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Sentença da Ação de Reintegração de Posse com pedido liminar Processo n 1105/00 9ª Vara Cível da Comarca de Santo André C O N C L U S Ã O

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Sentença da Ação de Reintegração de Posse com pedido liminar Processo n° 1105/00­ 9ª Vara Cível da Comarca de Santo André C O N C L U S Ã O    Vistos.   1. O pedido de liminar deve ser indeferido. Há no imóvel de  propriedade   das   autoras,   conforme   laudo   pericial   acostado,   mais   de   60  residências, ocupadas por famílias de baixa renda.   Discorrer sobre a posse no atual sistema jurídico brasileiro  significa superar a noção ainda corrente de que ela representa simplesmente  exteriorização da propriedade.  

A   propriedade,   instituto   fruto   da   construção   jurídica   de  séculos,   teve   seu   caráter   de   inviolabilidade   absoluta   associado   às   idéias  individualistas, e mais recentemente, recebeu uma configuração relativizadora,  inspirada   sobretudo   pelo   princípio   da   função   social   da   propriedade,   que  representa um conjunto de limitações ao exercício de tal direito.   A função social da propriedade não pode se restringir a mero  apêndice do direito de propriedade, elemento configurador de seu conteúdo.  Mais que isto, por função social da propriedade há de se entender o princípio  que diz respeito à utilização dos bens, e não à sua titularidade jurídica, ou seja,  sua força normativa se irradia independentemente de quem detenha o título  jurídico de proprietário. Isto  porque são os bens que se sujeitam à função  social,   isto   é,   as   propriedades,   e   não   o   direito   (bens   são   fenômenos   da  realidade, direito é fenômeno intelectual, isto é, do mundo dos pensamentos.  Dar aos bens urna função social significa utilizá­los de determinada forma, o 

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que é fenômeno da realidade e não puramente jurídico. Por isto é que função  social diz mais respeito a quem tenha possibilidade de utilização, do que quem  seja o titular do direito de propriedade).   A função social realiza­se ou não mediante atos concretos  da parte de quem efetivamente tenha disponibilidade física dos bens, ou seja, o  possuidor, considerado em sentido amplo, seja o titular da propriedade ou não,  detenha ou não título jurídico a legitimar a própria posse.   "(...) Bem se vê, destarte, que o princípio da função social diz respeito  mais ao fenômeno possessório que ao direito de propriedade.  Referida função “é mais evidente na posse e muito menos na  propriedade”, observa a doutrina atenta, e daí falar­se em função  social da posse (...)” (ZAVASCKI, Teori Albino. A tutela da posse na  Constituição e no Projeto do Novo Código Civil in A reconstrução do  direito privado (org. COSTA, Judith Martins). São Paulo, Revista dos  Tribunais, 2002, p. 844).  

De   modo   geral,   posse   e   propriedade   convivem   de   modo  harmônico,   em   relação   de   mútua   complementaridade,   refletindo   princípios  constitucionais não excludentes, mas complementares. Direito de propriedade  e função social da propriedade são previstos como direitos fundamentais (CF,  art. 5°, XXII e XXIII) e como princípios da ordem econômica (CF, art. 170, II e  III).   Vistos   em   sua  configuração   abstrata  representam   mandamentos   sem  qualquer antinomia, a merecer a mesma observância.

 

Contudo, não há princípios constitucionais absolutos, o que  bem se evidencia quando, por circunstâncias de um caso concreto mostra­se  impossível   dar   atendimento   pleno   a   dois   princípios   de   mesma   hierarquia.  Nestes casos, outra alternativa não há senão criar solução que resulte em  concordância prática entre eles, o que apenas se viabiliza com uma  visão  relativizadora dos princípios colidentes, ou seja, preconiza­se a limitação de um  ou de ambos em prol de um resultado específico.          Robert Alexy observa que princípios são:

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"(...) mandados de otimização, que se caracterizam porque podem ser  cumpridos em diversos graus  e porque a medida ordenada de seu  cumprimento   depende   não   só   das   possibilidades   práticas,   mas  também das possibilidades jurídicas, sendo certo que o campo das  possibilidades jurídicas está determinado pelos princípios e regras  que operam em sentido contrário (...)" (Derecho y razón práctica, trad.  Manuel Atienza, México­DF, Distribuciones Fontanara, 1993, p. 14).

 

Esta   circunstância   enunciada   pode   ocorrer   entre   os  princípios da função social da propriedade e propriedade. Embora no plano  normativo abstrato sejam complementares e harmônicos, pode ocorrer que em  determinadas  situações concretas  não seja possível o pleno atendimento de  um sem comprometer ainda que parcialmente o outro.

 

Eis exatamente o impasse revelado no caso concreto, em  que os réus estabeleceram no imóvel o que a doutrina tem denominado "posse  qualificada",   isto   é,   a   posse   incrementada   pelo   trabalho   criativo   ou   por  investimentos, no caso, o estabelecimento de moradias. Não se pode deixar de  distinguir tal posse daquela denominada "simples", decorrente do mero poder  de fato exercido sobre a coisa. A posse qualificada tem sido tutelada pelo  legislador   em   muitas   passagens,   como,   por   exemplo,   na   usucapião  constitucional, rural e urbana; na denominada desapropriação judicial (CC, art.  1.228,   §§   4º   e   5º);   ou   ainda   com   a   redução   de   prazos   para   a   usucapião  ordinária e extraordinária, etc.   Em se tratando a medida liminar de decisão proferida em  sede de cognição sumária, em regime de urgência, não se afigura prudente  desde logo optar pela garantia do direito de propriedade frente ao princípio da  função social (da posse e da propriedade, que vem sendo cumprido pelos  réus), notadamente diante dos prejuízos irreparáveis a que se sujeitam os réus,  até porque os prejuízos acarretados aos autores são de bem menor expressão,  lembrando­se que a situação perdura há anos.  

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Não se ignoram as disposições contidas nos arts. 927 e 928  do CPC. Ocorre que oportuna é no presente caso a lição de Fábio Konder  Comparato, em "Direitos e deveres fundamentais em matéria de propriedade",  Revista do Centro de Estudos Judiciários, v. 1, n° 3, p. 97:

 

"(...)   Quem   não   cumpre   a   função   social   da   propriedade   perde   as  garantias, judiciais e extrajudiciais, de proteção da posse, inerentes à  propriedade   (Código   Civil,   art.502),   e   as   ações   possessórias.  As  aplicações   das   normas   do   Código   Civil   e   do   Código   de  Processo  Civil, nunca é demais lembrar, deve ser feita à luz dos mandamentos  constitucionais, e não de modo cego e mecânico, sem atenção às  circunstâncias de cada caso, que podem envolver o descumprimento  de deveres fundamentais (...)" (destaquei).   Por fim, salutar relembrar a decisão que segue:  

"Ação   reivindicatória.   Improcedência.   Área   de   terra   na   posse   de  centenas de famílias há mais de 22 anos. Formação de verdadeiro  bairro, com inúmeros equipamentos urbanos.

 

Função   social   da   propriedade   como   elemento   constitutivo   do   seu  conceito jurídico. Interpretação conforme a Constituição. Inteligência  atual   do   art.524   do   CC.   Ponderação   dos   valores   em   conceito.  Transformação da gleba rural, com perda das qualidades essenciais.  Aplicação dos arts. 77, 78 e 589 do CC. Conseqüências táticas do  desalojamento de centenas, senão milhares, de pessoas, a que não  pode   ser   insensível   o   juiz.   Nulidade   da   sentença   rejeitada   por  unanimidade.   Apelação   desprovida   por   maioria".   (TJRS,   6ª   Câm.  Cível. Recurso: Apelação Cível n° 597.163.518. Relator vencido: João  Pedro Pires Freire. Redator para acórdão: Carlos Alberto Álvaro de  Oliveira. J. 27.12.2000. Comarca de Origem: Caxias do Sul).   Diante de todo o exposto, indefiro o pedido de reintegração  liminar. Em atenção ao contido na substanciosa manifestação do patrono dos  réus, bem como diante da factível possibilidade de acordo (até lembrando que  as   partes   já   informaram   o   estágio   avançado   das   tratativas,   com   propostas  concretas formuladas), designo audiência preliminar para o dia 23 de maio de  2006 às  13:15 horas, após o que, serão apreciadas as preliminares, seja em  sentença ou em decisão saneadora, observando­se o que dispõe o art. 331, §  2°, do CPC.      

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JOSÉ WELLINGTON BEZERRA DA COSTA NETO JUIZ SUBSTITO

Referências

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