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Vista do Edição completa v.5, n.2

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Academic year: 2023

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• v . 5 n. 2 • J ulh o-D eze mbr o de 2015 •

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Contemporânea – Revista de Sociologia da UFS- Car é revista semestral do Departamento e do Pro- grama de Pós-Graduação em Sociologia da UFSCar.

Publica artigos, entrevistas e resenhas da área das ciências sociais, com ênfase sociológica.

Dirige-se a um público científico e privilegia um olhar sociológico contemporâneo sobre questões da sociedade brasileira e internacional.

Contemporânea – Revista de Sociologia da UFSCar tem por objetivo veicular a produção de pesquisadores/as nacionais e estrangeiros crian- do diálogos sobre temas de fronteira das ciências sociais. É particularmente aberta a abordagens emergentes sobre novos conflitos sociais, diferenças de gênero, sexualidade, raça/etnia assim como ou- tras formas de desigualdade, deslocamentos, pro- cessos migratórios, territorialidades e mobilidades, religiosidades, sustentabilidade, transformações no trabalho e nas profissões, violência, novas arti- culações entre teoria e empiria, revisões teóricas a partir dos desafios de pesquisa do presente e novas configurações do Estado e formas de governança.

Comitê Editorial: Jorge Leite Júnior, Fábio José Bechara Sanchez, Fabiana Luci de Oliveira, Syntia Alves e Felipe Padilha (editor assistente)

Conselho Editorial: Antonio Carlos Witkoski (Universidade Federal do Amazonas) Berenice Ben- to (Universidade Federal do Rio Grande do Norte) Carlos Lista (Universidad Nacional de Córdoba- Ar- gentina) Carlos Serra (Universidade Eduardo Mon- dlane - Moçambique) Celi Scalon (Universidade Federal do Rio de Janeiro) Cibele Rizek (Universida- de de São Paulo/Universidade Federal de São Car- los) Daniel Cefaï (Ecole de Haute Etudes en Sciences Sociales - France) Evelina Dagnino (Universidade Estadual de Campinas) Franck Poupeau (Ecole de Hautes Etudes en Sciences Sociales- France) Ho- ward Becker (Pesquisador Independente - EUA) Irlys Barreira (Universidade Federal do Ceará) José Ricardo Ramalho (Universidade Federal do Rio de Janeiro) José Vicente Tavares dos Santos (Universi- dade Federal do Rio Grande do Sul) Luís Roberto Cardoso de Oliveira (Universidade de Brasília) Maria Filomena Gregori (Universidade Estadu- al de Campinas) Miriam Adelman (Universidade Federal do Paraná) Ricardo Mariano (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul) Sérgio Adorno (Universidade de São Paulo) Sérgio Miceli (Universidade de São Paulo)

Dados Internacionais de Catalogação da Publicação

Contemporânea - Revista de Sociologia da UFSCar / Departamento e Programa de Pós- -Graduação em Sociologia da Universidade Federal de São Carlos. – v. 5, n. 2, jul.-dez. (2015) - , -

São Carlos: DS e PPGS-UFSCar, 2015.

Semestral ISSN: 2236-532X

1. Ciências Sociais; 2. Sociologia; 3. Antropologia; 4. Ciência Política Versão eletrônica disponível em www.contemporanea.ufscar.br

Indexadores: DataÍndice; Latindex; Diadorim; CLASE - Citas Latinoamericanas en Ciencias Sociales y Humanidades; OASISBR - Portal Brasileiro de Acesso à Informação Científica; SEER UFSCar - Sistema Eletrônico de Editoração de Revistas. Disponível também através dos portais internacionais LA Referencia e Recaap.

Endereço:

Departamento e Programa de Pós-Graduação em Sociologia - UFSCar

Rodovia Washington Luís, km 235 Caixa Postal 676 São Carlos – SP 13.565-905 Brasil

Fone/Fax: (Country Code 55) 11-3351-8673 e-mail: [email protected] Copyright 2015 © Contemporânea – Revista de Sociologia da UFSCar

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Sumário

Apresentação ...281 COMITÊ EDITORIAL

Dossiê

Apresentação do Dossiê ...285 ANDRÉ RICARDO DE SOUZA

Sociologia da religião, pluralismos e intolerâncias:

pautas contemporâneas ... 289 SÍLVIA REGINA ALVES FERNANDES

A livre religiosidade e a compulsória ciência

do sociólogo da religião ... 309 ANDRÉ RICARDO DE SOUZA

Perspectivas da laicidade no Brasil contemporâneo ...327 FLÁVIO MUNHOZ SOFIATI

Mudança religiosa na sociedade secularizada:

o Brasil 50 anos após o Concílio Vaticano II ... 351 REGINALDO PRANDI

RENAN WILLIAM DOS SANTOS

Carismáticos e pentecostais: os limites das trocas ecumênicas ...381 CECÍLIA L. MARIZ

CARLOS HENRIQUE SOUZA

Artigos

Queer decolonial: quando as teorias viajam ... 411 PEDRO PAULO GOMES PEREIRA

Estrategias laborales y clases sociales: Un estudio de caso en un barrio pobre de Gran Córdoba desde la perspectiva

de las Estrategias de Reproducción Social ...439 GONZALO ASSUSA

MARÍA LAURA FREYRE

O Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro e

a autenticidade na Música Brasileira (1960-1970) ...467 DMITRI CERBONCINI FERNANDES

Artevismo Alimentar ... 495 ELAINE DE AZEVEDO

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278 Sumário

Ideologia e Aquicultura: uma das faces da revolução azul ... 521 CRISTIANO WELLINGTON RAMALHO

Resenha

Por um futuro outro ...547 THIAGO RANNIERY

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Contents

Foreword ...281 EDITORIAL BOARD

Dossier

Foreword about the dossier ...285 ANDRÉ RICARDO DE SOUZA

Sociology of religion, pluralisms and intolerances –

contemporary issues ... 289 SÍLVIA REGINA ALVES FERNANDES

The free religiosity and the compulsory science

of the sociologist of religion ... 309 ANDRÉ RICARDO DE SOUZA

Prospects of secularism in contemporary Brazil ...327 FLÁVIO MUNHOZ SOFIATI

Religious change in secularized society: Brazil 50 years

after the Second Vatican Council ... 351 REGINALDO PRANDI

RENAN WILLIAM DOS SANTOS

Charismatics and Pentecostals: the limits of ecumenical exchanges ... 381 CECÍLIA L. MARIZ

CARLOS HENRIQUE SOUZA

Articles

Decolonial queer: when theories travel ... 411 PEDRO PAULO GOMES PEREIRA

Employment strategies and social classes. A case study in a poor village of Great Cordoba from the perspective of

Social Reproduction Strategies ...439 GONZALO ASSUSA

MARÍA LAURA FREYRE

The image and sound museum of Rio de Janeiro and

the authenticity in brazilian music (1960-1970s) ...467 DMITRI CERBONCINI FERNANDES

Food art-vism ... 495 ELAINE DE AZEVEDO

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280 Contents

Ideology and aquaculture: one of the faces of the blue revolution ... 521 CRISTIANO WELLINGTON RAMALHO

Book Reviews

For another future...547 THIAGO RANNIERY

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Apresentação

A Contemporânea – Revista de Sociologia da UFSCar abre seu v.5, n.2 (julho- -dezembro de 2015) com o dossiê “Desafios contemporâneos da sociologia da religião” organizado por André Ricardo de Souza. Os cinco artigos que o com- põem exploram temas presentes no tradicional campo da sociologia da religião no Brasil, buscando aprofundar questões que permearam os estudos sobre o fenômeno religioso em nosso país e ainda indicar lacunas e possibilidades de novas abordagens.

Reunindo uma interessante diversidade de autores, os artigos passam por temas como: a interpretação sobre o chamado pluralismo religioso brasileiro no artigo de Silvia Fernandes; um balanço da sociologia da religião e do ofício de sociólogo da religião no Brasil no artigo de André Ricardo de Souza; a complexa relação entre igreja e a esfera política no artigo de Flávio Sofiati ; uma análise das transformações religiosas no Brasil, particularmente da igreja católica pós Concílio do Vaticano II, respondendo às demandas impostas por transforma- ções sociais, no artigo de Reginaldo Prandi e Renan dos Santos; e os alcances e limites sociais do movimento ecumênico, particularmente entre católicos da renovação carismática e igrejas protestantes carismáticas/pentecostais no arti- go de Cecília Mariz e Carlos Souza.

Além de abordar velhos e novos temas da sociologia da religião, o Dossiê tem também um caráter de homenagem a Antônio Flávio Pierucci, importante pesquisador da área, falecido em 2012.

A seção artigos inicia-se com o trabalho de Pedro Paulo Gomes Pereira que busca construir articulações e interconexões entre duas importantes correntes teóricas do pensamento contemporâneo: a teoria queer e o pensamento deco- lonial. Com o provocativo título Queer decolonial: quando as teorias viajam, o autor pretende pensar as aproximações e distanciamentos entre estas duas cor- rentes teóricas.

No texto seguinte, María Laura Freyre e Gonzalo Assusa, ambos da Universi- dade Nacional de Córdoba, analisam as estratégias que famílias de setores popu- lares na cidade de Córdoba, Argentina, possuem para se inserirem no mundo do trabalho. A partir de uma perspectiva analítica de Pierre Bourdieu, o texto tem por objetivo discutir as características sociodemográficas das famílias, as dinâmi- cas recorrentes de inserção e as possibilidades de acesso ao mercado de trabalho.

Dmitri Cerboncini Fernandes, no artigo O Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro e a autenticidade na Música Brasileira (1960-1970), explora como

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282 Apresentação

o Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro (MIS-RJ), nos anos de 1960 e 1970, colaborou na construção de uma determinada história para a música po- pular brasileira e na delimitação formal da mesma, construindo a noção de uma certa estética “autêntica” nas artes populares brasileiras.

Elaine de Azevedo, em Artevismo Alimentar, busca analisar o uso do alimen- to como uma forma de intervenção política e construtor de simbolismo, trans- formando a arte em uma forma específica de sociabilidade. Para cumprir este objetivo, mobiliza autores envolvidos na discussão sobre arte social, bem como estudos sobre o ativismo alimentar e projetos de artistas contemporâneos que utilizam a alimentação e o ativismo alimentar em suas poéticas.

Em Ideologia e Aquicultura: uma das faces da revolução azul Cristiano Welling- ton Ramalho fecha a sessão artigos apresentando uma perspectiva crítica acerca da recente expansão e consolidação do setor produtivo da aquicultura no Brasil.

Segundo o autor, tal expansão é sustentada por um discurso ideológico desenvolvi- mentista, discurso de justificação que legitima o apoio público, a apropriação terri- torial e a mobilização de mercados e produz o ocultamento do processo de exclusão social que é produto da inevitável concentração de capitais e de poder político.

Na seção de resenhas, Thiago Ranniery apresenta o livro Parting ways:

jewishness and the critique of zionism, de Judith Butler, obra em que a filosofa se sente compelida a fazer uma réplica pública a um Estado que diz falar em seu nome. Como afirma Thiago, o livro “representa uma expressão da desiden- tificação de Butler com o Estado de Israel”. Neste contexto, Judith Butler traz leituras cuidadosas de textos filosóficos, políticos e poéticos, fazendo-os servir à sua própria relação com o sionismo. Estas leituras, segundo Thiago Ranniery,

“voltam-se à formulação de uma concepção não identitária, mas relacional de judaísmo para pavimentar o caminho da coabitação – conceito que toma empres- tado de Hannah Arendt – em um Estado Israel-Palestina aberto a todos os seus habitantes, a despeito da etnia, raça ou credo”.

Esperamos que este novo número da Contemporânea – Revista de Sociolo- gia da UFSCar - agrade a nossos(as) leitores(as), mantendo nosso compromis- so de trazer semestralmente artigos e resenhas instigantes sobre a sociedade contemporânea.

Boa leitura!

Comitê Editorial

Jorge Leite Júnior, Fábio José Bechara Sanchez, Fabiana Luci de Oliveira e Syntia Alves.

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Dossiê Desafios contemporâneos

da sociologia da religião

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Apresentação do dossiê

André Ricardo de Souza

1

Este dossiê é dedicado a importantes questões investigativas enfrentadas pelos cientistas sociais que lidam com o fenômeno religioso. Seus temas estão entre os mais presentes nos debates e publicações dos sociólogos da religião no Brasil, indicando também lacunas e possibilidades de pesquisa ainda a serem realizadas. Surgiu de uma interessante diversidade de autores, abrangendo dois destacados pesquisadores que são referência nos estudos da área, assim como três professores que vêm a passos largos se firmando nesse campo e dois pós- -graduandos em coautoria com seus experientes orientadores.

O conjunto acabou ganhando também um caráter de homenagem a Antô- nio Flávio Pierucci, que nos deixou o convívio em 2012, estando suas contribui- ções analíticas de algum modo presentes nos artigos, sobretudo em dois deles onde ocorre um profícuo debate sobre as ideias do sociólogo uspiano2. Entre esses textos, especificamente, há uma discreta discordância de interpretação a respeito do chamado pluralismo religioso brasileiro. Silvia Fernandes discute de modo interessante as questões referentes à diversidade religiosa nacional, enfocando a intolerância sofrida pelas minorias compostas principalmente pe- los adeptos das religiões afro-brasileiras. Ao destacar a repercussão do caso de uma menina de onze anos atingida por pedra no Rio de Janeiro em junho de 2015 pelo fato de estar vestida como uma filha de santo, a autora problematiza a noção de minoria religiosa, em face das manifestações de repúdio ao ato ocor- rido e de apoio à família da adolescente por parte de lideranças de diferentes tradições religiosas. Ela afirma que situações como essas fazem vir a público a reivindicação, não só por direitos humanos, mas também por reconhecimento.

No outro artigo em diálogo com o desafiador pensamento de Pierucci e também de Pierre Bourdeu, eu abordo a produção em sociologia da religião no Brasil e o ofício do cientista com tal especialização, discutindo a complexa questão do religioso sociólogo da religião. Para isso, tomo como fundamental

1 Departamento de Sociologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), São Paulo, Brasil - [email protected]

2 O dossiê estava em fase final de editoração quando faleceu outro grande sociólogo da religião, igualmente da Universidade de São Paulo: Lísias Negrão, que é citado nos artigos e homenageado aqui também.

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286 Apresentação do dossiê

contribuição teórica o conceito de religiosidade, desenvolvido por Georg Sim- mel. Em consonância com a proposta do texto, dialogo também com Peter Berger e Jürgen Habermas sobre aspectos da secularização e da relação contem- porânea entre religião e ciência.

Já a relação da religião com o Estado e a esfera política é o tema do artigo de Flávio Sofiati. Perpassando as contribuições de Max Weber e de vários pesquisa- dores contemporâneos, o autor discute as questões que envolvem a laicidade no Brasil. Nos segmentos evangélico pentecostal e católico carismático temos, de um lado, a emotividade atraente a um número crescente de pessoas e, do outro, a participação político-partidária com seus desdobramentos e controvérsias.

Tais segmentos têm demandas políticas conservadoras, havendo, no caso dos evangélicos, reivindicação de ainda mais liberdade religiosa em contraposição à Igreja Católica, algo que, embora com algumas distorções, contribui para o debate a respeito da laicidade em nossa sociedade.

Reginaldo Prandi e Renan dos Santos apresentam de modo amplo as princi- pais mudanças ocorridas do cenário religioso brasileiro ao longo do Século XX, sobremaneira a partir do Concílio Vaticano II (1962-1965), que está completan- do 50 anos. Esse grande evento histórico da Igreja Católica significou adaptação dela, em grande medida, ao processo de secularização que tem como cerne a incorporação pelo indivíduo moderno de outras fontes de orientação de condu- ta, além da religião e também em detrimento dela. O texto aborda a imbricação entre os fluxos de industrialização e urbanização com a transformação nos uni- versos evangélico e católico. Aquela grande reunião em Roma gerou inovações doutrinárias que levariam ao surgimento das duas faces destacadas do catoli- cismo brasileiro contemporâneo: por um lado, a Teologia da Libertação e as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e, por outro, a Renovação Carismática Católica (RCC). Nos anos 1980, as CEBs e as pastorais sociais exerceriam papel relevante na formação de movimentos sociais e reabertura democrática, porém começariam a entrar em refluxo, já no pontificado de João Paulo II. A RCC, por sua vez, começava a se dinamizar por meio de novas comunidades e recursos de mídia. Naquela década, emergiram outros atores sociais e políticos, inclusive evangélicos pentecostais.

Além do engajamento político-partidário, os autores ressaltam no meio evangélico a grande diversificação de denominações pentecostais, o vultoso in- vestimento midiático e o processo crescente de aceitação do mundo, liberaliza- ção de costumes, absorção de indivíduos também de classe média e valorização do consumo, em sintonia com a Teologia da Prosperidade, a marca neopente- costal. Surgem evangélicos não identificados com igrejas, predominantemente

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v.5, n.2 André Ricardo de Souza 287

jovens de periferias urbanas que se somam àqueles sem religião no desejo de mais liberdade, oriundo em grande medida do amplo acesso a informações de várias fontes, com destaque para a internet. Assim como Sofiati, os autores res- saltam que a participação dos evangélicos pentecostais na política partidária está diretamente relacionada com a secularização, na medida em que, embora movidos por pautas religiosas, reivindicam laicidade do Estado em contrapo- sição à tradicional influência católica sobre ele. Atuam politicamente de modo pragmático em prol dos interesses institucionais de suas igrejas e também em termos de moral sexual e reprodutiva, aliando-se com católicos, sobremaneira identificados com a RCC.

Entre pentecostais e carismáticos não ocorre apenas aliança política pontu- al, mas também experiências ecumênicas, conforme o artigo de Cecília Mariz e Carlos Souza. O pentecostalismo floresceu no início do Século XX quando o ecumenismo, impulsionado por jovens missionários de igrejas protestantes his- tóricas, começava a ganhar feições significativas. São movimentos com bases culturais bastante distintas. Mais uma vez fica evidente a importância do Vati- cano II, neste caso em particular para o ecumenismo, tendo sido o momento em que a Igreja Católica finalmente fez a sua adesão. Os autores chamam atenção para o fato de ter havido no início da RCC – nos Estados Unidos da segunda metade dos anos 60, ou seja, logo após o concílio – trocas doutrinárias entre católicos e pentecostais. Isso, porém, foi deixado de lado pelas lideranças desse movimento, justamente para amenizar a resistência do alto clero. Por tal motivo, preferiram enfatizar a origem do catolicismo carismático naquele grande en- contro, agora cinquentenário. Com a plena aceitação institucional do carisma- tismo católico, o discurso ecumênico pôde então voltar a seu meio, conforme os casos relatados no texto. Entretanto, prossegue a atribuição da origem da RCC ao Vaticano II, não só pela valorização dos leigos ocorrida a partir daquele even- to, mas principalmente pela abertura da igreja à proposta ecumênica, sem o que o intercâmbio deliberado com os evangélicos não teria sido possível.

Mariz e Souza apontam ainda o fato de o ecumenismo ser um tema valoriza- do por teólogos e intelectuais orgânicos de igrejas históricas, o que levou parte deles a se afastarem dessas instituições. Trata-se, porém, de algo ainda pouco estudado sociologicamente. Nos anos 1980 e 90, ganhou força nas denomina- ções cristãs a postura de rejeição de práticas ecumênicas em face da crescente concorrência por adeptos no mercado religioso. Mas a despeito da aversão insti- tucional, o “ecumenismo popular” prosseguiu e parece ter tomado um impulso com as novas experiências de interação entre católicos carismáticos e evangéli- cos pentecostais.

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288 Apresentação do dossiê

Num contexto marcado por discriminação e intolerância, como ressaltou Fernandes, o ecumenismo e o diálogo inter-religioso estão sendo de algum modo reafirmados como uma resposta dos próprios atores religiosos. Mediante o fato de a Igreja Católica ser atualmente liderada por papa Francisco, alguém que vem se mostrando coerente com o nome adotado e, portanto, voltado para o diálogo com diferentes e enfrentamento do problema ambiental, a perspecti- va ecumênica parece mudar em relação às décadas anteriores. Por outro lado, prosseguem organizações religiosas com práticas bastante beligerantes e con- troversas. Analisar com acuidade essa complexa realidade contemporânea, eis tarefa do sociólogo da religião.

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Dossiê Desafios contemporâneos da sociologia da religião

Contemporânea ISSN: 2236-532X v. 5, n. 2 p. 289-308 Jul.–Dez. 2015

Sociologia da religião, pluralismos e intolerâncias: pautas contemporâneas

Sílvia Regina Alves Fernandes

1

Resumo: A partir de um caso empírico sobre intolerância religiosa no Rio de Janeiro, o artigo discute a atualidade da abordagem sociológica sobre pluralismo religioso buscando apontar os rumos do debate e os desafios colocados para os pesquisadores da religião, no âmbito das ciências sociais. Sob o ponto de vis- ta teórico, dialoga-se primordialmente com Antônio Flávio Pierucci, tanto no que tange aos dilemas da diversidade religiosa no país quanto no que se refere à problematização das religiões afro-brasileiras como categoria minoritária. A abordagem weberiana formata a análise no sentido de se buscar compreender os interesses das ações promovidas pelos atores em jogo. Verifica-se, por fim, que o impacto de querelas públicas envolvendo grupos religiosos considerados mi- noritários reacende o debate sobre pluralismo na sociedade brasileira, ainda que o estatuto do chamado pluralismo deva ser complementado com novos incisos.

Palavras-chave: intolerância religiosa, sociologia da religião, pluralismo, espaço público, direitos humanos.

Sociology of religion, pluralisms and intolerances – contemporary issues.

Abstract: Considering one empirical case on religious intolerance in Rio de Janeiro, the article discusses the relevance of the sociological approach regarding religious

1 Professora do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais e do Instituto Multidisciplinar da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) - Rio de Janeiro - Brasil – fernandes.silv@gmail.

com

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290 Sociologia da religião, pluralismos e intolerâncias: pautas contemporâneas

pluralism, seeking to identify the paths of the debate and the challenges posed to the researchers of religion in social sciences. Primarily, from a theoretical point of view, we have dialogued alongside Antonio Flavio Pierucci with both dilemmas of religious diversity in the country and questioning the minority category, refer- ring to African-Brazilian religions. The weberian approach formats the analysis in order to seek to understand the interests of the actions promoted by the actors involved. Finally, we have analyzed that the public quarrels impacts involving religious groups considered as minority, rekindles the debate on pluralism in Bra- zilian society, although new items should be add to the pluralism category.

Keywords: religious intolerance, sociology of religion, pluralism, public space, hu- man wrights

“Todo esse agito religioso a olhos vistos na cena brasileira, nada mais é que o resultado da liberdade ampla de que atualmente gozam em nossa Repú- blica, e graças a ela, os profissionais e ativistas de toda e qualquer confissão religiosa” (Pierucci, 2008, p.13).

É sempre revigorante retomar os escritos de Antônio Flávio Pierucci quando o assunto em pauta são querelas públicas religiosas e as interpretações dos sociólogos e antropólogos da religião sobre tais eventos. O trecho citado é oportuno para contextualizar a temática central deste artigo, especialmente por dois motivos que se entrelaçam: 1. A evidência da liberdade religiosa em um país como o Brasil apresenta um conjunto de contradições e permite sempre sofisticar a compreensão sobre as nuances do pluralismo; 2. Sendo o autor um defensor da sociologia da religião nos moldes weberianos, seu pensamento nos mobiliza na elaboração de novos investimentos analíticos no estudo do fenôme- no religioso e de suas - às vezes inusitadas - manifestações cotidianas no Brasil.

O objetivo deste texto é tratar dessas duas inquietações de modo ainda en- saístico. Na primeira parte, trago alguns exemplos entendidos como intolerân- cia religiosa para, em seguida, apresentar o debate sobre o caso Kaylane - um episódio específico de intolerância religiosa ocorrido no Rio de Janeiro em 2015.

Coloco em discussão os posicionamentos de diferentes atores e agentes religio- sos e me concentro em analisar as nuances do pluralismo como um mote ins- pirador da sociologia da religião contemporânea, explorada mais detidamente nas seções seguintes a partir desta chave.

Pretendo costurar o debate não apenas pela temática da tolerância/intolerân- cia, mas argumentando sobre como estes episódios são estimulantes para a cons- trução de uma sociologia compreensiva que analisa os interesses dos atores em

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v.5, n.2 Sílvia Regina Alves Fernandes 291

jogo nos diferentes grupos e campos de atuação. Afirmar isso significa, também, rascunhar um certo ofício do sociólogo, à la Bourdieu (2004), em um esforço de ruptura com a sociologia espontânea apresentando eixos interpretativos que re- almente favoreçam a análise objetivamente possível do evento em questão.

Note-se, então, que três elementos são colocados em relação: o evento em si, enquanto revelador da necessidade de permanente atualização sobre o plura- lismo inteiramente consensual; a dinâmica da tolerância em contexto de diver- sidade religiosa e, por fim, a postura sociológica frente à análise de fenômenos sociais que têm como estopim a religião no espaço público.

Episódios que resultam em reações violentas de determinados atores a reli- giões, líderes religiosos e/ ou seus símbolos não são raros no país e se inscrevem na categoria da “intolerância religiosa” mobilizando pesquisadores em diferen- tes percursos analíticos (Giumbelli, 2006; Birman, 2006; Silva, 2007; Mariano, 2007). Pode-se compreender a intolerância religiosa como um tipo ideal que se traduz no Brasil como atitudes que resultam em diferentes modalidades de vio- lência (física, verbal ou psicológica) exercidas por determinados sujeitos sociais contra outros de uma dada tradição religiosa.

Apresentando-se quase sempre como uma via de mão única, esse tipo de in- tolerância se expressa, na maioria das vezes, por meio de ações orquestradas por membros de denominações neopentecostais em direção a membros e locais de culto de religiões afro-brasileiras (candomblé e umbanda), podendo do mesmo modo ocorrer contra símbolos do catolicismo.

Neste último caso teríamos uma direção reversa, uma vez que apenas na dé- cada de 1960 observou-se uma disposição oficial da Igreja Católica em relação aos não cristãos, a partir da homilia do papa Paulo VI, por ocasião da institu- cionalização do secretariado para os não cristãos. Atualmente, e mais incisi- vamente com o pontificado do papa Francisco, as iniciativas de teólogos para fortalecer o diálogo inter-religioso têm se expandido, ampliando os limites de interlocução para muito além do cristianismo (Teixeira, 2002).

Essas seriam as direções mais correntes dessa via. Entretanto, há registros tornados menos públicos, de situações em que membros de denominações evangélicas são também vilipendiados, além de outros grupos religiosos de menor visibilidade, como o Santo Daime, o islã e, ainda, situações de constran- gimentos experimentados por ateus. Alguns exemplos são listados no “Mapa da Intolerância Religiosa no Brasil”,2 organizado pelo jornalista Marcio Gual-

2 É possível acessar o documento na íntegra aqui: <http://www.fonaper.com.br/noticia.php?id=1197>.

Acesso em: 18 jun. 2015.

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292 Sociologia da religião, pluralismos e intolerâncias: pautas contemporâneas

berto. O documento foi publicado em 2011 e, segundo Gualberto, será atuali- zado em 2015. Ainda que sejam ressalvados possíveis limites metodológicos da coleta de dados para a edição desse mapa,3 a iniciativa deu visibilidade a uma série de ocorrências em todo o país que podem vir a ser atualizadas na nova versão do documento.4

A efervescência do tema mobilizou também a Secretaria de Direitos Huma- nos da Presidência da República que tem registrado, por meio do disque denún- cia, uma proliferação de casos, apontando haver uma denúncia a cada três dias no país. Um terço dos atingidos pertence a religiões de matriz africana (can- domblé e umbanda), mas outras tradições têm sido também afetadas.

Ainda que se possa colocar em questão o rigor da coleta feita pelo canal disque-denúncia e que eventualmente pode comprometer a confiabilidade dos dados, o fato é que no período de 2011 a 2014 foram contabilizados 216 casos sob a categoria de intolerância religiosa distribuídos da seguinte forma: religiões afro-brasileiras: 75; evangélicas: 58; Espiritismo: 27; Catolicismo: 22; Ateus: 8;

Judaísmo: 6; Islamismo: 5; Outras: 15. O gráfico divulgado pelo jornal A Folha de S. Paulo5 mostra ainda que 20% dos casos relatados em 2013 envolveram vio- lência física e até junho de 2014 foram 12% de casos com esse perfil.

Esses dados incitam algumas ponderações. Primeiramente, note-se que a ausência de séries históricas de longa data impede a afirmação sobre ascensão ou não dos chamados casos de intolerância no Brasil. Além disso, por outro lado, a prática de denúncia pública não é sedimentada de modo homogêneo nos diferentes segmentos e classes sociais, o que resulta, certamente, em registros que podem não revelar a totalidade dos fatos. Por fim, muitos denunciantes não indicam com clareza a denominação ou instituição do agente agressor, o que facilita a ocorrência de imprecisões na delimitação dos grupos ou instituições religiosas supostamente tidos como agressores. Feitas essas ponderações, subli- nho que o alarde sobre aumento da intolerância religiosa no Brasil não pode se justificar apenas sobre dados do disque-denúncia ou sobre o que é ressaltado pela grande mídia. Não há como negligenciar o fato de que há interesses de diversas ordens na composição da notícia e na disposição dos fatos divulgados.

3 Na publicação não há explicitação de como os dados foram coletados, mas os autores declaram terem recolhidos episódios de intolerância religiosa durante um período de dez anos, o que significaria que foram considerados registros a partir do ano 2000.

4 Cf.: <http://radios.ebc.com.br/amazonia-brasileira/edicao/2015-06/jornalista-prepara-novo-mapa-da - intolerancia-religiosa>. Acesso em: 14 maio 2015.

5 Cf.: <http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2015/06/1648607-a-cada-3-dias-governo-recebe-uma- denuncia- de-intolerancia-religiosa.shtml>. Acesso em: 20 jun. 2015.

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v.5, n.2 Sílvia Regina Alves Fernandes 293

A querela pública que inaugurou o debate acadêmico em relação à into- lerância religiosa foi o “chute na santa”, ocorrido em 1995, e suficientemente analisado por Almeida (2007) sob a chave da diferença e dos desdobramentos interdenominacionais da noção de interculturalidade no universo religioso ca- tólico e protestante. Quinze anos depois, o líder da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), ao fazer uma interpretação pós-fato, declarou em uma entrevista:

“Foi um chute no estômago, para não dizer num lugar mais baixo. Foi a pior coisa que aconteceu dentro do trabalho da Igreja Universal. Porque não é o nosso estilo agredir a religião dos outros. Se exigimos respeito à nossa cren- ça, temos que respeitar as outras crenças”. 6

O fato de ter sido o “chute na santa” o episódio de maior repercussão na mídia no que tange à intolerância religiosa – também por se tratar de uma in- vestida contra um símbolo da religião numérica e culturalmente majoritária no país – faz com que a IURD seja colocada no “olho do furacão” sempre que epi- sódios de intolerância vêm à tona. Essa representação social é também reforça- da porque muitos “testemunhos” de ex-participantes do candomblé, umbanda ou outra tradição desse universo, convertidos à IURD, reproduzem a ideia de combate aos terreiros e lugares de culto das religiões afro-brasileiras das quais já foram aderentes. Com isso, quero dizer que, se por um lado o “chute na santa”

coloca a IURD como a denominação pivô das práticas de intolerância religio- sa, por outro, como mencionei acima, os registros oficiais, por meio do disque denúncia, ainda são frágeis para que todos os episódios dessa natureza sejam creditados de maneira acrítica na conta da IURD ainda que o histórico dessa denominação tenda a condená-la.

O posicionamento atual de Edir Macedo no trecho da entrevista citada pode ser traduzido como um aspecto da estratégia iurdiana diante do pluralismo re- ligioso que, conforme os últimos dados censitários contabilizou menor número de adeptos em seus bancos. Eles passam de 2.101.887 em 2000 para 1.873.243 em 2010.7 Na esteira desse debate, por ocasião da liberação dos dados do úl- timo censo, sugeri que a IURD pode estar vivendo no momento atual algo se- melhante ao que a Igreja Católica viveu antes da explosão das denominações neopentecostais, a saber, a acomodação diante do fato de exercer uma posição

6 Confira a entrevista de Edir Macedo dada a Roberto Cabrini, no canal SBT. Disponível em: <http://odia.

ig.com.br/diversao/televisao/2015-04-27/ao-sbt-bispo-edir-macedo-fala-de-chute-na-santa-e-xuxa-na - record.html> . Acesso em: 05 out. 2015. Grifo meu.

7 Dados da base SIDRA localizada em: <http://ibge.gov.br>. Acesso em: 12 maio 2015.

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294 Sociologia da religião, pluralismos e intolerâncias: pautas contemporâneas

confortável no terreno das disputas religiosas. Contudo, o ambiente pluralista demanda inovações institucionais se o objetivo visado for alcançar um maior número de seguidores.

Desse modo, uma hipótese plausível seria a de que a IURD caminharia para o esgotamento de um certo modelo fomentador de adesão religiosa, sendo o seu arrojo atualmente copiado e incrementado por outras igrejas neopentecostais.

Isso significa dizer que não apenas o fator “criatividade” é inerente à condição de disputa no campo religioso,8 mas que os atores religiosos estão situados, isto é, dotados de política reflexiva que delineia seus modos de articulação e ação no espaço público a depender de sua posição na esfera religiosa.

Essa ideia de interesses dos atores mobilizados por uma política reflexiva será mais bem explorada na penúltima seção deste texto onde conjugo a pers- pectiva weberiana com o posicionamento de diferentes grupos e atores sociais envolvidos no fato em análise.

O caso Kaylane

Feita essa breve contextualização sobre o tema, o caso empírico ao qual pre- tendo me deter, entretanto, não é o “chute na santa” e nem necessariamente a IURD, mas antes trago à discussão o caso Kaylane e algumas narrativas de atores religiosos, seja no universo evangélico ou católico, que, em certa medida, estiveram envolvidos com o evento. Passemos ao caso.

Em 16 de junho de 2015, a menina Kaylane, de onze anos de idade, foi atingi- da na cabeça por uma pedra ao sair de um culto de candomblé no Rio de Janeiro, Vila da Penha, subúrbio da cidade. Kaylane estava acompanhada por um grupo de oito pessoas que também haviam participado do culto. Segundo a avó da me- nina, o grupo foi insultado por dois homens portando a Bíblia, que se dirigiam aos membros do culto como “demônios” que deveriam “queimar no inferno”. Até julho de 2015, a identidade religiosa dos agressores não foi ainda descoberta, mas ocorreu por parte dos que foram vilipendiados atribuição do ato aos evangélicos.

O caso repercutiu fortemente na grande mídia e nas redes sociais. Nestas úl- timas, a partir de uma campanha iniciada pela própria menina. Religiosos afro- -brasileiros vestidos de branco pediam paz apresentando fotografias em que portavam faixas e cartazes com a seguinte inscrição: “Eu visto branco. Branco da paz. Sou do candomblé e você?” Esse apelo à paz marca uma posição de não enfrentamento físico e verbal, sendo em si mesmo um chamado a disposições

8 Cf.: <http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/511249-estamos-falando-de-re-construcao-de-identidade -religiosa-entrevista-especial-com-silvia-fernandes>. Acesso em: 13 maio 2015.

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menos acirradas no campo religioso, além de revelar um tipo de reação que parece visar à quebra do estereótipo de malignidade associado ao uso da roupa branca pelos adeptos dos cultos afro-brasileiros. Temos, portanto, uma reação em prol do reconhecimento da identidade religiosa desses atores.

Com efeito, as reações dos membros das religiões de matriz africana, tidos como minoria religiosa, parecem estar em ascensão no Brasil, diferentemen- te de um posicionamento tímido e exclusivamente por meio de vias jurídicas como considerado por alguns pesquisadores (Giumbelli, 2006; 2007). Em razão da visibilidade que os casos têm tomado nos últimos anos, a partir das redes sociais e da mídia, nota-se haver novas modulações nas reações dos adeptos das religiões de matriz africana quando atingidos. Suas formas de reação na esfera pública os tem colocado em evidência e alterado a sua visibilidade social, situando-os, portanto, não mais numa condição de minoria – tendo em vista o número de adeptos declarados nas pesquisas censitárias – mas como um grupo social relevante, sobretudo no debate sobre intolerância religiosa.

Diante desse fato, podemos problematizar o dado quantitativo estável (0,3%) dos adeptos das religiões afro-brasileiras numa situação de pluralismo, pois essa aparente estabilidade é carregada de nuances importantes, tanto sob o ponto de vista da composição das religiões afro-brasileiras, em que o can- domblé vem se destacando em relação ao número de adeptos, quanto no que se refere à contribuição dessas religiões no debate sobre afirmação de identidade (Duccini; Rabelo, 2013).

Caberia um levantamento sistemático sobre as estratégias de reação des- ses grupos a episódios interpretados como práticas de intolerância religiosa. Os exemplos abaixo ilustram as modulações reativas que eles enunciam.

No Rio de Janeiro e em São Paulo, membros de religiões afro-brasileiras reuniram-se à porta da sede do Ministério Público Federal em protesto contra o grupo de jovens iurdianos denominados Gladiadores do Altar. Talvez em ra- zão de haver um recrutamento ostensivo de jovens para esse grupo e/ou ainda pelo nome remeter a disposições de luta e combate, muitos membros dos cultos afro-brasileiros sentem-se ameaçados por ações violentas que possam vir a ser engendradas contra suas respectivas religiões por jovens iurdianos. A partir de então, demandaram do Ministério Público uma investigação sobre tal grupo. O advogado que representa os adeptos requerentes declarou à imprensa:

É uma postura paramilitar. Nós já sofremos preconceito de vários membros da IURD, que destroem terreiros e perseguem pessoas das religiões afro nas ruas. Não vamos esperar um grupo de seis mil homens que se denomina

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296 Sociologia da religião, pluralismos e intolerâncias: pautas contemporâneas como um exército, pegar em armas ou agir contra a gente ou que um grupo fundamentalista cresça em nosso país.9

É curioso notar que, mais uma vez, a IURD é colocada como uma espécie de centro irradiativo e, dessa vez, potencial, já que até o momento da denúncia ao Ministério Público não havia registro de nenhuma ação de jovens iurdianos Gladiadores do Altar contra os adeptos de religiões afro-brasileiras. Assim, possivelmente em razão dos inúmeros ataques vividos, os religiosos afro- brasileiros construíram um posicionamento consensual e imponderável sobre os perigos que essa denominação religiosa lhes oferece, colocando-se, portanto, em permanente estado de alerta. Além disso, parece haver por parte de alguns setores da sociedade brasileira e das religiões de matriz africana a compreensão da categoria “evangélicos” como constituída por certa homoge- neidade, sem que se distinga as diferentes tradições, costumes e doutrinas ine- rentes a cada denominação.

A repercussão do caso Kaylane provocou ainda a mobilização da Secretaria de Direitos Humanos, gerando uma audiência pública10 e o recolhimento de um abaixo-assinado que contou com 35.000 assinaturas. O documento foi entregue ao ministro dos Direitos Humanos, Pepe Vargas, em 26 de junho de 2015. Em relação ao conteúdo do documento, foi demandado do ministério a promoção de uma campanha nacional de conscientização contra a intolerância religiosa.

Podemos considerar que a formulação desse abaixo-assinado é mais uma rea- ção que se inscreve fora do âmbito judicial.

Apenas esses dois exemplos já nos permitem afirmar que, a despeito de se- rem as religiões afro-brasileiras minorias religiosas, a sua atual capacidade de mobilização da sociedade brasileira em diferentes instâncias – governo, mídia, igrejas – as reposiciona na esfera social a partir de seus impactos, não apenas no campo religioso, mas também no político, jurídico e cultural.

Desse modo, o caso Kaylane motivou posicionamentos de várias instituições e atores na sociedade brasileira, espelhando imagens da diversidade religiosa. A reação pública dos adeptos dos cultos afro-brasileiros engendra um efeito cas- cata, promovendo outras reações de apoio e adesão à causa contra a intolerância religiosa. Assim, o arcebispo do Rio de Janeiro convidou a menina, a avó e o

9 Cf. a notícia e fotos publicadas pela Folha de São Paulo. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/

poder/2015/03/1607108-religioes-de-raiz-africana-pedem-investigacao-de-grupo-gladiadores-do-altar.

shtml>. Acesso em: 13 jun. 2015.

10 Cf.: <http://www.sdh.gov.br/noticias/2015/junho/pepe-vargas-faz-apelo-a-sociedade-por-mais-toleran- cia-religiosa-em-audiencia-publica>. Acesso em: 28 jun. 2015.

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ativista Ivanir dos Santos - interlocutor da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR) - para um café da manhã na cúria arquidiocesana; o pastor João Melo, da Igreja Batista da Vila da Penha, recebeu Kaylane em sua institui- ção, bem como promoveu uma manifestação contra a intolerância religiosa no bairro; a escola judaica Eliezer Steinbarg Max Nordeau ocasionou um encontro entre os alunos e a menina.

Para além das incontáveis manifestações nas redes sociais e da querela pú- blica advinda do jornalista da TV Bandeirantes, Ricardo Boechat, com o pastor Silas Malafaia,11 em relação à identidade religiosa dos autores da agressão, hou- ve ainda manifestações de líderes evangélicos, um deles filiado ao partido PSC12 – Partido Social Cristão, numa clara defesa do segmento em relação às acusações

dos membros dos cultos afro-brasileiros.

A mobilização desse conjunto de atores em relação ao caso reforça a ideia de que os números censitários são retratos cuja densidade pode ser sempre ex- plorada a partir das configurações cotidianas das instituições religiosas, de seu impacto em diferentes esferas da sociedade brasileira e ainda de sua capacidade de redimensionar o debate acerca da diversidade religiosa no país.

Não temos recursos para tornar as intencionalidades desses atores claramente explicitadas, mas podemos sugerir que, como afirma Pierucci, esse “agito” é ine- rente ao ambiente pluralista que será analisado a seguir mais detidamente e que tem o potencial de promover constantes reposicionamentos dos atores e institui- ções religiosas. Exatamente por isso, não é possível negar a diversidade religiosa pelo simples fato de termos a grande maioria da população se declarando cristã.

O caso Kaylane sublinha um aspecto específico inscrito no debate sobre o pluralismo religioso na sociedade brasileira e que se notabiliza na intensifica- ção das demandas por reconhecimento identitário notadamente em expansão no Brasil. Nessa agenda, inscrevem-se as narrativas sobre direitos, liberdade e tolerância em tempos pautados em um ideário de respeito ao outro diferente.

Dizer isso é também afirmar que a perspectiva dos direitos humanos vem sendo acionada, de diferentes modos, pelos atores em jogo – vítimas e seus apoiado- res, sempre que necessário para legitimação das intenções de seus narradores.

Nessa direção, estabelece-se, como sugeriu Hirschman (1982), uma clara tensão entre o interesse próprio e a moralidade pública como componente a modular a escolha dos indivíduos por levantar a voz ou retirar-se da ação coletiva.

11 O vídeo com a discussão está disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=_GwC-ZghiOg>.

Acesso em: 25 jun. 2015.

12 Conforme depoimento do Deputado Federal Victorio Gálli, do PSC/MT - membro da igreja Assembleia de Deus: <http://midianews.com.br/conteudo.php?sid=262&cid=235704>. Acesso em: 28 jun. 2015.

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298 Sociologia da religião, pluralismos e intolerâncias: pautas contemporâneas

Dinâmica do pluralismo em contexto de diversidade religiosa

Em um texto muito conhecido e polêmico Antônio Flávio Pierucci (2006) relativiza a existência da diversidade religiosa no Brasil argumentando que a tradição cristã é dominante, sobrando poucos números para contar nas demais categorias religiosas mapeadas nos censos. Embora ele admita o pluralismo, seus argumentos apontam que, em nosso caso, esse pluralismo estaria circuns- crito a poucos milhões de brasileiros quando comparados ao volume dos que se declaram cristãos, sendo esse fato uma condição e simultaneamente um reflexo de uma sociedade secularizada.

Reginaldo Prandi (2013), por sua vez, defende que os números censitários em relação aos seguidores de religiões afro-brasileiras sempre foram subestimados e discute como essas categorias analíticas se formaram historicamente nas bases censitárias, ora agregando umbanda e candomblé, ora separando essas duas tra- dições e integrando ao candomblé, o xangô, o batuque e outras modalidades re- ligiosas afro-brasileiras numericamente menores. O autor nos recorda ainda que há uma parte significativa dos adeptos dessas religiões que se identificam como católicos ou como espíritas, o que certamente sombreia os números atribuídos de forma que inconteste à representação desse segmento religioso na população.

Embora concordando com Pierucci e Prandi, opto por orientar este debate no sentido da problematização necessária sobre as noções de pluralismo e di- versidade religiosa.13 Dito de outro modo, inscrever a temática a partir da dis- cussão sobre querelas públicas e sua capacidade de mobilização de diferentes atores me parece bem mais produtivo analiticamente. Assim, a meu ver, essas noções devem extrapolar a agregação quantitativa para pensarmos em termos de evidências de presença e ausência na cena pública; de repercussões e silen- ciamentos; de imagens e textos que funcionam como indícios a serem persegui- dos no processo de compreensão das intencionalidades em jogo.

Isso não significa desprezar a relevância numérica, muito pelo contrário, sig- nifica, como venho sugerindo (Fernandes, 2010), que na medida em que os dados quantitativos integram o nosso ofício são também pontos de partida importantes para a análise da disposição dos grupos religiosos na sociedade brasileira. Entre- tanto, as dinâmicas que esses grupos e indivíduos imprimem ao cotidiano social – muito mais do que a sua representação numérica – facilitam a compreensão tanto de sua natureza quanto de seus princípios agregadores. Além disso, os efeitos das religiões em ambiente pluralista são permeados de controvérsias que podem ser

13 Para uma análise da diversidade especificamente do catolicismo ver Cecília Mariz (2006).

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traduzidas como dados em relação, no sentido de estarem “interagindo com dife- rentes contextos sociais e ofertas religiosas” (Fernandes, 2006: 112). Os dados, por- tanto, se relacionam, inspiram e explicam parte da realidade, não se constituindo necessariamente como peças fixas de uma engrenagem e demandando, portanto, do pesquisador uma revisão permanente de seus significados.

O caso Kaylane nos permite adensar esse argumento. De fato, a menina adepta de uma modalidade de religião afro-brasileira, o candomblé – que prati- camente se apresenta zerada nas bases censitárias14 –, mobiliza um conjunto de atores religiosos ou não diferentemente situados no campo religioso brasileiro em sua defesa. O pluralismo enquanto reflexo da diversidade religiosa pode ser inscrito num inciso mais amplo do que o mero dado censitário. Ele avança em direção ao que vem sendo erigido como uma bandeira das sociedades pluralis- tas: os direitos individuais associados às políticas de reconhecimento.15

Esse tema eclode articulado com a noção de tolerância e respeito em todas as narrativas dos atores religiosos que receberam a menina Kaylane após o epi- sódio vivido.16 Daí considerarmos que, em ambiente pluralista no qual várias tradições religiosas convivem, grupos tidos como minoritários são elevados a um estatuto mais universalista ancorado em narrativas que se articulam em torno das ideias de respeito e tolerância. Instituições tidas como majoritárias, mas em declínio quantitativo podem, ao mesmo tempo, mostrar vitalidade qua- litativa a partir do modo como se posicionam na cena pública. Católicos, evan- gélicos e judeus ocupam posições bem diversas no campo religioso brasileiro e cada uma dessas categorias, não custa recordar, são heterogêneas em si mesmas.

Neste ponto, podemos fazer uma breve incursão entre as cosmovisões e po- líticas reflexivas sobre atores em algumas das instituições que entram em cena no caso Kaylane: Igreja Católica, Igreja Batista, Escola Judaica e Assembleia de Deus Vitória em Cristo. Numa tentativa ensaística, considero plausível assumir que as narrativas sobre respeito e tolerância não emergem apenas como um tex- to pró-tolerância ao sujeito agredido, mas também como um modo de alcançar visibilidade social e promover reconhecimento das instituições às quais estão vinculados os defensores da menina.

14 Apesar de serem as religiões afro-brasileiras minoritárias, o candomblé apresentou um incremento de 31.2% no censo de 2010, enquanto a umbanda cresceu apenas 2,5% (Duccini; Rabelo, 2013).

15 Penso nos termos de Charles Taylor (2000) ao traçar o desenvolvimento histórico das políticas de re- conhecimento nas sociedades liberais. Para ele, foi disseminada a ideia de que somos formados pelo reconhecimento. O autor discute as tensões e conflitos dessa política de modo magistral, demonstrando como ela se desenvolveu tanto na esfera íntima quanto na esfera pública.

16 A palavra “respeito” aparece também no trecho da entrevista de Edir Macedo, indicada na primeira se- ção deste texto, e virá sublinhada em outros momentos deste texto para endossar o argumento.

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300 Sociologia da religião, pluralismos e intolerâncias: pautas contemporâneas

A Igreja Católica no Brasil tende a pautar suas ações nas chamadas “Dire- trizes para a Ação Evangelizadora”; na “justiça social”, e em princípios dou- trinários que as orientam. Nos últimos anos vem reforçando sua dimensão

“evangelizadora” ao traçar os rumos de sua atuação na sociedade com forte ên- fase na missão e em práticas mais voltadas para o cultivo do elemento religioso em si como visto a partir da expansão das novas comunidades carismáticas, sobretudo entre a juventude.

Ainda assim, as chamadas Campanhas da Fraternidade (CF) historicamente têm enfocado temáticas relacionadas à sociedade brasileira. Observa-se, entre- tanto, que embora em 2015 o tema da CF seja: “Igreja e sociedade”, sugerindo uma interação com temas sociais emergentes, o lema é “eu vim para servir” e a ilustração da capa mostra o papa Francisco no rito do lava-pés, repetindo o gesto clássico da liturgia cristã em que o Cristo teria lavado os pés de seus dis- cípulos em sinal de humildade. Nota-se, portanto, claramente, uma orientação institucional fortemente direcionada para a vida espiritual dos cristãos, visando o reforço da identidade institucional em situação de intenso pluralismo.

Daí as diretrizes institucionais para o triênio 2011-2015 preconizarem que, no contexto atual de “mudança de época”, a atitude missionária deve ser reforçada para o chamado “anúncio de Jesus Cristo”. O texto chega a mencionar que não se trata de uma disputa em função da diminuição do número de católicos, mas o reforço da atitude missionária estaria relacionado com o testemunho necessário de Jesus Cristo. O trecho do documento citado em nota17 defende o respeito e também combate ao que denominam de “inúmeras formas de destruição da vida”.

Inscrito nessa lógica, o cardeal do Rio de Janeiro se apressa em recepcionar a menina Kaylane após o ataque sofrido. O gesto está em consonância com as orientações institucionais que fortalece o respeito às diferenças, na lógica da pre- servação dos direitos humanos e da liberdade religiosa. A consequência pública deste gesto é o reconhecimento social da Igreja Católica como uma instituição

17 CNBB. Documento 94: Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil – 2011 – 2015. Confira o item 3.1. do documento onde se lê: “Na medida em que as mudanças de época atingem os critérios de compreensão, os valores e as referências, os quais já não se transmitem mais com a mesma fluidez de outros tempos, torna-se indispensável anunciar Jesus Cristo, apresentando, com clareza e força testemu- nhal, quem é Ele e qual sua proposta para toda a humanidade. Não se trata, por certo, de estabelecer uma espécie de concorrência religiosa, ingressando na competição por maior número de fiéis. Tampouco se trata de busca de privilégios para a Igreja que, em todos os tempos, é chamada a ser serva humilde e despojada (cf. Lc. 17,7-10). Trata-se de se reconhecer que o distanciamento em relação a Jesus Cristo e ao Reino de Deus traz graves consequências para toda a humanidade. Estas consequências não são per- cebidas apenas pela redução numérica dos católicos. Elas são igualmente sentidas principalmente nas inúmeras formas de desrespeito e mesmo de destruição da vida”.

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v.5, n.2 Sílvia Regina Alves Fernandes 301

que se distancia de práticas religiosas supostamente realizadas por seu principal oponente no campo religioso: os evangélicos, sobretudo os neopentecostais.

A atitude do pastor da Igreja Batista pode ser interpretada sob uma chave semelhante. É comum que aqueles evangélicos que eventualmente se distin- guem dos neopentecostais e se mostram intolerantes com as religiões afro- -brasileiras, serem criticados por não virem a público promover a defesa de seus princípios e cosmovisões religiosas, também inscritas na lógica contem- porânea de apologia às diferenças e reconhecimentos identitários. Em texto recente um antropólogo declara:

“Mas onde estão os bons pastores evangélicos que reprovam o ódio às reli- giões afro-brasileiras e a fobia aos gays? Conheço vários, mas todos juntos, ainda, não têm a visibilidade dos pastores citados acima.18

Alguns pastores, além de João Melo, vieram a público para apresentar a po- sição de sua religião em relação ao episódio ocorrido com Kaylane. Em 17 de junho de 2015, a rádio CBN veiculou entrevista com o pastor Neil Barreto, pre- sidente da Igreja Batista Betânia. Essa instituição se situa no ramo das protes- tantes históricas que estão em declínio quantitativo, exatamente em razão do avanço dos neopentecostais. Para o pastor, a intolerância religiosa é produto de ignorância19 e os agressores de Kaylane não representam os evangélicos. O pastor advoga ainda que os cristãos foram perseguidos historicamente e não podem se transformar em perseguidores na atualidade. Em sua entrevista, além de recuperar o que entende como sendo o papel dos cristãos, deixa uma men- sagem solidária à avó da menina agredida: “Eu quero dizer a dona Katia que eu visto branco em nome da paz também”. A solidariedade explícita nessa frase pode ser entendida como indício da política reflexiva dos atores, como venho si- nalizando, especialmente os que ocupam uma posição desfavorável, sob o ponto de vista quantitativo, no campo religioso.

Ressalte-se que na narrativa do presidente da Igreja Batista não há menção a nenhuma perseguição histórica realizada pelos cristãos no passado, bem como não se menciona, por outro lado, os episódios contemporâneos de persegui- ção aos cristãos em países como a Índia, onde uma menina foi queimada por

18 Trata-se de um texto na coluna de opinião do Jornal do CEBRAP, escrito por Ronaldo Almeida, antropó- logo da Unicamp e diretor do CEBRAP. Disponível em: <http://cebrap.org.br/v3/index.php?r=noticias/

index&mes=7&ano=2015>. Acesso em: 01 jul. 2015.

19 A entrevista na íntegra está em: <http://cbn.globoradio.globo.com/programas/cbn-rio/2015/06/17/

INTOLERANCIA-RELIGIOSA-E-PRODUTO-DA-IGNORANCIA-AFIRMA-PRESIDENTE-DA-IGREJA- BATISTA-B.htm>. Acesso em: 03 jul. 2015.

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302 Sociologia da religião, pluralismos e intolerâncias: pautas contemporâneas

nacionalistas hindus20 ou no recente atentado da milícia islâmica a cristãos no Quênia que ceifou a vida de cerca de cento e cinquenta cristãos numa universi- dade na cidade de Garissa,21 para citar apenas alguns exemplos.

Na verdade, a chamada intolerância religiosa que se assiste na sociedade bra- sileira - independentemente de sua expansão - acontece em vários outros países com tons e vítimas diversos e pode ser compreendida como uma prática reativa em tempos de discursos sobre direitos humanos nas sociedades pluralizadas.

A narrativa do respeito é também acionada pela avó da menina ao identifi- car nos jovens estudantes da escola judaica experiências comuns:

“A paz que vocês pedem é a mesma que nós pedimos e ela só será concre- tizada quando nos unirmos. Respeitamos o que vocês creem assim como queremos ser respeitados pela nossa crença”. 22

A secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos do Estado do Rio de Janeiro se manifestou por meio da sua titular, Teresa Constantino, que coloca claramente em pauta a questão dos direitos humanos. A secretária enfatiza que todo tipo de discriminação deve ser rejeitado em todos os segmentos e não apenas nos religiosos.23 Nesse caso, o episódio capitaliza também a po- sição política da secretaria fluminense, francamente o estado com maior nú- mero de casos relacionados à intolerância religiosa, conforme a pesquisa feita pelo canal disque-denúncia mencionada na primeira parte deste texto.24 Vale dizer que são dezesseis casos de denúncia no Estado do Rio entre 2011-2014, mas provavelmente nenhum governo estadual queira levantar a faixa que o si- tua no estado com maior número de casos de intolerância, independentemente da eventual fragilidade dos métodos de coleta que sinalizei no início.

A abordagem sobre respeito à diversidade e expansão de direitos emerge também a partir dos atores do judaísmo que passam a compor a cena do episó- dio. Michel Gherman, coordenador do Núcleo de Estudos Judaicos da Universi- dade Federal do Rio de Janeiro, afirma que os alunos necessitam ser informados

20 Episódio ocorrido em Orissa, na Índia, no ano de 2008. Disponível em: <http://in.reuters.com/news/

pictures/cslideshow?sj=200809011203145.js&sn=#a=8>. Acesso em: 22 maio 2015.

21 Cf.: <http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2015/04/1611625-ataque-de-milicia-a-universidade-no-quenia- deixa-15-mortos.shtml>. Acesso em: 22 maio 2015.

22 Cf. em: <http://oglobo.globo.com/sociedade/religiao/menina-apedrejada-apos-festa-de-candomble-recebe- homenagem-de-alunos-de-escola-judaica-16654555>. Acesso em: 25 jun. 2015.

23 Disponível em: <http://www.revistaforum.com.br/blog/2015/06/no-rio-centenas-de-pessoas-se-reunem- em-ato-contra-intolerancia-religiosa/>. Acesso em: 02 jul. 2015.

24 Cf.: <http://www.ebc.com.br/cidadania/2015/06/rio-de-janeiro-e-o-estado-com-mais-casos-de-intolerancia- religiosa>. Acesso em: 18 jun. 2015.

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sobre o “direito à igualdade”. A diretora da escola judaica visitada por Kaylane, Telma Polon, ressalta que o apoio a Kaylane se inscreve numa lógica ou “filoso- fia do colégio” e aproveita a oportunidade para evidenciar alguns ideários que integram a perspectiva do judaísmo, religião minoritária no Brasil.

“Tentamos reforçar sempre essa luta contra a opressão e defender o respeito ao próximo. E o mais legal é que até as crianças entendem esse pensamento e pedem mais atitudes como essa”25.

Esses atores acionam, tanto a ideia de respeito quanto de direitos para justi- ficarem o convite à menina Kaylane. Sendo o judaísmo uma religião cujos adep- tos historicamente foram vitimizados e perseguidos, seus líderes promovem um discurso que o legitima em razão de aproximarem essa religião de outros gru- pos que eventualmente são marginalizados em razão do credo.

Foi a voz da mãe da menina Kaylane que sinalizou uma vez mais a existên- cia de uma espécie de afinidade eletiva entre religiões afro-brasileiras e judaísmo numa conjugação impensada e francamente efetivada pela chave do preconceito comum que vilipendia ambas as tradições. Embora a mídia não tenha dado ao fato o devido destaque, vale informar que a mãe da menina, Karina Coelho, é evangélica, membro da Igreja Pentecostal Assembleia de Deus Vitória em Cristo (ADVEC), a mesma do pastor Silas Malafaia. Assim, em um de seus vídeos no canal Youtube o pastor Silas menciona de forma irônica este fato, afirmando que Karina seria batizada em breve em sua Igreja e isso deveria servir para “calar a boca” dos que acusam de intolerantes a ele e aos membros de sua denominação26. A Assembleia de Deus, denominação com maior número de adeptos no Brasil, ganha mais notoriedade e distinção no caso, não apenas pelas querelas de Silas Malafaia com Boechat, como também pelo fato de que na reescrita do episódio emerge um novo ator que beneficia a posição da igreja em um episódio em que evangélicos em geral são colocados em xeque: a mãe assembleiana de Kaylane.

Voltando ao discurso de Karina Coelho na escola judaica, identificamos o que pode ser concebido como um ponto de ligação entre os adeptos das religi- ões afro-brasileiras e os judeus27.

“Fico muito feliz com essa recepção. Afinal, vocês também são pessoas que sofrem esse tipo de intolerância. É uma pena isso partir de algo lamentável

25 Cf.: <http://www.jb.com.br/rio/noticias/2015/07/03/menina-vitima-de-intolerancia-religiosa-visita-escola- judaica-no-rio/>. Acesso em: 03 jul. 2015.

26 A declaração que acontece nos minutos finais do vídeo. Disponível em: <https://www.youtube.com/

watch?v=dUcSWmRXLrU>. Acesso em: 20 jun. 2015.

27 Não consegui obter informações sobre a denominação a qual pertence.

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304 Sociologia da religião, pluralismos e intolerâncias: pautas contemporâneas que aconteceu com minha filha, mas estamos todos aqui reunidos porque, por mais que sejamos de crenças diferentes, no final das contas, só quere- mos a paz.”28

As dinâmicas da tolerância aqui analisadas parecem não agregar a ideia de re- conhecimento universalista. Seguindo a esteira de Rouanet (2003), mais do que considerar ser a tolerância o ponto mais alto alcançado em nossa “cidadania cos- mopolita” (Kristeva apud Pierucci 1999:163), analiso que o reconhecimento colo- cado numa perspectiva mais universalista lograria mais sucesso em contexto de pluralismo religioso. O reconhecimento das diferenças se consolidaria como uma atitude ativa que não implica na existência de um lugar de superioridade sobre a crença ou a posição do outro diferentemente situado no campo religioso brasileiro.

Embora a chave dos direitos humanos esteja presente nas políticas reflexivas dos atores em jogo, a ideia de respeito parece contemplar muito mais a tolerân- cia do que o reconhecimento. Sergio Rouanet (2003) nos ajuda a situar essas intencionalidades aqui analisadas como um estágio ainda mecânico de conví- vio das diferenças, uma passagem a ser extrapolada para o que seria a atitude de reconhecimento dos princípios, valores e crenças do outro em contexto de diversidade religiosa.

Sociologicamente falando sobre as querelas religiosas no espaço público

Alguns dos embates de Antônio Flávio Pierucci estiveram orientados pelo modo como os sociólogos da religião no Brasil analisavam seus objetos; como se posicionavam, como os escolhiam, como os interpretavam. Ricardo Mariano (2013) nos recorda que Pierucci, além de ter seguido as lições weberianas, ado- tou recomendações de Pierre Bourdieu sobre a incondicional necessidade de objetificação reflexiva que deve conduzir o sociólogo naturalmente a objetificar a própria crença.

Inquietações dessa natureza têm pautado alguns dos meus recentes traba- lhos (Fernandes 2013; 2013a) nos quais defendo não apenas a conjugação das ferramentas de análise de modo criativo e instigante como o exercício de uma certa fidelidade ao campo científico no qual a análise da religião em nossa socie- dade pode ser profícua a partir de nosso “artesanato intelectual”.

Pareceu-me proveitoso ainda lembrar uma velha lição weberiana aqui utili- zada: aquela de que “o indivíduo é também o limite superior e o único portador

28 Disponível em: <http://www.jb.com.br/rio/noticias/2015/07/03/menina-vitima-de-intolerancia-religiosa- visita-escola-judaica-no-rio/>. Acesso em: 03 jul. 2015.

Referências

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