Conselho Nacional de Justiça
Autos: ACOMPANHAMENTO DE CUMPRIMENTO DE DECISÃO - 0005083- 02.2015.2.00.0000
Requerente: CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA – CNJ
Requerido: TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE GOIÁS - TJGO
DECISÃO
O presente feito foi autuado como Acompanhamento de Cumprimento das decisões proferidas pelo Plenário deste Conselho nos autos do PCA nº 0003846-40.2009.2.00.00000 e do Pedido de Providências nº 0005650-43.2009.00.0000.
O PCA nº 0003846-40.2009.2.00.0000 foi julgado procedente em 26/01/2010, para: 1) dispensar o Requerente do pagamento de qualquer taxa para a obtenção da certidão de antecedentes criminais; 2) atribuindo caráter geral e normativo à presente decisão, determinar a gratuidade da expedição de certidão de antecedentes criminais, comunicando-se a decisão a todos os Tribunais de Justiça (ID.21873).
(...)
Já no Pedido de Providências nº 0005650-43.2009.00.0000, o Plenário deste Conselho, no dia 10/2/2010, ampliou o caráter geral e normativo conferido à decisão proferida no PCA nº 0003846- 40.2009.2.00.0000, e determinou fosse garantida a gratuidade da expedição de certidões de antecedentes criminais e cíveis.
Transcrevo a certidão de julgamento (os grifos foram acrescidos):
O Conselho, por unanimidade, julgou procedente o pedido, nos termos do voto do Relator, no sentido de ampliando o caráter geral e normativo conferido à decisão proferida no PCA 3846-40/2009 (julgado em 26/01/10), determinar a gratuidade da expedição de certidão de antecedentes criminais e cíveis, comunicando-se a decisão a todos os Tribunais de
Justiça. (ID.186448)
(...)
Neste contexto, verifiquei que os Tribunais de Justiça dos Estados de São Paulo, Pernambuco, Rondônia e Ceará ou prosseguem cobrando as taxas para a expedição das certidões de antecedentes cíveis, ou ainda não esclareceram de forma suficiente a respeito da gratuidade no fornecimento de tais documentos.
(...)
Instado a informar se a cobrança autorizada pela Lei nº 11.404/1996 para emissão de certidões cíveis abrange aquelas utilizadas para defesa de direitos ou esclarecimentos de situações de interesse pessoal, conforme dispõe o artigo 5º, XXXV, b, da Constituição da República, em especial, no tocante à certidão de antecedentes cíveis, o TJ/PE afirmou que cobra o valor de R$ 6,07 (seis reais e sete centavos) para emissão de certidões cíveis, haja vista disposição expressa na referida lei, que consolida as normas relativas às taxas, custas e aos emolumentos no âmbito do Poder Judiciário (ID.1896750).
É o relatório.
Decido.
A questão pendente nestes autos cinge-se ao cumprimento da decisão proferida por este Conselho nos autos do Pedido de Providência nº 0005650-43.2009.00.0000, que assegurou a todos a gratuidade das certidões de “nada consta” cíveis.
Após verificar que os Tribunais de Justiça dos Estados de São Paulo, Pernambuco, Rondônia e Ceará prosseguem cobrando as taxas para a expedição das certidões de antecedentes cíveis, ou ainda não haviam esclarecido de forma suficiente a respeito da gratuidade no fornecimento de tais documentos, determinei que fossem intimados para prestarem informações complementares.
Preliminarmente, entendo ser relevante aclarar os limites da decisão proferida nos autos do Pedido de Providência nº
0005650-43.2009.00.0000, cujo voto vencedor encontra-se assim fundamentado:
(...) Este Conselho já decidiu, em outras duas
oportunidades, no sentido da
inconstitucionalidade da cobrança de taxa para expedição de certidão de antecedentes criminais, dada a garantia do art. 5º, XXXIV, “b”, da CF,
“verbis”:
"CERTIDÃO. ANTECEDENTES CRIMINAIS. COBRANÇA DE TAXA. INCONSTITUCIONALIDADE. CONSULTA PROCESSUAL EM PÁGINA ELETRÔNICA DE TRIBUNAL. NOME DA PARTE. PRINCÍPIO DA PUBLICIDADE.
1. A cobrança de taxa judiciária por Tribunal para expedição de certidão de antecedentes criminais, ainda que excluídos os beneficiários de justiça gratuita, ofende o art. 5º, inciso XXXIV, “b”, da Constituição Federal. A norma constitucional concede isenção, indistintamente a todos, para obtenção de certidão que vise à defesa de direitos ou esclarecimento de situação de interesse pessoal.
2. Não compromete o princípio da publicidade a circunstância de o Tribunal não permitir consulta processual em sua página eletrônica pelo nome da parte, se tal consulta está disponibilizada por outros meios, como o número do processo, o número do militar ou o número de inscrição na OAB de advogado constituído pela parte.
3. Pedidos formulados em Procedimento de Controle Administrativo que se julgam parcialmente procedentes para determinar ao Tribunal de Justiça Militar do Estado de Minas Gerais que se abstenha de cobrar taxa judiciária para emissão de certidão quando requerida para defesa de direitos ou esclarecimento de situação de interesse pessoal do respectivo requerente" (CNJ - PCA 8379/2009, Rel. Cons. Min. João Oreste Dalazen, in DJ de 17/06/2009 – grifo nosso).
"CERTIDÃO DE ANTECEDENTES CRIMINAIS – GRATUIDADE ASSEGURADA PELO ART. 5º, XXXIV,
“B”, DA CF – PRECEDENTE DESTE CONSELHO.
Como a Constituição Federal, em seu art.
5º, XXXIV, “b”, assegura a obtenção de
certidões, em repartições públicas, para defesa de direitos ou esclarecimento de situações de interesse pessoal, independentemente do pagamento de taxas, é inconstitucional a exigência que 13 dos 27 Tribunais de Justiça da Federação fazem do pagamento de taxa para a confecção da certidão de antecedentes criminais, conforme precedente deste mesmo Conselho.
Pedido de Controle Administrativo julgado procedente, para assegurar a todos a gratuidade da certidão" (CNJ - PCA 3846- 40/2009, Rel. Cons. Min. Ives Gandra, julgado em 26/01/2010).
Percebe-se que o texto constitucional, na dicção do art. 5º, XXXIV, "b", segundo o qual "são assegurados a todos, independentemente do pagamento de taxas, a obtenção de certidões em repartições públicas, para defesa de direitos e esclarecimento de situações de interesse pessoal" (grifo nosso), encampa a gratuidade das certidões cíveis de "nada consta", pelo que também a estas é aplicável a gratuidade.
Nesses termos, dispensando maiores debates, dados os precedentes referidos, julgo PROCEDENTE o presente Pedido de Providências, para, ampliando o caráter geral e normativo conferido à decisão proferida no PCA 3846-40/2009 (julgado em 26/01/10), determinar a gratuidade da expedição de certidão de antecedentes criminais e cíveis, comunicando-se a decisão a todos os Tribunais de Justiça. (grifos no original). (ID. 1818004 - Pág. 2)
Diante da fundamentação declinada pelo Relator, verifica-se que este Conselho, ao decidir a questão nos autos do PP nº 5650-43.2009.2.00.0000, restringiu-se a afirmar que as certidões cíveis (“nada consta”) enquadram-se no conceito firmado pela Constituição da República de certidões em repartições públicas, para defesa de direitos e esclarecimento de situações de interesse pessoal, previsto no artigo 5º, XXXIV, “b”, da Constituição da República, às quais se garante isenção de custas, no momento da respectiva expedição.
A ementa do referido julgado é clara nesse sentido, conforme transcrição abaixo:
CERTIDÃO DE ANTECEDENTES CRIMINAIS E CÍVEIS – GRATUIDADE ASSEGURADA PELO ART. 5º, XXXIV, “B”, DA CF – PRECEDENTES DESTE CONSELHO. Como a Constituição Federal, em seu art. 5º, XXXIV, “b”, assegura a obtenção de certidões, em repartições públicas, para defesa de direitos ou esclarecimento de situações de interesse pessoal, independentemente do pagamento de taxas, é inconstitucional a exigência que alguns Tribunais de Justiça da Federação fazem, do pagamento de taxa para a confecção da certidão de antecedentes criminais, conforme precedentes deste mesmo Conselho.
Ademais, consoante a dicção do mencionado art. 5º, XXXIV, "b", a gratuidade alcança, igualmente, as certidões cíveis cognominadas de "nada consta".
Pedido de Providências julgado procedente, para assegurar a todos a gratuidade das certidões de "nada consta" criminais e cíveis. (Id.1818003 - Pág. 1)
Assim, as certidões cíveis “nada consta” devem ser expedidas de forma gratuita quando tiverem por escopo a defesa de direitos ou esclarecimentos de situações de interesse pessoal, nos exatos termos expressos no artigo 5º, XXXIV, b, da Carta da República, que assim dispõe (os grifos não são do original):
XXXIV – São a todos assegurados, independentemente do pagamento de taxas:
(..)
b) a obtenção de certidões em repartições públicas, para defesa de direitos e esclarecimentos de situações de interesse pessoal;
(...) exsurge claro que a força do julgado é extraída diretamente da Constituição da República, ou seja, cinge-se a determinar que os Tribunais de Justiça cumpram comando expressamente previsto no texto constitucional.
Recentemente, o Plenário do STF julgou parcialmente procedente o pedido formulado na Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 3.278, para declarar a nulidade de qualquer interpretação que autorize a cobrança de taxas ou emolumentos para a emissão de certidões para a defesa de direitos e esclarecimento de situações de interesse pessoal. Transcreve-se a ementa do julgado (grifos acrescidos):
AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE. DIREITO TRIBUTÁRIO. IMUNIDADES TRIBUTÁRIAS. TAXAS. CUSTAS E EMOLUMENTOS JUDICIAIS. LEI COMPLEMENTAR 156/97 DO ESTADO DE SANTA CATARINA. DIREITO DE PETIÇÃO.
OBTENÇÃO DE CERTIDÕES EM REPARTIÇÕES PÚBLICAS, PARA DEFESA DE DIREITOS OU ESCLARECIMENTO DE SITUAÇÕES DE INTERESSE PESSOAL. ART. 5º, XXXIV,
“B”, DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL. NULIDADE PARCIAL SEM REDUÇÃO DE TEXTO.
1. Viola o direito de petição previsto no art.
5º, XXXIV, “b”, da Constituição Federal, a exigência de recolhimento de taxa para emissão de certidão em repartições públicas, para defesa de direitos e esclarecimento de situações de interesse pessoal, porquanto essa atividade estatal está abarcada por regra imunizante de natureza objetiva e política. Precedente: ADI 2.969, de relatoria do Ministro Carlos Britto, DJe 22.06.2007.
2. A imunidade refere-se tão somente a certidões solicitadas objetivando a defesa de direitos ou o esclarecimento de situação de interesse pessoal, uma vez que a expedição de certidões voltadas à prestação de informações de interesse coletivo ou geral (art. 5º, XXXIII) não recebe o mesmo tratamento tributário na Carta Constitucional.
3. Ação direta de inconstitucionalidade a que se dá parcial procedência, para fins de declarar a nulidade do dispositivo, sem redução de texto, de toda e qualquer interpretação do item 02 da Tabela VI da Lei Complementar 156/97, do Estado de Santa Catarina, a qual insira no âmbito de incidência material da hipótese de incidência da
taxa em questão a atividade estatal de extração e fornecimento de certidões administrativas para defesa de direitos e esclarecimento de situações de interesse pessoal.
(ADI 3.278/SC. Plenário. Relator Ministro Edson Fachin. Julgamento em:03/03/2016).
Ultrapassada a questão, passo a analisar as informações prestadas pelos Tribunais de Justiça.
(...) os Tribunais de Justiça dos Estados de São Paulo, Ceará e Pernambuco (TJ/SP, TJ/CE e o TJ/PE), de forma geral, alegaram o mesmo fundamento para justificar a cobrança de taxas para a expedição das certidões de antecedentes cíveis, qual seja, a existência de lei estadual a autorizar tal medida.
(...)
A garantia prevista na Constituição da República deve ser interpretada da forma mais ampla possível. Afigura-se ilegal qualquer ato administrativo que restrinja a expedição das certidões para defesa de direitos e esclarecimentos de situações de interesse pessoais, independentemente do pagamento de taxas, a determinados grupos ou situações, máxime quando o Constituinte Originário assim não o fez.
(...)
Por fim, o TJ/PE, com o intuito de justificar a cobrança de valores para emissão das certidões cíveis, invocou a Lei n°
11.404/1996, que consolida as normas relativas às taxas, custas e aos emolumentos no âmbito daquela Corte (ID.184260 – p.2 e 1842605 – p.2). Pelo texto da lei, para a emissão de certidões cíveis deve ser cobrado o valor de R$ 6,07, excetuas as hipóteses em que não haverá cobrança de valores, previstas no artigo 2º[3], relativas às partes beneficiadas pela assistência judiciária ou à isenção legal.
Referida lei dispõe, ainda, que, “nos atos expressamente declarados gratuitos, por lei federal ou estadual, uma vez consignado no respectivo texto o fim que se destina”, não haverá
incidência de custas e emolumentos[4].
Embora não haja informações sobre a existência de lei estadual ou federal que isente do pagamento de custas o fornecimento de certidões para fins de defesa de direitos e de esclarecimento de situações de interesse pessoal de qualquer ônus, a própria Constituição da República o faz, resultando imperativo, daí, que o TJ/PE deixe de cobrar pelas certidões cíveis expedidas para tais finalidades.
Ante o exposto, deve o TJ/PE dar cumprimento ao comando constitucional emanado do artigo 5°, inciso XXXIV, letra “b”, da Constituição da República e do decidido nos autos do PP 0005650- 43.2009.00.0000, garantindo o fornecimento de certidões cíveis para defesa de direitos e esclarecimento de situações de interesse pessoal sem qualquer ônus.
3. CONCLUSÃO
Ante o exposto, DETERMINO:
(...)
C) Ao TJ/PE, que dê imediato cumprimento ao comando constitucional emanado do artigo 5°, inciso XXXIV, letra “b”, da Constituição da República, dos dispositivos constantes na Lei nº 11.404/1996, e do decidido nos autos do PP 0005650- 43.2009.00.0000, abstendo-se de condicionar o fornecimento de certidões cíveis para defesa de direitos e esclarecimento de situações de interesse pessoal ao pagamento de custas, taxas ou emolumentos.
Intimem-se.
LELIO BENTES CORRÊA Conselheiro Relator