Luís Estevinha Rodrigues
O Conhecimento como Crença Verdadeira Garantida
ACADEMICA 1
Luís Estevinha Rodrigues
O C o n h e ci m e n to c o m o C re n ça V e rd a d e ir a G a ra n ti d a
FICHA TÉCNICA
TÍTULO: O Conhecimento como Crença Verdadeira Garantida AUTOR: Luís Estevinha Rodrigues
COLECÇÃO ONLINE: Academica 1
EDITOR: ©Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa e Autor, 2013.
Este livro ou partes dele não poderão ser reproduzidos sob qualquer forma, mesmo electrónica, sem explícita autorização do Editor e do Autor
CAPA: Carla Meneses Simões. Detalhe de “A Queda”, Michelangelo, Capela Sistina, 1535 ISBN: 978-989-8553-23-2
APOIO:
LUÍS ESTEVINHA RODRIGUES
O CONHECIMENTO COMO
CRENÇA VERDADEIRA GARANTIDA
Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa
2013
Índice
Tabela de figuras... 2
Prefácio ... 3
Citações ... 5
Introdução ... 6
PRIMEIRA PARTE ... 10
1. Notas Introdutórias Sobre a Definição Tradicional do Conhecimento ... 11
2. Teorias Inaugurais Pós-Gettier ... 32
3. Justificacionismo ... 50
Primeiro Interlúdio ... 80
4. Não-justificacionismo ... 103
5. Outras teorias ... 126
SEGUNDA PARTE ... 150
6. Rumo a um modelo da garantia epistémica ... 151
Segundo interlúdio ... 225
7. Um argumento ... 229 Bibliografia Primária ... a Bibliografia Secundária ... f Manuais de apoio ... f Webgrafia e imagens ... f Índice remissivo ... I
Tabela de figuras
Figura 1 ______________________________________________________________________________ 139 Figura 2 ______________________________________________________________________________ 141 Figura 3 ______________________________________________________________________________ 143 Figura 4 ______________________________________________________________________________ 143 Figura 5 ______________________________________________________________________________ 168 Figura 6 ______________________________________________________________________________ 170 Figura 7 ______________________________________________________________________________ 171 Figura 8 ______________________________________________________________________________ 213 Figura 9 ______________________________________________________________________________ 214 Figura 10 _____________________________________________________________________________ 215 Figura 11 _____________________________________________________________________________ 215 Figura 12 _____________________________________________________________________________ 216
Prefácio
É um lugar-comum dizer que um trabalho académico está em constante reformulação e parece sempre incompleto aos olhos de quem o produz. O presente caso não é diferente, bem pelo contrário. Volvidos dois anos da apresentação da tese exposta neste livro, e apôs cuidada releitura, fica-me a impressão de que ela contém várias imprecisões descritivas e argumentativas. Por outro lado, parece-me também agora evidente que várias críticas à sua estrutura podem ser lançadas com inteira justiça, em especial no que se refere à dispersão de tópicos abordados em torno do tema central: a natureza do conhecimento. Esta dispersão resultou dos desideratos de infalsicabilidade e exaustividade da tese defendida. A materialização destes desideratos era obviamente, vejo agora, um sonho impossível de realizar.
Não obstante, o trabalho concretiza, por um lado, uma investigação séria e genuinamente própria em torno de um problema filosófico relevante, exibindo, por outro lado, uma proposta de solução bem definida para esse problema. No que diz respeito a esta última, compete dizer que as intuições e ideias que estiveram na sua génese tiveram continuidade em três artigos publicados em revistas da especialidade com boa cotação.
Não sendo este facto suficiente para aferir em definitivo o mérito dessa proposta, ele é no entanto indiciador da sua plausibilidade.
Crucialmente, defendi na tese que o processo pelo qual é possível determinar as condições necessárias e suficientes para uma crença ser um estado epistémico maximamente positivo e, logo, ser conhecimento, deve ter lugar na (1) compreensão do que faz uma crença ser um estado de ignorância, e que só depois de concretizada essa determinação é possível (2) inverter as condições suficientes para a ignorância em condições necessárias—e suficientes—para haver conhecimento. A plausibilidade do sistema assenta, defendi eu, na intuição de que é mais fácil determinar o que faz com que uma crença não seja conhecimento do que determinar o que faz dela conhecimento. Nunca o tendo dito explicitamente na primeira versão do trabalho, vejo agora com clareza que a minha intuição era (e ainda é) a de que o conceito de ignorância é explicativamente mais primitivo que o conceito de conhecimento, simplesmente porque é mais fácil de estabelecer o que é ignorar algo do que estabelecer o que é conhecer algo. Era essa
primitividade explicativa da ignorância que permitiria, no meu entender, explicar melhor o fenómeno do conhecimento. Claro que a execução de (1) revelou-se muito mais fácil e plausível do que a execução de (2). O problema com (2) é que, embora as condições inversas das condições suficientes para a ignorância se apresentem, na generalidade, como condições necessárias para o conhecimento, não parece ser satisfatório supor que a efetivação do conjunto destas últimas seja suficiente para haver conhecimento. O problema não está pois (mais uma vez, como é hábito surgir na literatura) na demonstração da necessidade dessas condições, mas sim na demonstração da sua suficiência conjunta.
O trabalho agora editado em livro contém algumas alterações relativamente à versão de tese de doutoramento que lhe está na origem, a qual foi submetida em 2010 na Universidade de Lisboa, onde foi aprovada com distinção e louvor por um júri de filósofos nacionais e internacionais. Corrigiram-se algumas gralhas. O número de secções disponibilizadas no índice foi também agora reduzido em nome da parcimónia estrutural.
A disposição gráfica foi alterada de modo a facilitar a leitura. Todas estas alterações são contudo acessórias, não introduzindo qualquer mudança s ubstancial à estrutura geral da obra ou ao seu conteúdo teórico.
Agradeço à Prof.ª Dr.ª Adriana Silva Graça, minha dedicada orientadora, tudo o que fez por mim. Sem ela a confusão teria sido muito maior e o resultado final por certo muito mais pobre. Agradeço também ao júri a suas pertinentes interrogações e sugestões.
Agradeço igualmente à Fundação para a Ciência e Tecnologia e ao Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, que me apoiaram a vários níveis.
Desejo também agradecer aos meus pais, que tudo fizeram para que eu pudesse alcançar o meu sonho de estudar e fazer filosofia. Agradeço à Vera, minha mulher, que me deu o apoio e o alento necessários, estando incondicion almente ao meu lado em todos os momentos. Agradeço, por último, à Cloé. Por nascer, ela deu-me a motivação de que eu necessitava para percorrer a distância que ainda faltava para a meta.
Citações
áà o s i iaàhu a aàfoiàfeitaàpa aàpa tilha àideias.àQue àdize ,àaài te fa eàhu a aà do utilizador foi criada pela evolução, quer biológica q uer cultural, e surgiu em resposta a uma inovação comportamental: a actividade de comunicar crenças e planos e de trocar ideias. Isto transformou muitos cérebros em muitas mentes e a distribuição de autoria tornada possível por esta interconectividade é não somente a fonte da nossa enorme vantagem tecnológica sobre o resto da natureza como da nossa moralidade (Dennett 2003: 270)
H à uitoà ueàdoisàp o le asà ueàdize à espeito ao conhecimento humano me têm intrigado. O primeiro é o de explicar como é que podemos saber tanto a partir de uma evidência tão limitada. O segundo é o de explicar como podemos saber tão pou oàaàpa ti àdeàta taàe id ia (Chomsky 1986: 15)
áà sa edo iaà o sisteà u aà sóà oisa,à e à o he e ,à o à juízoà e dadeiro, como todasàasà oisasàs oàgo e adasàat a sàdeàtudo. à(Fr. 41, Diógenes Laércio ix, 1)
Introdução
A célebre falsificação por Edmund Gettier (1963) da chamada Definição Tradicional do Conhecimento (doravante abreviada para DTC) deu origem a um problema no seio da epistemologia contemporânea que teve repercussões por todo o espectro filosófico. Esse é o chamado Problema de Gettier, o qual é também por vezes referido como o Problema da Quarta Condição. Como veremos, a ideia de que o conhecimento não pode ser apenas crença verdadeira justificada adquiriu muitos adeptos desde essa altura. A consciência do problema deu origem a sucessivas tentativas de análise do conhecimento, análises que se propunham corrigir, refinar ou mesmo substituir a análise submetida pela DTC. Na sequência das sucessivas falsificações a que foram sujeitas essas novas análises, a ideia de não ser possível encontrar uma análise do conhecimento foi recrutando partidários um pouco por todo o lado. Da nossa perspectiva, o resultado desta abundância de análises e falsificações acabou por não ser o melhor, pois as dificuldades para se perceber quais são as condições necessárias e suficientes para alguém ter conhecimento, ao invés de serem mitigadas, agravaram-se substancialmente na sequência da discussão, continuando o problema aparentemente por solucionar.
O objectivo deste trabalho é apresentar uma resposta alternativa quer às usuais respostas analíticas ao Problema de Gettier quer às respostas que demitem liminarmente a possibilidade de uma análise. Por um lado, o nosso ob jectivo não passa certamente por submeter qualquer análise do conhecimento. Não desejamos também defender ou sequer melhorar qualquer uma das análises que foram sendo submetidas e falsificadas no período pós-Gettier. Por outro lado, também não desejamos abraçar as mais recentes e conceituadas teorias sobre a impossibilidade de se encontrar uma análise do conceito de conhecimento. Desejamos pois seguir por uma terceira via. O nosso objectivo passa por apresentar uma elucidação do fenómeno do conhecimento proposicional que não consiste numa análise, mas que não descura o que de melhor foi proposto por várias tentativas de análise. Crucialmente, preocupa-nos o processo de satisfação de condições por via do qual uma atitude de crença numa proposição verdadeira se torna excelente do ponto de vista epistémico. Pensamos e defendemos que a excelência epistémica de uma crença deriva do facto de estar epistemicamente garantida, no sentido em que a satisfação de um conjunto
de condições permite à crença ser apropriada e infalsificavelmente verdadeira, quer dizer, no sentido em que a faz ser um estado epistémico maximamente positivo. No final do trabalho propomos um argumento, provisional e não dogmático, para apoiar a ideia de que este estado de crença epistemicamente excelente e o estado de conhecimento são o mesmo estado.
Dividimos o trabalho em duas partes, cada uma contendo várias secções e subsecções. Cada uma das partes inclui também dois interlúdios, nos quais se discutem tópicos colaterais ao tópico principal mas que, como o leitor certamente concordará depois de os ler, não podem deixar de ser abordados.
Na primeira parte, secções 1.1. a 1.6., introduzimos a maquinaria elementar para a compreensão e subsequente tratamento do problema que nos ocupa. As secções 1.7. e 1.8. introduzem aspectos históricos, quanto a nós fund amentais, para haver uma boa compreensão do problema. As secções 1.9. e 1.10. introduzem o problema propriamente dito. As secções 1.11. e 1.12. remetem para a motivação para solucionar o problema e para algumas posturas teóricas adoptadas em função do mesmo. Nas secções 2.1. a 2.6.
inspeccionamos e discutimos algumas das primeiras e mais proeminentes tentativas encetadas para solucionar o problema, entre as quais se encontram, por exemplo, as tentativas de Brian Skyrms ou de Peter Unger. Já as secções incluídas na secção 3 são dedicadas a um conjunto de três correntes de pensamento que visam ou visaram aprimorar a noção de justificação (a qual está no âmago do problema por nós discutido).
Entre outras, serão visitadas as teorias da justificação de Alvin Goldman, Earl Conee &
Richard Feldman e Richard Foley. Nessa sequência, o Primeiro Interlúdio versa sobre os tópicos da estrutura e da origem da justificação epistémica. São revistas as posições clássicas e algumas das discussões cruciais no interior desse tópico. A secção 4 marca uma viragem de perspectiva e contém secções dedicadas a teorias do conhecimento que não recorrem à noção de justificação, algumas das quais usam conceitos modais para erigir análises do conhecimento, enquanto outras propõem definições do conhecimento tendo por base concepções naturalistas do mesmo e da sua origem. Nesta secção visitaremos, também entre outras, as perspectivas de Robert Nozick e de Ernest Sosa. Por último, a secção 5 é votada a inspeccionar teorias do conhecimento que, julgamos nós, pela sua
natureza peculiar, não se encaixam em nenhum dos grupos anteriormente estudados de teorias. Nesta linha, dedicamos a secção 5.2. a uma teoria que sugere uma definição do conhecimento que, também em nossa opinião, compila o que de melhor é oferecido pelas teorias modais e naturalistas inspeccionadas na secção 4. Trata-se da teoria híbrida de Duncan Pritchard. A secção 5.3., na qual nos deteremos um pouco mais do que nas outras, é dedicada a estudar uma recente e conceituada teoria, da autoria de Timothy Williamson, segundo a qual o conhecimento nem é decomponível nem é, por isso mesmo, susceptível de ser analisado.
A conclusão geral da primeira parte do trabalho é a de que nenhuma das teorias aí descritas oferece, só por si, uma solução completamente satisfatória para o problema em discussão. Mais especificamente, concluiremos também no final desta primeira parte que nenhuma das análises inspeccionadas é satisfatória, uma vez que, por terem contra- exemplos, são todas falsas (ou não são sequer análises).
Na segunda parte submetemos a nossa proposta de solução do problema.
Começamos, na secção 6.1., por formular elucidações do fenómeno de um estado epistémico positivo, as quais aceitaremos condicionalmente enquanto hipóteses de trabalho, até submetermos a nossa defesa da sua plausibilidade. Depois, na secção 6.2, introduzimos aquelas que nos parecem ser as principais intuições constantes na literatura a propósito das condições necessárias e suficientes para ocorrer um estado epistémico maximamente positivo. Fazemo-lo com o intuito de mostrar, no final da segunda parte, que a nossa solução acomoda bem todas essas intuições, o que quanto a nós contribui para mostrar a sua plausibilidade, bem como para dar a essa solução alguma vantagem teórica face às suas concorrentes. Posto isto, viramo-nos para a perspectiva de William Alston sobre quais são os principais desideratos epistémicos. Discutimo-los e convertemo-los em condições. Essa revisão vai ter lugar nas secções 6.3.1/2/3. Não convencidos pelo resultado final a que chegámos no decorrer dessa inspecção, em termos da suficiência das condições sugeridas por Alston, propomos na secção 6.4 uma mudança de metodologia, face ao que é habitual, no que respeita à identificação das condições necessárias e suficientes para ocorrer um estado epistémico maximamente positivo. Como primeiro passo de implementação dessa metodologia, tentamos na secção 6.5. identificar estados de crença
que sejam candidatos plausíveis ao estatuto de estado epistémico maximamente positivo.
Assumindo que encontrámos esses candidatos, tentamos a partir deles propor nas secções 6.6.1/2 critérios para a identificação das condições necessárias e suficientes para a ocorrência desses estados. As secções seguintes, 6.7. e 6.8., são reservadas para essa tarefa, e na secção 6.9. antecipamos algumas objecções ao método que usámos, respondendo-lhes. O segundo interlúdio remete-nos para a discussão de uma escolha que o nosso sistema parece forcar-nos a fazer, a escolha entre particularismo e metodismo.
Acabamos por fazer essa escolha (escolhendo o particularismo), tratando, depois disso, na última secção, a 7, de submeter um argumento a favor da ideia de que estados epistémicos maximamente positivos, tal como os elucidámos, são afinal estados de conhecimento.
Finalizamos com uma breve conclusão.
PRIMEIRA PARTE
1. Notas Introdutórias Sobre a Definição Tradicional do Conhecimento
1.1. Resumo
A segunda metade do século XX viu ressurgir o interesse por uma definição precisa do conhecimento. O objectivo desta secção é oferecer uma introdução ao tema. Começo por introduzir algumas noções básicas de análise, de definição, de conhecimento proposicional,àdeà e ça,àdeà e dadeàeàdeà te ei aà o diç o .àUso-as depois para aclarar o que está em jogo quando se fala de uma definição/análise tradicional do conhecimento.
Faço-o passando em revista aqueles que me parecem ser os acontecimentos filosóficos que mais diretamente contribuíram para a estruturação da definição/análise tradicional, dando depois especial relevo aos argumentos de Edmund Gettier que conduziram, segundo muitos, à falsificação da referida definição. Fin alizo a secção com uma tipologia resumida das respostas ao chamado Problema de Gettier, preparando dessa forma o terreno para efectuar uma digressão e uma discussão substancial de algumas dessas respostas.
1.2. Análises
Algumas definições são sustentadas por análises. Distin guem-se actualmente três tipos fundamentais de análise: a análise decomposicion al, a análise regressiva, e a análise transformativa (Beaney 2009). Avanço de seguida um breve esclarecimento sobre cada tipo.
Uma análise decomposicional visa a explicitação de um conceito por via da decomposição desse conceito em conceitos mais primitivos, mais claros e mais compreensíveis. Por exemplo, explicitar e definir o conceito de luz usando os conceitos de onda e de partícula é ensaiar uma análise decomposicional do conceito de luz. Supondo que os conceitos de onda e de partícula, o analisans, são mais primitivos e mais claros que o conceito de luz, o analisandum, e supondo também que a extensão conjunta dos conceitos que constituem o analisans é, necessariamente, a mesma que a do conceito que constitui o analisandum, quer dizer, tudo o cai sob o domínio do conceito a definir cai também sob o domínio dos conceitos que definem esse conceito, então uma análise decomposicional do conceito de luz em termos dos conceitos de partícula e de onda é o
mínimo exigível para que se possa avançar uma definição para o conceito de luz. Grosso modo, a definição teria portanto o seguinte formato:
Algo X é luz se, e somente se, é uma partícula, uma onda, ou ambas.
A bicondicional material na definição sinaliza uma equivalê ncia necessária das extensões dos conceitos que ocupam ambos os lados dessa bicondicional, o que se afigura como o mínimo para que a análise possa obter.1
Uma análise regressiva (ou redutiva) consiste em proceder-se retroactivamente até se encontrar os princípios, teoremas ou causas fundamentais daquilo que se deseja definir ou explicar. A demonstração, definição ou explicação são depois alcançadas por via de um processo de síntese que consiste em assumir-se esses princípios, teoremas ou causas fundamentais, e proceder-se progressivamente até se alcançar essa demonstração, definição ou explicação. Por exemplo, a explicitação clássica do conceito de Número Natural é tornada possível por uma análise regressiva da noção de número em termos de certos axiomas e princípios: os Axiomas de Peano e os Princípios de Igualdade e de Sucessor. A explicitação do conceito é depois obtida p or um processo de síntese construído a partir desses axiomas e princípios.
O terceiro tipo de análise é a chamada análise transformativa ou interpretativa, por vezes também chamada análise lógica, semântica ou linguística. Grosso modo, oferecer uma análise transformativa de um conceito, proposição, frase, etc., é transformá-lo nos seus componentes linguísticos, sintácticos, semânticos, lógicos, etc., e defini-lo à luz dos mesmos. Nesta acepção, analisar transformativamente aàp oposiç oà Todosàosàho e sà s oà o tais à ,àpo àexe plo,àtransformar esta proposição nos seus constituintes lógicos identificados pela Lógica de Predicados (de primeira ordem). À luz desta lógica, o resultado daàa liseàse àpo ta toàalgoàdoàg e oà Pa aàtodoàoàx, se x é homem então x à o tal à [em símbolos: x (Hx →àDx)].
1 A equivalência extensional é alegadamente apenas uma das condições necessárias para que uma análise decomposicional seja completamente bem-sucedida. Outras condições são que a bicondicional seja analítica e a priori.
(Devo em especial o esclarecimento deste importante ponto ao professor João Branquinho, o qual agradeço). Não me irei deter nesta discussão porque, ao contrário do que à primeira vista possa parecer, a implementação da tese central deste trabalho não depende da pressuposição de uma qualquer análise decomposicional do conceito de conhecimento.
A literatura trata por norma as análises dos conceitos de conhecimento, de justificação e de garantia como análises decomposicionais. Como se verá adiante, uma análise decomposicional do conhecimento falha se o seu analisans não satisfaz o seu analisandum, quer dizer, quando não existe no mínimo uma equivalência extensional necessária entre analisans e analisandum, ou o primeiro é viciosamente circular, por conter e usar o último.
Importa nesta fase avaliar uma notável objecção à possibilidade de análise do conceito de conhecimento (aplicando-se aparentemente o problema a qualquer análise de qualquer conceito). Trata-se do chamado Paradoxo da Análise, uma extensão natural do Paradoxo da Investigação identificado por Platão no Ménon (71b, 79c e 80d). Uma interpretação possível do paradoxo é a seguinte: se, por um lado, não se sabe de antemão e pré-investigação o que é o objecto da investigação, então a investigação torna-se impossível, porque não se sabe o que é o alvo da investigação e, portanto, não há forma de se descobrir se a investigação acerca dessa coisa é ou não bem-sucedida; se, por outro lado, se sabe de antemão e pré-investigação o que é o objecto da investigação, então esta torna-se redundante, uma vez que nesse caso o objectivo é alcançado antes mesmo de essa investigação ocorrer. Segue-se, aparentemente, que qualquer tentativa de investigação está condenada ao fracasso, uma vez que ou é impossível ou é desnecessária.
Algo de semelhante pode ser insinuado acerca de qualquer tentativa de análise: ou não pode ser bem-sucedida pelo simples facto de não se conseguir detectar quando é que é esse sucesso ocorre, ou é redundante, na medida em que o sujeito da análise já está encontrado antes de se efectuar a análise.
Uma proposta usual de solução para o problema passa por su gerir que quem enceta uma investigação ou uma análise dispõe à partida de suficiente informação para identificar correctamente o alvo da sua investigação ou análise, isto apesar de não ter à partida uma definição completa e acabada dessa coisa. Se isto estiver minimamente correcto, então é possível encetar uma investigação ou uma análise sobre o que quer que seja, desde que quem o faça disponha de alguma informação de base que permita direccionar essa investigação e enquadrar essa análise. Ora, se há coisa que os epistemólogos do século XX e XXI possuem em abundância é informação—teorias, definições, noções, argumentos,
etc.,—sobre a natureza do conhecimento. Seria implausível que dois mil e quinhentos anos de investigação filosófica incidente sobre estes tópicos não tivessem produzido resultados minimamente plausíveis. Pode-se portanto rejeitar com alguma segurança o Paradoxo da Análise (Sorensen 2009), uma vez que existe muito e bom material que permite, a quem o deseja, identificar satisfatoriamente um conceito pré-teórico de conhecimento, um conceito que se estabelece como objecto e alvo de investigação filosófica.
1.3. Definições
Sugeri acima que uma análise decomposicional do conceito x em termos dos conceitos w, z, y visa obter uma definição de x. Mas qual é o tipo de definição que se procura obter por via de uma análise decomposicional?
Lite atu aà e e teàespe ializadaà oàtópi oà defi iç o à efe eà iosàtiposàpossí eisà de definição, discutindo-os (Gupta 2009). Os mais comu ns são: definição real, definição nominal, definição ostensiva, definição descritiva, definição estipulativa, definição extensionalmente adequada, definição intensionalmente adequada, definição explicativa (informativa), definição circular e definição não-circular. Como em quase tudo em filosofia, as próprias definições destes tipos de definição são alvo de debate, mas podemos ensaiar definições mínimas para elas e usá-las condicionalmente. Assim, costuma supor-se que uma definição real de x visa apresentar a coisa x via o que é essencial a x (a água é H20), e que uma definição nominal de x visa captar a coisa x via as propriedades de x (a água é um líquido incolor). A distinção nem sempre é clara, muito menos pacífica. Uma definição de x é ostensiva quando o objecto x é apresentado por exibição directa de x. Uma definição de x é descritiva quando o objecto x é apresentado descritivamente. Uma definição de x é estipulativa sempre que a explicação do que x é resulte de uma estipulação. Uma definição é extensionalmente adequada sempre que a extensão dos conceitos do definiendum e do definiens for a mesma. Uma definição é intensionalmente adequada sempre que as expressões no definiendum e no definiens tenham o mesmo significado (a mesma intensão). Uma definição de x é explicativa desde que o definiens acrescente informação á informação disponibilizada pelo definiendum. Uma definição de x é não-circular desde que, sendo x o definiendum, x não faça parte do definiens. Como se verá, alguns filósofos defendem que há definições viciosamente circulares e definições virtuosamente circulares.
O critério, se há critério, nem sempre é de fácil apreensão, pelo que opto por uma avaliação caso a caso das propriedades de vício ou de virtude da circularidade de uma definição.
Os epistemólogos concordam geralmente que uma definição do conhecimento deve ser no mínimo extensionalmente adequada e informativa, não podendo ser viciosamente circular (Lehrer 1974: 7-9).
1.4. Conhecimento proposicional ou factual
Uma definição do conhecimento é obviamente sobre o conhecimento. Mas que tipo de conhecimento? A literatura do último século distingue por norma dois tipos gerais de conhecimento: o proposicional (knowing-that) e o não-proposicional ou de habilidade (knowing-how). A diferença normalmente apontada é, grosso modo, a seguinte. O conhecimento proposicional é o conhecimento de uma proposição ou de um facto, o conhecimento não-proposicional envolve uma habilidade o u uma competência, sendo geralmente apontado como um tipo de conhecimento que não envolve necessariamente uma crença numa proposição. A autoria da distinção é por no rma apontada a Gilbert Ryle (Stanley & Williamson 2004: 411-444). Depois de imputarem a autoria da distinção a Gilbert Ryle (Ibidem 412, nota 4) e a David Lewis (Ibidem 411, nota 2), Stanley e Williamson defendem que o todo o conhecimento não-proposicional é redutível a conhecimento proposicional—ou que todo o conhecimento é proposicional (Ibidem 417 e ss). A tese de Stanley e Williamson não tem qualquer impacto na presente tese. Se, por um lado, todo o conhecimento e proposicional, então a presente tese é sobre todo o conhecimento. Se, por outro lado, algum conhecimento é não-proposicional , então a presente tese, uma vez que é sobre o conhecimento que envolve uma proposição, deixa de fora essa parte do conhecimento que não envolve uma proposição.
Se o conhecimento proposicional implica que a proposição conhecida é verdadeira, supondo, como supõem por exemplo alguns defensores da teoria da verdade como correspondência, que uma proposição implica um facto no mundo que torna a proposição verdadeira, segue-se alegadamente que o conhecimento proposicional é não apenas o conhecimento de proposições verdadeiras mas também o conhecimento dos factos que tornam essas proposições verdadeiras. O conhecimento proposicional é por isso também por conotado com o conhecimento factual.
Existe também quem faça a distinção entre conhecimento de uma proposição e conhecimento de um objecto ou de uma coisa. A distinção parece ter origem em Bertrand Russell. Hintikka (1996: 251-275) faz uma defesa da distinção usando lógica epistémica.
Esta discussão não se inclui no âmbito deste trabalho, n em nos parece ser crucial para o seu bom desenvolvimento, e portanto não vai ser mais tida em consideração
A literatura refere vários subtipos de conhecimento proposicional. Conhecimento comum, conhecimento científico, conhecimento técnico, conhecimento a priori, conhecimento a posteriori, conhecimento por descrição, conhecimento perceptual, entre outros. Não é de todo fácil estabelecer uma tipologia exaustiva e maximamente explicativa de todos os subtipos de conhecimento proposicional. Por exemplo, há quem distinga
´ o he i e to/sa e à ue…`à Knowing-that) ou conhecimento descritivo, de
´conhecimento/saber por que` (Knowing-why), ou conhecimento explicativo (Kim 1994:51- 69). Igualmente difícil é perceber as fronteiras e as zonas de intersecção. Mas não nos devemos afligir em demasia com esta diversidade. Importa reter que sempre que se falar de conhecimento nesta primeira secção estar-se-á a falar de conhecimento proposicional, conhecimento de proposições verdadeiras, independentemente do tipo de conhecimento específico para que remete o tipo de proposição conhecida.
1.5. Crença
Todas ou quase todas as análises do conhecimento contempor âneas pressupõem que o conhecimento implica no mínimo a crença proposic ional. A seguinte implicação define uma condição necessária para o conhecimento:
i) Se S sabe que p, então S acredita que p.
Há contudo casos que parecem disputar a necessidade desta condição. Trata-se de casos em que, prima facie, a antecedente de i é verdadeira e a sua consequente falsa. O caso mais paradigmático de disputa da condição de crença na literatura é talvez o caso do aluno que acerta na resposta à questão do teste sem todavia acreditar nessa resposta.
Suponha-se que um aluno responde correctamente numa prova escrita de História de Portugal que D. Afonso Henriques foi o primeiro rei de Portugal. Aparentemente, o aluno não acredita que D. Afonso Henriques foi o primeiro rei de Portugal porque, também aparentemente, não se recorda do que estava escrito sobre o assunto no seu manual
escolar de História. Podemos supor que ele se recorda que D. Afonso Henriques foi um dos reis de Portugal, mas que não se recorda que ele foi o primeiro rei de Portugal. Ainda assim, continuamos a supor, ele decide arriscar e a sua resposta está correcta, uma vez que D.
Afonso Henriques foi de facto o primeiro rei de Portugal. Esta correcção da resposta pode levar-nos a considerar a hipótese de ele saber que D. Afonso Henriques foi de facto o primeiro rei de Portugal mesmo sem acreditar (i.e., sem ter uma crença) nessa proposição.
Contudo, por outro lado, não parece ser razoável atribuir conhecimento ao aluno que se encontra nesta situação, pois ele acertou na resposta por mero acaso e, como veremos adiante com algum detalhe, isso colide com a forte intuição de que não há conhecimento quando um agente acerta acidentalmente na verdade.
A ortodoxia é a de que não há conhecimento sem haver concomitantemente crença, sendo relativamente consensual que há crença sem haver conhecimento. Timothy Williamson (2000: 42), por exemplo, crê que não estarem disponíveis contra-exemplos para a tese da necessidade da crença.2 Para ele, à falta de evidência em sentido contrário, só há conhecimento se houver crença. Há no entanto quem não concorde com esta perspectiva (Radford 1970: 1-11). Correndo o risco de sermos obrigados a rever a nossa posição se confrontados no futuro com informação suplem entar, assumimos que Williamson et al estão correctos no que diz respeito à necessidade de haver crença para haver conhecimento.
No que respeita à definição de crença, utilizarei aquela que me parece mais comum no seio da discussão epistemológica contemporânea (que não necessariamente a mais comum noutras áreas da filosofia e das ciências, como por exemplo na filosofia da mente ou nas ciências da cognição). Opto portanto pela defini ção clássica segundo a qual crenças são essencialmente atitudes proposicionais. Quer dizer, é uma crença é uma disposição que um agente tem para aceitar uma proposição como sendo verdadeira. Nesta acepção minimalista e sobejamente restritiva, uma crença é simplesmente uma atitude de adesão a uma proposição (Russell 1918).3
2 Williamson remete o exemplo do aluno para outros filósofos. Não é contudo fácil perceber a origem exacta do caso.
3 O sentido de “crença” que usamos não se deve confundir com o sentido religioso, científico, político, ideológico, etc., de “crença”. Trata-se de um sentido que se deseja o mais possível neutro.
Esta definição bastante rude não toma nota da diferença entre crença numa proposição, por um lado, e aceitação de uma proposição, por outro. A distinção é sugerida por Cohen (1993: 4). O seu ponto é o de que uma crença pode ser descrita como uma disposição de um agente S relativamente a uma proposição p, embora essa disposição não implique que S aceite p no sentido de usar p como premissa ou como ponto de partida para uma acção. Este tipo de eventos exige, ainda segundo ele, mais do que uma crença em p; exige uma inequívoca aceitação de p. Alguém pode por exemplo não aceitar uma proposição e no entanto crer nessa proposição. S pode recusar-se a aceitar que o cão está doente porque não deseja perdê-lo; mas pode, apesar disso, acreditar que o cão está doente ao ter evidência nesse sentido (o seu veterinário disse que o cão está de facto doente). Esta distinção não é contudo essencial para os pr opósitos deste trabalho. Nele supomos que há por parte de S uma aceitação de que p sempre que S acredita que p.
1.6. Verdade
Todas as definições/análises antigas ou contemporâneas do conhecimento pressupõem que o conhecimento implica a verdade da proposição conhecida. Se essas definições estiverem correctas, a seguinte condicional tem de ser verdadeira
ii) Se S sabe que p, então p
Nesta acepção (há por certo muitas outras) rudimentar, a verdade não é algo relativo ao foro interno do agente. Consideramos que a propriedade que uma proposição tem de ser verdadeira não é algo que seja produzido pela mente de um agente. A verdade tem de ser aqui entendida como uma condição independente da mente, uma condição externa: o que é verdade é o que é o caso, não o que o agente pensa ser o caso ou o que a sua mente constrói como sendo o caso.
A definição de verdade que iremos adoptar é a seguinte: uma proposição é verdadeira, ou pelo menos contingentemente verdadeira, desde que corresponda a um
facto no mundo actual.4/5 Claro que esta definição não é muito informativa e levanta dificuldades. Por exemplo, que tipo de facto sustenta a verdade de uma proposição u i e salàafi ati aà o oà Todosàosàho e sàs oà o tais ?àHa e à es oàtalàfa toà oàdeà todos os homens serem mortais)? A questão não vai ser aqui respondida. A nossa definição rude de verdade cumpre um único objectivo: prevenir a possibilidade de haver conhecimento de proposições falsas. Com isto não quer emos dizer que não se possa saber que uma determinada proposição é falsa. Queremos somente dizer que uma proposição falsa não pode ser objecto de conhecimento.
1.7. A Terceira Condição Necessária
Alguns filósofos contemporâneos atribuem a Platão o mérito de ter inaugurado a investigação sobre a natureza das condições necessárias e suficientes para haver conhecimento (Cf. Chisholm 1966: 5-6, e Audi 2003: 220). Surgem com efeito no Ménon e no Teeteto bons indicadores que Platão tinha em mente indagar a natureza dessas condições.6 Por exemplo, no Ménon
“ó ates—Portanto, para uma pessoa que está no estado de ignorância, acerca de coisas que não sabe, existem, dentro dela, opiniões verdadeiras acerca daquilo que ignora?
Ménon—Pa e eà ueàsi (Platão, Ménon 85c)
Esta passagem parece supor que o conhecimento depende da satisfação de pelo menos duas condições (vide também Sofista 260 b-c). A primeira é a de que o agente (neste caso o jovem escravo) tenha uma opinião (doxa). A segunda é a de que essa opinião seja verdadeira. Esta concepção recebe apoio no final do diálogo, quando Platão acrescenta uma terceira condição necessária para haver conhecimento.
4 Muito embora a definição vá de encontro às nossas preferências no que concerne a uma teoria da verdade—teoria da verdade como correspondência—, não nos é contudo possível fazer uma defesa substancial da referida teoria neste trabalho. Devemos por isso estar preparados para rever as nossas preferências.
5 De acordo com a semântica dos mundos possíveis, uma proposição é contingentemente verdadeira se, e só se, há pelo menos um mundo possível no qual é falsa. Esta restrição é necessária para evitar que o conhecimento seja apenas conhecimento de verdades necessárias.
Sobre as diversas teorias da verdade disponíveis e respectivos problemas, ver Blackburn & Simmons, 1999: 1-28.
6 Para uma defesa mais elaborada da tese que Platão sustentou uma definição tripartida do conhecimento vide Fine 1979: 369.
“ó ates— … à Estou-me a referir às opiniões verdadeiras. Na verdade, estas, durante todo o tempo em que permanecem em nós, operam uma bela riqueza e tudo quanto é bom. Mas elas não aguentam ficar muito tempo e fogem da alma humana, de modo que são dignas de pouco valor, enquanto uma pessoa as não prender, por raciocínio expli ati o (Platão, Ménon 98a)
Trata-se pois de assentar a opinião verdadeira em algo mais. Algo que possa de algum modo garantir que a verdade não escapa ao agente. Algo que possa garantir ao agente que a sua opinião é de facto verdadeira. Segundo se depreende, o que permite essa garantia é a explicação racional.
Já no Teeteto, Platão contempla ainda mais explicitamente a hipótese de a opinião verdadeira ter de ser acompanhada de modo a obter o estatuto de conhecimento.
Teeteto—Sócrates, fiquei agora a pensar numa coisa que tinha esquecido e ouvi alguém dizer: que o saber é opinião verdadeira acompanhada de explicação e que a opinião
a e teàdeàexpli aç oàseàe o t aà à a ge àdoàsa e (Platão, Teeteto 201c-d) Ouàseja…
“ó ates— … à ua doàalgu à hegaà àopinião verdadeira sobre alguma coisa, sem explicação, a sua alma encontra-se na verdade a respeito disso, mas não a conhece. Com efeito, aquele que não for capaz de dar e receber uma explicação sobre algo ignora-o. Por sua vez, se chegou a uma explicação, não só isso lhe veio a ser possível, como além disso te à o pleta e teàoàsa e (Platão, Teeteto 202 c)
Este enunciado deixa claro que Platão via com bons olhos uma definição do conhecimento que contivesse no mínimo três condições separadamente necessárias e conjuntamente suficientes para haver conhecimento. São elas:
i) Que o agente tenha uma opinião;
ii) Que essa opinião seja verdadeira;
iii) Que o agente consiga explicar (sustentar, justificar) racionalmente essa opinião.
Mas Platão também estava ciente das dificuldades que se deparam a quem deseja propor uma definição do conhecimento simultaneamente informativa e livre de p o le as.à Depoisà deà lo gaà i estigaç o,à eà i satisfeitoà o à aà sua à p opostaà deà u aà
terceira condição, Sócrates reconhece que nenhuma das definições do conhecimento inspeccionadas por ele e por Teeteto é inteiramente satisfatória. Conclui então, com uma boa dose de cepticismo envolvida nessa conclusão, que nenhuma das hipóteses investigadas até esse momento da investigação consegue dar conta da natureza do conhecimento. Eis a passagem relevante:
“ó ates—Por conseguinte, Teeteto, o saber não será sensação, nem opinião verdadeira,à e àexpli aç oàa o pa hadaàdeàopi i oà e dadei a (Platão, Teeteto 210 a- b)
O cepticismo é compreensível dada a dificuldade do problema. E apesar do aparente auto-reconhecido falhanço de Platão em fornecer uma definição plausível e convincente, é presumivelmente desde a altura em que ele encetou a tentativa que a interpretação canónica acerca da natureza do conhecimento passa por uma definição decomponível em elementos mais primitivos.
Não tendo sido completamente esquecida ou abandonada, a ideia de que o conhecimento implica opinião ou crença verdadeira reavivou-se apenas no final do século XIX e no começo do século XX.7 Bertrand Russell (1912) foi certamente dos primeiros a recuperá-la no século XX. Russell alega explicitamente que a conjunção de crença e verdade pode não ser suficiente para haver conhecimento. Segundo diz, casos há em que alguém acredita na verdade acidentalmente ou com base em falsidades, o que impede que esses casos possam ser realmente creditados como casos de conhecimento. Crucialmente, Russell questiona-se sobre o que faz a diferença entre mera crença verdadeira e conhecimento. Embora não ofereça uma análise do conceito de conhecimento em sentido estrito, Russell parece inclinar-se para a ideia de que este é um género de opinião ou crença com elevada probabilidade de ser verdadeira. Esta ideia leva-o contudo a concluir, algo cepticamente, que não devemos colocar grandes esperanças em adquirir uma definição precisa do conhecimento, uma vez que tal definição implicaria que a vagueza associada à
7 Embora seja um facto raramente mencionado, a concepção de que o conhecimento é crença subjectivamente e objectivamente verdadeira encontra-se na principal obra de Kant (1997: B 850 e B 851).
noção de probabilidade pudesse ser evitada, algo que Russell pensa ser bastante difícil de alcançar.8
Só no entanto na segunda metade do século XX floresce realmente o interesse por uma definição do conhecimento apoiada por uma análise dec omposicional do conceito de conhecimento. Subsistem poucas dúvidas sobre o facto de a discussão contemporânea à volta da definição/análise do conhecimento se ter iniciado com o célebre artigo de Edmund Gettier (1963: 121-123), artigo no qual a chamada Definição Tradicional do C onhecimento é, conforme consensualmente reconhecido, falsificada. Curiosamente, e a confiar em Alvin Plantinga (1993a: 7),àasàexp essõesà Defi iç oàT adi io alàdoàCo he i e to àeà á liseà T ipa tidaà doà Co he i e to à sóà pa e e à te à sidoà u hadasàapós o artigo de Gettier.9 Existem contudo análises tripartidas e quadripartidas do conhecimento anteriores a esse artigo, sendo as mais salientes provavelmente as que são mencionadas no próprio artigo, as de Carl Lewis (1946: 9), Alfred Ayer (1956), Roderick Chisholm (1957: 16).
Tal como Platão e Russell, Lewis preocupa-se em diferenciar o conhecimento da mera crença verdadeira. Da sua perspectiva, o conhecimento não só tem de ser crença verdadeira como tem também de ser crença verdadeira justificada.
Tal como Platão, Russell e Lewis, Ayer também está preocupado em diferenciar o conhecimento de mera crença verdadeira. Grosso modo, Ayer defende que o que estabelece a diferença entre um agente ter uma crença verdadeira que não é conhecimento e ter uma crença verdadeira que é conhecimento é o facto de esse agente ter o direito a ter a certeza que aquilo em que acredita é verdade.
A preocupação de Chisholm é similar em muitos aspectos à de Lewis e Ayer. Para Chisholm, o que faz com que uma crença verdadeira seja conhecimento é o facto de o agente da crença ter evidência suficiente para a verdade daquilo que é alvo da sua atitude de crença.10
1.8. A Definição Tradicional Tripartida do Conhecimento
8 Russell rejeita neste lugar que a probabilidade de a verdade de uma opinião possa ser dada pela coerência dessa opinião com as crenças pertencentes a um sistema coerente de crenças, uma vez que há sistemas coerentes de crenças falsas.
9 A expressão “Definição Tradicional do Conhecimento” surge explicitamente em Skyrms 1967: 373.
10 A definição é posteriormente refinada em Chisholm 1966: 5 ss.
Foram acima descritas cinco propostas de definição/análise do conhecimento, são elas:
Platão: Conhecimento é i) opinião, ii) verdadeira, iii) acompanhada de explicação racional;
Russell: Conhecimento é i) crença, ii) muito provavelmente verdadeira;
Lewis: conhecimento é i) crença, ii) verdadeira, iii) justificada;
Ayer: Conhecimento é i) crença, ii) verdadeira, iii) acompanhada de certeza, porque iv) o agente da crença tem legitimidade epistémica suficiente para ter a certeza;
Chisholm: conhecimento é i) crença, ii) verdadeira, iii) evidencialmente sustentada.11 Gettier supõe, no seu artigo, que as definições de Ayer e Chisholm são equivalentes à definição de Lewis. A definição discutida e posteriormente rejeitada por Gettier, correntemente chamada Definição Tradicional do Conhecimento (DTC), é portanto a seguinte:
DTC: conhecimento é i) crença, ii) verdadeira, iii) justificada.
Quer dizer,
i) S acredita que p;
ii) p;
iii) A crença de S que p está justificada.
A DTC assenta numa análise decomposicional do conceito de conhecimento, uma vez que o conceito analisado, o conceito de conhecimento, é decomposto em conceitos aparentemente mais primitivos, mais claros e mais explicativos que esse conceito. Trata- se de uma análise tripartida do conhecimento uma vez que a análise estabelece três condições separadamente necessárias e conjuntamente suficientes para que haja conhecimento.12 A DTC congrega portanto três teses sobre a necessidade de cada condição
11 Adoptamos aqui a formulação que surge em Chisholm (1977: 102).
12 Existem diversas análises tripartidas ou quadripartidas do conhecimento, ou seja, análises que propõem três ou quatro condições necessárias e suficientes, mas existe apenas uma definição/análise tradicional do conhecimento.
com uma tese sobre a suficiência conjunta das três condições. Cada uma destas quatro teses pode ser, e geralmente é, alvo de discussão.13
1.9. Contra-exemplos originais à DTC
A DTC falha se pelo menos uma das quatro teses supracitadas falhar. Podemos por exemplo supor, tal como fizemos acima de forma condicional, que a tese da necessidade da crença para haver conhecimento é falsa. Se fosse este o caso, então a DTC seria falsa.
Já para falsificar a tese da necessidade da crença seria necessário apresentar um caso em que o agente tivesse conhecimento que p sem ter concomitantemente a crença que p. Para falsificar a tese necessidade da verdade que p, teríamos de divisar um caso em que o agente tivesse conhecimento que p sem ser verdade que p (talvez a mais rejeitada das hipóteses de falsificação). E para falsificar a tese da necessidade da justificação da crença, teríamos se apresentar um caso no qual o agente soubesse que p mas em que a crença do agente que p não estivesse justificada.
Gettier não rejeita nenhuma das teses da necessidade. O que rejeita no seu artigo é apenas a tese da suficiência conjunta das três condições. O seu ponto é simplesmente que a tese da suficiência tem contra-exemplos e que, por conseguinte, a DTC não pode estar em ordem. Segundo esta perspectiva, há casos em que um agente S tem uma crença verdadeira justificada que p e ainda assim não tem conhecimento que p. Os contra- exemplos originais sugeridos por Gettier no seu artigo introduzem dois casos em que, plausivelmente, isto acontece. Revisito de seguida o segundo contra-exemplo para ilustrar o ponto.
Suponha-se que Smith possui no momento t evidência para acreditar justificadamente que
(a) Jones tem um Ford.
Suponha-se também que Smith não tem qualquer forma em t de saber onde possa estar o seu amigo Brown. Apesar disso, Smith infere a partir de (a) as seguintes proposições
b) Jones tem um Ford ou Brown está em Boston;
c) Jones tem um Ford ou Brown está em Barcelona;
13 Sobre as três teorias da necessidade vide Audi (2003: 220 ss). Sobre eventuais problemas que podem assolar as três teses da necessidade vide, por exemplo, Steup (2008).
d) Jones tem um Ford ou Brown está em Brest-Litovsk.
Por um acaso fortuito, mas sem que Smith possua qualquer evidência nesse sentido, Brown está de facto em Barcelona nesse momento, e, portanto, c é verdadeira.14 E Smith possui evidência para acreditar justificadamente que c é verdadeira, uma vez que possui evidência para acreditar justificadamente que a é verdadeira. Sendo assim, Smith acredita justificadamente que c é verdadeira e c é de facto verdadeira. Contudo, diz Gettier, nestas circunstâncias não pode ser atribuído a Smith conhecimento de c. Não pode, pois a crença de crença Smith acerta de forma acidental na verdade de c. Este é então, alegadamente, um caso em que um agente tem uma crença verdadeira justificada que não é conhecimento.
Embora possam existir variações, os contra-exemplos de Gettier e outros similares que designaremos tipo-Gettier partilham uma mesma estrutura:
1) S tem uma crença, C, que p;
2) A evidência que S tem para C não é suficiente para estabelecer a verdade de p, uma vez que p é falsa, mas essa evidência é suficiente para justificar C;
3) S infere q a partir de p e forma a crença justificada, C*, que q nessa base inferencial;
4) C* é verdadeira, uma vez que q é verdadeira;
5) S tem uma crença verdadeira e justificada, C*, que q;
6) C* não é conhecimento, uma vez que S acredita acidentalmente na verdade de q;
não é a justificação de C* que estabelece a ligação entre essa crença e a verdade de q, e portanto não basta S ter uma crença verdadeira e justificada para ter conhecimento.
Agora, o ponto 2 depende da aceitação de que há crenças justificadas falsas. Ter evidência para r pode ser suficiente para justificar a crença que r, mas pode não ser suficiente para estabelecer a verdade de r. Por outro lado, o ponto 3 depende do princípio, nem sempre pacífico (ao qual voltaremos na secção 4.2.2), segundo o qual a justificação se transmite através de implicação lógica (Gettier 1963: 121). O ponto 4 assenta na ideia que se podem formar crenças verdadeiras a partir de crenças falsas. Estes podem constituir-se
14 (c) é uma disjunção. A lógica proposicional elementar diz-nos que uma disjunção só é falsa no caso de ambos os disjuntos serem falsos.
como problemas para os contra-exemplos avançados por Gettier, mas outros contra- exemplos do mesmo tipo conseguem evitar as críticas e as objecções movidas aos contra- exemplos originais.
1.10. Outros contra-exemplos à DTC
Sem prejuízo da sua eficácia na falsificação da DTC, os contra-exemplos apresentados por Gettier não são talvez os mais intuitivos. Sofrem também, além disso, de alguns problemas estruturais. O debate sobre a sua eficácia, a forma de os contornar, e sobre novas propostas de definição do conhecimento trouxe outros contra-exemplos que, para além de mais acessíveis e mais intuitivos, parecem evitar algumas objecções inicialmente a levantadas aos originais. Como dissemos acima, alguns desses contra- exemplos não dependem, por exemplo, do facto de haver crenças justificadas falsas a partir das quais se infere crenças verdadeiras ou do próprio princípio do fecho (para a justificação).
Seguem-se agora mais quatro contra-exemplos à DTC. O objectivo da exposição é diversificar a amostra de contra-exemplos disponíveis à referida definição e preparar o terreno para introduzir mais a fundo o debate do chamado Problema de Gettier, por vezes designado por Problema da Quarta Condição, uma vez que parece haver uma quarta condição necessária para haver conhecimento.
Keith Lehrer (1974: 18-19) sugere uma variante mais intuitiva do segundo contra- exemplo de Gettier. Esta variante, a que vamos chamar Nogot (na linha do que surge na literatura), tem o mérito de simplificar o segundo caso de Gettier, evitando em especial a introdução de uma disjunção arbitrária.
Suponha-se que Smith possui evidência para acreditar justificadamente que um seu aluno tem um Ferrari. A crença de Smith está justificada porque Smith costuma ver Nogot, um seu aluno, a conduzir um Ferrari, além de Nogot ter dito a Smith que tinha um Ferrari, etc. Contudo, não é de todo verdade que Nogot seja proprietário de um Ferrari, isto apesar de toda a evidência aduzida nesse sentido. Porém, um outro aluno de Smith, Havit, é de facto proprietário de um Ferrari, embora Smith não possua qualquer evidência nesse sentido. Temos então que a crença de Smith que um seu aluno tem um Ferrari é verdadeira, porque Havit tem realmente um Ferrari, e está justificada, porque Smith tem
evidência suficiente para acreditar justificadamente que um seu aluno (que Smith julga ser Nogot) tem um Ferrari. As três condições estabelecidas pela DTC são portanto satisfeitas, mas não pode ser creditado conhecimento a Smith acerca de um seu aluno ter um Ferrari.
Tal como acontece no segundo contra-exemplo de Gettier, existe um desfasamento óbvio entre a evidência que justifica a crença de Smith e o facto que torna essa crença verdadeira.
Dito de outro modo, Smith tem evidência para acreditar justificadamente na proposição u à euàalu oàte àu àFe a i àpo ueàte àe id iaàpa aàa edita àjustifi ada e teà aà proposiç oà Nogotàte àu àFe a i à p oposiç oàfalsa ,à oàpo ueàte haàe id iaàpa aà a edita àjustifi ada e teà aàp oposiç oà Ha itàte àu àFe a i à p oposiç oà e dadei a).
Sendo assim, aceita-se que Smith tenha uma crença justifi adaà aàp oposiç oà te hoàu à alu oà ueàte àu àFe a i ,à asà oàseà editaà o he i e toàaà“ ith,àpoisà o p ee de- se que a justificação que Smith tem para a sua crença nessa proposição não é a correcta.
Tendo como objectivo de mostrar que o conhecimento não pode ser meramente crença verdadeira, Bertrand Russell imagina a seguinte situação, a que vamos chamar Broken-clock (1948: 170).15 Suponha-se que S olha para um relógio que marca 12h00 no exacto momento em que são 12h00. O relógio está contudo avariado. Sem que S possa sabê-lo, o relógio avariou no dia anterior e parou exactamente às 12h00. Vinte e quatro horas depois, o relógio marca 12h00 no momento exacto em que S olha para ele. Não possuindo qualquer razão para pensar que o relógio está avariado e parado, S forma a crença de que são 12h00 com base na indicação dada pelos ponteiros do relógio. Como são realmente 12h00, a crença é verdadeira. E uma vez que o relógio marca 12h00 e S não sabe que o relógio está avariado, a crença de S de que são 12h00 está justificada. Sendo assim, a crença de S é verdadeira e está justificada. Uma vez mais, porém, não pode ser creditado a S—nesse momento e nessas circunstâncias—conhecimento acerca da hora correcta. Algo mais seria necessário para que S tivesse esse conhecimento. Seria necessário, em particular, que a justificação que S possui para a sua crença verdadeira fosse suficiente para estabelecer a ligação entre essa crença e o facto de serem 12h00, o que não acontece, uma vez que não é a justificação mas sim o acaso que estabelece essa ligação. Essa ligação entre crença e verdade é também neste caso meramente acidental.
15 O caso que agora apresento tem algumas diferenças em relação ao original.
Tal como descrito, o caso dispensa o princípio do fec ho para a justificação, uma vez que S não faz qualquer inferência, limitando-se a cons tatar as horas ao olhar para os ponteiros do relógio.
Roderick Chisholm (1977: 105) propõe um caso, a que vamos chamar Sheep, que transporta os contra-exemplos para a província da percepção.
Suponha-se que S acredita que está uma ovelha na encosta porque ao olhar para a dita encosta vê um animal que lhe parece ser uma ovelha. Mas esse animal é afinal um cão;
digamos, um cão tão semelhante a uma ovelha que levou S a confundi-lo por uma, sem no entanto se dar conta da sua confusão. Contudo, por mero acaso, há realmente uma ovelha na encosta, embora S não a consiga ver, uma vez que, por estar atrás de uma rocha, se encontra fora do campo visual de S. Assim, S tem uma crença verdadeira e justificada de que está uma ovelha na encosta. A crença é verdadeira porque está de facto uma ovelha na encosta, e está justificada porque a evidência (perceptual) que S possui justifica a sua crença. Apesar disso, diz Chisholm, não é possível creditar a S conhecimento de que está uma ovelha na encosta. Não é possível pois, uma vez mais, a justificação de S não estabelece a ligação apropriada entre a crença na proposição e o facto descrito por essa proposição. S tem realmente evidência para justificar a sua crença, pois vê um animal muito similar a uma ovelha, mas essa evidência não é a evidência necessária e suficiente para que S possa saber que está uma ovelha na encosta. Essa evidência teria de ser, no mínimo, a experiência visual da ovelha que está na encosta.
Alvin Goldman (1976: 773) discute um célebre contra-exemplo, que designaremos por Barney, à DTC e à teoria habitualmente designada por fiabilismo (a qual voltaremos na secção 3.5.1) Este é por norma visto como um contra-exemplo muito especial, ao introduzir circunstâncias de acidentalidade incomuns, mesmo tendo como medida os elevados padrões de acidentalidade apresentados pelos habituais contra-exemplos tipo-Gettier.
Suponha-se que, ao passear pelo campo, S se depara com um número considerável de imitações de celeiros. Estas imitações são da perspectiva visual de S indistinguíveis de celeiros reais. Encaixado no meio das imitações de celeiros está no entanto um celeiro. Ao olhar para esse celeiro, S forma naturalmente crença de que está a ver um celeiro (ou de que o edifício que vê é um celeiro, ou que está ali um celeiro). S tem portanto uma crença
verdadeira (é verdade que o edifício é um celeiro) e justificada (por S ter evidência visual nesse sentido). É todavia difícil creditar conhecimento a S de que está ali um celeiro. Esta é a intuição que guia muitos epistemólogos quando se recusam a atribuir esse conhecimento a S nestas circunstâncias muito particulares.
Ao contrário dos casos anteriores, o problema aqui não parece residir num desfasamento entre a evidência disponível para S e a verdade da proposição de que é alvo a crença de S. Com efeito, parece que S dispõe de toda a evidência de que necessita para sustentar a sua crença, quer em quantidade quer em qualidade. Todavia a sua crença poderia facilmente ter sido falsa. Para tal bastaria que S tivesse olhado para uma das muitas imitações de celeiro disponíveis no seu campo visual ao invés de olhar para o celeiro. Esta fragilidade introduzida por circunstâncias muito especiais de acidentalidade faz com que a crença de S não possa ser reconhecida como conhecimento.
1.11. Porquê tentar uma solução para os contra-exemplos de Gettier?
Esta primeira amostra de contra-exemplos apenas levanta ligeiramente o véu sobre a real dimensão do problema.16 Como veremos nas secções seguintes, algumas reações ao Problema de Gettier deram origem a novos e sofisticados contra-exemplos, a que se seguiram novas tentativas de reparar a DTC, novas soluções e novos contra-exemplos.
Parece-nos que esta espiral nunca foi realmente parada, constituindo-se com um nó górdio da epistemologia contemporânea.
Face à proliferação de soluções propostas para o Problema de Gettier e quando confrontados com a espiral, alguns filósofos argumentaram contra o projecto de solucionar o referido problema. No essencial, e na nossa interpretação, o ponto destes filósofos é o de que não faz sentido procurar uma definição apropriada p ara o conhecimento desde que esteja disponível uma definição apropriada para a justificação, uma definição que seja suficientemente explicativa ao ponto de dar conta de um vasto número de sucessos cognitivos.
No lado oposto da barricada, outros filósofos apresentaram argumentos contra esses argumentos e a favor da necessidade de solucionar o Problema de Gettier e de encontrar uma definição apropriada do conhecimento. Earl Conee é um destes filósofos.
16 Uma referência explícita ao Problema da Quarta Condição pode ser encontrada em Pollock (1986: 9).
Contra as perspectivas de Michael Williams e David Kaplan, em especial contra a de Kaplan, segundo as quais uma resolução do Problema de Gettier ou é um projecto espúrio, uma vez que é uma vã tentativa de responder ao cepticismo epistemológico (Williams), ou é inútil, uma vez que nem dá, nem pode vir a dar, conta daquelas que devem ser as finalidades da investigação racional e correcta (Kaplan), Conee escreve o seguinte:
áà atu ezaà daà o e taà i estigaç oà depe deà daà fi alidadeà daà i estigaç o.à áà finalidade da pura investigação racional não é ter uma crença verdadeira justificada. É ter conhecimento. Assim, quem meramente faz o que é necessário para ter uma crença justificada pode não ter o que realmenteàp o u a (Conee 1988: 55)
Segundo julgamos ter percebido da passagem, importa resolver o Problema de Gettier porque o principal desideratum epistémico e epistemológico é o conhecimento, não a crença verdadeira justificada. Se o mais importante do ponto de vista compreensão dos fenómenos epistémicos fosse elucidar a natureza da justificação (epistémica), então empenharmo-nos numa cruzada pela correcta definição do conhecimento iria afigurar-se como uma iniciativa desprovida de sentido, uma vez que compreender o que é a justificação epistémica (ou a crença verdadeira justificada) seria suficiente para satisfazer a nossa curiosidade sobre o principal desideratum epistemológico. Assumindo que a compreensão do que é a justificação epistémica não é suficiente para a compreensão dos mais importantes fins da cognição, uma vez que o fim último e mais importante da cognição é o próprio conhecimento, impõe-se continuar a investigação sobre a natureza deste último.
Esta valoração do conhecimento face à justificação não é contudo pacífica. Por exemplo, Pollock diz o seguinte:
A teoria do conhecimento é uma tentativa de responder à questão ´como sabes ue…?`,à asà estaà à u aà uest oà so eà como sabemos algo, e não sobre o conhecimento per se. Ao perguntarmos como é uma pessoa sabe algo estamos habitualmente a perguntar o que sustenta a sua crença. Queremos saber o que justifica essa pessoa a ter essa crença. Assim, tradicionalmente a epistemologia debruçou-se mais sobre a justificação epistémica do que sobre o conhecimento. A epistemologia deveria ser chamada ´Doxalogia`(Pollock 1986: 7)
Tanto Conee como Pollock parecem ter boas razões a apoiar as suas preferências.
Não cremos todavia que essas razões produzam uma vantagem assinalável para qualquer