logia em tomo da questão de ver a si mesmo, de

enca-rar a própria imagem. Por isso não causa estranheza

quando novas histórias sobre o duplo acrescentam-lhe

nova significação, desta feita uma significação

amoro-sa.

MLKJIHGFEDCBA

É o que nos conta Otto Rank quando afirma:

fedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

7 i a d í ç ã e s c l e r e m e n t e t a r d i a s ,p o r e m e s p e

I h a d a s a p a r t i r d a q u e l a s n a s q u e i s o s j o v e n s p o d i

-a m v e r s e u s -a m -a d o s n o e s p e l h o , s o b -a s m e s m -a s

c o n d i ç õ e s e m q u e h a b i t u a l m e n t e n a d a h a v i a

a l é m do a n ú n c i o d a m o r t e e i n f e l i c i d a d e , n o s

m o s t r a m b e m q u e a s i g n i f i c a ç ã o m o r t a l d o

D u p l o t e n d e i g u a l m e n t e a s e r s u b s t i t u í d a p o r

u m a . s i g n i f i c a ç ã o a m o r o s a .

A significação amorosa da visão do reflexo faz

parte do imagimário popular brasileiro. Ainda hoie

3 Nas línguas de alguns povos primitivos. a palavra

é tradição no ordeste do Brasil, nas festas juninas,

sobretudo nas dedicadas a Santo Antônio, o santo

casamenteiro, as moças usarem bacias d'água à

meia-noite para tentar enxergar a figura do futuro

companheiro junto ao seu próprio reflexo, nas

águas da bacia.

De posse dessas significações, examinaremos

a história de "O estudante de Praga" para em segui,

da articulá-Ia ao mito de Narciso.

LKJIHGFEDCBA

4 . O e s t u d a n t e d e P r a g a

Balduin é um jovem que, tendo dilapidado toda

a sua riqueza, abandonara os amigos e sua namorada,

chamada Lyduschka. Certo dia, ao andar na rua, um

misterioso velho o aborda e pede-lhe esmola. Chama,

se Scapinelli e sai acompanhando o jovem em um

pas-seio na floresta. Nessa ocasião, vê Balduin salvar de

uma queda de cavalo uma condessa que estava a

ca-çar. Agradecida, a condessa convida o jovem até o

castelo onde mora e lá apresenta Balduin a seu pai

e a seu noivo. Balduin deixa o castelo seriamente

impressionado com a beleza da condessa, em quem

causara, por sua vez, forte impressão.

Certo dia, Balduin estava em seu quarto, em

fren-te a um espelho, exercitando-se na esgrima, quando

aparece Scapinelli. Este lhe oferece imensa fortuna

desde que Balduin lhe permita levar consigo aquilo que

mais lhe agradar no quarto do jovem. Rindo, Balduin

mostra ao velho as paredes nuas, a mobília sumária e

assina o contrato que Scapinelli lhe propõe. O velho

finge procurar qualquer coisa pelo quarto sem

encon-trar, até que mostra ao jovem sua imagem refletida no

espelho. Acreditando tratar-se de uma brincadeira,

Balduin permite que o velho leve seu reflexo, mas fica

francamente horrorizado ao ver sua imagem saindo do

espelho e acompanhar Scapinelli pela rua.

Tornado rico e elegante, Balduin passa a

fre-qüentar bailes onde possa rever sua adorada

con-dessa. Certa noite, em um baile, está quase a lhe

declarar o amor quando o idílio é interrompido pela

chegada do noivo da condessa no terraço onde

es-tavam. Lyduschka, a ex-narnorada do jovem,

disfar-çada de vendedora de flores, espreitava a cena.

Balduin está e' do ainda no terraço quando vê

ex ap iado em uma coluna. Balduin

n es de deixar o castelo, o jovem

essa bilhete escondido num

len-• reflexo, sombra. Ver Frazer op cit.

(5)

-ço que ela deixara cair. No bilhete marca um

en-contro para a noite seguinte, no cemitério.

Na noite seguinte, Balduin e a condessa

en-contrarn-se no lugar combinado. Quando Balduin

se prepara para dar o primeiro beijo na condessa,

volta-se subitamente e vê seu Duplo aparecer por

trás de uma pedra. Enquanto a condessa foge as'

sustada, Balduin tenta em vão agarrar o espectro

que desaparece bruscamente.

Nesse Ínterim, Lyduschka, inconformada com

o abandono de Balduin, conta ao noivo da condes'

sa sobre o romance desta com Balduin. Lyduschka

seguira a condessa até o cemitério sem que ela

per-cebesse.

O

barão, noivo da condessa, desafia Balduin para um duelo, mesmo sabendo que este

tinha notável talento na esgrima.

MLKJIHGFEDCBA

O pai da condessa pede a Balduin que poupe seu futuro genro, o ú n

i-co herdeiro de seu nome ' o barão era primo da

condessa. Balduin cede ao pedido e promete não

matar o barão. Na data combinada, quando estava

se preparando para o duelo, Balduin encontra na

oresta seu Duplo com uma espada ensangüentada

na mão. Antes mesmo de chegar ao local do duelo,

Balduin vê de longe o adversário morto e percebe

que fora seu Duplo quem o matara. Em vista do

ato, todos se recusam a recebê-lo no castelo.

Balduin procura esquecer sua desgraça no jogo e

na bebida, indiferente à presença de Lyduschka, que

enta em vão seduzi-lo.

Certa noite, Balduin consegue chegar até o

quarto da condessa e ioga-se a seus pés soluçando.

Ela o perdoa e seus lábios se encontram no primeiro

eijo. Mas, voltando-se casualmente para um

espe-lho, a condessa percebe que o reflexo de Balduin

não aparece junto ao seu, refletido no espelho.

Assustada, ela lhe pergunta o porquê. Enquanto

Balduin tenta esconder seu rosto envergonhado, seu

Duplo aparece na porta fazendo-lhe caretas".

A condessa desmaia e Balduin esconde-se

apa-vorado. Doravante, o Duplo o persegue por todo

lugar. Ele foge, atravessa ruas, montanhas, vales e

florestas. Até que por fim encontra uma carruagem,

orna-a e pede ao cocheiro que parta a toda

veloci-dade. Depois de uma corrida louca, Balduin

cren-do estar a salvo, desce da carruagem, mas quando

vai pagar a corrida, percebe enlouquecido que o

cocheiro era seu Duplo. Consegue escapar, mas a g e

-ra vê o Duplo em todos os cantos. Mesmo assim

consegue chegar em casa. Tranca portas e janelas e

carrega a pistola para acabar de vez com a vida.

Quando está escrevendo seu testamento, vê nova,

mente seu Duplo fazendo-lhe caretas,

escarnecen-do-o. Louco de raiva, Balduin saca a pistola e atira na imagem, que subitamente desaparece. Exultante,

Balduin retira as cobertas de um espelho e

finalrnen-te, depois de muito tempo, ousa olhar-se lá. No

mesmo instante sente uma dor no ombro esquerdo,

vê sua camisa cheia de sangue e percebe que atira'

ra em si mesmo. Balduin tomba morto. Aparece

Scapinelli que, zombeteiro, atira o contrato sobre o

cadáver.

O filme, narrando esta estória, termina mos' trando o túmulo de Balduin, onde está sentado o

seu duplo, tendo consigo um pássaro preto, com'

panheiro fiel de Scapinellí.

LKJIHGFEDCBA

5 . O m it o d e N a r c is o

Conta-nos a lenda que uma ninfa chamada liríope consultara o sábio Ttrésias ' aquele que cego

dos olhos sabia ver o futuro ' se seu filho Narciso

teria vida longa. Ttrésias respondera-lhe: "Sim, se não

."

se vir.

Narciso cresce belo e aos dezesseis anos

apai-xonarn-se por ele moços e ninfas. Nenhum deles

porém é premiado sequer com um gesto amoroso

de Narciso.

Eco, a quem a deusa Juno, por vingança.ê

con-denara a somente repetir as últimas palavras ou sons

emitidos por outrem, também cai de amores por

Narciso. Depois de espreitá-lc e segui-lo longo tem'

po, consegue aproximar-se do jovem. Mas Narciso

rejeita seu amor e Eco esconde-se na floresta,

con-sumindo-se no afeto desprezado até que se

trans-forma em pedra.

Um belo dia, ao tentar saciar sua sede numa

fonte de águas cristalinas, Narciso vê, pela primeira

vez, sua imagem, refletida no lago. Não sabe de

quem se trata, fica fascinado. Inconsciente de que

o belo jovem que o olha fascinado de dentro das

1No original "Grirnacente".

5Segundo o mito narrado por Ovídio, Eco era uma ninfa muito falante que ficava a distrair Juno, esposa de Jupiter, para que esta não o surpreendesse enquanto ele se deitava com outras ninfas na montanha. Quando descobre o ardil de Eco, Juno dá-lhe um castigo: "com essa língua que tanto me fez ser iludida, pouco poderás fazer e terás um uso brevíssimo das palavras". Épor isso que Eco pode apenas repetir o que ouve. Ver Ovídio,fedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBAm e t e m o r t o s i s , ed. Universidade Nacional Autônoma do México, livro 111,1979.

47

(6)

águas ninguém mais era do que a sua própria imagem

refletida, Narciso apaixona-se pelo que vê. Tenta

inu-tilmente estreitar nos braços e beijar com ardor aquele

a quem ama. Pouco a pouco, percebe que aquele belo

jovem diante de seus olhos era ele mesmo refletido na

água. Toma consciência da impossibilidade do amor

que sente, consome-se em desespero e termina por

golpear-se seguidas vezes no dorso nu, até que perde a

força, o vigor, a estonteante beleza e tomba morto na

grama.

A

profecia do sábio Tirésias fora confirmada.

6.LKJIHGFEDCBA

R e f le x õ e s s o b r e o m it o d e N a r c is o

Apartir de nossa reflexão sobre Narciso,

distin-guimos no mito três momentos sucessivos e

aponta-mos alguns temas que nos parecem presentes na

trági-ca estória do belo jovem.

Os momentos são:

MLKJIHGFEDCBA

I ~Momento de fascínio por uma imagem ainda

desconhecida;

2 ~

Momento de percepção de que a imagem amada era a dele mesmo;

3 ~

Momento de consciência da impossibilidade do seu amor.

Os temas que destacamos no mito são: o

fascí-nio, a dor, a loucura, a consciência e a morte, todos

eles ligados à temática central da visão do duplo

como sinal de perigo mortal.

O primeiro momento traz o tema do fascínio.

Narciso ainda não sabe quem é aquele por quem

arde de amor. Está fascinado pela bela figura que

vê nas águas cristalinas da fonte. O amor incontinenti

o leva a tentar em vão abraçar a criatura e beijar-lhe

os lábios. Narciso não compreende porque o jovem

amado que tão perto de si parece estar, que em tudo

parece corresponder-lhe, repetindo-lhe os gestos

amo-rosos, revelando no rosto igual ânsia, ao mesmo te m

-po lhe escapa, não se corporifica em seus braços.

Num segundo momento, Narciso percebe que

aquele que ele vê e ama era ele mesmo, era sua

ima-gem refletida na fonte. Vejamos a respeito os versos

de Ovídio":

fedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

E s s e s o y y o ; /0s e n t i e n o m e e n g a .f í a m i i m a g e m ;

p o r a m o r d e m i , s o y q u e m s d o , y I a s l l s m s s m u e v o

e s u p o r t o . se:n

(Ovídio, L1I1,versos 463 e 464)

60vídio, M e f A m o r f o s í s , ed. Unive~idade nacional Autônoma

lnstalara-se a dor em Narciso ~ outro tema que

apontamos no mito.

Novamente transcrevemos Ovídio:

Q u e h a r é ? S e r r o g a d o o r o g a r ? Q u e r o g a r é e m

a n d e / a n t e ?

L o q u e e n s i o , e s t á c o m i g o ; i n o p e m e h í z o a m i I a a b u n d a n c í a .

(Ovídio, LIII, versos 465 e 467)

Éeste o momento em que Narciso toma

consci-ência de que seu amor é impossível. À dor juntam-se a

consciência e a loucura, que, ao nosso ver, em

Narci-so apresentam-se - paradoxo - justapostas e

inseparáveis.

A loucura de Narciso é querer ser, ao mesmo tempo, si e seu duplo, ele próprio e sua imagem. É

querer ser o outro sem deixar de ser ele próprio, é

querer transformar-se em dois sem deixar de ser uno.

A h , o j a l á d e n u e s t r o c u e r p o s p e r t e r - m e p u d i e r a !

(Ovídio, LII!, verso 467)

Sua loucura é desejar um amor que nasce sob a

impossibilidade de fluir. Loucura por recusar o amor

objetal, por ser averso ao contato com um outro que

não seja ele próprio, loucura por deixar de inserir-se

na cadeia de significações humanas.

A

consciência de sua condição torna-o infeliz. Em Narciso revela-se o paradoxo da coexistência da

consciência e da loucura.

A

consciência da impossibili-dade do amor não o impede de permanecer ali, junto

àimagem do si/amante. Entregue ao louco e

deses-perado amor, permanece junto à fonte até que

su-cumbe aos golpes que desfere sobre seu peito sem

vestes. Extenuado, seu rosto já não mostra o antigo

rubor, seu corpo não exibe a mesma força e vigor.

Exaurido, entrega a cabeça à relva fresca e lá e n

-contra a morte.

Os versos 460 e 470 de Ovídio anunciam assim

a morte de Narciso:

Y y a e / d o l o r I a s f u e r .z a s q u i t a , e y o , d e m i v i d a , / u e n g o s c e m p o s m e q u e d e m , y e m I a e d a d e p r i m e r a

m e e x t i n g o .

e , último tema por nós apontado,

apre-rte parece ser o único caminho,

carni-ta o amor de Narciso por si mesmo.

(7)

A visão da imagem refletida de si repete no mito

ce arciso o perigo, a ameaça, o destino mortal que

;..anunciara em outros mitos dos povos antigos.

arciso e Balduin: uma articulação

Após apresentarmos a estória de Balduin, o

es-dante de Praga, e o mito de Narciso, passamos ao

exame de algumas relações que estabelecemos

en-::-e eles.

As duas estórias mostram elementos em comum,

centre os quais destacamos: a dor, a loucura, a negação

_ amor objetal e a morte, intimamente relacionados

- m a visão do Duplo.

Narciso não era capaz do amor objetal.

lndife-rente, desprezara o amor de todos os moços e ninfas

cue o assediavam. Rejeitara o amor que Eco lhe

cfere-cera, preferindo morrer a entregar-se aos anseios da

vem apaixonada.

Também Balduin, indiferente, rejeita o amor de

_yduschka, abandonando-a àprópria sorte. A

interdi-ção ao amor objetal faz-se presente tanto em Narciso

anto em Balduin. Em Narciso, ela se concretizava

através do efeito de seu duplo, de sua imagem refletida

ue o aprisiona com seus encantos. O Duplo de

Nar-ciso o captura inteiramente. Narciso tem olhos apenas

ara admirar-se, para fascinar-se com seu reflexo.

MLKJIHGFEDCBA

Éo amor egóico, o amor do eu sem o tu, o amor do eu

por si mesmo. O reflexo de Balduin interdita sua união

com a condessa. Narciso é capturado pelos encantos

de seu reflexo. Balduin éperseguido. Embora as ações

sejam diferentes, os efeitos são semelhantes. Nenhum

dos dois pode realizar o amor objetal.

A dor, o desespero, a loucura e a morte estão

intimamente ligados em cada estória que preferimos

articulâ-los em bloco. Ante a impossibilidade de

pos-suir o seu amado, Narciso sente dor imensa, que

cres-ce àmedida em que se acentua a consciência de que

não pode ser ele mesmo e seu Duplo. Têm

consciên-cia de sua loucura: amar a si mesmo no outro que vê,

desejar ser dois e ser uno, habitar o outro sem deixar

de ser ele próprio.

Balduin também sofre a dor de não poder unir,

se à condessa. Seu próprio reflexo se interpõe entre

eles. Também para ele o amor se faz impossível, mas

por causa da perseguição do Duplo. Essa perseguição

o conduz ao desejo de dar cabo àprópria vida. Sua

loucura é procurar a morte para por fim a seus males.

Narciso, desesperado, golpeia o dorso nu até

tombar morto na relva. Balduin dispara sobre o

du-pio a pistola com que planejara suicidar-se. Mas o

destino o atraiçoa e, espantado, Balduin sente uma

dor violenta no ombro esquerdo. A bala destinada ao

Duplo atingira a si mesmo e, fulminado, Balduin tom,

ba morto no chão.

Tanto em Narciso quanto em Balduin, o duplo

cumpre dupla função: a interdição do amor objetal e a

consumação da morte. Para ambos, o reflexo de si

anuncia o perigo, a sina mortal. Em ambos repete-se a

crença antiga que atrela a visão do duplo de si ao

ani-quilamento tota! da vida. Corroboram a visão terrorífica

do duplo. Não há novidade, há repetição.

Talvez possamos pensar que o mito de Narciso

traz uma novidade ao incluir a temática amorosa que,

segundo Frazer (1982), não estava presente na lenda

primitiva de Narciso. De acordo com o autor, Ovídio

teria adocicado o mito original, nele incluindo o tema

do fascínio amoroso e a presença de Eco amando

nar-ciso. Frazer prefere permanecer apenas com a temática

terrorífica do mito, desprezando o tema amoroso.

Rank (1973) discorda de Frazer esclarecendo que

a presença da temática amorosa junto com a temática

terrorífica toma o mito mais completo. Concordamos

com Rank e pensamos que a tradição

filoséfico-literá-ria grecc-rcmana na qual se insere Ovídio, tem se ser'

vido de tragédias onde o amor, o ciúme, a inveja e

outras paixões da alma humana se entrelaçam para

explicar a trajetória vida/morte. Nesse sentido, a visão

do Duplo comporta a polaridade fascínio/terror

apre-sentada na versão de Ovídio e confere ao mito a devi,

da complexidade.

Essa complexidade reaparece no estudo de

Freud sobre o Narcisismo, no século XX. O parado,

xo do amor de si conduzindo àmorte está de volta.

Narcisismo, superinvestimento da libido no pró'

prio ego, pode, quando patológico, conduzir o sujeito à

morte simbólica. O amor narcísico extremado impede

o amor objeta! e interdita ao sujeito a entrada na rede

de significações humanas. E fora dela não há salvação

para o homem.

Mas esse é outro estudo, num outro trabalho,

fedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

p o r v i r .

8. Bibliografia

FRAZER, J. G., O R a m o d e O u r o , edição condensada,

zahar editores, Rio de Janeiro, 1982.

49

(8)

FREUO,

s.,

lntroducion al Narcisismo, in Obras

completas, ed. Biblioteca Nueva, Madrid, 3a.

edição, 1973.

OVÍOIO, P. N.,fedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBAM e t a m o r f o s í s , ed. Universidade na-cional Autônoma do México, México, 1979.

- '" e t L e Dcoble, Petite Bibliothéque

-3.

. lina ministrada pelo Prof. Or. Luiz Roben onzani no Curso de Especialização em Fundamentos Filosóficos da Psicologia e da Fsi-canálise. UNICAMP. 1987.

Referências

Documentos relacionados

Para erros super-regulares, os estimadores lineares via ondaletas tem uma taxa de convergˆencia muito baixa; no entanto, s˜ao ´otimos dentro da ordem logar´ıtmica, como pode ser

A investigação se dá por meio de uma pesquisa-ação e configura-se por ser bibliográfica, de cunho qualitativo e seguiu seis etapas: 1ª etapa: caracterização dos problemas

Pedro Fonseca | Grupo Português de Neuroftalmologia José Moura Pereira | Grupo Português de Glaucoma João Pereira Figueira | Grupo Português de Retina-Vítreo Maria João Quadrado

O objetivo do curso é promover conhecimentos sobre as técnicas de gerenciamento de projetos, melhorando assim a qualidade do planejamento e controle de obras, visando proporcionar

O teste de patogenicidade cruzada possibilitou observar que os isolados oriundos de Presidente Figueiredo, Itacoatiara, Manaquiri e Iranduba apresentaram alta variabilidade

•   O  material  a  seguir  consiste  de  adaptações  e  extensões  dos  originais  gentilmente  cedidos  pelo 

(UNESP)/NALingua-CNPq 1 , no Brasil; b) explicitaremos os conceitos teóricos mobilizados durante as análises dos dados de fala de crianças, tais como sujeito, língua, gêneros

Para tanto, realizou-se o levantamento epidemiológico das fraturas do osso zigomático que ocorreram entre janeiro 2007 a dezembro de 2010, perfazendo um total de 36 meses, dos